O silêncio pairava entre eles como uma névoa densa, preenchida apenas pelo som do vento deslizando pela grama ao redor. Ellie abra?ou os joelhos, olhando para o horizonte. Damien, sentado ao lado dela, observava-a em silêncio.
"Damien," Ellie come?ou, hesitante, "eu já te contei a minha história, e sei que foi pesado, talvez até demais. Mas... por que você me escutou? Por que n?o me julgou como os outros?"
Damien a encarou, seus olhos profundos e negros como um abismo. "Porque eu vejo o que os outros n?o podem. N?o só a escurid?o em você, mas a for?a que ela gerou. Você sobreviveu. A maioria n?o conseguiria."
Ellie riu amargamente, desviando o olhar. "Sobreviver n?o é a mesma coisa que viver. Eu sou uma casca, Damien. Finjo todos os dias para os outros. Para mim mesma. Mas a verdade é que... eu cansei."
Damien foi recebido em silêncio, permitindo que ela desabafasse sem interrup??es. Ele sabia que palavras precipitadas poderiam quebrar a frágil confian?a que ela come?ava a depositar nele.
"Você já amou, Damien?" Ellie disse de repente, olhando para ele. "Já senti algo por alguém, algo que fez você querer continuar, mesmo quando o mundo parecia contra você?"
Ele hesitou, pensando na pergunta. "Eu sou um deus, Ellie. Amar, no sentido humano, n?o é algo que experimentei. Mas já tive la?os, conex?es. Minha m?e, por exemplo... Ela era a luz no meu mundo sombrio. Quando achei que tinha perdido ela , Pensei que nada mais importava. Foi assim que aprendi a me fechar Mas agora, com você... sinto algo diferente, talvez, mas uma compreens?o que nunca tive antes.
Ellie o observou atentamente, absorvendo suas palavras. "Ent?o você entende... o que é perder tudo."
"Um pouco," Damien respondeu, com voz grave. "Mas você ainda está aqui, Ellie. Ainda está lutando, mesmo que diga o contrário. Você quer desistir, mas sua alma ainda clama por algo."
Ela balan?ou a cabe?a, lágrimas escorrendo. "E se n?o houver mais nada? E se tudo que resta para a dor?"
Damien se inclinou para frente, olhando-a nos olhos. "Ellie, a dor n?o define quem você é. Ela molda, mas n?o é tudo. Se você realmente quiser desistir, eu aceito sua decis?o. Mas quero que entenda: desistir n?o significa que a dor desaparece. Ela só muda de forma."
Ellie o estudou, suas lágrimas cessando lentamente. Havia algo em Damien, algo em sua voz, em seus olhos... um peso que ele carregava sem se queixar. Ela sentiu que, pela primeira vez, alguém realmente entendeu.
"Se eu desistir", ela come?ou, com sua voz tremenda, "onde será meu descanso? ????Será no inferno? Aquele lugar onde as almas s?o punidas e sofrem por toda a eternidade?"
Damien ficou em silêncio por um longo momento, pensando. Ele sempre viu o submundo como o destino final, sua opini?o sobre lá era simples, aquela era sua morada. Mas olhando para Ellie, algo dentro dele mudou. O submundo, com suas sombras e frio, n?o parecia digno dela.
"N?o," ele disse finalmente. "Eu n?o quero que você vá para lá. N?o é o lugar certo para você. Seu descanso será comigo. Eu cuidarei de sua alma, Ellie."
Ela o encarou, surpresa. "Você faria isso? Por mim?"
"Sim," Damien respondeu sem hesitar. "Mas isso significa que carregarei tudo o que você é. Suas dores, seus traumas, seus momentos de felicidade... Tudo."
Ellie hesitou. A ideia de se entregar a alguém, completamente, era assustadora, mas ao mesmo tempo, havia uma paz em saber que Damien estava disposto a aceitar tudo dela, sem julgamentos.
Ela se mudou dele, lágrimas nos olhos, mas um sorriso sincero nos lábios. "Você é diferente, Damien. Obrigada... por ser diferente."
Ele abriu os bra?os, permitindo que ela se aproximasse. Quando Ellie o abra?ou, algo profundo aconteceu. Sua alma, repleta de memórias, dores e momentos de beleza, passou para ele. Damien se sentia a cada instante de sua vida como se fosse dele.
Ele viu os momentos de terror na infancia, as lágrimas silenciosas de noites solitárias, mas também os pequenos lampejos de alegria – o som do riso de sua m?e, o calor de um dia ensolarado. Ele sentiu a for?a dela, sua resiliência, e finalmente, sua paz ao ser acolhida por ele.
Quando tudo terminou, Damien ficou na propriedade, segurando o corpo inerte de Ellie. Ele fechou os olhos, sentindo o peso de sua alma dentro dele. E pela primeira vez em mil anos, o deus da morte chorou.
Damien apresentou imóvel sob a luz da lua que iluminava o local onde Ellie descansava. Ele havia criado uma tumba simples, porém serena, para ela — um gesto de respeito por tudo que ela havia suportado. No entanto, sua mente n?o encontrou paz. Um turbilh?o de sentimentos o consumia, sensa??es que ele nunca havia experimentado antes.
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Confus?o. Dor. Empatia.
Ele n?o compreendeu totalmente, mas a intensidade da conex?o com Ellie deixou algo em sua alma, algo que nem mesmo um deus poderia ignorar. Refletindo sobre as memórias que absorveu, ele se viu invadido por fragmentos da vida dela: a luz vibrante de sua alegria reprimida, os sussurros das noites de terror, e o sorriso sincero que lhe dera momentos antes de sua decis?o final.
Um aperto cresceu em seu peito. Era algo novo. Algo cruelmente humano.
Damien clamou-se lentamente, os olhos fixos no horizonte. Ele n?o sabia por quanto tempo havia ficado ali, mas sua introspec??o foi subitamente interrompida por uma lembran?a específica: o homem.
O rosto daquele semideus, torcido pela arrogancia, o olhar cruel que destruiria a vida de Ellie e sua família. Damien viu tudo — as risadas enquanto cometia suas atrocidades, a violência, a maldi??o que ele lan?oua sobre Ellie.
Seus punhos cerraram-se, e uma aura sombria come?ou a emergir de seu corpo. O ar ao seu redor tornou-se denso e frio. As árvores, antes tranquilas, passaram a balan?ar violentamente, como se a própria natureza estivesse reagindo à raiva de Damien.
Ele n?o estava apenas furioso; ele estava decidido.
"Um mero semideus..." Damien murmurou, sua voz baixa, mas carregada de poder. "Ele ousou brincar com a vida de uma humana como se fosse um deus... Ent?o que conhe?a o terror que um verdadeiro deus pode infligir."
O ch?o abaixo dele come?ou a rachar, linhas negras que se espalhavam como veias pela terra. As sombras ao seu redor se erguiam, moldando-se em formas grotescas, como se o próprio submundo estivesse respondendo ao seu chamado. Seus olhos, normalmente neutros, agora brilhavam em um negro profundo, um abismo sem fim.
O silêncio da noite foi rompido pelo som de trov?es distantes, ecoando como uma amea?a que ressoava por todo o mundo mortal.
Damien fechou os olhos por um breve momento, concentrando-se na energia do semideus. Ele havia consumido o suficiente das memórias de Ellie para rastrear a essência daquele homem. Ela o guiaria até ele, mesmo em sua morte.
"N?o há lugar neste mundo ou no além onde possa se esconder de mim."
Quando Damien abriu os olhos novamente, havia uma resolu??o inabalável em seu olhar. Ele estendeu a m?o, e um portal sombrio, pulsante e envolto em chamas negras, come?ou a se formar diante dele. Ele n?o hesitou. Entrou, deixando para trás o local onde Ellie descansava em paz.
Agora, sua única miss?o era uma vingan?a. E ele sabia exatamente como faria aquele semideus pagar por cada gota de sofrimento que causava.
Damien saiu do portal envolto em sombras, pousando silenciosamente em um trecho de onde tinha uma vis?o perfeita do pequeno vilarejo abaixo. O ar era pesado, mas n?o pelo peso da morte ou do submundo que ele costumava carregar consigo — era o peso da farsa da felicidade que ele agora presenciava.
Ele localizou o homem facilmente. ó semideus. Lá estava ele, caminhando de volta para sua casa com uma express?o tranquila no rosto. Ele n?o tinha marcas de culpa, nem vestígios de arrependimento. Pelo contrário, parecia leve, satisfeito.
Damien estreitou os olhos enquanto o guia de longe, movendo-se pelas sombras como presen?a uma invisível. O homem caminhou até uma casa simples, mas acolhedora. Era cercada por flores e iluminada por lamparinas que davam ao lugar uma aparência calorosa. Ele abriu a porta, e uma risada suave ecoou do interior.
Uma mulher. Jovem, bela, sorridente. Ela correu até ele, abra?ando-o com ternura.
E ent?o, um som que Damien n?o esperava ouvir: uma risada infantil.
Uma menina surgiu correndo pelo corredor, seus passos leves e apressados ????enquanto pulava nos bra?os do homem. Uma crian?a, com olhos elegantes e um sorriso inocente, parecia o retrato perfeito da pureza e felicidade.
Damien permanece em silêncio, sua presen?a n?o bloqueada. Ele observou enquanto a pequena família compartilhava momentos que deveriam ser sagrados. O homem estendeu a menina nos bra?os enquanto a mulher preparava algo para eles. Risadas ecoavam pela casa, preenchendo o ambiente com um calor que parecia t?o natural quanto injusto.
A raiva de Damien crescia a cada segundo que passava.
"Isso... é felicidade", ele pensou, o rancor crescendo em sua voz interior. "Uma felicidade que ele roubou de Ellie e de tantos outros. Como ousa viver assim? Como ousa sorrir, enquanto o sofrimento que incomodava se espalhava como uma praga no mundo?"
Ele fechou os olhos, e as memórias de Ellie vieram como uma onda. Ele viu seu pai sendo dilacerado, sua m?e brutalizada e arrancada da vida com crueldade. Viu o bebê que foi deixado para trás, amaldi?oado a carregar o peso das a??es de um homem que agora brincava com sua filha como se fosse um pai amoroso.
Damien abriu os olhos novamente, e eles brilharam com uma escurid?o amea?adora. A hipocrisia ou atingia como uma lamina fria.
"Os mortais..." ele murmurou para si mesmo, a voz transmitida de desprezo. "T?o rápidos em exigir justi?a quando s?o feridos, mas cegos para os próprios crimes. Ele vive como se fosse inocente, como se o sangue que derramou n?o manchasse suas m?os. Como se n?o fosse preocupante. E agora ele tem uma família... uma felicidade que n?o merece."
As árvores ao redor se curvavam sob uma for?a invisível, e a temperatura despencou. Damien respirou fundo, acalmando a fúria que borbulhava em sua essência divina. Ele sabia que ainda n?o era hora de agir. N?o antes de entender completamente a extens?o da hipocrisia deste homem.
Por dias, ele exige.
Viu o homem brincar com sua filha no jardim, rir com sua esposa à mesa, e ajudar os vizinhos com pequenas gentilezas. Ele vivia como um exemplo de virtude, como alguém que deveria ser admirado. Mas Damien sabia uma verdade.
Era essa verdade que o alimentava.
Enquanto o sol se punha no horizonte, banhando a casa em um tom dourado, Damien ficou parado na escurid?o, observando como uma sombra silenciosa. Ele n?o sentiu pressa. Ele tinha toda a eternidade para isso.
Quando a paz finalmente chegar, ele garantiria que aquele semideus compreendesse a profundidade de suas a??es. Que a felicidade que foi construída à custa da destrui??o de outros seria despeda?ada da mesma forma.
"Ele viverá o mesmo terror que imp?s aos outros. Sentirá o peso do desespero que semeou. E quando sua alma finalmente deixar seu corpo, ela sofrerá por toda a eternidade."
Damien fechou os olhos, permitindo que o silêncio da noite envolvesse sua fúria. Amanh?, ele come?aria a paz. Mas por enquanto ele continuaria a observar — para que, quando o momento chegasse, sua justi?a fosse perfeita e impiedosa.