《O Outro Lado do Espelho [ Português Brasil ]》 Reflexo A noite era escura e silenciosa, um v¨¦u de tranquilidade cobrindo as ruas desertas. Nas casas ao redor, as pessoas dormiam profundamente, envoltas em sonhos despreocupados. Para elas, o amanh? j¨¢ estava planejado: trabalho, estudos, ou at¨¦ mesmo um dia de descanso. Essas pessoas, aquelas que puderam decidir seus pr¨®prios destinos, foram as mais sortudas do mundo. Esse pensamento ecoava na mente de um jovem rapaz enquanto ele se esgueirava pelas sombras. Vestia-se inteiramente de preto, da cabe?a aos p¨¦s, com apenas os olhos expostos. Mova-se com cuidado, tentando evitar qualquer coisa que pudesse trair sua presen?a. Apesar de seu esfor?o, sua velocidade era lenta, quase desajeitada, resultado de um corpo fr¨¢gil e mal alimentado. Felizmente, naquela noite, ele n?o estava sendo perseguido ¡ª ainda. Seu objetivo era claro: furtar o suficiente para sobreviver mais um dia. Dinheiro e comida eram tudo o que importava. Ap¨®s virar v¨¢rios cantos e manter-se sempre nas ¨¢reas mais escuras, o jovem chegou ¨¤ frente de uma frutaria. Parou, escondido na penumbra, e observou o pr¨¦dio por alguns momentos. Seu cora??o batia r¨¢pido, e sua respira??o era ofegante, abafada pela m¨¢scara improvisada que cobria seu rosto. Ele pressionou a m?o contra o peito, enganando-se. Finalmente, deu um passo, depois outro, at¨¦ estar diante do port?o de ferro que protegia a entrada. Preso ao port?o, um cadeado robusto o separava de seu objetivo. Ele se agachou, escondendo-se das luzes pr¨®ximas, e retirou do bolso um pequeno estojo improvisado. Dentro, havia apenas duas ferramentas: um tensor e um gancho. Com cuidado, ele modificou o tensionador na base da fechadura, aplicando uma press?o leve para simular o movimento de uma chave. Depois, inseriu o gancho na parte superior, inclinando-o levemente para encontrar os pinos internos. Primeiro passo: sentir o mecanismo. O ladr?o moveu o gancho de metal lentamente, tocando cada pino. Um por um, eles resistiram, exigindo ajustes cuidadosos. Ele come?ou pelo primeiro pino, aplicando uma press?o leve com o gancho enquanto mantinha o tensionador firme. Um pequeno clique ecol¨®gico. Sinal de progresso. Segundo passo: paci¨ºncia. O segundo pino era mais resistente. Ele ajustou a for?a do tensionador, evitando a press?o. Movendo o gancho em um angulo diferente, aplicou uma press?o consistente at¨¦ ouvir outro clique. "Dois." O ladr?o limpou o suor da testa, mesmo com o frio da noite. Ele sabia que, se for?asse demais, quebrasse a ferramenta ou danificasse o mecanismo, chamaria aten??o necess¨¢ria. Terceiro passo: precis?o. Com movimentos met¨®dicos, ele encontrou o terceiro e o quarto pino. Estas eram mais simples, quase como se as t¨¦cnicas fossem realizadas no mecanismo. Ambos cederam com facilidade, um ap¨®s o outro, e n?o puderam evitar um sorriso. Por fim, chegou ao ¨²ltimo pino, sempre o mais trai?oeiro. Este parecia emperrado. Ele relaxou o tensionador e ajustou o angulo do gancho, tentando encontrar o ponto exato de press?o. Depois de alguns segundos, senti um leve movimento. Ele girou o tensionador lentamente e, finalmente, reuniu a press?o de um clique final. O cadeado se abriu com um leve clanc. O ladr?o o retirou, examinando-o por um instante antes de coloc¨¢-lo no ch?o. O port?o estava livre, e ele o empurrou lentamente, tomando cuidado para n?o fazer barulho. Na escurid?o do beco, ele desapareceu, t?o silencioso quanto havia chegado. O cheiro doce das frutas tomou conta do ambiente. Apesar da escurid?o, ele podia ver prateleiras repletas de bananas, ma??s, mangas, uvas e outras frutas que ele mal sabia o nome. Seus olhos brilharam, e sua fome, antes contida, veio ¨¤ tona com uma for?a avassaladora. Jogando a m¨¢scara de lado, ele come?ou a devorar as frutas mais pr¨®ximas, mastigando apressado, como se temesse que fosse tirado dele. Ele sabia que n?o deveria comer demais, que seu corpo fr¨¢gil n?o aguentaria, algo que havia aprendido, era que comer demais depois de passar longos per¨ªodos de fome, era letal, e poderia facilmente lev¨¢-lo ¨¤ morte, mas ele n?o conseguia se controlar completamente. Depois de algum tempo, sua fome cedeu, embora ainda houvesse espa?o para mais. Ele se obrigou a parar. ¡°N?o vim aqui s¨® para comer¡±, lembrou si mesmo. Caminhou at¨¦ o fundo da loja, onde sabia que seria seu verdadeiro objetivo. Sob uma mesa, escondida pelas sombras, havia um cofre de ferro. Era pequeno, mas pesado, com um disco de combina??o que brilhava ¨¤ luz fraca que entrava pelas frestas. Ele passou os dedos pelas bordas da fechadura, sentindo cada umidade e imperfei??o. Arranh?es ao redor de alguns n¨²meros no disco de combina??o chamaram sua aten??o, acompanhados de marcas mais sutis. Ele franziu a testa, armazenando a informa??o. "Esses n¨²meros foram girados mais vezes do que os outros. Isso ¨¦ mais do que coincid¨ºncia." Ele se abaixou, posicionando o pr¨®ximo ao cofre, e come?ou a girar o disco lentamente para a esquerda. Um leve "tic" ecol¨®gico ou no sil¨ºncio, quase impercept¨ªvel. Ele invejoso de canto. "Os pinos internos est?o respondendo. Perfeito. Agora s¨® preciso de paci¨ºncia." Continuando com movimentos suaves, ele girou o disco para a direita, depois para a esquerda, testando cada n¨²mero com aten??o. Cada vez que ouvia um clique sutil, ele fazia uma pausa, gravando o ponto exato na mem¨®ria. "Sete¡­ depois nove¡­ talvez o ¨²ltimo seja tr¨ºs. Mas a ordem... precisa ser precisa." Com cuidado, ele pegou seu g¨¢s e inseriu na fenda da trava. Ele aplicou uma tens?o delicada, apenas o suficiente para sentir quando os pinos come?avam a se alinhar. Girou para a esquerda novamente. Primeiro n¨²mero: sete. Depois para a direita. Segundo n¨²mero: nove. E, por fim, girou para a esquerda mais uma vez, parando no n¨²mero tr¨ºs.This book is hosted on another platform. Read the official version and support the author''s work. Ele segurou a respira??o por um momento, os dedos ainda mantendo a tens?o no mecanismo. Ent?o, finalmente, um som diferente ressoou ¡ª um clique mais profundo, mais definitivo. O jovem soltou o ar que nem havia percebido ser delicado, enquanto um sorriso satisfeito surgia em seus l¨¢bios. O alarme n?o havia sido disparado. Ele pensou brevemente: ¨¤s vezes, for?a bruta era sup¨¦rflua. Intelig¨ºncia, no entanto, era indispens¨¢vel. A porta do cofre varia ao abrir. L¨¢ dentro, moedas de prata e ouro reluziam. Ele pegou dez moedas de prata e duas de ouro, colocando-as no saco que carregava. Mas ele n?o poderia ir embora ainda. Ainda preciso de comida. Antes de sair, enchi o saco com frutas, mas cometi um erro: ao fechar o cofre, deixei a porta bater com for?a. O som met¨¢lico ecoou pela loja, e ele congelou no lugar. O alarme havia sido disparado, todo o lugar agora estava gritando e chamando por aten??o. Ele sabia que tinha poucos minutos antes de algu¨¦m aparecer. Sem pensar, correu para a sa¨ªda, pegando mais frutas no caminho. Seu corpo parecia mais leve, como se a adrenalina tivesse lhe dado for?as. Quando atravessou a porta e desapareceu na escurid?o, podia ouvir passos ao longe. Guardas estavam vindo.
Minutos depois, sete homens armados com espadas e usam armaduras brancas pesadas, com o bras?o de uma ave descansando sobre o cora??o, chegaram ¨¤ frutaria. No entanto, encontrei apenas uma porta arrombada, frutas espalhadas pelo ch?o e um cofre vazio. ¡ª Se espalhem, procurem por cada canto e por cada lugar¡­ n?o permitirei que um ladr?o viva no Reino de BellSoul ¡ª Disse o cavaleiro respons¨¢vel pela patrulha noturna. Assim, os guardas se espalharam, cada um deles com avan?os diferentes, leste, oeste, norte e sul. Por¨¦m, por mais que procurem, n?o achar?o nada, nem uma pista sequer do bandido. O cavaleiro fez uma carranca, j¨¢ havia feito se passadas duas horas desde o in¨ªcio da persegui??o. Chamar aquilo de persegui??o parecia at¨¦ exagero, eles nem sequer sabiam onde e como uma pessoa que havia furtado uma simples loja de frutas tinha ido parar. Ele chamou novamente seus guardas pela magia r¨²nica que cada cavaleiro do reino carregava em seu peito, permitindo a comunica??o por grandes distancias. Essas runas foram escritas por um grande mestre, e ela j¨¢ havia sido ¨²til durante anos, ajudando o reino a se manter seguro. Por¨¦m hoje, um mero ladr?o, havia sido mais esperto e mais r¨¢pido que um cavaleiro real com acesso ¨¤ magia r¨²nica. ¡ª O ladr?o deve ser algu¨¦m ¨¢gil, capaz de desaparecer antes mesmo que percebamos sua presen?a. Parece que estamos lidando com algu¨¦m experiente, algu¨¦m que conhece bem as sombras e os caminhos da noite. Mas n?o temam! Ele pode ser r¨¢pido e astuto, sim, mas n¨®s somos mais fortes, mais determinados. E isso, meus homens, ¨¦ tudo o que importa! Na pr¨®xima oportunidade, n?o falharemos. Esse crime, seja ele quem for, cair¨¢ diante de n¨®s. N?o h¨¢ lugar seguro para quem ousa desafiar a ordem real. O cavaleiro falou com firmeza, tentando esconder a vergonha que a corros?o por dentro. Permitir um furto sob sua supervis?o foi um golpe duro para sua honra. Sete homens, treinados e armados, n?o foram suficientes para capturar um simples ladr?o. A ¨²nica forma de preservar sua dignidade era refletida em habilidades extraordin¨¢rias, dignas de um advers¨¢rio formid¨¢vel. Afinal, era mais f¨¢cil engolir o orgulho quando o inimigo era exaltado como algu¨¦m ¨¤ altura de sua for?a e treinamento. ¡ª Ele virou-se para a loja, emitindo uma ordem firme aos guardas: ¡ª Verifique novamente o local. Desta vez, fa?a-no com aten??o redobrada. Procurem qualquer vest¨ªgio, por menor que seja. Os guardas acataram a ordem, entrando no estabelecimento para inspecion¨¢-lo cuidadosamente. Enquanto isso, o cavaleiro convida do lado de fora, algo chama sua aten??o. Um balde de lixo tombado jazia na frente da loja. Ele franziu a testa, o olhar fixo no objeto fora do lugar. Sua mem¨®ria n?o o tra¨ªa: ao sair em persegui??o ao ladr?o, aquele balde estava em p¨¦. ¡ª Um gato de rua, talvez? ¡ª murmurou para si mesmo, mas sua intui??o sussurrava outra coisa. Algo n?o estava certo. Ele se move lentamente, os olhos atentos a cada detalhe ao redor. Apesar da explica??o plaus¨ªvel, sua mente se recusava a aceitar que fosse apenas um acaso. Um pressentimento inquietante crescia em seu peito, como um tambor silencioso marcando o ritmo de sua desconfian?a. Parou diante do balde e, agachando-se, come?ou a inspecion¨¢-lo. Era pequeno, e n?o havia lixo algum dentro, o que fazia sentido: a coleta havia sido feita naquela tarde. Ainda assim, algo brilhou no fundo, chamando sua aten??o como um farol em meio ¨¤ escurid?o. O cavaleiro esticou a m?o com cautela, os dedos ro?ando o metal frio. Quando voc¨º finalmente segurou o objeto, o visual foi ¨¤ luz e prendeu a respira??o. Era uma moeda de prata, deixada para tr¨¢s como uma marca silenciosa da ousadia do ladr?o. Seu corpo ficou tenso, os dentes cerrados em frustra??o. Ele segurou a moeda com for?a, como se o metal fosse a ¨²nica coisa impedindo-o de gritar de raiva. E ent?o, em um tom baixo e carregado de f¨²ria, murmurou: ¡ª Filha da puta.
Algumas ruas adiante, o respons¨¢vel pelo furto ficou encostado em uma parede de pedra fria. Seu peito subia e descia de maneira descompassada, ou entra com dificuldade em seus pulm?es. Seu corpo magro tremia de exaust?o, e suas roupas estavam encharcadas de suor. Ele precisa se mover, mas suas pernas feitas de chumbo, mal o obedecendo. O que ele havia feito n?o era apenas ousado; era calculista. A adrenalina ainda corre por suas veias, mantendo-o alerta mesmo que seu corpo protestasse. Ele n?o tinha for?a para enfrentar os guardas armados, nem velocidade suficiente para fugir sem ser pr¨¢tico. Ent?o, confiou em sua ¨²nica arma verdadeira: a manipula??o. Antes de deixar a loja, ele havia planejado cada detalhe de sua fuga. Atirou frutas ao ch?o e deixou a porta entreaberta, criando uma cena que gritava "fuga ¨¤s pressas". A inten??o era clara: enganar os guardas, fazer com que acreditassem que ele havia sa¨ªdo correndo ao ouvir o alarme. Quando os guardas chegaram, resgataram o caos que ele havia deixado para tr¨¢s. O ch?o coberto de frutas espalhadas, a porta aberta escancarando o crime. Sem hesitar, dividiram-se em v¨¢rias dire??es, cada um seguindo um caminho na esperan?a de captur¨¢-lo rapidamente. Mas nenhum deles percebeu o maior erro que cometeram: o ladr?o nunca deixou a loja. Escondido dentro de um balde de lixo vazio, ele aguardava pacientemente. O recipiente, previamente preparado para sua fuga, o encobria completamente. Sua respira??o era m¨ªnima, o cora??o batendo forte contra o peito escutava enquanto os passos apressados ????dos guardas deixavam o local. O tempo passou lentamente, cada segundo parecia uma eternidade. Quando o sil¨ºncio finalmente tomou conta, ele sabia que era seguro se mover. Com cuidado, abriu o balde e saiu, empurrando-o no processo. O som met¨¢lico do objeto tombando ecoou pela noite, mas ele foi focado demais para se importar. Sem olhar para tr¨¢s, escondido nas sombras, movendo-se furtivamente por cada canto escuro, evitando qualquer fonte de luz que pudesse tra¨ª-lo. Ele era met¨®dico, quase uma sombra no ambiente, mas sua mente n?o deixava de registrar cada batida de seu cora??o fren¨¦tico. Agora, horas depois, ali estava ele, encostado na parede. Seu corpo protestava, exausto pela tens?o e esfor?o, mas sua mente insistia em um ¨²nico pensamento: havia conseguido. Ele acabou de realizar o que, para ele, era o crime perfeito. Logo ele for?ou-se a continuar, virando duas esquinas at¨¦ chegar em casa. Uma constru??o min¨²scula, feita de madeira velha. Aquela era sua casa. Entrando em sil¨ºncio, colocou as frutas nas prateleiras vazias e conferiu o saco de moedas, ele havia pego dez moedas de prata e duas de ouro, no entanto, uma moeda de prata estava faltando, o que n?o o deixou nada feliz. Ap¨®s conferir, ele escondeu o saco de moedas atr¨¢s do espelho no arm¨¢rio. O som das moedas tilintando despertou algu¨¦m. ¡ª Lucien? ¡ª Uma voz infantil chamada. Ele se virou e encontrou a irm? mais nova, Lucy, esfregando os olhos. Seus cabelos negros estavam bagun?ados e suas roupas estavam amassadas. ¡ª O que voc¨º est¨¢ fazendo acordado? isso n?o ¨¦ hora de crian?a acordar! ¡ª Disse ele, tentando parecer zangado. A garota, no entanto, retribuiu, fazendo uma careta e olhando para ele ferozmente. ¡ª Voc¨º tamb¨¦m ¨¦ crian?a. Por que voc¨º est¨¢ acordado? Lucien ficou olhando para ela por alguns segundos, mas logo virou-se e se encontrou com o espelho do arm¨¢rio. Seu reflexo o encarava: um garoto de 13 anos, magro e com olhos sombrios demais para sua idade, isso era o que ele via no espelho. Ele suspirou e foi encontrado para a irm?. ¡ª Tem raz?o. Vamos dormir. Segurando a m?o dela, levou-a de volta para a cama e esperou ela dormir novamente. Por hoje, pelo menos, eles tinham o que comer. Grande mestre A luz da manh? se infiltrava por uma brecha na telha, atingindo diretamente o rosto de Lucien, que despertou sobressaltado. Ele olhou ao redor, o cora??o ainda acelerado, mas tudo o que via era o mesmo quarto apertado e decadente de sempre. Uma cama simples, cuja estrutura variava a cada movimento, e um pequeno arm¨¢rio feito de madeira lascada. Era ali que ele guardava as poucas roupas que haviam conseguido atrav¨¦s de a??es, a maioria remendadas, algumas surpreendentemente intactas, como se os antigos donos nem usados. Para Lucien, essas pe?as eram tesouros inestim¨¢veis. Ele n?o conseguia entender porque algu¨¦m descartaria algo t?o valioso. Enquanto outros viam futilidades, para ele aquilo representava a diferen?a entre o frio cruel das noites e um m¨ªnimo de conforto. Nada na sua vida vinha com facilidade, nem mesmo as coisas mais b¨¢sicas. Cada migalha conquistada era um lembrete do qu?o dif¨ªcil era sua era de sobreviv¨ºncia. Ele se declarou com cuidado, mas sentiu um pux?o em sua m?o. Sua irm?, Lucy, segurava-o com for?a, como se temesse que ele fosse embora e n?o voltasse. Ele parou e a inspirou por um momento, um sorriso triste se formando em seu rosto. Lucy, com apenas 10 anos, era fr¨¢gil. Seus cabelos negros como as asas de um corvo ca¨ªram sobre a pele p¨¢lida, quase transl¨²cida, como a de uma boneca quebradi?a. Aquela apar¨ºncia peculiar a destacava no mundo, mas, no contexto em que viviam, ela parecia ainda mais deslocada, uma flor rara sufocada no meio do lixo. ¨C Ei, Lucy, acorde. Est¨¢ na hora de merendar ¡ª disse ele suavemente, a voz carregada de uma ternura que mascarava sua pr¨®pria mis¨¦ria. A menina abriu os olhos devagar, espregui?ando-se como um gatinho. Ela esfregava os olhos com as m?os pequenas e finas, que mostravam mais ossos do que carne. ¡ª Hoje n¨®s temos merenda? ¡ª Disse ela, com uma mistura de esperan?a e cautela, como se j¨¢ esperasse a decep??o. ¡ª Sim, hoje temos. E talvez por algumas semanas, quem sabe at¨¦ por meses ¡ª respondeu Lucien, for?ando um sorriso otimista enquanto o peito apertava com a incerteza. O rosto de Lucy se ilumina, e ela rapidamente pula da cama, indo em dire??o ao banheiro. Lucien aspirou sair, mas seu sorriso logo se desfez. Ele sabia que o que havia conseguido era pouco, uma quantidade m¨ªnima que ele teria que racionar com cuidado extremo. Os pr¨®ximos dias seriam mais uma batalha contra a fome, a pobreza e a desesperan?a. O banheiro, improvisado no canto do c?modo, era outro lembrete da precariedade em que vivia. As paredes de madeira eram rachadas, com buracos que deixavam entrar o vento frio. A ¨¢gua, que mal pingava de uma torneira enferrujada, era uma vit¨®ria escassa. Lucien suspirou, passando a m?o pelo rosto. Ele precisava sair e comprar o caf¨¦, mas o dinheiro que tinha mal dava para o b¨¢sico. Ainda assim, o sorriso de Lucy havia feito valer a pena. Enquanto ele tinha for?as para proteg¨º-la, continuaria lutando, mesmo que o mundo parecesse determinado a esmag¨¢-los. Ao sair, Lucien encontrou as ruas tomadas pelo caos habitual da manh?, mas com um toque mais vibrante e estranho do que o normal. Pessoas de todos os tipos preenchiam os caminhos estreitos: alguns corriam apressados, carregando mercadorias ou cestas de frutas; outros, mais relaxados, conversavam ¨¤ sombra das portas de casas desgastadas. Havia crian?as rindo e brincando, vendedores gritando suas ofertas e uma energia incomum pairando no ar. Lucien respirou fundo, mas o ar parecia pesado, quase sufocante. Ele n?o gosta de multid?es. O simples ato de caminhar entre tantas pessoas o deixava tonto, sua mente em alerta constante, como se todos fossem uma amea?a em potencial. Ainda assim, ele n?o tinha escolha. Precisava passar a massa de corpos em dire??o ¨¤ feira, onde compraria o pouco que poderia. Com sua estatura baixa e corpo magro, infiltrar-se na multid?o n?o era dif¨ªcil, mas era desconfort¨¢vel. Sentia-se pequeno e insignificante, quase como se pudesse ser esmagado a qualquer momento. Enquanto avan?ava, algo come?ou a incomod¨¢-lo ainda mais. "O que diabos est¨¢ acontecendo hoje?" inventou, franzindo o cenho. N?o era normal haver tantas pessoas nas ruas. N?o era um dia de mercado especial, tampouco um festival. Algo estava fora do comum, e ele sentia isso em cada fibra do seu corpo. Ent?o, como se o universo respondesse ¨¤ sua pergunta silenciosa, um coro sincronizado ecoou pelas ruas: ¡ª Grande mestre! Grande mestre! Grande mestre! Lucien projeta a cabe?a e viu, a poucos metros de distancia, um homem alto caminhante entre a multid?o. Ele usava uma t¨²nica branca imaculada, que parecia repelir at¨¦ mesmo a poeira do ch?o. Seus cabelos dourados brilhavam sob a luz do sol, e sua postura era t?o serena que contrastava com o clamor das pessoas ao seu redor. Apesar de sua apar¨ºncia humilde, ele emanava uma aura que chamava aten??o, como se cada movimento carregasse um prop¨®sito divino. Lucien reconheceu o t¨ªtulo antes mesmo de compreender a cena. "Um dos grandes mestres..." surgiu com desprezo. Atualmente, apenas 15 pessoas ostentaram esse t¨ªtulo no Reino de Bellsoul. Eles eram figuras lend¨¢rias, adorados como semideuses, mas para Lucien, aquilo era apenas um nome. Ele n?o sabia porque os grandes mestres eram t?o especiais, nem se importava. Para ele, tudo aquilo parecia uma farsa bem elaborada. Ignorando o fervor da multid?o, ele continua tentando se afastar. Mas ¨¤ medida que avan?ava, ocasionalmente ficou mais pr¨®ximo do grande mestre. De repente, ¨® homem parou. Seu corpo virou em um movimento abrupto, quase sobrenatural, e ele encarou a multid?o com olhos penetrantes. O sil¨ºncio tomou conta das ruas como uma onda, esmagando o burburinho anterior. Todos permaneceram im¨®veis, aguardando com rever¨ºncia o pr¨®ximo gesto ou palavra do grande mestre. Lucien tamb¨¦m parou, mas n?o por respeito. Ele s¨® queria evitar chamar aten??o. O grande mestre parecia procurar algo. Seu olhar vasculhava a multid?o com uma intensidade perturbadora, como se pudesse enxergar al¨¦m da carne e ossos. Ap¨®s alguns momentos de concentra??o, ele franziu a testa, decepcionante. ¡ª Aconselho a tomar cuidado, parece que tem um monstruoso andando por a¨ª ¡ª murmurou o homem, sua voz baixa e grave ecoando na mente de Lucien. Aquelas palavras causaram um calafrio na espinha de todos ao alcance, mas o grande mestre logo caminhou, em dire??o ao pal¨¢cio real. Enquanto a multid?o o observava, Lucien sentia um aperto no peito. Ele engoliu em seco e apertou o passo afastando-se o mais r¨¢pido poss¨ªvel daquele lugar. Desviando para uma rua ¨¤ esquerda, Lucien escapou da multid?o sufocante, deixando para tr¨¢s o fervor e as vozes exaltadas. Seus passos foram apressados ??e irregulares, mas, assim que a confus?o se dissipou, ele parou, desabando contra uma parede. Agora, eu estava onde queria. O percurso que deveria ter levado apenas alguns minutos se estendeu por meia hora, gra?as ao tumulto absurdo. ¡ª Malditos cachorrinhos... N?o h¨¢ nada melhor para fazer? ¡ª murmurou ele, referindo-se com desprezo ¨¤s pessoas que seguiam cegamente o grande mestre. Respirando fundo, ele retomou o caminho, e logo as vozes familiares dos comerciantes queriam preencher o ar. Estava finalmente em frente ¨¤ feira. Homens e mulheres gritavam, anunciando seus produtos com entusiasmo. O cheiro de frutas, especiarias e p?o fresco misturava-se ao ar abafado. Mas Lucien n?o se distraiu; ele sabia exatamente o que queria: um pacote de p¨® de caf¨¦ e dois p?es frescos. Esse pequeno luxo lhe custaria meia moeda de prata.Unauthorized use of content: if you find this story on Amazon, report the violation. Um raro sorriso se formou em seus l¨¢bios. Apesar de tudo, caf¨¦ era um pequeno prazer que ele e sua irm? ainda pudessem desfrutar. Sem perder tempo, aconteceu-se ¨¤ barraca que conhecia bem. Era uma barraquinha simples, com sacos de caf¨¦ empilhados e um aroma inconfund¨ªvel que se espalhava pelo ar. Lucien parou por um momento, respirando profundamente o cheiro familiar, deixando-se levar por uma sensa??o momentanea de conforto antes de se dirigir ¨¤ vendedora. - Ol¨¢, Dona. Quero um pacote de caf¨¦. A mulher, uma figura humilde de express?o bondosa, apar¨ºncia os olhos e, ao s¨¦rio o garoto, sua fei??o mudou para algo pr¨®ximo ao pesar. ¡ª Lucieno! Quanto tempo n?o te vejo! Por onde esteve? Ele deu de ombros, evitando contato visual direto. ¡ª Estive sem dinheiro ultimamente, por isso n?o consegui vir comprar caf¨¦. A resposta foi direta, mas pesada. A mulher balan?ou a cabe?a, claramente afetada. Conhecia Lucien h¨¢ anos e sabia de sua hist¨®ria. A vis?o daquele garoto magro, com roupas gastas e sem os pais, apertava o cora??o. Mas, por mais que quisesse ajud¨¢-lo, tinha seus pr¨®prios filhos para alimentar e um neg¨®cio para sustentar. Mesmo assim, ela sempre fez o poss¨ªvel. Com cuidado, pegou o pacote de caf¨¦ e, discretamente, adicionou o m¨¢ximo de p¨® que podia, como sempre fazia para ampliar o fornecimento de Lucien e sua irm?. Ele recebeu o pacote com um agradecimento silencioso, seu rosto mostrando uma mistura de gratid?o e resigna??o. Enquanto a via partia, a mulher fechou os olhos por um momento, murmurando em voz baixa: ¡ª Deus, cuide dessa crian?a... Ele n?o merece tanto sofrimento. Lucien, por¨¦m, j¨¢ estava longe demais para ouvir. O cheiro de caf¨¦ em suas m?os e o peso das moedas que sobraram no bolso eram as ¨²nicas coisas em sua mente agora. Agora diante da padaria, o aroma de p?o fresco envolveu Lucien como um abra?o quente, quase dissipando o peso de sua realidade por um instante. Ele suspirou, mas, ao se aproximar da fila para ser atendido, captou fragmentos de uma conversa animada entre dois jovens ¨¤ frente. ¡ª Voc¨º ficou sabendo? Elias, um dos grandes mestres do Reino, passou aqui perto alguns minutos atr¨¢s! ¡ª Nossa! Queria muito ter visto! Algu¨¦m t?o incr¨ªvel deve ter uma apar¨ºncia emprestada! O assunto sobre Elias, aquele homem de t¨²nica branca e cabelos dourados que Lucien tinha visto mais cedo, despertou sua curiosidade. Ele nunca foi do tipo que puxava uma conversa com estranhos, mas aquela conversa espec¨ªfica parecia merecer uma exce??o. ¡ª Ei, me diz¡­ O que um grande mestre tem de especial? Por que uma multid?o estava acompanhando ele? Os jovens pararam de conversar e se voltaram para ele, surpresos pela pergunta. Por um momento, o sil¨ºncio pairou, mas, ao observarem melhor a figura magra e simples de Lucien, veio a resposta: ele era claramente algu¨¦m que n?o tinha acesso a educa??o ou estudos aprofundados. Apesar disso, os jovens, empolgados pela oportunidade de compartilhar seu conhecimento, n?o hesitaram em responder. ¡ª Bem, voc¨º deve ser novo nesse assunto¡­ Ent?o vamos explicar. Existem algumas pessoas no mundo que nasceram com almas peculiares, capazes de feitos extraordin¨¢rios. Eles conseguem manipular magia com maestria e, ¨¤s vezes, at¨¦ manejar espadas com habilidades divinas. Outro jovem completou, com os olhos brilhando: ¡ª Elias, o homem de quem est¨¢vamos falando, ¨¦ um grande mestre da magia. Esse t¨ªtulo n?o ¨¦ dado a qualquer um! Para entender melhor, existem n¨ªveis que medem o progresso de algu¨¦m na manipula??o da magia ou da espada. No caminho da magia, o progresso ¨¦ o seguinte: 1. Mago: O in¨ªcio da jornada. Aqui, uma pessoa desperta sua ess¨ºncia m¨¢gica e aprende a conjurar os primeiros feiti?os. 2. Mestre: Depois de anos de treino, um mago que domina os fundamentos da magia torna-se um mestre. A transi??o para esse n¨ªvel j¨¢ ¨¦ dif¨ªcil; muitos desistem antes de chegar aqui. 3. Grande Mestre: O ¨¢pice para quase todos os magos. Apenas aquelas d¨¦cadas de treinamento, foco absoluto e um entendimento quase perfeito de magia conseguem alcan?ar esse t¨ªtulo. Esses indiv¨ªduos s?o capazes de realizar magias que parecem imposs¨ªveis para a maioria das pessoas. Elias ¨¦ um desses. 4. S¨¢bio: Uma raridade absoluta. O t¨ªtulo de sabedoria ¨¦ atribu¨ªdo a magos que ultrapassaram os limites da magia convencional, atingindo um entendimento t?o profundo que se torna quase seres transcendentais. Dizem que nenhuma informa??o foi vista em nosso reino nos ¨²ltimos s¨¦culos. 5. Sagrado: Este ¨¦ o n¨ªvel mais elevado. ¨¦ dito que algu¨¦m que atinge o n¨ªvel sagrado transcende a humanidade, aproximando-se do dom¨ªnio divino. Na verdade, muitos acreditam que isso seja apenas um mito. O rapaz tomou f?lego antes de obriga??o, sua paix?o evidente. ¡ª J¨¢ no caminho da espada, os n¨ªveis de um padr?o semelhante: 1. Guerreiro: Algu¨¦m que domina as t¨¦cnicas b¨¢sicas e sabe como manejar uma espada. 2. Mestre: Um guerreiro que dedicou anos ao aperfei?oamento de seu estilo de luta e pode enfrentar advers¨¢rios com habilidades muito superiores. 3. Grande Mestre: Assim como na magia, esse t¨ªtulo ¨¦ dado apenas aos mais extraordin¨¢rios. A diferen?a ¨¦ que, aqui, o corpo e a mente s?o moldados ao extremo, evoluindo o guerreiro em uma arma viva. 4. Santo da Espada: Um t¨ªtulo lend¨¢rio. Apenas aqueles que transcendem os limites mortais podem ser chamados assim. Dizem que um santo da espada pode cortar montanhas ou dividir rios com um ¨²nico golpe. 5. Sagrado: Assim como na magia, esse ¨¦ o n¨ªvel mais alto. Dizem que um sagrado da espada ¨¦ capaz de enfrentar at¨¦ mesmo as criaturas mais poderosas deste mundo. O jovem concluiu com um brilho de orgulho nos olhos: ¡ª ¨¦ importante lembrar que, ¨¤ medida que avan?a, a dificuldade aumenta exponencialmente. Por exemplo, muitos conseguem alcan?ar o t¨ªtulo de mago ou guerreiro, mas menos de 10% desses chegam a mestre. Para grande mestre, s?o precisas d¨¦cadas de dedica??o, e apenas 15 pessoas no Reino de Bellsoul ostentam esse t¨ªtulo hoje. A partir da¨ª, chegar a sabedoria ou santo j¨¢ ¨¦ considerado um feito quase imposs¨ªvel. O sil¨ºncio caiu entre eles, e os olhos de Lucien brilharam, n?o com esperan?a, mas com um misto de curiosidade e algo mais sombrio. Ele agradeceu com um leve aceno e virou-se para pegar os p?es. Algo naquela conversa permaneceu martelando em sua mente, mas ele demorou os pensamentos por enquanto. Logo, ele estava novamente em sua casa, o caf¨¦ j¨¢ estava pronto e os p?es que havia comprados estavam sobre a mesa. Os olhos de sua irm? estavam brilhando, Lucien acenou com a cabe?a, e ela partiu para cima da comida, saboreando cada mordida. Lucien, no entanto, ainda lembrou daquela conversa de mais cedo. Ele tinha despertado interesse naquilo tudo. E agora queria saber mais. Ainda estava cedo, e Lucien j¨¢ sabia exatamente onde procurar para encontrar as respostas que eu precisava. Mas por hora, ele aproveitou seu caf¨¦ da manh? com sua irm?zinha, e se divertiu vendo ela feliz. Homem sem nome A tarde avan?ava, e Lucien se preparava para deixar a casa mais uma vez. Ele sabia que precisava enfrentar aquela caminhada, n?o apenas para alimentar sua curiosidade rec¨¦m-despertada sobre magia e espadas, mas tamb¨¦m para buscar qualquer possibilidade de melhorar a vida miser¨¢vel que compartilhava com sua irm?, Lucy. Ele tinha ouvido falar das vantagens que um desperto recebia do Reino: apoio, prote??o, e, acima de tudo, uma vida que parecia inating¨ªvel para pessoas como eles. Ele ajeitou a roupa surrada, passou os dedos pelos cabelos desgrenhados e deu um suspiro pesado antes de se virar para Lucy, que estava sentada no canto, com os olhos atentos. ¡ª Lucy, eu preciso sair. Se comporte e n?o abra a porta para ningu¨¦m, est¨¢ bem? Eu n?o demoro. Ele mal teve tempo de reagir antes que Lucy corresse at¨¦ ele, agarrando sua roupa com for?a. ¡ª N?o! Por que voc¨º tem que ir de novo? Por que eu tenho que ficar sempre sozinha? ¡ª A voz dela estava embargada, carregada de m¨¢goa e cansa?o. Aquelas palavras foram como facas cravando o cora??o de Lucien. Ele congelou no lugar, seus olhos caindo lentamente at¨¦ encontrar os dela. Ele sabia que ela estava certa. Cada vez que ele a deixava para tr¨¢s, a inseguran?a crescia entre os dois. Ele odiava aquilo. Lucy era tudo o que ele tinha, e o pensamento de que algo poderia acontecer com ela enquanto ele estava fora o deixava aterrorizado. ¡ª Eu sinto muito, Lucy¡­ ¡ª Ele se ajoelhou ¨¤ altura dela, tentando for?ar um sorriso que n?o chegava a seus olhos. ¡ª Prometo que ¨¦ a ¨²ltima vez essa semana, t¨¢? Amanh?, a gente vai dar uma volta naquele lugar que voc¨º gosta. O que acha? Lucy hesitou, os l¨¢bios tr¨ºmulos antes de soltar um suspiro frustrado. ¡ª T¨¢ bom¡­ mas voc¨º promete que volta logo? ¡ª Eu prometo. ¡ª Ele bagun?ou os cabelos dela de leve, tentando disfar?ar o n¨® na garganta. Quando se afastou, Lucien esperava que ela o chamasse de volta, que insistisse para que ele ficasse. Uma parte dele queria mais do que tudo que ela fizesse isso, que o segurasse e o impedisse de sair. Mas ela n?o o fez. Lucy ficou parada, olhando enquanto ele passava pela porta. Ele olhou para tr¨¢s uma ¨²ltima vez e viu os olhos dela fixos nele, como se fossem ancoras invis¨ªveis tentando segur¨¢-lo. Ele sorriu de novo, um sorriso triste e vazio, e ent?o partiu, sentindo como se estivesse deixando uma parte de si para tr¨¢s. Enquanto caminhava, seus pensamentos estavam longe. Ele n?o conseguia se livrar da sensa??o de que, um dia, n?o voltaria. Ou pior, que voltaria para uma casa vazia.
Lucien caminhava pelas ruas de cabe?a baixa, sua camisa preta longa quase escondendo suas m?os magras e uma cal?a maior que seu tamanho, que ele ajustava com um cinto improvisado. Nos p¨¦s, um par de t¨ºnis encardidos que, em algum momento, j¨¢ haviam sido brancos. Ele sabia que sua apar¨ºncia chamava a aten??o, mas isso n?o o incomodava mais. Era uma rotina. As pessoas o observavam enquanto ele passava. Alguns lan?avam olhares de pena, outros de desprezo, e havia tamb¨¦m os curiosos, que cochichavam entre si sobre o garoto. Ele j¨¢ estava acostumado com os sussurros, mas naquele dia parecia que cada palavra afiada se cravava mais fundo nele. ¡ª Olha s¨®, ¨¦ aquele menino de novo. ¡ª Como ser¨¢ que eles ainda est?o vivos? ¡ª Dizem que ele anda por a¨ª furtando. Lucien apertou os punhos e estalou a l¨ªngua com irrita??o, mas n?o respondeu. N?o valia a pena. Ele apenas apressou o passo, as vozes diminuindo ¨¤ medida que ele se afastava e desaparecia de vista. Depois de algum tempo, ele finalmente chegou ¨¤ frutaria. No entanto, ao se aproximar, percebeu algo diferente: a loja estava cercada por cavaleiros, suas armaduras reluzindo ao sol. Ele parou por um momento, observando de longe. ¡ª Qual ser¨¢ o n¨ªvel deles? ¡ª pensou Lucien, tentando avaliar os guardas. ¡ª S?o guerreiros? Mestres? Mas foi o que viu al¨¦m deles que fez seu cora??o apertar. Um homem, de cabelos quase grisalhos e olhar derrotado, estava sentado no ch?o ao lado da loja. Ele segurava os pr¨®prios cabelos com uma das m?os, enquanto a outra enxugava as l¨¢grimas que pareciam n?o parar de escorrer. Era o dono da loja. Um homem que Lucien conhecia bem, algu¨¦m que havia dedicado anos ao pequeno neg¨®cio. Agora, ele chorava como uma crian?a, devastado pelo furto que havia sofrido. Lucien ouviu os guardas murmurarem algo sobre o roubo: apenas algumas moedas de prata e ouro haviam sido levadas, mas o impacto era maior do que os bens perdidos. Era como se o homem tivesse sido tra¨ªdo por sua pr¨®pria dedica??o. O garoto sentiu o cora??o apertar ainda mais, quase como se uma dor f¨ªsica o consumisse. Ele desviou o olhar por um momento, mas a cena j¨¢ estava gravada em sua mente. ¡ª Talvez eu devesse procurar um m¨¦dico¡­ ¡ª murmurou para si mesmo, levando uma m?o ao peito, que parecia pesar toneladas. Mas logo balan?ou a cabe?a. M¨¦dicos eram caros. Essa dor, ele sabia, n?o tinha rem¨¦dio. Lucien caminhava pelas ruas com o cora??o pesado, a culpa cravando-se em sua mente como uma faca. Ele sabia que roubar era errado, mas a necessidade era um monstro implac¨¢vel que o perseguia a cada dia. As mem¨®rias do velho chorando em frente ¨¤ frutaria o atormentavam. Ele podia sentir o peso da dor daquele homem, mas sabia que a escolha havia sido inevit¨¢vel. N?o era apenas a sobreviv¨ºncia dele em jogo; era a de Lucy tamb¨¦m. Por¨¦m, isso n?o aliviava o fardo. O mundo parecia t?o cruel e indiferente ¨¤s suas lutas. Ele queria poder viver de forma honesta, sem precisar olhar por cima do ombro ou carregar o remorso de suas a??es. Mas a realidade n?o era t?o simples. Havia uma lei que proibia menores de 14 anos de trabalhar, uma lei que, em teoria, existia para proteg¨º-los, mas que na pr¨¢tica apenas complicava a vida de quem j¨¢ estava no fundo do po?o. Faltavam apenas cinco meses para Lucien alcan?ar a idade m¨ªnima e finalmente poder procurar um emprego leg¨ªtimo. Apenas cinco meses, ele dizia a si mesmo repetidamente, como se isso pudesse torn¨¢-los mais suport¨¢veis. Depois de dois anos vivendo de furtos, doa??es espor¨¢dicas e ¨¢gua para enganar a fome, ele sentia que o fim desse pesadelo estava finalmente ao seu alcance. Mas at¨¦ l¨¢, ele precisava continuar fazendo escolhas que detestava. Ele queria acreditar que estava fazendo isso pelo bem de Lucy, que cada peda?o de p?o roubado, cada moeda furtada, era um passo para mant¨º-la viva e saud¨¢vel. E, mesmo que a culpa o consumisse por dentro, ele sabia que n?o podia parar agora.If you come across this story on Amazon, it''s taken without permission from the author. Report it. Lucien suspirou enquanto seus pensamentos o acompanhavam pelas ruas cinzentas. "Eu sei que ¨¦ errado, mas se n?o for eu, quem vai cuidar de n¨®s? Quem vai cuidar dela?" Ele se perguntou em sil¨ºncio, olhando para o c¨¦u p¨¢lido acima, como se esperasse uma resposta que nunca viria. O mundo era cruel, e ele aprendera da pior forma que, quando se est¨¢ sozinho, a moralidade nem sempre ¨¦ um luxo que se pode sustentar. Deixando a frutaria para tr¨¢s, Lucien caminhou com passos r¨¢pidos, mantendo-se nas sombras das ruas estreitas. Ele evitava cruzar com olhares curiosos ou suspeitos. J¨¢ havia aprendido que o anonimato era sua melhor prote??o. O que tinha que ser feito, foi feito, e agora ele precisava seguir adiante. Virando ¨¤ direita na rua da loja, ele desceu por um beco apertado e deserto, desaparecendo da vista de qualquer um que pudesse t¨º-lo notado. Alguns minutos depois, Lucien chegou ao seu destino: uma casa de apar¨ºncia decadente, com um port?o de ferro enferrujado e paredes de pedra ¨²midas. O lugar exalava uma aura opressiva, como se os pr¨®prios muros sussurrassem segredos sombrios. Ele olhou para os lados, certificando-se de que ningu¨¦m o havia seguido. Satisfeito, bateu no port?o e murmurou, "Sou eu, Luen." Esse nome, criado com uma simplicidade que beirava o c?mico, era uma identidade tempor¨¢ria, usada apenas para manter sua vida dupla intacta. O port?o rangeu enquanto se abria, revelando um homem imenso, de pele bronzeada e m¨²sculos que pareciam blocos de pedra. Sua express?o carregava um misto de desprezo e impaci¨ºncia, como se estivesse ¨¤ beira de lan?ar um soco. Lucien n?o ousou encar¨¢-lo; sabia que provocar um tipo como aquele era um convite para problemas. Ele simplesmente passou por ele, encolhendo-se para dentro da casa. O interior era sombrio e abafado, iluminado apenas por algumas velas espalhadas estrategicamente. A luz tr¨ºmula lan?ava sombras dan?antes nas paredes, criando um ambiente que parecia vivo com inten??es sinistras. Lucien sabia o porqu¨º. O dono daquele lugar n?o era apenas m?o de vaca, mas tamb¨¦m um homem cuidadoso, algu¨¦m que preferia manter as autoridades o mais longe poss¨ªvel de seus neg¨®cios obscuros. Lucien seguiu pelo corredor principal, que cheirava a umidade e algo mais indescrit¨ªvel. A cada passo, ele ouvia o ranger discreto das t¨¢buas do ch?o, um som que parecia amplificar o peso de sua presen?a naquele espa?o. Ele virou ¨¤ esquerda no corredor estreito, at¨¦ parar em frente a uma porta no final. Enfiando a m?o no bolso, ele sentiu o peso familiar de uma moeda de ouro. A moeda n?o era apenas um pagamento; era a chave para as informa??es que ele buscava. Informa??es que, de outra forma, estariam fora do alcance de algu¨¦m como ele. Sem hesitar, ele bateu na porta, esperou um instante e entrou. O cheiro de tabaco velho e madeira queimada era a primeira coisa que atingia o nariz de Lucien ao entrar na sala. A luz era ainda mais escassa ali dentro, com apenas uma lamparina oscilando sobre uma mesa de madeira desgastada. Atr¨¢s dela, um homem franzino, de cabelos grisalhos e barba rala, mexia em alguns pap¨¦is. Ele usava ¨®culos tortos que deslizavam continuamente pelo nariz, e suas roupas eram simples, mas limpas. ¡ª Ah, Luen. ¡ª A voz dele era rouca, cansada, mas carregada de sarcasmo. ¡ª Achei que tivesse esquecido do nosso encontro. Ou que tivesse sido pego. Lucien deu um meio sorriso e balan?ou a cabe?a. ¡ª Ainda n?o. O homem gesticulou para uma cadeira ¨¤ frente da mesa. ¡ª Sente-se. Vamos direto ao ponto. Voc¨º trouxe o pagamento do ¨²ltimo trabalho? Lucien tirou a moeda de ouro do bolso e a colocou sobre a mesa. O homem a pegou rapidamente, analisando-a sob a luz tr¨ºmula da lamparina. Ele a girou entre os dedos, como se estivesse avaliando sua autenticidade, antes de assentir com satisfa??o. ¡ª Muito bem. O que quer saber desta vez? Lucien inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa. Sua express?o era s¨¦ria, os olhos brilhando com uma determina??o que contrastava com seu corpo fr¨¢gil. ¡ª Preciso saber mais sobre os n¨ªveis de poder. Magos, guerreiros, esses Grandes Mestres... Quero entender como algu¨¦m consegue alcan?ar essas posi??es. O homem levantou uma sobrancelha, surpreso. ¡ª Interessante. N?o esperava que um garoto como voc¨º se preocupasse com isso. Normalmente, me perguntam sobre rotas de fuga, contrabandistas ou... sei l¨¢, onde esconder corpos. Lucien n?o desviou o olhar. ¡ª N?o importa o que voc¨º esperava. Pode me ajudar ou n?o? O homem riu, um som seco e desagrad¨¢vel. Ele se inclinou para tr¨¢s na cadeira, cruzando os bra?os. ¡ª Claro que posso. Mas vou te avisar, garoto. Esse tipo de conhecimento n?o ¨¦ s¨® complicado, ¨¦ perigoso. Quanto mais voc¨º souber, mais vai atrair problemas. ¡ª J¨¢ estou acostumado com problemas. O homem estreitou os olhos, avaliando Lucien por um momento. Ent?o, come?ou a falar. ¡ª Os caminhos da magia e da espada s?o distintos, mas ambos exigem uma coisa: despertar. ¨¦ o primeiro passo. Se voc¨º n?o tem uma alma apta, um talento latente, nem adianta tentar. Algumas pessoas passam a vida inteira sem sequer sentir uma fa¨ªsca. Ele fez uma pausa, observando Lucien para ver se ele estava acompanhando. Quando viu que o garoto estava atento, continuou. ¡ª Para os magos, o despertar envolve sentir a mana dentro de si. Depois disso, vem o controle b¨¢sico. ¨¦ quando voc¨º se torna um mago de verdade. Com treino, estudo e, claro, muito esfor?o, pode avan?ar para Mestre. Mas ¨¦ a¨ª que o caminho fica dif¨ªcil. De Mestre para Grande Mestre, voc¨º precisa n?o s¨® de talento, mas de d¨¦cadas de dedica??o, e de enfrentar adversidades que fariam a maioria desistir. ¡ª E o caminho da espada? ¡ª interrompeu Lucien. ¡ª ¨¦ similar em termos de desafio, mas em vez de mana, o foco ¨¦ a harmonia entre corpo, mente e alma. Um guerreiro come?a entendendo o b¨¢sico da luta, mas para se tornar um Mestre, precisa transcender isso. Dominar n?o s¨® a t¨¦cnica, mas tamb¨¦m o esp¨ªrito. E, como voc¨º deve imaginar, poucos chegam a isso. Lucien franziu a testa, processando as informa??es. ¡ª E os Grandes Mestres? O homem soltou uma risada sombria. ¡ª Grandes Mestres est?o em outro n¨ªvel, garoto. Eles moldam o mundo ¨¤ sua volta, com espadas ou magia. Alguns dizem que est?o a um passo de se tornarem lendas vivas. Mas lembre-se: quanto maior o poder, maior o pre?o. Lucien apertou os punhos. ¡ª E como algu¨¦m comum, como eu, chega l¨¢? O homem sorriu de lado, um sorriso cheio de cinismo. ¡ª Algu¨¦m comum, hein? Bem, isso depende. Est¨¢ disposto a sacrificar tudo pelo poder? Lucien n?o respondeu de imediato. Ele apenas encarou o homem, o peso da pergunta pairando no ar. ¡ª H¨¢ uma forma de despertar sem precisar passar por tudo isso, por¨¦m, n?o ¨¦ nada bonito ou romantico como a forma natural. ¨¦ algo bruto, visceral. Vou te explicar. Esse tipo de despertar, seja no caminho da magia ou da espada, acontece quando voc¨º chega ao limite absoluto ¡ª e quando eu digo limite, ¨¦ o extremo do seu corpo, da sua alma e da sua mente. N?o ¨¦ sobre querer ou desejar. ¨¦ sobre necessidade. Imagine-se em uma situa??o onde cada fibra do seu ser est¨¢ gritando por sobreviv¨ºncia. Seu corpo est¨¢ prestes a desmoronar, seus m¨²sculos tremem de cansa?o, suas for?as se esvaem. Sua mente est¨¢ ¨¤ beira da loucura, inundada por desespero, medo e d¨²vida. E sua alma? Ela parece prestes a se despeda?ar, como vidro sob uma press?o insuport¨¢vel. ¡ª E ent?o, o que acontece? ¡ª Lucien perguntou, os olhos arregalados. ¡ª ¨¦ nesse momento, no ponto mais baixo, quando tudo dentro de voc¨º est¨¢ prestes a colapsar, que algumas pessoas fazem algo extraordin¨¢rio. Elas n?o se quebram. Elas se transformam. ¨¦ como se o caos dentro delas explodisse, liberando algo maior. Sua mana desperta ou sua conex?o com a espada finalmente surge. ¡ª Isso n?o parece algo que qualquer um possa suportar... ¡ª murmurou Lucien. ¡ª N?o ¨¦. S¨® os mais determinados, ou os mais desesperados, conseguem. Mas quando acontece... ¨¦ como abrir os olhos pela primeira vez. A mana come?a a fluir em voc¨º, como um rio caudaloso quebrando uma represa. Ou, no caso do caminho da espada, sua mente, corpo e alma entram em harmonia perfeita. Voc¨º percebe o que ¨¦ necess¨¢rio para moldar seu ser. Aquele poder ¨²nico que reflete exatamente quem voc¨º ¨¦. O homem fez uma pausa, seus olhos fixos nos de Lucien. ¡ª Mas lembre-se, garoto: esse tipo de despertar n?o ¨¦ uma escolha. N?o ¨¦ algo que voc¨º pode for?ar. ¨¦ algo que acontece quando a vida te joga contra o abismo, e voc¨º decide pular... ao inv¨¦s de cair. Lucien ficou em sil¨ºncio, absorvendo as palavras, a mente fervilhando com as possibilidades e os perigos. Ele sentia que agora entendia um pouco sobre toda essa hist¨®ria de magia e espada. Lucien j¨¢ estava se levantando para sair, quando o homem continuou a falar. No entanto, ele interrompeu ele. ¡ª Espera, ainda tem mais? ¡ª Lucien ainda estava tentando manter a ¨²ltima explica??o em sua mente, e agora ele teria que acrescentar mais ainda¡­ ¡ª Sim, tem mais¡­ muito mais. ¡ª Lucien suspirou disfar?adamente. Pelo visto ele dormiria com uma grande dor de cabe?a essa noite. Trabalho perigoso Escuta, garoto. Vou te explicar direitinho sobre os tipos de magias e o caminho da espada. Isso vai al¨¦m de s¨® balan?ar uma espada ou lan?ar fogo com as m?os. Tem uma ci¨ºncia, um prop¨®sito. Lucien estava lutando para manter tudo aqui em sua mente, por sorte, ele tinha uma mente muito mais desenvolvida que um garoto de 13 anos deveria ter. ¡ª Certo... Mas fala logo, n?o tenho o dia todo. O homem manteve seus olhos em Lucien, ele estava se preparando para repassar cada detalhe que sabia. ¡ª T¨¢ bom, espertinho. Vamos come?ar pelos tipos de magias. Existem quatro grandes categorias. ¡ª Quatro? Achei que era tudo a mesma coisa, tipo "abracadabra". O homem lan?ou um sorriso para ele, e disse em um tom de sarcasmo ¡ª N?o ¨¦ t?o simples assim, moleque. Preste aten??o. A primeira delas ¨¦ a Magia Elementar. ¨¦ a mais comum. Quem usa essa magia consegue controlar um dos quatro elementos: fogo, ¨¢gua, terra e ar. Geralmente, os magos se especializam em um ¨²nico elemento, mas alguns g¨ºnios conseguem dominar dois ou at¨¦ mais. Por exemplo, um mago de fogo pode criar chamas, lan?ar explos?es ou at¨¦ moldar o calor ao redor dele. ¡ª Ent?o, ¨¦ tipo brincar com a natureza? Disse Lucien. ¡ª Algo assim. S¨® que com muito treino. A segunda delas ¨¦ a Magia R¨²nica. Essa aqui ¨¦ diferente. N?o depende de voc¨º ter "despertado" a magia. Qualquer um pode aprender, desde que tenha paci¨ºncia e um pouco de mana. Nela voc¨º desenha ou escreve s¨ªmbolos m¨¢gicos que canalizam energia. Funciona para criar barreiras, armas encantadas, armadilhas¡­ Mas aviso logo: exige muito estudo e anos de pr¨¢tica. ¡ª Tipo decorar livros? Parece chato, por¨¦m deve ser realmente ¨²til. ¡ª Lucien s¨® teve contato com livros quando completou seus 10 anos, depois disso algumas coisas aconteceram e ele s¨® conseguiu aprender o b¨¢sico para conseguir ler. Mas ele sabia como o conhecimento era algo importante. ¡ª N?o ¨¦ para qualquer um, somente alguns g¨ºnios s?o capazes de dominar ela. Agora, vem a parte perigosa... A terceira delas ¨¦ a Magia Negra. Essa ¨¦ pura corrup??o e destrui??o. ¨¦ como se o mago arrancasse energia de tudo ao redor, at¨¦ de si mesmo. Ele pode invocar criaturas sombrias, controlar cad¨¢veres ou roubar a vitalidade dos outros. Mas, cuidado. Quem usa isso por muito tempo pode acabar sendo consumido pela pr¨®pria magia. ¡ª Lucien havia ficado curioso, aquele tipo de magia era o que mais parecia com ele at¨¦ agora. Ele imaginava sua alma cheia de escurid?o e suja, e roubar dos outros ¨¦ o que ele faz a dois anos, n?o o surpreenderia se ele despertasse afinidade com essa magia. Ao menos era isso que ele pensava. ¡ª Agora a quarta e ¨²ltima ¨¦ a Magia da Alma. Agora, essa ¨¦ especial. S¨® uns poucos no mundo conseguem usar isso. Atualmente quatro pessoas s?o usu¨¢rios dessa magia, cada um deles ¨¦ uma pot¨ºncia a ser temida. Diferente das outras ela ¨¦ a magia que reflete a ess¨ºncia da alma do usu¨¢rio. O que ela faz depende do tipo de pessoa que voc¨º ¨¦. Por exemplo, algu¨¦m cheio de raiva pode manipular sangue. Algu¨¦m sombrio pode controlar sombras. J¨¢ um iluminado pode dobrar a luz ou at¨¦ a gravidade. Mas, aviso: brincar com a ess¨ºncia da sua alma ¨¦ perigoso. Um passo em falso e voc¨º pode se destruir. ¡ª S¨® quatro pessoas conseguem usar isso no mundo todo? ¡ª Exato. Isso s¨® real?a o qu?o rara ela ¨¦. Agora, vamos ao caminho da espada. ¡ª Ap¨®s escutar sobre a magia, Lucien sentiu que aquilo n?o era sua praia. ¡ª Isso parece mais a minha cara. ¡ª Disse ele, curioso com o que ia escutar. ¡ª Com esse corpo magro, acho dif¨ªcil. Mas deixa eu te contar. O Despertar no Caminho da Espada¡­ Para seguir o caminho da espada, voc¨º precisa despertar. Isso acontece quando o corpo, a mente e a alma entram em sintonia, geralmente em momentos de extremo perigo ou esfor?o. ¨¦ um processo ¨²nico para cada guerreiro. ¡ª Ent?o, ¨¦ tipo lutar at¨¦ quase morrer ou treinar e se manter determinado e concentrado a um n¨ªvel extremo? ¡ª Exatamente. Alguns despertam em batalhas, outros enfrentando suas fraquezas. Isso varia de acordo com a pessoa. Primeiro de tudo, voc¨º precisa entender que diferente da magia, o caminho da espada n?o ¨¦ cheio de variedades que o usu¨¢rio tem ou n?o afinidade. S¨® existe uma categoria que ele deve seguir ap¨®s despertar, que ¨¦ chamado de: A Primeira Forma. Depois do despertar, voc¨º descobre sua "Primeira Forma". ¨¦ a habilidade inicial que reflete quem voc¨º ¨¦ como guerreiro. Ela ¨¦ ¨²nica para cada pessoa. ¡ª Lucien tinha ficado curioso, diferente da magia, parecia que o usu¨¢rio n?o precisava se manter preso a somente uma das quatros categorias, o que era bom ¡ª D¨¢ um exemplo. ¡ª Disse Lucien, sedento por mais informa??es. O homem sorriu para ele, continuou a explica??o. ¡ª Um guerreiro focado em velocidade pode desenvolver uma t¨¦cnica que o torna mais r¨¢pido do que o olho consegue acompanhar. J¨¢ um que valoriza a for?a bruta pode criar um golpe capaz de partir uma montanha. Tudo depende da sua ess¨ºncia. ¡ª E depois disso? ¡ª Depois, voc¨º aprimora sua t¨¦cnica, aprende novas formas e desenvolve um estilo pr¨®prio. Mas tudo come?a com a Primeira Forma. ¡ª Lucien estava satisfeito com tudo que tinha aprendido hoje, com uma moeda de ouro ele pagou a parte do homem por seu ¨²ltimo trabalho, e ainda tirou toda essa informa??o, a sorte parecia estar do seu lado ultimamente. ¡ª Ent?o, a magia ¨¦ sobre controlar o mundo ao seu redor, e a espada ¨¦ sobre controlar a si mesmo? ¡ª Exatamente, garoto. Agora, ¨¦ s¨® escolher o seu caminho... e boa sorte.If you discover this tale on Amazon, be aware that it has been unlawfully taken from Royal Road. Please report it. ¡ª Ouvindo aquilo, Lucien deixou um espa?o para d¨²vida em sua mente, e logo exp?s para o homem. ¡ª Quem disse que eu preciso escolher s¨® um? ¡ª O homem sorriu como se ele tivesse contado uma piada, sua gargalhada havia ecoado por toda a sala, as chamas das velas balan?aram e l¨¢grimas de tanto sorrir apareceram no rosto do homem. ¡ª Ambicioso, hein? Vamos ver se voc¨º tem o que ¨¦ preciso. ¡ª Com isso, a conversa parecia ter chegado ao fim. Lucien n?o tinha mais perguntas, e sua mente j¨¢ estava voltada para casa. Sua irm? j¨¢ havia esperado por tempo suficiente, e ele precisava voltar para preparar algo para o jantar. Ele come?ou a se levantar, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, o homem o encarou profundamente, como se estivesse olhando para sua alma. ¡ª N?o v¨¢ ainda. Nossa conversa n?o terminou ¡ª disse o homem com uma voz firme, que fez Lucien congelar. Ap¨®s uma breve pausa, ele acrescentou com um leve sorriso ¡ª Tenho um trabalho para voc¨º. Um dos grandes. Lucien permaneceu sentado, surpreso. Ele n?o esperava receber outro trabalho t?o cedo. Normalmente, as tarefas vinham com meses de intervalo, tr¨ºs ou quatro no m¨¢ximo. Receber dois em t?o pouco tempo era algo in¨¦dito. ¡ª Antes de qualquer coisa, parab¨¦ns, Luen. ¡ª O homem come?ou a bater palmas lentamente, embora seu olhar permanecesse s¨¦rio e pesado. ¡ª Voc¨º acaba de ser promovido. Lucien franziu a testa, desconfiado e confuso. ¡ª Promovido? Promovido a qu¨º, exatamente? O homem inclinou-se levemente na cadeira, seu sorriso ampliando-se, mas sem perder o tom sombrio. ¡ª O qu¨º? Achou que ficaria para sempre fazendo esses trabalhinhos insignificantes, furtando lojas pequenas e coletando migalhas? N?o, garoto. Isso n?o ¨¦ trabalho para algu¨¦m com o seu talento. Voc¨º tem potencial. Voc¨º ¨¦ diferente. E agora chegou a hora de provar isso. A sala ficou em sil¨ºncio por um momento, as palavras pairando pesadas no ar. Lucien sentiu um frio na espinha. Ele sabia que o que estava por vir n?o seria nada f¨¢cil. O homem se inclinou ainda mais para frente, seus olhos brilhando com um misto de excita??o e cautela. ¡ª Vou direto ao ponto, Luen. Voc¨º ouviu falar de Elias, um dos Grandes Mestres do Reino de Bellsoul? Lucien assentiu lentamente, lembrando da multid?o que viu pela manh?. ¡ª Sim, vi ele hoje mais cedo. Estava sendo aclamado na rua como se fosse algum tipo de deus. O homem soltou uma risada curta e seca. ¡ª Ele ¨¦, para muitos. Elias n?o ¨¦ apenas um Grande Mestre, Luen. Ele ¨¦ o Protetor da Fronteira do Norte, um dos homens mais poderosos que servem diretamente ao Rei Soul III. Seus feitos s?o lend¨¢rios: enfrentou ex¨¦rcitos sozinho, selou uma tempestade de mana que poderia destruir uma cidade inteira e dizem que seu dom¨ªnio sobre a magia r¨²nica e elemental ¨¦ incompar¨¢vel. Lucien sentiu o peso da descri??o, mas permaneceu em sil¨ºncio. Ele sabia que o homem n?o o chamaria ali apenas para contar hist¨®rias. ¡ª Aqui est¨¢ o ponto, garoto ¡ª continuou ele, inclinando-se ainda mais. ¡ª Elias est¨¢ prestes a deixar sua mans?o em Bellsoul para uma miss?o nas terras do norte daqui uma semana. Dizem que ele estar¨¢ ausente por pelo menos duas semanas. A casa dele, ¨¦ claro, estar¨¢ protegida por magia e guardas. Mas... Ele fez uma pausa, observando Lucien atentamente. ¡ª Mas ele estar¨¢ levando a maior parte dos seus homens de confian?a. E dentro daquela mans?o, h¨¢ algo que vale mais do que ouro e prata. Lucien cruzou os bra?os, interessado. ¡ª O que exatamente? ¡ª A "L¨¢grima de Aether", uma j¨®ia m¨¢gica rara. Dizem que foi retirada de uma besta divina. N?o apenas ¨¦ incrivelmente valiosa, mas cont¨¦m um poder imenso. Alguns acreditam que ela amplifica a mana do portador em dez vezes. Outros dizem que ela ¨¦ capaz de proteger contra qualquer tipo de magia negra ou maldi??o. O que eu sei ¨¦ que qualquer um que a tenha se torna uma lenda... ou um alvo. Lucien piscou, tentando absorver as palavras. ¡ª E voc¨º quer que eu roube isso? ¡ª perguntou, incr¨¦dulo. O homem riu novamente, um som baixo e quase cruel. ¡ª Quero que voc¨º entre, pegue a j¨®ia e saia sem ser pego. Lucien ficou em sil¨ºncio, sentindo o peso das palavras. ¡ª Voc¨º entende o que est¨¢ me pedindo? Essa mans?o deve estar cheia de armadilhas e guardas. E se eu for pego, n?o v?o me mandar para uma masmorra, v?o me matar! ¡ª Eu sei, garoto. Mas ou?a. Se voc¨º conseguir, a recompensa ser¨¢ astron?mica. Voc¨º pode viver anos sem precisar de mais nenhum trabalho. Quem sabe at¨¦ largar essa vida e dar uma chance a voc¨º de come?ar de novo em algum lugar longe daqui. Lucien ponderou, seu cora??o batendo forte. A promessa de estabilidade e seguran?a era tentadora, mas o risco... ¡ª Como eu vou fazer isso? ¡ª perguntou, finalmente. O homem sorriu, satisfeito. ¡ª Eu j¨¢ tenho um plano. Ele puxou um pergaminho do bolso e o desenrolou na mesa. Era um mapa detalhado da mans?o de Elias, com marca??es em vermelho indicando pontos de interesse. ¡ª Aqui est¨¢ o que voc¨º precisa saber. A mans?o tem tr¨ºs andares, com a L¨¢grima de Aether guardada no cofre do ¨²ltimo andar. H¨¢ duas entradas principais, mas tamb¨¦m h¨¢ uma passagem subterranea que poucos conhecem. O problema ¨¦ que o cofre est¨¢ protegido por uma barreira m¨¢gica. Eu consegui algo que pode te ajudar a quebr¨¢-la, mas vai exigir precis?o e calma. Ele empurrou um pequeno frasco de vidro para Lucien, contendo um l¨ªquido prateado que brilhava ¨¤ luz das velas. ¡ª Isso aqui ¨¦ um Dissolvente Arcano. Use-o para enfraquecer a barreira, mas cuidado. Ele s¨® funciona por alguns minutos e qualquer erro pode alertar os guardas. Lucien pegou o frasco, seu est?mago embrulhando. ¡ª Essa ¨¦ toda a informa??o que posso te dar, o resto ¨¦ com voc¨º. ¡ª E se eu n?o quiser fazer isso? O homem sorriu, mas seus olhos estavam gelados. ¡ª Essa escolha ¨¦ sua, Luen. Mas pense bem. Voc¨º quer continuar vivendo de migalhas e furtos insignificantes? Ou quer mudar sua vida para sempre? Lucien apertou o frasco em sua m?o, sabendo que, gostasse ou n?o, seu destino estava selado. Antes de responder ao homem, Lucien fez um movimento instintivo, seus olhos vagando pela sala em busca de alguma distra??o. Foi quando notou o grande espelho encostado na estante. Ao se aproximar, seus olhos se fixaram em seu reflexo, e uma sensa??o estranha se apoderou dele. Seu corpo magro, seus olhos sombrios, o rosto p¨¢lido e marcado pela mis¨¦ria... n?o era assim que uma crian?a deveria se parecer. O olhar que ele encontrou refletido parecia distante, vazio, como se a vida tivesse drenado dele qualquer vest¨ªgio de inoc¨ºncia ou esperan?a. Por um breve momento, ele se perdeu naquele espelho, como se fosse poss¨ªvel enxergar a vers?o de si mesmo que sempre temeu se tornar. Mas a vis?o durou apenas um instante. Ele sabia que n?o podia se dar ao luxo de se perder em pensamentos. A miss?o, o risco, a promessa de uma vida melhor... tudo isso ainda estava em jogo. Lucien se virou lentamente, deixando o espelho para tr¨¢s, e olhou o homem diretamente nos olhos. A decis?o estava tomada, o peso da d¨²vida ainda pairava sobre ele, mas n?o havia mais volta. ¡ª Muito bem ¡ª disse com uma determina??o renovada, sua voz firme. ¡ª Farei os preparativos. O homem sorriu, os olhos brilhando com uma satisfa??o silenciosa, e ent?o, como se j¨¢ tivesse antecipado cada palavra de Lucien, come?ou a negociar os termos das recompensas. A conversa se arrastou por mais uma hora, as palavras trocadas com precis?o cir¨²rgica, como um jogo de xadrez onde cada movimento era calculado. O homem sabia exatamente o que oferecer para manter Lucien interessado e, ao mesmo tempo, o suficiente para garantir que ele cumprisse sua parte sem hesitar. As promessas eram grandiosas, falando de uma liberdade que Lucien jamais imaginou que poderia alcan?ar. Uma vida sem os fardos de sua exist¨ºncia atual, onde ele e sua irm? poderiam finalmente deixar para tr¨¢s o submundo sombrio e encontrar um lugar seguro. Mas, enquanto as palavras continuavam a fluir entre eles, algo se inquietava dentro de Lucien. Ele sabia que esse tipo de acordo n?o era simples, que cada pe?a desse quebra-cabe?a tinha seu pre?o. Mas, naquele momento, ele estava disposto a pagar o custo. Fim do longo dia Lucien estava a caminho de casa, com a mente fervilhando de pensamentos. O dia havia sido repleto de revela??es. Ele sempre soube da exist¨ºncia da magia e das lend¨¢rias espadas empunhadas por mestres. Tamb¨¦m conhecia os t¨ªtulos reverenciados por todo o Reino. Mas at¨¦ ent?o, nunca havia compreendido a complexidade e o sacrif¨ªcio necess¨¢rios para alcan?ar essas alturas. Antes, esse mundo parecia distante, irrelevante. Agora, era diferente. Ele precisava encontrar um caminho para se tornar algu¨¦m digno desses feitos. Status, respeito e, acima de tudo, riqueza incomensur¨¢vel o aguardavam no horizonte. Um sorriso ganancioso surgiu em seus l¨¢bios ao pensar nisso. Sua mente ent?o retornou ao trabalho que acabara de aceitar ¡ª um servi?o que prometia a absurda quantia de mil moedas de ouro. Mil moedas... Aquilo n?o era apenas dinheiro; era uma chance de mudar sua vida e a de sua irm? para sempre. Uma fortuna capaz de sustentar n?o apenas ele, mas at¨¦ mesmo as gera??es futuras. Por¨¦m, o brilho do ouro trazia consigo a sombra do perigo. Lucien sabia que n?o seria f¨¢cil. N?o era ¨¤ toa que a recompensa era t?o exorbitante. Para concluir essa miss?o, ele precisaria caminhar por uma linha t¨ºnue entre o sucesso e a ru¨ªna. O sorriso em seu rosto desapareceu, dando lugar a uma express?o sombria. Era a oportunidade de uma vida, mas tamb¨¦m a prova??o mais perigosa que j¨¢ enfrentara. Cautela, intelig¨ºncia e manipula??o seriam suas ¨²nicas armas. Um ¨²nico erro... e seria o fim. Ele apertou os punhos, determinado. N?o importava o risco. Se quisesse alcan?ar o que nunca teve, precisaria fazer o que nunca ousou. Para sua sorte, Lucien j¨¢ tinha em m?os tudo o que precisava. A planta da mans?o, o dia perfeito para invadir e at¨¦ mesmo um artefato que, segundo o homem, permitiria abrir um cofre m¨¢gico. As pe?as estavam ali, prontas para serem usadas. Agora, tudo dependia de como ele agiria. Essas informa??es eram literalmente sua t¨¢bua de salva??o. Sem elas, seria imposs¨ªvel sequer sonhar em penetrar a seguran?a de um lugar como aquele. Contudo, ao refletir sobre a precis?o e a profundidade dos dados que havia recebido, uma velha d¨²vida ressurgiu em sua mente. ¡ª Como diabos ele consegue acesso a tudo isso? Era algo que ele se perguntava desde o come?o. O homem parecia saber de tudo. Plantas arquitet?nicas de mans?es, rotinas de mestres renomados, segredos sussurrados nos cantos mais distantes do Reino... Era como se ele tivesse olhos e ouvidos em todos os lugares, observando e escutando tudo. Lucien lembrava-se de j¨¢ ter feito essa pergunta diretamente, mas nunca obteve uma resposta concreta. O homem era um po?o de mist¨¦rio e cautela. Ele sequer sabia o verdadeiro nome daquele que era sua principal fonte de sobreviv¨ºncia h¨¢ dois anos. Claro, aquilo era suspeito. Extremamente suspeito. Mas Lucien n?o tinha escolha. A confian?a era um luxo que ele n?o podia se dar ao trabalho de exigir. Era gra?as ¨¤s informa??es precisas daquele homem que ele conseguira manter Lucy viva durante os ¨²ltimos dois anos. Ainda assim, Lucien n?o era ing¨ºnuo. Ele tamb¨¦m havia tomado suas pr¨®prias precau??es. Quando come?aram a trabalhar juntos, deu um nome falso, evitando compartilhar qualquer detalhe pessoal sobre si mesmo. Nunca mencionou Lucy, sua casa, ou qualquer coisa que pudesse ser usada contra ele. Para aquele homem, Lucien era apenas "Luen", um garoto ¨®rf?o e invis¨ªvel. Enquanto andava pelas ruas sombrias, com a planta da mans?o dobrada dentro de seu bolso, Lucien refletia sobre o qu?o fr¨¢gil era sua posi??o. Era um jogo perigoso. Mas, at¨¦ agora, ele havia sobrevivido. E, com um pouco de sorte, esse trabalho seria sua porta de sa¨ªda para algo maior. Algo que finalmente lhe permitiria viver, e n?o apenas sobreviver. Por¨¦m, uma sombra de d¨²vida permanecia. Quem era aquele homem? E por que ele parecia saber tanto? Por ora, Lucien teria que conviver com a d¨²vida que o atormentava. N?o era o momento de se preocupar com a origem das informa??es do homem. Seu foco era claro: concluir a miss?o, pegar o pagamento e desaparecer com sua irm?. Esse era seu objetivo, e ele acreditava plenamente que conseguiria alcan?¨¢-lo. Depois de caminhar por um bom tempo, perdido em pensamentos, Lucien se viu parado em frente a uma pequena espetaria. Era uma loja simples, com um letreiro de madeira envelhecida onde letras tortas anunciavam ¡°Churrasco do Rodrigo¡±. Mesmo com sua apar¨ºncia humilde, o aroma que sa¨ªa de l¨¢ era irresist¨ªvel. O cheiro de carne assando na brasa ¡ª misturado com temperos fortes e uma pitada de fuma?a ¡ª tomava conta da rua estreita. A rua era movimentada, mesmo ¨¤quela hora da noite. Lojas de comida e pequenas barracas de frutas ainda estavam abertas, iluminadas por lampi?es de ¨®leo pendurados nas portas. As pedras irregulares do ch?o estavam sujas com restos de papel, cascas de frutas e pegadas molhadas, provavelmente da chuva da tarde. Pessoas andavam apressadas, algumas com sacolas cheias, outras apenas conversando em pequenos grupos. O burburinho de vozes se misturava ao som de panelas e grelhas, criando uma melodia t¨ªpica daquele bairro pobre. A espetaria ficava no centro de um cruzamento, onde os cheiros de diferentes comidas competiam entre si. A fachada era aberta, permitindo que os clientes vissem Rodrigo, o dono, trabalhando. Ele era um homem robusto, de bigode espesso, que manuseava espetos e brasa com uma agilidade impressionante. Ao lado dele, uma jovem, provavelmente sua filha, organizava os pedidos e entregava os espetos embrulhados em pap¨¦is amarelados de gordura. Lucien sentiu seu est?mago roncar. O aroma era inebriante, mas seu pensamento logo foi para Lucy. Era noite, e ele j¨¢ havia demorado mais do que o previsto. Precisava compens¨¢-la de alguma forma. Uma boa janta parecia o m¨ªnimo que podia fazer.The genuine version of this novel can be found on another site. Support the author by reading it there. Ele apertou o bolso, sentindo o toque frio da meia moeda de prata que havia recebido de troco mais cedo. N?o era muito, mas seria o suficiente para comprar alguns espetos e talvez at¨¦ um pouco de arroz em uma das barracas pr¨®ximas. Um sorriso involunt¨¢rio apareceu em seu rosto. Ele sabia que aquela refei??o alegraria Lucy, mesmo que por um momento. Al¨¦m disso, uma boa alimenta??o era essencial para o que estava por vir. Ele precisava estar em plena forma f¨ªsica e mental para enfrentar o desafio que o aguardava. De certa forma, comprar aquela janta era mais do que um gesto de carinho; era uma prepara??o para o futuro. Lucien respirou fundo e entrou na fila da espetaria. Ele j¨¢ conseguia imaginar o rosto de Lucy se iluminando ao sentir o cheiro da comida. Por um breve instante, deixou de lado as preocupa??es e concentrou-se naquele pequeno prazer. Quando Lucien finalmente chegou em casa, ele foi recebido de forma previsivelmente fria, mas isso n?o o abalou. Lucy, como sempre, estava sentada no canto da sala, fingindo estar furiosa, mas ele sabia que era s¨® fachada. Ainda assim, aquele olhar acusador sempre pesava um pouco em sua consci¨ºncia. Lucy era profundamente apegada ao irm?o. Afinal, ele era tudo o que ela tinha. Apesar disso, Lucien sabia que o sentimento era rec¨ªproco. Ele tamb¨¦m era muito apegado a ela, mas, como o mais velho e o ¨²nico respons¨¢vel, tinha que tomar decis?es dif¨ªceis, o que muitas vezes significava deix¨¢-la sozinha para resolver os problemas que garantiam a sobreviv¨ºncia de ambos. Ele colocou a sacola com a comida na mesa improvisada de madeira, um pouco desgastada pelo tempo. ¡ª Ei, Lucy. Quando voc¨º vai perdoar seu irm?o? ¡ª perguntou ele com um sorriso travesso, tentando suavizar o clima. Lucy estava comendo seu espeto com um prato de arroz ao lado, e apesar de estar se deliciando, seus olhos brilhando denunciavam que ela estava gostando mais do que queria admitir. Mas, como sempre, quando olhou para Lucien, fez uma careta exagerada e fingiu que ainda estava zangada. Talvez, pensou Lucien, ela acreditasse que, ao manter aquela fachada de irrita??o, poderia convenc¨º-lo a nunca mais deix¨¢-la sozinha. Na cabe?a de Lucy, se ele a levasse junto para o que quer que fosse, ela n?o se sentiria t?o solit¨¢ria, nem precisaria enfrentar as horas de ang¨²stia enquanto esperava sua volta. ¡ª Amanh? ¡ª respondeu Lucy, suspirando dramaticamente. Lucien piscou, confuso por um momento. Amanh?? O que ela queria dizer com isso? Mas ent?o, como uma lampada se acendendo, ele lembrou-se de sua promessa. "Amanh? eu te levo ao seu lugar favorito." Ele soltou um riso baixo e bagun?ou os cabelos da irm?, o que s¨® fez ela resmungar ainda mais. ¡ª Voc¨º nunca esquece nada, n?o ¨¦? ¡ª perguntou ele, rindo. Lucy finalmente sorriu de verdade, mas tentou esconder ao virar o rosto. ¡ª Claro que n?o! Voc¨º acha que eu n?o vou cobrar o que voc¨º promete? Lucien balan?ou a cabe?a e riu novamente, sentindo uma leveza momentanea. Por alguns minutos, enquanto comiam juntos, ele conseguiu esquecer os perigos que o aguardavam e as decis?es dif¨ªceis que precisaria tomar. Naquele instante, tudo o que importava era o sorriso genu¨ªno de Lucy e a promessa que ele precisava cumprir.
Depois de jantar, Lucy estava quase dormindo em p¨¦. Seus olhos estavam pesados, e ela trope?ava de tanto sono, parecendo um pequeno b¨ºbado cambaleante. Lucien, observando a cena, deixou escapar um sorriso raro. Era engra?ado e, ao mesmo tempo, reconfortante v¨º-la t?o relaxada depois de um dia dif¨ªcil. Antes que ela desabasse no ch?o, ele a segurou gentilmente pelo bra?o e a guiou at¨¦ a cama. Lucy resmungou algo incompreens¨ªvel, mas n?o resistiu. Seus passos eram vacilantes, e Lucien tinha que controlar o riso enquanto a conduzia. Quando finalmente a deitou, ela caiu na cama como uma pedra, adormecendo instantaneamente. Ele ficou parado por um momento, observando sua irm? dormir profundamente. O leve movimento de sua respira??o e o rosto tranquilo dela eram tudo o que ele precisava para se lembrar do motivo de tudo aquilo. "Amanh? vai ser um bom dia para ela," pensou. Depois disso, o que quer que viesse, ele enfrentaria. Lucien deu um passo para tr¨¢s, fechou a porta do quarto com cuidado e voltou para a cozinha. Sentou-se em uma cadeira que rangeu sob seu peso e deixou seu corpo relaxar. O ambiente agora estava silencioso, exceto pelo ocasional som do vento batendo contra as paredes da velha casa de madeira. Seus olhos se fixaram em um pequeno espelho que estava sobre a mesa. Era o mesmo espelho que normalmente ficava guardado em um arm¨¢rio, mas por algum motivo inexplic¨¢vel, estava ali agora. Lucien encarou seu pr¨®prio reflexo, seus olhos sombrios refletindo uma determina??o fria. Ele ficou assim por minutos, im¨®vel, mergulhado em pensamentos. O homem sem nome havia deixado claro: a miss?o que o esperava exigiria foco, cautela e controle absoluto. N?o havia espa?o para erros. Lucien sabia que precisava se preparar mentalmente. Aquilo n?o era apenas um roubo; era uma prova de fogo, um divisor de ¨¢guas. "Concentra??o," ele murmurou para si mesmo, os olhos nunca desviando do espelho. Ele precisava disso agora mais do que nunca. N?o era apenas sua vida que estava em jogo. O futuro de Lucy dependia de seu sucesso, e ele estava disposto a fazer qualquer coisa para garantir que ela tivesse uma vida melhor. A concentra??o ¨¦ tratada como uma habilidade rara, poderosa e extremamente dif¨ªcil de alcan?ar, uma for?a mental que, quando devidamente dominada, pode abrir portas inimagin¨¢veis. Inspirando-se nisso, Lucien refletia sobre o desafio de manter o foco absoluto. Ele sabia que concentra??o n?o era apenas "pensar em algo". Era muito mais do que isso. Concentrar-se verdadeiramente era como caminhar sobre uma corda bamba: qualquer distra??o, qualquer hesita??o, e voc¨º despenca. Exigia disciplina, paci¨ºncia e uma for?a de vontade inabal¨¢vel. Lucien, sentado diante do espelho, lembrou-se das palavras do homem sem nome, que enfatizava a importancia de manter a mente clara e fixa no objetivo. Para ele, concentra??o era o alicerce de tudo ¡ª o que separava os que triunfavam dos que fracassavam. Ele tentou colocar em pr¨¢tica. Respirou fundo, fechou os olhos e deixou os pensamentos correrem. Primeiro, vinham as distra??es: a imagem de Lucy dormindo, o som do vento, as d¨²vidas sobre o plano. Ele as reconheceu, mas n?o se agarrou a elas. Deixou que passassem como folhas levadas pela correnteza de um rio. Ent?o, ele focou na miss?o. Visualizou cada passo, cada movimento necess¨¢rio para atravessar a mans?o de Elias. Ele imaginou os corredores silenciosos, os guardas distra¨ªdos, o cofre m¨¢gico que ele teria que abrir. A clareza come?ou a surgir, mas ele sentiu o esfor?o de manter o foco. Era quase doloroso, como segurar um peso que amea?ava esmag¨¢-lo. Em algum lugar, Lucien uma vez ouviu que "a mente ¨¦ como um cavalo selvagem ¡ª indomada, feroz, sempre correndo para onde n?o queremos que v¨¢". Para dom¨¢-la, era necess¨¢rio muito mais do que desejo: era preciso pr¨¢tica, persist¨ºncia e resist¨ºncia. Lucien entendia isso agora. Ele n?o poderia se dar ao luxo de deixar sua mente vagar. N?o quando tudo estava em jogo. Ele respirou fundo, afastou os pensamentos e se levantou. A noite seria longa, mas Lucien sabia que, antes de mais nada, precisava descansar. O maior desafio de sua vida estava logo ¨¤ frente, e ele precisava estar pronto. Lucien e Lucy A luz da manh? entrava pela janela de madeira mal vedada, criando pequenos feixes de luz que dan?avam pelo quarto simples. Lucien estava deitado em sua cama de t¨¢buas rangentes, tentando aproveitar cada segundo de descanso. O dia anterior havia sido exaustivo, tanto mental quanto emocionalmente, e ele precisava repor as energias para o que viria. Por¨¦m, a tranquilidade durou pouco. Lucy, sempre cheia de energia, j¨¢ estava acordada e, como um pequeno furac?o, invadiu o quarto. Ela come?ou a puxar o cobertor de Lucien, determinada a arranc¨¢-lo da cama. ¡ª Vamos, pregui?oso! Acorda! J¨¢ t¨¢ na hora! ¡ª Ela falava em um tom animado, quase cantando, enquanto dava pequenos pulos na cama, balan?ando tudo ao redor. Lucien soltou um suspiro profundo, mantendo os olhos fechados. Ele tentou resistir, enterrando o rosto no travesseiro e murmurando: ¡ª Lucy, ainda ¨¦ cedo... N?o podemos ir agora, calma um pouco. ¡ª Cedo? O sol j¨¢ t¨¢ brilhando! ¡ª ela retrucou, batendo levemente no ombro dele. ¡ª Voc¨º prometeu, irm?o! Promessa ¨¦ promessa! Lucien abriu um olho lentamente, observando a express?o radiante da irm?. Ela estava com as bochechas coradas, o cabelo bagun?ado e um sorriso t?o grande que parecia que o mundo inteiro havia desaparecido, deixando apenas aquele momento. Ele sabia que n?o tinha escapat¨®ria. ¡ª Tudo bem, tudo bem... Eu j¨¢ vou me levantar ¡ª disse ele, bocejando enquanto se sentava na cama. Lucy pulou no ch?o, batendo palmas de alegria. ¡ª Vou arrumar minhas coisas! A gente vai ter o melhor dia de todos! Lucien observou a irm? correr para o outro c?modo, a anima??o dela era contagiante. Por mais que estivesse cansado, ele n?o conseguia evitar um leve sorriso. Esses momentos de felicidade simples eram raros para os dois, e ele sabia que, no fundo, valia a pena sacrificar algumas horas de sono para ver Lucy t?o feliz. Ele co?ou a cabe?a e suspirou mais uma vez, murmurando para si mesmo: ¡ª Pelo menos, por hoje, as preocupa??es podem esperar. Lucien levantou-se da cama, ainda se espregui?ando, enquanto ouvia os passos apressados de Lucy pelo outro c?modo. Ele caminhou at¨¦ o pequeno ba¨² de madeira no canto do quarto, onde guardavam suas roupas mais preciosas, as poucas que restavam desde que seus pais haviam partido. Ele abriu a tampa rangente, revelando duas pe?as de roupas cuidadosamente dobradas. O vestido de Lucy era de um azul celeste suave, com bordados delicados de flores brancas ao longo da barra. Era leve, perfeito para o dia ensolarado, e parecia ainda mais bonito por causa do sorriso animado que ela exibia enquanto o segurava. J¨¢ Lucien pegou uma camisa branca simples e bem ajustada, junto com uma cal?a de linho marrom clara, ambas com um ar refinado e modesto. ¡ª Lembra deles, Lucy? ¡ª perguntou Lucien, segurando a camisa com um toque de nostalgia. Lucy, que estava animada ajustando o la?o na cintura do vestido, parou por um momento. Seu olhar desviou para o tecido em suas m?os, e por um instante o brilho em seus olhos diminuiu. Ela se sentou na beira da cama, alisando a barra do vestido com os dedos pequenos e delicados. ¡ª Mam?e costurou isso para mim... ¡ª murmurou ela, quase como se estivesse falando consigo mesma. ¡ª Disse que eu ficava t?o bonita nele que parecia uma princesa. Lucien engoliu em seco, sentindo um aperto no peito. Ele sabia o quanto essas lembran?as eram preciosas para Lucy, mas tamb¨¦m sabia o peso que carregavam. Ele se aproximou e se ajoelhou ao lado dela. ¡ª E voc¨º ainda parece uma princesa ¡ª disse ele, tentando manter a voz firme, mas suave. Lucy olhou para ele, sorrindo levemente, mas seus olhos estavam marejados. Ela fungou, limpando rapidamente o rosto com as costas da m?o, como se quisesse afastar a tristeza. ¡ª Eles estariam felizes de nos ver assim, n?o ¨¦? ¡ª perguntou ela, a voz quebrando levemente. Lucien assentiu, colocando a m?o no ombro dela. ¡ª Estariam muito orgulhosos. Lucy deu um sorriso mais largo, ainda que um pouco melanc¨®lico, e se levantou, determinada a manter a energia animada que havia come?ado o dia. Lucien a observou enquanto ela tentava ajeitar o vestido no pequeno espelho rachado da parede, a luz da manh? refletindo seus movimentos. Ele respirou fundo, colocando a camisa e ajustando o colarinho com um cuidado incomum. Apesar de todas as dificuldades, ele queria que aquele dia fosse perfeito para Lucy. Afinal, ela merecia um momento de felicidade, mesmo que breve, em meio ao caos de suas vidas. Logo, Lucien caminhou at¨¦ a prateleira improvisada no canto da cozinha, onde guardava o que restava de suas provis?es. Ele pegou algumas ma??s brilhantes, duas laranjas e um pequeno peda?o de queijo que ainda estava em boas condi??es. Com cuidado, arrumou tudo dentro da cesta de piquenique que havia encontrado semanas atr¨¢s, um dos poucos luxos que ele p?de oferecer a Lucy. Depois, dobrou um tecido fino e confort¨¢vel, que serviria como toalha de piquenique, colocando-o por cima das frutas. Ele sabia que aquilo ainda n?o seria o suficiente para impressionar sua irm? e tornar o dia inesquec¨ªvel, mas n?o se importava. Ele tinha prometido que hoje seria especial, e estava determinado a cumprir. ¡ª Lucy, voc¨º est¨¢ pronta? ¡ª chamou ele, enquanto terminava de ajustar a al?a da cesta no bra?o. Lucy apareceu correndo pelo pequeno corredor, com os olhos brilhando de anima??o. Seu vestido azul balan?ava a cada passo, e ela segurava um pequeno chap¨¦u de palha desgastado, o qual insistia em usar sempre que sa¨ªam para lugares ensolarados. ¡ª Estou pronta! Mas voc¨º demorou tanto que achei que ia mudar de ideia ¡ª respondeu ela com uma express?o fingida de aborrecimento, embora o sorriso em seus l¨¢bios tra¨ªsse o tom. Lucien deu uma risada leve, balan?ando a cabe?a. ¡ª N?o se preocupe, princesa. S¨® precisamos passar na feira antes de irmos. Os dois sa¨ªram de casa, e o sol j¨¢ estava alto no c¨¦u, espalhando seu calor pela cidade. As ruas estavam movimentadas, com comerciantes anunciando suas mercadorias em vozes altas e animadas. Lucien segurou a m?o de Lucy, guiando-a pela multid?o enquanto ela olhava tudo ao redor com curiosidade.This story has been stolen from Royal Road. If you read it on Amazon, please report it ¡ª O que vamos comprar, Lucien? ¡ª perguntou ela, inclinando a cabe?a para cima, olhando para o irm?o. ¡ª Algumas coisas para deixar nosso piquenique mais completo ¡ª respondeu ele com um sorriso. ¡ª Talvez um p?o fresco, mais frutas e, quem sabe, um doce para voc¨º. Os olhos de Lucy se iluminaram, e ela apertou a m?o do irm?o. ¡ª Eu vou escolher o doce, t¨¢ bom? Lucien riu. ¡ª T¨¢ bom, mas s¨® se voc¨º prometer n?o escolher o mais caro da feira. Lucy revirou os olhos, fingindo estar ofendida. ¡ª Voc¨º ¨¦ t?o chato, Lucien! Enquanto caminhavam pela feira, Lucien percebeu como Lucy parecia esquecer, ainda que por um breve momento, o peso das dificuldades que enfrentavam. Isso fez com que ele se sentisse ainda mais determinado a tornar aquele dia inesquec¨ªvel para ela. Afinal, momentos como aquele eram raros, e ele sabia que n?o poderia desperdi?¨¢-los. Ap¨®s adentrar mais um pouco nas ruas, o cheiro inconfund¨ªvel de caf¨¦ fresco invadiu o ar, vindo de uma pequena loja de madeira com sacos empilhados de gr?os de diferentes tipos. Lucien parou por um momento, sentindo o aroma encorpado despertar sua mente cansada. Ele percebeu que, no meio de toda a correria e dos preparativos, n?o havia tomado caf¨¦ naquela manh?. ¡ª Lucy, vamos parar aqui um instante ¡ª disse ele, puxando-a suavemente em dire??o ¨¤ loja de caf¨¦. Atr¨¢s do balc?o estava Dona Mar¨ªlia, uma mulher de meia-idade com cabelos presos em um coque frouxo e um sorriso caloroso. Ela estava ocupada atendendo outro cliente, mas, ao notar Lucien e Lucy, seus olhos se iluminaram. ¡ª Ora, ora, quem ¨¦ vivo sempre aparece! Lucien! E essa mocinha linda aqui, quem ¨¦? ¨¦ sua irm?zinha, n?o ¨¦? ¡ª Dona Mar¨ªlia inclinou-se ligeiramente para olhar melhor para Lucy, que se escondia timidamente atr¨¢s do irm?o. ¡ª Bom dia, Dona. ¨¦ a Lucy, sim. Faz tempo que n?o v¨º ela, n?o ¨¦? ¡ª respondeu Lucien, sorrindo enquanto dava um passo ¨¤ frente, encorajando Lucy a fazer o mesmo. Dona Mar¨ªlia apoiou as m?os no balc?o, inclinando-se um pouco mais. ¡ª Meu Deus, como ela cresceu! E essas roupas... que gracinha! Parecem feitas para uma princesa. Lucy corou levemente, mas n?o p?de evitar um pequeno sorriso. ¡ª Obrigada, senhora... ¡ª murmurou ela, quase escondendo o rosto no bra?o de Lucien. ¡ª Ora, sem essa de senhora. Pode me chamar de Mar¨ªlia. E voc¨ºs dois precisam de algo? ¡ª perguntou, lan?ando um olhar curioso para a cesta de piquenique que Lucien carregava. Lucien assentiu. ¡ª Na verdade, eu estava pensando em tomar um caf¨¦, se a senhora puder preparar um para mim aqui mesmo. O cheiro est¨¢ irresist¨ªvel. Dona Mar¨ªlia soltou uma risada baixa. ¡ª Claro que posso! Mas s¨® se voc¨º e sua irm?zinha aceitarem sentar aqui um pouquinho. Quero saber como t¨ºm passado. Sem muita escolha, Lucien concordou e se sentou em um dos bancos ao lado do balc?o, puxando outro para Lucy. Enquanto Mar¨ªlia preparava o caf¨¦, ela continuou a conversa. ¡ª Faz tanto tempo que n?o vejo a pequena Lucy. Como est?o as coisas? Lucien escolheu as palavras com cuidado. ¡ª Temos enfrentado dias dif¨ªceis, como todo mundo, mas estamos indo bem. Lucy ¨¦ forte, n?o ¨¦, Lucy? Lucy sorriu timidamente, brincando com a borda do vestido. ¡ª Meu irm?o cuida de mim. Mar¨ªlia serviu o caf¨¦ em uma x¨ªcara de ceramica e colocou um pratinho com um peda?o de bolo de fub¨¢ ao lado, empurrando-o para Lucien. ¡ª Aqui, ¨¦ por conta da casa. Voc¨º parece precisar de um pouco de energia. Lucien piscou surpreso, mas aceitou com um aceno de cabe?a. ¡ª Obrigado, Dona. ¨¦ muita gentileza sua. Enquanto ele tomava o caf¨¦, Mar¨ªlia puxou conversa sobre o movimento da feira, as novidades da regi?o e at¨¦ sugeriu algumas frutas frescas que ela sabia que estavam sendo vendidas a um bom pre?o. Lucy, por sua vez, parecia cada vez mais ¨¤ vontade, sorrindo e rindo das hist¨®rias engra?adas de Mar¨ªlia sobre os fregueses da feira. Quando terminaram, Lucien agradeceu novamente pela hospitalidade. Antes de sa¨ªrem, Mar¨ªlia entregou a Lucy um pequeno pacote com biscoitos caseiros. ¡ª Para voc¨º, mocinha. Guarde para o seu piquenique. Lucy olhou para ela com olhos brilhantes e um sorriso enorme. ¡ª Obrigada, Mar¨ªlia! ¡ª Voltem sempre, viu? N?o sumam de novo. E Lucien, cuide bem dessa menina ¡ª disse Mar¨ªlia com um olhar carinhoso e um aceno de despedida. Enquanto sa¨ªam, Lucien sentiu um calor reconfortante no peito. Momentos como aquele, ainda que breves, faziam todo o sacrif¨ªcio valer a pena. Lucien e Lucy caminhavam pela cidade com a cesta de piquenique bem cheia, prontos para seguir em dire??o ao destino. No entanto, para chegar l¨¢, precisariam de um meio de transporte. Afinal, o local era afastado, al¨¦m dos limites da cidade, e seria cansativo demais para Lucy caminhar todo o percurso. Quando chegaram ¨¤ pra?a de transporte, o cen¨¢rio que se desenrolou diante deles era fascinante. Diversas bestas m¨¢gicas estavam alinhadas, algumas repousando, outras inquietas. Eram criaturas imponentes: grandes aves com plumagens brilhantes, felinos com patas t?o largas que pareciam feitas para cruzar desertos, e at¨¦ algo que parecia uma mistura de cavalo com cervo, com chifres que cintilavam como cristal sob a luz do sol. Lucy arregalou os olhos, encantada. ¡ª Uau! Elas s?o lindas! Lucien tamb¨¦m ficou impressionado, embora tentasse n?o demonstrar. Aproximaram-se de um homem robusto, com barba grisalha e m?os calejadas, que estava cuidando de uma dessas criaturas. Ele usava um colete de couro e tinha uma express?o firme, mas relaxada, como algu¨¦m que conhecia bem seu of¨ªcio. ¡ª Voc¨ºs precisam de transporte? ¡ª perguntou o homem, olhando de relance para Lucy e depois para Lucien. ¡ª Sim, para a colina do Bosque Azul ¡ª respondeu Lucien, tentando parecer confiante. ¡ª ¨®tima escolha ¡ª disse o homem com um sorriso. Ele fez um gesto para uma das criaturas, um felino majestoso com pelagem prateada e olhos brilhantes como estrelas. ¡ª Essa aqui pode lev¨¢-los r¨¢pido e com seguran?a. Lucy, fascinada, se aproximou um pouco mais, mas hesitou ao ver o tamanho da criatura. ¡ª Elas n?o machucam as pessoas? O homem soltou uma risada grave, mas n?o de deboche. Ele se ajoelhou para ficar na altura da menina e apontou para o pesco?o do felino. Havia um colar r¨²stico, decorado com pequenas runas brilhantes. ¡ª N?o, mocinha. Essas belezas aqui s?o controladas com encantos r¨²nicos. Cada uma delas ¨¦ subjugada por um artefato m¨¢gico criado por um dos grandes mestres do reino. Lucien franziu a testa, intrigado. ¡ª Um grande mestre? Como ele conseguiu fazer isso? O homem assentiu, claramente satisfeito por compartilhar o conhecimento. ¡ª Sim, um mestre r¨²nico. Dizem que ele passou d¨¦cadas estudando a conex?o entre magia e bestas m¨¢gicas. Descobriu que algumas runas espec¨ªficas, combinadas com cristais arcanos, podem se vincular ¨¤ ess¨ºncia dessas criaturas, domesticando-as sem feri-las. Isso cria uma conex?o entre o portador do artefato e a besta. ¡ª Ele acariciou o felino com cuidado. ¡ª Elas n?o obedecem porque s?o obrigadas, mas porque s?o vinculadas pela harmonia do encanto. Lucy parecia fascinada. ¡ª Ent?o elas gostam de trabalhar com voc¨ºs? O homem deu de ombros com um sorriso caloroso. ¡ª Algumas, sim. Outras, leva tempo. Mas no final, ¨¦ um pacto m¨²tuo. E tamb¨¦m por isso cuidamos delas com tanto zelo. Lucien olhou para o felino novamente, percebendo agora os olhos inteligentes da criatura, que pareciam avaliar cada movimento dele. Ele teve um arrepio ao pensar na habilidade do mestre capaz de criar tal artefato. ¡ª Impressionante... ¡ª murmurou ele. ¡ª Voc¨ºs v?o querer essa beleza aqui, ent?o? ¡ª perguntou o homem, gesticulando para o felino prateado. Lucien assentiu, puxando algumas moedas do bolso. ¡ª Sim. Pode prepar¨¢-la para n¨®s. Enquanto o homem se preparava para acomod¨¢-los na criatura, Lucy n?o conseguia conter sua empolga??o. ¡ª Lucien, voc¨º acha que eu posso montar na frente? Quero sentir o vento! Lucien suspirou, mas sorriu. ¡ª Tudo bem, mas s¨® se prometer segurar firme. ¡ª Prometo! ¡ª respondeu ela, radiante. Pouco tempo depois, eles estavam montados na criatura, prontos para partir. Lucy n?o conseguia esconder sua anima??o, enquanto Lucien mantinha o foco no destino ¨¤ frente, seu cora??o pesado com pensamentos sobre o futuro e o que os aguardava. Esquecendo todos os problemas O felino movia-se como um raio, suas patas quase n?o pareciam tocar o ch?o, tamanha era sua leveza. Apesar da velocidade impressionante, a experi¨ºncia de viajar sobre ele era inacreditavelmente suave. Lucien podia sentir uma leve pulsa??o m¨¢gica ao redor, uma esp¨¦cie de campo que amortecia qualquer impacto ou sacolejo. Ele tinha quase certeza de que o artefato r¨²nico no pesco?o da criatura era respons¨¢vel por isso. Enquanto Lucien observava os arredores, ele permitiu que seu olhar vagueasse pelos campos verdes que passavam rapidamente, os tons dourados do sol nascente iluminando o mundo como uma pintura. Mas o que realmente capturava sua aten??o era Lucy, sentada ¨¤ frente, o rosto iluminado por um sorriso que parecia maior do que ela mesma. ¡ª Uhuuu! ¡ª gritava ela a plenos pulm?es, jogando os bra?os para cima como se estivesse em um parque de divers?es. Seus cabelos balan?avam ao vento, e seus olhos brilhavam com uma alegria pura que Lucien n?o via h¨¢ muito tempo. Ele n?o p?de evitar sorrir, um sorriso raro e genu¨ªno. Ver Lucy t?o animada fazia com que toda a tens?o dos ¨²ltimos dias diminu¨ªsse, mesmo que por breves momentos. ¡ª Est?o apreciando o passeio? ¡ª perguntou o condutor do felino, sua voz rouca cortando o som do vento. Antes que Lucien pudesse responder, Lucy se adiantou com mais um grito cheio de energia. ¡ª Sim! Isso ¨¦ incr¨ªvel! O homem riu com gosto, satisfeito. ¡ª Esses pequenos momentos s?o os que valem a pena, n?o ¨¦? Lucien assentiu, relaxando um pouco mais no assento. Geralmente, eles faziam o trajeto at¨¦ o bosque com uma bicicleta alugada, uma tarefa exaustiva que exigia esfor?o e muitas paradas para descansar. Mas desta vez ele havia decidido investir em algo especial. Apesar do custo das moedas de prata, ele sabia que cada centavo valeria a pena por aquele dia. Enquanto o felino continuava seu caminho veloz, Lucien permitiu-se relaxar por um momento, deixando os pensamentos sombrios de lado. Ele olhou para o horizonte, onde as ¨¢rvores densas do bosque j¨¢ podiam ser vistas, e sentiu um raro momento de paz. Lucy olhou para tr¨¢s, seu sorriso ainda brilhando. ¡ª Estamos quase l¨¢, Lucien! Voc¨º acha que vamos encontrar flores novas dessa vez? Ele riu suavemente e respondeu, com um tom leve: ¡ª Talvez. Mas s¨® se voc¨º prometer n?o arrancar todas. Ela fez uma careta divertida, antes de voltar a olhar para o caminho ¨¤ frente. Lucien n?o podia deixar de pensar que, por mais fugaz que fosse, aquele momento valia cada esfor?o que ele fazia para proteg¨º-la. Alguns minutos depois, o felino diminuiu gradualmente sua velocidade ¨¤ medida que se aproximavam da entrada do bosque. O local era como uma pintura viva, cada detalhe parecia ter sido cuidadosamente moldado pela natureza para encantar. A entrada era composta por um caminho de lajes claras, ligeiramente cobertas por musgo, que se estendia como uma trilha convidativa. Ao redor, grandes ¨¢rvores com troncos robustos e galhos extensos formavam um arco natural, com folhas verdes e frescas que balan?avam suavemente ao ritmo do vento. Lucien ajudou Lucy a descer do felino. Seus olhos brilharam ao ver a paisagem, e ela come?ou a pular de excita??o. Ele virou-se para o condutor, que j¨¢ estava acomodando o felino em uma sombra pr¨®xima. ¡ª Vai ficar por aqui? ¡ª perguntou Lucien, ajustando a cesta em sua m?o. O homem, que j¨¢ estava encostado em uma ¨¢rvore, respondeu com um sorriso: ¡ª Claro, o acordo inclui a ida e a volta, lembra? Ficarei esperando por voc¨ºs. Esse lugar ¨¦ tranquilo, e o felino tamb¨¦m gosta do ar puro daqui. Aproveitem. Lucien assentiu, satisfeito. Ele sabia que n?o precisava se preocupar com o transporte de volta. Ent?o, voltou sua aten??o para sua irm?, que j¨¢ corria pelo caminho de lajes, observando cada detalhe ao redor. Ao entrarem mais profundamente no bosque, a beleza do local se revelava em toda sua grandiosidade. Flores de todos os tipos e cores preenchiam os arredores, criando um tapete vibrante e perfumado que contrastava com o verde intenso das ¨¢rvores. Margaridas, tulipas, l¨ªrios e at¨¦ algumas flores raras, com p¨¦talas brilhantes que pareciam feitas de cristal, surgiam aqui e ali. O som de p¨¢ssaros completava a sinfonia da natureza, enquanto pequenos insetos brilhantes, semelhantes a vaga-lumes, dan?avam no ar. No cora??o do bosque, o grande lago azul finalmente apareceu. Sua ¨¢gua era incrivelmente l¨ªmpida, refletindo o c¨¦u como se fosse um espelho perfeito. Peixes coloridos nadavam em cardumes pr¨®ximos ¨¤ superf¨ªcie, vis¨ªveis at¨¦ mesmo de longe. Ao redor do lago, havia grandes pedras lisas, perfeitas para se sentar, e ¨¢rvores cujos galhos se inclinavam sobre a ¨¢gua, como se quisessem toc¨¢-la. Lucy ficou extasiada. ¡ª Uau, Lucien! ¨¦ ainda mais bonito do que eu me lembrava! Lucien sorriu ao ver a felicidade dela. ¡ª Sim, ¨¦ mesmo. V¨¢ se divertir enquanto eu preparo as coisas. Pr¨®ximo ao lago, havia uma ¨¢rea perfeita para Lucy brincar: uma corda pendurada em um dos galhos mais fortes de uma ¨¢rvore, formando um balan?o improvisado que pendia sobre a ¨¢gua. Ela correu at¨¦ l¨¢ imediatamente, rindo enquanto balan?ava cada vez mais alto.This book is hosted on another platform. Read the official version and support the author''s work. Lucien come?ou a preparar o local do piquenique. Estendeu a toalha sobre a grama macia, organizou as frutas e outros mantimentos da cesta, e colocou a garrafa de suco no centro. O som da risada de Lucy misturado ao som das folhas e ao farfalhar da ¨¢gua era uma melodia que ele gostaria de guardar para sempre. Enquanto isso, o condutor observava tudo de longe, com um olhar sereno. Ele acariciava o felino, que parecia t?o ¨¤ vontade quanto qualquer um ali. O bosque n?o era apenas um lugar bonito; era como um ref¨²gio, um peda?o de tranquilidade em meio ao caos do mundo l¨¢ fora.
Lucien, estava sentado sobre a toalha de piquenique, observava Lucy brincar animadamente. A menina jogava ¨¢gua para o alto, criando pequenas ondas no lago que reluziam ¨¤ luz do sol. Enquanto isso, seus olhos se desviaram para o felino, que descansava tranquilamente ¨¤ sombra de uma grande ¨¢rvore, pr¨®ximo ao condutor. A criatura era imponente, com m¨²sculos bem definidos, um pelo negro que parecia absorver a luz, e olhos amarelos brilhantes que demonstravam intelig¨ºncia. A curiosidade tomou conta de Lucien. Ele se levantou, limpou as m?os na cal?a e caminhou at¨¦ o homem que acariciava o felino. ¡ª Ei, posso perguntar uma coisa? O condutor levantou os olhos e sorriu. ¡ª Claro, garoto. O que foi? Lucien cruzou os bra?os, encarando o felino. ¡ª Como voc¨º consegue control¨¢-lo? Quero dizer, o artefato r¨²nico foi feito por uma outra pessoa, voc¨º consegue simplesmente tomar posse dele e subjugar bestas? O homem soltou uma risada baixa, olhando para a criatura com um olhar quase paternal. ¡ª Ah, rapaz, essa ¨¦ uma pergunta interessante. O controle dessas bestas n?o ¨¦ algo que vem s¨® do artefato. ¨¦ preciso muito mais que isso. Ele bateu levemente no colar que o felino usava, onde runas brilhantes pulsavam em um ritmo constante. ¡ª isso aqui foi criado por um grande mestre do reino, um verdadeiro g¨ºnio quando se trata de magia e encantamentos. Esse artefato n?o s¨® permite que eu me conecte com a mente da besta, mas tamb¨¦m estabelece limites. Ele funciona como uma coleira m¨¢gica, uma ponte entre o animal e o condutor. Lucien arqueou as sobrancelhas, intrigado. O homem balan?ou a cabe?a. ¡ª Pode parecer, mas n?o ¨¦ t?o simples. O artefato ¨¦ uma ferramenta poderosa, mas ¨¦ s¨® parte do processo. Para controlar uma criatura como essa, ¨¦ preciso estabelecer um v¨ªnculo inicial. Voc¨º n?o pode simplesmente colocar o artefato em qualquer besta e esperar que ela obede?a. Elas t¨ºm vontade pr¨®pria, e muitas vezes s?o agressivas ou desconfiadas. Sem paci¨ºncia e treino, voc¨º nunca conseguiria sequer chegar perto de uma. Ele fez uma pausa, o rosto assumindo uma express?o mais sombria. ¡ª Mas mesmo com todos os encantamentos e v¨ªnculos, uma besta pode sair do controle. Se o artefato for danificado, ou se a criatura for exposta a uma grande quantidade de mana selvagem, pode perder completamente a raz?o. Quando isso acontece, ela n?o reconhece mais aliados ou inimigos. Vira puro instinto. Lucien franziu o cenho. ¡ª E o que acontece se isso ocorrer? ¡ª Caos. ¡ª A resposta veio curta e direta, mas o peso na voz do homem deixou claro o perigo. ¡ª Imagine uma criatura como essa, forte, veloz, com instintos afiados, atacando tudo ¨¤ sua volta sem discrimina??o. J¨¢ houve casos no reino de bestas que escaparam do controle. Foi preciso um esquadr?o inteiro de magos e guerreiros para det¨º-las. Algumas nem sequer foram derrotadas, apenas exiladas para regi?es in¨®spitas. Lucien sentiu um arrepio na espinha, mas a curiosidade ainda o impulsionava. ¡ª E voc¨º nunca teve problemas com ele? O homem sorriu, dessa vez com orgulho. ¡ª N?o. Porque eu respeito a criatura. Esse ¨¦ o segredo, garoto. Voc¨º pode usar magia, runas, o que for, mas no final das contas, o respeito m¨²tuo ¨¦ o que mant¨¦m tudo em harmonia. Lucien olhou para o felino novamente, dessa vez com uma mistura de fasc¨ªnio e cautela. Ele sempre achou que criaturas m¨¢gicas eram apenas ferramentas para aqueles que tinham o poder de control¨¢-las, mas agora entendia que havia muito mais envolvido. ¡ª Obrigado pela explica??o. ¡ª Ele finalmente disse, voltando para onde Lucy brincava. Apesar de seu interesse, ele sabia que precisava manter o foco. Enquanto se afastava, o homem voltou a acariciar o felino, murmurando algo para ele. A criatura ronronou baixinho, demonstrando o v¨ªnculo ¨²nico que compartilhavam. Lucien, por sua vez, guardou as informa??es em sua mente afiada, imaginando como aquilo poderia ser ¨²til no futuro.
Ap¨®s a breve conversa com o condutor, Lucien se juntou ¨¤ irm? no lago. Lucy jamais ficaria satisfeita brincando sozinha, e, no fundo, Lucien tamb¨¦m queria sentir a ¨¢gua fresca do lago. Era o tipo de momento que eles raramente podiam desfrutar. Eles brincaram sem preocupa??es, jogando ¨¢gua um no outro e correndo pelo bosque. Risos puros ecoavam por entre as ¨¢rvores, leves e contagiantes, vindos das duas crian?as de cabelos negros e pele p¨¢lida que se entregavam ¨¤quele raro instante de felicidade. O tempo parecia ter parado enquanto eles se divertiam, mas, quando algumas horas se passaram, Lucy come?ou a sentir fome. Ela parou perto da toalha para comer algumas frutas e beber o suco que Lucien havia trazido. Com uma ma?? nas m?os, ela olhava ao redor com os olhos brilhando de satisfa??o. ¡ª Est¨¢ se divertindo? ¡ª perguntou Lucien, sorrindo ao v¨º-la t?o contente. ¡ª Muito! J¨¢ fazia tanto tempo que n?o brincava com voc¨º assim. Fiquei muito feliz! ¡ª respondeu Lucy, com entusiasmo, entre mordidas na ma??. Ao lan?ar um sorriso radiante para ele, Lucien sentiu o impacto das palavras da irm?. A verdade era clara e crua: eles eram apenas duas crian?as, mas viviam uma vida t?o dif¨ªcil que momentos como aquele eram uma raridade. Poder rir sem se preocupar com o amanh?, sentir a barriga cheia e o cora??o leve era algo que a maioria das crian?as tomava como certo, mas, para eles, era quase um luxo. Lucy, apesar da pouca idade, entendia bem a realidade em que viviam. Aos dez anos, j¨¢ carregava nos ombros um peso que nenhuma crian?a deveria suportar. Talvez por isso estivesse aproveitando aquele dia ao m¨¢ximo, sabendo que poderia demorar at¨¦ que outra oportunidade como aquela surgisse. Lucien observava a irm? com um misto de admira??o e determina??o. Ele sabia que, como irm?o mais velho, era sua responsabilidade garantir que momentos como aquele se tornassem mais frequentes. Seus olhos, antes leves, agora assumiam uma express?o s¨¦ria e resoluta. ¡ª N?o se preocupe, Lucy. Eu prometo que, em breve, voc¨º ter¨¢ muito mais dias assim comigo. Confie no seu irm?o! ¡ª disse, com uma voz firme, mas carregada de carinho. Lucy parou de mastigar por um instante, olhando para ele com toda a confian?a que s¨® uma crian?a poderia oferecer. Seu sorriso doce voltou, e ela respondeu sem hesitar: ¡ª Eu confio... Voc¨º ¨¦ a pessoa em quem mais confio no mundo inteiro. Aquelas palavras foram como uma chama dentro de Lucien, alimentando sua motiva??o. Ele sabia que n?o poderia falhar. Todo o sacrif¨ªcio, toda a dificuldade, tudo o que ele enfrentava, tinha um prop¨®sito: garantir um futuro melhor para Lucy. E, naquele momento, sua determina??o de fazer isso acontecer se solidificou ainda mais. De volta ao lar O sol come?ava a se esconder no horizonte, tingindo o c¨¦u com tons de laranja e rosa, enquanto Lucien e Lucy se preparavam para a viagem de volta. O dia no bosque havia sido repleto de risos, brincadeiras e mem¨®rias que ficariam marcadas para sempre, mas agora a pequena Lucy estava completamente exausta. Ela segurava a m?o de Lucien com uma das suas pequenas m?os, enquanto a outra arrastava a cesta quase vazia que eles haviam levado. Seus passos eram lentos e desajeitados, claramente o resultado de toda a energia que ela havia gastado. ¡ª Est¨¢ cansada, Lucy? ¡ª perguntou Lucien, observando o cansa?o evidente no rosto da irm?. ¡ª Um pouquinho... ¡ª respondeu ela com a voz baixa, tentando disfar?ar o quanto estava exaurida. Lucien sorriu de canto. Ele conhecia bem a irm? e sabia que ela sempre tentava parecer mais forte do que era. Sem dizer mais nada, ele abaixou-se e pegou a cesta de suas m?os, colocando-a no ombro. Em seguida, fez sinal para que ela subisse em suas costas. ¡ª Vamos, suba. N?o vou deixar voc¨º cair. ¡ª Mas eu j¨¢ estou grande para isso! ¡ª protestou Lucy, com um tom emburrado, mas os olhos denunciavam que ela queria aceitar a oferta. ¡ª Grande ou n?o, ainda ¨¦ minha irm?zinha. Agora sobe logo, antes que eu mude de ideia. Lucy deu um sorriso pequeno, mas genu¨ªno, antes de ceder. Subiu nas costas de Lucien, e ele a ergueu com facilidade. A caminhada at¨¦ onde o felino m¨¢gico os esperava seria mais tranquila assim. Quando chegaram ¨¤ clareira onde o condutor e o felino descansavam, o homem estava sentado sob a sombra de uma ¨¢rvore, mastigando um peda?o de p?o seco. Ele olhou para os dois e soltou uma risada baixa ao ver Lucy praticamente dormindo no ombro do irm?o. ¡ª Parece que a princesa gastou toda a energia hoje ¡ª comentou ele, apontando para Lucy com um sorriso simp¨¢tico. ¡ª ¨¦, ela brincou como se n?o houvesse amanh? ¡ª respondeu Lucien, ajeitando a posi??o dela em suas costas. ¡ª Mas valeu a pena. ¡ª Sempre vale ¡ª disse o condutor, levantando-se e dando uma batidinha na lateral do felino, que prontamente se espregui?ou e se colocou em p¨¦. O homem ajudou Lucien a acomodar Lucy sobre o felino com cuidado, certificando-se de que ela estivesse bem apoiada. Assim que tudo estava pronto, ele deu um comando curto, e o felino come?ou a andar lentamente, saindo do bosque. O caminho de volta foi silencioso. Lucy estava quase dormindo, e Lucien aproveitava a tranquilidade para pensar. O dia havia sido perfeito, mas agora sua mente j¨¢ come?ava a voltar para as responsabilidades e para o trabalho que o esperava. Ele precisava garantir que dias como aquele se tornassem comuns para Lucy, e a ¨²nica forma de fazer isso era concluindo sua miss?o com perfei??o. Enquanto as ¨¢rvores do bosque ficavam para tr¨¢s, Lucien olhou uma ¨²ltima vez para o lago azul brilhante, agora refletindo as estrelas que come?avam a surgir no c¨¦u. ¡ª Esse foi um dia que valeu cada segundo ¡ª murmurou para si mesmo, apertando levemente a m?o de Lucy para garantir que ela estava segura. E, com esse pensamento, ele deixou o bosque para tr¨¢s, decidido a transformar promessas em realidade.
Ao chegar ¨¤ cidade, Lucien desceu do felino m¨¢gico e agradeceu ao domador pela ajuda. O homem acenou com um sorriso amig¨¢vel antes de partir com sua criatura majestosa, desaparecendo entre as ruas iluminadas pela luz bruxuleante dos lampi?es. Lucien continuava a carregar Lucy calmamente em suas costas. Ela agora estava completamente adormecida, como uma pedra. Seus pequenos bra?os estavam soltos ao redor do pesco?o dele, e o som suave de sua respira??o era a ¨²nica coisa que ele ouvia enquanto caminhava pelas ruas silenciosas. Demorou alguns minutos at¨¦ que ele alcan?asse a casa de madeira onde moravam. O lugar estava exatamente como o haviam deixado ao sair. A constru??o simples, de t¨¢buas envelhecidas pelo tempo, era uma das poucas coisas que seus pais haviam conseguido deixar para eles. Lucien entrou na casa com cuidado, tentando n?o fazer barulho para n?o acordar a irm?. A porta rangeu levemente, revelando o interior quase vazio. A casa, que outrora fora acolhedora e repleta de mem¨®rias, agora parecia fria e abandonada. As mob¨ªlias que preenchiam cada canto do lar haviam desaparecido aos poucos. Lucien foi for?ado a vend¨º-las para conseguir alguns trocados e garantir a sobreviv¨ºncia dos dois. Restavam apenas os itens essenciais: uma mesa velha, um colch?o gasto e alguns utens¨ªlios b¨¢sicos. Ele n?o se arrependia das decis?es que tomou ¡ª cada objeto vendido significava mais um dia em que Lucy tinha o que comer ou vestir ¡ª, mas n?o podia evitar o peso da culpa que carregava. Livrar-se dos pertences de seus pais, que haviam trabalhado tanto para conquist¨¢-los, era como apagar parte da hist¨®ria deles. Lucien olhou ao redor e suspirou, sentindo um aperto no peito. Seus pais eram pessoas simples, mas trabalhadoras. O pai, com suas m?os calejadas, passava os dias em trabalhos bra?ais, enquanto a m?e, com olhos atentos e m?os habilidosas, costurava roupas para os moradores da cidade. Seus sal¨¢rios eram modestos, mas, mesmo assim, conseguiram criar dois filhos com amor e dedica??o, mantendo-os alimentados e saud¨¢veis.Stolen content warning: this tale belongs on Royal Road. Report any occurrences elsewhere. Com cuidado, Lucien levou Lucy at¨¦ o pequeno colch?o no canto do quarto e a deitou suavemente. Ele puxou um cobertor fino sobre ela, observando por um momento o rosto sereno da irm? adormecida. Seus pais estavam mortos. Tudo que Lucy tinha agora era Lucien, e tudo que Lucien tinha era Lucy. Eles s¨® podiam contar um com o outro. O Reino, com seus nobres de mantos opulentos e vozes altivas, n?o se importava com crian?as ¨®rf?s ou com a dor daqueles que viviam ¨¤ sombra da riqueza e do poder. Ningu¨¦m levantava um dedo de seus tronos acolchoados para ajudar. Para eles, Lucien e sua irm? n?o eram nada al¨¦m de poeira no vento ¡ª insignificantes demais para merecer qualquer esfor?o. A mem¨®ria da humilha??o ainda queimava como brasas em sua mente. Ele se lembrava claramente de quando, ainda mais jovem, tentou buscar ajuda diretamente do rei ap¨®s perder os pais. Era um ato de desespero, movido pela ing¨ºnua esperan?a de que o monarca, com toda sua grandiosidade, pudesse mostrar um m¨ªnimo de compaix?o. No entanto, Lucien nem sequer foi permitido passar pelos grandes port?es ornamentados que protegiam o castelo. Os guardas, com suas armaduras polidas e sorrisos de esc¨¢rnio, barraram sua entrada com firmeza. "O rei n?o tem tempo para camponeses", disseram, como se sua dor fosse uma afronta ¨¤ majestade. Lucien recordava da sensa??o de impot¨ºncia, do n¨® na garganta que parecia sufoc¨¢-lo enquanto voltava para casa de m?os vazias, com os olhares de desd¨¦m queimando em suas costas. A verdade era dura e cruel: seus pais eram fracos. Trabalhadores humildes que, no final, foram esmagados pelo peso de um sistema que s¨® valoriza os fortes. Seu pai morreu em um servi?o exaustivo, explorado por aqueles que lucravam com o suor alheio. E sua m?e... Lucien apertou os punhos enquanto o rosto de sua m?e surgia em sua mente, junto com a lembran?a de seu olhar desesperado. Ela foi assassinada, morta pelas m?os de homens cru¨¦is a quem implorou por dinheiro para sustentar os filhos. Tudo porque n?o conseguiu pagar o que devia. E onde estavam o rei e seus cavaleiros durante tudo isso? Ocupados em banquetes, bebendo vinho e discutindo pol¨ªticas que nunca alcan?avam os miser¨¢veis. Eles n?o fizeram nada. Nada para impedir que sua fam¨ªlia fosse despeda?ada. Nada para proteger sua m?e ou seu pai. Para eles, Lucien e Lucy eram irrelevantes. O ¨®dio crescia em seu peito como uma chama incontrol¨¢vel. Ele odiava o Reino, odiava o rei, odiava os nobres que ignoravam o sofrimento daqueles que trabalhavam e morriam por eles. Lucien jurou que nunca mais pediria contaria com os nobres como havia feito naquele dia humilhante. Ele n?o era mais a crian?a desesperada que implorava por ajuda. Agora, ele entendia. Neste mundo, apenas os fortes sobrevivem. Se o Reino n?o se importava com ele, ent?o ele faria o mesmo. Ele seria forte, n?o por si mesmo, mas por Lucy. Ele rasgaria as correntes que o prendiam, nem que fosse necess¨¢rio queimar o pr¨®prio Reino que o abandonou. ¡ª Eu vou fazer valer todo o esfor?o... ¡ª murmurou para si mesmo, os olhos fixos no teto desgastado. Lucien sabia que, por mais dif¨ªcil que fosse, ele continuaria lutando. N?o s¨® para honrar a mem¨®ria de seus pais, mas tamb¨¦m para garantir que Lucy tivesse um futuro melhor do que o passado que eles deixaram para tr¨¢s. Em seis dias, tudo mudaria. Seis dias era o que ele precisava para transformar o destino dele e de Lucy, para arranc¨¢-los da mis¨¦ria e construir algo grandioso. Lucien segurava firme essa determina??o. Ele havia enfrentado muito para chegar at¨¦ ali, e nada, nem mesmo um grande mestre, seria capaz de det¨º-lo. O alvo era complicado, isso era ineg¨¢vel. Um dos mestres mais respeitados do Reino, conhecido por sua habilidade em magia r¨²nica e por manter artefatos de valor inestim¨¢vel sob sua prote??o. Ele n?o era apenas poderoso, mas tamb¨¦m meticuloso, cercando-se de medidas de seguran?a que intimidariam qualquer ladr?o. Mas Lucien n?o era qualquer ladr?o. Ele tinha a planta da mans?o do mestre, cada corredor, cada quarto, cada poss¨ªvel sa¨ªda de emerg¨ºncia marcada com precis?o. O mapa mostrava armadilhas m¨¢gicas, guardas e os locais mais prov¨¢veis onde os tesouros estavam escondidos. Ele tinha a informa??o mais valiosa: onde o item que buscava estava guardado. A L¨¢grima de Aether ¡ª o artefato capaz de mudar suas vidas para sempre. Lucien se sentou ¨¤ mesa de madeira desgastada de sua casa. O ambiente era silencioso, com exce??o da respira??o leve de Lucy, que dormia no quarto ao lado. Diante dele, a planta da mans?o estava esticada, iluminada pela chama tr¨ºmula de uma vela. "O grande mestre..." ele pensou, observando a planta com olhos afiados. "Ele n?o faz ideia de quem est¨¢ prestes a cruzar as portas de sua fortaleza." Ele come?ou a esbo?ar mentalmente o plano. Primeiro, a entrada: o port?o principal era bem guardado, mas havia uma entrada lateral usada por empregados que parecia menos vigiada. Era arriscado, mas vi¨¢vel. Depois, ele precisaria desativar as armadilhas m¨¢gicas ¡ª algo que levaria tempo e concentra??o. Ent?o, o cofre. Esse era o cora??o do desafio. O homem sem nome disse que ele era protegido por um intrincado sistema de runas, criado pelo pr¨®prio mestre. Mas Lucien tinha uma arma secreta: um artefato menor que havia conseguido em um dos seus trabalhos recentes, supostamente capaz de anular certos encantamentos r¨²nicos. "Tudo o que preciso ¨¦ de precis?o, paci¨ºncia e frieza." O maior risco, ele sabia, n?o era o cofre ou as armadilhas. Era o mestre em si. Se Lucien fosse descoberto, enfrentaria um dos homens mais poderosos do Reino. Mas ele n?o permitiria que isso acontecesse. Ele faria o imposs¨ªvel parecer inevit¨¢vel. Lucien respirou fundo, dobrando o mapa cuidadosamente. Ele tinha seis dias para preparar tudo. Seis dias para aperfei?oar cada detalhe. Seis dias para garantir que o futuro dele e de Lucy fosse transformado. Ele olhou na dire??o do quarto onde sua irm? dormia. "Por voc¨º, Lucy. Por n¨®s."
Seis dias. Esse foi o tempo que Lucien teve para planejar o imposs¨ªvel. Agora, ali estava ele, oculto pelas sombras, a apenas alguns metros de um dos maiores desafios de sua vida: a mans?o do grande mestre. O lugar era uma fortaleza de pedra, guardada por encantos t?o antigos quanto o pr¨®prio reino. No cora??o daquele labirinto, escondida sob camadas de seguran?a m¨¢gica e f¨ªsica, estava a L¨¢grima de Aether, um artefato t?o valioso que apenas seu nome poderia inspirar guerras. Lucien n?o era tolo. Sabia que o que estava prestes a fazer era arriscado, quase suicida. Mas ele tamb¨¦m sabia que o destino de Lucy, que no momento estava sobre aos cuidados de dona Mar¨ªlia, dependia disso. Ele n?o poderia falhar. N?o dessa vez. Enquanto observava de longe, o peso da noite parecia sufocante, como se o pr¨®prio mundo estivesse prendendo a respira??o. A cada passo que desse, ele estaria mais pr¨®ximo do sucesso ou de um desastre irremedi¨¢vel. E ent?o, em meio ¨¤ escurid?o, ele deu o primeiro passo. Caos na mans?o Lucien esteve em v¨¢rios metros da imponente mans?o. Seu corpo estava coberto por um manto preto, deixando apenas seus olhos vis¨ªveis. O manto era algo que ele havia improvisado usando algumas linhas e agulhas. A costura n?o era perfeita, tampouco elegante, mas beleza n?o era o objetivo. Aquele manto existia para torn¨¢-lo invis¨ªvel aos olhos alheios, e para isso, n?o importava sua apar¨ºncia. Apenas Lucien poderia test¨¢-lo. Preso firmemente em suas costas, ele carregava uma mochila leve. Dentro dela, havia os itens cuidadosamente selecionados que seriam cruciais para o que estava por vir. Ao longe, destacava-se a grande mans?o de pedra, guardada por quatro sentinelas. Cada um deles era um cavaleiro de renome, guerreiros que j¨¢ conquistaram respeito no reino. Lucien imaginava que poderiam ser mestres da espada ou algo ainda mais perigoso. Eles, sem d¨²vida, seriam um grande obst¨¢culo. Mas ele n?o estava preocupado. J¨¢ tinha uma estrat¨¦gia para lidar com aquele problema. Ao pensar nisso, um sorriso sombrio se formou por baixo da m¨¢scara. Ele estava confiante. Nem guerreiros, nem mestres capazes de det¨º-lo naquela noite. ¡ª Vamos come?ar o espet¨¢culo¡­ ¡ª Resmungou Lucien para si mesmo. No entanto, ao inv¨¦s de se mover em dire??o a mans?o, ele virou as costas para ela, e som reto. Sem olhar para tr¨¢s. Aquela seria uma longa noite¡­
O c¨¦u estava limpo, a lua brilhava intensamente, e estrelas incont¨¢veis ??preenchiam o vasto firmamento. Era uma noite comum, como tantas outras na mans?o do grande mestre Elias. Russell, um mestre da espada de renome, havia sido nomeado pelo rei para proteger a mans?o de Elias. J¨¢ fez oito meses desde que assumiu o posto, e durante todo esse tempo, n?o enfrentou qualquer amea?a. Para Russell, aquele era o trabalho perfeito. Tudo o que eu precisava fazer era vigiar a entrada por algumas horas e depois passar o turno para outro cavaleiro. A vida ali era tranquila, quase tediosa, mas ele n?o reclamava. A seguran?a era quase garantida. Afinal, poucos ousar¨ªamos desafiar o grande mestre Elias. Elias era uma lenda viva, conhecida por sua extraordin¨¢ria extens?o com dois elementos e por seu vasto conhecimento em runas. A propriedade, al¨¦m de ser protegida por seus talentos m¨¢gicos, contava com uma equipe de guerreiros e mestres posicionados estrategicamente. Naquela noite, no entanto, apenas vinte cavaleiros estavam em servi?o, um n¨²mero reduzido, mas ainda assim significativo. Russell n?o via aquilo como uma vulnerabilidade. Pelo contr¨¢rio, senti-se orgulhoso por ser um dos poucos escolhidos para ficar. Isso provou sua for?a e confiabilidade. Mas algo perturbava sua confian?a. Sua intui??o, sempre agu?ada, gritava que algo estava prestes a acontecer. Como mestre da espada, Russell sabia que n?o podia ignorar essa sensa??o. Sua mente, muito mais treinada e refinada que a de um ser humano comum, tamb¨¦m tornou sua intui??o incrivelmente precisa. ¡ª Sou s¨® eu, ou voc¨ºs tamb¨¦m est?o sentindo algo estranho? ¡ª perguntou Russell, quebrando o sil¨ºncio enquanto mantinha os olhos fixos na escurid?o. ¡ª N?o, eu tamb¨¦m estou com um mau pressentimento ¡ª respondeu um dos cavaleiros, ajustando sua postura. ¡ª Sim¡­ h¨¢ algo errado. N?o consigo explicar. ¡ª O segundo cavaleiro olhou para os arredores com um olhar desconfiado. ¡ª Estamos sendo paranoicos, mas ¨¦ melhor ficarmos em alerta ¡ª concluiu o terceiro, com um tom grave na voz. As palavras de seus companheiros apenas refor?aram o que Russell j¨¢ sabia: aquela inquieta??o n?o era infundada. Algo estava fora do normal, algo que eles ainda n?o conseguiam enxergar. Seguindo o conselho, Russell descansou a m?o no cabo de sua espada, pronto para desembainh¨¢-la a qualquer sinal de perigo. Seus olhos n?o desviavam da escurid?o ¨¤ sua frente, enquanto sua mente trabalhava incansavelmente para identificar o que estava por vir. Aquela noite, que come?ara como todas as outras, agora carregava uma tens?o palp¨¢vel. O que quer que estivesse se aproximando, seria algo que mudaria a rotina pac¨ªfica da mans?o para sempre. Russell e os tr¨ºs guardas mantinham-se em alerta absoluto, como verdadeiros cavaleiros experientes, forjados pelo rigor do Reino. Suas compet¨ºncias j¨¢ haviam sido provadas in¨²meras vezes em situa??es cr¨ªticas, mas naquela noite, algo parecia diferente. Segundos tornaram-se minutos, e os minutos, longas horas de tens?o crescente. Nenhuma amea?a se manifestava, mas isso n?o os acalmava. Pelo contr¨¢rio, aumentava a inquieta??o que pairava no ar como uma nuvem pesada. A meia-noite j¨¢ havia passado, e o sil¨ºncio das ruas era quase sufocante. Os sentidos dos cavaleiros estavam em um estado de alerta absoluto, suas intui??es gritando como alarmes, mas a escurid?o ¨¤ sua frente permanecia vazia. Pelo menos at¨¦ aquele momento. Russell foi o primeiro a perceber. Ao longe, algo emergia das sombras, entrando na t¨ºnue luz dos lampi?es. ¡ª Algu¨¦m vindo ¡ª murmurou, sua voz baixa, mas carregada de tens?o. Os outros tr¨ºs cavaleiros tamb¨¦m notaram a figura logo em seguida. Todos franziram a testa, confusos. Era¡­ uma crian?a?This tale has been unlawfully obtained from Royal Road. If you discover it on Amazon, kindly report it. De cabelos negros como carv?o e vestindo trapos maltrapilhos, cheios de costuras rudimentares, a figura parecia fr¨¢gil e deslocada naquela cena. O garoto n?o tinha mais do que 1,55m de altura. Sua apar¨ºncia era miser¨¢vel, com o rosto coberto de sujeira que parecia lama, dificultando qualquer tentativa de identifica??o. ¡ª Uma crian?a? ¡ª Russell resmungou, mantendo os olhos fixos no garoto. Os passos da crian?a eram apressados, e sua respira??o ofegante ecoava na noite silenciosa, um som claramente aud¨ªvel para os ouvidos agu?ados dos cavaleiros. Quando o menino se aproximou a alguns metros deles, um dos guardas avan?ou um passo, erguendo a voz. ¡ª Pare! N?o d¨º mais nenhum passo. Na luz dos lampi?es, Russell analisou melhor o menino. Ele parecia exausto, com o peito subindo e descendo rapidamente, como se tivesse corrido por quil?metros. ¡ª Quem ¨¦ voc¨º? O que est¨¢ fazendo aqui? ¡ª questionou outro guarda, o tom duro e direto. O garoto demorou a responder, engasgando em sua pr¨®pria respira??o descompassada, os olhos arregalados de panico. Quando finalmente falou, sua voz saiu tr¨ºmula, carregada de desespero. ¡ª Por favor¡­ socorro. Eu preciso de ajuda. O pedido pairou no ar como um sussurro de agonia. Os cavaleiros trocaram olhares, confusos. Aquilo era¡­ estranho. Inesperado. ¡ª Socorro? ¡ª repetiu Russell, franzindo a testa. ¡ª Explique-se direito. O que est¨¢ acontecendo? Apesar das palavras incisivas, algo dentro dele vacilava. Sua intui??o, antes apenas sussurrando, agora berrava como um trov?o em sua mente. Algo estava terrivelmente errado. Mas antes que o menino pudesse responder, o sil¨ºncio foi quebrado por um som pesado e gutural. Russell sentiu seu corpo gelar ao olhar na dire??o de onde o garoto havia vindo. L¨¢, na escurid?o que parecia pulsar com uma presen?a opressora, ele viu. Primeiro uma. Depois duas. Ent?o cinco. Ao todo, eram oito. Oito criaturas horrendas emergiram das trevas, suas silhuetas deformadas revelando bestas m¨¢gicas. Seus olhos brilhavam com um ¨®dio primitivo, suas bocas escorrendo saliva como predadores ¨¤ beira de atacar. A tens?o no ar tornou-se sufocante. Russell e os outros cavaleiros ficaram congelados, o sangue pulsando em seus ouvidos. Eles sabiam o que estavam vendo: bestas m¨¢gicas descontroladas. Abomina??es que n?o obedeciam a ningu¨¦m, apenas ao chamado insaci¨¢vel da destrui??o e da morte. Eram monstros sedentos por sangue. O menino recuou, tremendo, e sussurrou, quase inaud¨ªvel: ¡ª Elas¡­ me seguiram¡­ O terror agora era palp¨¢vel. Russell apertou o cabo de sua espada, mas uma ¨²nica pergunta ecoava em sua mente: Por que essas criaturas estavam ali? E, mais importante¡­ por que pareciam vir atr¨¢s de um simples garoto? Russell sentiu seu cora??o bater como um tambor de guerra. O terror tomava conta do ambiente, denso como o ar antes de uma tempestade. ¨¤ frente dele, as oito criaturas emergiam da escurid?o, cada uma mais grotesca que a outra. O brilho sobrenatural de seus olhos parecia cravar-se nos guardas, que, por um breve momento, hesitaram. Recuem para a forma??o! - Russell gritou, sua voz cortando o ar. Os outros tr¨ºs cavaleiros obedeceram prontamente, movendo-se como uma unidade. Todos sabiam que, contra bestas m¨¢gicas descontroladas, qualquer falha de coordena??o poderia significar a morte. Mesmo em meio ao caos crescente, Russell come?ou a analisar as criaturas ¨¤ sua frente. Era algo que ele aprendera como mestre da espada: Entenda seu inimigo antes de atacar. A primeira besta tinha o corpo robusto e musculoso, semelhante a um urso, mas sua pele era coberta de escamas negras e reluzentes. Garras longas como adagas brilhavam sob a luz da lua, enquanto sua mand¨ªbula era larga o suficiente para engolir um homem inteiro. Ao lado dela, uma criatura de apar¨ºncia felina movia-se com passos fluidos e graciosos, suas patas mal tocando o ch?o. Suas orelhas eram pontiagudas, e um rabo espinhoso balan?ava de um lado para o outro, como um chicote pronto para atacar. Mais atr¨¢s, tr¨ºs bestas menores, semelhantes a c?es, pareciam agir em conjunto, movendo-se em perfeita sincronia. Seus dentes eram pontiagudos e suas peles brilhavam como se estivessem molhadas de sangue. As ¨²ltimas tr¨ºs eram as mais bizarras. Pareciam h¨ªbridos de insetos e r¨¦pteis, com longos corpos segmentados e m¨²ltiplas pernas que se moviam com uma velocidade aterradora. Seus olhos, numerosos e brilhantes, pulsavam como far¨®is na escurid?o. Russell apertou os olhos. Ele sabia o que eram. Bestas de primeira e segunda classe... murmurou, o suor escorrendo pela testa. Bestas m¨¢gicas eram classificadas pela amea?a que representavam. As de primeira classe eram destrutivas, mas control¨¢veis por guerreiros habilidosos. J¨¢ as de segunda classe... essas eram praticamente imposs¨ªveis de conter sem um ex¨¦rcito ou ajuda m¨¢gica. Algu¨¦m precisa avisar Elias e os cavaleiros do pal¨¢cio real! ¡ª gritou um dos guardas, sua voz embargada pelo panico. Concordo! V¨¢ agora, Tristan! - ordenou Russell, sem tirar os olhos das criaturas. Tristan, o mais jovem entre eles, correu para dentro da mans?o. O som de seus passos apressados ecoou pela noite, desaparecendo enquanto ele entrava na vasta propriedade. E n¨®s? perguntou outro guarda, segurando firme sua espada. N¨®s seguramos essas coisas aqui, custe o que custar. Russell sabia que isso era praticamente suic¨ªdio, mas eles n?o tinham escolha. Se aquelas abomina??es alcan?assem a mans?o, n?o apenas a propriedade, mas os segredos e artefatos valiosos de Elias estariam em risco. As bestas n?o esperaram mais. Como se obedecessem a um comando invis¨ªvel, avan?aram em un¨ªssono. A terra tremia com o peso de seus corpos, e o som de suas patas, garras e patas segmentadas era como um trov?o que anunciava o caos. Russell ergueu sua espada e deu um passo ¨¤ frente, colocando-se como a primeira linha de defesa. Mantenham a forma??o! N?o deixem nenhuma passar por n¨®s! As primeiras a atacar foram as tr¨ºs criaturas semelhantes a c?es. Elas se moviam r¨¢pido, ziguezagueando pelo campo para confundir os cavaleiros. Esquerda! gritou um dos guardas, alertando Russell. Ele virou-se no ¨²ltimo segundo, bloqueando uma mordida com sua espada. O impacto foi t?o forte que fez suas pernas cederem por um instante. S?o mais fortes do que parecem! Outro guarda foi jogado no ch?o quando uma das criaturas o atacou pelas costas. Ele conseguiu se levantar rapidamente, mas sua armadura j¨¢ estava amassada, e sangue escorria por uma ferida em seu ombro. Enquanto isso, a besta semelhante a um urso avan?ava como uma for?a impar¨¢vel. Russell sabia que, se ela chegasse ao port?o, eles estariam perdidos. Concentrem-se no grande! N?o deixem que ele avance! Dois guardas se posicionaram para intercept¨¢-la. Um deles conseguiu cravar sua lan?a na lateral da criatura, mas isso s¨® pareceu irrit¨¢-la. Com um movimento r¨¢pido, o monstro arrancou a lan?a de seu corpo e atacou o homem com uma patada brutal, jogando-o para longe. Russell correu para ajudar, atacando o monstro com sua espada. Ele cortou profundamente a perna da criatura, fazendo-a rugir de dor e recuar alguns passos. Continuem atacando! N?o deixem que ela se recupere! As criaturas inset¨®ides finalmente entraram na batalha. Movendo-se com velocidade assustadora, elas cercaram os guardas restantes, atacando com suas patas afiadas e mand¨ªbulas vorazes. Um dos cavaleiros gritou em agonia quando uma delas cravou suas mand¨ªbulas em sua perna, puxando-o para o ch?o. Antes que Russell pudesse ajud¨¢-lo, outra besta saltou sobre ele, obrigando-o a se defender. Tristan, onde est?o os refor?os?! ¡ª gritou um dos guardas, o desespero evidente em sua voz. A batalha estava se tornando insustent¨¢vel. Eles estavam em menor n¨²mero e completamente sobrecarregados. No meio do caos, Russell percebeu algo estranho. O garoto que pedira ajuda agora estava parado, im¨®vel, observando a cena com uma express?o quase neutra. Voc¨º... Russell come?ou, mas foi interrompido por mais um ataque. No entanto, algo na postura do garoto parecia errado. Ele n?o estava aterrorizado como antes. Havia algo em seus olhos... algo frio e calculista. Finalmente, Tristan retornou, seguido por mais guardas da mans?o. Mas, para Russell, uma d¨²vida agora pairava em sua mente: Esse ataque foi uma coincid¨ºncia... ou aquele garoto estava envolvido de alguma forma? Enquanto os refor?os enfrentavam as criaturas, Russell lan?ou um ¨²ltimo olhar para o menino. E, naquele momento, olhando o menino, um sentimento sombrio tomou conta de seu corpo. De acordo com o planejado O domador n?o havia mentido: uma besta m¨¢gica descontrolada era um verdadeiro arauto do caos. E agora, diante de Lucien e dos quinze guardas da mans?o, oito dessas abomina??es queimavam em f¨²ria descomunal. Lucien observava a cena com uma express?o contida, mas por dentro, sentia um orgulho silencioso. Todo o esfor?o que ele investira estava prestes a valer a pena. N?o era f¨¢cil manipular criaturas t?o perigosas, muito menos coloc¨¢-las em um espet¨¢culo cuidadosamente orquestrado. Mas ele havia conseguido. Essas bestas m¨¢gicas, de primeira e segunda classe, n?o eram simples de lidar. Escolh¨º-las foi um trabalho meticuloso. Lucien havia passado dias estudando as caracter¨ªsticas delas, entendendo seus comportamentos, suas fraquezas e, mais importante, como transform¨¢-las em armas de distra??o. Durante a semana que teve para planejar o assalto ¨¤ mans?o, Lucien dedicou quatro dias inteiros apenas para preparar as bestas. Foi um processo exaustivo, que drenou n?o apenas seu tempo, mas tamb¨¦m suas economias. Ele gastou uma boa quantia de moedas subornando informantes e adquirindo informa??es precisas sobre aquelas criaturas. Ele aprendeu o que elas comiam, o que irritava sua paci¨ºncia e, principalmente, como burlar o artefato r¨²nico que as mantinha sob controle. Esse artefato, apesar de imbu¨ªdo com magia, n?o era t?o resistente quanto parecia. Era apenas metal, algo que Lucien sabia como quebrar, derreter e moldar gra?as a suas habilidades adquiridas ao longo de anos de sobreviv¨ºncia nas ruas. Alguns minutos antes de correr at¨¦ a mans?o, Lucien invadiu o local onde as bestas eram mantidas. Entrar foi surpreendentemente f¨¢cil, gra?as a um pequeno "presente" que havia roubado. Durante sua carona com os domadores, ele furtou a chave de acesso ao recinto sem que ningu¨¦m percebesse. Dentro do lugar, o ar era pesado com o cheiro de feras e magia residual. As criaturas escolhidas estavam im¨®veis, presas pelos colares r¨²nicos que envolviam seus pesco?os. Suas respira??es profundas preenchiam o espa?o, um som quase hipn¨®tico que contrastava com o potencial destrutivo que elas carregavam. Lucien trabalhou r¨¢pido. Retirou de sua mochila um pequeno frasco e uma esp¨¦cie de bombinha rudimentar. O l¨ªquido dentro do frasco era uma substancia corrosiva que ele mesmo havia preparado, capaz de destruir o metal nos colares. J¨¢ que ele n?o podia destruir as runas, era mais f¨¢cil destruir o condutor dela. ¡ª Voc¨ºs v?o me ajudar a mudar tudo ¡ª murmurou, enquanto derramava o l¨ªquido nos colares de cada besta. Depois, fixou as bombinhas nos colares. Ele sabia que as pequenas explos?es demorariam alguns minutos para ocorrer, o que lhe dava tempo suficiente para sair de l¨¢ antes que o caos come?asse. Mas foi quando Lucien puxou outro frasco da bolsa que tudo mudou. O l¨ªquido vermelho escuro no interior era algo simples e, ao mesmo tempo, extremamente perigoso: sangue humano. Lucien havia aprendido, em sua pesquisa, que mesmo sob o controle dos artefatos r¨²nicos, as bestas m¨¢gicas n?o conseguiam resistir ao cheiro do sangue humano. Era uma fraqueza primal, um instinto t?o profundo que nem magia conseguia suprimir completamente. Ao abrir o frasco, o efeito foi imediato. As bestas, antes d¨®ceis e controladas, come?aram a rosnar. Seus olhos, antes opacos, brilharam com uma luz selvagem. Seus corpos estremeceram, e elas come?aram a lutar contra os colares que as prendiam. Lucien recuou rapidamente, mas seu rosto mantinha um sorriso frio. Aquela rea??o era exatamente o que ele esperava. ¡ª Perfeito ¡ª murmurou. Na verdade, nem tudo estava t?o perfeito quanto Lucien gostaria. Ele tinha apenas alguns minutos de vantagem sobre as bestas, que eram incrivelmente velozes. N?o havia espa?o para hesita??o. Ele correu com todas as suas for?as, sem ousar olhar para tr¨¢s, enquanto gotas de sangue ca¨ªam do frasco que segurava, marcando seu rastro no caminho. Dez minutos se passaram, e Lucien tinha certeza de que as feras j¨¢ haviam sido liberadas. Seus rugidos selvagens certamente j¨¢ ecoavam pela noite, espalhando medo e confus?o. Mas ele n?o estava preocupado com isso. Por pura sorte, o local onde as bestas eram mantidas ficava relativamente pr¨®ximo da mans?o. Mais alguns metros e ele avistou a imponente constru??o de pedra e madeira que era seu objetivo. Antes de se aproximar, por¨¦m, Lucien fez uma breve pausa. Ele encontrou um lama?al pr¨®ximo e, sem pensar duas vezes, mergulhou a m?o na lama fria e ¨²mida. Cobriu o rosto e parte das roupas, criando um disfarce rudimentar. N?o podia correr o risco de ser reconhecido. A m¨¢scara que sempre usava seria um sinal ¨®bvio de algo suspeito, ent?o ela permaneceu guardada por enquanto. Em poucos minutos, tudo estava conforme planejado. Ele olhou para a mans?o uma ¨²ltima vez antes de seguir em frente. O caos havia sido plantado, e agora, s¨® restava assistir enquanto ele florescia. Lucien estava agora no meio de um verdadeiro caos. Quinze guerreiros e mestres lutavam ferozmente contra as oito bestas que atacavam com uma f¨²ria primal. Apesar do treinamento impec¨¢vel dos guardas, as criaturas n?o cederiam facilmente. A raiva acumulada dos anos de escravid?o, a humilha??o de serem submetidas aos humanos, e o cheiro de sangue que impregnava o ar tornavam a batalha intensa e imprevis¨ªvel. Enquanto observava a luta, Lucien tentava recuperar o f?lego. Seus pulm?es ardiam pela corrida anterior, mas ele sabia que n?o poderia descansar. Foi ent?o que percebeu algo que fez seu cora??o acelerar: o olhar fixo de um dos guardas sobre ele, mesmo no meio da confus?o. Aquele homem parecia desconfiado, como se algo n?o estivesse certo. Lucien agiu r¨¢pido, encenando um desespero digno de um teatro. Ele gritou, trope?ou, fingiu cambalear e, por fim, correu como se sua vida dependesse disso. A atua??o foi impec¨¢vel, o suficiente para desviar a aten??o dos guardas. Ele desapareceu na escurid?o, deixando para tr¨¢s o campo de batalha.Unauthorized duplication: this tale has been taken without consent. Report sightings. Mas ele n?o foi embora. Lucien apenas se escondeu, mantendo-se na lateral da imensa mans?o. Agora, com a maioria dos guardas ocupados, era a hora de agir. Ele ajeitou o manto, verificou os itens em sua mochila e respirou fundo antes de seguir em dire??o ¨¤ lateral da casa. Lucien estava na lateral da mans?o, encostado na parede fria de pedra, enquanto a batalha entre guardas e bestas m¨¢gicas prosseguia com f¨²ria do lado de fora. Ele ajustou a mochila em suas costas, sentindo o peso do frasco que o misterioso homem sem nome lhe dera. Aquele pequeno artefato, apesar de simples ¨¤ primeira vista, era a pe?a-chave para abrir o cofre de Elias, mas ele s¨® tinha uma oportunidade de us¨¢-lo. A lateral da mans?o era silenciosa, exceto pelo som distante de gritos e rugidos que preenchiam a noite. A porta de servi?o ¨¤ sua frente era discreta, com poucos detalhes chamativos. Lucien sabia que n?o poderia simplesmente arrombar a porta; Elias era famoso por sua obsess?o com seguran?a. Ele n?o entendia as intricadas inscri??es r¨²nicas que possivelmente protegiam a entrada, mas sabia onde elas costumavam estar e como evit¨¢-las. Com cuidado, ele passou os dedos ao redor da ma?aneta e ao longo da moldura da porta, procurando qualquer irregularidade. Quando encontrou uma ¨¢rea levemente elevada no metal, ele recuou. "Runas," pensou. Ele tirou o frasco dado pelo homem sem nome da mochila. Era um artefato estranho, feito de vidro escuro, com um cristal azul preso no centro. Apesar de n?o entender completamente como funcionava, Lucien sabia que o cristal drenava energia m¨¢gica de encantamentos pr¨®ximos por um curto per¨ªodo. Posicionando o artefato contra a moldura da porta, ele pressionou um pequeno bot?o na lateral. O cristal brilhou por alguns segundos, emitindo um zumbido baixo. Lucien esperou, os m¨²sculos tensos, at¨¦ que o brilho se apagou. Ele empurrou a porta devagar. Ela rangeu, mas cedeu. "Funcionou," ele murmurou, entrando na mans?o. O corredor em que Lucien entrou era escuro, iluminado apenas por algumas velas presas em suportes de ferro nas paredes. O ch?o de pedra estava impecavelmente limpo, e o ar carregava um leve aroma de incenso. Ele conhecia o layout b¨¢sico da mans?o gra?as ¨¤s plantas que havia estudado obsessivamente durante os ¨²ltimos dias. Sabia que o escrit¨®rio de Elias ficava no segundo andar, acess¨ªvel por uma escadaria no sal?o principal. Apesar de n?o entender runas, Lucien tinha uma vantagem: sabia onde os encantamentos de prote??o provavelmente estariam posicionados. Nas portas principais, nas janelas maiores e, claro, no pr¨®prio cofre de Elias. Era uma aposta arriscada, mas ele confiava no artefato para neutralizar as barreiras mais simples. Ele avan?ou pelo corredor, os passos leves e silenciosos, mantendo-se nas sombras sempre que poss¨ªvel. Lucien avan?ava pelas sombras, os sentidos em alerta m¨¢ximo enquanto atravessava o corredor que levava ao sal?o principal. Ele sabia que aquele seria o momento mais arriscado de toda a opera??o. O som abafado da batalha do lado de fora ainda ecoava, mas ali dentro, o sil¨ºncio era opressor. Qualquer movimento errado poderia acabar com tudo. Ao alcan?ar a entrada do sal?o, ele parou abruptamente, pressionando-se contra a parede fria de pedra. O sal?o principal se abria ¨¤ sua frente, grandioso e intimidante. O lustre de cristal lan?ava reflexos suaves pelo ambiente, mas o brilho das velas revelava algo que fez o cora??o de Lucien disparar: dois guardas estavam patrulhando o espa?o. Eles estavam atentos, as m?os pr¨®ximas ¨¤s armas. Um deles caminhava lentamente perto das tape?arias que cobriam as paredes, enquanto o outro circulava ao redor da escadaria em espiral. Lucien sabia que n?o podia ser visto. N?o tinha chance em combate direto com cavaleiros experientes como aqueles. Lucien respirou fundo, tentando controlar a adrenalina. Ele precisava pensar r¨¢pido. Cada segundo que passava aumentava a possibilidade de ser descoberto. Olhando ao redor, ele notou uma s¨¦rie de colunas de m¨¢rmore que poderiam fornecer cobertura suficiente, mas o risco era alto. "Se eu errar o tempo, estou morto." Com passos leves como o de um felino, ele se moveu at¨¦ a primeira coluna, mantendo-se sempre na sombra. O primeiro guarda passou a poucos metros de distancia, e Lucien congelou, segurando a respira??o. Ele sentiu o suor escorrer pela testa, mas n?o ousou limp¨¢-lo. Quando o guarda se afastou, Lucien avan?ou para a pr¨®xima coluna. O sil¨ºncio no sal?o fazia cada movimento parecer um trov?o em seus ouvidos. Ele ajustou a postura, mantendo-se baixo e fora do campo de vis?o. De repente, o segundo guarda se virou em sua dire??o, os olhos varrendo o sal?o. Lucien recuou rapidamente, pressionando-se contra a coluna e segurando o f?lego mais uma vez. O guarda hesitou, seus olhos fixos na penumbra onde Lucien estava escondido. "Ser¨¢ que ele me viu?" O momento pareceu durar uma eternidade. Mas, finalmente, o guarda balan?ou a cabe?a e voltou a patrulhar. Lucien soltou o ar lentamente, sentindo os m¨²sculos relaxarem um pouco. Lucien sabia que a escadaria era sua ¨²nica chance de chegar ao segundo andar, mas ela tamb¨¦m era o lugar mais exposto. Observando os movimentos dos guardas, ele esperou at¨¦ que ambos estivessem olhando para o lado oposto antes de avan?ar. Ele se abaixou, movendo-se rapidamente como uma sombra. Cada degrau da escadaria parecia ranger mais do que o anterior, e Lucien praguejou silenciosamente pela falta de manuten??o. Ele se agachou, os olhos fixos no sal?o, enquanto os guardas continuavam suas rondas. Quando alcan?ou o topo, Lucien se jogou atr¨¢s de uma est¨¢tua decorativa, escondendo-se no momento exato em que um dos guardas olhou para a escadaria novamente. "Por pouco," ele pensou, o cora??o martelando no peito. O corredor ¨¤ frente era menos iluminado, mas Lucien sabia que a amea?a n?o havia acabado. Ele avan?ou lentamente, mantendo os ouvidos atentos para qualquer som. Cada passo era calculado, cada movimento meticulosamente planejado. Ao longe, ele ouviu vozes abafadas. Mais guardas? Ele n?o podia arriscar. Procurando rapidamente por um esconderijo, encontrou uma pequena reentrancia na parede, onde um m¨®vel antigo estava posicionado. Ele se apertou atr¨¢s dele, respirando com dificuldade. As vozes se aproximaram, dois guardas caminhando lado a lado pelo corredor. ¡ª O barulho l¨¢ fora est¨¢ piorando. Talvez dev¨ºssemos refor?ar a entrada principal. ¡ª Concordo, mas Elias ordenou que proteg¨ºssemos o escrit¨®rio a todo custo. Eles passaram a poucos passos de onde Lucien estava escondido. Ele ficou im¨®vel, o corpo r¨ªgido enquanto as vozes se afastavam gradualmente. Quando o sil¨ºncio voltou, ele saiu de seu esconderijo e continuou, ainda mais atento. Finalmente, Lucien alcan?ou a porta do escrit¨®rio de Elias. Ele sabia que o pior ainda estava por vir, mas sentiu uma onda de al¨ªvio ao perceber que havia conseguido chegar at¨¦ ali sem ser detectado. Ainda assim, n?o havia espa?o para erros. A porta ¨¤ sua frente parecia intimidante, mas Lucien se concentrou. O artefato do homem sem nome seria essencial para o pr¨®ximo passo. Ele o tirou da mochila, segurando-o firmemente. O plano ainda estava longe de ser conclu¨ªdo, mas Lucien n?o podia negar: at¨¦ agora, ele estava jogando melhor do que nunca. Abandonando a lè´¸gica Se esconder de um Dominante do Caminho da Espada n?o era apenas desafiador, era quase imposs¨ªvel. Seus sentidos eram incompar¨¢veis aos de um humano comum, sendo dez vezes mais agu?ados. Ouvir o menor dos sons ou perceber o menor dos movimentos estava bem dentro de suas capacidades. Enganar sua audi??o e vis?o era uma tarefa que exigia mais do que habilidade¡ªexigia um plano meticuloso. Felizmente, Lucien j¨¢ havia pensado nesse detalhe crucial. Ele n?o era um guerreiro, muito menos um mestre, mas possu¨ªa algo que os superava em momentos cr¨ªticos: ast¨²cia e intelig¨ºncia. Os dois guardas que ele havia encontrado no corredor momentos atr¨¢s eram de rank guerreiro, uma amea?a consider¨¢vel, mas n?o intranspon¨ªvel. Se fossem mestres, a situa??o seria muito mais complicada¡ªmas n?o imposs¨ªvel. O verdadeiro trunfo de Lucien era o caos l¨¢ fora. O tumulto causado pelas feras m¨¢gicas capturava toda a aten??o dos guardas, desviando seus sentidos super-humanos para o campo de batalha. Era o momento perfeito para Lucien passar despercebido, e ele n?o desperdi?ou essa oportunidade. Cada passo que ele havia dado era um triunfo silencioso sobre o perigo. Ele n?o podia falhar. Falhar n?o era uma op??o. Um Peso Maior que o Ouro De frente a porta do escrit¨®rio, Lucien sentia o peso do motivo que o empurrava para frente. Este trabalho n?o era apenas perigoso; era insano. Ele estava infiltrado na mans?o de um Grande Mestre, cercado por guerreiros e armadilhas m¨¢gicas, tudo para alcan?ar um cofre cheio de riquezas que poderia mudar sua vida para sempre. Mas o que realmente o movia n?o era o ouro. Era Lucy. A imagem de sua irm? mais nova era tudo o que ele precisava para ignorar o medo que rastejava em sua mente. Lucien sabia que, se falhasse naquela noite, Lucy estaria fadada a uma vida miser¨¢vel. Sem ningu¨¦m para proteg¨º-la, ela seria empurrada para o mesmo caminho de desespero que muitos jovens abandonados eram for?ados a trilhar¡ªservi?os sujos, trabalhos humilhantes, ou pior. "Eu n?o posso falhar." Ele murmurou as palavras para si mesmo, como um mantra. Seus olhos percorreram o corredor, atentos a qualquer sinal de perigo. A adrenalina queimava em suas veias, mas sua determina??o era maior. Lucien sabia que sua ¨²nica chance era ser perfeito. N?o havia espa?o para erros, n?o havia segunda tentativa. Cada movimento, cada respira??o precisava ser calculada. Ele ajustou a postura ao ouvir um som distante¡ªvozes. Outros guardas provavelmente se dirigiam para refor?ar a batalha no lado de fora. Seu cora??o martelava no peito, mas ele n?o permitiu que o medo o consumisse. Tudo o que ele fazia naquela noite tinha um prop¨®sito claro. Cada risco que corria, cada decis?o que tomava era por Lucy. A verdade era simples: Lucien n?o roubava por ganancia. Ele n?o era um ladr?o comum. Tudo o que fazia, toda sua luta, era para garantir que Lucy tivesse uma vida melhor. "Eu volto para voc¨º, Lucy. Prometo." Com isso em mente, ele apertou os punhos, determinado a superar todos os desafios que surgissem. Afinal, era por ela que ele arriscava tudo, e por ela que ele precisava voltar vivo. Sem hesitar mais um segundo, Lucien ergueu o frasco ¨¤ altura da ma?aneta e pressionou-o levemente. Um som quase inaud¨ªvel de algo derretendo preencheu o sil¨ºncio do corredor, e, em quest?o de segundos, as runas gravadas na madeira desapareceram, deixando a porta com uma apar¨ºncia completamente comum, desprovida de sua antiga impon¨ºncia m¨¢gica. Ele soltou um suspiro de al¨ªvio, mas n?o relaxou. Seu cora??o parecia contar hist¨®rias de horas de tens?o, quando, na verdade, apenas seis minutos haviam se passado desde o in¨ªcio de sua invas?o. Em seis minutos, ele havia atravessado barreiras que ningu¨¦m ousava sequer pensar em desafiar. Havia enganado homens armados, superado armadilhas ocultas, e agora estava diante de algo que o fazia hesitar. A porta rangeu ao ser empurrada, revelando um espa?o que fez Lucien piscar em confus?o. O que viu n?o era nada do que esperava. O ambiente era um escrit¨®rio, mas n?o qualquer escrit¨®rio. Era um lugar que parecia ter sido arrancado de outra era, como se o tempo tivesse parado dentro daquela sala. A mob¨ªlia era robusta, feita de madeira maci?a com entalhes ornamentados que contavam hist¨®rias de ¨¦pocas antigas. Uma escrivaninha grande dominava o centro do c?modo, polida at¨¦ brilhar, mas com marcas de uso que revelavam sua idade. Ao lado dela, estantes de livros iam do ch?o ao teto, abarrotadas com volumes de capa dura em tons de vermelho, preto e marrom, cada um exalando o cheiro de couro envelhecido e tinta desbotada. Um candelabro pendia do teto, com velas que ainda queimavam suavemente, projetando sombras vacilantes nas paredes. Havia uma poltrona de couro, surrada pelo tempo, com marcas que sugeriam incont¨¢veis noites de leitura ou reflex?o. Uma lareira apagada, mas impecavelmente limpa, completava o cen¨¢rio. Acima dela, pendia um quadro emoldurado, retratando uma paisagem montanhosa envolta em n¨¦voa, t?o realista que quase parecia se mover sob o jogo de luz e sombra das velas. Apesar de todo o esplendor antigo, o escrit¨®rio emanava uma sensa??o de vazio e mist¨¦rio. Algo ali estava errado. N?o era apenas o fato de Elias, um grande mestre, ter um lugar t?o modestamente decorado. Era a atmosfera sufocante, como se o ambiente carregasse segredos que n?o queriam ser descobertos. Lucien fechou a porta atr¨¢s de si com cuidado e deu mais alguns passos para dentro. Seus olhos percorreram cada canto, buscando algo que pudesse indicar onde o cofre estava escondido. Ele sabia que Elias n?o deixaria algo t?o precioso ¨¤ vista, mas a simplicidade desconcertante do local o fazia duvidar de seus pr¨®prios instintos. Foi ent?o que ele notou o espelho. Era grande, ocupando quase toda a parede oposta ¨¤ escrivaninha. Sua moldura era intrincada, dourada, com detalhes que lembravam gravuras de criaturas m¨ªticas: drag?es entrela?ados, serpentes mordendo suas pr¨®prias caudas, e corvos com olhos de pedras brilhantes. A superf¨ªcie do espelho era impec¨¢vel, refletindo a sala com uma clareza quase surreal. Lucien ficou parado, encarando sua pr¨®pria imagem por um momento. Mas algo no reflexo fez sua respira??o vacilar. Ele franziu o cenho, inclinando a cabe?a ligeiramente. N?o era ele que parecia fora de lugar. Era o espelho. Na sua superf¨ªcie, as chamas das velas tremeluziam de maneira estranha, como se algo al¨¦m delas estivesse se movendo na sala.If you discover this narrative on Amazon, be aware that it has been stolen. Please report the violation. Lucien deu um passo ¨¤ frente, seus olhos estreitando enquanto ele examinava o reflexo mais de perto. O que ele estava vendo? Ou, pior ainda... o que ele n?o estava vendo? Lucien n?o sabia nada sobre magia r¨²nica, mas sabia o suficiente para respeit¨¢-la. Era um campo de estudo complexo e intimidador, reservado apenas aos intelectos mais agu?ados ou ¨¤s mentes mais obstinadas. Runas n?o eram apenas tra?os desenhados ¨¤ m?o; eram portais para o imposs¨ªvel, manifesta??es de poder bruto que podiam moldar a realidade. E Elias era um mestre nessa arte. Anos de dedica??o haviam lhe concedido o dom¨ªnio sobre uma for?a que poucos ousavam sequer tentar compreender. E agora, Lucien estava no cora??o do territ¨®rio de Elias, enfrentando exatamente esse poder. Cada porta, cada canto daquela mans?o parecia carregado de uma energia sutil, uma sensa??o de que ele estava sendo observado por algo invis¨ªvel, algo que podia atacar a qualquer deslize. O mais estranho de tudo, no entanto, era o artefato que Lucien carregava. O pequeno frasco, frio em sua m?o, pulsava levemente com uma energia pr¨®pria. Ele n?o fazia ideia de como o homem sem nome havia conseguido algo t?o poderoso, muito menos por que tinha confiado nele t?o facilmente. N?o houve perguntas, nem exig¨ºncias de lealdade. Apenas um olhar calculista e uma entrega sem hesita??o. ¡°Por que ele me deu isso?¡± A pergunta ecoava em sua mente enquanto ele se movia rapidamente pelo escrit¨®rio. N?o havia tempo para d¨²vidas. L¨¢ fora, o caos era ensurdecedor. Gritos de dor e rugidos de bestas se misturavam, criando uma sinfonia grotesca que fazia os nervos de Lucien latejarem. Ele sabia que era apenas quest?o de tempo antes que a guarda real fosse acionada. Talvez, por¨¦m, os pr¨®prios guardas da mans?o conseguissem conter as feras. Ou talvez n?o. Lucien precisava se apressar. Cada segundo desperdi?ado era uma senten?a de morte. Ele come?ou a vasculhar o escrit¨®rio com a precis?o e a rapidez de um ladr?o experiente. Primeiro, a escrivaninha. Ele abriu cada gaveta, seus olhos percorrendo pap¨¦is, livros e objetos com rapidez. Muitos eram irrelevantes, anota??es pessoais ou documentos administrativos que n?o tinham utilidade. Uma das gavetas estava trancada, mas ele a arrombou com uma lamina fina que sempre carregava. Nada. Ele passou para as estantes de livros. Seu olhar treinado buscava qualquer padr?o incomum: livros fora de lugar, lacunas na fileira de volumes, qualquer coisa que sugerisse um mecanismo escondido. Ele puxou um livro de capa escura, esperando que uma passagem secreta se revelasse, mas o ¨²nico som foi o das p¨¢ginas se abrindo inutilmente. "Maldi??o," sussurrou, a frustra??o come?ando a tomar conta. Ele foi at¨¦ a lareira. Correu os dedos pelas bordas do quadro que pendia acima dela, procurando algum mecanismo oculto, mas tudo parecia s¨®lido e imut¨¢vel. At¨¦ mesmo o tapete debaixo de seus p¨¦s foi levantado ¨¤s pressas, revelando nada al¨¦m de um assoalho impec¨¢vel. O tempo parecia escapar por entre seus dedos. Seus movimentos ficaram mais fren¨¦ticos, mas sua mente permanecia fria. Ele precisava encontrar o cofre. Ele sabia que estava ali em algum lugar. Elias n?o deixaria algo t?o importante em outro lugar. Foi ent?o que seus olhos reca¨ªram sobre o espelho novamente. Grande, imponente, e ainda assim, de alguma forma, discreto. Era a ¨²nica coisa naquela sala que parecia destoar de todo o resto. Enquanto tudo exalava funcionalidade e simplicidade, o espelho era ornamentado, quase exagerado em sua opul¨ºncia. Ele caminhou at¨¦ ele, devagar, a sensa??o de tens?o crescendo em seu peito. Seu pr¨®prio reflexo parecia observ¨¢-lo de volta, uma vers?o de si mesmo que parecia mais cansada, mais tensa. A moldura dourada era trabalhada com detalhes impressionantes, mostrando criaturas mitol¨®gicas em um entrelace quase hipn¨®tico. Lucien estendeu a m?o e tocou a superf¨ªcie do espelho. Frio, como ele esperava. Mas algo no toque parecia errado, como se houvesse uma resist¨ºncia sutil, algo que n?o deveria estar ali. Ele pressionou o artefato contra o canto da moldura. Uma vibra??o percorreu o espelho, e por um momento, ele pensou ter ouvido um sussurro, como um eco vindo de muito longe. E ent?o, ele viu. No reflexo, onde deveria haver apenas a parede atr¨¢s de si, apareceu algo mais. Um ba¨², incrustado diretamente na parede. Lucien girou o corpo rapidamente, mas quando olhou diretamente para o local, n?o havia nada l¨¢. Apenas o reflexo no espelho revelava a verdade. "Escondido at¨¦ dos olhos," murmurou, admirado com a engenhosidade de Elias. Lucien sabia que estava perto agora, mas isso n?o significava que o perigo havia passado. Na verdade, ele s¨® estava come?ando. Como ele lidaria com aquilo? A pergunta queimava na mente de Lucien como brasas. Nada fazia sentido. O espelho refletia algo que n?o existia em sua vis?o direta, algo que desafiava a l¨®gica e torcia a realidade. Era injusto, brutalmente injusto. Ele era apenas um garoto de treze anos, jogado em um jogo mortal contra um dos maiores mestres de magia que j¨¢ caminhara pelo reino. Como poderia vencer algu¨¦m que brincava com as leis da percep??o? Frustra??o fervia em seu peito, mas ele sabia que ceder ao desespero n?o o levaria a lugar nenhum. Era sua primeira vez lidando com magia, e j¨¢ havia sido lan?ado direto ao chef?o final, como se estivesse em um pesadelo onde todas as probabilidades estavam contra ele. "O que diabos aquele homem estava pensando quando me mandou aqui?" sussurrou para si mesmo, os dentes rangendo enquanto segurava firmemente o artefato na m?o. O grito distante de uma besta ferida ecoou l¨¢ fora, arrastando-o de volta para a realidade. O tempo estava se esgotando. Cada segundo perdido era um passo mais pr¨®ximo de sua captura ou morte. Ele olhou para o artefato em sua m?o, sentindo o leve pulsar que parecia vir de dentro dele. Era como se o objeto tivesse vida pr¨®pria, mas Lucien tinha a sensa??o desconfort¨¢vel de que sua energia estava se esvaindo. Duas tentativas, no m¨¢ximo. Mas o maior problema n?o era a limita??o do artefato. O verdadeiro problema era ele mesmo. Sua mente girava em c¨ªrculos, tentando quebrar uma barreira invis¨ªvel, tentando aplicar l¨®gica em algo que claramente a desafiava. Era como tentar resolver um enigma com pe?as que n?o se encaixavam, e Lucien sabia que, se continuasse nessa linha, estaria condenado. Ele parou, respirando fundo. Sua mand¨ªbula estava t?o tensa que come?ou a doer, mas ele ignorou. "Chega de l¨®gica", murmurou, seus olhos gelados e decididos. "Se isso n?o faz sentido, ent?o vou lidar com isso de outra forma." Sem hesitar, Lucien ergueu o artefato. Mas, ao contr¨¢rio do que qualquer pessoa sensata esperaria, ele n?o o pressionou contra o espelho, nem contra as paredes do escrit¨®rio. Ele fez algo insano. Ele pressionou o artefato contra a parte de tr¨¢s de sua cabe?a, bem na base do cranio. Seu racioc¨ªnio era simples, quase primitivo: se ele n?o podia ver o que estava diante dele, ent?o o problema n?o era o escrit¨®rio. O problema era ele. Quando o artefato tocou sua cabe?a e foi ativado, uma onda de energia o atravessou. N?o foi uma dor f¨ªsica, mas algo muito mais profundo. Foi como se algo em sua mente tivesse sido arrancado ¨¤ for?a, uma barreira invis¨ªvel que ele nem sabia que estava l¨¢. Por um breve momento, ele sentiu como se estivesse flutuando em um vazio, perdido entre o que era real e o que era ilus?o. Ent?o, o mundo mudou. A sala se transformou diante de seus olhos. As paredes que antes pareciam s¨®lidas revelaram s¨ªmbolos r¨²nicos brilhando com uma luz et¨¦rea. O espelho, que antes refletia algo imposs¨ªvel, agora estava vazio, como se sua fun??o tivesse sido cumprida. E bem no centro do espa?o, onde antes n?o havia nada, estava um ba¨². Lucien piscou, incr¨¦dulo. Sua respira??o estava pesada, e o suor escorria por suas t¨ºmporas. Ele n?o sabia se era pelo esfor?o mental ou pela press?o da situa??o. ¡°Maldito...¡± murmurou, horrorizado ao perceber o que havia acontecido. Elias n?o estava ali, mas mesmo assim havia conseguido manipular sua percep??o com um feiti?o de longo alcance. Era um poder que desafiava qualquer senso de seguran?a, uma habilidade que colocava Lucien em completa desvantagem. Mas o garoto respirou fundo e apertou os punhos. N?o havia tempo para admira??o ou pavor. O ba¨² estava ali, brilhando como uma pe?a de ouro perdida em um mar de sombras. Ele era o objetivo, e Lucien tinha apenas uma chance de alcan?¨¢-lo antes que tudo desmoronasse. Com passos cautelosos, ele avan?ou, a tens?o no ar quase sufocante. O caos l¨¢ fora parecia cada vez mais distante, como se o escrit¨®rio estivesse isolado do resto do mundo. Mas Lucien sabia que isso era apenas uma ilus?o tempor¨¢ria. Ele estava correndo contra o tempo, contra o destino. E falhar n?o era uma op??o. Desespero Quando o feiti?o se quebrou, o escrit¨®rio revelou sua verdadeira face. N?o era mais o espa?o simples e meticulosamente organizado que Lucien havia visto antes. O ar parecia pesado, carregado com um cheiro met¨¢lico misturado a algo que ele n?o conseguia identificar. Era como se o ambiente estivesse impregnado de magia, vivo, respirando. As paredes, antes lisas e feitas de madeira polida, agora pulsavam com uma luz fraca que se movia em padr?es ondulados. S¨ªmbolos r¨²nicos estavam gravados em toda parte, cada um brilhando com uma tonalidade diferente ¡ª vermelho sangue, azul gelo, verde esmeralda. Os s¨ªmbolos pareciam mudar e girar, como se tivessem vontade pr¨®pria. No canto esquerdo da sala, uma prateleira repleta de itens que Lucien n?o conseguia sequer nomear chamava sua aten??o. Um cranio, claramente de uma criatura que ele jamais havia visto antes, estava suspenso no ar, flutuando em um campo de energia transparente. Ao lado, havia um frasco contendo um l¨ªquido preto que parecia vivo, pulsando e se movendo como se tentasse escapar de sua pris?o de vidro. Um pouco mais acima, havia um pergaminho selado com cera dourada, mas, estranhamente, o papel parecia estar se movendo, como se o conte¨²do dentro dele tentasse sair. Havia tamb¨¦m pedras brilhantes que emanavam calor e luz, algumas com fissuras que deixavam escapar fa¨ªscas. No centro do teto, um candelabro flutuava sem suporte, sustentado por nada al¨¦m da magia. As velas n?o eram comuns; suas chamas ardiam em um tom azul opaco, mas n?o produziam fuma?a. A luz que emanava delas parecia lan?ar sombras em dire??es imposs¨ªveis, como se cada sombra tivesse sua pr¨®pria consci¨ºncia. O ch?o, antes de madeira escura, agora era transl¨²cido, revelando algo que se mexia logo abaixo da superf¨ªcie. Lucien tentou ignorar o movimento, mas sentia como se estivesse pisando em uma criatura adormecida que poderia acordar a qualquer momento. Perto do espelho, que agora estava rachado como uma teia de aranha, uma mesa simples havia se transformado. Era feita de um material que parecia madeira viva, suas extremidades pulsavam, e veios dourados corriam por toda sua superf¨ªcie. Em cima dela, havia um pequeno globo que girava lentamente, como se contivesse um c¨¦u estrelado em miniatura. No centro da sala estava o ba¨², mas mesmo ele exalava um ar de perigo. N?o era um simples recipiente de madeira ou metal. Sua superf¨ªcie era coberta por escamas brilhantes, como se tivesse sido forjado a partir da pele de alguma criatura m¨¢gica. Runas brilhavam na tampa, e correntes negras envolviam o ba¨², se movendo como serpentes inquietas. Lucien engoliu em seco. Ele sentia como se o espa?o inteiro estivesse o observando, esperando por um movimento em falso. Cada objeto na sala parecia carregado de inten??es ocultas, e cada sombra parecia esconder algo. Ele apertou o frasco em sua m?o, sentindo o suor escorrer por sua t¨ºmpora. O garoto sabia que estava em territ¨®rio desconhecido, lidando com for?as que n?o compreendia. Mas, ao mesmo tempo, havia algo fascinante naquilo tudo ¡ª um mundo que existia muito al¨¦m de sua compreens?o. Mas Lucien n?o podia se perder na admira??o. O ba¨² estava ali, esperando por ele. E o tempo n?o estava do seu lado. Lucien respirou fundo, o suor frio escorrendo, enquanto seus olhos estavam fixos no ba¨² no centro da sala. Ele sabia que o tempo era cruel, o caos l¨¢ fora n?o duraria para sempre, e os guardas certamente j¨¢ estavam se reorganizando. Cada segundo perdido era um passo mais perto da sua captura. O ba¨² diante dele parecia ordin¨¢rio ¨¤ primeira vista, mas, ¨¤ medida que ele se aproximava, p?de perceber os pequenos detalhes que escapariam a olhos desatentos. O metal escuro era polido, quase refletindo, e a superf¨ªcie estava coberta de runas delicadas que pulsavam em um ritmo quase impercept¨ªvel, como se o pr¨®prio ba¨² estivesse vivo, respirando. Lucien segurou o artefato com for?a, sua mente funcionando a mil enquanto avaliava como lidar com aquilo. As runas n?o eram diferentes das que ele tinha apagado antes, mas a intensidade do poder que emanava do ba¨² era assustadora. Ele sabia que n?o tinha margem para erro. Ele ergueu o frasco mais uma vez e, com precis?o, posicionou-o sobre a fechadura. Pressionou-o com firmeza, liberando o conte¨²do que parecia derreter as barreiras m¨¢gicas como gelo ao sol. As runas brilhavam intensamente, relutantes em ceder, mas, com um ¨²ltimo lampejo de resist¨ºncia, desapareceram, deixando o ba¨² vulner¨¢vel. Lucien deu um passo para tr¨¢s, respirando fundo. Ele sabia que a pr¨®xima parte era a mais perigosa. Com dedos tr¨ºmulos, ele abriu a tampa, que se ergueu lentamente, sem um som sequer. O interior do ba¨² estava envolto por uma luz suave, quase et¨¦rea, que o fez engolir em seco. No centro, repousava a L¨¢grima de Aether. Ela n?o era como ele havia imaginado. N?o era uma joia brilhante, nem uma pedra m¨¢gica comum. A L¨¢grima parecia viva, pulsando com um brilho que mudava de cor a cada instante, oscilando entre tons de azul profundo e prata cintilante, como o c¨¦u estrelado refletido em um lago calmo. Ela flutuava levemente acima de uma almofada negra, sustentada por uma for?a invis¨ªvel. A textura da L¨¢grima era hipnotizante, parecendo ao mesmo tempo l¨ªquida e s¨®lida, como se a ess¨ºncia da magia estivesse contida em sua forma. Pequenas fa¨ªscas dan?avam em sua superf¨ªcie, criando uma melodia silenciosa que apenas o cora??o de Lucien parecia ouvir. Ele se abaixou lentamente, encarando o objeto com uma mistura de fasc¨ªnio e cautela. Seus olhos n?o conseguiam desviar dela, como se a L¨¢grima estivesse chamando por ele, convidando-o a toc¨¢-la. Mas, enquanto estendia a m?o, um arrepio percorreu sua espinha. Algo na sala parecia mudar. O ar ficou mais pesado, quase sufocante. Era como se o espa?o ao redor reagisse ¨¤ abertura do ba¨², ¨¤ revela??o do artefato m¨¢gico. Lucien hesitou, mas sabia que n?o havia volta. Ele precisava da L¨¢grima de Aether. Lucien estendeu a m?o tr¨ºmula em dire??o ¨¤ L¨¢grima de Aether. A magia que emanava dela parecia pulsar em sincronia com os batimentos de seu cora??o, quase como se os dois estivessem conectados de alguma forma inexplic¨¢vel. Ele hesitou por um breve momento, seus instintos gritando para recuar, mas a determina??o falou mais alto.This narrative has been unlawfully taken from Royal Road. If you see it on Amazon, please report it. Ele tocou a L¨¢grima. Um instante. Foi tudo o que precisou. A realidade pareceu desmoronar ao seu redor. Um choque percorreu todo o seu corpo, come?ando pela ponta dos dedos e se espalhando at¨¦ a espinha. Sua vis?o turvou instantaneamente, como se o mundo ao seu redor tivesse sido engolido pela escurid?o. Ele tentou recuar, mas suas pernas falharam. Um vazio imenso o consumiu, e o ¨²ltimo som que ouviu foi o eco surdo de seu pr¨®prio corpo colidindo contra o ch?o.
Acordou alguns segundos depois, ou pelo menos era o que parecia. Lucien arfou, sentindo o peito apertado como se tivesse sido privado de ar por uma eternidade. Seus olhos se abriram lentamente, mas a sala parecia... diferente. Ele estava deitado no ch?o frio, o ba¨² ainda aberto ¨¤ sua frente. O ambiente continuava iluminado pela mesma luz et¨¦rea de antes, mas algo havia mudado. Era como se o ar ao redor estivesse impregnado de uma presen?a invis¨ªvel, algo que ele n?o conseguia identificar, mas que fazia sua pele arrepiar. "O que... o que aconteceu?" murmurou, sua voz rouca e quase inaud¨ªvel. Lucien se sentou com dificuldade, o corpo inteiro tremendo. Ele olhou ao redor, buscando algum sinal do que poderia ter acontecido. Estaria algu¨¦m ali? Uma armadilha m¨¢gica ativada pela L¨¢grima? Ou talvez ele tivesse desencadeado algum tipo de feiti?o de prote??o? Mas n?o havia ningu¨¦m. Nem um som al¨¦m do leve sussurro de sua pr¨®pria respira??o. Ele passou a m?o pelos cabelos, tentando acalmar os nervos. N?o fazia sentido. Ele havia desmaiado, disso tinha certeza. Mas por qu¨º? E o que mais o intrigava: como acordara? Desesperado para encontrar respostas, voltou sua aten??o ao ba¨². A vis?o do vazio o fez congelar. A L¨¢grima de Aether havia desaparecido. Seu cora??o disparou, a pulsa??o ecoando em seus ouvidos como um tambor. Ele olhou freneticamente ao redor, vasculhando a sala com os olhos em busca de qualquer sinal do artefato. Nada. Nem um rastro. "N?o... n?o pode ser. N?o pode ser!" murmurou, sua voz subindo de tom com cada palavra. Ele avan?ou at¨¦ o ba¨², passando a m?o no fundo acolchoado como se o objeto pudesse simplesmente estar escondido ali. Mas o espa?o estava vazio. A L¨¢grima n?o estava mais ali. O desespero tomou conta dele. Lucien recuou, o corpo inteiro tremendo enquanto olhava para suas pr¨®prias m?os. Ele podia jurar que sentia o calor m¨¢gico da L¨¢grima ainda pulsando em seus dedos. Mas onde ela estava? Como podia simplesmente desaparecer? Uma sensa??o inc?moda come?ou a crescer em sua mente, como se ele estivesse sendo observado, mesmo que estivesse sozinho. Ele tentou ignorar, mas o arrepio na nuca era imposs¨ªvel de negar. L¨¢ fora, o caos continuava, mas Lucien mal conseguia ouvi-lo. Tudo o que importava agora era a aus¨ºncia inexplic¨¢vel da L¨¢grima de Aether. E, pela primeira vez naquela noite, ele sentiu algo que nunca havia experimentado antes em uma miss?o: verdadeiro pavor. Lucien mal podia acreditar no que via ¨C ou melhor, no que n?o via. A L¨¢grima de Aether, a raz?o de todo o caos que ele havia causado naquela noite, simplesmente havia desaparecido. "N?o... n?o pode ser! N?o pode estar acontecendo!" sussurrou, a voz entrecortada pelo desespero crescente. Ele se jogou no ch?o, vasculhando cada cent¨ªmetro ao redor do ba¨². As m?os tremiam enquanto ele procurava sob m¨®veis, entre os ornamentos m¨¢gicos, at¨¦ mesmo em lugares imposs¨ªveis, como se estivesse tentando convencer a si mesmo de que tudo n?o passava de um pesadelo. A sala, com sua aura m¨¢gica e misteriosa, parecia zombar de sua busca infrut¨ªfera. Os objetos brilhavam com intensidade et¨¦rea, mas a L¨¢grima n?o estava ali. Lucien sentiu o peso do fracasso come?ar a esmag¨¢-lo. Mil moedas de ouro. Esse era o pagamento prometido pelo homem sem nome. Uma soma que ele nunca ousaria sonhar em sua vida, suficiente para tirar ele e Lucy de toda aquela mis¨¦ria. Ele imaginou o rosto de sua irm?, os olhos brilhando com a possibilidade de um futuro melhor, longe dos perigos e da fome que os perseguiram por toda a infancia. E agora? Agora tudo estava em risco. "Eu n?o posso falhar..." murmurou para si mesmo, a voz embargada de raiva e frustra??o. "Eu n?o vou falhar!" Mas o desespero come?ava a ofuscar sua mente. Ele vasculhou o ba¨² novamente, como se algo pudesse ter mudado nos ¨²ltimos segundos. Revirou almofadas e artefatos, jogou livros antigos no ch?o, seus olhos varrendo o ambiente em busca de uma solu??o. Nada. Ele tentou se acalmar, mas o pensamento de perder tudo o deixou ¨¤ beira do panico. Mil moedas de ouro... Ele sabia exatamente o que aquilo significava... uma moeda de ouro ¨¦ equivalente a quinhentas moedas de bronze, e cem moedas de prata. Ent?o seria: 500.000 moedas de bronze, o suficiente para sustentar uma vila inteira por anos. 100.000 moedas de prata, uma soma que faria qualquer mercador abandonar tudo e se aposentar. Mas para ele, era mais do que n¨²meros. Era o pre?o da liberdade, da seguran?a, de uma vida onde ele e Lucy poderiam finalmente dormir sem medo do amanh?. "N?o pode acabar assim..." sussurrou, as m?os apertando os cabelos desgrenhados. "Eu trabalhei tanto... planejei tudo... e agora... agora isso..." Um rugido ao longe cortou seus pensamentos. Ele congelou. Os sons do caos l¨¢ fora pareciam estar diminuindo. Ele se aproximou da janela, afastando uma cortina empoeirada. Seus olhos se arregalaram ao ver os refor?os chegando: cavaleiros reais, suas armaduras brilhando sob a luz das chamas e dos lampi?es. "N?o..." As bestas que ele havia libertado estavam sendo derrotadas uma a uma. Apenas tr¨ºs ainda resistiam, lutando com selvageria, mas Lucien sabia que era quest?o de tempo antes que fossem subjugadas. Os cavaleiros reais n?o eram o tipo de inimigo que cometia erros. O panico tomou conta de Lucien. Ele ainda tinha minutos, talvez menos, antes que o foco se voltasse completamente para a mans?o. E se algu¨¦m j¨¢ estivesse vindo? "Preciso encontrar... Preciso..." Ele quase trope?ou enquanto voltava ao centro da sala, olhando ao redor como um animal encurralado. E ent?o, pela primeira vez em sua vida, uma pergunta terr¨ªvel se formou em sua mente: E se ele tivesse falhado? Ele apertou os punhos, tentando afastar o pensamento, mas ele persistia. O que aconteceria se n?o cumprisse o trabalho? Sem a L¨¢grima, ele n?o teria o pagamento. Sem o pagamento, como ele cuidaria de Lucy? Como a protegeria? A sala parecia fechar ao seu redor, as paredes pulsando com a energia m¨¢gica que ele mal compreendia. O ar parecia mais pesado, como se estivesse sendo esmagado pela pr¨®pria frustra??o e culpa. "N?o... N?o ¨¦ poss¨ªvel que ela tenha desaparecido! N?o pode ser... magia... deve ser magia..." Mas ele n?o sabia o que fazer. Ele n?o sabia lidar com magia, com as runas, com artefatos como aquele. Todo o seu plano dependia de sua ast¨²cia, de sua habilidade de evitar confrontos diretos. Ele era um sobrevivente, n?o um mago. E agora, o tempo estava contra ele. Outro rugido ecoou ao longe, seguido por um grito humano. Lucien fechou os olhos por um instante, tentando se concentrar. Mas a press?o era insuport¨¢vel. Ele olhou para o ba¨² vazio mais uma vez, o cora??o batendo acelerado, e murmurou em desespero: "Se eu falhar... ¨¦ o fim." Tentativa falha Longe dali, Lucien respirava com dificuldade, o peito subindo e descendo de maneira descompassada enquanto ele se encostava na parede fria do t¨²nel. Seu corpo do¨ªa, as pernas estavam tr¨ºmulas, e seus pulm?es queimavam com a corrida fren¨¦tica que havia acabado de fazer. O caminho pelo t¨²nel subterraneo foi longo e exaustivo, mas ele n?o tinha escolha¡ªficar na mans?o teria sido sua senten?a de morte. Ele fechou os olhos por um momento, tentando controlar a respira??o. Tudo aquilo¡­ para nada. Lucien sentiu um gosto amargo subir pela garganta. A raiva fervilhava em seu peito, mas por fora, ele permanecia im¨®vel, o rosto escondido na penumbra do t¨²nel. Seu plano, aquele pelo qual se dedicou por semanas, havia desmoronado diante de seus olhos. Cada risco calculado, cada mentira bem contada, cada fa?anha imposs¨ªvel¡­ tudo tinha sido in¨²til. A L¨¢grima de Aether havia desaparecido. Seus dedos se fecharam em punhos, as unhas cravando na palma da m?o at¨¦ a pele arder. Como? Como Elias fez aquilo? Ele nem estava presente, e ainda assim, de alguma forma, o ba¨² que Lucien abriu com tanto esfor?o estava vazio agora. Ele sentiu-se um tolo. Um rato tentando roubar o queijo bem debaixo do nariz de um predador que nem precisou aparecer para venc¨º-lo. Lucien respirou fundo, reprimindo a frustra??o que amea?ava domin¨¢-lo. Ele n?o podia se permitir ceder ao desespero agora. O que estava feito, estava feito. Mas uma coisa era certa¡ªo inferno estava prestes a se instaurar. Aquela n?o era uma simples joia ou um item valioso qualquer. N?o, a L¨¢grima de Aether era algo muito maior, algo que ningu¨¦m deveria ver desaparecer sem levantar suspeitas. A guarda real j¨¢ devia estar ¨¤ ca?a dele. Cada segundo perdido significava que o cerco se fechava um pouco mais. E, pior do que isso¡­ Lucy. Seus olhos se arregalaram levemente ao lembrar dela. Ele tinha que voltar para casa o mais r¨¢pido poss¨ªvel. O risco de os guardas come?arem a interrogar crian?as com sua descri??o era real. Se Lucy fosse envolvida nisso, ele jamais se perdoaria. For?ando-se a se mover, Lucien endireitou a postura e caminhou com passos apressados pelo t¨²nel. Ele precisava desaparecer. Precisava tirar o foco dele e de sua irm? antes que tudo desmoronasse de vez. Uma nova pe?a havia sido movida no tabuleiro. E, agora, Lucien n?o sabia mais quais eram as regras do jogo. Lucien emergiu do t¨²nel, os pulm?es ainda lutando para recuperar o f?lego. O ar fresco da noite preencheu seus pulm?es, mas n?o trouxe al¨ªvio algum¡ªpelo contr¨¢rio, sua mente j¨¢ trabalhava no pr¨®ximo passo. Ele n?o podia perder tempo ali. Cada segundo parado era um risco. Ele olhou ao redor, certificando-se de que ningu¨¦m o seguia. O t¨²nel o levou para uma ¨¢rea mais afastada da cidade, um pequeno bosque nos arredores da mans?o. As ¨¢rvores balan?avam com o vento noturno, e a luz p¨¢lida da lua iluminava apenas o suficiente para que Lucien enxergasse o caminho entre as folhagens. Ele estava prestes a correr. Seus m¨²sculos tensionaram, prontos para disparar em dire??o a sua casa. Foi quando ele sentiu. Um arrepio subiu por sua espinha, e um suor frio se espalhou por sua pele. Seus instintos gritavam em alerta, sua respira??o ficou pesada. Ele n?o estava sozinho. Lucien n?o conseguia ver ningu¨¦m, mas a sensa??o era clara¡ªalgu¨¦m o observava. N?o era um guarda, n?o era um cavaleiro. Ele teria ouvido o som da armadura ou notado a postura r¨ªgida e disciplinada dos soldados. N?o. Isso era diferente. Era como se a pr¨®pria escurid?o estivesse respirando ao seu redor. E ent?o, ele viu. A princ¨ªpio, era apenas uma sombra entre as ¨¢rvores, im¨®vel como uma est¨¢tua. Mas, conforme os olhos de Lucien se ajustavam, a figura ganhou forma. Alto e esguio, um homem parado a poucos metros dele. Sua silhueta era alongada, os m¨²sculos magros, mas definidos¡ªn?o a for?a bruta de um cavaleiro, mas o corpo esculpido de algu¨¦m acostumado ao sil¨ºncio e ¨¤ precis?o mortal. Seu rosto era parcialmente coberto por um capuz escuro, mas seus olhos¡­ Frio. Era isso que Lucien sentiu ao encarar aquele olhar. N?o havia raiva, nem ¨®dio, nem sequer curiosidade. Apenas um vazio cortante, como se estivesse olhando para algo que n?o o via como uma pessoa, mas como um simples detalhe irrelevante naquela noite. O estranho n?o segurava uma lamina, mas Lucien sentia como se j¨¢ estivesse com a garganta sob uma lamina invis¨ªvel. Ele n?o precisava perguntar quem era. Ele j¨¢ sabia. Um assassino. E, pior do que isso¡­ algu¨¦m que j¨¢ estava ali, esperando por ele. Como se soubesse exatamente onde ele iria sair. Lucien tentou engolir em seco, mas sua boca estava seca. O sil¨ºncio era absoluto entre os dois. O assassino n?o se moveu. Mas Lucien sentia que, ao mesmo tempo, ele j¨¢ estava em movimento. O sil¨ºncio entre Lucien e o assassino parecia se estender por uma eternidade. O garoto n?o ousava mover um m¨²sculo, cada fibra de seu corpo gritava para correr, mas ele sabia que seria in¨²til. Aquela presen?a¡­ Ele sentia que, se fizesse um movimento errado, seria morto antes mesmo de perceber. Seus pensamentos giravam em um turbilh?o ca¨®tico. Como isso era poss¨ªvel? Como aquele homem sabia que ele sairia exatamente ali? Somente ele possu¨ªa a planta da casa. Somente ele sabia do t¨²nel. Nem mesmo os guardas, nem mesmo os servos¡ªningu¨¦m parecia conhecer aquela passagem secreta. Ele havia confirmado isso em seus preparativos, estudado cada detalhe, cada caminho. E, ainda assim, algu¨¦m estava esperando por ele. Lucien sentiu o est?mago revirar. N?o podia ser coincid¨ºncia. N?o podia ser azar. Ent?o¡­ quem mais sabia? A resposta o atingiu como um soco no peito. O homem sem nome. Ele foi o ¨²nico a dar a planta. O ¨²nico que sabia do trabalho, do cofre, do artefato. O ¨²nico que sabia que Lucien usaria o t¨²nel. Foi ele. Lucien sentiu um gosto amargo na boca. Ele deveria ter imaginado. N?o importava o que aquele homem havia prometido, n?o importava o que ele havia dito¡ªno fim, Lucien n?o passava de uma pe?a em um jogo que ele nem sequer entendia.If you spot this story on Amazon, know that it has been stolen. Report the violation. Mas o que isso significava? O que aquele assassino queria com ele? O olhar frio do homem ¨¤ sua frente permanecia inalterado, como se estivesse apenas esperando. Como se estivesse estudando cada pensamento que passava pela cabe?a de Lucien naquele momento. Tra¨ªdo. A palavra ecoava em sua mente, e com ela veio uma ¨²nica certeza. Ele precisava sair dali. Agora. Lucien respirou fundo, tentando controlar a onda de emo??es que o assolava. O suor frio escorria por sua nuca, e seus m¨²sculos estavam tensos, prontos para reagir a qualquer movimento. Mas ele sabia que n?o poderia fugir. N?o ainda. Ent?o, ele fez a ¨²nica coisa que podia. Falou. ¡ª Quem ¨¦ voc¨º? O sil¨ºncio que se seguiu foi pesado, sufocante. O homem ¨¤ sua frente n?o reagiu de imediato. Apenas ficou ali, parado, observando-o com aqueles olhos frios e impass¨ªveis. Era como se estivesse analisando cada tra?o, cada batida acelerada do cora??o de Lucien, cada resqu¨ªcio de medo que tentava esconder. O garoto engoliu em seco. Aquele homem n?o era um cavaleiro real. N?o vestia nenhuma ins¨ªgnia, nenhuma armadura. Suas roupas eram escuras, justas, pr¨®prias para movimentos r¨¢pidos e discretos. Seu corpo era alto, esguio, mas musculoso¡ªn?o com a brutalidade de um guerreiro, mas com a letalidade de algu¨¦m acostumado a matar com precis?o. Lucien sentia algo estranho nele. Algo que n?o fazia sentido. O homem estava parado diante dele, e ao mesmo tempo¡­ n?o estava. Era como se sua presen?a oscilasse entre o real e o irreal, como se seus olhos o percebessem, mas sua mente se recusasse a acreditar que ele estava ali. Lucien respirou fundo, ignorando o arrepio que subia por sua espinha. ¡ª Voc¨º j¨¢ sabia que eu viria por aqui, n?o ¨¦? ¡ª Sua voz soou mais firme do que esperava. ¡ª Isso significa que algu¨¦m te disse. Nenhuma resposta. ¡ª Foi o homem sem nome? Ainda nada. A frustra??o crescia dentro dele. O desespero tentando se infiltrar em sua mente. Ele n?o tinha tempo para enigmas. ¡ª O que voc¨º quer comigo? ¡ª Ele finalmente perguntou, dando um passo para tr¨¢s, mantendo os olhos fixos na figura im¨®vel. Dessa vez, houve uma rea??o. Um pequeno tilintar de metal. Lucien viu quando o homem ergueu uma das m?os e, lentamente, puxou uma adaga de sua cintura. Um sorriso frio¡ªquase impercept¨ªvel¡ªse formou em seu rosto. ¡ª Voc¨º j¨¢ sabe a resposta. ¡ª A voz do assassino era baixa, arrastada, carregada de algo que Lucien n?o conseguia definir. Era um aviso. Era uma senten?a. Era o in¨ªcio de um jogo mortal. Lucien correu. Correu como nunca antes. O ar cortava seu rosto, os pulm?es queimavam e seus m¨²sculos gritavam de dor, mas ele n?o parava. N?o podia parar. Seus passos eram r¨¢pidos, precisos, impulsionados pelo puro desespero. O instinto de sobreviv¨ºncia berrava em sua mente, dizendo-lhe que fugir era a ¨²nica op??o. Ele n?o tinha chance alguma contra aquele homem. Mas, no fundo, uma d¨²vida martelava sua mente¡ªe se ele fosse um mago? O pensamento o fez estremecer. Se aquele assassino fosse um mago, ent?o correr era in¨²til. N?o importava sua velocidade, n?o importava sua ast¨²cia, n?o importava sua experi¨ºncia nas ruas¡­ ele morreria em um instante. A incerteza pesava sobre ele, mas Lucien n?o hesitou. Ele continuou correndo. Seus olhos se moveram rapidamente para tr¨¢s, e foi ent?o que seu sangue gelou. O assassino ainda estava parado, olhando para ele. O sorriso frio permanecia em seu rosto, como se estivesse se divertindo com a tentativa desesperada de Lucien de escapar. Um arrepio subiu pela espinha do garoto. Lucien virou o olhar para frente e seu cora??o parou. Ele estava l¨¢. O homem, que segundos atr¨¢s estava parado ao longe, agora estava diante dele, na sua frente, bloqueando o caminho. Era imposs¨ªvel. Lucien travou os p¨¦s no ch?o, deslizando pela terra ¨²mida ao tentar parar seu pr¨®prio corpo. Seu cora??o disparou ainda mais forte. Ele sequer havia piscado. A ¨²nica explica??o era terr¨ªvel demais para ser verdade. Lucien engoliu seco e, tentando manter a calma, falou: Se ¨¦ a L¨¢grima que voc¨º quer, eu n?o a tenho... N?o consegui roub¨¢-la, ent?o que sentido tem em me matar? O assassino ergueu uma sobrancelha, como se aquelas palavras tivessem lhe causado um leve inc?modo. O sil¨ºncio se estendeu por um segundo. Ent?o, com a mesma calma de antes, o homem puxou um pequeno dispositivo do bolso de seu traje. Lucien o observou atentamente. O assassino pressionou algo no artefato e murmurou algumas palavras. A resposta veio quase que imediatamente. Uma ¨²nica voz. Uma voz que Lucien conhecia muito bem. O tempo parou. Lucien sentiu o ch?o sumir debaixo de seus p¨¦s. Sua mente travou. Seus olhos se arregalaram. Aquela voz... N?o... N?o pode ser¡­ O mundo ao redor de Lucien pareceu encolher, o ar ficou pesado, e sua vis?o se estreitou, como se tudo ao redor perdesse a importancia. A adrenalina que corria em suas veias gelou no instante em que aquela voz ecoou pelo dispositivo do assassino. Era imposs¨ªvel. N?o podia ser. Seus m¨²sculos ficaram r¨ªgidos, seu cora??o martelava dentro do peito, e sua respira??o ficou presa na garganta. Ele reconheceria aquela voz em qualquer lugar¡ªuma voz que nunca deveria estar ali, naquele momento, naquele contexto. O assassino, por outro lado, manteve-se impass¨ªvel. Seu olhar frio analisava cada express?o que se passava pelo rosto do garoto. O sorriso sombrio ainda estava l¨¢, mas agora carregava um qu¨º de curiosidade. Lucien sentiu o desespero crescer dentro de si. Ele conhecia aquela voz. Cada instinto gritava para correr, para fugir, para escapar daquela armadilha que, sem perceber, havia sido tecida ao seu redor. Mas seus p¨¦s estavam colados ao ch?o. O medo o impedia de se mover, mas n?o era apenas isso¡ªera o choque. Seus l¨¢bios se entreabriram, e um sussurro quase inaud¨ªvel escapou: ¡ª ¡­N?o pode ser¡­ O assassino guardou a adaga com uma calma que fez um arrepio percorrer a espinha de Lucien. Ent?o, com passos lentos, deu um ¨²nico passo ¨¤ frente. ¡ª Voc¨º ouviu. ¡ª A voz do homem era arrastada, carregada de uma frieza cortante. ¡ª E, pelo seu rosto¡­ diria que n?o estava esperando por isso. Lucien n?o respondeu. Ele n?o conseguia responder. Seus pensamentos estavam ca¨®ticos, girando em c¨ªrculos, tentando encontrar uma explica??o l¨®gica, tentando negar a realidade. Mas nada fazia sentido. Por que aquela voz? Por que agora? O assassino levantou o dispositivo novamente, aguardando mais instru??es. ¡ª E ent?o? ¡ª perguntou ele, com uma calma irritante. Do outro lado da linha, a resposta veio sem hesita??o. Fria. Certeira. ¡ª Traga-o. Vivo. Lucien sentiu um arrepio violento percorrer todo o seu corpo. Seus punhos se cerraram com for?a, suas pernas queriam reagir, correr, mas para onde? N?o havia escapat¨®ria. Ele n?o sabia para onde seria levado. Mas tinha certeza absoluta de uma coisa: N?o queria descobrir. Lucien mal teve tempo para reagir. Ele viu o assassino guardar o dispositivo e dar um ¨²nico passo em sua dire??o. Um ¨²nico passo. Foi o suficiente para Lucien sentir um pavor instintivo, como se estivesse diante de algo que ia al¨¦m de sua compreens?o. Aquele homem n?o era um guerreiro comum. Ele recuou um passo, os m¨²sculos tensos, pronto para correr de novo. Mas foi nesse exato momento que tudo ficou borrado. O assassino desapareceu de sua vis?o. O ar ao seu redor pareceu se distorcer. E ent?o, uma dor aguda explodiu na base de seu cranio. Lucien sequer conseguiu pensar. Seu corpo inteiro travou por um segundo, os olhos arregalados, o c¨¦rebro incapaz de processar o que havia acontecido. O impacto foi preciso, brutal e ao mesmo tempo¡­ cir¨²rgico. A for?a n?o foi exagerada, mas o local atingido -o ponto exato onde a medula espinhal se conecta ao c¨¦rebro-garantiu que o efeito fosse imediato. Seu corpo perdeu toda a for?a. Sua vis?o escureceu. E em menos de um segundo, Lucien j¨¢ n?o estava mais ali. O assassino, sem demonstrar qualquer emo??o, segurou o corpo inerte do garoto antes que ele ca¨ªsse no ch?o. Como se carregasse algo leve e insignificante, o lan?ou sobre o ombro e, sem pressa alguma, deu meia-volta. A noite engoliu sua silhueta enquanto ele se afastava, desaparecendo na escurid?o. Lucien havia sumido. Bç…¤ssola do saber Uma dor agoniante explodiu em sua cabe?a. Era como se algo estivesse martelando seu cranio por dentro, pulsando em um ritmo ca¨®tico e insuport¨¢vel. Lucien grunhiu, os olhos ainda fechados, sentindo o mundo girar ao seu redor. Seu est?mago revirou, e por um momento ele teve certeza de que iria vomitar. Ele n?o sabia onde estava. ¡°O que aconteceu comigo?¡± Tentou mover os bra?os, mas seus m¨²sculos estavam r¨ªgidos, pesados. A sensa??o era estranha, como se seu corpo pertencesse a outra pessoa. ¡°Eu estava¡­ correndo. Sim, eu estava fugindo.¡± Imagens borradas dan?avam em sua mente. O t¨²nel. O ar frio da noite. O medo rastejando por sua espinha. ¡°O assassino...¡± O pensamento fez seu cora??o disparar, e ele abriu os olhos num sobressalto¡ª Escurid?o. A ¨²nica coisa que via era um teto de pedra iluminado por uma fraca luz alaranjada. As sombras tremulavam ao redor, criando formas distorcidas nas paredes. Ele piscou v¨¢rias vezes, tentando clarear a vis?o. ¡°Onde eu estou?¡± A tontura o atingiu com for?a, obrigando-o a fechar os olhos novamente. Respirou fundo, tentando ignorar a dor pulsante na nuca. Seu corpo n?o obedecia direito. Seus sentidos estavam confusos. E o pior de tudo¡­ Ele n?o fazia ideia do que estava por vir. Logo, Lucien se recobrou do que havia acontecido perfeitamente, e a raiva cresceu dentro dele como um inc¨ºndio descontrolado. O homem havia tra¨ªdo ele. Lucien cerrou os dentes, o ¨®dio borbulhando em seu peito como veneno. Se sentia um idiota por ter confiado, por sequer ter considerado que aquele desgra?ado o entregaria uma fortuna t?o facilmente. Seu corpo ainda estava pesado, mas sua mente come?ava a clarear. Ele tentou se mover¡ªmas em v?o. Ele estava preso. Seus pulsos e tornozelos estavam amarrados firmemente ¨¤ cadeira. O material das cordas era ¨¢spero, apertando sua pele a ponto de causar um desconforto irritante. Ele testou a resist¨ºncia puxando com for?a, mas nem sequer cederam. Ok, isso n?o ¨¦ bom. Sua cabe?a era a ¨²nica parte livre para se mover. Inspirou fundo e ergueu o olhar, permitindo-se observar o local em que estava. E ent?o, sentiu um calafrio. A ilumina??o era fraca, mas o suficiente para revelar a natureza sombria daquele lugar. Ferramentas repousavam ordenadamente sobre uma mesa de madeira envelhecida¡ªalgumas afiadas, outras enferrujadas, todas claramente destinadas a um prop¨®sito cruel. O cheiro met¨¢lico no ar denunciava que j¨¢ haviam sido usadas antes. Era uma sala de tortura. Lucien engoliu em seco. Diante dele, um enorme espelho refletia sua imagem, mas algo estava¡­ errado. Ele estreitou os olhos, tentando entender o que era. No entanto, antes que pudesse analisar melhor, um som interrompeu seus pensamentos. A porta atr¨¢s dele se abriu. O ranger lento das dobradi?as ecoou pelo ambiente, como um aviso sinistro de que algo terr¨ªvel estava prestes a acontecer. O homem sem nome entrou na sala com passos calmos, a escurid?o parecendo se curvar ao seu redor. Ele vestia o mesmo manto escuro de sempre, e, como se a situa??o n?o fosse nada al¨¦m de um jogo divertido, um sorriso sombrio se desenhava em seu rosto. Que cena lament¨¢vel, garoto. - Sua voz era suave, carregada com um tom debochado. Amarrado como um animal, tr¨ºmulo, tentando entender o que aconteceu. Lucien permaneceu em sil¨ºncio. O homem se aproximou lentamente, os olhos brilhando com um interesse perverso. E pensar que voc¨º confiou em mim... Pobrezinho. - Ele balan?ou a cabe?a, teatral. Eu te joguei no meio da boca do lobo, e voc¨º sequer percebeu at¨¦ ser tarde demais. Lucien cerrou os punhos com for?a. Conveniente, n?o foi? Um ratinho astuto, servindo bem para fazer os trabalhos pequenos. Mas... agora? Bom... Ele suspirou, colocando uma das m?os no ombro de Lucien, apertando com for?a. Agora voc¨º n?o serve mais. Lucien queria arrancar aquela m?o dali. Queria gritar, xingar, cuspir no rosto daquele desgra?ado. Mas ele n?o daria esse prazer a ele. O garoto manteve-se em sil¨ºncio, encarando-o com uma f¨²ria silenciosa, os olhos queimando como brasas. O homem sem nome sorriu ainda mais. Oh? Ent?o vai se manter calado? - Ele inclinou a cabe?a levemente, analisando a express?o de Lucien. Interessante... Voc¨º tem mais coragem do que eu imaginava. Ele se afastou um pouco, os olhos frios como laminas afiadas. ¡ª Mas coragem n?o vai te tirar daqui, garoto. O homem sem nome n?o perdeu tempo com mais provoca??es. Seu sorriso sombrio se desfez, e ele pousou os olhos frios sobre Lucien, direto e sem rodeios.If you spot this tale on Amazon, know that it has been stolen. Report the violation. ¡ª Vamos ao que importa, garoto. Onde est¨¢ a L¨¢grima de Aether? Lucien franziu o cenho. ¡ª Eu j¨¢ disse¡­ ¡ª Sua voz saiu rouca, ainda afetada pelo cansa?o e pela dor. ¡ª Eu n?o consegui peg¨¢-la. O homem sem nome cruzou os bra?os, avaliando-o como se estivesse tentando enxergar atrav¨¦s de sua pele. ¡ª Se me disser onde est¨¢, eu te liberto. Lucien piscou, confuso. Aquilo n?o fazia sentido. Ele j¨¢ tinha dito que n?o estava com a L¨¢grima. O homem sem nome, com certeza, havia revistado seu corpo enquanto ele estava inconsciente. Ent?o por que perguntar de novo? Por que fingir que essa era uma negocia??o justa? Lucien sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Algo estava errado. Muito errado. ¡ª Do que diabos est¨¢ falando? ¡ª Lucien rosnou, seu olhar queimando de indigna??o. ¡ª Eu n?o estou com essa coisa! Acha que, se estivesse, eu n?o teria entregado para aquele cara assustador assim que ele apareceu?! O homem sem nome o encarou em sil¨ºncio. Seu sorriso morreu, e, por um breve momento, sua fachada calculista rachou. Algo selvagem brilhou em seus olhos. Foi r¨¢pido. Uma fra??o de segundo. Lucien percebeu tarde demais. O soco veio com brutalidade, sem aviso. Sua cabe?a chicoteou para tr¨¢s, e um gosto met¨¢lico invadiu sua boca. O impacto estremeceu seus ossos, e o sangue quente escorreu do corte aberto em seu l¨¢bio. ¡ª N?o minta para mim, moleque. ¡ª A voz do homem soou descontrolada, diferente do tom calmo e manipulador de antes. Ele agarrou o queixo de Lucien com for?a, obrigando-o a encar¨¢-lo. Seus olhos estavam cheios de algo perigoso, uma f¨²ria ¨¤ beira de explodir. ¡ª Eu sei muito bem que voc¨º est¨¢ com ela. Lucien cuspiu sangue no ch?o, seu cora??o martelando no peito. Ele estava lidando com um homem que havia abandonado qualquer preten??o de jogo. O sil¨ºncio que se seguiu foi quebrado por uma risada baixa. ¡ª Hahaha... ¡ª O homem sem nome inclinou a cabe?a para o lado, como se estivesse se divertindo com a teimosia de Lucien. ¡ª Voc¨º acha mesmo que pode me enganar? Lucien n?o respondeu. Apenas encarou o homem com olhos frios, contendo a dor do golpe anterior. ¡ª N?o creio que seja t?o burro assim, garoto¡­ Logo a mim? ¡ª A voz do homem oscilava entre o deboche e algo mais sombrio. Ele deslizou uma m?o at¨¦ o bolso interno de seu manto e puxou um pequeno objeto dourado. Lucien franziu a testa ao ver aquilo. Era redondo, levemente envelhecido, com entalhes intricados e um brilho opaco. ¡ª Eu tenho conhecimento de tudo. ¡ª O homem girou o objeto entre os dedos, um sorriso satisfeito brincando em seus l¨¢bios. ¡ª N?o seja bobo. ¨¦ imposs¨ªvel me enganar¡­ ou esconder qualquer coisa de mim. Seus olhos se estreitaram enquanto ele observava Lucien. Ent?o, levantou o estranho artefato diante de seu rosto. ¡ª J¨¢ ouviu falar na B¨²ssola de Ouro? Lucien sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele n?o sabia o que era aquilo, mas, pelo brilho perigoso no olhar do homem, soube que nada de bom viria a seguir. Lucien estreitou os olhos para o objeto dourado nas m?os do homem sem nome. Ele n?o fazia ideia do que era aquela coisa, mas o jeito que o homem falava¡­ o brilho perverso em seus olhos¡­ aquilo n?o era um simples enfeite. ¡ª A B¨²ssola de Ouro, um artefato poderoso, deixado s¨¦culos atr¨¢s por uma mulher chamada Lyra, em sua catacumba. ¡ª O homem girou o pequeno objeto nos dedos, seu tom carregado de satisfa??o. ¡ª Uma bruxa de tempos antigos, uma mulher que desafiou at¨¦ mesmo os deuses, dizem alguns. Lucien sentiu um arrepio ao ouvir aquele nome. Ele j¨¢ havia escutado sobre Lyra antes, hist¨®rias sussurradas em becos e tavernas sobre uma bruxa cuja magia era t?o poderosa que seus artefatos continuavam a assombrar o mundo muito depois de sua morte. ¡ª E sabe o que ela deixou para tr¨¢s, al¨¦m de sua reputa??o? ¡ª continuou o homem, um sorriso de puro prazer torcendo seus l¨¢bios. ¡ª Esta b¨²ssola. Lucien olhou para o pequeno artefato, intrigado. Ele n?o via ponteiros ou marca??es como em uma b¨²ssola comum. Parecia apenas um disco liso de ouro, com s¨ªmbolos que pareciam se mover levemente, como se estivessem vivos. ¡ª O que isso faz? ¡ª murmurou, mais para si mesmo do que para o homem. O sorriso do homem se alargou. ¡ª Me d¨¢ conhecimento sobre tudo o que eu desejo saber. Basta apenas¡­ quebrar um saber. Lucien franziu a testa. ¡ª O que isso quer dizer? ¡ª A b¨²ssola exige um sacrif¨ªcio para revelar verdades. Algo precisa ser esquecido, perdido. Quanto maior o conhecimento que busco, mais valiosa a mem¨®ria que devo entregar em troca. O garoto sentiu um n¨® apertar em seu est?mago. Magia que envolvia sacrif¨ªcios sempre era perigosa. ¡ª E como conseguiu isso? ¡ª perguntou, sem conseguir esconder a desconfian?a. ¡ª Ah¡­ ¡ª O homem soltou um suspiro dram¨¢tico. ¡ª Eu a encontrei por acaso, se assim posso dizer. Ele se inclinou para frente, a voz baixa e envolta de um prazer s¨¢dico. ¡ª Quando eu era mais jovem, um simples ladr?o de t¨²mulos, roubava os pertences enterrados com os mortos. Ouro, joias, armas¡­ qualquer coisa que pudesse ser vendida. ¡ª Seus olhos brilharam com nostalgia doentia. ¡ª E ent?o, um dia, encontrei uma tumba esquecida, sem nome, sem guardi?es. Uma fenda solit¨¢ria no cora??o das montanhas. Lucien ficou im¨®vel, ouvindo cada palavra. ¡ª Eu achava que seria mais uma pilhagem f¨¢cil. Mas, no fundo daquela tumba, entre ossos e poeira, encontrei isto. ¡ª Ele ergueu a b¨²ssola, girando-a com os dedos. ¡ª Uma obra-prima deixada para tr¨¢s por Lyra, esperando para cair nas m?os certas. O homem sem nome sorriu, agora quase com carinho pelo objeto. ¡ª E sabe o que ela me diz quando penso na L¨¢grima de Aether, moleque? Ele virou a b¨²ssola em dire??o a Lucien. ¡ª Que voc¨º est¨¢ em posse dela. O sangue de Lucien gelou. Lucien sentiu sua respira??o falhar. Seu cora??o martelava contra o peito, e um frio intenso subiu por sua espinha. N?o¡­ isso n?o podia estar certo. ¡ª Voc¨º est¨¢ mentindo. ¡ª Sua voz saiu rouca, carregada de incredulidade. ¡ª Eu vi a l¨¢grima desaparecer! Ela simplesmente sumiu! Como eu poderia estar com ela? O homem sem nome inclinou a cabe?a, seu sorriso cruel nunca vacilando. ¡ª Eu n?o minto, garoto. A b¨²ssola nunca mente. Lucien sentiu o desespero crescer como uma mar¨¦ subindo, amea?ando engoli-lo. N?o, isso n?o pode estar acontecendo. ¡ª Voc¨º revirou os meus bolsos, me revistou enquanto eu estava desmaiado! Se eu tivesse a l¨¢grima, voc¨º j¨¢ teria encontrado! O homem girou a b¨²ssola entre os dedos, como se estivesse apreciando a sensa??o do metal frio em sua pele. ¡ª De fato. Mas se eu ainda n?o a encontrei, significa apenas uma coisa¡­ ¡ª Ele lan?ou um olhar predat¨®rio para Lucien. ¡ª Voc¨º a escondeu em algum lugar que nem mesmo percebeu. Lucien abriu a boca para protestar, mas as palavras morreram em sua garganta. Como poderia argumentar contra algu¨¦m que acreditava cegamente em um artefato? ¡ª N?o faz sentido! Eu n?o escondi nada! Eu nem sequer toquei nela por mais de alguns segundos! O homem suspirou teatralmente e deu um passo para tr¨¢s, observando Lucien como se estivesse lidando com uma crian?a particularmente teimosa. ¡ª Ah, garoto¡­ voc¨º ¨¦ realmente irritante. Voc¨º n?o percebe que quanto mais nega, mais certeza eu tenho? Lucien puxou contra as amarras, sua pele queimando pelo atrito da corda. ¡ª Isso ¨¦ um erro! Voc¨º vai perder tempo comigo! ¡ª Perder tempo? ¡ª O homem riu, um riso vazio, sem humor. ¡ª A b¨²ssola j¨¢ me deu a resposta. O tempo agora ¨¦ seu problema. Lucien engoliu seco quando viu o homem se virar, caminhando casualmente at¨¦ a mesa atr¨¢s dele. A mesa das ferramentas. N?o¡­ n?o¡­ n?o¡­ Cada m¨²sculo de seu corpo tensionou quando o homem passou a ponta dos dedos por cada instrumento meticulosamente organizado ali. Faca? Ganchos? Serrote? Ele ignorou todos. Ent?o, finalmente, seus olhos pousaram em algo, e ele sorriu. Com um gesto deliberado, ele pegou um grande alicate de ferro. Lucien sentiu todo o ar escapar de seus pulm?es. ¡ª N?o¡­ ¡ª Sua voz foi um sussurro, seu corpo inteiro tomado por um terror absoluto. Isso n?o pode estar acontecendo. O homem virou-se devagar, segurando o alicate com firmeza, como se estivesse testando seu peso. ¡ª Agora, moleque¡­ vamos descobrir juntos onde est¨¢ essa l¨¢grima. Lucien puxou contra as amarras com toda a sua for?a, seu cora??o acelerado, sua mente gritando em puro pavor. Ele n?o tinha a l¨¢grima. Mas isso n?o importava mais. Fugitivo magrelo e de cabelos negros Lucy sentiu o tempo escorrer como areia entre os dedos. Cada minuto sem not¨ªcias de Lucien era um peso em seu peito, tornando cada respira??o mais dif¨ªcil. Ele deveria ter voltado. O sol j¨¢ havia nascido e se posto mais uma vez, e seu irm?o ainda n?o estava ali. A pequena estalagem onde a mulher do caf¨¦ morava era simples, mas aconchegante. O cheiro de p?o rec¨¦m-assado e ch¨¢ quente pairava no ar, misturando-se com o riso ocasional das crian?as. Para Lucy, no entanto, tudo parecia abafado, distante. Como se estivesse presa dentro de uma bolha de preocupa??o. Lucien a havia deixado ali com promessas de que voltaria antes do amanhecer. Que ela s¨® precisava esperar. Mas ele n?o voltou. Lucy estava sentada em um canto do pequeno quarto onde dormia, os joelhos dobrados contra o peito, os dedos pequenos apertando os bra?os com for?a. O dia passava lento, e, por mais que tentasse se distrair, a aus¨ºncia de Lucien fazia cada segundo pesar o dobro. A mulher do caf¨¦ ¨C seu nome era Mar¨ªlia ¨C tentava ao m¨¢ximo deixar Lucy confort¨¢vel. Ela era gentil, do jeito que Lucy imaginava que m?es deveriam ser. N?o que Lucy se lembrasse muito bem da pr¨®pria m?e. Ela era apenas um borr?o quente em suas mem¨®rias, um perfume esquecido, um abra?o distante. Assistir Mar¨ªlia cuidar de seus filhos fazia algo doer dentro dela. Era assim que deveria ser? Mar¨ªlia tinha dois filhos, um garoto chamado Tobias, que tinha a mesma idade de Lucy, e um menor, Daniel, que ainda era pequeno demais para entender as coisas ao seu redor. Ele gostava de se agarrar ¨¤s saias da m?e, rindo e balbuciando coisas que s¨® ele compreendia. Lucy n?o tinha ningu¨¦m assim. S¨® tinha Lucien. Ela olhou pela janela, observando o c¨¦u escurecer pouco a pouco. O tempo esfriava, e ela sentiu um arrepio, mesmo estando dentro da casa. Lucien sempre estava l¨¢. Sempre encontrava um jeito de voltar. Ele nunca quebrava promessas. Ent?o por que agora ele n?o voltava? Pela manh?, Mar¨ªlia a convidou para tomar o caf¨¦ junto com seus filhos. A mesa era simples, com p?o caseiro, geleia e um pouco de queijo. Lucy n?o queria comer, mas sabia que Lucien ficaria bravo se ela recusasse. Ele sempre insistia para que ela comesse direito, mesmo quando ele pr¨®prio ficava sem jantar para que ela tivesse uma refei??o decente. Mar¨ªlia colocou um prato diante dela e sorriu de um jeito que Lucy achou estranho. ¡ª Voc¨º parece cansada, pequena. Dormiu bem? Lucy assentiu com a cabe?a, mentindo. N?o dormiu nem um pouco. Cada barulho na rua a fazia se sobressaltar, acreditando que fosse Lucien retornando. Mas a porta nunca se abriu para ele. Tobias, o filho mais velho, olhou para ela com um olhar curioso. ¡ª Onde est¨¢ seu irm?o? Lucy estremeceu, e Mar¨ªlia lan?ou um olhar repreendedor ao filho. ¡ª Tobias, n?o seja indelicado. Ele encolheu os ombros. ¡ª S¨® perguntei. Ela parece preocupada. Lucy apertou os punhos no colo, encarando o p?o ¨¤ sua frente. Sim, ela estava preocupada. Estava apavorada. Mas n?o queria falar sobre isso. ¡ª Ele vai voltar. ¡ª Sua voz saiu pequena, mas cheia de convic??o. Mar¨ªlia suspirou, mas n?o disse nada. Ap¨®s o caf¨¦, Lucy tentou ajudar com as tarefas da casa, mas a verdade era que ela n?o sabia fazer muita coisa. Nunca teve uma casa fixa por tempo suficiente para aprender como funcionavam certas rotinas. Lucien sempre cuidava disso, encontrando um jeito de manter os dois seguros e alimentados. Mar¨ªlia percebeu sua hesita??o e sorriu. ¡ª N?o precisa ajudar, querida. Voc¨º ¨¦ uma visita. Lucy balan?ou a cabe?a. ¡ª Eu quero ajudar. Mar¨ªlia pareceu surpresa, mas ent?o entregou um pequeno pano a ela. ¡ª Pode secar a lou?a, ent?o. Lucy fez o que podia. Foi estranho¡­ diferente. Um dia inteiro vivendo como se fosse parte de uma fam¨ªlia normal. Ela n?o sabia como se sentir em rela??o a isso. O sol desapareceu no horizonte, pintando o c¨¦u de laranja e roxo. Lucy sentiu o peito apertar ainda mais. O dia inteiro se passou e Lucien n?o voltou. E se¡­? Ela balan?ou a cabe?a, recusando-se a pensar em coisas ruins. Mar¨ªlia notou a tens?o na menina e se aproximou, sentando-se ao seu lado. ¡ª Lucy¡­ voc¨º quer me contar o que est¨¢ acontecendo? Lucy apertou as m?os contra o tecido da saia. ¡ª Eu s¨®¡­ estou esperando o Lucien. Ele disse que voltaria. Mar¨ªlia suspirou e passou a m?o pelos cabelos dela, um gesto t?o natural e gentil que Lucy se encolheu de leve. ¡ª Voc¨º confia nele, n?o ¨¦? ¡ª Mais do que qualquer pessoa no mundo. ¡ª A voz dela vacilou, quase se quebrando. Mar¨ªlia sorriu, mas era um sorriso melanc¨®lico. ¡ª Ent?o ele vai voltar. Lucy queria acreditar nisso. Queria muito. Mas por que seu peito do¨ªa tanto? Tobias apareceu no c?modo, seu olhar curioso se tornando cauteloso. ¡ª Lucy¡­ voc¨º quer que eu espere com voc¨º l¨¢ fora? Ela piscou, surpresa. ¡ª O qu¨º? ¡ª Voc¨º t¨¢ nervosa. Eu posso te fazer companhia at¨¦ ele chegar. Lucy olhou para ele por um momento, sem saber o que dizer. Tobias n?o a conhecia direito. N?o tinha motivo algum para se importar. Mas ali estava ele, oferecendo companhia.Support the creativity of authors by visiting the original site for this novel and more. Ela apertou os l¨¢bios e balan?ou a cabe?a. ¡ª Obrigada, mas eu vou esperar aqui. Tobias n?o insistiu. Apenas assentiu e se retirou. Mar¨ªlia se levantou. ¡ª Se precisar de algo, me chame, tudo bem? Lucy assentiu, e ent?o ficou sozinha novamente. Ela voltou para a janela, observando a rua quase vazia. Lucien¡­ onde voc¨º est¨¢? O medo se tornou uma criatura viva dentro dela. E se ele n?o voltasse? Lucy estremeceu. N?o. Ela n?o podia pensar nisso. Lucien sempre encontrava um jeito. Ele tinha que encontrar um jeito. Mas conforme a noite avan?ava, e ele n?o aparecia, Lucy sentiu a primeira sombra do verdadeiro terror. E se¡­ dessa vez¡­ ele n?o voltasse? Agora que Lucy j¨¢ estava ansiosa pelo desaparecimento de Lucien, o s¨²bito barulho do lado de fora a fez estremecer. Gritos ecoavam pelas ruas, seguidos pelo som pesado de botas batendo contra o ch?o de pedra. Cavalos relinchavam e o barulho met¨¢lico de armaduras tilintando dominava o ar. O tumulto crescia rapidamente, e n?o demorou muito para que batidas violentas come?assem a soar nas portas das casas. ¡ª Por ordem da Guarda Real, todos devem sair imediatamente! ¡ª uma voz autorit¨¢ria rugiu. Lucy sentiu seu cora??o disparar. Seu instinto dizia que aquilo tinha algo a ver com Lucien. Mar¨ªlia, que estava lavando os pratos na cozinha, franziu o cenho e enxugou as m?os depressa. Seus filhos, assustados, se encolheram pr¨®ximos a ela. A mulher olhou para Lucy com preocupa??o antes de correr at¨¦ a porta e abri-la com cautela. L¨¢ fora, um grupo de cavaleiros fortemente armados marchava entre as casas, revistando tudo. Alguns carregavam tochas, iluminando as ruelas escuras, enquanto outros arrastavam moradores para fora de suas casas, exigindo respostas. ¡ª Estamos procurando um garoto! Cabelos negros, magro, olhos afiados! Quem o esconde ser¨¢ considerado c¨²mplice! O cora??o de Lucy quase parou. Eles estavam procurando por Lucien. O sangue de Lucy gelou. Seu corpo inteiro ficou r¨ªgido, os olhos arregalados fixos nos cavaleiros imponentes do lado de fora. O medo subiu como uma onda sufocante. Lucien¡­ eles est?o atr¨¢s dele. Ela quis correr, se esconder, mas para onde? O que faria se descobrissem que ela era sua irm?? O que fariam com ela? Os filhos de Mar¨ªlia se agarraram a m?e, assustados com a presen?a dos cavaleiros. A mulher franziu a testa, respirando fundo para manter a calma. Lucy percebeu que, por um breve momento, Mar¨ªlia hesitou. Ela conhecia Lucien. Sabia que ele era apenas um garoto tentando sobreviver. Mas tamb¨¦m sabia que esconder informa??es poderia colocar sua fam¨ªlia em risco. Um dos cavaleiros se aproximou da porta aberta, a armadura reluzindo sob a luz das tochas. Ele a encarou com olhos frios e impacientes. ¡ª Voc¨º viu algu¨¦m com essa descri??o? ¡ª perguntou ele, segurando o cabo da espada presa ao cinto. Mar¨ªlia manteve a express?o neutra. Lucy prendeu a respira??o. A mulher olhou para os filhos, depois para Lucy. Um segundo de sil¨ºncio pareceu durar uma eternidade. ¡ª N?o ¡ª respondeu firme, cruzando os bra?os. O cavaleiro estreitou os olhos. ¡ª Tem certeza? Se descobrirmos que mentiu, ser¨¢ tratada como c¨²mplice. ¡ª Eu disse que n?o vi ningu¨¦m. ¡ª A voz dela era firme, mas seu maxilar estava travado. O cavaleiro encarou-a por mais alguns segundos, ent?o bufou e se afastou. ¡ª Revistem tudo ¡ª ordenou para os outros. ¡ª Ele n?o pode ter ido longe. Lucy s¨® conseguiu respirar novamente quando o homem se afastou. Mas o al¨ªvio durou pouco. Eles ainda estavam ali. Ainda procurando. E Lucien continuava desaparecido. Lucy sentiu o cora??o martelando no peito enquanto olhava pela janela, observando os cavaleiros revirando becos e arrastando pessoas para interrogat¨®rio. O que Lucien havia feito? Ela sabia que seu irm?o n?o era um santo¡ªele nunca foi. Desde que se lembrava, ele vivia se metendo em encrenca, mas isso¡­ isso era diferente. Isso n?o era apenas roubar p?o de uma barraca ou enganar algum mercador. Os cavaleiros reais estavam ca?ando ele. Lucy apertou as m?os com for?a. ¡°Voc¨º prometeu que voltaria logo, Lucien. Voc¨º prometeu.¡± A ang¨²stia tomou conta de seu peito. E se ele estivesse ferido? E se estivesse¡­ Ela balan?ou a cabe?a. N?o. Lucien sempre deu um jeito. Sempre. Mas¡­ e se dessa vez n?o for assim? Um medo paralisante percorre sua espinha. Ela esperou-lo. Lucy se virou para Mar¨ªlia, que observava tudo com uma express?o fechada, os l¨¢bios franzidos em uma linha preocupada. ¡ª Eu preciso sair ¡ª disse Lucy, j¨¢ se levantando. Mar¨ªlia a segurou pelo bra?o com firmeza. ¡ª N?o, voc¨º n?o vai. Lucy tentou se soltar. ¡ª Mar¨ªlia, eu tenho que encontr¨¢-lo! Ele pode estar machucado, ou¡­ ¡ª Lucy ¡ª Mar¨ªlia interrompeu, sua voz s¨¦ria. ¡ª Voc¨º tem ideia do perigo l¨¢ fora? Eles n?o est?o brincando. Se descobrirem que voc¨º tem alguma liga??o com ele, n?o vai pensar duas vezes antes de lev¨¢-la tamb¨¦m. Lucy olhou para ela, furiosa e desesperada ao mesmo tempo. ¡ª Mas eu n?o posso simplesmente ficar aqui! ¡ª E o que voc¨º vai fazer? H?? ¡ª Mar¨ªlia estreitou os olhos. ¡ª Voc¨º n?o pode observ¨¢-lo em privacidade. Voc¨º nem sabe onde ele est¨¢. A garota mordeu os dias, hesitante. Mar¨ªlia suspirou e suavizou o Tom. ¡ª Eu sei o que est¨¢ preocupado, querida. Mas se Lucien estiver vivo, ele encontrar¨¢ um jeito de voltar. E se n?o estiver¡­ ent?o nada do que fazer agora vai mudar isso. As palavras foram como um soco no est?mago de Lucy. Ela sentiu a vista emba?ar. Mar¨ªlia apertou seu ombro. ¡ª Espere. Apenas espere. Por enquanto, ¨¦ tudo o que podemos fazer. Lucy queria protestar. Queria gritar. Mas, no fundo, sabia que Mar¨ªlia estava certa. S¨® que nunca espere foi algo que Lucien ensinou a ela.
A dor era insuport¨¢vel. Lucien nunca havia sentido algo assim antes. Seu corpo tremia, o suor frio escorria por sua testa, e a ¨²nica coisa que conseguia ouvir era o som de sua pr¨®pria respira??o, entrecortada e fraca. Ele estava quebrado. Seus dedos latejaram em um sofrimento absurdo. Duas unhas arrancadas. O sangue escorria lentamente, manchando a madeira da cadeira onde estava preso. O homem sem nome n?o teve pressa ¨C ele fez quest?o de arranc¨¢-las devagar. Lucien abriu os olhos, tentando afastar a dor. Seu rosto estava quente, o gosto met¨¢lico de sangue em sua boca. Ele nem sabia mais de onde todo aquele sangue vinha. O pior de tudo era o sil¨ºncio. O homem sem nome j¨¢ n?o falava mais com ele. Apenas observei. Lucien ofegou. A sala parecia menor agora. O cheiro de suor e sangue era sufocante. Ele tentou manter a mente firme, mas tudo em seu corpo implorava por descanso. Ele s¨® queria dormir. Mas ele n?o podia. Se dormisse, morreria ali. A porta rangeu ao ser aberta. Passos ecoaram pelo ch?o de pedra. Lucien n?o preciso erguer a cabe?a para saber quem era. Ele sentiu a presen?a antes mesmo de ouvi-lo. ¡ª Espero que tenha aprovado tado o descanso, garoto. ¡ª A voz do homem sem nome ¨¦ t?o divertida. Quase. ¡ª Porque agora, vamos come?ar de verdade. Lucien n?o conseguiu conter o arrepio que subiu por sua espinha. Ele queria gritar. Mas n?o poderia dar esse gosto a ele. Quase no limite A dor era insuport¨¢vel. O simples ato de respirar fazia com que cada fibra do seu corpo protestasse em agonia. Seus dedos latejavam, o vazio onde antes estavam suas unhas pareciam pulsar como se algo ainda estivesse arrancando, e seu rosto estava coberto de sangue seco, resqu¨ªcios da ¨²ltima sess?o de tortura. Seu olho esquerdo estava inchado, dificultando sua vis?o. Lucien se recusava a chorar. Ele n?o daria esse prazer ao seu torturador. O Homem Sem Nome estava ¨¤ sua frente, observando-o com um sorriso satisfeito, girando a b¨²ssola de ouro entre os dedos. Os artigos refletem a luz fraca da sala, lan?ando um brilho dourado no rosto do homem. ¡ª Sabe, garoto... ¡ª ele come?ou, sua voz contou de um tom quase paternal. ¡ª Voc¨º pode n?o entender, mas essa dor que sente? Ela ¨¦ totalmente necess¨¢ria. Lucien tentou soltar uma risada seca, mas acabou cuspindo sangue no ch?o. ¡ª Engra?ado... n?o parece desnecess¨¢rio pra mim. O Homem Sem Nome suspirou, passando a m?o pelos cabelos como se estivesse lidando com uma crian?a teimosa. ¡ª Voc¨º ¨¦ jovem demais para entender, mas a L¨¢grima de Aether n?o ¨¦ apenas uma joia bonita. N?o ¨¦ apenas um projeto art¨ªstico. Ela ¨¦ algo muito maior. Ele se segue abaixo para ficar no mesmo n¨ªvel que Lucien, seu olhar penetrante. ¡ª Aether... ¡ª ele sussurrou o nome como se estivesse proferindo uma prece ¡ª ¨¦ a ess¨ºncia da magia em sua forma mais pura. Voc¨º sabia disso? Lucien conversa em sil¨ºncio, o cora??o batendo forte contra o peito. ¡ª N?o, ¨¦ claro que n?o sabia. Mas vou contar uma hist¨®ria... Ele se avan?ou, come?ando a caminhar lentamente pela sala, os passos ecoando nas paredes de pedra. ¡ª H¨¢ s¨¦culos, um homem tentou desafiar os pr¨®prios deuses. Ele desejava o conhecimento absoluto, o poder sem limites. Ent?o, ele criou algo que pudesse conter a pr¨®pria magia em seu estado mais puro. Ele criou a L¨¢grima. Ele se virou abruptamente, os olhos faiscando. ¡ª Mas os deuses, invejosos como sempre, n?o permitiram que tal poder permanecesse em uma ¨²nica m?o. A L¨¢grima foi roubada, escondida, perdida no tempo. At¨¦ que finalmente... eu a encontrei. Lucien franziu ¨¤ testa. ¡ª Voc¨º encontrou? O Homem Sem Nome ¨¦ oferecido de lado. ¡ª Bem... quase. Ele aplica a b¨²ssola de ouro e gira entre os dedos. ¡ª Essa pequena maravilha me levou at¨¦ a L¨¢grima. Eu sabia onde ela estava antes de qualquer outro. Mas eu preciso de um todo ing¨ºnuo o bastante para atravessar as defesas e peg¨¢-la para mim. O cora??o de Lucien gelou. ¡ª Voc¨º... me usou. ¡ª Usei. ¡ª O Homem Sem Nome transmite. ¡ª Voc¨º foi uma pe?a perfeita. Pequeno, ¨¢gil, esperto. Mas, como um bom ladr?o, ficou com aquilo que n?o era seu. Ele se inclina, seus olhos se estreitam. ¡ª Me diga, Lucien... onde est¨¢ a L¨¢grima? Lucien queria gritar. Ele n?o fazia ideia de onde estava. Mas n?o importava quantas vezes dissesse isso, o homem n?o acreditava. O torturador pegou outra ferramenta da mesa. Dessa vez, era uma lamina fina e afiada. ¡ª Se voc¨º n?o me disser... ent?o precisarei de outra abordagem. Lucien prendeu a respira??o. Ele sabia que aquilo s¨® estava come?ando. O espelho ¨¤ frente de Lucien n?o estava ali por acaso. O Homem Sem Nome era um torturador experiente, e a simples dor f¨ªsica j¨¢ n?o era suficiente para satisfaz¨º-lo. Ele queria mais. Ele queria quebrar suas v¨ªtimas por completo¡ªo corpo, a mente e a alma. Lucien percebeu isso assim que abriu os olhos e viu seu pr¨®prio reflexo. Mesmo sob a pouca luz da sala, ele p?de ver o rosto coberto de sangue, os olhos fundos e opacos, o peito subindo e descendo em desespero. Mas n?o era s¨® isso. Ele via o medo. Via sua pr¨®pria fragilidade. O Homem Sem Nome riu ao notar o olhar de Lucien fixo no espelho. ¡ª Interessante, n?o ¨¦? ¡ª Ele deslizou os dedos pela moldura de madeira, um brilho doentio nos olhos. ¡ª H¨¢ algo de fascinante em ver a si mesmo ser despeda?ado, n?o acha? Lucien n?o respondeu. ¡ª D¨®i mais quando voc¨º pode ver cada gota do seu sangue escorrer. Quando pode testemunhar seu pr¨®prio corpo falhando, quando v¨º seus olhos implorando, mesmo quando sua boca se recusa a faz¨º-lo. Ele deu um passo para o lado, deixando Lucien com uma vis?o ainda mais clara de si mesmo. ¡ª Esse espelho tem um prop¨®sito. Eu quero que voc¨º veja o que eu vejo. Quero que aprecie cada instante da sua dor. Quero que entenda que n?o h¨¢ como escapar disso. Lucien engoliu seco, a respira??o acelerada. Era cruel. Era doentio. Mas funcionava. Ele n?o podia desviar o olhar. Ele era for?ado a assistir a si mesmo ser despeda?ado, pouco a pouco. O Homem Sem Nome pegou o objeto fino e afiado da mesa com a mesma calma de algu¨¦m escolhendo um talher para a refei??o. Ele o segurou entre os dedos, virando-o levemente para que o metal brilhasse sob a pouca luz da sala.Stolen from its rightful author, this tale is not meant to be on Amazon; report any sightings. Lucien n?o tirava os olhos da lamina. Seu peito subia e descia de forma irregular, a respira??o entrecortada pelo medo e pela dor que j¨¢ o consumia. Mas aquilo... aquilo parecia pior do que tudo que j¨¢ havia sentido at¨¦ agora. O torturador girou a lamina, analisando-a com um olhar satisfeito. ¡ª Sabe, Lucien, existem muitos tipos de dor. Algumas queimam, outras rasgam... e algumas s?o t?o sutis que parecem um sussurro antes de se transformarem em um grito. Sem aviso, ele pressionou a ponta da lamina contra o antebra?o de Lucien. No in¨ªcio, foi apenas um toque, quase gentil. Ent?o, lentamente, ele come?ou a deslizar a lamina pela pele do garoto, sem pressa, sem for?a suficiente para cortar fundo¡ªmas o bastante para arrancar uma linha cont¨ªnua de dor. Lucien arfou, os m¨²sculos tensos tentando se afastar do contato, mas as amarras o mantinham no lugar. ¡ª ¨¦ engra?ado... esse tipo de corte n?o faz voc¨º gritar de imediato ¡ª continuou o Homem Sem Nome. ¡ª ¨¦ uma dor diferente, uma que se infiltra aos poucos, que come?a a latejar e s¨® piora com o tempo. A lamina subiu e desceu pelo bra?o de Lucien, desenhando padr?es aleat¨®rios, abrindo sua pele mil¨ªmetro por mil¨ªmetro. N?o era profundo o bastante para mat¨¢-lo ou causar uma hemorragia grave¡ªmas era mais do que suficiente para fazer seu corpo inteiro se encolher em agonia. Os cortes superficiais expunham a carne viva ao ar, e cada nova linha desenhada pelo torturador queimava mais do que a anterior. Lucien tremia. O suor escorria pelo seu rosto, misturando-se ao sangue que pingava de seus dedos. Ele ofegava, mordia o l¨¢bio, fazia de tudo para n?o dar a ele a satisfa??o de um grito. Mas ent?o, a lamina encontrou um ponto sens¨ªvel perto do cotovelo. O corte ali foi mais lento, mais profundo. E Lucien n?o conseguiu se conter. Um grito baixo e rouco escapou de sua garganta, ressoando pela sala escura. O Homem Sem Nome sorriu. ¡ª Ah... a¨ª est¨¢. Ele pressionou a lamina contra outro ponto, e Lucien soube que aquilo estava longe de acabar. A dor era insuport¨¢vel. A cada novo corte, a carne de Lucien ardia como se estivesse sendo marcada a ferro quente. Seu corpo inteiro tremia, o suor frio escorrendo por sua testa e misturando-se ao sangue que pingava de seus bra?os. Ele queria gritar, queria lutar, mas seu corpo estava fraco demais para qualquer resist¨ºncia significativa. No entanto, em meio ¨¤ agonia, algo fez sua mente se prender em um detalhe-um detalhe pequeno, mas terr¨ªvel. O homem o chamava de Lucien. N?o de Luen, o nome que ele usava para esconder sua identidade. Lucien sentiu o terror crescer em seu peito, se sobrepondo ¨¤ dor momentaneamente. Ele se for?ou a lembrar... Ele havia se apresentado como Luen para o Homem Sem Nome. Ele nunca havia deixado escapar sua verdadeira identidade. Ent?o... como ele sabia? O que mais ele sabia? Seus olhos se arregalaram. Seus pensamentos giravam como uma tempestade dentro de sua cabe?a. Ele n?o podia perguntar diretamente-n?o queria demonstrar o panico que tomava conta dele. Mas a incerteza era esmagadora. O Homem Sem Nome percebeu a mudan?a na express?o de Lucien e sorriu de canto, como se saboreasse o momento. Ah... parece que algo te incomodou mais do que a lamina, n?o ¨¦, Lucien? O garoto engoliu seco. Ele sentiu um arrepio gelado percorrer sua espinha. O torturador deu uma risada baixa e se inclinou para mais perto, a voz reduzida a um sussurro quase ¨ªntimo. Voc¨º realmente achou que poderia se esconder de mim? Lucien n?o respondeu. Mas, pela primeira vez, o medo n?o vinha apenas da tortura-e sim do que aquele homem sabia sobre ele. O Homem Sem Nome girou a lamina entre os dedos, observando Lucien com um olhar que transbordava divers?o cruel. Ele sabia que havia atingido algo profundo¡ªalgo mais doloroso do que qualquer ferida que pudesse infligir fisicamente. ¡ª Sabe, Lucien, eu gosto de conhecer as pessoas antes de fazer neg¨®cios com elas. ¨¦ uma quest?o de princ¨ªpio. Afinal, como confiar em algu¨¦m que voc¨º n?o conhece? Ele sorriu, como se estivesse saboreando cada palavra antes de solt¨¢-la no ar. ¡ª Ent?o eu cavei um pouco. N?o foi dif¨ªcil, na verdade. Voc¨º n?o ¨¦ ningu¨¦m, garoto. Um rato dos esgotos, um ladr?ozinho qualquer. Um ¨®rf?o miser¨¢vel. Lucien cerrou os dentes. Ele n?o queria reagir. N?o queria dar a ele a satisfa??o de v¨º-lo fraquejar. Mas ent?o... ¡ª Uma pena o que aconteceu com seus pais, n?o ¨¦? Lucien sentiu o est?mago afundar. ¡ª Um casal t?o comum... mortos como tantos outros, e o mundo simplesmente seguiu em frente. Sequer deixaram uma marca. Se n?o fosse por voc¨º e sua irm?zinha, ningu¨¦m se lembraria deles. As cordas rangiam conforme Lucien tentava manter o controle. Ele respirou fundo, sentindo o ar pesado encher seus pulm?es, mas aquilo n?o acalmava a tempestade dentro dele. O homem inclinou a cabe?a, como se estivesse pensando. ¡ª Falando na sua irm?zinha... Lucy, certo? Lucien sentiu seu cora??o parar por um instante. O sorriso do homem se alargou. ¡ª Ah... ent?o ¨¦ assim que eu te fa?o reagir? Interessante. Ele passou a lamina lentamente sobre a palma da pr¨®pria m?o, sem tirar os olhos de Lucien. ¡ª Ela deve estar preocupada com voc¨º agora, n?o ¨¦? Deve estar se perguntando onde est¨¢ seu querido irm?o mais velho, que prometeu proteg¨º-la de tudo... Mas me diga, Lucien, voc¨º realmente tem feito um bom trabalho? Lucien rangeu os dentes, os punhos cerrados t?o forte que suas unhas cravavam na pele. ¡ª Voc¨º quer saber o que mais descobri sobre voc¨º? Como voc¨º se virou todos esses anos? Como teve que roubar, trapacear, mentir para sobreviver? Como mentiu para ela, dizendo que tudo ia ficar bem, quando na verdade voc¨º n?o tinha ideia de como garantir isso? Lucien respirava pesadamente. O ¨®dio queimava em seu peito, mais quente que qualquer dor que aquele homem pudesse infligir. ¡ª Aposto que ela ainda acredita em voc¨º, n?o ¨¦? Pobrezinha... t?o ing¨ºnua. Eu poderia acabar com essa ilus?o, sabia? O Homem Sem Nome se inclinou para mais perto, sussurrando: ¡ª Poderia fazer dela um belo joguete... Foi o suficiente. As cordas estalaram quando Lucien se lan?ou para frente, seus olhos ardendo de f¨²ria. ¡ª SEU DESGRA?ADO! O torturador apenas riu. Ele queria aquela rea??o. Ele ansiava por isso. ¡ª A¨ª est¨¢ ele. Agora sim, Lucien... agora estamos nos entendendo. O Homem Sem Nome ergueu uma sobrancelha, ainda com aquele sorriso torto estampado no rosto. Ele se afastou alguns passos, pegando algo da mesa enquanto falava, a voz carregada de uma calma cruel. Sabe, Lucien... Eu poderia continuar te cortando, arrancando pedacinho por pedacinho de voc¨º, mas... voc¨º j¨¢ provou ser teimoso demais. E eu n?o tenho paci¨ºncia para perder tempo. Ele ent?o se virou, segurando um pequeno punhal entre os dedos, brincando com a lamina como se fosse um simples brinquedo. Ent?o, por que n?o tornamos isso mais... pessoal? Lucien sentiu um arrepio subir por sua espinha. O que quer dizer com isso? O Homem Sem Nome soltou uma risada baixa. Voc¨º realmente precisa que eu desenhe, garoto? Eu estou falando da sua querida irm?zinha. Lucy. Lucien sentiu o ar sair de seus pulm?es. N?o... O sorriso do torturador se alargou. Ah, ent?o agora eu tenho a sua aten??o. Ele se inclinou sobre a cadeira de Lucien, deixando o punhal ro?ar de leve contra sua bochecha ensang¨¹entada. Veja bem, eu n?o sou um homem impaciente por natureza, mas quando algu¨¦m como voc¨º tenta me enganar, eu preciso agir. E, sinceramente, acho que seria um desperd¨ªcio continuar te machucando sem obter nenhuma resposta. Mas ¨¦ sua irm?? Os olhos de Lucien se arregalaram. Voc¨º... voc¨º n?o faria isso... O homem gargalhou, afastando-se lentamente. Ah, Lucieno. Eu faria. Voc¨º n?o entende? Eu vou fazer. Ele girou o punhal entre os dedos mais uma vez, o tom de voz carregado de falsa compaix?o. E voc¨º sabe fazer o que mais? Eu nem preciso sujar minhas m?os. As ruas s?o cru¨¦is com garotinhas sozinhas... especialmente uma como ela. Jovem, fr¨¢gil... um alvo t?o f¨¢cil. Lucien come?ou a debater nas cordas, sentindo o panico tomar conta de seu corpo. N?O! O Homem Sem Nome apenas observava, satisfeito. Ent?o me diga, Lucien. Onde est¨¢ a L¨¢grima de Aether? Porque, se voc¨º n?o falar... eu juro que na pr¨®xima vez que voc¨º ver sua irm?, ser¨¢ dentro de um caix?o. Lucien sentiu seu cora??o bater acelerado, uma respira??o pesada. O medo era esmagador. Ele n?o poderia permitir que Lucy se tornasse um alvo. Mas ele n?o sabia onde estava a maldita L¨¢grima! O desespero tomou conta dele. O que ele faria agora? Recipiente O tempo havia se tornado uma entidade cruel, esticando-se e se retorcendo ao redor de Lucien, enquanto ele lutava para manter a consci¨ºncia. Seu corpo tremia, febril, exausto. O cheiro de ferro e suor impregnava o ar sufocante da sala de tortura, misturando-se ao leve odor de couro envelhecido e madeira apodrecida. Ele n?o sabia quantas horas tinham se passado. Talvez fossem apenas minutos, ou talvez uma eternidade. Tudo que sabia era a dor. Ela o consumia, queimava, latejava em cada cent¨ªmetro de sua pele. O Homem Sem Nome, por sua vez, n?o parecia minimamente afetado pelo cansa?o. Ele permanecia ali, frio e meticuloso, testando o limite da resist¨ºncia de Lucien. Com cada golpe, com cada corte cuidadoso feito pela lamina afiada que agora segurava, ele parecia estudar Lucien como um cientista analisa um experimento. Lucien arfava, a respira??o irregular. Suas m?os estavam dormentes devido ¨¤s cordas apertadas ao redor de seus pulsos. Seus dedos tremiam, cobertos pelo pr¨®prio sangue. ¡ª Voc¨º ainda n?o me deu o que eu quero, garoto ¡ª disse o Homem Sem Nome, limpando a lamina ensanguentada em um pano. Sua voz era serena, como se estivessem apenas conversando casualmente. ¡ª Mas sabe o que mais? Acho que voc¨º nunca vai falar. Lucien sentiu o cora??o disparar. Ele vai me matar? O Homem Sem Nome sorriu, como se tivesse lido seus pensamentos. ¡ª N?o, Lucien¡­ N?o vou te matar. Ele se inclinou, seu rosto se aproximando do de Lucien. Os olhos frios e penetrantes o analisaram por um longo momento. ¡ª Pelo menos, n?o ainda. Lucien cerrou os dentes, tentando n?o demonstrar medo, mas era imposs¨ªvel esconder o tremor involunt¨¢rio em seu corpo. Ele sabia que qualquer resposta seria in¨²til. J¨¢ havia gritado, negado, implorado ¡ª nada havia mudado a convic??o do torturador. O maldito artefato, a maldita b¨²ssola de ouro, continuava a dizer que ele possu¨ªa a L¨¢grima de Aether. Ele n?o sabia o que fazer. O Homem Sem Nome se endireitou, suspirando como se estivesse entediado. ¡ª Voc¨º me for?ou a tomar medidas mais dr¨¢sticas. Lucien mal teve tempo de reagir antes de v¨º-lo erguer a m?o e estalar os dedos. A porta da sala de tortura se abriu. O assassino entrou. Aquela mesma presen?a aterradora, fria e mortal. Ele caminhou lentamente para dentro, sua postura tranquila, os olhos vazios como um po?o sem fundo. Cada movimento dele era meticulosamente calculado, como um felino se aproximando da presa. Lucien sentiu um arrepio subir por sua espinha. O Homem Sem Nome virou-se para ele com um sorriso satisfeito. ¡ª J¨¢ que voc¨º insiste em n?o me dar o que eu quero¡­ talvez sua irm?zinha possa ser mais cooperativa. O mundo de Lucien parou. ¡ª N?O! ¡ª ele se debateu contra as cordas, sentindo a pele j¨¢ machucada se abrir ainda mais. ¡ª VOC¨º N?O VAI TOC¨¢-LA! O Homem Sem Nome nem sequer piscou. ¡ª Matei pais, irm?os, filhos, maridos e esposas para conseguir o que quero, garoto. Voc¨º acha que eu teria alguma hesita??o em usar uma garotinha para atingir meu objetivo? O ¨®dio subiu pela garganta de Lucien como bile. Seus punhos cerrados tremiam, as unhas cravadas na pr¨®pria pele. O Homem Sem Nome voltou-se para o assassino. ¡ª V¨¢ at¨¦ a cidade. Encontre a irm? dele e a traga para mim. Viva. Lucien sentiu o est?mago revirar. Ele n?o pode¡­ Ele n?o pode fazer isso! ¡ª VOC¨º N?O VAI TOCAR NELA! Sua voz rasgou o ar como um grito desesperado. Ele puxou as cordas, lutando contra elas com todas as for?as que restavam. Sua pele j¨¢ estava em carne viva, mas ele n?o ligava. O panico nublava sua mente, transformando seu corpo em um mar de desespero e adrenalina. O assassino olhou para o Homem Sem Nome e assentiu. Ent?o, sem pressa, ele se virou e come?ou a caminhar para fora. Lucien se debateu ainda mais. ¡ª EU VOU MATAR VOC¨º! VOC¨º OUVIU? EU VOU TE MATAR, DESGRA?ADO! Seu corpo tremia. Sua garganta queimava. O medo, a raiva, a impot¨ºncia ¡ª tudo se misturava dentro dele como uma tempestade violenta. Mas ent?o, o assassino parou. Ele virou a cabe?a levemente para o lado. ¡ª ¡­H¨¢ um problema. O Homem Sem Nome franziu a testa. ¡ª O que foi? O assassino se virou completamente para encar¨¢-lo. ¡ª A cidade est¨¢ um caos. Os cavaleiros reais est?o revistando casas, interrogando pessoas. Todos est?o ¨¤ procura de um garoto de cabelo negro e magricela. Lucien congelou. Os cavaleiros¡­ Eles ainda estavam atr¨¢s dele? O Homem Sem Nome suspirou. ¡ª E isso significa que voc¨º n?o pode fazer seu trabalho? ¡ª Significa que qualquer movimento pode nos expor. Se eu tentar sequestrar a garota agora, chamarei mais aten??o do que o necess¨¢rio. Lucien sentiu uma fra??o de esperan?a surgir em meio ao desespero. Lucy estava segura¡­ por enquanto. O Homem Sem Nome ficou em sil¨ºncio por alguns segundos. Ent?o, ele soltou um riso seco.If you encounter this narrative on Amazon, note that it''s taken without the author''s consent. Report it. ¡ª Bem, parece que voc¨º tem sorte, Lucien. Lucien n?o respondeu. Apenas respirou pesadamente, tentando se recompor. Seu corpo do¨ªa. Sua mente estava um caos. Ele sabia que aquilo n?o terminaria ali. Apenas havia ganhado tempo. O Homem Sem Nome aproximou-se novamente e segurou o queixo de Lucien, for?ando-o a encar¨¢-lo. ¡ª Mas n?o se engane. Ela n?o est¨¢ fora do meu alcance. Ele apertou um pouco mais, os olhos frios perfurando os de Lucien. ¡ª Se voc¨º n?o me der o que quero, cedo ou tarde eu irei at¨¦ ela. N?o importa quanto tempo demore. Lucien trincou os dentes, sentindo as palavras cravarem-se em seu peito como laminas afiadas. O Homem Sem Nome soltou seu rosto e se afastou, voltando-se para o assassino. ¡ª Fique de olho nos movimentos dos cavaleiros. Assim que a situa??o se acalmar, traga a garota para mim. Lucien n?o disse nada. N?o adiantava mais gritar, n?o adiantava implorar. Ele apenas sentia o desespero e a raiva queimando dentro dele. Ele estava preso. Lucy estava em perigo. E o pior de tudo... Ele ainda n?o sabia onde estava a maldita L¨¢grima de Aether. Lucien sentia a cabe?a girar. O desespero pulsava em seu peito, fazendo seu cora??o bater forte demais, r¨¢pido demais. O medo pela irm?, a dor no corpo, o cheiro de sangue e suor impregnado no ar sufocante daquela sala¡ªtudo era uma grande espiral de agonia e confus?o. Mas, acima de tudo, havia algo que n?o sa¨ªa de sua cabe?a. A maldita b¨²ssola apontava para ele. Isso n?o fazia sentido. Ele n?o estava com a L¨¢grima de Aether. Ele viu quando ela desapareceu. Ele falhou em roub¨¢-la. Ent?o como aquela maldita b¨²ssola podia continuar apontando para ele? Ela estava errada? Lucien sentiu um breve lampejo de esperan?a com esse pensamento. Se fosse isso, ent?o o Homem Sem Nome estava baseando tudo em mentira, em uma informa??o incorreta. Mas¡­ n?o. N?o era t?o simples assim. Aquele homem n?o parecia ser o tipo de pessoa que confiaria cegamente em algo falho. E, se a b¨²ssola fosse err¨¢tica ou quebrada, ele j¨¢ teria percebido. Ent?o por qu¨º? Lucien apertou os olhos, for?ando-se a pensar. Sua vida estava em risco. A vida da sua irm? estava em risco. Ele precisava entender o que estava acontecendo. Seus dedos ensanguentados tremeram, e ele sentiu o est?mago revirar. Ele precisava de respostas. ¡ª Voc¨º sabe tanto sobre essa coisa¡­ ¡ª sua voz saiu rouca, fraca, quase um sussurro. ¡ª Ent?o me diga¡­ o que realmente ¨¦ a L¨¢grima de Aether? O Homem Sem Nome, que estava tranquilamente limpando suas ferramentas de tortura, ergueu o olhar, como se finalmente tivesse ouvido algo interessante vindo de Lucien. Por um momento, ele ficou em sil¨ºncio. Ent?o, inclinou a cabe?a para o lado e sorriu de maneira quase divertida. ¡ª Ora¡­ finalmente interessado? Lucien n?o respondeu. Ele apenas o encarou, os olhos queimando com uma mistura de curiosidade e desespero. O Homem Sem Nome soltou uma risada baixa. ¡ª A L¨¢grima de Aether n?o ¨¦ um simples artefato, garoto. N?o ¨¦ s¨® uma joia, nem um objeto encantado qualquer. Ela ¨¦ poder. Poder puro e absoluto. Lucien sentiu um arrepio percorrer sua espinha. ¡ª Poder para qu¨º? ¡ª sua voz estava rouca, mas firme. O homem deu de ombros, como se a resposta fosse ¨®bvia. ¡ª Para desafiar os pr¨®prios limites da realidade. Lucien arregalou os olhos. ¡ª Isso n?o faz sentido¡­ O homem riu novamente. ¡ª N?o para voc¨º, talvez. Mas eu estudei essa rel¨ªquia por muito tempo. A L¨¢grima de Aether n?o ¨¦ algo criado por humanos. Sua origem ¨¦ incerta, mas uma coisa ¨¦ certa¡­ aqueles que a possu¨ªrem ter?o o mundo na palma das m?os. Lucien sentiu o est?mago afundar. Mas algo n?o fazia sentido. Se Elias possu¨ªa um artefato t?o poderoso¡­ por que n?o tomou posse dele imediatamente? Por que ele n?o o usava? Por que ele simplesmente o deixou trancado, inutilizado, escondido? Lucien sentiu um frio subir por sua espinha. ¡ª Se ¨¦ t?o poderosa¡­ por que Elias simplesmente a guardava? ¡ª ele perguntou, for?ando-se a manter a calma. ¡ª Por que ele n?o a usava? O Homem Sem Nome sorriu, mas dessa vez havia algo diferente em seu olhar. Lucien engoliu em seco. E ent?o, em um lampejo, um pensamento passou por sua mente. E se¡­ E se a L¨¢grima n?o pudesse ser usada? E se ela s¨® pudesse ser desperta sob certas condi??es? Seu cora??o come?ou a bater ainda mais r¨¢pido. Ele quase tinha a resposta. Ele quase entendia. Mas, antes que pudesse formular uma conclus?o, o Homem Sem Nome se inclinou na sua dire??o, e seu sorriso se alargou. ¡ª Ah¡­ parece que voc¨º est¨¢ come?ando a entender, n?o ¨¦? Lucien sentiu um arrepio gelado na espinha. Ele estava perto demais da verdade. E isso o aterrorizava. O Homem Sem Nome parou. Por um instante, o sil¨ºncio na sala foi absoluto. O ¨²nico som que restava era a respira??o tr¨ºmula de Lucien, misturada ao gotejar de sangue no ch?o. Ent?o, lentamente, o homem levou a m?o ao queixo, os olhos semicerrados. ¡ª Se a L¨¢grima ¨¦ t?o poderosa¡­ por que Elias simplesmente a guardava? Ele repetiu as palavras de Lucien, mas agora para si mesmo. Ele nunca havia parado para refletir nisso antes. Se Elias possu¨ªa um artefato capaz de desafiar a pr¨®pria realidade, por que o trancar? Por que n?o us¨¢-lo? A b¨²ssola de ouro n?o mentia. Ela nunca mentia. E, ainda assim, apontava para o garoto. Isso nunca fez sentido. At¨¦ agora. O homem puxou a b¨²ssola do bolso e a ergueu diante dos olhos, observando o brilho dourado pulsante no centro. Dessa vez, ele fez uma pergunta diferente. ¡ª Como Lucien est¨¢ em posse da L¨¢grima? A b¨²ssola brilhou mais forte. O ponteiro girou, rodopiando de maneira fren¨¦tica, como se estivesse resistindo ¨¤ pr¨®pria resposta. Mas ent?o¡­ ele parou. E a resposta veio. ¡°N?o fisicamente. Mas atrav¨¦s da alma.¡± O Homem Sem Nome arregalou os olhos. Sua respira??o se tornou irregular, seus dedos apertaram o artefato com for?a. ¡ª ¡­N?o pode ser¡­ Lucien, mesmo fraco, mesmo torturado, percebeu a mudan?a no olhar dele. Havia algo diferente ali agora. Algo errado. O Homem Sem Nome come?ou a rir. Baixo, no come?o. Um riso rouco, tr¨ºmulo. Mas, conforme a compreens?o se instalava, a risada cresceu, transformando-se em algo insano, quase animalesco. Lucien sentiu um arrepio de puro terror. O homem finalmente entendia. Agora ele sabia. ¡ª Agora faz sentido¡­ ¡ª ele murmurou entre risadas. ¡ª ¨¦ claro que a b¨²ssola apontava para voc¨º¡­ ¨¦ claro que voc¨º acreditava que n?o a tinha¡­ Ele se inclinou, olhos brilhando de euforia. ¡ª Porque voc¨º e a L¨¢grima s?o um s¨®. Lucien sentiu a mente entrar em choque. ¡ª O qu¨º¡­? O homem se afastou, passando as m?os pelos cabelos. Ele parecia transtornado, o corpo tremendo, mas n?o de raiva. De ¨ºxtase. ¡ª Elias nunca poderia us¨¢-la, porque ela n?o estava realmente com ele. ¡ª Ele soltou uma risada alta. ¡ª O tempo todo, a L¨¢grima estava esperando um recipiente. E esse recipiente ¨¦ voc¨º! Lucien n?o conseguia processar aquelas palavras. Era loucura. Mas a b¨²ssola¡­ a b¨²ssola dizia a verdade. Se fosse mentira, o Homem Sem Nome n?o estaria assim. Ent?o¡­ era verdade? O garoto sentiu o cora??o acelerar de puro pavor. Mas o homem n?o estava assustado. Ele estava extasiado. ¡ª Isso¡­ isso ¨¦ perfeito. Eu achei que precisaria ca?ar a L¨¢grima como um objeto qualquer, mas agora¡­ ¡ª Ele se virou para Lucien, um sorriso man¨ªaco no rosto. ¡ª Eu s¨® preciso arranc¨¢-la de voc¨º. Lucien sentiu um arrepio horr¨ªvel atravessar seu corpo. ¡ª O-o qu¨º¡­? O homem se virou abruptamente e gritou: ¡ª Venha, apare?a. Lucien engoliu em seco. Ele sabia exatamente para quem aquela ordem havia sido dada. E ent?o, poucos minutos depois, a porta da sal a de tortura se abriu. A figura alta e esguia do assassino entrou. Seus olhos frios reca¨ªram sobre Lucien, como se j¨¢ soubesse o que aconteceria ali. O Homem Sem Nome sorriu. ¡ª Dessa vez, vamos demorar um pouco mais. A vida perfeita O homem sem nome observou Lucien com um olhar calculista, refletindo sobre o quanto aquele garoto havia sido inconveniente. Em algum momento, ele pr¨®prio explicara para Lucien o que os usu¨¢rios de magia negra eram capazes de fazer. Como podiam extrair for?a, vitalidade, mem¨®rias, at¨¦ mesmo a ess¨ºncia da alma de algu¨¦m. Para sua sorte, o assassino que ele contratara era um desses usu¨¢rios ¡ª e um dos melhores. Ele sorriu. Finalmente, tudo faria sentido. A b¨²ssola de ouro n?o errava. A L¨¢grima de Aether estava ali, fundida ¨¤ alma do moleque. Se a l¨¢grima e ele eram um s¨®, ent?o bastava despeda?¨¢-lo para que ela prevalecesse. O assassino, sempre silencioso, deslizou at¨¦ Lucien. Seus olhos eram frios, sem qualquer emo??o. Ele n?o questionou a ordem, apenas ergueu as m?os sobre o garoto, preparando-se para o processo. Lucien estremeceu. A simples aproxima??o daquele homem o fez sentir um frio profundo, como se sua pr¨®pria exist¨ºncia estivesse sendo sugada. Ent?o, de repente, veio a dor. Primeiro, foi como uma press?o esmagadora dentro de seu peito, como se algo estivesse tentando ser arrancado de dentro dele. Mas logo aquilo evoluiu para algo muito pior. Era uma sensa??o que desafiava qualquer dor f¨ªsica que ele j¨¢ havia experimentado. Seu corpo queimava por dentro, enquanto sua mente era puxada em dire??es imposs¨ªveis. Ele tentou gritar, mas sua garganta travou. O assassino tamb¨¦m sentiu o impacto. A alma de Lucien resistia mais do que ele havia previsto. O garoto deveria ser apenas um ladr?o, um mero sobrevivente. Sua alma deveria ser imatura, f¨¢cil de despeda?ar. Mas n?o era. Havia algo errado. Lucien, mesmo esmagado pela dor, percebeu. Algo dentro dele n?o queria ceder. N?o queria desaparecer. Ele n?o sabia o que estava acontecendo, mas se houvesse uma chance, por menor que fosse, de resistir, ele agarraria com todas as for?as. O homem sem nome franziu a testa. Ele esperava que o processo fosse simples. Mas algo lhe dizia que as coisas n?o sairiam como planejado. E ent?o, o inesperado aconteceu. Lucien sentia como se cada peda?o de sua exist¨ºncia estivesse sendo rasgado, dilacerado, consumido por algo invis¨ªvel. Sua vis?o se distorcia, o mundo ao seu redor oscilava entre a escurid?o e flashes de luz azul p¨¢lida. Sua mente tentava se agarrar a qualquer coisa ¡ª lembran?as de Lucy, da infancia, do cheiro de p?o quente que vez ou outra sentia ao passar pelas ruas da cidade. Mas tudo estava sendo arrancado. O assassino manteve as m?os erguidas sobre Lucien, sua respira??o come?ando a falhar. A alma do garoto lutava. Era forte, bem mais forte do que deveria ser. Ele sentia como se estivesse tentando arrancar algo preso ao pr¨®prio tecido da realidade, como se a L¨¢grima e Lucien estivessem enredados em algo muito maior. O homem sem nome observava tudo de perto, seus olhos analisando cada rea??o. A princ¨ªpio, estava calmo, mas conforme os minutos se arrastavam, sua express?o tornou-se mais sombria. ¡ª O que est¨¢ acontecendo? ¡ª Ele perguntou, impaciente. O assassino n?o respondeu imediatamente. Estava concentrado, for?ando a magia, puxando a alma do garoto em todas as dire??es poss¨ªveis. Ele nunca tinha falhado nesse tipo de trabalho antes. Mas desta vez¡­ Ele recuou por um breve segundo, os olhos arregalados. O que ele viu dentro da alma de Lucien o fez hesitar. ¡ª Algo est¨¢ errado. ¡ª Ele finalmente disse, a voz carregada de incredulidade. O homem sem nome estreitou os olhos. ¡ª Errado como? O assassino passou a l¨ªngua nos l¨¢bios, tentando recuperar o f?lego. Seu corpo inteiro tremia de um jeito que ele n?o compreendia. Ele nunca havia experimentado resist¨ºncia de uma alma t?o jovem. Mas Lucien¡­ n?o era normal. ¡ª A L¨¢grima n?o est¨¢ apenas dentro dele. Ela ¨¦ parte dele. ¡ª O assassino olhou para seu contratante, suas pupilas dilatadas. ¡ª Separ¨¢-los n?o ¨¦ s¨® dif¨ªcil¡­ ¨¦ quase imposs¨ªvel. O sil¨ºncio tomou conta da sala, interrompido apenas pela respira??o ofegante de Lucien e pelo leve tilintar das correntes que o prendiam. O homem sem nome se inclinou para frente, analisando o garoto com um brilho novo nos olhos. ¡ª Interessante¡­ Lucien queria falar, queria gritar, queria dizer qualquer coisa, mas sua mente estava fragmentada. Ele sentia que se dissesse algo errado, daria ao homem sem nome exatamente o que ele queria. E ent?o veio a pior parte. O assassino, for?ado a tentar novamente, reuniu sua magia negra uma vez mais. Se uma separa??o delicada n?o funcionava, talvez um m¨¦todo mais agressivo¡­ Lucien se contorceu, e dessa vez, a dor foi t?o intensa que sua vis?o ficou branca. Ele n?o conseguia mais ver a sala, o espelho, ou os olhos insanos do homem sem nome. S¨® havia um vazio infinito, um mar de dor e ang¨²stia. Mas ali, naquele vazio, algo respondeu. Uma presen?a. Familiar. Fria e serena, mas ao mesmo tempo colossal. A L¨¢grima de Aether n?o queria ser removida. O assassino foi jogado para tr¨¢s de repente, um grito escapando de sua boca. Seu corpo bateu contra a parede, e ele caiu de joelhos, ofegante, sangue escorrendo de seu nariz e ouvidos. O homem sem nome olhou, alarmado. ¡ª O que foi isso?! O assassino tremeu. Pela primeira vez em anos, sentiu medo. Era como se uma dor tivesse afetado sua pr¨®pria alma, uma dor que o garoto devia sentir, n?o ele mesmo¡­Ensure your favorite authors get the support they deserve. Read this novel on Royal Road. Lucien estava p¨¢lido, sua cabe?a pendendo para o lado, quase inconsciente. Mas algo nele¡­ algo nele havia mudado. O homem sem nome sorriu, lentamente. ¡ª Ah¡­ ent?o ¨¦ assim que ¨¦. Ele se abaixou ao lado de Lucien e sussurrou, quase em tom de rever¨ºncia: ¡ª Parece que alma dele j¨¢ est¨¢ desperta¡­ Lucien tentou manter os olhos abertos, mas sua consci¨ºncia deslizava para longe. Seu corpo, sua alma, tudo do¨ªa. Mas no fundo, algo come?ava a se formar. O homem sem nome observava Lucien com um brilho curioso nos olhos. Ele levou uma m?o ao queixo, analisando o garoto com renovado interesse. N?o havia d¨²vidas: a alma de Lucien havia despertado. Ele sabia que isso aconteceria cedo ou tarde¡ªele j¨¢ havia visto acontecer antes. O despertar de uma alma podia ser provocado por in¨²meros fatores, mas em casos como o de Lucien, onde n?o havia treinamento nem um ambiente prop¨ªcio para o desenvolvimento natural, algo dr¨¢stico precisava acontecer. E esse ¡°algo¡± foi justamente a tortura. O corpo do garoto havia sido empurrado ao limite absoluto, sua mente reduzida a puro desespero, e seu esp¨ªrito, antes adormecido, for?ado a reagir para sobreviver. O homem sorriu para si mesmo. N?o era a primeira vez que via isso. Alguns despertavam por f¨²ria, outros por medo, alguns at¨¦ por pura necessidade de proteger algu¨¦m. No caso de Lucien, tudo se misturava: dor, ang¨²stia, pavor... Mas havia tamb¨¦m a influ¨ºncia da L¨¢grima de Aether. A L¨¢grima... O homem voltou a olhar para o garoto, agora desacordado na cadeira, a respira??o irregular, os m¨²sculos tensionados mesmo inconscientemente. Ele ainda se lembrava da express?o de Lucien quando percebeu que a b¨²ssola o apontava como o portador da L¨¢grima. O garoto genuinamente acreditava que n?o a possu¨ªa, isso era ¨®bvio, nem mesmo ele tinha o entendimento que a l¨¢grima havia se fundido com a alma do garoto. Uma ideia fez sua mente fervilhar de possibilidades. Seria esse o verdadeiro prop¨®sito do artefato? Fundir-se ¨¤quele que a tomasse para si? N?o... Se fosse assim, Elias n?o teria sido capaz de mant¨º-la selada por tanto tempo. Havia algo mais. Talvez a L¨¢grima apenas tenha escolhido Lucien¡ª Por isso Elias n?o podia us¨¢-la. E se o despertar da alma do garoto houvesse fortalecido esse v¨ªnculo? Essa possibilidade o incomodou. Ele n?o poderia permitir que o garoto assimilasse completamente a L¨¢grima. N?o agora. Quanto mais tempo passasse, mais a fus?o entre os dois se aprofundaria, tornando imposs¨ªvel a extra??o sem consequ¨ºncias irrevers¨ªveis. Ele lan?ou um olhar para o assassino, que se recuperava. Aquele golpe que o lan?ara para tr¨¢s... O que tinha sido? Um instinto de sobreviv¨ºncia da alma de Lucien? Ou a resist¨ºncia da pr¨®pria L¨¢grima? N?o importava. O assassino era altamente qualificado, e Lucien era um mago rec¨¦m desperto. Ele n?o sabia o que havia se revelado dentro do garoto¡ªmagia negra? Elementar? Magia da alma? Era imposs¨ªvel determinar de imediato. Mas nada disso alterava seu plano. O processo deveria ser finalizado agora, antes que a alma do garoto se moldasse completamente e tomasse forma. Ele deu um passo ¨¤ frente, seus olhos agora mais frios do que nunca. ¡ª O suficiente de surpresas por hoje. Acabe com isso. ¡ª Ordenou ao assassino. O homem mascarado se adiantou, ainda massageando o bra?o que havia sido atingido pela for?a misteriosa. Com um aceno de cabe?a, aceitou a ordem. A L¨¢grima seria extra¨ªda. Lucien n?o tinha escolha. A manh? era dourada, o sol entrava suavemente pelas janelas da casa espa?osa, iluminando o interior com um brilho quente e acolhedor. O aroma de p?o fresco e caf¨¦ rec¨¦m-passado pairava no ar, misturando-se com o leve cheiro de madeira polida dos m¨®veis bem-cuidados. Lucien abriu os olhos e se espregui?ou sobre o colch?o macio. Seu quarto era grande, maior do que qualquer outro que j¨¢ tivera em sua vida. As paredes eram adornadas com p?steres de aventuras fant¨¢sticas e feitos heroicos, e na escrivaninha ao lado da cama, livros bem encadernados estavam empilhados ordenadamente. A luz do sol dan?ava pelo ch?o de madeira, dando ao espa?o um ar confort¨¢vel e familiar. Um sorriso se formou em seu rosto antes mesmo de ele entender o porqu¨º. Algo dentro dele simplesmente sabia que aquele era um dia bom. ¡ª Lucien, venha tomar caf¨¦! ¡ª a voz calorosa de sua m?e ecoou pela casa. O cora??o do garoto aqueceu ao ouvi-la. Era uma voz que sempre lhe trazia seguran?a, conforto¡­ amor. Levantou-se rapidamente, vestindo uma camisa limpa e um casaco elegante antes de sair do quarto. O corredor era largo, decorado com quadros de fam¨ªlia. Fotografias suas e de sua irm?, Lucy, ao lado de seus pais. Em todas elas, pareciam felizes. Ao chegar ¨¤ sala de jantar, a vis?o diante dele era de um lar perfeito. Uma grande mesa de madeira estava posta com uma fartura de alimentos que ele nunca imaginaria em outra realidade. P?es, frutas frescas, queijos, geleias, leite morno. Sua m?e, Pers¨¦fone, estava servindo o caf¨¦, vestindo um vestido azul claro, com um sorriso gentil no rosto. Seu pai, um homem alto e de tra?os firmes, lia um jornal enquanto bebia seu caf¨¦. Ele usava roupas elegantes, demonstrando o sucesso e estabilidade que proporcionava ¨¤ fam¨ªlia. Lucy, sentada ao lado da m?e, balan?ava as pernas no ar, impaciente. Seus olhos brilhavam de felicidade enquanto pegava um peda?o de p?o amanteigado e mordia com prazer. Lucien sentou-se ¨¤ mesa, sentindo uma paz avassaladora tomar conta de si. ¡ª Dormiu bem, querido? ¡ª sua m?e perguntou, colocando uma x¨ªcara de ch¨¢ ¨¤ sua frente. Ele assentiu, ainda saboreando a tranquilidade do momento. ¡ª Sim¡­ Foi um dos melhores sonos que j¨¢ tive. Seu pai baixou o jornal e lhe lan?ou um olhar orgulhoso. ¡ª Isso ¨¦ bom. Voc¨º tem se esfor?ado bastante ultimamente. Merece um pouco de descanso. Lucien n?o sabia exatamente sobre o que o pai falava, mas sentiu-se feliz por ouvir isso. Lucy, com um sorriso travesso, se inclinou em sua dire??o. ¡ª Vamos para a escola juntos hoje? Quero te mostrar algo que eu e meus amigos fizemos no jardim! A escola¡­ Amigos¡­ A imagem surgiu em sua mente com facilidade. Ele e Lucy, vestidos com uniformes limpos e bem passados, correndo pelas ruas ensolaradas at¨¦ chegarem a um belo pr¨¦dio de pedra branca, cercado por ¨¢rvores de folhas douradas. Ele se lembrou das risadas nos corredores, das brincadeiras no p¨¢tio, das conversas despreocupadas sobre o futuro¡­ ¡ª Claro, vamos juntos. ¡ª Respondeu, sentindo o cora??o aquecido. A fam¨ªlia continuou o caf¨¦ da manh?, trocando conversas leves e risadas. Seu pai contava sobre uma viagem que faria a trabalho, sua m?e falava sobre um evento beneficente que organizaria. Lucy, animada, falava sobre um festival na escola. Tudo era t?o¡­ perfeito. N?o havia fome. N?o havia medo. N?o havia fugas desesperadas pelas ruas escuras. Apenas um lar. Seguran?a. Amor. Lucien se permitiu acreditar que aquela era a sua vida. E era uma vida feliz. ¡ª O que estou pensando? ¨¦ ¨®bvio que essa ¨¦ a minha vida, sempre foi assim, e sempre vai ser assim. ¡ª murmurou ele, para si mesmo. Lucien olhou ao redor da mesa mais uma vez, gravando cada detalhe. O riso de Lucy, o olhar gentil de sua m?e, a presen?a firme de seu pai. O aroma de comida quente preenchia seus sentidos, trazendo uma sensa??o de conforto absoluto. Ent?o, por que ele sentia aquela dor no peito? Era algo sutil, uma pontada inc?moda que surgia toda vez que ele respirava fundo. Como se algo dentro dele estivesse sendo rasgado e transformado aos peda?os, tentando gritar para que ele prestasse aten??o. Mas o qu¨º? Ele olhou para suas m?os, para o p?o quente que segurava. Tudo estava certo. Tudo estava perfeito. Talvez fosse s¨® um pensamento passageiro, um medo bobo de que aquilo fosse bom demais para ser verdade. Ele balan?ou a cabe?a, afastando a sensa??o inc?moda. N?o importava. Ele estava feliz agora. Estava com sua fam¨ªlia. Acordando para a realidade. O sol brilhava no c¨¦u azul sem nuvens, espalhando calor por toda a cidade. O riso infantil ecoava pelas ruas de pedra enquanto Lucien corria, o cora??o pulsando de alegria, as pernas leves como nunca antes. Seus sapatos novos batiam contra o ch?o firme, e a brisa suave acariciava seu rosto. Ele olhou para tr¨¢s, vendo seus amigos logo atr¨¢s dele. Pierre e Tomas riam enquanto tentavam alcan?¨¢-lo. ¡ª Voc¨º nunca vai conseguir me pegar! ¡ª Lucien gritou, desviando por uma esquina e entrando em um beco estreito. ¡ª Isso ¨¦ trapa?a! ¡ª Pierre protestou, a voz ofegante. Lucien apenas riu, o som genu¨ªno e despreocupado, enquanto continuava correndo. Sua casa ficava a apenas alguns quarteir?es dali, e sua m?e havia prometido um doce se ele chegasse a tempo para o jantar. Ele nunca havia sentido tanta liberdade. Nunca havia sentido tanta felicidade. Ao virar outra rua, deparou-se com um pequeno mercado movimentado. As barracas estavam cheias de frutas frescas, p?es rec¨¦m-assados e tecidos coloridos. Ele desacelerou, sentindo o cheiro delicioso das tortas de ma?? sendo vendidas ali. ¡ª Lucien! ¡ª Uma voz chamou. Ele se virou e viu uma mulher familiar. Mar¨ªlia, a vendedora do caf¨¦, sorriu para ele com gentileza. ¡ª Como est?o sua m?e e sua irm?? ¡ª ela perguntou, empilhando alguns p?es em uma cesta. ¡ª Est?o ¨®timas! ¡ª Ele respondeu com orgulho. ¡ª Mam?e est¨¢ preparando algo especial para o jantar hoje. Mar¨ªlia riu, balan?ando a cabe?a. ¡ª Ent?o v¨¢ logo para casa, antes que sua irm? coma tudo sozinha! Lucien sorriu e acenou, voltando a correr.
Sua casa era grande e acolhedora, com um jardim na frente onde Lucy brincava com seu gato. Quando ele chegou, ela correu at¨¦ ele, os olhos brilhando de entusiasmo. ¡ª Lucien! Voc¨º demorou! ¡ª Eu estava jogando pique-pega! ¡ª Ele disse, bagun?ando o cabelo dela. ¡ª Ganhei de novo. Lucy cruzou os bra?os, fingindo estar emburrada. ¡ª Voc¨º sempre ganha. ¡ª Porque eu sou o melhor! Ela revirou os olhos, mas logo sorriu e puxou seu bra?o. ¡ª Mam?e est¨¢ esperando! Lucien seguiu sua irm? para dentro de casa. O aroma de comida quente preencheu o ambiente, e o som do fogo crepitando na lareira trouxe uma sensa??o de paz. Sua m?e estava na cozinha, mexendo uma panela, e seu pai lia um livro na sala, ocasionalmente lan?ando olhares carinhosos para os filhos. ¡ª Voc¨ºs chegaram na hora certa. Lavem as m?os e venham comer! ¡ª a m?e disse, com um sorriso amoroso. Lucien obedeceu rapidamente e se sentou ¨¤ mesa. Seu prato estava cheio, e ele comeu cada mordida com prazer, sentindo-se completo. Felicidade. Ele nunca quis que aquele momento acabasse.
Os dias passaram assim, um ap¨®s o outro, como se fossem moldados pela perfei??o. Ele brincava com Lucy no jardim, ia ¨¤ escola e ria com seus amigos. Pierre e Tomas estavam sempre ao seu lado, inventando novas brincadeiras e explorando cada canto da cidade. ¨¤s vezes, ele ajudava sua m?e no mercado, carregando sacolas pesadas, e ela sempre o recompensava com um doce. Seu pai, quando voltava do trabalho, passava tempo com eles, contando hist¨®rias antigas sobre cavaleiros e magos lend¨¢rios. Era a vida que Lucien sempre quisera. Mas ent?o... por que aquela dor nunca ia embora? Era uma pontada inc?moda, sempre presente, crescendo em intensidade a cada dia. No come?o, ele tentou ignorar. Mas com o tempo, come?ou a notar pequenas falhas. Coisas estranhas. Momentos que pareciam... errados. Como no dia em que estava na pra?a e viu um homem estranho olhando para ele. O homem era alto e vestia uma t¨²nica escura. Seu rosto era indistinto, como se estivesse coberto por sombras. Lucien piscou, e o homem desapareceu. Mas a dor no peito ficou mais forte.
Certa noite, ele acordou suando frio. A luz da lua entrava pela janela, iluminando seu quarto. Lucy dormia profundamente na cama ao lado. Ele levou uma m?o ao peito. A dor. Por que ela n?o sumia? Ele tinha tudo agora. Ent?o por que sentia que algo estava faltando? O que estava errado? Ele fechou os olhos, tentando afastar o pensamento. N?o importava. Ele estava feliz. E era isso que importava.
Os dias continuaram. Ele continuou vivendo sua vida perfeita.This story is posted elsewhere by the author. Help them out by reading the authentic version. Os dias continuavam passando na ilus?o de Lucien, cada um repleto de felicidade e momentos que pareciam esculpidos pela perfei??o. Sua casa era acolhedora, seus pais amorosos, e sua irm? sempre sorria ao seu lado. Era um mundo onde a fome, o medo e a dor n?o existiam. Mas a dor no peito persistia. Era um inc?modo leve no come?o, uma pontada sutil sempre presente, como uma lembran?a distante de algo que ele n?o conseguia entender. Mas conforme os dias passavam, a dor se intensificava. ¨¤s vezes, vinha como um aperto sufocante, outras vezes como um peso esmagador. Lucien tentava ignor¨¢-la. Ele n?o queria que nada estragasse sua vida perfeita. Mas ent?o come?aram os pesadelos. Na primeira noite, ele sonhou que estava em um beco escuro. Chovia forte, e ele estava encharcado, os p¨¦s descal?os pisando na lama fria. O cheiro de podrid?o impregnava o ar, e sua barriga do¨ªa de fome. Ao seu lado, Lucy tremia, os olhos arregalados de medo. ¡ª Lucien... eu estou com fome... Ele tentou responder, mas sua voz n?o saiu. A frente deles, dois homens encapuzados se aproximavam, sombras escuras que pareciam crescer a cada passo. Ele agarrou a m?o de sua irm? e correu, mas seus p¨¦s estavam pesados, como se estivesse afundando na lama. Os homens se aproximavam cada vez mais. Ent?o ele ouviu o grito de Lucy. Ele se virou a tempo de v¨º-la ser arrancada de seus bra?os. ¡ª N?O! ¡ª Ele gritou, tentando correr at¨¦ ela, mas seu corpo n?o se movia. Lucy chorava, estendendo a m?o para ele. ¡ª L-Lucien, me ajuda! Ele lutou contra a paralisia, tentou gritar, tentou correr. Mas tudo escureceu. E ele acordou com um sobressalto, ofegante, o cora??o martelando no peito. O quarto ainda estava banhado pelo luar, e Lucy dormia pacificamente ao seu lado. Ele passou a m?o pelo rosto, tentando afastar a sensa??o sufocante que o sonho lhe causara. Era apenas um pesadelo. Apenas um pesadelo... Mas a dor no peito estava mais forte agora.
As noites seguintes trouxeram mais pesadelos. Em um deles, ele voltou para casa e encontrou sua m?e ca¨ªda no ch?o da cozinha, o olhar vazio fixo no teto. Sua pele estava p¨¢lida como cera, e um filete de sangue escorria de sua boca. Seu pai estava sentado ¨¤ mesa, com uma express?o de desespero. ¡ª Eu... eu n?o consegui salv¨¢-la... Lucien correu at¨¦ ela, segurando sua m?o fria, tentando acord¨¢-la, tentando negar a verdade. Mas ela n?o se movia. O cheiro de p?o rec¨¦m-assado ainda impregnava o ar. Ele queria gritar, mas sua voz n?o sa¨ªa.
No outro sonho, ele e Lucy estavam sentados em um canto escuro, abra?ados um ao outro, enquanto seus est?magos roncavam de fome. ¡ª O que vamos comer hoje? ¡ª Lucy perguntou com a voz fraca. Ele n?o sabia o que responder. N?o havia comida. N?o havia ningu¨¦m para ajud¨¢-los. A fome era como uma fera devorando-os por dentro, e a ¨²nica coisa que ele podia fazer era apertar Lucy contra si e esperar que o tormento passasse. Mas ele sabia que n?o passaria. Lucy come?ou a chorar baixinho, o som ecoando no beco escuro onde estavam escondidos. ¡ª Eu n?o quero mais brincar disso, Lucien... ¡ª N?o ¨¦ um jogo, Lucy... Ela solu?ou. ¡ª Ent?o por que estamos vivendo assim? Por que mam?e e papai n?o est?o aqui? Lucien abriu a boca para responder, mas percebeu que n?o sabia a resposta. Ele olhou ao redor, buscando qualquer sinal de sua casa, de seus pais, de sua vida perfeita... Mas tudo o que havia ali era escurid?o. E ent?o, como se uma sombra estivesse rastejando por sua mente, uma lembran?a antiga come?ou a se formar. A dor no peito ficou insuport¨¢vel. Por que ele n?o se lembrava de como havia chegado ali? O suor escorria por sua testa. Ele respirava com dificuldade. N?o fazia sentido. Ele piscou, tentando se agarrar ¨¤ imagem de sua vida perfeita, de sua casa confort¨¢vel, de seus pais sorrindo para ele... Mas cada vez que tentava segurar essa realidade, ela parecia escapar por entre seus dedos, como areia sendo levada pelo vento. E ent?o, ele acordou novamente. A luz do sol passava pelas cortinas de seu quarto. O cheiro do caf¨¦ da manh? preparado por sua m?e preenchia o ar. Lucy apareceu na porta, os olhos brilhando de alegria. ¡ª Anda logo, Lucien! Voc¨º vai se atrasar para a escola! Ele olhou para ela, confuso. O pesadelo... n?o havia sido real? Ele levou a m?o ao peito. A dor ainda estava l¨¢. E algo dentro dele sussurrava que essa felicidade era uma mentira. Mas ele a ignorou. Ele queria continuar vivendo naquele sonho. Ele queria continuar acreditando. Tudo parecia t?o... perfeito. Ele se sentou na cama, esfregando o rosto com as m?os. Foi s¨® um pesadelo, ele tentou se convencer. Mas ent?o, por que ainda sentia aquela dor no peito? Por que os pesadelos pareciam t?o reais? Mais reais do que essa vida perfeita? Lucien n?o queria admitir, mas algo dentro dele sussurrava que algo estava errado. N?o era apenas a dor, n?o era apenas a sensa??o inc?moda que teimava em permanecer com ele mesmo depois de acordar. Era a forma como aqueles pesadelos pareciam... verdadeiros. Ele lembrava da fome corroendo seu est?mago, do frio das ruas durante a noite, dos olhares julgadores das pessoas quando passavam por ele e por Lucy, fingindo que n?o os viam. Ele lembrava da necessidade de roubar para sobreviver, dos dias em que n?o conseguia nada e precisavam dividir um peda?o de p?o duro para enganar a fome. Ele lembrava da dor da perda. E essas lembran?as eram t?o v¨ªvidas que ele podia senti-las, como se realmente tivesse vivido tudo aquilo. Mas isso n?o fazia sentido. Seus pais estavam vivos. Eles eram felizes. Eles n?o precisavam se preocupar com comida ou abrigo. Ent?o... o que era aquilo? Lucien balan?ou a cabe?a, tentando afastar os pensamentos inquietantes. Ele saiu da cama e caminhou at¨¦ a porta do quarto, determinado a esquecer aqueles pesadelos. Mas ao tocar a ma?aneta, hesitou. A sensa??o ruim n?o ia embora. Ele n?o sabia dizer o porqu¨º, mas sentia que, se continuasse ignorando aquilo, algo terr¨ªvel aconteceria. Lucien caminhava pela casa, o cora??o acelerado no peito. Tudo parecia perfeito. Perfeito demais. Seus pais estavam vivos, sorridentes como sempre. Sua m?e cantarolava na cozinha enquanto preparava o caf¨¦ da manh?, e seu pai lia um jornal na sala, os ¨®culos pendendo levemente sobre o nariz. O cheiro do p?o rec¨¦m-assado pairava no ar, quente e reconfortante. Ele sentou-se ¨¤ mesa, e sua m?e colocou um prato ¨¤ sua frente. P?o fresco, frutas, um copo de leite. Ele pegou um peda?o e o levou ¨¤ boca, sentindo o sabor suave. Era real. Era real... n?o era? Seu olhar passeou pela sala. Os m¨®veis eram os mesmos de sua infancia, a decora??o id¨ºntica ¨¤ que ele se lembrava. Mas algo parecia errado. Como se fosse tudo um cen¨¢rio montado para ele. O riso de sua irm? ecoou pelo corredor, leve e inocente. Era o som mais doce que ele conhecia, mas... algo estava errado com ele tamb¨¦m. Ele olhou para sua m?e, que sorria amorosamente. ¡ª Est¨¢ tudo bem, querido? A voz dela era gentil, familiar. Mas por que ele sentiu um arrepio ao ouvi-la? Ele olhou para seu pai, que lhe lan?ou um olhar calmo e reconfortante. ¡ª Voc¨º parece pensativo, filho. Sim... ele estava pensativo. O p?o em sua m?o come?ou a parecer mais pesado. A cada segundo que passava, uma sensa??o crescente de desorienta??o se instalava em sua mente. Ele se levantou, suando frio. ¡ª Eu... preciso lavar o rosto. Nenhum deles o impediu. Apenas continuaram sorrindo, como se nada estivesse errado. Lucien caminhou pelo corredor, cada passo ecoando em sua mente como se estivesse mais distante do que deveria. O mundo ao seu redor parecia levemente distorcido, como uma pintura em que as cores come?aram a escorrer. Ele chegou ao banheiro, as m?os tremendo levemente ao abrir a porta. Luz fraca. Azulejos frios sob seus p¨¦s descal?os. Ele respirou fundo e levantou o olhar. O espelho estava ali, grande e imponente. Mas algo estava errado. Muito errado. N?o havia ningu¨¦m ali. Seus olhos se arregalaram. Ele piscou, esfregou os olhos, tentando afastar a ilus?o. Mas n?o era uma ilus?o. O espelho refletia o banheiro, as paredes, o ch?o, at¨¦ mesmo a porta atr¨¢s dele. Mas ele n?o estava ali. Seu reflexo simplesmente n?o existia. O cora??o de Lucien disparou. Ele levantou a m?o e a colocou contra a superf¨ªcie fria do vidro. Nada. Nenhuma sombra, nenhum contorno. Apenas o vazio. N?o. Isso n?o era poss¨ªvel. Ele existia. Ele estava ali. Ent?o por que... por que ele n?o estava vendo a si mesmo? O mundo ao redor pareceu estremecer levemente. Lucien sentiu o suor escorrer pela testa. Aquela vida... aquela alegria... Tudo aquilo era... Ele recuou um passo, o peito subindo e descendo em respira??es aceleradas. O que estava acontecendo? Fim de um sonho, come?o de um pesadelo. Lucien estava jogado no ch?o frio do banheiro, sua respira??o entrecortada e pesada. Seu cora??o batia t?o r¨¢pido que ele achou que fosse explodir. Seus pensamentos giravam como uma tempestade violenta, se chocando uns contra os outros, incapazes de se organizar. O que estava acontecendo? O que aquilo significava? Ele tentou se levantar, mas suas pernas estavam fracas. Ele sentia como se algo estivesse sendo arrancado dele, como se sua pr¨®pria exist¨ºncia estivesse em xeque. Ent?o, ele ouviu passos apressados do lado de fora. ¡ª Lucien! A voz de sua m?e. A porta foi aberta com for?a, e sua fam¨ªlia invadiu o banheiro, os rostos carregados de preocupa??o. Sua m?e foi a primeira a se ajoelhar ao seu lado, as m?os tr¨ºmulas segurando seu rosto. ¡ª Meu amor, o que aconteceu? O tom dela era suave, cheio de afeto, mas aquilo s¨® fez a ang¨²stia de Lucien aumentar. ¡ª Filho! ¡ª a voz de seu pai soou mais grave, firme, mas cheia de preocupa??o. Ele se abaixou ao lado da esposa, segurando o ombro de Lucien. ¡ª Voc¨º est¨¢ p¨¢lido... voc¨º est¨¢ tremendo. Lucy correu at¨¦ ele e envolveu sua cintura em um abra?o apertado. ¡ª Maninho, voc¨º t¨¢ doente? Voc¨º t¨¢ com medo de alguma coisa? Lucien queria responder. Queria dizer alguma coisa. Mas as palavras estavam presas em sua garganta. O que ele poderia dizer? Que olhou para o espelho e n?o se viu? Que, por um breve momento, teve a terr¨ªvel sensa??o de que nada daquilo era real? N?o... aquilo era real. Tinha que ser. Ele apertou os olhos com for?a, tentando afastar a sensa??o opressiva que o engolia. Sua m?e puxou-o para perto, envolvendo-o em seus bra?os quentes e acolhedores. ¡ª Est¨¢ tudo bem, querido. Isso vai passar... Os bra?os dela eram um porto seguro. O cheiro suave de flores que emanava de seus cabelos era o mesmo que ele se lembrava desde pequeno. Aos poucos, l¨¢grimas come?aram a escapar de seus olhos. Ele n?o queria duvidar. N?o queria questionar. Ele s¨® queria se perder naquele abra?o. ¡ª Isso vai passar... ¡ª ela repetiu, acariciando seus cabelos. Lucien solu?ou. ¡ª M-m?e... Ela o abra?ou mais forte, como se pudesse proteg¨º-lo de qualquer coisa. ¡ª Eu estou aqui, meu amor. Mam?e est¨¢ aqui. As palavras dela afundaram fundo dentro dele, quebrando alguma coisa. Ele chorou. Chorou como uma crian?a indefesa, agarrando-se ¨¤ ¨²nica coisa que parecia real. Seus pais. Sua irm?. Aquela casa. Aquela vida. Tudo aquilo era real... n?o era? Ent?o por que... por que ele sentia que estava prestes a perder tudo? Seus solu?os ficaram mais fortes. Sua m?e sussurrava palavras de conforto, seu pai segurava sua m?o, Lucy o abra?ava apertado. Mas algo dentro dele gritava. Aquele pesadelo. Aquelas vis?es de fome, de frio, de medo. Por que pareciam mais reais do que tudo isso? Por que ele n?o conseguia se ver vivendo uma vida t?o feliz? De repente, um pensamento cruel perfurou sua mente como uma lamina afiada. "Isso n?o ¨¦ mentira." Seu cora??o se apertou. "Isso tudo ¨¦ mentira." Ele arfou, seus olhos arregalando-se. Seus bra?os apertaram o corpo de sua m?e, como se seu pr¨®prio desespero pudesse impedi-la de desaparecer. ¡ª N-n?o... Ele sentiu seu pai apertar seu ombro. ¡ª Est¨¢ tudo bem, filho. Estamos aqui. Lucy ergueu o rosto, com os olhos marejados. ¡ª N?o chora, maninho... a gente t¨¢ com voc¨º. Lucien fechou os olhos com for?a. ¡°Isso tudo ¨¦¡­ falso.¡± Lucien olhava para os rostos amorosos de sua fam¨ªlia, sentindo o peito apertar a cada batida de seu cora??o. O calor do abra?o de sua m?e, a for?a reconfortante da m?o de seu pai sobre seu ombro, a delicadeza do toque de Lucy ao seu redor... tudo aquilo era t?o real. Mas ele sabia. Sabia que era mentira. E, mesmo assim, ele queria se agarrar ¨¤quela mentira. L¨¢grimas quentes ca¨ªam de seu rosto, e sua voz saiu embargada quando finalmente encontrou for?as para falar: ¡ª Eu... eu amo voc¨ºs... O abra?o ao seu redor apertou-se. Sua m?e deslizou os dedos por seu cabelo, seu pai segurou sua m?o com mais firmeza, e Lucy se encolheu contra ele, como se n?o quisesse solt¨¢-lo nunca mais. ¡ª Eu sei que isso n?o ¨¦ real... ¡ª Lucien continuou, com a voz tr¨ºmula ¡ª mas, mesmo assim, eu sou grato. Grato por ter tido voc¨ºs, mesmo que tenha sido s¨® por um tempo. Seus solu?os o interromperam. Ele sentia como se seu cora??o estivesse sendo arrancado de dentro dele. ¡ª Eu fui feliz aqui. Suas m?os apertaram os bra?os da m?e com for?a. ¡ª Feliz de verdade. Seu pai passou um bra?o ao redor de seus ombros e apertou-o contra si. ¡ª Voc¨º sempre foi forte, Lucien. Sua m?e beijou o topo de sua cabe?a, as l¨¢grimas dela caindo sobre seus cabelos. ¡ª E corajoso. Lucy fungou, escondendo o rosto contra o peito dele. ¡ª E o melhor irm?o do mundo... Lucien mordeu o l¨¢bio, tentando conter o desespero que crescia dentro dele. ¡ª Eu tentei... tentei de tudo para sobreviver. Fiz coisas que eu n?o queria fazer. Roubei, menti, enganei... Suas m?os tremeram. ¡ª Fiz de tudo para proteger a Lucy. Seus pais o apertaram ainda mais forte. ¡ª E agora... Sua respira??o ficou presa na garganta. ¡ª Agora eu estou prestes a morrer...The tale has been taken without authorization; if you see it on Amazon, report the incident. Sua m?e arfou, e Lucy ergueu a cabe?a, os olhos arregalados e cheios de l¨¢grimas. ¡ª N?o, maninho... n?o fala isso... Lucien engoliu em seco. ¡ª Eu fui ing¨ºnuo. Acreditei nas pessoas erradas. E agora... Suas m?os fecharam-se em punhos. ¡ª Agora Lucy vai ficar sozinha. Seu pai sacudiu a cabe?a, segurando seus ombros com for?a. ¡ª N?o. Isso n?o vai acontecer. Lucien riu, uma risada amarga, repleta de dor. ¡ª Eu queria acreditar nisso... As l¨¢grimas escorriam sem controle. ¡ª Mas eu falhei. Sua m?e o apertou com mais for?a. ¡ª Voc¨º n?o falhou, meu amor. Lucien negou com a cabe?a. ¡ª Eu falhei com voc¨ºs. Eu falhei com Lucy. Ele se afundou no abra?o deles, desejando, implorando para que aquilo fosse real. Para que ele pudesse ficar ali para sempre. Seus pais come?aram a sussurrar palavras gentis contra seus cabelos. ¡ª Voc¨º ¨¦ especial, Lucien. Sempre foi. ¡ª Forte e corajoso. ¡ª O menino que nunca desistiu, mesmo quando o mundo foi cruel. Lucy solu?ou contra ele. ¡ª Meu irm?o, meu her¨®i. Lucien fechou os olhos, deixando que o calor de suas palavras o envolvesse. ¡ª N?o importa o que aconte?a ¡ª seu pai disse, sua voz firme, mas cheia de amor ¡ª n?o importa onde voc¨º esteja ou o que fa?a. Voc¨º sempre ser¨¢ nosso filho. Sua m?e assentiu, as l¨¢grimas escorrendo por seu rosto. ¡ª O nosso precioso filho. Lucy segurou sua m?o com for?a. ¡ª O nosso Lucien. Lucien respirou fundo, tentando conter o choro que amea?ava rasg¨¢-lo por dentro. E ent?o, sua m?e sussurrou: ¡ª Lucien... aquele que nasceu na luz. Ele abriu os olhos, encarando-a com surpresa. Seu pai sorriu, seus olhos brilhando com orgulho. ¡ª Seu come?o foi sombrio, filho. Lucy acariciou seu rosto. ¡ª Mas o seu final... Sua m?e sorriu com do?ura, mesmo com as l¨¢grimas escorrendo. ¡ª O seu final ser¨¢ glorioso. Foi ent?o que Lucien ouviu um estalo. Ele ergueu a cabe?a e viu o espelho ¨¤ sua frente. Uma rachadura fina e solit¨¢ria havia surgido no vidro. Seus olhos arregalaram-se. Outro estalo. A rachadura se espalhou, como ra¨ªzes crescendo rapidamente. ¡ª N-n?o... ¡ª Lucien sussurrou. Mas seus pais continuavam sorrindo para ele. O vidro trincou ainda mais. ¡ª Eu n?o quero ir... ¡ª ele choramingou. Sua m?e acariciou seu rosto. ¡ª Voc¨º precisa, meu amor. Lucy o abra?ou com mais for?a. ¡ª Voc¨º tem que voltar. O vidro rachou mais. Lucien sacudiu a cabe?a, o desespero crescendo. ¡ª Mas... e voc¨ºs...? Seu pai apertou seu ombro, sua voz suave. ¡ª N¨®s sempre estaremos com voc¨º. O espelho estalou violentamente. As rachaduras se espalharam, cobrindo toda a superf¨ªcie do vidro. Lucien sentiu o cora??o afundar. ¡ª N?o... Ent?o, tudo se quebrou. O espelho explodiu em mil peda?os. E, no instante seguinte, a escurid?o o envolveu. Lucien estava encolhido na vastid?o da escurid?o, os bra?os envolvendo os pr¨®prios joelhos, os ombros sacudindo a cada solu?o silencioso. A dor no peito que antes o incomodava j¨¢ n?o importava mais. A dor da ang¨²stia, do luto por algo que nunca foi real, era muito pior. Ele havia perdido tudo. Os rostos de sua fam¨ªlia ainda estavam gravados em sua mente, suas vozes ecoando em sua cabe?a como um sonho distante. Seu lar, sua infancia roubada... tudo aquilo que ele desejou por tanto tempo, e que por um breve momento ele teve a chance de tocar. Mas n?o passava de uma ilus?o. A ¨²nica coisa que restava era Lucy. Sua irm?. O ¨²nico la?o verdadeiro que ele ainda possu¨ªa. E por ela¡­ Por ela, ele precisava viver. Lucien ergueu o rosto, limpando as l¨¢grimas com a manga da camisa esfarrapada. Sua respira??o estava inst¨¢vel, seu corpo ainda tremia, mas havia uma decis?o sendo tomada dentro dele. Ele queria viver. Foi ent?o que algo aconteceu. Do vazio da escurid?o, algo come?ou a se formar. Uma ¨²nica l¨¢grima caiu de seus olhos, flutuando na escurid?o sem fim. Assim que a gota cristalina tocou o vazio, as sombras ao redor come?aram a se agitar. Lucien arregalou os olhos quando viu a escurid?o se moldando diante dele, tomando forma, criando contornos. Primeiro, um vulto. Depois, fios negros, longos e lisos como seda. Olhos sombrios e afiados, que o encaravam como se pudessem ver cada peda?o de sua alma. Era¡­ ele? Lucien piscou, tentando compreender o que estava diante dele. A figura tinha a mesma altura, os mesmos tra?os. Mas¡­ algo estava diferente. Havia algo na presen?a daquele ser que fazia sua pele se arrepiar. Uma impon¨ºncia silenciosa. Uma presen?a avassaladora. Lucien abriu a boca para falar, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Foi ent?o que a figura falou. E toda a alma de Lucien congelou. ¡ª Eu sou Aether. O cora??o de Lucien parou. Sua respira??o falhou. Ele sentiu cada fibra de seu ser estremecer. Era como se aquelas palavras tivessem atingido algo profundo dentro dele, algo que ele n?o compreendia, algo que ele n?o sabia que existia. Seus olhos se arregalaram ainda mais, sua boca secou, sua mente se recusava a processar o que havia acabado de ouvir. Aether...? O nome ecoava dentro de si como uma verdade inevit¨¢vel. Lucien sentiu o desespero tomar conta de seu peito novamente. O que... o que estava acontecendo? O sil¨ºncio entre os dois era profundo, sufocante. A escurid?o ao redor parecia se curvar ao redor daquela figura imponente, como se a pr¨®pria sombra o reverenciasse. Lucien engoliu em seco. Ele queria falar, queria gritar, queria negar tudo aquilo. Mas, de alguma forma, ele sabia que o que aquele ser dizia era verdade. Aether¡­ ¡ª Voc¨º me parece confuso, garoto. ¡ª A voz do homem ecoou, suave, por¨¦m carregada de algo que Lucien n?o conseguia descrever. ¡ª Mas n?o h¨¢ necessidade de confus?o. Eu estive esperando por voc¨º. Lucien arregalou os olhos. ¡ª E-esperando...? Aether inclinou levemente a cabe?a, os olhos afiados analisando cada detalhe do garoto ¨¤ sua frente. ¡ª Algu¨¦m com uma alma capaz de suportar o peso do meu poder. Algu¨¦m cuja ess¨ºncia pudesse me conter sem se despeda?ar imediatamente. Lucien sentiu um calafrio percorrer sua espinha. ¡ª O... o que isso significa? Aether n?o respondeu de imediato. Ele apenas observou Lucien com uma express?o que beirava a curiosidade e, talvez, algo semelhante ¨¤ satisfa??o. ¡ª Significa que, entre todos que vieram antes de voc¨º, suas almas fr¨¢geis n?o passaram de meros recipientes quebradi?os. N?o suportavam. Se desfaziam. Morrendo no momento em que tentavam carregar o que n?o podiam. Lucien estremeceu. ¡ª E eu¡­? ¡ª Voc¨º, por outro lado... ¡ª Aether estreitou os olhos, como se analisasse cada peda?o da alma do garoto. ¡ª Sua alma ¨¦ vasta. E mais do que isso... tem potencial. Aquelas palavras fizeram o cora??o de Lucien bater mais r¨¢pido. Potencial? Ele? O que isso significava? Aether deu um passo adiante, e Lucien quase recuou, mas algo o impediu. ¡ª Voc¨º ¨¦ incompleto, garoto. ¡ª A voz de Aether era firme, sem hesita??o. ¡ª Sua alma, apesar de vasta, tem um ¨²nico ponto que a preenche. Lucien engoliu em seco. Ele j¨¢ sabia o que viria a seguir. ¡ª Lucy. O nome de sua irm? foi dito com uma certeza inquestion¨¢vel. Lucien apertou os punhos. ¡ª E isso ¨¦ ruim? Aether ergueu uma sobrancelha. ¡ª N?o. Mas significa que, eventualmente, voc¨º ser¨¢ preenchido por mais. Lucien sentiu um arrepio. ¡ª O... que quer dizer com isso? Aether sorriu, mas n?o era um sorriso amig¨¢vel. ¡ª Que um dia, garoto, sua alma ser¨¢ inundada por puro poder. Lucien sentiu a respira??o falhar. Era dif¨ªcil entender o que aquilo significava, mas ao mesmo tempo... aquelas palavras causavam um impacto profundo dentro dele. Poder... Ele nunca pensou muito sobre isso. Mas agora... Agora ele sentia necessidade. Ele precisava de poder. Precisava para sobreviver. Precisava para proteger Lucy. ¡ª Voc¨º quer isso, n?o quer? A voz de Aether era baixa, mas intensa. Lucien hesitou. Ele queria. Ele precisava. Os dois homens iriam mat¨¢-lo a qualquer momento, mas o que ele poderia fazer? Era fraco e in¨²til. Mas ao mesmo tempo... ¡ª Eu n?o sou forte... Aether riu. Uma risada baixa, quase desdenhosa. ¡ª N?o seja tolo. Voc¨º nem sequer precisa de mim para lidar com aqueles vermes. Lucien arregalou os olhos. ¡ª O qu¨º...? ¡ª Mesmo sendo verde, mesmo sem controle, voc¨º j¨¢ ¨¦ mais do que capaz. Lucien abriu a boca, mas nada saiu. Aether o observou com algo parecido com expectativa. ¡ª Voc¨º n?o precisa pegar emprestado de mim, garoto. A for?a que voc¨º busca j¨¢ est¨¢ dentro de voc¨º. Eu apenas irei expandi-la em breve. Lucien sentiu um arrepio atravessar sua espinha. ¡ª Mas... como? Aether o encarou por longos segundos antes de responder. ¡ª Apenas descubra a origem de sua magia por enquanto. Use-a, e veja acontecer. Lucien sentiu seu cora??o disparar. Ele n?o entendia completamente. Mas algo dentro dele... Algo dentro dele come?ava a ansiar por aquilo. A realidade o atingiu como uma lamina fria. Lucien arfou, sentindo o choque brutal ao ser arrancado da escurid?o e lan?ado de volta ao mundo real. Seu corpo tremia violentamente, uma dor absurda percorrendo cada fibra de seu ser. A magia negra do assassino continuava a dilacerar sua alma. Ele sentia. Sentia como se estivesse sendo despeda?ado por dentro, como se partes suas fossem arrancadas e levadas para um lugar onde jamais poderiam ser recuperadas. O homem sem nome estava tenso, o olhar cravado no assassino, suando frio pela demora do processo. ¡ª O que diabos est¨¢ acontecendo? ¡ª ele rosnou, frustrado. O assassino n?o respondeu. Seu rosto estava p¨¢lido, os m¨²sculos retesados, a express?o distorcida em um misto de dor e esfor?o. Lucien ignorou tudo isso. Porque, pela primeira vez, ele n?o sentia apenas a dor. Ele sentia algo al¨¦m. Sentia... Os reflexos. Eles chamavam por ele. Mais alto do que nunca. Como um sussurro que ecoava em sua alma. Como algo que sempre esteve ali, esperando. E agora... Agora ele finalmente ouvia.