《Sacrilégio Inepto [Português-Brasileiro]》 01 - Igni??o ao Caos Meus dedos pressionavam e circulavam o ferro, mantendo-me no caminho reto. Meus p¨¦s giravam os pedais em um ritmo quase simultaneo. O suor escorria, denunciando o esfor?o; fazia anos que eu n?o me dedicava assim. Logo no primeiro dia de aula, eu enfrentava uma ladeira ¨ªngreme e curva. O topo parecia inalcan?¨¢vel. Eu j¨¢ perdia as esperan?as. ¡ª Mas que droga... era melhor ter ido andando, que saco. Assim eu vou perder as boas vindas do diretor! ¡ª Murmurei, Exausto. N?o demorou muito para que eu avistasse algumas pessoas seguindo pelo mesmo caminho que ¨¤ mim, e ainda por coincid¨ºncia, com uniformes semelhantes ao meu, caminhando em dire??o ¨¤ escola. N?o havia d¨²vidas: eu estava perto. De tempos em tempos, tamb¨¦m havia carruagens elegantes que passavam, conduzindo alunos da mesma escola. Suas roupas impec¨¢veis e a postura altiva faziam-me sentir menor, como se a distancia entre n¨®s fosse muito mais do que aquela ladeira. Enquanto eles chegavam com facilidade, eu me arrastava. Era imposs¨ªvel n?o sentir uma pontada de amargura. N?o era inveja, mas aquela velha sensa??o de n?o pertencer. Naquele instante, eu parei de pedalar, coloquei meus p¨¦s sobre o ch?o sentindo uma vergonha quase insuport¨¢vel, imaginando aquelas pessoas me vendo assim: suado, com as roupas manchadas de poeira e o cabelo desarrumado. O contraste era evidente. Talvez tivesse sido melhor vir a p¨¦. Afinal, eu sou Levi Valdrius, herdeiro de uma das fam¨ªlias mais prestigiadas de Eldoria, e futuro "Grande Rei Mago". Ser visto nesse estado era impens¨¢vel. Um Valdrin como eu, cambaleando e empurrando uma bicicleta velha, seria motivo de risos e cochichos. Humilhante, admito. Mas o que eles nunca entenderiam ¡ª e talvez nem precisassem ¡ª era de que minha vida nunca dependeu de falas apar¨ºncias. Nunca fugirei de nada! E n?o seria hoje que isso aconteceria. Nunca foi sobre manter o orgulho intacto. Eu conhecia o peso do meu sobrenome, mas tamb¨¦m sabia o que era carregar minhas pr¨®prias batalhas. Suor e exaust?o eram provas de que eu ainda estava aqui, persistindo. Era continuar, mesmo quando o mundo tentava me parar. ¡ª Mas no que eu estava pensando? Eu irei subir essa ladeira custe o que custar! ¡ª gritei para mim mesmo, enchendo-me de determina??o. Com um surto de energia, acelerei as pedaladas, ignorando a inclina??o ¨ªngreme. ¡ª Vamos l¨¢! Do que adianta se... Minha bicicleta rugiu. A corrente travou, os pedais cairam. O susto e o foco na subida me impediram de reagir a tempo. Meus p¨¦s escorregaram, e meu instinto me fez girar o corpo para me proteger. O ch?o era duro como pedra, e eu sabia que aquilo ia doer. A ¨²ltima coisa que consegui dizer foi: ¡ª Droga...! Foi uma fatalidade miser¨¢vel. Eu estava t?o perto do topo, mas sequer consegui alcan?ar o final. Meu corpo ficou ali, ca¨ªdo no ch?o. Alguns arranh?es, nada grande o suficiente para virar lembran?a. Por sorte ¡ª ou azar ¡ª, a rua estava vazia. Deserta, como se estivesse abandonada, como se eu tivesse sido abandonado. Mas eu n?o podia ficar ali. Precisava chegar ¨¤ escola, custasse o que custasse. E n?o era s¨® uma mera escola. Era aquela escola. O tipo de lugar que parecia reservado a pessoas que j¨¢ nascem predestinadas a grandes feitos. O que n?o era o meu caso. Diferente dos meus irm?os, para quem tudo parecia natural, como se o destino tivesse tra?ado um caminho claro e reto. Os sempre admirei por isso ¡ª e, no fundo, sempre doeu. Eu tropecei em cada passo. Me matricular nesse lugar foi a coisa mais dif¨ªcil que j¨¢ fiz. Cada obst¨¢culo parecia um lembrete cruel de que eu estava for?ando uma porta que nunca foi feita para mim. E, ¨¤s vezes, me pergunto: eu deveria estar aqui? Essa d¨²vida me persegue como uma sombra, sussurrando que sou uma farsa. Que, por mais que tenha lutado, nunca ser¨¢ suficiente. Que este lugar pertence a quem nasceu para ele, n?o a quem precisa implorar por uma chance. Mas eu continuo. Porque, no fundo, mesmo que eu esteja nadando contra a corrente, eu n?o consigo ¡ª ou talvez n?o saiba ¡ª desistir! Levantei a bicicleta. Minhas pernas pesavam. N?o por agora, mas por tudo que me trouxe at¨¦ aqui. Meu pai sempre dizia que nossa fam¨ªlia carregava a persist¨ºncia como um fardo de honra. E, em dias assim, eu entendia. "Somos muitos" ¡ª mais do que o normal ¡ª e cada um trilhou seu pr¨®prio caminho, sempre inalcan?¨¢vel. Eu fui ficando para tr¨¢s. N?o por falta de esfor?o, mas porque meu passo sempre foi mais curto. Mais hesitante. Subi a ladeira sem pressa, sem raiva. Cada passo era um lembrete de quem eu era. N?o o mais r¨¢pido, nem o mais forte. Mas aquele que nunca desistia. E talvez isso fosse o suficiente. "S¨® mais uma das tantas coisas miser¨¢veis que acontecem no meu dia a dia", pensei. --- Ao chegar ¨¤ escola, me deparei com a entrada movimentada. O grande port?o de ferro, adornado com s¨ªmbolos, que se abriam sem parar, recebendo novos alunos. Havia grandes carruagens luxuosas que despejavam estudantes bem-vestidos, eles trocavam cumprimentos animados entre si. Vinculos sociais e pol¨ªticos, isso era mais uma das chances que essa escola podia proporcionar. Outros vinham a p¨¦ como eu, alguns sozinhos, outros em grupos, discutindo suas expectativas para o primeiro dia. Parei diante do port?o, impressionado com sua grandiosidade. Ladeado por um m¨¢rmore robusto, ostentava entalhes minuciosos formando a marca da escola: uma sereia. Mas n?o era apenas um emblema qualquer. Seu olhar entalhado com orgulho parecia sondar quem passava, sua cauda sinuosa terminava em uma ponta afiada. A pr¨®pria met¨¢fora do que diziam sobre as sereias: belas, encantadoras, mas letais. Essa escola seguia o mesmo princ¨ªpio. Aqui, n?o bastava ser intelig¨ºnte; era preciso usar as pr¨®prias qualidades como armas. Para alguns, um dom natural. Para outros, uma conquista. Quem passava por aqueles port?es aprenderia a se defender - ou atacar, se fosse necess¨¢rio. Quem n?o fosse digno... se perderia. Quando finalmente desviei os olhos do port?o e dei o primeiro passo, uma voz ecoou: ¡ª O que um "inseto" est¨¢ fazendo aqui? Se perdeu no caminho para o lix?o? ¡ª Hum... come ¨¦ que ¨¦? ¡ª perguntei franzindo a testa, surpreso. Era um garoto da minha idade. Vestia um sobretudo preto sobre o uniforme da escola, marcado pelo emblema da sereia. Cabelos desgrenhados, dentes pontiagudos ¡ª o tipo de pessoa que transparecia mal¨ªcia. ¡ª Calma, Roxin ¡ª disse outro, hesitante. ¡ª Acho que j¨¢ vi esse cara em algum lugar antes... ele n?o me ¨¦ estranho. ¡ª E da¨ª?! ¡ª rosnou Roxin. ¡ª Um lixo como ele n?o deveria estar no meu campo de vis?o, muito menos na frente da minha escola Dermix! ¡ª Seus olhos se estreitaram ao notar minha bicicleta. ¡ª E ainda veio assim? Por que n?o sai logo da minha frente antes que eu fa?a? Suspirei, tentando ignorar o inc?modo. ¡ª Olha, cara, podemos s¨® fingir que isso n?o aconteceu. Afinal, se n?o percebeu, estou vestindo o mesmo uniforme que voc¨º. Sou um aluno dessa escola, deve saber o que isso significa. ¡ª Isso l¨¢ importa, seu lixo? ¡ª Ele riu. ¡ª Esse seu rosto feio e desagr¨¢davel entrega sua linhagem... podre. Minha paci¨ºncia j¨¢ estava no limite. ¡ª Melhor calar a boca antes de que eu tenha... Antes que eu terminasse, o p¨¦ dele subiu. Num instante, minha bicicleta estava no ch?o, o metal tilintando no impacto. Cerrei os punhos. ¡ª Mas que droga foi essa? Roxin avan?ou, rosto pr¨®ximo ao meu. O sorriso afiado brilhava. ¡ª Anda, rato. Me mostra do que ¨¦ capaz. Se acha que um lixo como voc¨º pode simplesmente entrar na minha escola, est¨¢ muito enganado. Eu te ordeno, leve sua tralha para bem longe daqui. Meu sangue fervia. Isso acontecia sempre. Desde pequeno, me tratavam diferente dos meus irm?os, como se eu fosse inferior. Talvez fosse minha apar¨ºncia mais "plebeia". Talvez meus olhos gentis demais. Mas, no fim, s¨® existia uma forma de lidar com isso. Soltei um suspiro, relaxando os ombros. ¡ª Parece que voc¨º n?o me reconheceu. ¡ª E da¨ª? Some antes que eu te fa?a sumir. ¡ª Roxin estufou o peito. ¡ª Apesar da escola Dermix aceitar fam¨ªlias menores, eu, como herdeiro da fam¨ªlia Dermix, vou mudar isso com minhas pr¨®prias m?os! ¡ª Hah ¡ª Ao ouvir suas palavras, risadas se afrouxam nos meus labios. ¡ª Ei! Do que t¨¢ rindo, seu lixo? ¡ª Do seu sonho. Ele ¨¦ t?o est¨²pido que me deu dor de barriga. ¡ª Q-que?! ¡ª Levi. ¡ª interrompi, encarando-o de frente. ¡ª Herdeiro mais jovem da lend¨¢ria linhagem dos magos. Filho leg¨ªtimo da fam¨ªlia Valdrius. Descendente direto de Virgil Valdrius e Gl¨®ria Valdris. E, a partir de hoje, o mais novo aluno da Escola Dermix. Muito prazer. O sil¨ºncio se espalhou. Alunos ao redor pararam para olhar. Roxin recuou um passo, olhos arregalados. ¡ª U-um... Valdrin? Aqui?! Eu... eu n?o sabia...! Aproveitei a chance e ergui a bicicleta, limpando a poeira. Minha express?o era calma, mas meu olhar, firme. ¡ª N?o precisam ficar tensos ¡ª sorri. ¡ª Aposto que est?o animados para o primeiro dia, assim como eu. Roxin e seu amigo trocaram olhares estranhos. Eu j¨¢ conhecia essa rea??o. Meus irm?os eram frios como pedra. Eu, por outro lado, sempre fui mais... descontra¨ªdo. ¡ª Cara... voc¨º pode ter mexido com um Valdrin... ¡ª Tch... ele t¨¢ mentindo. Tem que estar. ¡ª Roxin estreitou os olhos. ¡ª Voc¨º tamb¨¦m acha, n¨¦? ¡ª ¨¦-¨¦ claro... Apesar do cabelo carmesim do cl? Valdrius, do s¨ªmbolo da fam¨ªlia no ombro e da impon¨ºncia de um Valdrin... voc¨º realmente acha que algu¨¦m t?o sorridente e... "feio" quanto ele pode ser um deles? ¡ª Pois ¨¦... Voc¨º tem um ponto forte. ¡ª Olha, eu t? ouvindo tudo, viu? Eles se sobressaltaram, mas continuaram sussurrando. Alguns alunos que passavam riram discretamente. Desde pequeno, tive uma audi??o afiada. Meu tato distinguia cheiros de todos os tipos, meus reflexos eram r¨¢pidos, minha vis?o captava qualquer movimento. Atributos perfeitos para um... ¡ª Grande Mago! Percebi que falei alto. Mais alunos me olharam. Roxin parecia cada vez mais confuso. ¡ª Se preferem ficar cochichando para sempre, fiquem ¨¤ vontade ¡ª anunciei, cruzando o port?o. ¡ª Mas eu vou entrar agora! O burburinho crescia. A Escola M¨¢gica Dermix n?o era qualquer institui??o; formava a elite dos magos de Eustacia. Somente descendentes de grandes linhagens estudavam ali. Os alunos vestiam trajes refinados, cada uniforme ostentando ins¨ªgnias das casas de onde vinham. Os Nox, mestres das sombras. Os Volkaris, dominadores do fogo. Os Sylphires, especialistas em vento e espionagem. E, claro, os Valdrius, uma das linhagens mais poderosas da hist¨®ria m¨¢gica. Mas eu, Levi Valdrius, nunca fui tratado como um verdadeiro herdeiro dessa casa. Roxin e seu amigo notaram a aten??o que eu atra¨ªa. O garoto ao lado dele pigarreou: ¡ª Roxin, se ele realmente for um Valdrin... tem direito de estudar aqui, n?o importa o qu?o fraco pare?a. Roxin cerrou os olhos, avaliando-me de cima a baixo. Sua express?o oscilava entre incredulidade e desprezo. ¡ª Eu j¨¢ li tudo sobre os Valdrin ¡ª murmurou. ¡ª E tenho certeza de que ele n?o est¨¢ entre eles. O cl? Valdrius teve muitas ramifica??es antes de se tornarem uma linhagem fechada. Ele deve ser de um ramo distante. Algum bastardo esquecido. Ele estava perto da verdade. Mas n?o precisava saber disso. E foi assim que tudo come?ou. --- --- A sala era ampla, iluminada por janelas que refletiam a luz do sol em cristais flutuantes. A mulher ¨¤ minha frente parecia et¨¦rea em suas vestes brancas, quase parte da decora??o da escola. Mas havia algo no sorriso dela... algo que me inquietava. Ela segurava uma prancheta com anota??es que eu n?o conseguia ler, mas que claramente falavam de mim. Um pressentimento ruim se formava no meu peito. Ent?o, com a voz treinada e serena, ela disse: ¡ª Eu sinto muito... Minha respira??o falhou. Meus dedos tremeram. ¡ª Mas seu n¨ªvel de poder m¨¢gico n?o chega nem perto da m¨¦dia. Pisquei, confuso. Certamente ouvi errado. Isso n?o fazia sentido. Meu peito apertou, meus m¨²sculos travaram. Para um mago, a afinidade m¨¢gica era tudo. Era o que definia sua exist¨ºncia. Algu¨¦m com alta afinidade aprendia feiti?os complexos em meses. Com uma afinidade mediana, levava anos. Mas para algu¨¦m como eu... Minha mente girava. Se fosse verdade, algo t?o b¨¢sico quanto conjurar uma bola de fogo poderia levar d¨¦cadas. Meu reservat¨®rio de mana seria insignificante. Eu nunca teria poder suficiente para grandes feiti?os. Nunca teria o talento natural que esperavam de um Valdrin. ¡ª O qu¨º? Isso ¨¦ imposs¨ªvel... ¡ª minha voz saiu fraca, um sussurro carregado de incredulidade. ¡ª Eu sou um Valdrin! De sangue puro! Isso ¨¦ um absurdo, como algu¨¦m como eu, da linhagem dos magos poderia n?o ter afinidade m¨¢gica?! A mulher inclinou a cabe?a, for?ando uma express?o compreensiva, mas o sorriso falso permaneceu. ¡ª Seus testes indicam uma conex?o extremamente fraca com qualquer tipo de energia arcana. As palavras dela me atingiram como um soco no est?mago. Todo o ar pareceu sumir da sala. ¡ª Isso ¨¦... alguma pegadinha, n¨¦? ¡ª balbuciei, a garganta seca. ¡ª Meus irm?os planejaram isso com voc¨º? Isso est¨¢ sendo filmado neste momento, n¨¦? n¨¦? NEEE¨¦???!! ¡ª Me escuta! Ela tocou nos meus ombros, mas eu mal conseguia sentir. Seu olhar se misturava com pena e indiferen?a, como se estivesse acostumada a dar esse tipo de not¨ªcia. ¡ª Voc¨º pode continuar estudando aqui. ¡ª disse, ajustando a prancheta. ¡ª Mas sem uma afinidade s¨®lida... Isso n?o importa, concerteza vai ser melhor trazer n¨®ticias boas para casa do que fazer esse momento uma perda de tempo, confie no que eu digo. Ela falou como se n?o estivesse destruindo tudo o que eu sonhava. Como se n?o estivesse me arrancando qualquer esperan?a. ¡ª Eu n?o ligo... ¡ª Significa que escolheu ficar? ¡ª Eu disse... ¡ª ergui a voz, os olhos ardendo entre vergonha e f¨²ria. ¡ª Que n?o ligo para ¨¤ merda dessa escola! Ela recuou, surpresa com o meu tom. ¡ª Eu vou para casa e vou relatar isso. Vou contar a todos o qu?o irrespons¨¢veis s?o os instrutores do Col¨¦gio Dermix! E n?o pense que vai sair impune assi... professora. Gritei, minha voz ecoando pela sala. N?o esperei resposta. Sa¨ª com passos firmes, sentindo algo se partir dentro de mim a cada passo. Atravessar os corredores foi como um furac?o, ignorando olhares e sussurros curiosos. Ao passar pelos port?es, soltei um suspiro pesado. O mundo l¨¢ fora parecia grande demais. Ou talvez vazio demais. N?o olhei para tr¨¢s. Apenas subi na minha bicicleta e parti rumo para casa. O vento frio batia no meu rosto, mas n?o era o suficiente para aliviar o calor que subia pelo meu corpo. Raiva, vergonha e algo mais do qual eu n?o queria nomear. --- --- --- Meus olhos estavam fixos na parede de musgo ¨¤ minha frente. Alta, ladrilhada com tijolos firmes, inabal¨¢vel pelo tempo ¡ª diferente de mim. Apoiei a testa ali, buscando algo s¨®lido enquanto minha mente se debatia. Meu peito subia e descia r¨¢pido. ¡ª Senhor, voc¨º est¨¢ bem? Parece que sua respira??o se alterou de repente. ¡ª uma voz doce rompeu meu isolamento. Virei o rosto. E vi Hera, a cavaleira real da fam¨ªlia Valdrius, me observava. Sua armadura prateada brilhava ao sol, adornada com detalhes vermelhos do meu cl?. Sempre fora a ¨²nica capaz de me arrancar da solid?o sufocante da mans?o. ¡ª N?o foi nada, Hera ¡ª forcei um sorriso. ¡ª S¨® preciso de ar. Ela cruzou os bra?os. ¡ª Mas ¨¦ s¨¦rio, herdeiro Levi... ¡ª seu tom carregava incredulidade. ¡ª Ainda acho estranho que algu¨¦m como o senhor seja uma porcaria em magia. As palavras dela perfuraram sem cerim?nia. Hera sempre foi assim, direta, mesmo sem perceber quando mexia em feridas abertas. Talvez fosse isso que me fazia gostar tanto dela. ¡ª Realmente... muito estranho ¡ª murmurei, mais para mim do que para ela. Hera franziu a testa, os punhos cerrados. Seu rosto era quase infantil, mas sua postura exalava determina??o. ¡ª Poxa~, eles nem refizeram o teste? Isso ¨¦ um absurdo!? Esse col¨¦gio ¨¦ um dos piores que j¨¢ existiu! Ri, mas o som saiu seco. ¡ª Para falar a verdade, eu j¨¢ sentia isso... ¡ª Como assim senhor Levi? ¡ª ela estreitou os olhos. Suspirei, voltando o olhar para a parede. ¡ª ¨¦ um segredo da fam¨ªlia Valdrius, mas vou te contar mesmo assim. ¡ª Pausa. ¡ª Dizem que os magos despertam aos doze anos de idade, mas os Valdrianos fogem dessa regra. Nossa magia se manifesta muito antes. Eu j¨¢ deveria ter conseguido elevar minha mana h¨¢ anos. Mas fui bobo, Hera. Me agarrei ¨¤ esperan?a de estar errado. Ela ficou em sil¨ºncio, os olhos vermelhos ¡ª quase um reflexo da cor do meu cl? ¡ª carregando uma mistura de empatia e raiva. ¡ª Isso n?o importa! Seu sangue n?o deveria te fazer sofrer assim. Isso simplesmente n?o faz sentido! ¡ª sua voz quase falhou. ¡ª Voc¨º ¨¦ o herdeiro do cl?. Como pode n?o ter afinidade com magia? Isso ¨¦ injusto. Ela parou, mas o peso do que n?o disse pairava entre n¨®s. ¡ª ¨¦... eu tamb¨¦m queria acreditar nisso ¡ª murmurei, fixando os olhos nos tijolos como se fossem meu ¨²nico ponto seguro. ¡ª Mas n?o tem como fugir da realidade... Hera desviou o olhar, desanimada. Sua raiva desmoronou em uma tristeza silenciosa. ¡ª Olha, eu t? bem! ¨¦ serio. ¡ª forcei um sorriso, tentando disfar?ar o n¨® na garganta. ¡ª Logo isso vai passar... que logo, logo, eu estarei revigorado novamente para partir em uma nova aventura. Dei um passo ¨¤ frente, mas parei diante da parede de musgo, como se fosse um portal para um destino que eu ainda temia. Hera permaneceu quieta, mas seu olhar carregava uma preocupa??o genu¨ªna. Ent?o, sua voz veio suave, mas s¨¦ria: ¡ª Mas como vai ser daqui para frente, senhor Levi? Eu temo por sua vida... temo por seu futuro... temo que voc¨º possa n?o ter um final... Respirei fundo. O peso daquelas palavras me atingiam com uma for?a admir¨¢vel. Ela se importava. E isso significava mais do que ela podia imaginar. ¡ª Apesar de tudo, eu n?o sou fraco! ¡ª Um sorriso bem for?ado apareceu em meu rosto, tentando sumir com aquela melancolia ao meu redor. ¡ª ainda que sem minha magia herdada da minha fam¨ªlia, sem a ajuda do meu pai para com meu futuro ou a confian?a dos meus irm?os nas minhas conquistas... ¡ª Dei um passo ¨¤ frente, me colocando de forma mais ereta, tentando parecer confiante. ¡ª Mesmo que eu ca¨ªsse no fim de um po?o sem fundo, eu ainda me ergueria... sabe por qu¨º? Ela hesitou, balan?ando a cabe?a lentamente. ¡ª Eh... N?o. Meu cora??o acelerou. Olhei para ela, firme. ¡ª Porque, apesar de tudo, eu sou Levi Valdrius. E os Valdrius n?o sabem desistir. Um sorriso t¨ªmido, mas sincero, surgiu. A express?o de Hera suavizou. Ela ainda n?o entendia completamente o que eu enfrentava, mas sabia de uma coisa: eu n?o cairia t?o facilmente. ¡ª Espero que esteja certo, Levi... espero mesmo ¡ª murmurou. E eu sabia que estava. ¡ª Aperta Ianua. A parede tremeu. O musgo caiu em fragmentos enquanto ela se abria devagar. Ent?o, a vis?o surgiu: Diante de mim, um mar escarlate se estendia sem fim ¡ª rosas vermelhas cobrindo o gramado como se fossem o pr¨®prio sangue da terra. As colinas suaves abra?avam o horizonte, erguidas como sentinelas que tocavam o c¨¦u dourado pelo sol. E no cora??o desse quadro imortal, o Pal¨¢cio da fam¨ªlia Valdrius erguia-se, imponente e eterno, sua presen?a gravada na pr¨®pria hist¨®ria. A trilha que levava at¨¦ seus port?es era um caminho de honra e heran?a, ladeado por flores que floresciam em devo??o silenciosa. No alto, onde o vento sussurrava segredos antigos, a bandeira do cl? tremulava com orgulho inabal¨¢vel. Seus detalhes dourados entrela?avam-se em c¨ªrculos perfeitos ¡ª s¨ªmbolos de uma linhagem que jamais seria esquecida. Era mais do que um lar. Era um trono esculpido pelo tempo, um juramento costurado no destino. E um dia... aquele s¨ªmbolo voltaria a se erguer com um novo significado. ¡ª Finalmente em casa... ¡ª murmurei, tentando ignorar o peso nos ombros. ¡ª Mal posso esperar para ver meu pai... --- --- --- Quando entrei no escrit¨®rio do patriarca, algo estava errado. O ambiente, normalmente majestoso, agora parecia opressor. Todos os meus irm?os estavam enfileirados nas laterais, como soldados aguardando ordens. Meu pai e minha m?e estavam sentados ¨¤ frente, no centro, seus olhares n?o carregavam o acolhimento que eu esperava. Havia raiva neles. Muita raiva. Meu pai era um homem robusto, com cabelos grisalhos que emoldurava um rosto marcado pelo tempo em que o mundo estava presente. A minha m?e ao seu lado, era uma bela mulher com uma cortesia deslumbrante, seus cabelos negros e olhos afiados eram um detalhe crucial na sua beleza. Mas contrastando com sua raiva, a beleza era contr¨¢ria ¨¤ situa??o atual. O sil¨ºncio era perturbador, mas n?o por muito tempo. ¡ª Voc¨º... ousou manchar o "Sangue Valdriano". ¡ª A voz do meu pai, ou melhor, do patriarca, ecoou pelo ambiente com uma frieza cortante. ¡ª E, como puni??o, devemos decidir o que fazer com voc¨º. Meu peito apertou. ¡ªMas pai... ¡ª N?O ME CHAME DE PAI! ¡ª ele rugiu, levantando-se da cadeira com uma aura avassaladora. ¡ª Eu sou o patriarca desta casa! Me chame pelo t¨ªtulo que me ¨¦ devido. Agora, anuncio: haver¨¢ uma vota??o! ¡ª Vota??o! ¡ª Vota??o! ¡ª Vota??o! Os gritos explodiram de todos os lados, como se eles tivessem aguardado por esse momento. Meus irm?os pareciam diferentes, como feras que finalmente encontraram uma presa. Alguns riam de mim, outros me olhavam com desd¨¦m, e havia os que apenas esperavam, mas com um brilho cruel nos olhos. ¡ª A vota??o come?ou, pe?o a todos voc¨ºs que sejam pacientes com suas escolhas. ¡ª come?ou o patriarca, sua voz imponente calando todos os outros. ¡ª Voc¨ºs querem que seu irm?o mais novo seja "executado"? ¡ª Isso, acaba com ele! ¡ª um dos meus irm?os berrou. ¡ª Por que deixar um sangue impuro como ele aqui com a gente? ¡ª gritou outro. ¡ª Ele merece muito mais do que apenas uma morte! Era um caos. Vozes exaltadas, risos insanos. Eles estavam sedentos, consumidos por algo que eu n?o conseguia compreender. ¡ª Chega. A voz do patriarca cortou o ar como uma lamina afiada. A tens?o foi imediata, sufocante. Uma aura opressora se espalhou pelo sal?o, e no instante seguinte, o sil¨ºncio reinou absoluto. Era como se ele tivesse o poder de interromper n?o apenas as palavras, mas os pr¨®prios batimentos card¨ªacos daqueles que ousavam desafi¨¢-lo. ¡ª Agora... voc¨ºs est?o assustando seu irm?o mais novo, que ainda n?o compreendeu a situa??o em que se encontra. Permitam-me esclarecer. Ele se virou para mim, e seus olhos ardiam como brasas vivas, perfurando qualquer resqu¨ªcio de d¨²vida. O sal?o inteiro aguardava, expectante. O ¨²nico som que restava era minha pr¨®pria respira??o, lenta e pesada. ¡ª Voc¨º ¨¦ uma inc¨®gnita dentro de nossa linhagem. O primeiro, em s¨¦culos, a despertar uma afinidade m¨¢gica t?o grotesca... t?o dissonante. N?o lhe parece errado ¡ª S-Sim! ¡ª minha voz falhou por um momento, mas consegui responder, mesmo sabendo que aquilo n?o mudaria nada. Ele n?o esperava outra coisa. O peso das palavras dele me sufocava. ¡ª Se compreendes isso, ent?o tamb¨¦m compreendes por que somos implac¨¢veis com tua exist¨ºncia. ¡ª Ele fez uma pausa, seu olhar afiado como uma lamina atravessando minha alma. ¡ª N?o podemos permitir que um filho ileg¨ªtimo e indigno continue a manchar o nome da fam¨ªlia Valdrius; uma impureza que corrompe a perfei??o desta grandiosa obra. Nenhum nome, nenhum t¨ªtulo e nenhuma for?a externa te concedem o direito de permanecer onde n?o pertences. Sendo assim, n?o nos resta alternativa sen?o erradicar essa falha. A sala ficou em sil¨ºncio por um momento, mas a tens?o ainda era imensa. Eu podia sentir os olhares de desprezo e julgamento se fixando sobre mim, como laminas afiadas. ¡ª Com isso dito, voltamos ¨¤ vota??o. Descendentes Valdrius! Seu patriarca e sua monarca pergunta novamente ¨¤ voc¨ºs: preferem que seu irm?o, Levi Valdrius, seja executado ou... Exilado? O sil¨ºncio era profundo, a escolha devastadora. Eu sabia que n?o havia mais espa?o para discuss?o. A vota??o que se seguia era uma senten?a, e eu era apenas uma v¨ªtima em um jogo onde ningu¨¦m parecia se importar com quem eu realmente era. ¡ª Exilado~? ¡ª um irm?o zombou. ¡ª Um verme que n?o pode usar magia, sendo deixado pela fam¨ªlia nesse mundo, isso ¨¦: o mesmo que o executar. ¡ª ¨¦ verdade, deixar os plebeus brincarem com ele ser¨¢ muito mais divertido! ¡ª disse outro, rindo. Eu n?o conseguia respirar. Era como se o ar tivesse abandonado os meus pulm?es. Meu peito parecia prestes a explodir, e minhas m?os tremiam de forma incontrol¨¢vel. Meu corpo inteiro estava em um estado de colapso. Tudo ao meu redor era opressor, esmagador. A f¨²ria nos olhos dos meus irm?os, o julgamento silencioso - e ao mesmo tempo ensurdecedor - dos meus pais, a frieza implac¨¢vel do patriarca... Era demais. Eu queria gritar, mas minha voz estava presa, sufocada. A press?o daquele momento estava me despeda?ando. ¡ª Ent?o eu declaro ¡ª a voz do patriarca, cortante como lamina, ecoou pela sala, cada palavra pesada com uma autoridade que s¨® ele possu¨ªa. ¡ª Levi Valdrius, diante dos olhos de seus irm?os e sob o peso de nossa linhagem, eu te despojo de teu nome, de tua heran?a e de teu direito. N?o ¨¦s mais meu filho, nem ¨¦s mais um Valdrius. Que os ventos te carreguem para longe deste reino, pois daqui em diante, tua sombra n?o manchar¨¢ mais estas terras. Eu mal consigo lembrar os detalhes daquele dia. Tudo se transformou em sombras enevoadas em minha mente, partes de um passado distante que eu daria de tudo para esquecer. S¨® o que restou foi a lembran?a de um c¨¦u cinzento, uma chuva incessante, e eu, sozinho, com uma mala marrom em m?os. Dentro dela, havia pouco: um cajado pequeno que canalizava magia ¡ª perfeito para novatos ¡ª, mas que mais parecia um peso in¨²til em minhas m?os. Tamb¨¦m havia alguns livros de receitas. Nada poderia ser mais simb¨®lico da minha derrota. Naquele dia, eu perdi tudo. Meu lar, minha honra, minha identidade. Tudo se desfez como areia ao vento. Depois disso, comecei a vaguejar pelas cidades filiadas a outros cl?s, tentando sobreviver enquanto evitava os territ¨®rios do meu pr¨®prio sangue. N?o era dif¨ªcil passar despercebido; ningu¨¦m sabia que o filho mais novo de Virgil Valdrius, o herdeiro de um dos cl?s mais poderosos, havia sido exilado. Mas, na verdade, eu n?o tinha para onde ir. Nos territ¨®rios do meu cl?, as pessoas me olhavam com nojo: "Impuro", "fracassado", "lixo". E logo, todos souberam da minha queda. Love this story? Find the genuine version on the author''s preferred platform and support their work! Eu fugi, corri o mais r¨¢pido que, tropecei, mais do que consigo imaginar, mas cheguei onde queria. E por um tempo, consegui ficar em paz em uma vila isolada de tudo. L¨¢, eu pude viver como uma pessoa normal, nenhuma liga??o de sangue, nada prometido pelos c¨¦us, eu podia viver sem nenhuma preocupa??o. At¨¦ o dia em que fui expulso outra vez, sob o olhar de desprezo de todos os moradores, chegaram quebrando os m¨®veis do casal de idosos que me ajudaram ¨¤ me erguer novamente, eles tinham nada haver com isso, e mesmo assim. N?o tive outra escolha, eu fugi outra vez, com as portas da vila se fechando atr¨¢s de mim. A mesma cena se repetia, o peso caindo sobre meus ombros, o mesmo olhar abatido em meu rosto e o fardo de minha mediocridade aparecendo na minha frente, e fato era, eu tinha que aceitar isso, essa era a verdade, mas ainda assim... t?o frustrante. Por¨¦m, um ilustre arraiar surpresa espreitou minha indigna??o, apesar do ¨®dio dos alde?s, ainda existia uma exce??o. Duas pessoas ¡ª um casal, os dois alde?es gentis que me ajudaram muito durante minha estadia. Eu tinha uma d¨ªvida com eles. Eles vieram at¨¦ mim, tr¨ºmulos, com os olhos cheios de tristeza. Eu nunca os tinha visto daquela maneira. Achei que iriam me culpar, me bater ¡ª eles tinham todo o direito, eu n?o iria reclamar. Mas, mais uma vez, o velho casal me estendeu as suas m?os e, com elas, um saco pesado que carregavam consigo. Deram-me o que podiam ¡ª um escudo velho e uma espada que j¨¢ tinha visto dias melhores. O metal estava gasto, o cabo da espada solto, mas eram ferramentas dadas de cora??o. Eu n?o consegui entender, com minhas m?o tremulas e com os olhos cheios de l¨¢grimas, eu os agradeci, e n?o conseguir conter meu sorriso, eles me retribu¨ªram com um sorriso alegre tamb¨¦m, desejando-me boa sorte. No meio do caminho eu refleti sobre o que aconteceu naquela vila, viver em sociedade novamente era praticamente invi¨¢vel enquanto a hist¨®ria sobre o filho il¨¦gitmo da f¨¢milia Valdrius rondar este mundo. Portanto, eu decidir que n?o iria mais machucar n¨ªnguem, portanto ¡ª irei viver isolado. Na minha viagem, encontrei o lugar perfeito: o topo de uma montanha, coberto por uma floresta densa. Ouvi secretamente dos alde?es da vila pr¨®xima que a montanha era cercada por hist¨®rias sobre monstros. Quando escutei isso, percebi que seria perfeito. Mas outro sentimento obscuro surgiu em mim. Talvez eu estivesse pensando que, quando fosse l¨¢, pudesse apenas para esperar que tudo acabasse em algum momento, que os monstros saciassem sua fome. Um sorriso c¨ªnico me agarrou. Eu n?o j¨¢ n?o via mais motivo para viver. Ver os outros sofrerem por minha causa... Tudo era t?o sem sentido. Parecia que a vida tinha perdido sua gra?a. Ent?o me joguei nessa ideia. Subi aquela montanha, tr¨ºmulo, mas decidido. Mas, na escurid?o, pequenos lampejos de luz me mantiveram em movimento. Sentado sobre um rochedo, ouvi rosnados distantes, que logo se tornaram mais pr¨®ximos, mais implac¨¢veis. Ent?o, sa¨ªram de entre as ¨¢rvores: uma matilha de lobos de tr¨ºs cabe?as, seus olhos brilhavam como fogo. A fome deles era palp¨¢vel, e eu sabia que n?o me restava muito tempo antes que fosse tarde demais. Segurei o saco de equipamentos daquele casal gentil e o joguei no ch?o. Por que me defender? N?o foi com esse prop¨®sito que eu vim aqui. Minha espada e escudo estavam ali, espalhados, mas era em v?o. Meu corpo tremia. Minha respira??o ficava mais sufocante. Aquelas criaturas eram duas vezes maiores do que eu. Eu n?o tinha qualquer chance. Os lobos estavam famintos, ¨¢geis. O ataque veio r¨¢pido. Talvez tenha sido instintivo. Coloquei o escudo rapidamente no peito, mas n?o era o que eu queria fazer. Foi meu corpo pedindo para viver. S¨® que n?o foi o suficiente para aparar aquele ataque. A besta usou todas as suas cabe?as e se lan?ou contra mim, me empurrando para tr¨¢s com uma for?a tremenda. O impacto reverberou nos meus ossos. Cambaleei para tr¨¢s, o escudo quase me derrubando. As feras restantes da matilha come?aram a me cercar. J¨¢ tinham planejado tudo. Com um grito gutural, empurrei o escudo contra as cabe?as da besta e a afastei. Olhei para baixo. Eu estava pisando sobre a espada. E ent?o pensei: "Eu posso matar essa criatura, mas... eu n?o vim aqui para isso." Desde que nasci, fui depreciado pelos meus guardi?es ¡ª meus pais. Nunca vi um sorriso em seus rostos quando me observavam. N?o importava o que eu conquistava. Podia correr mais r¨¢pido que um veado, acertar dez flechas no mesmo ponto cr¨ªtico do alvo, ou at¨¦ mesmo levantar uma imensa pedra de platina. Eles nunca se impressionaram. Nunca me elogiaram. Eu me sentia um est¨²pido, tentando impressionar uma plateia que n?o se importava com o piadista. Meu palco, apesar de cheio, parecia vazio. Mas isso podia mudar. Eu podia mudar. Rebati a espada sobre meu p¨¦. Ela girou algumas vezes no ar. Mas, com olhos atentos e um corpo ¨¢gil, peguei-a no tempo exato. E ent?o a ergui brutalmente contra a barriga do monstro. A lamina encontrou resist¨ºncia, mas ent?o cortou a carne como manteiga. O monstro urrou de dor. Ele caiu. Mas o que se seguiu foi uma onda de f¨²ria ainda maior. Os outros lobos avan?aram, e eu sabia que n?o teria o mesmo tempo de rea??o. Com um movimento r¨¢pido, desviei de um ataque pela lateral, mas o lobo conseguiu rasgar a carne da minha perna com suas garras afiadas. O sangue quente escorreu pelo meu corpo, mas a dor foi ignorada. Eu n?o tinha tempo para ela. Com um grito abafado, cravei a ponta da espada na garganta do lobo mais pr¨®ximo, o impacto me fazendo quase cair de joelhos. Minhas for?as estavam se esgotando. De alguma forma, percebi que era veneno. Aquelas malditas bestas tinham veneno em suas garras. Bestas demon¨ªacas. Com o escudo pesado demais para continuar segurando, eu o derrubei e agarrei a lamina com as duas m?os. Mas a luta j¨¢ n?o dependia de habilidade ou for?a. Seria vencida por pura determina??o. Se eu n?o acabasse com essas criaturas antes que o veneno me consumisse, estaria acabado. Meu orgulho rejeitava essa ideia. Em um ¨²ltimo esfor?o, bloqueei um golpe mortal com a espada e empurrei o monstro para tr¨¢s. Mas a lamina n?o resistiu. Ela se partiu em peda?os. Restava apenas um fragmento preso ¨¤ bainha. Os lobos n?o recuavam. Eles eram incans¨¢veis. Eu estava cansado. E estava desarmado. Meus bra?os tremiam ao segurar a espada quebrada. Meus p¨¦s mal se firmavam no ch?o. Mas havia algo dentro de mim, algo que se recusava a ceder. Eu n?o morreria naquela floresta. N?o daquela forma. O ¨²ltimo lobo avan?ou, mand¨ªbula aberta. Recuei, depois dei um passo ¨¤ frente. A fera n?o tinha mais como parar. Era agora. Pulei sobre a criatura, cravando a lamina no peito dela. O monstro urrava de dor, mas n?o caiu. Ent?o continuei. De novo. De novo. De novo. De novo. At¨¦ que, finalmente, a besta tombou morta. Eu ca¨ª ao lado dela, o peso do cansa?o me dominando. O veneno estava me consumindo. O escudo e a espada destru¨ªdos estavam cobertos de sangue e terra. Mais pesados do que nunca. Eu havia sobrevivido, mas n?o sem um pre?o. As feridas queimavam. Minha respira??o era irregular. Mas, naquele momento, eu sabia que poderia seguir em frente. Minha vontade de viver ainda era maior que qualquer dor. Corri at¨¦ aquele vilarejo. Sem ressentimentos. Sem pensar no desprezo que poderiam sentir por mim. S¨® queria que, s¨® dessa vez, me ajudassem um pouco. Meu corpo sangrava, implorava por ajuda. Eu me sentia t?o fraco. Tanto fisicamente quanto mentalmente. Os alde?es entraram em frenesi. Me ajudaram. Cuidaram de mim. Trataram minhas feridas. O doutor do vilarejo repetia v¨¢rias vezes que, se eu tivesse chegado um segundo mais tarde, eu j¨¢ estaria morto. Seria isso Deus me ajudando? A d¨²vida se instalou na minha mente. Mas, mesmo sem nunca ter acreditado em algo assim, talvez... talvez essa tenha sido a ¨²nica vez em muito tempo que confiei em algu¨¦m. Alguns anos se passaram, e eu j¨¢ havia me recuperado dos meus ferimentos. Quando parti da vila, os olhares gentis dos alde?es se transformaram em puro ¨®dio. Foi ent?o que entendi de verdade: nunca poderei viver tranquilamente, assim como imaginei. Voltei ¨¤ montanha, sentindo que j¨¢ podia cham¨¢-la de meu lar. Mas algo me incomodava. De tempos em tempos, aventureiros passavam por essa floresta, t?o distante de qualquer reino. Era estranho. O ¨²nico pensamento que se passava em minha mente era que aquilo era um plano dos alde?es para me eliminarem. Eles acham que vou morrer t?o facilmente? Est?o sonhando alto. Mas nunca me encontraram. Minha percep??o e minha agilidade me permitiam sentir quando estavam por perto, e eu simplesmente me escondia. Era tedioso fugir de um bando de in¨²teis, mas eu n?o tinha escolha. N?o sabia o que poderia acontecer se me encontrassem. Mas essa ansiedade terminou muito antes do que imaginei. Com o tempo, eles pararam de aparecer, e eu finalmente pude viver em paz. Mas aquela sensa??o... espreitar algu¨¦m, observar atentamente seus movimentos... era t?o revigorante. A fome come?ou a me consumir. Eu poderia viver apenas das frutas daquela floresta, mas depender apenas disso era miser¨¢vel. Ca?ar era a op??o mais sensata. Mas, mesmo sabendo o que fazer, ainda era dif¨ªcil. Uma arma. Era disso que eu precisava. Foi ent?o que olhei para a lamina quebrada, pensando em us¨¢-la novamente numa presa. Mas, no instante em que a segurei, ela simplesmente se despeda?ou em minhas m?os. A frustra??o me atingiu em cheio, mas n?o aceitei me render t?o facilmente. Eu me ergui. Se n?o tinha uma arma, ent?o eu iria atr¨¢s de uma. Treinei. Me aperfei?oei. Anos se passaram. Constru¨ª armas e cacei, sem parar. Finalmente, eu tinha alimento. Mas como prepar¨¢-lo? Foi quando me lembrei daquele velho livro de receitas. Um dos poucos pertences que me deram quando fui exilado ¡ª que gentis da parte deles me darem isso, pensei. Pois agora ele ser¨¢ muito bem usado. Ao abrir o livro, percebi algo estranho. Apesar das ilustra??es de comida e da estrutura t¨ªpica de uma receita ¡ª modo de preparo, ingredientes, quantidades ¡ª, aqueles ingredientes n?o eram normais. Ent?o me lembrei. Eu j¨¢ tinha visto aquilo antes. Alquimia. No come?o, duvidei. Mas ao observar melhor, percebi que era exatamente isso. Talvez fosse o ¨²nico peda?o de magia que eu ainda pudesse tocar. Algo que antes desprezava, pois acreditava na magia grandiosa que me fora prometida. Nos velhos livros, que antes considerava in¨²teis, encontrei f¨®rmulas e teorias que reacenderam algo dentro de mim. Li cada p¨¢gina com aten??o, experimentando cuidadosamente em fogueiras e caldeir?es improvisados. Pela primeira vez em anos, eu sentia que podia criar algo com minhas pr¨®prias m?os, sem depender do nome ou das expectativas sufocantes da minha fam¨ªlia. Ainda assim, o peso do passado era constante. ¨¤s vezes, ¨¤ noite, quando o sil¨ºncio se tornava ensurdecedor, eu me pegava olhando para o c¨¦u, me perguntando o que havia feito de errado. Por que, entre todos os descendentes dos Valdrius, eu nasci sem o dom que era nossa marca? Por que parecia que o universo me havia abandonado? As respostas nunca vieram. E assim continuei. Um passo de cada vez, tentando encontrar meu lugar em um mundo que me rejeitava. O ex¨ªlio era solit¨¢rio, mas, de certa forma, me libertou. N?o havia mais ningu¨¦m para me julgar, ningu¨¦m para esperar algo de mim. Eu era s¨®... eu. E talvez, s¨® talvez, isso fosse suficiente. E percebi. Era isso. Eu finalmente via um rosto que parecia meu. Antes, eu me enxergava coberto de imperfei??es, um molde quebrado tentando se passar por algo nobre. Minhas roupas sempre estiveram alinhadas, minha postura impec¨¢vel, mas nada disso me fazia sentir inteiro. Meu reflexo nas janelas douradas daquela casa era sempre o de um estranho ¡ª sem peso, sem verdade. Agora, diante daquele lago escuro e sujo, envolto em trapos e poeira, eu me enxergava pela primeira vez. Meus olhos, antes apagados, agora tinham profundidade. Minha pele, antes lisa e sem marca alguma, carregava pequenos cortes, manchas, cicatrizes que contavam algo real. Meu corpo, antes ajustado a roupas caras e desconfort¨¢veis, agora vestia a ru¨ªna, e mesmo assim, eu me sentia mais completo. Eu deveria me sentir envergonhado. Eu estava sujo, coberto de sangue seco e terra. Minhas roupas, antes finas e bem ajustadas, estavam rasgadas e fediam a suor e lama. Mas, pela primeira vez, isso n?o importava. Antes, eu buscava perfei??o e s¨® via falha. Agora, coberto de sujeira e feridas, eu via for?a. Como se, de alguma forma, aquilo que eu sempre temi ter perdido nunca tivesse existido para come?ar. Ent?o com um sorriso cotente e olhos marejados, eu voltei ¨¤ floresta, onde as ¨¢rvores pareciam sussurrar segredos antigos. Cada passo ressoava no ch?o, e a luz da lua filtrava-se, criando sombras dan?antes ao meu redor. Mas meus passos fora interrompidas quando da escurid?o algo surgiu repentinamente. A floresta parecia viva, e uma intui??o inquietante me dizia que eu n?o estava sozinho. Meu instinto dizia que eu n?o precisava me esconder, ent?o, uma figura alta surgiu da penumbra. Seus olhos brilhavam como lanternas, como se tivesse encontrado aquilo que procurava. Ele era um homem alto, que apesar de antem?o ter uma presen?a imponente, agora sua postura era mais carism¨¢tica e descontra¨ªda, seu sorriso largo e despreocupado sugeria uma personalidade leve e otimista, talvez at¨¦ despreocupada com os perigos ao seu redor. Seus cabelos desgrenhados, de um tom escuro, combinavam com sua postura relaxada, enquanto ele se apoiava com um dos bra?os na cabe?a, como se estivesse rindo de algo ou apenas aproveitando o momento. Suas vestes misturavam tradi??o e praticidade, com um ''hakama'' claro amarrado na cintura e um sobretudo escuro, aberto e esvoa?ante, que adiciona um ar dram¨¢tico ao seu visual. O cachecol vermelho ao redor do pesco?o quebra a sobriedade da roupa. Ele tamb¨¦m carregava duas espadas na cintura, o que sugeria que, apesar de seu jeito descontra¨ªdo, ele era um guerreiro experiente. ¡ª Yao! Me chamo Kael, um simples andarilho sem rumo. ¡ª Ele deu um sorriso largo, batendo levemente no cabo da espada que pendia na sua cintura, como se a situa??o fosse apenas mais uma divers?o. ¡ª Acho que tropecei em um rosto famoso, hein? Ele me observou de cima a baixo, um brilho travesso nos olhos, como se estivesse decidindo qual parte de mim seria mais interessante para comentar. ¡ª Hum... deixa eu ver, voc¨º estava chorando, n?o estava? Ou estava... cheirando algo mais forte? ¡ª Eu estava chorando, e tem algum problema com isso? ¡ª Respondi, tentando n?o parecer incomodado, embora a provoca??o dele come?asse a me irritar. ¡ª Sem problemas, amigo, n?o que isso seja ruim. Se ainda consegue chorar, ent?o ¨¦ sinal de que ¨¦ humano. ¡ª Ele disse com uma leveza imensa, como se fosse a verdade mais simples do mundo. ¡ª Eu me sentiria p¨¦ssimo se de repente perdesse minhas emo??es e virasse marionete de algu¨¦m, n?o acha? ¡ª N?o... Eu nunca seria marionete de ningu¨¦m. ¡ª Fui direto, sem hesitar. ¡ª Uau, voc¨º nem precisou pensar... ¨¦ desse tipo de gente que eu gosto! ¡ª Kael riu de uma forma que soou estranha para meus ouvidos, como se estivesse se divertindo mais com o meu jeito impass¨ªvel do que com qualquer outra coisa. "Que cara mais desagrad¨¢vel", pensei, sem conseguir evitar um suspiro interior. ¡ª Ent?o voc¨º deve ser o tal ca?ador exilado... Que beleza! ¡ª Ele riu, como se achasse gra?a na ironia da situa??o. ¡ª Sabe, o vilarejo me contou uma hist¨®ria muito louca sobre um homem que foi envenenado por um lobo de tr¨ºs cabe?as aqui, nessa floresta, mas conseguiu sobreviver com a ajuda do vilarejo. Por¨¦m, saiba, voc¨º nem sempre ter¨¢ sorte, amigo. Como diz o ditado, um lobo destemido pode ser forte, mas um dia vai trope?ar sem a sua matilha. Relaxa... sou generoso. Que tal um pouco de companhia? ¡ª O que voc¨º quer? ¡ª Perguntei, tentando manter a calma, mas o tom de Kael n?o me passava confian?a. Kael deu um olhar pregui?oso ao redor, como se estivesse absorvendo o ambiente, antes de responder com toda a calma do mundo. ¡ª Ah, ouvi alguns rumores nas aldeias vizinhas. Hist¨®rias estranhas sobre essa montanha. ¡ª Ele cruzou os bra?os, inclinando a cabe?a levemente. ¡ª Aposto que voc¨º, vivendo aqui no alto, sabe tanto quanto qualquer um l¨¢ embaixo. ¡ª V¨¢ direto ao ponto. N?o tenho o dia todo. ¡ª A paci¨ºncia come?ava a se esgotar. Kael riu baixinho, balan?ando a cabe?a. ¡ª Sempre t?o s¨¦rio... Certo, sem mais rodeios. Estou atr¨¢s de uma criatura que anda dizimando tudo por aqui. R¨¢pida, forte... Mortal. ¡ª O sorriso no canto de sua boca ganhou uma express?o ir?nica. ¡ª Mas tem um detalhe que n?o bate. Franzi o cenho, atento. ¡ª O respons¨¢vel pela matan?a... ¡ª Ele fez uma pausa, como se estivesse gostando de me ver t?o tenso, e ent?o apontou para mim com um dedo. ¡ª ¨¦ a PORRA de um mago! O vento cortou a encosta da montanha, mas Kael parecia completamente imune ao frio que nos rodeava, se divertindo com o pr¨®prio enigma. ¡ª E n?o ¨¦ qualquer mago. Um Valdrius. Todo mundo sabe que, por causa da maldi??o dos Vanthendeus, a linhagem deles n?o pode ter atributos f¨ªsicos fortalecidos. ¡ª Ele estalou a l¨ªngua com um ar de incredulidade. ¡ª Mas a¨ª vem um mago Valdrius, esmagando monstros com for?a bruta e velocidade absurda? N?o faz sentido. ¡ª O que... o que voc¨º disse? ¡ª Eu n?o consegui esconder a surpresa. ¡ª Sobre a criatura que est¨¢ destruindo os monstros dessa montanha? S¨¦rio, voc¨º ¨¦ bem lerdo, hein? ¡ª N?o ¨¦ sobre isso, seu imbecil! Eu estou falando sobre essa... maldi??o dos Vanthendeus. Eu nunca tinha ouvido falar sobre isso. O choque foi vis¨ªvel no rosto dele. ¡ª Q-queeeeee? Voc¨º n?o sabe sobre a maldi??o dos Vanthendeus?! ¡ª N?o, eu n?o sabia. ¡ª Respondi, a confus?o no rosto. ¡ª Carambolas, que surpresa. E eu achando que era eu quem estava desinformado. ¡ª Ele fez uma pausa, respirando fundo, e parecia que agora ele realmente queria compartilhar algo. ¡ª Bem, isso ¨¦ algo bem intr¨ªnseco no seu cl?. ¡ª Ele ajeitou a postura, preparando-se para contar a hist¨®ria. ¡ª H¨¢ muito tempo, os dois maiores cl?s da regi?o eram os Vanthendeus, conhecidos por terem corpos perfeitos para batalhas e esgrima, al¨¦m de aprenderem desde cedo a se virar sozinhos. E os Valdrius, um cl? altamente poderoso, com magias t?o complexas que pareciam brincadeira de crian?a. Dizem que as crian?as desse cl? j¨¢ nascem com sua mana despertada, mas ningu¨¦m pode afirmar com certeza. ¡ª Kael suspirou animado, como se estivesse contando um segredo de valor. ¡ª Continue, eu n?o confio em voc¨º. ¡ª Respondi, mantendo cautela. ¡ª Que sem gra?a, mas eu vou te conquistar, boy. ¡ª Se voc¨º continuar com essas g¨ªrias de outros pa¨ªses, eu vou te bater! ¡ª A irrita??o me fez quase perder a compostura. ¡ª Opa, opa, foi mal! ¡ª Kael tossiu, se recompondo. ¡ª Continuando... Os Valdrius e os Vanthendeus lutaram entre si por mil¨ºnios. Foi o que chamaram de "O Caos Milenar". No final, os Vanthendeus usaram tudo o que tinham para vencer os Valdrius e selaram toda a sua for?a, impedindo qualquer possibilidade de recupera??o. Voc¨º consegue imaginar o porqu¨º? Eu olhei para ele, confuso. ¡ª Eu n?o sei. Meu cl? ¨¦ de magos. Por que iriam querer enfraquecer a nossa for?a f¨ªsica? Kael abriu um sorriso satisfeito, levantando o dedo indicador com confian?a. ¡ª Por causa dos magos guerreiros! ¡ª Magos... guerreiros? ¡ª A palavra ecoou em minha mente, mas a resposta ainda estava fora de alcance. Kael inclinou a cabe?a, os olhos brilhando de uma mistura de divers?o e desafio. ¡ª Ent?o... ficou curioso? Que tal uma parceria? Ou, como eu prefiro, uma troca de informa??es? Apesar de minha vontade de saber mais, algo em meu instinto me dizia para desconfiar dele. Por que eu deveria acreditar em tudo o que esse homem est¨¢ dizendo? Ele apareceu do nada, sem mais nem menos... Eu n?o poderia ser t?o ing¨ºnuo. ¡ª E por que eu me aliaria a voc¨º? ¡ª Minha voz soou irritada, mas o fundo da minha mente ainda estava focado nas palavras dele. ¡ª Vaza daqui. Kael observou meus olhos com um sorriso travesso. ¡ª Ah, esses olhos... atrevidos. Eu gostei deles. Suspirei. Eu sabia que ele n?o sairia t?o facilmente. Ent?o eu n?o vi outra escolha a n?o ser me preparar para o combate. A adrenalina subia, eu sabia que meu inimigo n?o era fraco, e ao mesmo tempo eu queria provar que n?o era mais o mesmo. Mas nunca fui realmente treinado para o combate. Eu pulei sobre seu corpo, tentando derrub¨¢-lo ¡ª assim como fazia com as fera das quais lutei nesse lugar ¡ª mas tudo o que consegui foi bater de frente com sua resist¨ºncia intranspon¨ªvel. Meu corpo escorregou sobre o dele como uma onda que se desfaz na rocha. Kael n?o se moveu. Apenas me encarou, como se nada tivesse acontecido. ¡ª Por acaso... voc¨º anda pelo caminho diferente? Eu senti a vergonha queimando minha garganta, mas a raiva crescia. N?o seria essa a minha derrota. Recuei com rapidez, me afastando de sua linha de vis?o. Rondei, buscando a brecha que ele n?o parecia querer me dar. ¡ª Ah, entendi... ¡ª Kael sorriu, e esse sorriso cresceu. ¡ª Isso ¨¦ um combate! Antes que eu pudesse reagir, Kael saltou em um movimento que desafiava qualquer velocidade humana. Ele foi uma sombra cortando o ar, e a lamina surgiu, como um raio prestes a atingir. A surpresa me paralisou por um segundo. Me abaixei apenas por mero reflexo, mas isso foi o que me salvou. O impacto foi surdo. A lamina cortou o tronco da ¨¢rvore com uma facilidade monstruosa, e a madeira se partiu como se fosse papel, caindo pesadamente ao meu lado. O sorriso de Kael se manteve intacto, como se ele estivesse apenas se aquecendo. ¡ª Eu n?o sabia que um mago poderia se mover t?o r¨¢pido. ¡ª Ele observou, e sua express?o se ampliou, uma mistura de fascina??o e desafio. ¡ª Agora... me mostre at¨¦ onde voc¨º vai. ¡ª Tch...! Os ataques come?aram a vir em ondas. Kael n?o dava margem para defesa, era pura agress?o, pura precis?o. Cada lamina sua cortava o espa?o como se a pr¨®pria morte estivesse moldada na lamina. Eu mal tinha tempo de me defender, muito menos de atacar. Ele se movia como o vento, fluido, imposs¨ªvel de prever. Eu tentei bloquear, desviar, mas a lamina de Kael n?o se deixava bloquear. Ela cortava tudo. O ar. O solo. A minha energia. Cada movimento meu se tornava mais pesado, mais lento. Ele parecia estar se divertindo, mas sua divers?o era cruel, quase predat¨®ria. Eu n?o era mais o ca?ador aqui. Eu era a ca?a. Olhei para seus olhos, eles pareciam estar facinados com o que via. ¨¦ claro, afinal na sua vis?o, na minha linhagem eu deveria ser um mago, um mago sem for?a ou agilidade para desviar de seus golpes ¡ª era isso que me salvava. Eu precisava virar o jogo ou minha vida podia se encarar naquele momento. Observei tudo ao meu redor, mas ele me cercava, me esmagava contra tudo o que eu podia pensar, onde as chamas consumiam a vegeta??o ao redor. A fogueira. Eu via uma oportunida no meu cal?o, Mesmo que a cada passo meu, o ar se tornava mais denso, pesado. Sabia que tinha uma oportunidade ali de contra-atacar. Recuo, ofegante, tentando recuperar o f?lego. Mas Kael se aproximava sem pressa, o sorriso constante em seu rosto. Por¨¦m, seus olhos... havia algo neles. Uma expectativa. Ele me observava com a precis?o de um ca?ador que j¨¢ escolheu sua presa. Repentinamente eu vejo que ele n?o estava mais apenas me atacando com for?a, ele estava me testando. Como se cada movimento seu fosse uma promessa n?o cumprida, cada tentativa de reagir fosse uma falha diante da inevitabilidade de sua for?a. Por um instante, senti. Talvez... talvez eu pudesse virar o jogo. O calor no ar, o fogo subindo ao c¨¦u. Minha for?a, agora mais agu?ada, parecia crescer. A confian?a que antes me faltava come?ou a renascer. Kael n?o era imbat¨ªvel. Eu sabia disso. ¡ª Agora voc¨º entendeu ¡ª ele murmurou, sua voz soando como uma senten?a final. ¡ª O que?! ¡ª Perguntei, recuando um passo. ¡ª N?o entendeu mesmo que tenha chegado ¨¤ esse ponto? ¡ª Ele parou, focando nos meus olhos ¡ª Isso ¨¦... voc¨º ¨¦ bem estranho. ¡ª Cala a boca! ¡ª Exaltei, come?ando a rondar seu corpo, buscando brechas. Kael dominava o campo de batalha, mas isso n?o significava que eu estava sem op??es. Eu precisava ser astuto, imprevis¨ªvel. Ent?o, uma ideia surgiu. Uma estrat¨¦gia maluca, mas talvez fosse minha ¨²nica chance. Eu precisava de uma distra??o, algo para desestabiliz¨¢-lo. Enquanto ele me observava, esperando meu pr¨®ximo movimento, meu olhar percorreu rapidamente o terreno ao redor. ¨¢rvores ca¨ªdas, pedras, e a vegeta??o que o fogo ainda n?o havia consumido. A fogueira. Foi quando eu lembrei, mesmo que eu n?o tivesse afinidade com magia, eu a conhecia muito bem por causa da minha fam¨ªlia, por isso, eu a treinei. Apesar de ser imposs¨ªvel me tornar um grande mago com essa baixa afinidade, eu ao menos posso us¨¢-la um pouco, como o destino me atendeu. Com um r¨¢pido movimento, estendi minhas m?os para a fogueira, para o fogo que queimava, e ent?o, ele se ergueu aos poucos. Apesar de ser um minusculo fogo, j¨¢ era o bastante para angana-lo. ¡ª Uau, ent?o voc¨º realmente pode usar magia e ainda se mover desse jeito, dessa forma voc¨º pode ser- Atirando-o em dire??o ao Kael enquanto ele estava destra¨ªdo com fogo, joguei em sua dire??o um l¨ªquido que estava sobre efeito de um feiti?o de calor. Quando o l¨ªquido cair fora do recipiente, ele gerar¨¢ fuma?a, por causa da diferen?a de temperatura. Ebuli??o. Kael desviou o olhar, mesmo que por um mil¨¦simo de segundo. Isso foi tudo o que eu precisava. Eu ataquei, n?o com o golpe final que ele esperava, mas com o fogo, r¨¢pido e preciso em dire??o ¨¤ sua m?o, a lamina. Kael parecia surpreso, mas se manteve firme. Ele tentou bloquear, mas minha inten??o era outra. Aproveitei a abertura que ele deixou, girando rapidamente para atac¨¢-lo por tr¨¢s, com uma s¨¦rie de golpes r¨¢pidos que ele n?o conseguiu antecipar completamente. A surpresa me deu alguma vantagem, mas Kael n?o era um homem f¨¢cil de enganar. Em um movimento brusco, ele conseguiu desviar do meu fogo e dos meus golpes, a lamina cortando o ar com uma precis?o letal. Dissipando toda a fuma?a em volta. Ele sorriu, mas era um sorriso diferente, uma mistura de respeito e desd¨¦m. ¡ª Quase, mas n?o o suficiente. ¡ª Ele murmurou, e com um movimento quase impercept¨ªvel, ele quebrou minha ofensiva com uma s¨¦rie de ataques que me derrubou no ch?o, ofegante e derrotado. Ele se aproximou de mim, seu olhar agora mais s¨¦rio. Apesar da falha, Kael parecia impressionado. Eu havia visto uma brecha, algo inesperado na sua abordagem. Mas mesmo assim, ele soube que ainda estava no controle. ¡ª Boa tentativa. Mas voc¨º vai precisar de mais que isso para derrotar algu¨¦m como eu ¡ª ele disse, com um sorriso no rosto. Eu estava prestes a responder, mas ele continuou, sem me dar tempo de reagir. ¡ª Voc¨º tem potencial, mesmo que n?o saiba nem o b¨¢sico ¡ª disse ele, estendendo a m?o para me ajudar a levantar. ¡ª Precisa de muito treinamento. N?o estou aqui para ser seu inimigo, mas para saber sua hist¨®ria. Estou bem curioso para saber a verdade por tr¨¢s de voc¨º. Confuso, olhei para ele, tentando entender suas inten??es. Ele n?o era o vil?o que imaginar¨¢, mas sim algu¨¦m que via em mim a possibilidade de algo maior. Kael parecia muito fiel, ele me explicou que muitos, "como n¨®s", estavam presos a legados e expectativas, e que a verdadeira liberdade vinha do autoconhecimento e do dom¨ªnio das habilidades. ¡ª Se voc¨º aceitar, posso te treinar ¡ª prop?s ele. ¡ª Juntos, podemos descobrir o que realmente significa ser livre. A ideia de ter um mentor, especialmente um que inicialmente considerei um inimigo, era tanto assustadora quanto intrigante. Mas, em vez de recuar, senti uma onda de determina??o. Eu queria descobrir meu potencial, entender o que aconteceu. Assim, naquele momento de derrota, uma nova alian?a foi formada. O caminho ¨¤ frente ainda seria repleto de desafios, mas agora eu tinha algu¨¦m ao meu lado, disposto a me guiar em uma jornada que prometia n?o apenas for?a, mas tamb¨¦m autodescoberta. Ap¨®s anos de reclus?o, deixei a montanha. Ao lado de meu mestre, tomei a decis?o mais arriscada da minha vida: partir para o territ¨®rio dos Vanthendeu. Eles foram os respons¨¢veis por arrancar a esgrima do sangue Valdriano, privando-nos da garra destrutiva dos magos. Para os Vanthendeu, for?a e habilidade com a lamina eram tudo. E, apesar da rivalidade hist¨®rica entre nossos cl?s, meu mentor acreditava que havia algo valioso a aprender com eles. Minha fam¨ªlia nunca foi incapaz de manejar a espada. Sempre soubemos o suficiente para nos manter ¨¤ frente, para estudar e superar as t¨¦cnicas dos Vanthendeu. Mas, agora, eu estava ali sozinho. N?o como herdeiro. N?o como algu¨¦m que carregava um nome. Eu era um ningu¨¦m, disposto a mergulhar no mundo deles e descobrir se a for?a poderia preencher o vazio deixado pela magia. Os anos que se seguiram foram de aprendizado implac¨¢vel. Sob a tutela dos guerreiros do territ¨®rio Vanthendeu e meu mestre ardiloso, minha maestria com a espada cresceu a n¨ªveis impressionantes. Eu me tornara um prod¨ªgio, um guerreiro capaz de enfrentar at¨¦ os melhores entre eles. Mas, mesmo dominando a lamina como poucos, ainda havia algo que me atormentava: minha incapacidade de usar magia. Meu sangue carregava o legado de magos poderosos, mas, por algum motivo, eu era uma exce??o. Essa ang¨²stia cont¨ªnua corro¨ªa meu esp¨ªrito, at¨¦ que anos depois, ouvi sobre um curandeiro milagroso, um homem cercado por lendas que o conectavam a "Deus". Se havia uma chance de quebrar essa maldi??o, eu a agarraria sem hesitar. E ent?o, o imposs¨ªvel aconteceu. O curandeiro me recebeu com uma "express?o indecifr¨¢vel", como se enxergasse algo al¨¦m de minha compreens?o. Ele tocou minha testa e murmurou palavras que reverberaram dentro de mim como um trov?o distante. No instante seguinte, um calor intenso cresceu em meu peito, me consumindo de dentro para fora. De volta ao meu alojamento, ca¨ª de joelhos, segurando o peito com for?a. Meu cora??o batia como um tambor de guerra, e a dor ¡ª Deus, a dor ¡ª era sufocante, profunda, mas estranhamente familiar. E ent?o, como um relampago atravessando minha mente, eu lembrei. Os livros. As p¨¢ginas antigas que eu devorava na biblioteca quando crian?a. Os relatos sobre o despertar da magia. A febre, a press?o, a dor que queimava os ossos como brasas vivas. Era isso. Minha magia havia voltado, ou melhor, se libertado de correntes desconhecidas que ora colocadas pelo destino. Um riso escapou de minha garganta, tr¨ºmulo no in¨ªcio, mas logo se transformou em uma risada verdadeira, carregada de euforia e descren?a. Meus olhos ardiam, e eu percebi que l¨¢grimas escorriam por meu rosto. Mas n?o eram de tristeza. Eram de puro ¨ºxtase. Eu me levantei num salto. Meu corpo inteiro pulsava com energia, com algo que n?o sentia desde que me conhecia por gente. Eu precisava testar. Precisava sentir. E ent?o corri. A floresta me recebeu com seu sil¨ºncio noturno, o ar fresco cortando meu rosto enquanto eu avan?ava sem hesita??o. Eu n?o sabia o que buscava, mas parecia que o pr¨®prio mundo queria me dar a resposta. Os arbustos ¨¤ frente se agitaram. Um rugido ressoou pela noite. Um urso vermelho. Gigantesco, seus olhos selvagens brilharam sob a luz p¨¢lida da lua. Ele avan?ou, suas garras rasgando o solo, seu h¨¢lito quente e feroz misturando-se ao ar frio. Mas dessa vez, eu n?o senti medo. Levantei minha m?o. As lembran?as voltaram como um trov?o ¡ª os livros, os ensinamentos, as descri??es de como canalizar, de como lan?ar. Era tudo t?o nost¨¢lgico, t?o certo. Meu corpo soube antes de mim. E ent?o- O fogo nasceu. Uma labareda vermelha, colossal, viva, explodiu da minha palma. Ela n?o apenas queimava, mas rugia, como se tivesse sua pr¨®pria alma, sua pr¨®pria f¨²ria. O ar ao redor tremulou, distorcido pelo calor abrasador. A noite foi pintada de escarlate. O urso rugiu, mas eu mal o ouvi. Eu s¨® sentia. O poder correndo por mim, pulsando, preenchendo cada vazio que antes carregava. A magia que me foi roubada, que me foi negada, agora estava ali. Minha. Meu corpo tremia, mas n?o de exaust?o. De felicidade. De vit¨®ria. Eu sorri. Chorava e sorria ao mesmo tempo. Eu havia vencido. Mas ent?o, de repente, meu corpo parou. N?o era exaust?o. N?o era o cansa?o de algu¨¦m que havia ultrapassado seus limites. Era algo pior. Algo absoluto. O mundo ao meu redor perdeu o som. O ar ficou pesado, como se tivesse sido drenado. E ent?o veio a dor. Mas dessa vez, n?o era calor. Era fria. Um frio que n?o se espalhava como gelo, mas como laminas invis¨ªveis rasgando cada nervo do meu corpo. Meus m¨²sculos se recusaram a responder. Meu peito afundou. Minha vis?o tremulou, se apagando nas bordas como uma chama prestes a ser extinta. Eu ca¨ª. O impacto contra o ch?o foi abafado, distante, como se eu j¨¢ n?o estivesse ali. Minhas m?os tremiam. Eu tentei estend¨º-las, agarrar algo, qualquer coisa que me mantivesse aqui. Foi quando vi. Uma caveira. Fria, im¨®vel. E ent?o ela se mexeu. A Morte. Ela estava ali. N?o como uma vis?o distante ou um del¨ªrio causado pela dor, mas presente, s¨®lida e inevit¨¢vel. Seus olhos vazios me observavam, sem pressa, sem piedade. Como se minha exist¨ºncia j¨¢ estivesse determinada, como se nunca houvesse outra escolha. O mundo ao meu redor come?ou a escurecer. As sombras cresceram, me engolindo. Meu cora??o desacelerou, cada batida mais fraca que a anterior. Foi nesse momento que eu entendi. Quebrar a maldi??o tinha um pre?o. Eu n?o estava livre. Eu ia morrer. O curandeiro sabia disso. Ele sempre soube. As l¨¢grimas que antes escorriam de felicidade agora ca¨ªam por outro motivo. A alegria que por um instante preencheu meu peito foi arrancada, esmagada por uma tristeza densa, sufocante. E no meio dessa tristeza, algo mais cresceu. Raiva. Furiosa, ardente, injusta. Eu lutei minha vida inteira. Superei limites, me reergui incont¨¢veis vezes. Mas agora, no instante em que finalmente tinha algo meu, no momento em que me senti completo... tudo seria tirado de mim de novo. O destino ria da minha exist¨ºncia. E eu o odiava por isso. O vazio me envolvia. A dor havia desaparecido, mas eu n?o sentia al¨ªvio. Apenas um sil¨ºncio sufocante. Ent?o, algo mudou. Uma presen?a surgiu. N?o um som, nem uma forma definida de imediato, mas um peso no ambiente, como se o pr¨®prio espa?o ao meu redor se dobrasse para acomod¨¢-la. Eu tentei mover os olhos, mas n?o sabia se ainda os tinha. Tudo ao meu redor parecia se curvar, distorcido. E ent?o, no meio da escurid?o, vi contornos. Primeiro, uma estrutura massiva, feita de madeira, mas n?o madeira comum. Seu material parecia antigo e vivo ao mesmo tempo, com padr?es que se moviam como se respirassem, como se o pr¨®prio tempo flu¨ªsse por suas camadas. As bordas eram estreitas e angulosas, com uma geometria imposs¨ªvel, como se pertencesse a um interior sem fim. Havia luz ali. Linhas azuis pulsavam suavemente em sua superf¨ªcie, seguindo trilhas imprevis¨ªveis, se apagando e acendendo como estrelas distantes. Pinturas. As laterais da estrutura eram cobertas por quadros, cada um retratando cenas que pareciam t?o vivas que, por um momento, acreditei que se moviam. Guerras, coroa??es, despedidas... momentos roubados de outras eras. No topo, algo se ergueu. Um formato reconhec¨ªvel, mas deslocado naquele contexto. Um pe?o de xadrez, negro como a noite, e sobre ele, uma coroa desproporcional, reluzente em um brilho melanc¨®lico. A entidade estava sentada. A poltrona sob ela era descomunal, luxuosa e estufada, como se pertencesse a um rei, mas abandonada pelo tempo. O ser repousava ali, em sil¨ºncio, como se me estudasse, sua presen?a pesando sobre mim mais do que qualquer for?a f¨ªsica. Foi ent?o que a voz ecoou. ¡ª Sua vida foi miser¨¢vel, Levi Valdrius. Marcada por perdas, traumas e um destino cruel. O som era profundo, carregado por uma tristeza insond¨¢vel, como se cada palavra carregasse o peso de eras esquecidas. ¡ª Mas n?o precisa terminar assim. A entidade moveu-se. N?o um movimento comum, mas um deslocamento sutil, como se as pinturas em sua superf¨ªcie tremessem por um instante antes de algo emergir delas. Uma m?o. Ou pelo menos, algo parecido com uma. Uma das pinturas distorceu-se, seus tra?os se retorcendo at¨¦ formarem um bra?o espectral que se projetava em minha dire??o. De sua ponta, linhas roxas come?aram a se estender, vibrando no ar como fios de um tear invis¨ªvel. Eu as reconheci. A maldi??o. Os fios estavam conectados ao meu peito. Sempre estiveram. Como correntes invis¨ªveis que me mantiveram cativo desde o nascimento. A entidade agarrou-os. A pintura de onde seu bra?o emergira tremulou, como se resistisse por um momento, antes de ceder ao toque do ser. Com um ¨²nico gesto, ele arrancou as linhas de mim. Uma ¨²ltima palavra ressoou. ¡ª Imediatamente. A dor cessou. Meu corpo relaxou. A escurid?o me consumiu por completo. E ent?o... Sil¨ºncio. Por um momento, eu n?o existia. Nenhum som, nenhuma dor, nenhum pensamento. Apenas o vazio absoluto. At¨¦ que algo mudou. Meus olhos se abriram. O mundo ao meu redor era diferente. Meu corpo... Pequeno. Fr¨¢gil. Eu sentia calor, um tecido macio me envolvendo. Havia vozes ao fundo, abafadas, irreconhec¨ªveis. Minha vis?o ainda era turva, mas, ¨¤ medida que piscava, as formas ao meu redor se tornavam mais n¨ªtidas. Foi quando percebi. Eu havia renascido. Como um... beb¨º.