《Herdeiro da morte [Português Brasil]》 De joelhos A sala era silenciosa como um t¨²mulo. No centro, um trono esculpido em obsidiana refletia a luz espectral de milhares de almas que vagavam pelo sal?o do submundo. Sentado nele, Damien encarava a imensid?o ¨¤ sua frente. Seu semblante era sereno, mas seus olhos carregavam um peso que mil anos de hist¨®ria n?o poderia ser explicado. Aos olhos dos mortais, ele seria apenas um jovem de fei??es marcantes, com cabelos negros como a noite e olhos que n?o cont¨ºm o infinito. Mas Damien sabia uma verdade: ele n?o era um jovem comum. Ele era os herdeiros do submundo, o Deus da Morte, destinado a julgar as almas e preservar o equil¨ªbrio entre os mundos. Era isso que ele deveria ser. Mas ele n?o queria. Completara mil anos naquele dia, um marco para qualquer jovem deus, mas a celebra??o apenas refor?ou seu desgosto. Os deuses esperavam que ele assumisse seu lugar ao lado do Hades, governando o submundo com m?os firmes e cora??o de pedra. Pers¨¦fone, sua m?e, sempre o encorajava, dizendo que ele traria equil¨ªbrio, que era especial. Damien, por¨¦m, n?o faz sentido. Ele sentiu que era uma sombra de seus pais, uma pe?a no grande tabuleiro dos deuses, sem controle sobre sua pr¨®pria exist¨ºncia. A morte n?o deveria ser um fardo, pensei ele. E se fosse mais do que isso? E se ele pudesse ser mais? Foi por isso que, naquele dia, ele tomou sua decis?o. "Eu n?o quero mais ser isso." Sua voz ecoou pelo sal?o vazio. Damien extravasou-se de seu trono, deixando para tr¨¢s a imponente cadeira esculpida em obsidiana. Enquanto caminhava pelo pal¨¢cio, seus olhos vasculhavam cada detalhe ao seu redor. O pal¨¢cio de Hades, no topo do submundo, era uma obra-prima sombria. Suas paredes negras reluziam ¨¤ luz de tochas eternas, e colunas decoradas com esculturas de almas dan?avam como sombras ¨¤ medida que ele avan?ava. Era vasto, grandioso, um reflexo de poder absoluto, mas Damien sabia que apenas uma pessoa realmente apreciava tudo aquilo: sua m?e. Hades, por outro lado, considerava o luxo uma distra??o desnecess¨¢ria. Se dependesse dele, viveria num quarto sem janelas, com apenas uma cama dura e um jarro de ¨¢gua. Essa simplicidade, no entanto, n?o foi suficiente para Pers¨¦fone, que transformou o ambiente em algo mais vivo ¨C ou t?o vivo quanto o submundo permitia. Damien esbo?ou um sorriso contido ao lembrar de como sua m?e e seu pai discordavam sobre isso. Apesar de toda a fama de severidade e frieza, Hades se rendeu aos desejos de Pers¨¦fone sem questionar. Era quase engra?ado ver um deus t?o temido ser t?o... humano ao lado dela. Balan?ando a cabe?a, Damien se livrou dos pensamentos. O que ele estava planejando fazer com foco total. Um ¨²nico erro, e correntes invis¨ªveis o prenderiam naquele lugar para sempre. Ele caminhou cont¨ªnuo at¨¦ chegar diante de uma porta giganteca, decorada com relevos que narravam a hist¨®ria do submundo. Ali, atr¨¢s daquela entrada, ficaram o quarto onde Hades e Pers¨¦fone governaram. Um local sagrado, acessado por poucos. Damien parou, respirou fundo e, com um leve empurr?o, abriu as pesadas portas. O som das dobradi?as ecoou pelo sal?o. De um lado, sua m?e, sentada em um trono de m¨¢rmore branco adornado com ramos dourados, ergueu o olhar surpresa. Do outro, seu pai estava em p¨¦ ao lado de seu pr¨®prio trono negro. Os olhos de Hades, profundos como o abismo, fixaram-se em Damien, mas sua express?o permanecia impass¨ªvel, quase indiferente. ¡°Damien, querido,¡± disse Pers¨¦fone, com a voz suave, embora carregada de preocupa??o. ¡°Aconteceu algo? Est¨¢ tudo bem?¡± Hades n?o falou nada, mas j¨¢ havia abandonado o que fazia. Ele apenas o observava, avaliando-o em sil¨ºncio. Damien respirou fundo e respondeu:Unauthorized duplication: this tale has been taken without consent. Report sightings. ¡°Sim, aconteceu algo, mam?e... N?o, rainha do submundo.¡± Ele hesitou por um instante, sentindo o peso do olhar de Hades. As palavras estavam presas em sua garganta, n?o por medo, mas pela preocupa??o de como seus pais reagiriam. Mais importante, se eles o permitiriam prosseguir com seu pedido. Finalmente, ele se ajoelhou. A sala imediatamente se encheu de uma aura sombria, como se a pr¨®pria ess¨ºncia do submundo houvesse despertado. ¡°O que est¨¢ fazendo, Damien?¡± A voz de Hades soou como um trov?o. ¡°Um deus de joelhos? Est¨¢ tentando me envergonhar?¡± Os olhos de Hades ardiam com raiva, mas Damien n?o se moveu. Ele sabia que seu pai odiava submiss?o. Sempre o criara para ser forte, implac¨¢vel, um rei. Mas ali estava ele, ajoelhado diante do Deus dos Mortos. Pers¨¦fone, surpresa, n?o demonstrava raiva. Em vez disso, seus olhos estavam cheios de curiosidade. ¡°Por favor, rei Hades,¡± disse Damien, sua voz firme apesar da posi??o vulner¨¢vel. ¡°Eu tenho um pedido.¡± Hades estreitou os olhos, a aura ao seu redor intensificando-se como uma tempestade prestes a romper. Ele abriu a boca para falar, mas Pers¨¦fone ergueu a m?o, interrompendo-o. ¡°Diga, meu filho,¡± falou ela, sua voz calma, mas firme. Damien levantou o olhar, diretamente para os de seu pai, que agora estavam cheios de um fogo contido. Ele podia sentir o peso do poder de Hades, mas aquilo n?o o intimidava. Na verdade, teve que reprimir um sorriso. Ele sabia que a raiva de seu pai era, na maior parte, fachada ¨C uma li??o disfar?ada. ¡°Deixem-me ir para o mundo dos mortais.¡± O sil¨ºncio que se seguiu parecia quase palp¨¢vel. As sombras do sal?o pararam de se mover, como se o pr¨®prio submundo estivesse aguardando a resposta. Hades fechou os olhos por um momento, respirando fundo antes de responder, sua voz carregada de autoridade: ¡°Voc¨º entende o que est¨¢ pedindo, Damien? Uma vez fora daqui, n?o ser¨¢ tratado como um deus. Ser¨¢ ca?ado, temido, talvez at¨¦ odiado.¡± Damien assentiu, sua determina??o evidente. ¡°Sim, pai. ¨¦ exatamente por isso que preciso ir. Eu preciso entender o que significa viver... longe daqui.¡± Pers¨¦fone se inclinou ligeiramente para frente. ¡°E o que espera encontrar entre os mortais, meu filho? Eles n?o s?o como n¨®s.¡± Damien hesitou, mas ent?o respondeu: ¡°Respostas. Eu n?o quero ser apenas o Deus da Morte. Quero descobrir quem eu sou, al¨¦m do meu destino.¡± Hades abriu os olhos, observando-o com uma express?o mista de aprova??o e frustra??o. Pers¨¦fone trocou um olhar com o marido, e por fim, ambos se voltaram novamente para Damien. ¡°Se essa ¨¦ sua escolha,¡± disse Hades, sua voz carregada de peso, ¡°ent?o v¨¢. Mas lembre-se: o mundo mortal ¨¦ cruel, Damien. Eles n?o o aceitar?o facilmente. E se voc¨º falhar... n?o espere miseric¨®rdia ao retornar.¡± Damien sorriu, finalmente levantando-se. ¡°N?o espero nada, pai. Apenas a oportunidade de tentar.¡± E com essas palavras, ele deixou o sal?o, pronto para enfrentar o desconhecido. Damien caminhava pelas escadarias sombrias do pal¨¢cio, prestes a deixar o submundo pela primeira vez. Apesar de sua determina??o, o peso do momento era ineg¨¢vel. Antes de alcan?ar o portal que o levaria ao mundo mortal, ele ouviu passos leves atr¨¢s de si. Ao se virar, viu Pers¨¦fone, sua m?e, aproximar-se silenciosamente. Seu vestido esvoa?ava suavemente, como se as sombras ao redor a respeitassem, cedendo ¨¤ sua luz natural. "Damien," ela chamou, sua voz suave como o vento da primavera, mas carregada de melancolia. Ele parou e esperou que ela o alcan?asse. Quando o fez, ela estendeu a m?o, tocando gentilmente o rosto dele. ¡°Voc¨º tem certeza disso?¡± Pers¨¦fone perguntou, seus olhos refletindo preocupa??o e tristeza. Damien segurou a m?o dela, sentindo o calor reconfortante que sempre fora seu ref¨²gio. ¡°Eu preciso, m?e. Sei que ¨¦ dif¨ªcil para voc¨º, mas este lugar... eu n?o sinto que perten?o a ele. Talvez, entre os mortais, eu descubra quem realmente sou.¡± Ela suspirou, o olhar ainda fixo no rosto dele. ¡°Voc¨º ¨¦ meu filho, Damien, e isso significa que tem tanto a luz quanto a escurid?o dentro de voc¨º. O mundo mortal ¨¦ perigoso, ainda mais para algu¨¦m como voc¨º. Prometa que tomar¨¢ cuidado.¡± ¡°Prometo.¡± Pers¨¦fone retirou algo de dentro de seu manto, um pequeno pingente em forma de rom?, esculpido em ouro com pedras negras incrustadas. Ela segurou o colar entre os dedos e olhou para ele antes de coloc¨¢-lo no pesco?o de Damien. ¡°Este ¨¦ o meu presente para voc¨º,¡± disse ela. ¡°Este pingente est¨¢ ligado a mim. Sempre que se sentir perdido ou precisar de for?a, lembre-se de quem voc¨º ¨¦ e do quanto ¨¦ amado.¡± Damien segurou o pingente, sentindo uma energia reconfortante irradiando dele. Ele sabia que aquilo n?o era apenas um simples ornamento, mas uma conex?o direta com sua m?e e o submundo. ¡°Obrigado, m?e. Eu... nunca vou esquecer isso.¡± Ele a abra?ou, algo raro entre os dois. Pers¨¦fone, por um momento, segurou-o com for?a, como se n?o quisesse solt¨¢-lo. Quando eles se separaram, ela sorriu, mas seus olhos ainda estavam tristes. ¡°V¨¢, Damien. E n?o olhe para tr¨¢s. Voc¨º precisa trilhar seu pr¨®prio caminho.¡± --- Ao chegar ao portal, Damien encontrou Hades esperando. Ele n?o esperava que seu pai viesse se despedisse, mas ali estava ele, parado com sua postura firme e express?o austera. ¡°Pai,¡± Damien come?ou, sem saber bem o que dizer. Hades extravasou a m?o, silenciando-o. ¡°Voc¨º tomou sua decis?o, Damien, e eu respeito isso. Mas lembre-se de que o mundo mortal ¨¦ cruel. Eles v?o tem¨º-lo, odi¨¢-lo, tentar destru¨ª-lo. Voc¨º precisar¨¢ ser mais forte do que pensa ser.¡± Damien casual, mas antes de atravessar o portal, fez algo que surpreendeu at¨¦ o mesmo. Ele se ajoelhou diante do Hades novamente, mas desta vez n?o como s¨²dito, e sim como um gesto de gratid?o. ¡°Obrigado, pai,¡± disse Damien, mantendo a cabe?a erguida. ¡°Por tudo. Pelas li??es, pela for?a, e por confiar em mim o suficiente para me deixar ir.¡± Hades o olhou com olhos firmes, mas havia algo diferente em sua express?o ¡ª talvez uma centelha de orgulho. Ele colocou a m?o no ombro de Damien, um gesto raro, mas poderoso. ¡°Voc¨º ¨¦ meu filho¡±, disse Hades. ¡°E onde quer que voc¨º esteja, sempre ter¨¢ um lugar neste reino. N?o se esque?a disso.¡± Damien declarou-se, segurando o pingente que Pers¨¦fone lhe dera e sentindo o peso da m?o de Hades em seu ombro como uma vit¨®ria sinalizada. Sem mais palavras, ele se virou e atravessou o portal. Ao cruz¨¢-lo, senti o calor do sol pela primeira vez em cem anos. O mundo mortal estava diante dele, vibrante e vivo. Ele se comprometeu profundamente, pronto para enfrentar o desconhecido. ¡°Este ¨¦ apenas o come?o¡±, murmurou para si mesmo, com um leve sorriso. "Hora de descobrir quem eu realmente sou." Mundo mortal Damien emergiu na superf¨ªcie do mundo mortal ao entardecer, quando o c¨¦u se tingia de laranja e as primeiras sombras da noite come?aram a se estender pelas ruas. Ele apareceu em um beco deserto, longe de olhares curiosos, como era seguro para algu¨¦m que desejava passar desesperado. Vestindo roupas simples que contrastavam com sua presen?a majestosa, ele inspirava o mundo ao seu redor, absorvendo cada detalhe com uma mistura de fasc¨ªnio e estranheza. O ar era diferente ali ¡ª menos denso, mais v¨ªvido. O barulho constante das vozes, das risadas e dos ve¨ªculos parecia ecoar de todos os lados, uma cacofonia que ele ainda n?o sabia como interpretar. Ele caminhou pelas ruas movimentadas, atraindo olhares ocasionais por sua apar¨ºncia p¨¢lida e aura misteriosa. Mas, para a maioria das pessoas, ele era apenas mais um entre tantos. Damien analisou tudo. A pressa com que os humanos se moviam, a forma como gesticulavam e riam, como se cada momento fosse precioso demais para ser desperdi?ado. ¡°Eles vivem como se o amanh? fosse incerto¡±, ele refletiu, passando os olhos pelas multid?es. Para ele, que vivia no eterno sil¨ºncio do submundo, esse mundo parecia ca¨®tico e desorganizado, mas havia algo profundamente cativante nesse caos. Enquanto caminhava, Damien viu um grupo de crian?as brincando em uma pra?a pr¨®xima. Suas risadas ecoavam pelo ar, e a pureza de suas a??es contrastava com a seriedade e o peso que ele carregava desde sempre. Ele parou por um momento, observando. "Eles s?o fr¨¢geis", pensou, "mas ¨¦ exatamente essa fragilidade que os torna t?o... intensos." Mais adiante, ele notou um homem idoso sentado em um banco, alimentando pombos. Havia calma em seus gestos, mas seus olhos carregavam hist¨®rias que Damien n?o precisava ouvir para entender. Ele sabia como a mortalidade moldava as pessoas. Ela criou uma urg¨ºncia que, para ele, era fascinante e estranha. "Eles correm contra o tempo, como se pudesse derrot¨¢-lo. Mas, no fim, todos chegam at¨¦ mim", ele ponderou, enquanto seguia seu caminho. --- Conforme Damien vagava, come?ou a perceber algo mais profundo no tecido do mundo mortal. Havia camadas ali, for?as que mantinham a ordem e, ao mesmo tempo, criavam complexas. Humanos, semideuses e aqueles que passaram a chamar de "aben?oados" coexistiam, mas nunca em plena harmonia. Os semideuses, com sua for?a e habilidades profissionais, eram vistos como her¨®is ou amea?as. Eles protegeram cidades, lideraram ex¨¦rcitos, ou, em alguns casos, causaram destrui??o. Suas a??es eram sempre marcantes, e eles pareciam despercebidos. Para Damien, os semideuses representavam o lado mais evidente da influ¨ºncia divina no mundo. Os aben?oados, por outro lado, eram diferentes. Eles n?o tinham a for?a ou o poder dos semideuses, mas carregavam algo ¨²nico: fragmentos do poder divino. Ele notou um jovem entregador que, com uma velocidade quase sobre-humana, passava por ele na cal?ada. Em outra ocasi?o, viu uma mulher que parecia acalmar uma multid?o apenas com sua voz suave, uma habilidade claramente fora do comum. Esses humanos, embora n?o fossem semideuses, eram especiais. Eles carregavam a marca de deuses que haviam escolhido aben?o¨¢-los. Mas Damien tamb¨¦m percebeu o peso que essas pessoas carregavam. Seus poderes, mesmo que pequenos, os isolavam dos outros, tornando-os alvo de inveja e medo. "Eles s?o um lembrete de que os deuses nunca deixam de influenciar este mundo," pensou Damien. --- Enquanto a noite ca¨ªa, Damien parou em frente a uma grande est¨¢tua no centro de uma pra?a. Era uma representa??o de Zeus, com raios na m?o e uma express?o severa. Ao redor da pra?a, pequenos altares para outros deuses eram adornados com flores, moedas e alimentos. Humanos ainda faziam oferendas, s¨¦culos depois de os deuses terem se retirado para suas esferas. "Eles n?o esqueceram," ele percebeu. "Os deuses ainda vivem aqui, mesmo que em sombras e s¨ªmbolos." Damien sentou-se em um banco pr¨®ximo e observou a pra?a em sil¨ºncio. Ele viu humanos normais apressados, aben?oados tentando esconder suas habilidades, e semideuses andando com uma postura que transbordava confian?a. Todos eles eram reflexos de algo maior, partes de um mundo que ele mal come?ava a compreender.If you stumble upon this tale on Amazon, it''s taken without the author''s consent. Report it. "Este mundo ¨¦ um equil¨ªbrio fr¨¢gil," concluiu Damien. "Mas ¨¦ nesse equil¨ªbrio que reside sua for?a... e talvez as respostas que eu procuro." Ele olhou para o pingente em forma de rom? que carregava no pesco?o, um presente de sua m?e, e o segurou com firmeza. Ali, no cora??o do mundo mortal, ele decidiu que encontraria seu pr¨®prio caminho, mesmo que tivesse que desafiar tudo o que conhecia. A noite j¨¢ havia se estabelecido completamente, envolvendo a cidade em uma mistura de escurid?o e luzes artificiais. O ambiente parecia ganhar uma nova vida, e Damien n?o p?de deixar de notar como as pessoas mudavam suas atitudes ¨¤ medida que o sol desaparecia. Caminhando pelas ruas iluminadas por n¨¦ons, ele avistou um grupo de pessoas reunidas. Todas vestiam roupas extravagantes e brilhantes, com os rostos pintados de formas curiosas. O contraste entre o mundo sombrio do submundo e aquela explos?o de cores era quase demais para ele. Damien franziu a testa. Aquilo era... estranho. Ele nunca havia presenciado algo parecido em sua exist¨ºncia. No submundo, tudo era s¨®brio, grave, e regido por uma l¨®gica imut¨¢vel. Mas aqui, tudo parecia vibrar de uma maneira que beirava o caos. As luzes piscantes e as cores intensas come?avam a deix¨¢-lo levemente atordoado. Era como se o ambiente estivesse desafiando seus sentidos, provocando-o a entender algo que ainda escapava ¨¤ sua compreens?o. No entanto, algo naquele grupo capturou sua aten??o de forma quase instintiva. --- Damien possu¨ªa uma habilidade ¨²nica: ele podia enxergar as almas de todos os seres vivos ¡ª e at¨¦ mesmo os mortos. Para ele, as almas eram mais do que simples manifesta??es espirituais. Elas eram a ess¨ºncia de tudo, o fio que conectava o corpo f¨ªsico ao universo. Mais do que isso, Damien era capaz de ver o destino dessas almas, incluindo o momento em que a morte inevitavelmente as reclamaria. Enquanto seus olhos percorreram o grupo colorido, ele parou ao notar algo que n?o fazia sentido. Entre as pessoas risonhas e pintadas, havia uma mulher jovem, vibrante, sorrindo como se o mundo inteiro fosse um palco feito para ela. Mas sua alma... A alma daquela mulher n?o brilhava como as outras. Ela n?o pulsava com a energia vital que ele havia aprendido a reconhecer em todos os vivos. N?o, a alma dela era escura, morta. Damien estreitou os olhos, intrigado. Como isso era poss¨ªvel? Para ele, o corpo f¨ªsico era apenas uma casca que abrigava a alma, um recept¨¢culo que dependia dela para funcionar. Quando a alma morria, o corpo a seguia ¡ª era a ordem natural das coisas. Mas ali estava aquela mulher, t?o cheia de vida em apar¨ºncia, com uma alma que j¨¢ n?o existia. Ele observou cada movimento dela, buscando alguma resposta. Sua risada era leve, seus passos cheios de energia, mas aquela aus¨ºncia na alma era um grito silencioso que Damien n?o podia ignorar. "Um corpo vivo sustentado por uma alma morta... isso vai contra tudo o que eu conhe?o," pensou ele, o olhar fixo na mulher. A perplexidade deu lugar a um fasc¨ªnio sombrio. Ele sabia que precisava entender o que estava acontecendo. Afinal, no mundo mortal, tudo parecia ter regras pr¨®prias ¡ª regras que talvez at¨¦ ele, um deus, ainda n?o compreendia totalmente. Aproximando-se cada vez mais do grupo, Damien manteve os olhos fixos na mulher que o intrigava. Ele analisava suas caracter¨ªsticas com cuidado: pele clara, olhos brilhantes e cabelos tingidos de loiro. Ela era baixa, mas usava plataformas que lhe davam uma altura artificial. Estava adornada com uma variedade de acess¨®rios que, para Damien, pareciam completamente desnecess¨¢rios. "Por que ela usa essas coisas?" ele se perguntou, franzindo a testa. Mas ent?o lembrou-se de sua m?e, que decorava o pal¨¢cio com os objetos mais extravagantes s¨® porque os achava bonitos. Esse pensamento fez o colar que ele carregava, o presente de Pers¨¦fone, brilhar suavemente por um instante. Ao notar o brilho, Damien abriu um pequeno sorriso, um gesto raro e quase impercept¨ªvel, mas genu¨ªno. Nesse momento, ele j¨¢ estava pr¨®ximo o suficiente do grupo para ser notado. Ainda com os olhos fixos na mulher, ele parou ao ouvir uma voz feminina e sussurrante vinda do grupo: ¡ª Ei, amiga, olha aquele bonit?o sorrindo pra voc¨º. Parece que hoje ¨¦ o seu dia. A mulher virou-se na dire??o dele, curiosa, e seus olhos encontraram os de Damien. Ele j¨¢ havia parado de sorrir, mas, para sua surpresa, agora era ela quem sorria. Com um gesto confiante, ela acenou para que ele se aproximasse. Damien, intrigado e curioso, n?o hesitou. Ele se infiltrou entre o grupo, posicionando-se diante dela, o olhar firme, quase inabal¨¢vel. ¡ª Eu me chamo Damien. ¨¦ um prazer. Qual ¨¦ o seu nome? ¡ª ele perguntou com sua voz grave, por¨¦m gentil. O sorriso dela permaneceu, e sem aviso, ela se aproximou repentinamente, inclinando-se em dire??o ao ouvido dele. Damien podia ter impedido aquele gesto, mas n?o sentiu amea?a alguma vindo dela. Al¨¦m disso, sua curiosidade o impedia de recuar. ¡ª O que voc¨º disse? ¡ª perguntou ela, quase gritando devido ao barulho ao redor. Damien percebeu que estavam em uma fila para entrar em algum lugar extremamente ruidoso, provavelmente um bar ou casa noturna. Para ele, o som n?o era problema; seus sentidos divinos eram muito mais agu?ados. Mas, para ela, uma simples mortal, o ru¨ªdo parecia tornar qualquer comunica??o um desafio. Com um suspiro breve, ele imitou o gesto dela. Inclinando-se para seu ouvido, respondeu com clareza: ¡ª Seu nome. Eu perguntei o seu nome. Ela riu, inclinando-se para tr¨¢s e olhando diretamente para ele, o brilho nos olhos dela ainda mais intenso. Damien permaneceu s¨¦rio, mas havia algo sobre aquela mulher que come?ava a capturar sua aten??o de um jeito que ele n?o podia ignorar. Por tr¨¢s do sorriso e da atitude descontra¨ªda, aquela alma morta ainda pairava como um mist¨¦rio que ele precisava desvendar. Aproximando-se, a mulher respondeu com um sorriso no rosto: ¡ª Eu me chamo Ellie. E voc¨º? Damien franziu a testa, ligeiramente incomodado. Ele nunca foi muito soci¨¢vel, e em poucos segundos j¨¢ havia sido for?ado a repetir algo duas vezes. Ele n?o era do tipo que gostava de gastar palavras desnecessariamente. ¡ª Eu me chamo Damien. Que tipo de lugar ¨¦ esse? ¡ª perguntou diretamente, com um tom firme. Damien tinha conhecimento profundo sobre os humanos; seus mil anos de exist¨ºncia n?o foram vividos em v?o. Ele passara muito tempo observando e aprendendo sobre eles, mas nunca havia ouvido falar de algo como aquilo. Ellie arqueou uma sobrancelha, visivelmente intrigada com a pergunta. ¡ª Voc¨º n?o sabe o que ¨¦ uma boate? "Entendo, ent?o ¨¦ assim que chamam," pensou Damien, enquanto assentia em resposta. A confus?o de Ellie aumentou, mas logo foi substitu¨ªda por um sorriso travesso. ¡ª Por acaso voc¨º viveu em uma caverna isolada? Damien franziu a testa, sua express?o ficando ainda mais s¨¦ria. ¡ª Voc¨º est¨¢ certa. Como soube? O tom s¨¦rio de Damien pegou Ellie de surpresa. Ela piscou, confusa, antes de explodir em uma risada genu¨ªna. ¡ª Deuses, como voc¨º ¨¦ engra?ado, Damien! Damien observou a mulher sem compreender o motivo do riso. Ele n?o tinha inten??o de ser engra?ado, mas algo em sua resposta pareceu entret¨º-la. Sem aviso, Ellie segurou a m?o dele e o puxou para dentro do pr¨¦dio barulhento. ¡ª Vamos, voc¨º precisa ver por si mesmo. Damien n?o resistiu. A curiosidade pulsava em suas veias como uma segunda natureza, e sua busca por respostas era mais importante do que qualquer desconforto. Ele deixou-se levar, entrando no ambiente vibrante e ca¨®tico da boate, onde as luzes piscantes e a m¨²sica alta desafiavam todos os seus sentidos. "Talvez aqui eu encontre al guma pista sobre essa alma morta", pensou ele, enquanto cruzava a entrada, mantendo os olhos atentos em Ellie e n?o que viria a seguir. Mè°©scara quebrada O ambiente dentro da boate era... ca¨®tico, pelo menos aos olhos de Damien. As pessoas se moviam de formas estranhas, algumas pulando desordenadamente, outras trocando gestos de afeto em meio ¨¤ multid?o. Para ele, aquilo era um espet¨¢culo incompreens¨ªvel. Era tudo barulhento, brilhante e desconexo demais, algo que jamais teria presenciado no submundo. Ele mal havia chegado ao mundo mortal, mas j¨¢ tinha uma certeza clara: os humanos eram criaturas fascinantemente estranhas. Damien fechou os olhos por um breve momento, concentrando-se em sua habilidade de observar as almas ao seu redor. Em meio misturada dan?ante, ele viu uma torrente de emo??es ¡ª divers?o, tristeza, solid?o, mal¨ªcia e, em alguns casos, um leve tra?o de amor... ou talvez apenas lux¨²ria mascarada. Ainda assim, nada disso o surpreendeu. Esses sentimentos faziam parte da ess¨ºncia dos mortais, afinal. Ele suspirou, cansado de estudar a confus?o ao redor, e voltou sua aten??o para Ellie, que segurava sua m?o, liderando por um caminho que parecia levar a um local mais reservado. Damien estreitou os olhos, analisando novamente a alma dela. Era ali que sua curiosidade despertava ainda mais. "Nada." N?o havia nada al¨¦m de uma escurid?o impenetr¨¢vel. Ele n?o via qualquer emo??o. Nenhuma alegria sincera, nenhuma tristeza reprimida, nenhum resqu¨ªcio de dor ou prazer. Apenas um vazio absoluto. Mas l¨¢ estava ela, sorrindo com vivacidade, exalando felicidade para os amigos e at¨¦ mesmo para ele. Como ela conseguiu esconder t?o bem o vazio de sua alma? Ellie viu o olhar fixo de Damien e abriu um sorriso travesso, quebrando o sil¨ºncio: ¡ª O qu¨º? Ela fez uma pausa, olhando para as m?os de ambos antes de adicionar com um tom provocativo: ¡ª Ah... entendi. Deve ser a primeira vez segurando a m?o de uma mulher, n?o ¨¦? Damien abaixou os olhos para suas m?os entrela?adas, mas sua express?o curiosamente. ¡ª Voc¨º ¨¦ algum tipo de or¨¢culo ou algo assim? A pergunta o surpreendeu tanto quanto a ela, que explodiu em risadas. Damien inclinou a cabe?a, observando-a atentamente. Ele n?o conseguiu entender por que ela achou tudo t?o engra?ado. "O que h¨¢ de t?o c?mico em mim hoje?", ele pensou, frustrado. Balan?ando a cabe?a, como quem deixa de lado a d¨²vida, Damien deu um passo mais perto de Ellie e perguntou com calma: ¡ª Ellie, voc¨º est¨¢ bem? As risadas dela cessaram abruptamente. Seus olhos, antes cheios de mal¨ªcia brincalhona, tornaram-se curiosos, como se esperassem outra piada. ¡ª Claro que estou. Por que pergunta? Damien manteve a voz firme, mas algo em seu tom carregava a gravidade de um julgamento final: ¡ª Porque, aos olhos de todos aqui, voc¨º parece radiante e feliz. Mas aos meus... n?o ¨¦ nada disso que vejo. Tudo o que vejo em voc¨º ¨¦... escurid?o. A express?o de Ellie mudou instantaneamente. Seus olhos se arregalaram e seu sorriso morreu, como uma chama sufocada. Por um breve momento, ela parecia vulner¨¢vel, desarmada. A m¨¢scara que carregava com tanto cuidado havia sido quebrada por um estranho. Damien ficou parado, observando. Ele sabia que essa era a rea??o natural de algu¨¦m que tinha seus segredos expostos. E ainda assim, ele n?o recuou. Por longos segundos, Ellie o encarou em sil¨ºncio, sem dizer nada. O som ensurdecedor da m¨²sica e das pessoas ao redor parecia agora distante, quase inexistente. Sem aviso, ela o puxou pela m?o novamente, afastando-o do tumulto. ¡ª Para onde est¨¢ me levando dessa vez? ¡ª Damien perguntou, sua voz carregada de curiosidade genu¨ªna. Dessa vez, Ellie respondeu sem hesitar, mas sua voz era quase um sussurro desesperado: ¡ª Apenas me siga... por favor. O tom dela fez Damien arquear uma sobrancelha. Ele sentiu que havia algo mais profundo por tr¨¢s daquele pedido, algo que ela n?o estava pronta para revelar. Ele permitiu que ela o conduzisse, seus olhos fixos nas costas da mulher que agora parecia estar fugindo de algo ¡ª talvez de si mesma. Ellie guiou Damien por um caminho sinuoso, afastando-se da confus?o e da intensidade da boate. Conforme se distanciavam, o som ensurdecedor da m¨²sica foi gradualmente substitu¨ªdo pelo sil¨ºncio tranquilo da noite. O ar ao redor tornou-se mais fresco, carregando consigo o aroma de grama ¨²mida e flores silvestres. Ap¨®s alguns minutos de caminhada, eles chegaram a um pequeno parque escondido entre os pr¨¦dios da cidade. Era um espa?o sereno, quase esquecido pelo ritmo fren¨¦tico ao redor. O lugar parecia m¨¢gico de t?o calmo, como se pertencesse a uma realidade paralela. Um lago cristalino ocupava o centro do parque, refletindo o brilho p¨¢lido da lua cheia. Ao redor do lago, ¨¢rvores robustas estendiam seus galhos como guardi?s silenciosas, e algumas flores noturnas desabrochavam, exalando um perfume suave. Havia bancos de madeira simples ao longo da margem, posicionados estrategicamente para que os visitantes pudessem contemplar a beleza da ¨¢gua e do c¨¦u estrelado.The tale has been stolen; if detected on Amazon, report the violation. Ellie finalmente parou, soltando a m?o de Damien e deixando escapar um suspiro. Ela caminhou at¨¦ a margem do lago e sentou-se na grama macia, abra?ando os pr¨®prios joelhos. Damien permaneceu de p¨¦ por um momento, estudando o ambiente ao seu redor. Era diferente de qualquer lugar que j¨¢ tivesse visto. O submundo era sombrio e opressivo, enquanto esse lugar era calmo, vibrante e cheio de vida. A luz da lua, refletida no lago, parecia quase acolhedora, algo que ele n?o estava acostumado a sentir. Depois de alguns segundos, ele caminhou at¨¦ Ellie e sentou-se ao seu lado, mantendo uma distancia respeitosa. ¡ª Esse lugar... ¨¦ estranho. ¡ª Damien quebrou o sil¨ºncio, observando a ¨¢gua. ¡ª N?o ¨¦ como o resto da cidade. Ellie sorriu de canto, sem tirar os olhos do lago. ¡ª Eu costumava vir aqui quando era crian?a. ¨¦ um dos poucos lugares que ainda me fazem sentir... em paz. Damien arqueou uma sobrancelha, intrigado. ¡ª Paz? Parece algo que os humanos buscam, mas raramente encontram. Ela riu suavemente, mas havia um toque de melancolia em sua risada. ¡ª Voc¨º tem raz?o. Paz ¨¦ algo raro. Mas aqui... por um momento, eu consigo esquecer o resto do mundo. Damien observou Ellie mais de perto. Seu sorriso era pequeno, quase triste, e ela parecia mais vulner¨¢vel ali, longe das luzes e do barulho da boate. Pela primeira vez, ele viu algo diferente em seus olhos. N?o era escurid?o pura como antes, mas um tra?o de nostalgia, talvez at¨¦ arrependimento. ¡ª Por que voc¨º me trouxe aqui? ¡ª ele perguntou, sua voz baixa e direta. Ellie demorou alguns instantes para responder. Ela jogou uma pequena pedra no lago, observando as ondula??es na ¨¢gua antes de falar: ¡ª Porque voc¨º viu atrav¨¦s de mim. E achei que voc¨º merecia ver a parte de mim que nem todos enxergam. Damien n?o respondeu imediatamente. Ele olhou para o lago, as ondula??es se dissipando lentamente, e se perguntou se aquela mulher tinha mais a esconder do que ele inicialmente imaginara. O sil¨ºncio entre eles n?o era desconfort¨¢vel. Era um sil¨ºncio que carregava peso, como se as palavras n?o fossem necess¨¢rias naquele momento. O brilho da lua iluminava o lago, enquanto um vento suave fazia as folhas das ¨¢rvores sussurrarem. Damien inclinou-se para tr¨¢s, apoiando-se nos bra?os enquanto continuava observando a paisagem. Pela primeira vez desde que deixara o submundo, ele sentiu algo pr¨®ximo de tranquilidade. Talvez os humanos fossem realmente estranhos, mas, naquele lugar, havia algo que ele n?o podia negar: uma beleza genu¨ªna e ef¨ºmera que nunca teria encontrado em sua antiga casa. Ellie o observou por um momento, seus olhos carregando uma dor profunda. Ent?o, quebrou o sil¨ºncio com uma voz carregada de tristeza e ang¨²stia. "Voc¨º estaria disposto a ouvir minha hist¨®ria? ¨¦ a ¨²nica forma que tenho de responder ao que voc¨º disse antes." Damien a encarou, seus olhos intensos cravados nos dela. Ajustando sua postura, ele respondeu sem hesitar: "Sim, estou disposto." Ao ver a seriedade nos olhos dele, Ellie esbo?ou um sorriso t¨ªmido, o primeiro sorriso genu¨ªno que havia dado em muito tempo. "Minha hist¨®ria come?a antes mesmo de eu nascer..." Ela come?ou, sua voz agora mais baixa, como se cada palavra pesasse em sua alma. "Minha m?e era uma mulher incrivelmente bela. N?o era s¨® sua apar¨ºncia; havia algo nela que atra¨ªa as pessoas - for?a, coragem, um brilho que parecia vir de dentro. Homens a admiravam e a cortejavam em todos os momentos, mas ela lidava com isso com gra?a e firmeza, nunca se deixando abalar." Ellie fez uma pausa, seus olhos se perdendo na mem¨®ria. "Mas ent?o ela conheceu algu¨¦m diferente, um semideus. Ele era encantador ¨¤ sua maneira, mas havia algo obscuro nele, uma obsess?o. Ele a desejava de forma doentia, tentando conquist¨¢-la a qualquer custo. S¨® que minha m?e... minha m?e j¨¢ tinha dado seu cora??o a outro homem meu pai. Ele era um homem comum, mas para ela era tudo. Juntos, constru¨ªram um amor que n?o precisava de divindades ou poderes, apenas de respeito e lealdade." A voz de Ellie come?ou a vacilar. "Quando o semideus descobriu que minha m?e estava gr¨¢vida do homem que ela amava, ele ficou furioso. A obsess?o dele virou algo monstruoso. Minha m?e e meu pai tentaram de tudo para se proteger. Buscaram ajuda at¨¦ de outros semideuses, mas o pre?o que cobraram foi alto demais, e ainda assim, n?o foi suficiente." Ela respirou fundo, como se reunir for?as para continuar fosse uma batalha interna. "Meses se passaram, e eu finalmente nasci. Era para ser um momento de felicidade, de renova??o, mas foi a¨ª que eles baixaram a guarda. Foi quando ele nos encontrou. O semideus n?o era apenas poderoso, ele era cruel al¨¦m do que palavras podem descrever." Ellie apertou as m?os, a raiva e a dor transparecendo em sua express?o. "Ele matou meu pai na nossa frente, de forma lenta e brutal, fazendo quest?o de prolongar o sofrimento dele. Mas com minha m?e... ele foi ainda pior. Ela, que sempre foi t?o forte, t?o determinada, enfrentou horrores que ningu¨¦m deveria enfrentar. Ele destruiu sua beleza, arrancou seus dentes com socos, quebrou seu esp¨ªrito com palavras e atos. Ele a violentou, f¨ªsica e emocionalmente, por tr¨ºs dias seguidos. Ela lutou, Damien. Mesmo em meio ¨¤ dor, ela tentou proteger o que restava de sua dignidade. Mas ele n?o parou at¨¦ arrancar tudo dela." As l¨¢grimas come?aram a escorrer pelo rosto de Ellie, mas sua voz, embora embargada, continuou firme. "E ent?o, quando finalmente se cansou dela, ele a matou. Cortou a cabe?a da mulher mais forte que eu j¨¢ conheci, que n?o merecia nada do que ele fez. Ela morreu desfigurada, mas ainda assim era minha m?e. Minha hero¨ªna." Ela fez uma pausa longa, enxugando as l¨¢grimas, mas outras imediatamente tomaram o lugar das que secaram. "E quanto a mim? Ele me poupou. Um ato de miseric¨®rdia, voc¨º diria? N?o. Ele me deixou viva com uma maldi??o, correntes invis¨ªveis que me amarram a ele. Essa maldi??o me faz lembrar de tudo. Eu era apenas um beb¨º, mas cada grito, cada l¨¢grima, cada detalhe daquele dia est¨¢ gravado na minha mente. Um peso que nunca me deixa respirar em paz." Ellie olhou para Damien por um momento, tentando recompor-se. "Desculpe, n?o sei por que estou contando tudo isso para um estranho. Talvez porque voc¨º seja bonito demais para ignorar." Ela sorriu, um sorriso frustrado, enquanto mais l¨¢grimas escapavam. Damien a observou em sil¨ºncio, seus olhos inabal¨¢veis, esperando que ela continuasse. Ellie notou, e pareceu reunir mais for?as para concluir. "O semideus roubou tudo de mim, Damien. Minha fam¨ªlia, minha felicidade, minha liberdade. N?o consigo sentir alegria, nem com aquelas pessoas que chamam a si mesmas de meus amigos. Tudo o que fa?o ¨¦ fingir. Fingir que estou bem, que sou algu¨¦m radiante e feliz. Mas por dentro... n?o existe nada. Apenas uma escurid?o que eu nunca consegui escapar." Ao terminar, sua voz quebrou de vez. Ellie abaixou a cabe?a, limpando as l¨¢grimas novamente, como se estivesse envergonhada por mostrar tanta vulnerabilidade. Damien continuou im¨®vel, processando cada palavra que ela disse. Ele estava prestes a expressar sua curiosidade em cima dela, por¨¦m seu pingente brilhou sutilmente, fazendo-o mudar de ideia. Dentro dele, algo havia se mexido. Talvez fosse compaix?o. Talvez fosse admira??o pela for?a que ela ainda possu¨ªa, mesmo que escondida sob a dor. "Ellie," ele disse, finalmente, sua voz firme e calma, "voc¨º sobreviveu. Isso j¨¢ faz de voc¨º algu¨¦m extraordin¨¢rio.¡± Damien permaneceu em sil¨ºncio por um momento, os olhos fixos em Ellie, como se enxergasse al¨¦m de sua carne e ossos, al¨¦m da dor que ela carregava. Quando ele finalmente falou, sua voz era baixa, mas carregava um peso avassalador, como o eco de um trov?o distante. "Ellie," ele come?ou, cada palavra parecendo vibrar no ar ao seu redor, "voc¨º me contou uma hist¨®ria de dor, perda e injusti?a. Mas h¨¢ algo que precisa saber. Eu n?o sou apenas um estranho que cruzou o seu caminho. Eu sou Damien, o Deus da Morte... e da Vida." Ao pronunciar essas palavras, o ambiente ao redor deles mudou. O mundo parecia parar. O vento cessou, as ¨¢rvores ficaram im¨®veis, e o ar ficou denso, como se a pr¨®pria natureza reconhecesse a presen?a de algo imensur¨¢vel. Damien deu um passo ¨¤ frente, e em sua m?o materializou-se um objeto singular: um pequeno c¨¢lice feito de um metal negro, adornado com runas vivas que brilhavam em tons ora dourados, ora prateados. "Voc¨º est¨¢ diante de uma escolha, Ellie. E como o deus que rege o fim e o renascimento, eu lhe concedo o poder de decidir o que vem a seguir." Ellie o olhou, os olhos arregalados pela surpresa. Mas havia algo em sua presen?a que a impedia de question¨¢-lo. Era como se cada palavra que ele dissesse fosse incontest¨¢vel, a pr¨®pria verdade do universo. Damien ergueu o c¨¢lice, sua voz se tornando ainda mais grave e reverberante. "Este c¨¢lice cont¨¦m dois destinos. Um ¨¦ a morte definitiva. Se voc¨º beber deste lado..." Ele girou o c¨¢lice, e as runas douradas come?aram a brilhar intensamente. "Seu sofrimento acabar¨¢. A dor, a escurid?o, a maldi??o ¨C tudo ser¨¢ silenciado. Voc¨º ser¨¢ libertada de sua exist¨ºncia atormentada." Ele fez uma pausa, seus olhos sombrios cravados nos dela, antes de girar o c¨¢lice novamente. Agora as runas prateadas pulsavam com uma luz suave. "Mas, se beber deste lado, voc¨º renascer¨¢. N?o como a Ellie de agora, mas como uma nova vers?o de si mesma, com um prop¨®sito. Suas correntes ser?o quebradas, mas exigir¨¢ isso¨¢ de voc¨º algo que muitos n?o t¨ºm: coragem para enfrentar a dor e transform¨¢-la em for?a." Ellie engoliu em seco, sentindo a gravidade da escolha. Sua mente era um turbilh?o. As palavras de Damien, a dele presen?a, tudo parecia surreal, mas ao mesmo tempo... absolutamente real. "Por que... por que voc¨º est¨¢ fazendo isso por mim?" ela disse, sua voz quase um sussurro. Damien inclinou a cabe?a, o c¨¢lice ainda seguro em sua m?o, sua express?o t?o neutra quanto a pr¨®pria morte. "Porque eu vejo algo em voc¨º, Ellie. Voc¨º ¨¦ mais do que a dor que carrega, mais do que o sofrimento que sofreu. Mas se quiser desistir, eu n?o a julgarei. Meu papel n?o ¨¦ decidir por voc¨º, mas-lhe a escolha que poucos t¨ºm: o poder sobre seu pr¨®prio destino." Ellie olhou para a c¨¢lice, suas m?os tremendas. As palavras de Damien ecoavam em sua mente. Morte definitiva ou renascimento? Fim ou um novo come?o? Ela sentiu as l¨¢grimas retornarem, mas dessa vez, n?o eram apenas de tristeza. Eram de medo... e de esperan?a. "Eu... eu n?o sei o que escolher", ela murmurou, uma voz fraca. Damien deu um passo ¨¤ frente, aproximando o c¨¢lice dela, sua voz mais suave agora. "N?o h¨¢ pressa. Esta decis?o ¨¦ sua, e s¨® sua. Mas saiba disso: mesmo na escurid?o mais profunda, h¨¢ uma centelha de luz, esperando para ser encontrada." O ambiente cont¨ªnuo parado, o mundo parecia segurar a respira??o, enquanto Ellie encarava a c¨¢lice, sabendo que o momento de sua escolha definiria n?o apenas seu destino, mas quem ela se voltaria dali em diante. Fim do sofrimento O sil¨ºncio pairava entre eles como uma n¨¦voa densa, preenchida apenas pelo som do vento deslizando pela grama ao redor. Ellie abra?ou os joelhos, olhando para o horizonte. Damien, sentado ao lado dela, observava-a em sil¨ºncio. "Damien," Ellie come?ou, hesitante, "eu j¨¢ te contei a minha hist¨®ria, e sei que foi pesado, talvez at¨¦ demais. Mas... por que voc¨º me escutou? Por que n?o me julgou como os outros?" Damien a encarou, seus olhos profundos e negros como um abismo. "Porque eu vejo o que os outros n?o podem. N?o s¨® a escurid?o em voc¨º, mas a for?a que ela gerou. Voc¨º sobreviveu. A maioria n?o conseguiria." Ellie riu amargamente, desviando o olhar. "Sobreviver n?o ¨¦ a mesma coisa que viver. Eu sou uma casca, Damien. Finjo todos os dias para os outros. Para mim mesma. Mas a verdade ¨¦ que... eu cansei." Damien foi recebido em sil¨ºncio, permitindo que ela desabafasse sem interrup??es. Ele sabia que palavras precipitadas poderiam quebrar a fr¨¢gil confian?a que ela come?ava a depositar nele. "Voc¨º j¨¢ amou, Damien?" Ellie disse de repente, olhando para ele. "J¨¢ senti algo por algu¨¦m, algo que fez voc¨º querer continuar, mesmo quando o mundo parecia contra voc¨º?" Ele hesitou, pensando na pergunta. "Eu sou um deus, Ellie. Amar, no sentido humano, n?o ¨¦ algo que experimentei. Mas j¨¢ tive la?os, conex?es. Minha m?e, por exemplo... Ela era a luz no meu mundo sombrio. Quando achei que tinha perdido ela , Pensei que nada mais importava. Foi assim que aprendi a me fechar Mas agora, com voc¨º... sinto algo diferente, talvez, mas uma compreens?o que nunca tive antes. Ellie o observou atentamente, absorvendo suas palavras. "Ent?o voc¨º entende... o que ¨¦ perder tudo." "Um pouco," Damien respondeu, com voz grave. "Mas voc¨º ainda est¨¢ aqui, Ellie. Ainda est¨¢ lutando, mesmo que diga o contr¨¢rio. Voc¨º quer desistir, mas sua alma ainda clama por algo." Ela balan?ou a cabe?a, l¨¢grimas escorrendo. "E se n?o houver mais nada? E se tudo que resta para a dor?" Damien se inclinou para frente, olhando-a nos olhos. "Ellie, a dor n?o define quem voc¨º ¨¦. Ela molda, mas n?o ¨¦ tudo. Se voc¨º realmente quiser desistir, eu aceito sua decis?o. Mas quero que entenda: desistir n?o significa que a dor desaparece. Ela s¨® muda de forma." Ellie o estudou, suas l¨¢grimas cessando lentamente. Havia algo em Damien, algo em sua voz, em seus olhos... um peso que ele carregava sem se queixar. Ela sentiu que, pela primeira vez, algu¨¦m realmente entendeu. "Se eu desistir", ela come?ou, com sua voz tremenda, "onde ser¨¢ meu descanso? ????Ser¨¢ no inferno? Aquele lugar onde as almas s?o punidas e sofrem por toda a eternidade?" Damien ficou em sil¨ºncio por um longo momento, pensando. Ele sempre viu o submundo como o destino final, sua opini?o sobre l¨¢ era simples, aquela era sua morada. Mas olhando para Ellie, algo dentro dele mudou. O submundo, com suas sombras e frio, n?o parecia digno dela. "N?o," ele disse finalmente. "Eu n?o quero que voc¨º v¨¢ para l¨¢. N?o ¨¦ o lugar certo para voc¨º. Seu descanso ser¨¢ comigo. Eu cuidarei de sua alma, Ellie." Ela o encarou, surpresa. "Voc¨º faria isso? Por mim?" "Sim," Damien respondeu sem hesitar. "Mas isso significa que carregarei tudo o que voc¨º ¨¦. Suas dores, seus traumas, seus momentos de felicidade... Tudo." Ellie hesitou. A ideia de se entregar a algu¨¦m, completamente, era assustadora, mas ao mesmo tempo, havia uma paz em saber que Damien estava disposto a aceitar tudo dela, sem julgamentos. Ela se mudou dele, l¨¢grimas nos olhos, mas um sorriso sincero nos l¨¢bios. "Voc¨º ¨¦ diferente, Damien. Obrigada... por ser diferente." Ele abriu os bra?os, permitindo que ela se aproximasse. Quando Ellie o abra?ou, algo profundo aconteceu. Sua alma, repleta de mem¨®rias, dores e momentos de beleza, passou para ele. Damien se sentia a cada instante de sua vida como se fosse dele. Ele viu os momentos de terror na infancia, as l¨¢grimas silenciosas de noites solit¨¢rias, mas tamb¨¦m os pequenos lampejos de alegria ¨C o som do riso de sua m?e, o calor de um dia ensolarado. Ele sentiu a for?a dela, sua resili¨ºncia, e finalmente, sua paz ao ser acolhida por ele. Quando tudo terminou, Damien ficou na propriedade, segurando o corpo inerte de Ellie. Ele fechou os olhos, sentindo o peso de sua alma dentro dele. E pela primeira vez em mil anos, o deus da morte chorou. Damien apresentou im¨®vel sob a luz da lua que iluminava o local onde Ellie descansava. Ele havia criado uma tumba simples, por¨¦m serena, para ela ¡ª um gesto de respeito por tudo que ela havia suportado. No entanto, sua mente n?o encontrou paz. Um turbilh?o de sentimentos o consumia, sensa??es que ele nunca havia experimentado antes. Ensure your favorite authors get the support they deserve. Read this novel on Royal Road. Confus?o. Dor. Empatia. Ele n?o compreendeu totalmente, mas a intensidade da conex?o com Ellie deixou algo em sua alma, algo que nem mesmo um deus poderia ignorar. Refletindo sobre as mem¨®rias que absorveu, ele se viu invadido por fragmentos da vida dela: a luz vibrante de sua alegria reprimida, os sussurros das noites de terror, e o sorriso sincero que lhe dera momentos antes de sua decis?o final. Um aperto cresceu em seu peito. Era algo novo. Algo cruelmente humano. Damien clamou-se lentamente, os olhos fixos no horizonte. Ele n?o sabia por quanto tempo havia ficado ali, mas sua introspec??o foi subitamente interrompida por uma lembran?a espec¨ªfica: o homem. O rosto daquele semideus, torcido pela arrogancia, o olhar cruel que destruiria a vida de Ellie e sua fam¨ªlia. Damien viu tudo ¡ª as risadas enquanto cometia suas atrocidades, a viol¨ºncia, a maldi??o que ele lan?oua sobre Ellie. Seus punhos cerraram-se, e uma aura sombria come?ou a emergir de seu corpo. O ar ao seu redor tornou-se denso e frio. As ¨¢rvores, antes tranquilas, passaram a balan?ar violentamente, como se a pr¨®pria natureza estivesse reagindo ¨¤ raiva de Damien. Ele n?o estava apenas furioso; ele estava decidido. "Um mero semideus..." Damien murmurou, sua voz baixa, mas carregada de poder. "Ele ousou brincar com a vida de uma humana como se fosse um deus... Ent?o que conhe?a o terror que um verdadeiro deus pode infligir." O ch?o abaixo dele come?ou a rachar, linhas negras que se espalhavam como veias pela terra. As sombras ao seu redor se erguiam, moldando-se em formas grotescas, como se o pr¨®prio submundo estivesse respondendo ao seu chamado. Seus olhos, normalmente neutros, agora brilhavam em um negro profundo, um abismo sem fim. O sil¨ºncio da noite foi rompido pelo som de trov?es distantes, ecoando como uma amea?a que ressoava por todo o mundo mortal. Damien fechou os olhos por um breve momento, concentrando-se na energia do semideus. Ele havia consumido o suficiente das mem¨®rias de Ellie para rastrear a ess¨ºncia daquele homem. Ela o guiaria at¨¦ ele, mesmo em sua morte. "N?o h¨¢ lugar neste mundo ou no al¨¦m onde possa se esconder de mim." Quando Damien abriu os olhos novamente, havia uma resolu??o inabal¨¢vel em seu olhar. Ele estendeu a m?o, e um portal sombrio, pulsante e envolto em chamas negras, come?ou a se formar diante dele. Ele n?o hesitou. Entrou, deixando para tr¨¢s o local onde Ellie descansava em paz. Agora, sua ¨²nica miss?o era uma vingan?a. E ele sabia exatamente como faria aquele semideus pagar por cada gota de sofrimento que causava. Damien saiu do portal envolto em sombras, pousando silenciosamente em um trecho de onde tinha uma vis?o perfeita do pequeno vilarejo abaixo. O ar era pesado, mas n?o pelo peso da morte ou do submundo que ele costumava carregar consigo ¡ª era o peso da farsa da felicidade que ele agora presenciava. Ele localizou o homem facilmente. ¨® semideus. L¨¢ estava ele, caminhando de volta para sua casa com uma express?o tranquila no rosto. Ele n?o tinha marcas de culpa, nem vest¨ªgios de arrependimento. Pelo contr¨¢rio, parecia leve, satisfeito. Damien estreitou os olhos enquanto o guia de longe, movendo-se pelas sombras como presen?a uma invis¨ªvel. O homem caminhou at¨¦ uma casa simples, mas acolhedora. Era cercada por flores e iluminada por lamparinas que davam ao lugar uma apar¨ºncia calorosa. Ele abriu a porta, e uma risada suave ecoou do interior. Uma mulher. Jovem, bela, sorridente. Ela correu at¨¦ ele, abra?ando-o com ternura. E ent?o, um som que Damien n?o esperava ouvir: uma risada infantil. Uma menina surgiu correndo pelo corredor, seus passos leves e apressados ????enquanto pulava nos bra?os do homem. Uma crian?a, com olhos elegantes e um sorriso inocente, parecia o retrato perfeito da pureza e felicidade. Damien permanece em sil¨ºncio, sua presen?a n?o bloqueada. Ele observou enquanto a pequena fam¨ªlia compartilhava momentos que deveriam ser sagrados. O homem estendeu a menina nos bra?os enquanto a mulher preparava algo para eles. Risadas ecoavam pela casa, preenchendo o ambiente com um calor que parecia t?o natural quanto injusto. A raiva de Damien crescia a cada segundo que passava. "Isso... ¨¦ felicidade", ele pensou, o rancor crescendo em sua voz interior. "Uma felicidade que ele roubou de Ellie e de tantos outros. Como ousa viver assim? Como ousa sorrir, enquanto o sofrimento que incomodava se espalhava como uma praga no mundo?" Ele fechou os olhos, e as mem¨®rias de Ellie vieram como uma onda. Ele viu seu pai sendo dilacerado, sua m?e brutalizada e arrancada da vida com crueldade. Viu o beb¨º que foi deixado para tr¨¢s, amaldi?oado a carregar o peso das a??es de um homem que agora brincava com sua filha como se fosse um pai amoroso. Damien abriu os olhos novamente, e eles brilharam com uma escurid?o amea?adora. A hipocrisia ou atingia como uma lamina fria. "Os mortais..." ele murmurou para si mesmo, a voz transmitida de desprezo. "T?o r¨¢pidos em exigir justi?a quando s?o feridos, mas cegos para os pr¨®prios crimes. Ele vive como se fosse inocente, como se o sangue que derramou n?o manchasse suas m?os. Como se n?o fosse preocupante. E agora ele tem uma fam¨ªlia... uma felicidade que n?o merece." As ¨¢rvores ao redor se curvavam sob uma for?a invis¨ªvel, e a temperatura despencou. Damien respirou fundo, acalmando a f¨²ria que borbulhava em sua ess¨ºncia divina. Ele sabia que ainda n?o era hora de agir. N?o antes de entender completamente a extens?o da hipocrisia deste homem. Por dias, ele exige. Viu o homem brincar com sua filha no jardim, rir com sua esposa ¨¤ mesa, e ajudar os vizinhos com pequenas gentilezas. Ele vivia como um exemplo de virtude, como algu¨¦m que deveria ser admirado. Mas Damien sabia uma verdade. Era essa verdade que o alimentava. Enquanto o sol se punha no horizonte, banhando a casa em um tom dourado, Damien ficou parado na escurid?o, observando como uma sombra silenciosa. Ele n?o sentiu pressa. Ele tinha toda a eternidade para isso. Quando a paz finalmente chegar, ele garantiria que aquele semideus compreendesse a profundidade de suas a??es. Que a felicidade que foi constru¨ªda ¨¤ custa da destrui??o de outros seria despeda?ada da mesma forma. "Ele viver¨¢ o mesmo terror que imp?s aos outros. Sentir¨¢ o peso do desespero que semeou. E quando sua alma finalmente deixar seu corpo, ela sofrer¨¢ por toda a eternidade." Damien fechou os olhos, permitindo que o sil¨ºncio da noite envolvesse sua f¨²ria. Amanh?, ele come?aria a paz. Mas por enquanto ele continuaria a observar ¡ª para que, quando o momento chegasse, sua justi?a fosse perfeita e impiedosa. Presente A luz suave do sol da manh? penetrava pelas cortinas da sala, iluminando o ambiente de forma acolhedora. Ramon estava parado pr¨®ximo ¨¤ janela, seus olhos fixos na paisagem l¨¢ fora. As ¨¢rvores balan?avam suavemente com o vento, e as casas vizinhas permaneciam serenas, o mesmo cen¨¢rio tranquilo de sempre. Mas, para Ramon, algo era diferente. ¡°Querido, o que est¨¢ fazendo?¡± Disse sua esposa com um sorriso gentil, enquanto ajeitava a mesa para o almo?o. Ela notava como ele, ultimamente, parecia distante, frequentemente perdido em pensamentos. Ramon demorou um pouco para responder, mantendo o olhar fixo do lado de fora. Ele sentiu uma inquieta??o crescente em seu peito, algo que n?o conseguia explicar. Seu instinto, refinado pela heran?a divina que carregava, dizia que algo estava fora do lugar, mas n?o havia qualquer sinal concreto para acontecer aquela sensa??o. ¡°S¨® estou... pensando em algumas coisas¡±, ele respondeu, sem desviar o olhar. A esposa arqueou uma sobrancelha, intrigada, mas decidiu n?o insistir. ¡°Bem, seja l¨¢ o que voc¨º est¨¢ pensando, pode esperar. Venha, o almo?o est¨¢ pronto.¡± O aroma da comida caseira encheu o ambiente, trazendo um sorriso breve aos l¨¢bios de Ramon. Ele investiu fundo, permitindo que aquele momento trouxesse um pouco de conforto. Antes de seguir para a cozinha, ele foi at¨¦ o quarto da filha. Era um espa?o alegre e vibrante, repleto de brinquedos, desenhos coloridos pendurados nas paredes e uma pequena cama coberta com len?¨®is floridos. Sua filha, uma menina de cinco anos, estava sentada no ch?o brincando com bonecas, mas clamou o olhar ao ver o pai entrar. ¡°Papai, o que voc¨º est¨¢ fazendo?¡± Disse ela com um sorriso travesso, os olhos brilhando de inoc¨ºncia. ¡°O qu¨º? Voc¨º est¨¢ crescido demais para receber um abra?o do seu pai agora?¡± Ramon respondeu fingindo um tom ofendido, antes de se aproximar com um sorriso brincalh?o. Ele a examinar nos bra?os e a colocar na cama, onde come?ou a fazer c¨®cegas nela. O riso infantil da menina ecol¨®gica ou pela casa, trazendo uma leveza ao ambiente que parecia dissipar qualquer preocupa??o momentanea. ¡°Ramon!¡± A voz da esposa soou da porta. Ela estava com as m?os na cintura, fingindo uma express?o zangada. ¡°Voc¨ºs dois, o almo?o vai esfriar!¡± Mas sua express?o logo suavizou ao ver a cena diante dela. N?o resistiu, ela se juntou ¨¤ brincadeira, e por alguns minutos, a casa foi preenchida com risos e alegria. --- Mais tarde, enquanto todos estavam reunidos ¨¤ mesa, Ramon parecia distante novamente. Ele tentou participar da conversa, mas algo o incomodava. A cada momento de tranquilidade, aquela sensa??o de alerta voltava, mais forte. Depois do almo?o, sua esposa decidiu levar a filha para o parque, dando-lhe um tempo para descansar antes de seu pr¨®ximo turno. Ramon trabalhou como seguran?a particular em uma empresa local, uma carga que protege aten??o constante e uma postura implac¨¢vel, habilidades que ele dominava gra?as ¨¤ sua linhagem semidivina. Naquela noite, ele saiu de casa com o uniforme impec¨¢vel, mas o desconforto dentro dele aumentou. Ao chegar ao trabalho, tudo parecia normal. Ele cumpriu seus colegas e iniciou sua rodada, mas sua mente estava inquieta. As mem¨®rias do passado, geralmente bem enterradas, vieram a emergir, trazendo consigo fragmentos de dor e culpa. Por algum motivo, sua mente bloqueava a ideia de pensar no passado, no que havia feito com ela e sua fam¨ªlia, mas agora, ao olhar para sua pr¨®pria esposa e filha, o peso daquela mem¨®ria parecia mais insuport¨¢vel. Ele tinha uma vida perfeita, algo que sempre desejou, mas sabia que aquilo era constru¨ªdo sobre as ru¨ªnas de outra vida que ele havia destru¨ªdo. ''Espera... ela? Ela quem? um segundo pensar ap¨®s isso sua mente se esvaziou. Cada sorriso de sua esposa, cada gargalhada de sua filha, trazia uma pontada de algo que ele n?o conseguia nomear. Culpa? Medo? Ele n?o sabia, mas era algo que crescia a cada dia. No trabalho, durante uma ronda noturna, ele come?ou a sentir como se estivesse sendo observado. O ar ao seu redor parecia mais pesado, como se uma presen?a invis¨ªvel estivesse emparelhando sobre ele. Ele tentou ignorar, mas a sensa??o persistia. Enquanto caminhava pelos corredores escuros, Ramon parou abruptamente. Um som, quase impercept¨ªvel, ecoou atr¨¢s dele. Ele se transformou rapidamente, mas n?o havia nada. Apenas o sil¨ºncio e a escurid?o. Mas ele sabia. Algo estava ali. E, pela primeira vez em anos, Ramon sentiu medo. N?o o medo de um mortal, mas o de algu¨¦m que sabia que havia cruzado um limite perigoso. Ele segurou a r¨¢dio com firmeza, mas n?o conseguiu chamar ningu¨¦m. Naquele momento era apenas o in¨ªcio, e no fundo de sua alma, ele sabia que algo muito maior estava prestes a acontecer.A case of theft: this story is not rightfully on Amazon; if you spot it, report the violation. O ato de comunicar algu¨¦m pela r¨¢dio era pura formalidade. Ramon era um semideus, e n?o um qualquer. O sangue de Ares flu¨ªa por suas veias. Embora n?o fosse um filho direto do deus da guerra, a linhagem passando por gera??es, do tatarav? at¨¦ ele. Esse legado, por mais distante que parecia, n?o deixava d¨²vidas. Ele poderia sentir tra?os da mesma for?a indom¨¢vel at¨¦ mesmo em sua filha. Ao pensar nela, no entanto, algo come?ou a mudar. Algo que ele havia trancado a sete chaves em um canto profundo de sua mente come?ou a for?ar as correntes. Fragmentos de mem¨®rias esquecidas ¡ª ou melhores, suprimidas ¡ª surgiram a surgir como sombras no fundo de um lago agitado. Primeiro, foram flashes de uma mulher chorando. Em seguida, a vis?o do sangue. Depois, os gritos. "Merda." Ele murmurou, dando a m?o ¨¤ testa como se quisesse esmagar os pensamentos. Seu cora??o disparava, o ar parecia raro. Ele abriu o r¨¢dio, como se o ambiente pudesse ajud¨¢-lo a escapar. Ramon sabia o que estava acontecendo, e isso o aterrorizava. N?o foi a primeira vez que as correntes se quebraram. Elas sempre se remendavam, mas cada vez ficavam mais fr¨¢geis. Ele n?o era ing¨ºnuo: sabia que um dia ou que estava preso em sua mente acabaria por engoli-lo inteiro. Ap¨®s o massacre daquela fam¨ªlia ¡ª e da destrui??o que feriu por puro desejo de poder e controle ¡ª Ramon foi atormentado por uma culpa avassaladora. Ele n?o suporta as imagens que vinham ¨¤ sua mente: os olhos da mulher, o choro do beb¨º, o ¨²ltimo grito do homem que ajudou a proteger sua fam¨ªlia. Para continuar vivendo, ele participou de ajuda. N?o ¨¦ da medicina humana, mas de algo muito mais obscuro. Naquela ¨¦poca, ele encontrou uma sacerdotisa com liga??o direta a Ares, conhecida por realizar antigos rituais de repress?o mental. O tratamento foi brutal. Ela mergulhou Ramon em uma po?a de ¨®leo fervente, enquanto entoava canticos que perfuravam sua mente. Durante tr¨ºs dias consecutivos, ele foi submetido ao processo. Suas mem¨®rias foram seladas em uma caixa mental, trancadas por feiti?os complexos que apenas ele, por vontade pr¨®pria, poderia quebrar. Mas havia um pre?o. O feiti?o n?o era perfeito. Sempre que Ramon experimentava um sentimento intenso ¡ª como amor por sua filha ou medo por sua fam¨ªlia ¡ª, pequenas brechas surgiam. As mem¨®rias come?avam a escapar, como serpentes deslizando pelas frestas da jaula. E agora, olhando para a r¨¢dio e pensando em sua filha, Ramon sentiu o peso daquilo. Ele abriu os olhos, respirando fundo, evitando afastar os fragmentos que foram cir¨²rgicos. "N?o ¨¦ real", murmurou para si mesmo, a voz tr¨ºmula. "N?o ¨¦ mais real." Mas a verdade era outra. Ele sabia que estava perdendo o controle. A vis?o da mulher que ele havia destru¨ªdo, os olhos cheios de l¨¢grimas, caiu a persegui-lo. Ela n?o gritava mais em sua mente. Apenas olhei para ele, com uma calma mortal, enquanto sangue escoltava pelo canto de sua boca. O que mais o aterrorizava era a familiaridade que sentia. Ele viu algo h¨¢ muito enterrado: aquela mulher mexia com ele de uma forma estranha. E agora, no sil¨ºncio do quarto onde trabalhou, ele sentiu um aperto no peito. Era como se cada tijolo que havia erguido para proteger sua nova vida estivesse prestes a desmoronar. Ramon sabia que era forte. Mas tamb¨¦m sabia que nenhuma for?a f¨ªsica seria suficiente para conter aquilo que crescia dentro de si: as mem¨®rias de Ellie. Seus pensamentos o consumiram enquanto uma ¨²nica pergunta pairava no ar: Ser¨¢ que ele realmente merecia a felicidade que tinha agora? A noite era pesada, ou carregada de algo indescrit¨ªvel. Ramon estava de p¨¦ em frente ¨¤ janela de seu escrit¨®rio, com os punhos cerrados. Ele sentiu uma presen?a, algo al¨¦m de sua compreens?o. Era como se o mundo ao seu redor tivesse parado para sussurrar uma ¨²nica mensagem: ele estava vindo. O portal se abriu em um sil¨ºncio esmagador. As sombras tomaram forma, espalhando-se como veneno, e dele emergiu Damien. Seus olhos brilhavam como duas esferas de poder absoluto, emanando um julgamento frio e implac¨¢vel. Ramon virou-se, sentindo o impacto daquela presen?a esmagadora em sua alma. Ele tentou manter a postura, mesmo que cada instinto dentro de si gritasse para se ajoelhar. "Ent?o ¨¦ voc¨º..." disse Ramon, a voz falhando brevemente. "Quem ¨¦ voc¨º?" Damien deu um passo ¨¤ frente, sua figura imponente parecia absorver toda a luz ao redor. "Quem eu sou? Sou a morte. Sou a vida. Sou aquele que veio para julgar o peso de sua exist¨ºncia." Ramon arregalou os olhos, mas rapidamente os estreitou. O sangue de Ares fervia em suas veias, e mesmo diante de uma presen?a t?o formid¨¢vel, ele n?o cederia sem lutar. "Se ¨¦ o julgamento que voc¨º busca, voc¨º ter¨¢ que lutar por ele." Antes que Damien pudesse responder, Ramon avan?ou. Com uma precis?o de combate aprimorada por anos de treinamento e pela heran?a divina, ele arrancou com movimentos calculados. Sua estrat¨¦gia era clara: usar o terreno, o intelecto, e sua for?a para criar uma abertura. Mas Damien sequer recuou. Ele pediu a m?o, bloqueando cada golpe com uma serenidade desconcertante. Cada soco, cada rampa, era desviado ou simplesmente conectado. Para ele, aquilo era uma brincadeira. ¡°Interessante¡±, disse Damien, observando os movimentos de Ramon como um cientista estudando uma experi¨ºncia. "Voc¨º tem habilidade. Determina??o. At¨¦ coragem. Mas isso... ¨¦ in¨²til." Com um simples gesto, Damien criou uma onda de energia que lan?ou Ramon contra a parede com for?a suficiente para quebrar os tijolos ao redor. Ramon se declarou, jogando sangue, mas com um brilho feroz nos olhos. Ele sacou uma lamina antiga, forjada com fragmentos de um meteorito, uma arma que, teoricamente, poderia ferir at¨¦ os mesmos deuses. ¡°Voc¨º fala como se fosse invenc¨ªvel¡±, disse Ramon, girando a lamina. "Mas at¨¦ os deuses t¨ºm seus limites." Damien arqueou uma sobrancelha, um leve sorriso surgindo em seu rosto. "Tente, ent?o. Mostre-me a extens?o da sua for?a, filho de Ares.¡± Ramon atacou com tudo o que tinha. Cada golpe com a lamina era preciso, feroz, mas Damien se movia como uma sombra, desviando com uma elegancia que beirava o desprezo. "Voc¨º acha que est¨¢ protegido pela sua moral, Ramon?" disse Damien, a voz ecoando como um trov?o. "Acha que sua vida feliz pode apagar o que fez no passado?" Ramon hesitou por um momento, o suficiente para Damien desarm¨¢-lo com um ¨²nico movimento. A lamina caiu no ch?o, inutilizada. "Eu... Eu fiz o que tinha que fazer", disse Ramon, a respira??o pesada. "Eu me redimi! Minha fam¨ªlia, minha filha... elas n?o t¨ºm nada a ver com isso!" Damien moveu-se, segurando Ramon pelo pesco?o e erguendo o ch?o. Seus olhos brilhavam como estrelas em f¨²ria. "¨¦ a fam¨ªlia de Ellie? O que eles tinham a ver com sua ambi??o descontrolada? Voc¨º acha que pode enterrar o passado e fingir que ele n?o existe?" Enquanto Damien segurava Ramon, algo come?ou a mudar. Ele olhou nos olhos do semideus e viu a dor, o desespero. Mas tamb¨¦m viu as correntes. Invis¨ªveis para os mortais, elas estavam enroladas em torno da mente de Ramon, pulsando com energia antiga. "Essas correntes..." murmurou Damien, apertando mais forte. "Voc¨º colocou aqui para esconder o mesmo monstruoso que foi." Ramon comprometido, os olhos arregalados. "N?o... eu n?o... posso... lembrar." Damien gentilmente, mas n?o era um sorriso de miseric¨®rdia. "Voc¨º n?o tem escolha." Com um simples toque, Damien corta as correntes. O som delas rompendo ecoou como um trov?o, e Ramon caiu ao ch?o, ofegante. As mem¨®rias vieram como uma avalanche. Ele viu Ellie, o massacre, o rosto dela distorcido pelo sofrimento. Sentiu o peso de cada vida que havia sido tomada. A dor o atingiu como uma lamina ardente, queimando cada fibra de sua alma. "Agora", disse Damien, sua voz fria como gelo. "Voc¨º n?o pode mais se esconder. N?o h¨¢ perd?o sem enfrentar a verdade." Memè´¸rias do passado Ramon era um homem de extremos, desde o nascimento. Enquanto sua linhagem era marcada pelo sangue de Ares, que flu¨ªa como uma chama latente em cada gera??o, algo nele era diferente. A ferocidade e a intensidade herdadas do deus da guerra se manifestavam nele de maneira desproporcional, quase monstruosa. Ramon n?o era apenas impulsivo; ele era um vulc?o sempre ¨¤ beira de erup??o. Desde cedo, seus olhos castanhos carregavam um brilho perturbador, algo que assustava at¨¦ mesmo aqueles que compartilhavam seu sangue. Seu pai, Emilio, um homem robusto e disciplinado, via em Ramon o que ele temia: o legado descontrolado do sangue divino. Emilio, apesar de tamb¨¦m ser descendente de Ares, conseguira manter a ira e a intensidade sob controle por meio de treinamento e disciplina. Ramon, por¨¦m, parecia ser uma exce??o. N?o importava o quanto o pai tentasse mold¨¢-lo, o garoto demonstrava um desequil¨ªbrio que escapava a qualquer l¨®gica. A infancia de Ramon foi marcada por sinais de que ele era diferente, mesmo para um semideus. Seu pai, um homem justo, mas r¨ªgido, notava isso e fazia o poss¨ªvel para ensinar autocontrole ao filho. "Somos descendentes de Ares, Ramon," dizia ele enquanto treinavam no campo. "Mas n?o somos escravos de sua vontade. Somos homens antes de tudo." No entanto, Ramon era incapaz de compreender plenamente o que seu pai tentava ensinar. Para ele, o mundo era cruel, e a for?a era a ¨²nica coisa que fazia sentido. Quando crian?a, ele era conhecido por sua for?a descomunal. Mas o problema n?o era apenas sua for?a; era a maneira como ele usava. Uma vez, quando tinha sete anos, um grupo de garotos mais velhos tentou intimid¨¢-lo. Eles zombaram de sua origem, chamaram-no de "aberra??o" por causa dos olhos que brilhavam em vermelho sob certas luzes. Ramon n?o hesitou: quebrou o bra?o de um deles e feriu gravemente outro. A sensa??o que teve enquanto os machucava era ao mesmo tempo aterrorizante e intoxicante. Ele n?o apenas venceu; ele saboreou a vit¨®ria. Esses epis¨®dios eram recorrentes, e cada vez mais dif¨ªceis de conter. Aos doze anos, Ramon tinha quase o dobro da for?a de outros garotos de sua idade. Sua m?e, preocupada, implorava ao pai que o afastasse da vila. "Ele ¨¦ perigoso, Em¨ªlio," ela dizia com l¨¢grimas nos olhos. "Ele n?o ¨¦ como voc¨º. Ele nasceu errado." Em¨ªlio, no entanto, recusava-se a desistir do filho. Ele acreditava que poderia salv¨¢-lo, que com disciplina e amor, Ramon aprenderia a controlar aquela parte de si. Mas foi na adolesc¨ºncia que os tra?os mais sombrios come?aram a emergir. Ramon tinha uma fome peculiar: ele ansiava pela vit¨®ria a qualquer custo. N?o importava o desafio, ele n?o conseguia simplesmente desistir ou aceitar uma derrota, mesmo em situa??es triviais. O mundo era, para ele, um campo de batalha constante. E quando ele n?o conseguia dominar algo ou algu¨¦m, a frustra??o se transformava em explos?es de viol¨ºncia. Seu pai o levou para treinamento f¨ªsico e mental, tentando moldar a ferocidade em disciplina. Ares ensinava que guerra sem controle era destrui??o sem prop¨®sito. Mas para Ramon, o controle parecia uma pris?o. O que ele n?o conseguia explicar era o porqu¨º. Por que ele era assim? Por que a centelha do caos parecia sempre queim¨¢-lo de dentro para fora? Foi anos depois, j¨¢ como um jovem adulto, que Ramon cruzou o caminho de Helena, a m?e de Ellie. Helena era uma mulher de uma beleza que parecia transcender o mortal. Seus cabelos negros como uma noite sem estrelas, seus olhos brilhantes e o sorriso delicado carregavam uma gra?a que era quase hipnotizante. Mas o que realmente chamou a aten??o de Ramon foi a confian?a que ela exalava. Ela era inating¨ªvel. Ramon a viu pela primeira vez em uma vila onde ele buscava suprimentos. Ela estava acompanhada por um homem, o que apenas ati?ou mais sua obsess?o. Havia algo nela que Ramon desejava, e ele n?o sabia dizer exatamente o qu¨º. Mas quanto mais a via, mais ele sentia a ferocidade crescendo dentro de si. Era diferente de todas as vezes que ele havia perdido o controle antes. Desta vez, era uma obsess?o. Ele tentou abord¨¢-la, inicialmente de forma cort¨ºs, o que para ele j¨¢ era um esfor?o monumental. Mas Helena foi educada e firme: ela n?o tinha interesse em conhec¨º-lo. Quando ele insistiu, ela foi ainda mais clara, cortando qualquer tentativa de aproxima??o. Ela amava o homem com quem estava, e sua felicidade era evidente.This narrative has been unlawfully taken from Royal Road. If you see it on Amazon, please report it. Isso deveria ter sido o fim. Mas para Ramon, foi o in¨ªcio. A rejei??o de Helena alimentou algo dentro dele que estava h¨¢ muito tempo preso. Ele come?ou a persegui-la discretamente, observando sua rotina, seus gestos, seus momentos de intimidade com o homem que ela amava. Cada riso, cada toque entre eles era uma faca que se cravava mais fundo no cora??o de Ramon. Ele n?o entendia por que aquilo o consumia tanto. A loucura finalmente explodiu em uma noite, quando ele confrontou Helena sozinha, em uma estrada deserta. Ele implorou por sua aten??o, gritou que ela n?o podia ignor¨¢-lo, que eles estavam destinados um ao outro. Mas Helena, corajosa e firme, se manteve inabal¨¢vel. Ela o enfrentou com palavras afiadas, dizendo que ele precisava encontrar seu pr¨®prio caminho, longe dela. Foi nesse momento que Ramon perdeu o controle completamente. A escurid?o dentro dele assumiu o comando. Ele atacou Helena, movido por um impulso de raiva, rejei??o e desejo. Mas algo dentro dele tamb¨¦m lutava contra o que estava fazendo. Ele hesitou no ¨²ltimo momento, deixando Helena escapar, mas n?o sem feridas ¨C tanto f¨ªsicas quanto emocionais. Ramon se lembrava de seu pai, das li??es que ele havia dado para conter aquela f¨²ria avassaladora que o consumia. Ele havia machucado uma mulher inocente, algu¨¦m que nada tinha a ver com sua loucura. Contudo, Ramon rapidamente afastou esses pensamentos de sua mente. Aquela mulher... ela era dele. Ela tinha que ser dele, e de mais ningu¨¦m. A decis?o estava tomada. Ele a tomaria, nem que fosse preciso usar toda a for?a. Ele j¨¢ havia deixado sua marca na mente dela, e agora, o que restava era terminar o que come?ara. Destruir a mulher agora, enquanto ela ainda estava fr¨¢gil, seria mais f¨¢cil. Faz¨º-la ceder aos seus desejos n?o seria um grande desafio. Essa era sua cren?a. Ele se preparava, cada detalhe de seu plano sendo cuidadosamente estudado. Ramon sabia que a guerra n?o era vencida apenas com for?a bruta, mas com estrat¨¦gia. Ele era o descendente da guerra, e seus instintos lhe diziam que o momento certo estava pr¨®ximo. Mas algo, de repente, mudou. Uma descoberta que fez seu cora??o se encher de raiva: Helena estava gr¨¢vida daquele homem. A f¨²ria tomou conta dele. ¡°Maldito! Como ousa fazer isso com minha mulher?¡± - Seus pensamentos estavam imersos em um turbilh?o de ¨®dio, e sua mente fervia com a ideia de matar aquele homem - ali e agora. No entanto, Helena se mostrara astuta. Ela havia contratado semideuses e humanos aben?oados para proteg¨º-la dele. Seria um desafio, mas Ramon estava decidido a dar um jeito. Os meses passaram com a rapidez do vento. Em um piscar de olhos, o beb¨º j¨¢ estava nascido. A espera se tornara insuport¨¢vel para Ramon, que sentia seu desejo por Helena crescer ainda mais, assim como seu anseio de derramar o sangue do homem que ousara toc¨¢-la. Mas ent?o, ele viu a oportunidade. Helena, finalmente, j¨¢ n?o estava mais cercada por todos aqueles guardas os semideuses e aben?oados haviam se afastado. Manter tal prote??o era caro, e ele sabia que ela n?o teria mais recursos para sustentar isso. Talvez ela fosse uma princesa rica, pensou, mas isso n?o importava mais. O que importava era a chance, a abertura que ele esperara tanto tempo. Restavam apenas dois guardas dois aben?oados. Era a brecha que Ramon aguardara. Ele deu um sorriso mal¨¦fico. - ¡°Ahhh... finalmente. Esperei tanto por isso¡­¡±
Helena se encontrava sentada ¨¤ beira da lareira, a suavidade da luz amarelada refletindo nas paredes de madeira envelhecida. Ao seu lado, Ellie, sua filha, brincava com suas bonecas no tapete, rindo suavemente enquanto dava voz a cada uma das figuras de porcelana. O som de sua risada era como uma melodia tranquila, preenchendo o ambiente com uma sensa??o de paz que Helena n?o imaginava ser poss¨ªvel h¨¢ algum tempo. Seus olhos, embora marcados pelo tempo e pelas lutas que enfrentara, agora brilharam com uma calma que ela quase n?o reconhecia em si mesma. A presen?a de Ellie, t?o pura e cheia de vida, trouxe-lhe uma felicidade inusitada, uma felicidade que a fazia esquecer, por alguns momentos, os horrores que sempre estiveram ¨¤ espreita. Ao seu lado, seu marido, Marcus, estava t?o tranquilo quanto ela. Seus ombros largos e seus bra?os fortes estavam relaxados enquanto ele se encostava na poltrona ao lado de Helena. Ele sorriu para ela, e ela sentiu o calor de seu amor, uma seguran?a silenciosa que a envolvia. Os olhos dele, sempre atentos, observavam o movimento de Ellie, mas havia uma leveza na maneira como ele olhava para sua fam¨ªlia ¡ª uma leveza que lhe dava a sensa??o de que o mundo, mesmo que cheio de sombras, estava finalmente distante. "Ela cresceu tanto," Helena murmurou, sua voz suave e cheia de ternura enquanto observava Ellie brincar. O amor que sentia por sua filha transbordava, um amor que parecia inquebr¨¢vel. Marcus sorriu, apertando sua m?o. "Ela ¨¦ nossa. N?o h¨¢ nada que nos possa tirar isso." A frase era simples, mas profunda. Em momentos como aquele, Helena acreditava verdadeiramente nisso. O tempo parecia ter parado ali, no aconchego de sua casa, com sua filha a brincar e seu marido ao seu lado, como se nada pudesse amea?ar a felicidade que constru¨ªram juntos. Mesmo nas adversidades passadas, e nas que poderiam surgir, eles tinham uns aos outros, e isso os tornava invenc¨ªveis. A brisa suave que entrava pela janela aberta trazia o cheiro da terra molhada, sinal de que a primavera se aproximava. O momento era perfeito, e Helena sabia que ali, entre os bra?os de sua fam¨ªlia, ela estava exatamente onde deveria estar ¡ª protegida, amada e em paz. Ela n?o sabia por quanto tempo poderia permanecer assim, mas por aquele momento, n?o havia lugar no mundo que desejasse mais do que aquele pequeno ref¨²gio de felicidade. Para seu infort¨²nio, por¨¦m, aquela felicidade n?o durou muito.