《Da morte ao destino:A reencarnação de um ex militar [Português]》 O fim de um homem Eu era um homem de 27 anos. Hum, ex-militar. Fui expulso por brigar com um oficial superior... um bando de vagabundos. Eu era bom no que fazia. J¨¢ cansei vidas em nome desse pa¨ªs de merda. Sempre fui habilidoso com armas e tinha um forte senso de lideran?a, mas meu temperamento¡­ bem, ele sempre foi um problema. J¨¢ fui casado duas vezes. Minha primeira esposa, eu realmente amava, mas vacilei. A segunda? Me deixei por causa do meu temperamento. Pelo menos foi o que ela disse. Mas eu sei a verdade¡­ aquela puta deve ter me tra¨ªdo. Sei que meu temperamento ¨¦ inst¨¢vel, tentei mudar, tentei me controlar, mas quando percebi, j¨¢ era tarde. Perdi tudo. Minha carreira, minha esposa, minha fam¨ªlia. Nem mesmo meus irm?os conversaram mais comigo. Nunca fui bom na escola, n?o fiz faculdade. E em Angola, sem estudo, a vida ¨¦ um inferno. O ex¨¦rcito foi minha sa¨ªda. Mas, como sempre, minha raiva me colocou em problemas. Briguei com superiores, bati em um deles¡­ um desgra?ado mimado. N?o me arrependo. No final, perdi o emprego e fui preso por tr¨ºs meses depois de apontar uma arma para aquele infeliz. Agora, estou aqui¡­ sem dinheiro, sem futuro, sem nada. Que se foda tudo. Pelo menos o ¨¢lcool nunca me abandonou. --- Eu cambaleava pelas ruas escuras, completamente embriagado, quando escutei uma discuss?o. Um casal discutiu do outro lado da rua. ¡ª De onde voc¨º est¨¢ vindo? ¡ª o homem disse, a voz de raiva. ¡ª Eu estava na casa da minha amiga ¡ª respondeu a mulher, hesitante. ¡ª Com essa roupa? Essa hora?! Voc¨º s¨® pode estar me treinando, sua vagabunda! A tapa veio seca, ecoando na rua silenciosa. A mulher caiu no ch?o, segurando o rosto. Naquele instante, meu sangue ferveu. N?o era s¨® aquela cena. Aquilo me lembrou do meu pai. Da forma como ele batia na minha m?e. Do olhar de medo dela. Antes que eu percebesse, j¨¢ tinha avan?ado no homem e desferido um soco com toda a minha for?a. O impacto foi brutal. Ele caiu no ch?o cuspindo dois dentes. Mas eu tamb¨¦m ca¨ª¡­ fiquei b¨ºbado demais para manter o equil¨ªbrio. Tentei me levantar, mas minha cabe?a girava. O outro homem se cantou primeiro, furioso. ¡ª Quem diabos ¨¦ voc¨º, sua merda?! ¡ª falou ele, apontando para mim. ¡ª ¨¦ com esse cara que voc¨º t¨¢ me treinando?! ¡ª Eu nem conhe?o ele! ¡ª a mulher respondeu, ainda assustada. ¡ª Cala a boca! ¡ªele Berrou. ¡ª Olha s¨® o que eu vou fazer com sua amante! Foi r¨¢pido demais. Eu vi o brilho da lamina antes de sentir a dor. A primeira facada perfurou meu est?mago. Depois, fora. ¨¦ mais uma. A dor era sufocante. Meu corpo ficou mole. ¡ª O que voc¨º fez, Marco?! ¡ª a mulher pr¨®xima, desesperada. ¡ª Isso ¨¦ pra ele aprender a n?o se meter com a mulher dos outros ¡ª Marco cuspiu no ch?o e saiu correndo. Tentei falar, mas s¨® consegui gemer. A mulher se ajoelhou ao meu lado, as l¨¢grimas escorrendo pelo rosto. ¡ª Eu vou procurar ajuda, aguenta firme! Mas eu sabia. Eu sabia que n?o iria sobreviver. Ent?o ¨¦ assim que acaba? UE? Morrendo sozinho em uma rua suja? Sem esposa, sem filhos, sem um legado? If you discover this tale on Amazon, be aware that it has been stolen. Please report the violation. Que merda¡­ Eu ainda tinha tanta coisa pra fazer¡­ Mas era tarde demais. Volume 2 ¨C O Julgamento Acordei em uma sala completamente branca. Eu n?o consegui ver meu corpo, mas minha consci¨ºncia estava ali. ¡ª Eu estou vivo?! Onde diabos eu estou? Isso ¨¦ o inferno? N?o¡­ branco demais para ser o inferno. Ser¨¢ que fui bom o suficiente para ir para o c¨¦u? Minha mente estava cheia de perguntas, mas antes que pudesse raciocinar, um homem apareceu diante de mim. Ele tinha asas e um manto brilhante, mas n?o tinha rosto. ¡ª Sr. Andr¨¦ Francisco. ¡ª A voz dele era firme e imponente. ¡ª Quem ¨¦ voc¨º?! Como sabe meu nome?! ¡ª curioso, confuso. ¡ª Eu sou um anjo. N?o t¨¢ na cara? ¡ª E por que diabos eu estou aqui?! E por que n?o consigo sentir meu corpo?! Nem eu mexo?! O anjo suspirou. ¡ª Voc¨º t¨¢ aqui para um banho de piscina. Voc¨º ¨¦ idiota? Alguns humanos s?o inteligentes, mas outros¡­ s?o completos idiotas. Ele riu, como se estivesse se divertindo com a situa??o. ¡ª Esse ¨¦ o seu julgamento. Hoje ser¨¢ decidido se voc¨º vai para o inferno ou para o Reino dos C¨¦us. Cruzei os bra?os, irritado. ¡ª E como voc¨º vai decidir isso? N?o vou vender computador nenhum. Vai me julgar baseado em qu¨º, seu anjo idiota? ¡ª Tudo o que voc¨º est¨¢ falando agora est¨¢ sendo anotado e vai contar na sua senten?a. ¡ª Mas foi voc¨º que me chamou de idiota! Respirei fundo. No fundo, eu j¨¢ sabia meu destino. ¡ª ¨¦ ¨®bvio que eu vou para o inferno¡­ J¨¢ matei gente, beb¨º at¨¦ cair v¨¢rias vezes¡­ S¨® me manda logo pra l¨¢. O anjo cruzou os bra?os. ¡ª Voc¨º sabe quantos humanos querem sair do inferno? Voc¨º j¨¢ ouviu falar sobre o qu?o quente ¨¦ aquele lugar. A B¨ªblia descreve o inferno, e eu posso te garantir¡­ tudo o que est¨¢ escrito l¨¢ ¨¦ verdade. Ainda quer ir? Ingl¨ºs: segundo. ¡ª Ent?o¡­ o que vai acontecer comigo? O anjo me contou por alguns segundos antes de responder. ¡ª Seu caso ¨¦ complicado. Voc¨º tirou vidas, fez coisas horr¨ªveis¡­ teve atitudes question¨¢veis. Mas ao mesmo tempo, sempre acreditei no Senhor. Nunca blasfemou ou zumbiu Dele. Ou seja, voc¨º foi um homem ruim, mas sempre respeitou a Deus. Seu destino est¨¢ na balan?a¡­ pode ir tanto para o c¨¦u quanto para o inferno. Bufei, impaciente. ¡ª Ent?o que merda voc¨º vai fazer?! De repente, o anjo mudou de postura. Sua voz ficou mais grave, e um arrepio percorreu meu corpo. ¡ª Me?a suas palavras, humano. O ambiente ficou pesado. Por um instante, senti um medo que nunca havia sentido antes. O anjo suspirou de novo. ¡ª Voc¨ºs, humanos, s?o ingratos¡­ Tem sorte porque o Criador ama voc¨ºs, independentemente do que faz. Ele me encarou. ¡ª Seu caso ¨¦ especial. Voc¨º n?o ter¨¢ uma segunda chance¡­ ¡ª Espera¡­ isso ¨¦ s¨¦rio? E onde est¨¢ o Criador? Quero v¨º-lo. O anjo riu. ¡ª Voc¨º acha que pode ver o Criador assim t?o facilmente? Nem mesmo pode ver meu verdadeiro rosto. ¡ª Ent?o¡­ o que vai acontecer comigo? ¡ª Voc¨º ter¨¢ uma segunda oportunidade. Mas h¨¢ regras. ¡ª Eu¡­ eu n?o sei se quero voltar. ¡ª Ent?o vamos encerrar o caso e mand¨¢-lo direto para o inferno. ¡ª Ei, calma a¨ª! Tamb¨¦m n?o precisa apressar as coisas! S¨® n?o queria voltar pra aquela minha vida miser¨¢vel¡­ O anjo sorri. ¡ª Aqui no Reino dos C¨¦us, voc¨º sempre ter¨¢ uma escolha. ¡ª Ent?o¡­ eu vou renascer? ¡ª Sim, mas seu caso ser¨¢ especial. Voc¨º renascer¨¢ com suas mem¨®rias intactas. Essa ser¨¢ sua segunda oportunidade. ¡ª Qual ¨¦ o truque? ¨C Simples. Voc¨º ter¨¢ que seguir tr¨ºs regras. Caso alguma delas¡­ seu destino ser¨¢ o inferno. Ingl¨ºs em segundo. ¡ª E quais s?o essas regras? ¡ª Primeiro: voc¨º deve ser crist?o. ¡ª Segundo: n?o pode blasfemar nem buscar outros deuses. ¡ª Terceiro: n?o pode se tornar um vil?o. ¡ª Vil?o? ¡ª Isso mesmo. Voc¨º n?o pode se tornar um crime, nem enfraquece a comunidade. ¡ª E o resto? ¡ª O resto s?o apenas pedidos que posso fazer a voc¨º. Voc¨º ter¨¢ liberdade para escolher se ir¨¢ segui-los ou n?o. Murmurei baixinho, tentando evitar que ele ouvisse: ¡ª Eu n?o vou seguir nenhum pedido seu¡­ O anjo me ignorou e continuou: ¡ª Mas se quebrar¨¢ uma das tr¨ºs regras, ir¨¢ para o inferno¡­ e sofrer¨¢ duas vezes mais do que qualquer um que j¨¢ esteja l¨¢. Senti um arrepio na espinha. ¡ª Ent?o, no fim, a escolha ¨¦ minha? ¨C Sim. Mas se for ¡°bonzinho¡± e ainda assim quebrar as regras¡­ seu destino ser¨¢ o mesmo. Cruzei os bra?os. ¡ª Resumindo: tenho tr¨ºs regras obrigat¨®rias, m as o resto fica por minha conta. O anjo sorri. ¨C Exato. Parece que finalmente entendi. De repente, senti uma for?a me puxando. ¡ª Agora, voc¨º pode ir. ¡ª Ir para onde?! O novo mundo Eu estava acordado. Sentia-me nos bra?os de uma mulher branca que me segurava com firmeza. Como assim essa mulher est¨¢ me segurando desse jeito? Tenho certeza de que n?o sou t?o leve assim... Ah, ¨¦ verdade, eu reencarnei. Ent?o, devo ser um beb¨º agora. Ela me entregou para outra mulher, provavelmente minha nova m?e. Ela era branca, de cabelos loiros. Hm... Acho que ela ¨¦ europeia. Espera a¨ª... EU REENCARNEI BRANCO?! Aquele anjo desgra?ado me fez nascer de outra cor? Era o que eu pensava at¨¦ notar melhor meu redor. A mulher que me pegou no colo era branca, ent?o presumi que eu tamb¨¦m fosse. Mas, ao olhar direito, vi um homem ali perto. Ele parecia ter uns 30 anos, era um pouco gordinho... e negro. Se ele for meu pai, ent?o eu sou mesti?o. N?o que eu tenha problema em ser branco, mas eu amo a minha cor. N?o queria ser diferente. ¡ª Gsjsjj sjsjs hshsh jshsbs ¡ª falou a m?e. ¡ª Sjjss jsisis jsisis usisiu ¡ª respondeu o pai. ¡ª Hsjsjsi sjisissj sjsjisis ¡ª acrescentou a outra mulher, provavelmente a parteira. Eu n?o conseguia entender o idioma deles. Sei um pouco de ingl¨ºs, ent?o tenho certeza de que n?o era isso. Parecia alem?o... Mas nunca falei alem?o, ent?o s¨® posso estar supondo. De repente, os tr¨ºs come?aram a agir de forma estranha. A m?e tinha l¨¢grimas nos olhos e o pai estava com um olhar triste. S¨® a parteira parecia manter uma express?o s¨¦ria. Ah... J¨¢ sei. Eles acham que tem algo de errado comigo porque eu n?o chorei ao nascer. Que se fodam, eu n?o vou come?ar a chorar s¨® porque esperam isso de mim. Sou adulto demais pra isso. A mulher come?ou a solu?ar. O pai franziu a testa, preocupado. O clima ficou pesado. T¨¢ bom, t¨¢ bom, eu vou chorar. Agora parem de fazer essas caras! ¡ª Uaaaaaah! ¡ª comecei a berrar. Os tr¨ºs ficaram aliviados. Minha m?e come?ou a chorar de alegria e falou alguma coisa que n?o entendi. Ela me encostou no peito. Espera a¨ª... N?o me diga que voc¨º vai me dar de mamar! ¡­ Oh, que peitos. Se eu estivesse de p¨¦, j¨¢ teria ca¨ªdo pra tr¨¢s com um sorriso sacana. Provei do leite. ¡­AHH!! Como isso pode ser t?o doce? T?o leve? Isso ¨¦ mesmo leite?! If you spot this narrative on Amazon, know that it has been stolen. Report the violation. Ent?o ¨¦ assim que ¨¦ o leite materno... Melhor que cerveja! T¨¢, talvez seja exagero... Mas, porra, isso ¨¦ bom pra caralho. --- Cinco meses depois Agora consigo entender um pouco do idioma deles. Acho que, por ser beb¨º, minha mente aprende mais r¨¢pido. Descobri que tenho dois irm?os mais velhos: Sara e Gabi. Sara ¨¦ uma garotinha bonitinha, de pele clara e cabelo ruivo. O que ¨¦ estranho, j¨¢ que nossos pais n?o t¨ºm cabelo ruivo... Ser¨¢ que meu pai levou um chifre? J¨¢ Gabi ¨¦ loiro igual ¨¤ mam?e. Ele tem uns cinco anos, enquanto Sara tem uns tr¨ºs. E adivinha o nome que deram pra mim? L¨¢zaro. QUE MERDA DE NOME! Esses caras t¨ºm a boca podre pra escolher nome, viu? Ali¨¢s, onde t¨¢ minha m?e? Quero mais do leitinho dos anjos. Se eu pudesse vender isso, ficaria rico. ¡ª Olha a minha fofura, voc¨º est¨¢ com fome? ¡ª disse minha m?e, sorrindo. ¡ª Ele mama bastante ¡ª comentou meu pai. ¡ª ¨¤s vezes, ele s¨® fica pegando nos peitos sem mamar... Mas ele ¨¦ um bom garoto, n?o chora ¡ª disse ela, rindo. ¡ª Mam?e, posso ver o beb¨º? ¡ª perguntou Gabi. Vaza daqui, moleque. Eu n?o vou compartilhar meu leite com voc¨º. --- Mais dois meses depois J¨¢ consigo andar. Sou um soldado, n?o posso ficar engatinhando por a¨ª feito um fracote. Comecei a explorar a casa. Aos poucos, percebi que esses caras s?o muito pobres. N?o vejo TV, celular, ar-condicionado, lampadas... nada! O que mais tem aqui s?o velas, chamin¨¦s e m¨®veis antigos de madeira. Pelo menos s?o bonitos. Mas n?o h¨¢ nada moderno. Que merda. Tive uma segunda chance na vida e ainda assim nasci pobre. Por que o Senhor n?o gosta de mim, Criador? Ser¨¢ que n?o dava pra nascer filho de uma celebridade? Cristiano Ronaldo? Bill Gates? Outra coisa que notei: minha fam¨ªlia tem uma loja de doces. A gente vive no andar de cima, e o t¨¦rreo ¨¦ a loja. Descobri isso pelo cheiro. Eu n?o podia descer sozinho, porque meus pais tinham medo que eu ca¨ªsse da escada. Mas, ¨¤s vezes, minha m?e me levava l¨¢ embaixo. Foi quando olhei pela janela e percebi algo bizarro. A cidade era cheia de pr¨¦dios baixos, de dois andares no m¨¢ximo. As ruas eram movimentadas e a maioria das pessoas era negra. Mas o que mais me irritou... N?o havia carros. S¨® carro?as puxadas por cavalos. E algumas pessoas esquisitas, que usavam fantasias de gato para prender... um animal com orelhas de gato? Que porra ¨¦ essa?! Eu fui parar no passado?! Fiquei deprimido. Esse anjo desgra?ado s¨® pode estar de sacanagem comigo. Me fez nascer numa fam¨ªlia de padeiros... e ainda no passado?! Pelo que vejo, deve ser por volta do ano 1000. N?o tem nada moderno por aqui. Um dia, nossos pais receberam algumas visitas inesperadas. Eu estava no colo da minha m?e quando a porta se abriu. Dois indiv¨ªduos entraram na sala com express?es severas. Um deles era um homem alto e musculoso, vestindo uma armadura met¨¢lica simples, mas bem cuidada. Ele tinha um olhar duro e intimidador. Ao seu lado, uma mulher de apar¨ºncia peculiar trajava roupas justas de couro, e o que me chamou aten??o foram suas orelhas e cauda felinas. De perto, pareciam incrivelmente reais. Meu pai se levantou rapidamente, demonstrando nervosismo. Minha m?e, por outro lado, apertou minha pequena m?o contra seu peito, como se instintivamente quisesse me proteger. ¡ª Viemos cobrar a d¨ªvida ¡ª disse a mulher-gato, cruzando os bra?os e encarando meu pai com desd¨¦m. ¡ª Eu¡­ eu ainda n?o tenho todo o dinheiro ¡ª respondeu meu pai, com um tom cauteloso. ¡ª J¨¢ faz meses que esperamos. O prazo acabou. ¡ª A voz do cavaleiro era grave, carregada de impaci¨ºncia. ¡ª Por favor, s¨® mais um tempo ¡ª implorou minha m?e. ¡ª Nosso com¨¦rcio ainda est¨¢ se estabilizando, mas j¨¢ conseguimos alguma coisa. S¨® precisamos de mais alguns meses para pagar tudo. A mulher-gato suspirou com impaci¨ºncia e olhou para o cavaleiro. Ele bufou, claramente irritado, e ent?o caminhou lentamente at¨¦ meu pai. O sil¨ºncio na sala ficou pesado. ¡ª J¨¢ demos tempo suficiente. ¡ª A voz dele era fria. Antes que qualquer um pudesse reagir, o cavaleiro ergueu o punho e acertou um soco violento no rosto do meu pai. O impacto foi t?o forte que ele caiu no ch?o, derrubando uma cadeira ao lado. ¡ª Papai! ¡ª gritou Gabi, tremendo de medo. Minha m?e me segurou ainda mais forte e cobriu minha cabe?a contra seu peito, como se quisesse me impedir de ver aquilo. Mas eu vi tudo. O sangue escorrendo do canto da boca do meu pai, seu olhar assustado enquanto tentava se levantar. Sara come?ou a chorar baixinho. ¡ª Eu n?o sou um homem paciente ¡ª continuou o cavaleiro, limpando o punho como se tivesse apenas espantado um inseto. ¡ª Voc¨ºs t¨ºm um m¨ºs. Se n?o tiverem o dinheiro at¨¦ l¨¢, sua lojinha vai virar cinzas¡­ e sua fam¨ªlia vai pagar o pre?o. A mulher-gato riu de leve, como se estivesse se divertindo com a situa??o. ¡ª Espero que sejam mais eficientes vendendo doces do que administrando dinheiro. Vamos ver o que acontece no pr¨®ximo m¨ºs. Ela ent?o puxou o cavaleiro pelo bra?o e os dois sa¨ªram, deixando a porta aberta. O vento frio da rua invadiu a sala, mas a sensa??o de medo que deixaram para tr¨¢s era ainda pior. Meu pai ficou no ch?o por um tempo, respirando com dificuldade. Minha m?e se ajoelhou ao seu lado, tocando seu rosto com cuidado. ¡ª Voc¨º est¨¢ bem? ¡ª sua voz tremia. Ele assentiu, mas n?o disse nada. Eu, mesmo sendo um beb¨º, senti algo crescer dentro de mim. Uma raiva profunda. Esse mundo ¨¦ cruel. E se um dia eu quiser proteger minha fam¨ªlia, vou precisar de Informa??es sobre o novo mundo 1###**Anos se passaram...** J¨¢ se passaram quatro anos desde que renasci neste mundo. Aprendi muito sobre ele, algumas coisas perguntando ¨¤ minha m?e, outras observando em sil¨ºncio. Certo dia, Sara se machucou, e meu pai fez uma ora??o. No final, uma luz verde brilhante saiu de suas m?os, e Sara foi curada instantaneamente. Fiquei arrepiado. A primeira coisa que pensei foi: *Esse cara ¨¦ um bruxo!* Mas, depois de analisar, percebi que ele fez uma ora??o antes. Bruxos n?o fazem ora??es, certo? Ent?o, decidi perguntar ¨¤ minha m?e o que estava acontecendo. ¨C Voc¨º est¨¢ cada vez mais curioso, L¨¢zaro. Est¨¢ sempre perguntando algo ¨C ela disse, com um sorriso suave. Claro, mulher! N?o ¨¦ todo dia que se v¨º um cara lan?ando feiti?os, pensei, mas mantive a boca fechada. ¨C Seu pai sabe um pouco de magia. Neste mundo, algumas pessoas nascem com mana ¨C explicou ela. ¨C Mana? ¨C perguntei, fingindo ignorancia. ¨C Sim, mana. ¨¦ como uma energia com a qual voc¨º nasce. Com ela, voc¨º pode conjurar magia. Existem muitos tipos de magia ¨C continuou ela, enquanto arrumava a mesa. ¨C Ent?o eu tamb¨¦m posso usar magia? ¨C perguntei, tentando parecer entusiasmado. ¨C Nem todos t¨ºm mana. A mana ¨¦ rara, e nossa fam¨ªlia n?o tem muitos feiticeiros. Na minha fam¨ªlia, s¨® minha tatarav¨® tinha. No caso do seu pai, sua m?e tinha mana, mas ele s¨® tem um pouco. ¨¦ prov¨¢vel que voc¨ºs n?o tenham ¨C ela respondeu, com um tom um pouco resignado. ¨C Ah, entendi. ¨C Pergunte ao seu pai. Ele sabe mais de magia do que eu. Fui at¨¦ meu pai, que estava na cozinha preparando doces. ¨C Pai, me ensina magia! ¨C disse, com um tom de desafio. ¨C Ah, voc¨º quer aprender magia, L¨¢zaro? ¨C ele respondeu, surpreso. ¨C Ainda n?o sei se voc¨º tem mana. Vamos fazer um teste. Abra sua m?o e diga estas palavras: *"Ventus Minor"*. Fiz o que ele pediu, mas nada aconteceu. ¨C Talvez voc¨º n?o tenha mana... ou talvez eu seja um p¨¦ssimo professor ¨C ele riu, brincando. ¨C L¨¢zaro, existem cinco elementos: ¨¢gua, fogo, raio, terra e vento. Eu uso vento, por isso minha magia ¨¦ verde. Se voc¨º tiver mana, ter¨¢ um elemento. Voc¨º quer mesmo aprender magia? ¨C Sim! Eu quero ser rei! ¨C declarei, com uma cara s¨¦ria. ¨C Rei? ¨C ele riu, surpreso. ¨C Mas voc¨º nem ¨¦ da fam¨ªlia real. N?o tem como ser rei. ¨C Vou dar um jeito de ser rei ¨C respondi, determinado. Meu pai olhou para mim com uma express?o curiosa. ¨C Sempre que falo com voc¨º, L¨¢zaro, sinto que estou falando com um adulto. Voc¨º s¨® tem quatro anos, mas n?o age como uma crian?a. ¨¦ muito s¨¦rio. --- **Resumindo...** Aprendi muitas coisas. Cavaleiros trabalham para o governo, ou seja, para o rei, que n?o mora nesta cidade, mas na capital. Para ser cavaleiro, ¨¦ preciso ter um bom n¨ªvel de mana ¨C o que, no meu caso, parece dif¨ªcil, j¨¢ que minha fam¨ªlia n?o ¨¦ conhecida por ter muita mana. Tamb¨¦m descobri que existem pessoas-gato, ou "homens-feras", como minha m?e os chamou. A primeira coisa que pensei foi: *Esses caras treparam com animais?* Mas ela explicou que existem quatro ra?as racionais: homens-feras, elfos, humanos e dem?nios. Houve uma guerra entre eles, e os dem?nios eram t?o fortes que as outras tr¨ºs ra?as tiveram que se unir para venc¨º-los. Depois da guerra, os dem?nios foram para outras terras, e humanos e homens-feras decidiram formar um povo unido. Acho que os humanos foram mais espertos, porque o rei ¨¦ humano, os elfos conseguiram tamb¨¦m criaram seu reino separados dos humanos e dos homens feras, mas eles s?o aliados Existem nobres de classe alta, nobres de classe m¨¦dia e plebeus ¨C ou seja, pobres. ¨¦ ¨®bvio que n¨®s somos plebeus. A escola s¨® come?a aos sete anos e ¨¦ basicamente para aprender a ler, escrever, um pouco de hist¨®ria e matem¨¢tica. Estou tentando aprender a ler escondido, porque n?o quero que me tratem como um prod¨ªgio. Eles podem querer me mandar para um internato ou algo assim. Gabi e Sara j¨¢ v?o para a escola, mas o bom ¨¦ que aqui a escola termina em tr¨ºs anos. Aos dez anos, voc¨º j¨¢ est¨¢ formado. Que al¨ªvio! Pelo menos n?o tenho que passar pelo ensino m¨¦dio. --- **O Encontro com o Anjo** Alguns dias depois, acordei na sala do anjo. ¨C N?o pode ser... Eu morri durante a noite? ¨C perguntei, confuso. O anjo apareceu, com seu manto brilhante e sem rosto. ¨C N?o se preocupe, voc¨º n?o est¨¢ morto. S¨® queria ter uma conversinha com voc¨º ¨C disse ele, com um tom casual. ¨C Por que voc¨º me trouxe aqui? Achei que j¨¢ t¨ªnhamos resolvido tudo... ¨C Voc¨º esqueceu que eu disse que faria alguns pedidos a voc¨º? Em troca de uma recompensa ¨C ele respondeu, com um sorriso invis¨ªvel. ¨C Ah, lembrei. Voc¨º tamb¨¦m disse que eu sou livre para recusar. Stolen from its rightful place, this narrative is not meant to be on Amazon; report any sightings. ¨C Se voc¨º cumprir, te dou uma recompensa ¨C ele insistiu. ¨C Que tipo de recompensa? ¨C N?o posso dizer. Voc¨º ver¨¢ no futuro. ¨C No futuro? Ent?o n?o quero. Al¨¦m disso, sinto que sou um homem diferente agora. N?o me irrito facilmente. ¨C ¨¦ porque voc¨º ¨¦ uma crian?a. Crian?as n?o se irritam facilmente ¨C explicou o anjo. ¨C Ah, t¨¢. Mas voc¨º n?o disse que eu renasceria em um mundo de magia e pessoas-gato. ¨C Voc¨º teve uma segunda chance. Claro que n?o seria no mesmo mundo ¨C ele respondeu, como se fosse ¨®bvio. ¨C Voc¨º devia ter deixado isso claro. ¨C S¨® queria te surpreender. Enfim, vai aceitar ou n?o? ¨C N?o tenho nada a perder. Ent?o, pode dizer. ¨C Quero que voc¨º se torne um cavaleiro. ¨C Eu pretendo me tornar rei. Ent?o, tenho que ser cavaleiro primeiro. ¨C Ent?o t¨¢ ¨®timo. Cumpra seu dever. Acordei em meu quarto. ¨C Ent?o isso foi um sonho? ¨C murmurei. ¨C O que voc¨º est¨¢ falando? ¨C Gabi perguntou, sonolento. --- **Relacionamento com os Irm?os** Acho que me dou melhor com meus irm?os nesta vida do que na outra. Na minha vida anterior, eu tinha tr¨ºs irm?os. O mais velho era um idiota que vendia drogas e sempre tirava sarro de mim, dizendo: *"Voc¨º vai me prender, irm?o?"* O do meio era legal, tinha boas notas e fez faculdade, mas parei de falar com ele depois que dei um soco no sogro dele por falar mal da minha m?e. Minha irm? ca?ula come?ou a usar drogas muito cedo, por culpa do meu irm?o mais velho. Ent?o, eu o prendi. Ele pegou quinze anos, e minha irm? parou de falar comigo. Nesta vida, meus novos irm?os n?o s?o um problema. Neste corpo de crian?a, comecei a pensar diferente e quero melhorar a comunica??o com eles. Certo dia, estava no quarto tentando ler um livro quando Sara entrou, com um sorriso no rosto. ¨C O que voc¨º est¨¢ fazendo, L¨¢zaro? ¨C ela perguntou. ¨C Estou tentando ler este livro ¨C respondi. ¨C Eu ainda n?o sei ler, ent?o n?o posso te ensinar ¨C ela disse, com um tom de desculpa. ¨C Ent?o se esforce na escola e venha me ensinar. ¨C Voc¨º fala como um adulto ¨C ela riu. ¨C Tenho alguns exerc¨ªcios muito dif¨ªceis para fazer ¨C ela continuou, pegando o caderno e mostrando para mim. Olhei para os exerc¨ªcios e percebi que estavam todos errados. ¨C Esses exerc¨ªcios est?o todos errados ¨C disse, apontando para o caderno. ¨C O qu¨º? Esses exerc¨ªcios est?o certos! Fui eu que fiz! ¨C ela respondeu, indignada. Os exerc¨ªcios eram parecidos com os do meu mundo anterior, s¨® que os s¨ªmbolos eram diferentes. Eram simples adi??es e subtra??es. ¨C V¨º como se faz ¨C expliquei, mostrando a ela como resolver os problemas. Ela ficou impressionada e me abra?ou. ¨C Me bota no ch?o, menina! ¨C reclamei, enquanto ela me levava at¨¦ Gabi, que estava na varanda. ¨C O L¨¢zaro ¨¦ um g¨ºnio! Ele ¨¦ um g¨ºnio, Gabi! ¨C ela gritou. ¨C O qu¨º? Ele quase n?o fala. Como pode ser um g¨ºnio? ¨C Gabi respondeu, c¨¦tico. Ele colocou o dedo na minha cara, e eu o mordi. ¨C Ai, seu idiota! Por que voc¨º me mordeu? ¨C ele gritou. ¨C N?o bote sua m?o na minha cara ¨C respondi, s¨¦rio. ¨C Voc¨º fala como se fosse um adulto e ¨¦ s¨¦rio demais para um beb¨º. Esqueci que tenho que sorrir mais para parecer uma crian?a. --- 2#**A Entrega no Bairro Nobre** Gabi foi chamado pela m?e para fazer uma entrega no bairro nobre. Ele reclamou, mas acabou indo, levando-me com ele. Enquanto caminh¨¢vamos, observei a cidade. A maior parte da popula??o era negra, e havia muitos homens-feras, ou semi-humanos, como tamb¨¦m s?o chamados. Vi alguns semi-humanos c?o ¨C pensei que s¨® existissem gatos, ou seja Semi-humanos s?o seres que possuem uma apar¨ºncia predominantemente humana, mas com caracter¨ªsticas animais que os distinguem. Eles t¨ºm rostos completamente humanos, com tra?os normais como olhos, nariz e boca, Suas orelhas s?o de animais, posicionadas no topo da cabe?a, podendo ser pontudas, peludas e sens¨ªveis a sons, se ajustando conforme seu estado de esp¨ªrito. Al¨¦m disso, possuem uma cauda correspondente ao animal de sua linhagem, que se move de acordo com suas emo??es, sendo ¨²til para equil¨ªbrio ou at¨¦ para expressar sentimentos. Fora essas caracter¨ªsticas, seu corpo, pele e estrutura f¨ªsica s?o completamente humanos, sem altera??es como focinho, patas ou garras. Eles podem vestir roupas normais e interagir como qualquer outro humano, isso eu aprendi com a m?e... Algumas mulheres feras tinham um... *peit?o* que eu n?o conseguia parar de olhar, com um sorriso sacano. ¨C O que voc¨º est¨¢ olhando? ¨C Gabi perguntou, curioso. ¨C Nada. Ent?o, e sua gata? ¨C perguntei, tentando mudar de assunto. ¨C Gata? ¨C ele respondeu, confuso. ¨C Sua namorada. ¨C Eu n?o tenho namorada! Ainda sou muito crian?a ¨C ele disse, corando. ¨C Neste mundo, 16 anos j¨¢ ¨¦ considerado adulto. Voc¨º deveria ter uma. ¨C Do que voc¨º est¨¢ falando? Voc¨º ¨¦ muito crian?a para perguntar isso ¨C ele respondeu, irritado. O sol j¨¢ come?ava a se esconder no horizonte, tingindo o c¨¦u de tons alaranjados e avermelhados. Gabi e eu caminh¨¢vamos pelas ruas de pedra, carregando o bolo cuidadosamente embrulhado. O cheiro doce do bolo contrastava com o ar pesado que parecia pairar sobre n¨®s. Eu continuava a dizer olhava ao redor, observando as casas simples e as pessoas comuns que viviam na nossa parte da cidade. Mas, ¨¤ medida que nos aproximamos do bairro nobre, tudo mudava. As ruas ficavam mais largas, as casas mais altas e imponentes, com jardins bem cuidados e muros altos que pareciam gritar: *"Aqui n?o ¨¦ o seu lugar."* As carruagens luxuosas passavam por n¨®s, puxadas por cavalos majestosos, e os nobres caminhavam com roupas finas, ignorando completamente nossa presen?a. Eu sentia o desconforto de Gabi, que apertava minha m?o com mais for?a do que o normal. ¨C Vamos logo entregar isso e ir embora ¨C ele murmurou, evitando olhar para os lados. Chegamos ao port?o do bairro nobre, onde um guarda nos parou com um olhar de desd¨¦m. ¨C O que voc¨ºs querem aqui? ¨C ele perguntou, como se j¨¢ soubesse a resposta. ¨C Viemos fazer uma entrega ¨C Gabi respondeu, com uma voz que tentava soar firme, mas tremia levemente. O guarda nos olhou de cima a baixo, como se estiv¨¦ssemos sujos, e finalmente nos deixou entrar. O ar dentro do bairro era diferente ¨C mais frio, mais distante. As crian?as nobres brincavam nos jardins, com roupas limpas e rostos sorridentes. Quando nos viram, seus sorrisos se transformaram em caretas de nojo. ¨C O que voc¨ºs est?o fazendo aqui? ¨C uma das crian?as perguntou, com um tom de voz que parecia uma faca afiada. ¨C Viemos fazer uma entrega ¨C Gabi repetiu, tentando ignorar o tom hostil. ¨C Andem logo antes que voc¨ºs contaminem nosso bairro ¨C outra crian?a disse, rindo. Eu senti o sangue ferver, mas Gabi apertou minha m?o com mais for?a, como se dissesse: *"N?o fa?a nada."* Continuamos caminhando, mas as palavras deles ecoavam em minha mente. *Contaminar?* Como se f?ssemos lixo. Eu olhei para Gabi e vi que ele estava com os olhos baixos, tentando esconder a dor que aquelas palavras causavam. Chegamos ¨¤ casa do senhor In¨¢cio, uma mans?o enorme com colunas brancas e janelas brilhantes. Um mordomo nos recebeu na porta. Ele era um homem-ferra, com orelhas pontudas e uma express?o neutra. ¨C Boa tarde. Viemos entregar o bolo ¨C Gabi disse, entregando o pacote com cuidado. O mordomo pegou o bolo e nos deu algumas moedas. ¨C Obrigado ¨C ele disse, com um tom formal, mas sem qualquer calor. Gabi pegou as moedas e as guardou rapidamente, como se tivesse medo de que algu¨¦m as roubasse. Est¨¢vamos prestes a sair quando ouvimos risadas vindas do jardim. As crian?as nobres estavam l¨¢, apontando para n¨®s e rindo. ¨C Olhem s¨®! Os plebeus vieram trazer comida para os nobres! ¨C uma delas gritou, com um sorriso maldoso. ¨C Eles devem estar com fome. Por que n?o jogamos um pouco de comida para eles? ¨C outra crian?a disse, pegando uma pedra do ch?o. Antes que eu pudesse reagir, a pedra foi arremessada em nossa dire??o. Gabi se moveu r¨¢pido, colocando-se na frente de mim. A pedra acertou seu bra?o com um som surdo, e ele soltou um grunhido de dor. ¨C Gabi! ¨C eu gritei, sentindo uma onda de raiva e impot¨ºncia. Ele segurou o bra?o machucado, mas n?o revidou. Em vez disso, ele me puxou pela m?o e come?ou a caminhar r¨¢pido, quase correndo. ¨C Vamos embora ¨C ele disse, com uma voz que tentava parecer calma, mas tremia. ¨C Por que n?o revidou? ¨C eu perguntei, furioso. ¨C Eles n?o podem fazer isso com a gente! ¨C Porque n?o adianta, L¨¢zaro ¨C ele respondeu, com os olhos cheios de l¨¢grimas que ele se recusava a deixar cair. ¨C Eles s?o nobres. Se a gente revidar, eles v?o nos machucar ainda mais. Eu olhei para tr¨¢s e vi as crian?as rindo, como se tudo aquilo fosse uma grande piada. Meu cora??o do¨ªa de raiva e tristeza. Gabi, meu irm?o mais velho, estava machucado, humilhado, e n?o pod¨ªamos fazer nada. No caminho de volta, o sil¨ºncio entre n¨®s era pesado. Gabi segurava o bra?o machucado, e eu sentia uma mistura de raiva e frustra??o. Quando chegamos em casa, minha m?e nos recebeu com um sorriso, mas logo percebeu que algo estava errado. Quando chegamos, minha m?e perguntou como foi a entrega. ¨C Foi bem. Eu ca¨ª e me machuquei no bra?o ¨C Gabi mentiu. ¨C Est¨¢ doendo muito, meu filho? ¨C ela perguntou, preocupada. ¨C N?o, m?e. Est¨¢ de boa ¨C ele respondeu, tentando parecer forte. ¨C Vai at¨¦ seu pai. Ele pode usar o poder de cura nele ¨C ela sugeriu. Gabi foi at¨¦ meu pai, que usou seu poder de cura. O poder dele era t?o fraco que s¨® podia ser usado uma vez por dia. ¨¦ raro um plebeu nascer com mana, e quando nasce, ¨¦ muito pouco. --- **A Conversa com o Pai** Naquela noite, meu pai veio ao meu quarto para conversar. Gabi estava na sala, ent?o est¨¢vamos sozinhos. ¨C Gabi me contou o que aconteceu hoje ¨C ele come?ou, sentando na cama. ¨C Eu disse para ele revidar. Aqueles meninos estavam nos humilhando ¨C respondi, irritado. ¨C Eu tenho que falar com voc¨º sobre isso, mas nunca pensei que seria nesta idade ¨C ele disse, com um tom s¨¦rio. ¨C Neste mundo, os nobres t¨ºm tudo. Eles nos tratam como lixo. ¨C O que eu quero dizer ¨¦ que nem sempre o mundo ¨¦ justo. Deus nos fez com amor, mas n¨®s somos arrogantes. Destru¨ªmos tudo de bom que Ele nos d¨¢, mesmo depois de Sua palavra: *"Ame o teu pr¨®ximo"*. Algumas pessoas, quando t¨ºm tudo, j¨¢ n?o querem saber de nada. ¨C Voc¨º entendeu onde eu quero chegar? ¨C Mas eu n?o vou ser pisado por aqueles idiotas ¨C respondi, determinado. ¨C Voc¨º me faz lembrar do meu pai. Ele n?o aceitava que os nobres nos tratassem como lixo. Mas ele foi morto tentando fazer justi?a, e por isso eu cresci sem pai. ¨C S¨® n?o se esque?a de que voc¨º tem uma fam¨ªlia e deve pensar neles antes de tomar uma a??o. O PRIMEIRO DIA DE AULA O tempo passou, e agora eu tinha sete anos. Infelizmente, isso significava que precisava frequentar a escola. Desde o momento em que meus pais mencionaram isso, tentei inventar todas as desculpas poss¨ªveis para n?o ir, mas n?o adiantou. Aparentemente, era uma obriga??o ¡ª crian?as que n?o estudam acabam se tornando analfabetas, e saber ler neste mundo ¨¦ como ter um diploma do ensino m¨¦dio no meu mundo anterior. O engra?ado ¨¦ que eu j¨¢ sabia ler. Aprendi sozinho, observando os livros da casa e as anota??es no caderno da Sara. Quando meus pais descobriram, ficaram convencidos de que eu era um g¨ºnio. E, bem, pensando bem, uma crian?a que aprende a ler aos cinco anos sozinha provavelmente seria considerada um g¨ºnio em qualquer lugar. Como recompensa, meu pai me comprou um livro de magia, algo extremamente caro. Na minha vida passada, s¨® de olhar para um livro, eu j¨¢ sentia t¨¦dio. Mas, por algum motivo, aqui, eu os achava interessantes. Talvez fosse a curiosidade de crian?a ou simplesmente a necessidade de entender melhor esse mundo. A Caminho da Escola Meus pais estavam ocupados na loja e n?o puderam me acompanhar, ent?o fui com a Sara. No caminho, ela olhou para mim e disse com um sorriso confiante: ¡ª Vou cuidar de voc¨º. Se algu¨¦m mexer com voc¨º, ¨¦ s¨® me chamar. Eu bufei. ¡ª Se algu¨¦m mexer comigo, eu parto pra briga. ¡ª N?o! L¨¢ tem meninos mais velhos. Rapazes adoram brigar, e voc¨º ¨¦ muito baixinho. ¡ª Bah, isso n?o ¨¦ problema. Eu sei me defender. ¡ª Ent?o t¨¢ bom¡­ Mas evita confus?o, ok? ¡ª T¨¢, t¨¢. Fica tranquila. Vou ficar de boa. Olhando para ela, me lembrei do tempo da escola na minha vida passada. Eu era um verdadeiro rufia, sempre entrando em brigas. Mas, desta vez, as coisas seriam diferentes... Ou pelo menos era o que eu pensava. A Escola Ao chegar, me deparei com um pr¨¦dio bem organizado e limpo ¡ª o que me surpreendeu, j¨¢ que era uma escola p¨²blica. Tinha muros altos, grandes janelas e um p¨¢tio espa?oso com algumas ¨¢rvores. ¡ª At¨¦ que ¨¦ bonita para uma escola de plebeus ¡ª comentei. ¡ª Tem nobres estudando aqui? ¡ª Sim, alguns nobres de classe m¨¦dia estudam aqui ¡ª explicou Sara. ¡ª Essa escola ¨¦ administrada pelo governo, ent?o mant¨¦m um bom n¨ªvel. Mas existe uma outra escola exclusiva para os nobres da classe alta. ¡ª Hmph¡­ Que interessante. Eu podia sentir os olhares dos alunos ao redor. Alguns curiosos, outros indiferentes. Mas, no fundo, eu sabia que nobres sempre se achavam superiores. "Um dia, eu vou me vingar desses bastardos", pensei. Assim que entrei, fui direto para minha sala e me sentei. Olhei ao redor e vi meus novos colegas ¡ª alguns humanos e outros homens-fera. --- Meses Depois¡­ Os dias se passaram, e, para minha surpresa, eu me sa¨ªa bem em matem¨¢tica e leitura. Mas quando se tratava de hist¨®ria e geografia¡­ bom, nem preciso dizer. Nunca fui bom em estudar. A escola tamb¨¦m oferecia aulas de magia e espadas. Muitos plebeus desistiam dessas aulas porque os nobres, que nasciam com alto n¨ªvel de mana, dominavam as duas ¨¢reas com facilidade. No final, restaram apenas eu e outra plebeia, Laine. Laine era uma garota humana, dois anos mais velha que eu. Apesar de ser uma plebeia, tinha um bom n¨ªvel de mana e, por isso, foi recomendada para as aulas de magia. No primeiro dia de treino, ela se aproximou de mim de forma hesitante, segurando o pr¨®prio bra?o. ¡ª Voc¨º ¨¦ o novo aluno¡­? ¡ª perguntou baixinho. ¡ª Sim, sou. Ela abaixou um pouco a cabe?a, parecendo envergonhada. ¡ª Eu sou Laine. Sei que voc¨º ¨¦ irm?o da Sara¡­ Ela fala bastante sobre voc¨º. Unauthorized use: this story is on Amazon without permission from the author. Report any sightings. ¡ª Hmm¡­ Ent?o ela fala de mim, ¨¦? ¡ª Sim¡­ ¡ª Ela sorriu timidamente. Ela parecia uma garota tranquila e um pouco t¨ªmida. Diferente de mim. ¡ª Por que decidiu aprender magia? ¡ª perguntou, curiosa. ¡ª Na verdade, estou aqui pela espada. Ela piscou algumas vezes, surpresa. ¡ª Voc¨º gosta de espadas? ¡ª Voc¨º faz muitas perguntas. ¡ª Ah! D-Desculpa¡­ Antes que pud¨¦ssemos continuar, uma voz arrogante interrompeu nossa conversa. ¡ª Ei! Voc¨ºs dois, plebeus! Voc¨ºs est?o fazendo barulho demais. Olhei na dire??o do garoto que falou isso. Era um nobre, claro. Ele tinha cabelo loiro e um olhar de superioridade irritante. ¡ª Desculpe¡­ ¡ª Laine respondeu rapidamente, abaixando a cabe?a. Isso me irritou. ¡ª Se est¨¢ incomodado, ent?o se retire ¡ª respondi friamente. O garoto ficou boquiaberto por um segundo, depois cerrou os punhos. ¡ª Como ousa falar assim comigo, plebeu?! ¡ª Vou falar do jeito que eu quiser ¡ª retruquei, encarando-o sem medo. Ele deu um passo ¨¤ frente, pronto para me encarar, mas nesse momento, o professor chegou. O garoto apenas rangeu os dentes e se afastou, me lan?ando um olhar de ¨®dio. Eu j¨¢ sabia que a partir dali teria problemas com os nobres. Mas quer saber? Eu n?o dava a m¨ªnima. Interesse por Espadas As aulas de magia eram interessantes, mas minha verdadeira paix?o estava na pr¨¢tica com espadas. Sempre que tinha chance, matava algumas aulas te¨®ricas para assistir aos treinamentos dos alunos mais experientes. A sensa??o de segurar uma espada¡­ o peso, o equil¨ªbrio, a for?a necess¨¢ria para cada golpe¡­ Me fascinava. Talvez isso viesse da minha vida passada. Eu sempre fui bom com facas e armas. E agora, parecia que minha habilidade estava despertando novamente. Descobrindo meu poder Na aula de magia, eu n?o era exatamente um prod¨ªgio. Meu n¨ªvel de mana era surpreendentemente alto para um plebeu¡ªquase no n¨ªvel de um nobre¡ªmas minha afinidade com magia deixava a desejar. Quando a professora fez um teste com uma pedra estranha, ela revelou que meu elemento era raio. Que droga! Todo protagonista de filme ou s¨¦rie tem afinidade com fogo! O que eu vou fazer com raio? Relampagos podem ser r¨¢pidos e letais, mas fogo... fogo ¨¦ ic?nico! A professora percebeu minha frustra??o e explicou: ¡ª Talvez voc¨º tenha dificuldades porque seu poder ¨¦ ofensivo e n?o defensivo. Magia de ¨¢gua e vento s?o mais voltadas para suporte e cura, enquanto fogo, terra e raio s?o voltadas para combate direto. Ela fez uma pausa antes de continuar: ¡ª ¨¦ raro um plebeu nascer com tanta mana, L¨¢zaro. Mas plebeus que demonstram talento podem se tornar cavaleiros e at¨¦ mesmo subir de status. Isso me fez pensar. ¡ª Se eu me tornar um bom cavaleiro... eu poderia virar rei? Ela sorriu. ¡ª Rei n?o. Mas voc¨º pode se tornar um nobre. Meu pai nasceu plebeu e conseguiu se tornar um cavaleiro famoso. Hoje, ele tem um t¨ªtulo de nobreza. ¡ª Entendi... Ent?o eu posso mudar a vida da minha fam¨ªlia. Olhei para Laine, minha colega de classe, e perguntei: ¡ª E voc¨º, Laine? Por que quer aprender magia? Ela hesitou por um momento antes de responder: ¡ª Eu quero ser uma maga m¨¦dica. Existem poucos magos m¨¦dicos entre os plebeus, e eu quero salvar o maior n¨²mero de vidas poss¨ªvel. Aula de Espadas As aulas de magia eram obrigat¨®rias, mas tamb¨¦m t¨ªnhamos que treinar com espadas. No fundo, eu gostava mais do combate f¨ªsico. Eu e Laine est¨¢vamos treinando com espadas de madeira, e eu decidi testar minha habilidade, atacando com mais intensidade. O que eu n?o esperava era que, ao se sentir pressionada, Laine instintivamente usasse sua magia de ¨¢gua. De repente, a sala foi inundada, molhando todos os alunos. ¡ª Sua merdinha, o que voc¨º est¨¢ fazendo?! ¡ª gritou uma voz arrogante. Edwin. O mesmo nobre metido que implicou comigo na ¨²ltima vez. ¡ª Me desculpe, Edwin! ¡ª disse Laine, envergonhada. ¡ª Voc¨º me deixou todo encharcado! Nos pensamentos de Edwin, algo chamou sua aten??o: Se ela conseguiu invocar toda essa ¨¢gua, isso significa que tem muita mana... ¡ª Ela j¨¢ pediu desculpa. ¡ª Intervi. Edwin me lan?ou um olhar irritado. ¡ª Eu n?o estou falando com voc¨º, plebeu baixinho. Ele era um pouco mais velho que eu, talvez um ano ou dois. Seus amigos, dois homens-fera com fei??es de gato, riram e concordaram: ¡ª Voc¨º precisa colocar esses plebeus no lugar deles. Revirei os olhos. ¡ª Precisa dos seus capangas pra resolver tudo, Edwin? ¡ª Eu vou te ensinar uma li??o, seu merdinha. Ele avan?ou com uma velocidade impressionante, a espada de madeira em m?os. Eu vi o ataque chegando, mas meu corpo era lento demais para esquivar. Consegui bloquear, mas o impacto foi forte. Edwin me chutou, me arremessando contra a parede. Antes que ele pudesse continuar, o professor entrou na sala e parou o ataque. ¡ª O que diabos est¨¢ acontecendo aqui?! ¡ª gritou, sua voz transbordando autoridade. Ningu¨¦m ousou responder. ¡ª E por que essa sala est¨¢ toda molhada?! Como castigo, eu e Edwin tivemos que limpar todas as janelas da escola. Durante o trabalho, trocamos provoca??es verbais, mas n?o ousamos levantar as m?os novamente. O professor deixou claro que, se brig¨¢ssemos de novo, ele cortaria nossas cabe?as¡ªe, sinceramente, a express?o dele n?o deixava d¨²vidas de que falava s¨¦rio. Amizade Inesperada Com o passar do tempo, treinei bastante e aprendi a controlar minha mana. Minha magia continuava fraca, mas minha habilidade com a espada melhorou a ponto de enfrentar Edwin de igual para igual. Aos poucos, nos tornamos amigos. Ele ainda era mal-humorado e arrogante, mas, com o tempo, percebi que n?o era como os outros nobres. Sua m?e era uma plebeia, e ele nasceu de um caso que seu pai teve. Por ser bastardo, buscava desesperadamente reconhecimento. Ele era forte, mas no fundo... queria provar seu valor. Quando ele ia visitar a m?e na cidade, ¨¤s vezes sa¨ªamos juntos para treinar. Laine tamb¨¦m sempre estava por perto. Eu percebi que Edwin gostava dela, embora nunca admitisse. Ap¨®s um ano, n¨®s tr¨ºs nos formamos juntos. Laine e Edwin estavam no ¨²ltimo ano, mas como eu j¨¢ sabia ler, era bom em matem¨¢tica e dominava a espada, a escola decidiu que eu tamb¨¦m deveria me formar. No caminho para casa, Edwin resmungou: ¡ª Como assim voc¨º vai se formar no primeiro ano?! Sorri. ¡ª Porque eu sou um g¨ºnio, idiota. ¡ª Quem voc¨º chamou de idiota, seu merda?! Lembrei que Edwin n?o gosta quando eu xingo ele perto da Laine Ele veio correndo atr¨¢s de mim furioso, e Laine tentou acalmar a situa??o. ¡ª Parem com isso, voc¨ºs dois! Eu ria enquanto corria. De alguma forma, sem perceber, me vi envolvido nessa amizade inesperada. Eu comecei a notar que eu poderia me divertir rir bastante eu sinto que essa n?o ¨¦ a minha verdadeira personalidade, ali¨¢s o anjo disse que eu me comporto assim por estar no corpo de uma crian?a. Convoca??o dos Cavaleiros No dia da formatura, um cavaleiro misterioso apareceu para falar com nosso professor. Meus pais estavam na cerim?nia, comemorando comigo e com Sara, j¨¢ que n¨®s dois nos formamos juntos. No meio da festa, o professor nos chamou para a sala do diretor. Quando entramos, Laine e Edwin j¨¢ estavam l¨¢, acompanhados pela m?e de Edwin e pelo cavaleiro. O diretor olhou para n¨®s e disse: ¡ª Chamei voc¨ºs aqui por um motivo especial. O cavaleiro nos analisou com um olhar s¨¦rio. Ele n?o vestia uma armadura completa, apenas um peitoral de a?o e um manto negro. ¡ª Eu sou um cavaleiro do rei e protejo estas cidades. Estamos com muitas baixas, e precisamos de novos recrutas. Ele fez uma pausa, antes de continuar: ¡ª Tr¨ºs alunos foram recomendados como promissores para se tornarem cavaleiros. Eu engoli em seco. ¡ª Edwin Deveraux, h¨¢bil com magia de fogo. Edwin cruzou os bra?os, orgulhoso. ¡ª Laine, com grande potencial para se tornar uma maga m¨¦dica. Ela arregalou os olhos, surpresa. ¡ª E L¨¢zaro Martins, apesar da pouca idade, j¨¢ demonstra talento excepcional no combate corpo a corpo. Minha m?e se manifestou imediatamente: ¡ª L¨¢zaro ¨¦ muito novo para ser cavaleiro! O cavaleiro n?o hesitou: ¡ª Os monstros est?o ficando mais fortes, senhora. Precisamos de recrutas. Minha m?e hesitou, mas ent?o o cavaleiro jogou a carta final: ¡ª Esta ¨¦ uma ordem do Imperador. Sil¨ºncio. E foi assim que, aos oito anos, minha vida tomou um rumo diferente.