《Filho da morte [Português Brasil]》 De joelhos A sala era silenciosa como um t¨²mulo. No centro, um trono esculpido em obsidiana refletia a luz espectral de milhares de almas que vagavam pelo sal?o do submundo. Sentado nele, Damien encarava a imensid?o ¨¤ sua frente. Seu semblante era sereno, mas seus olhos carregavam um peso que mil anos de hist¨®ria n?o poderia ser explicado. Aos olhos dos mortais, ele seria apenas um jovem de fei??es marcantes, com cabelos negros como a noite e olhos que n?o cont¨ºm o infinito. Mas Damien sabia uma verdade: ele n?o era um jovem comum. Ele era os herdeiros do submundo, o Deus da Morte, destinado a julgar as almas e preservar o equil¨ªbrio entre os mundos. Era isso que ele deveria ser. Mas ele n?o queria. Completara mil anos naquele dia, um marco para qualquer jovem deus, mas a celebra??o apenas refor?ou seu desgosto. Os deuses esperavam que ele assumisse seu lugar ao lado do Hades, governando o submundo com m?os firmes e cora??o de pedra. Pers¨¦fone, sua m?e, sempre o encorajava, dizendo que ele traria equil¨ªbrio, que era especial. Damien, por¨¦m, n?o faz sentido. Ele sentiu que era uma sombra de seus pais, uma pe?a no grande tabuleiro dos deuses, sem controle sobre sua pr¨®pria exist¨ºncia. A morte n?o deveria ser um fardo, pensei ele. E se fosse mais do que isso? E se ele pudesse ser mais? Foi por isso que, naquele dia, ele tomou sua decis?o. "Eu n?o quero mais ser isso." Sua voz ecoou pelo sal?o vazio. Damien extravasou-se de seu trono, deixando para tr¨¢s a imponente cadeira esculpida em obsidiana. Enquanto caminhava pelo pal¨¢cio, seus olhos vasculhavam cada detalhe ao seu redor. O pal¨¢cio de Hades, no topo do submundo, era uma obra-prima sombria. Suas paredes negras reluziam ¨¤ luz de tochas eternas, e colunas decoradas com esculturas de almas dan?avam como sombras ¨¤ medida que ele avan?ava. Era vasto, grandioso, um reflexo de poder absoluto, mas Damien sabia que apenas uma pessoa realmente apreciava tudo aquilo: sua m?e. Hades, por outro lado, considerava o luxo uma distra??o desnecess¨¢ria. Se dependesse dele, viveria num quarto sem janelas, com apenas uma cama dura e um jarro de ¨¢gua. Essa simplicidade, no entanto, n?o foi suficiente para Pers¨¦fone, que transformou o ambiente em algo mais vivo ¨C ou t?o vivo quanto o submundo permitia. Damien esbo?ou um sorriso contido ao lembrar de como sua m?e e seu pai discordavam sobre isso. Apesar de toda a fama de severidade e frieza, Hades se rendeu aos desejos de Pers¨¦fone sem questionar. Era quase engra?ado ver um deus t?o temido ser t?o... humano ao lado dela. Balan?ando a cabe?a, Damien se livrou dos pensamentos. O que ele estava planejando fazer com foco total. Um ¨²nico erro, e correntes invis¨ªveis o prenderiam naquele lugar para sempre. Ele caminhou cont¨ªnuo at¨¦ chegar diante de uma porta giganteca, decorada com relevos que narravam a hist¨®ria do submundo. Ali, atr¨¢s daquela entrada, ficaram o quarto onde Hades e Pers¨¦fone governaram. Um local sagrado, acessado por poucos. Damien parou, respirou fundo e, com um leve empurr?o, abriu as pesadas portas. O som das dobradi?as ecoou pelo sal?o. De um lado, sua m?e, sentada em um trono de m¨¢rmore branco adornado com ramos dourados, ergueu o olhar surpresa. Do outro, seu pai estava em p¨¦ ao lado de seu pr¨®prio trono negro. Os olhos de Hades, profundos como o abismo, fixaram-se em Damien, mas sua express?o permanecia impass¨ªvel, quase indiferente. ¡°Damien, querido,¡± disse Pers¨¦fone, com a voz suave, embora carregada de preocupa??o. ¡°Aconteceu algo? Est¨¢ tudo bem?¡± Hades n?o falou nada, mas j¨¢ havia abandonado o que fazia. Ele apenas o observava, avaliando-o em sil¨ºncio. Damien respirou fundo e respondeu:Love this novel? Read it on Royal Road to ensure the author gets credit. ¡°Sim, aconteceu algo, mam?e... N?o, rainha do submundo.¡± Ele hesitou por um instante, sentindo o peso do olhar de Hades. As palavras estavam presas em sua garganta, n?o por medo, mas pela preocupa??o de como seus pais reagiriam. Mais importante, se eles o permitiriam prosseguir com seu pedido. Finalmente, ele se ajoelhou. A sala imediatamente se encheu de uma aura sombria, como se a pr¨®pria ess¨ºncia do submundo houvesse despertado. ¡°O que est¨¢ fazendo, Damien?¡± A voz de Hades soou como um trov?o. ¡°Um deus de joelhos? Est¨¢ tentando me envergonhar?¡± Os olhos de Hades ardiam com raiva, mas Damien n?o se moveu. Ele sabia que seu pai odiava submiss?o. Sempre o criara para ser forte, implac¨¢vel, um rei. Mas ali estava ele, ajoelhado diante do Deus dos Mortos. Pers¨¦fone, surpresa, n?o demonstrava raiva. Em vez disso, seus olhos estavam cheios de curiosidade. ¡°Por favor, rei Hades,¡± disse Damien, sua voz firme apesar da posi??o vulner¨¢vel. ¡°Eu tenho um pedido.¡± Hades estreitou os olhos, a aura ao seu redor intensificando-se como uma tempestade prestes a romper. Ele abriu a boca para falar, mas Pers¨¦fone ergueu a m?o, interrompendo-o. ¡°Diga, meu filho,¡± falou ela, sua voz calma, mas firme. Damien levantou o olhar, diretamente para os de seu pai, que agora estavam cheios de um fogo contido. Ele podia sentir o peso do poder de Hades, mas aquilo n?o o intimidava. Na verdade, teve que reprimir um sorriso. Ele sabia que a raiva de seu pai era, na maior parte, fachada ¨C uma li??o disfar?ada. ¡°Deixem-me ir para o mundo dos mortais.¡± O sil¨ºncio que se seguiu parecia quase palp¨¢vel. As sombras do sal?o pararam de se mover, como se o pr¨®prio submundo estivesse aguardando a resposta. Hades fechou os olhos por um momento, respirando fundo antes de responder, sua voz carregada de autoridade: ¡°Voc¨º entende o que est¨¢ pedindo, Damien? Uma vez fora daqui, n?o ser¨¢ tratado como um deus. Ser¨¢ ca?ado, temido, talvez at¨¦ odiado.¡± Damien assentiu, sua determina??o evidente. ¡°Sim, pai. ¨¦ exatamente por isso que preciso ir. Eu preciso entender o que significa viver... longe daqui.¡± Pers¨¦fone se inclinou ligeiramente para frente. ¡°E o que espera encontrar entre os mortais, meu filho? Eles n?o s?o como n¨®s.¡± Damien hesitou, mas ent?o respondeu: ¡°Respostas. Eu n?o quero ser apenas o Deus da Morte. Quero descobrir quem eu sou, al¨¦m do meu destino.¡± Hades abriu os olhos, observando-o com uma express?o mista de aprova??o e frustra??o. Pers¨¦fone trocou um olhar com o marido, e por fim, ambos se voltaram novamente para Damien. ¡°Se essa ¨¦ sua escolha,¡± disse Hades, sua voz carregada de peso, ¡°ent?o v¨¢. Mas lembre-se: o mundo mortal ¨¦ cruel, Damien. Eles n?o o aceitar?o facilmente. E se voc¨º falhar... n?o espere miseric¨®rdia ao retornar.¡± Damien sorriu, finalmente levantando-se. ¡°N?o espero nada, pai. Apenas a oportunidade de tentar.¡± E com essas palavras, ele deixou o sal?o, pronto para enfrentar o desconhecido. Damien caminhava pelas escadarias sombrias do pal¨¢cio, prestes a deixar o submundo pela primeira vez. Apesar de sua determina??o, o peso do momento era ineg¨¢vel. Antes de alcan?ar o portal que o levaria ao mundo mortal, ele ouviu passos leves atr¨¢s de si. Ao se virar, viu Pers¨¦fone, sua m?e, aproximar-se silenciosamente. Seu vestido esvoa?ava suavemente, como se as sombras ao redor a respeitassem, cedendo ¨¤ sua luz natural. "Damien," ela chamou, sua voz suave como o vento da primavera, mas carregada de melancolia. Ele parou e esperou que ela o alcan?asse. Quando o fez, ela estendeu a m?o, tocando gentilmente o rosto dele. ¡°Voc¨º tem certeza disso?¡± Pers¨¦fone perguntou, seus olhos refletindo preocupa??o e tristeza. Damien segurou a m?o dela, sentindo o calor reconfortante que sempre fora seu ref¨²gio. ¡°Eu preciso, m?e. Sei que ¨¦ dif¨ªcil para voc¨º, mas este lugar... eu n?o sinto que perten?o a ele. Talvez, entre os mortais, eu descubra quem realmente sou.¡± Ela suspirou, o olhar ainda fixo no rosto dele. ¡°Voc¨º ¨¦ meu filho, Damien, e isso significa que tem tanto a luz quanto a escurid?o dentro de voc¨º. O mundo mortal ¨¦ perigoso, ainda mais para algu¨¦m como voc¨º. Prometa que tomar¨¢ cuidado.¡± ¡°Prometo.¡± Pers¨¦fone retirou algo de dentro de seu manto, um pequeno pingente em forma de rom?, esculpido em ouro com pedras negras incrustadas. Ela segurou o colar entre os dedos e olhou para ele antes de coloc¨¢-lo no pesco?o de Damien. ¡°Este ¨¦ o meu presente para voc¨º,¡± disse ela. ¡°Este pingente est¨¢ ligado a mim. Sempre que se sentir perdido ou precisar de for?a, lembre-se de quem voc¨º ¨¦ e do quanto ¨¦ amado.¡± Damien segurou o pingente, sentindo uma energia reconfortante irradiando dele. Ele sabia que aquilo n?o era apenas um simples ornamento, mas uma conex?o direta com sua m?e e o submundo. ¡°Obrigado, m?e. Eu... nunca vou esquecer isso.¡± Ele a abra?ou, algo raro entre os dois. Pers¨¦fone, por um momento, segurou-o com for?a, como se n?o quisesse solt¨¢-lo. Quando eles se separaram, ela sorriu, mas seus olhos ainda estavam tristes. ¡°V¨¢, Damien. E n?o olhe para tr¨¢s. Voc¨º precisa trilhar seu pr¨®prio caminho.¡± --- Ao chegar ao portal, Damien encontrou Hades esperando. Ele n?o esperava que seu pai viesse se despedisse, mas ali estava ele, parado com sua postura firme e express?o austera. ¡°Pai,¡± Damien come?ou, sem saber bem o que dizer. Hades extravasou a m?o, silenciando-o. ¡°Voc¨º tomou sua decis?o, Damien, e eu respeito isso. Mas lembre-se de que o mundo mortal ¨¦ cruel. Eles v?o tem¨º-lo, odi¨¢-lo, tentar destru¨ª-lo. Voc¨º precisar¨¢ ser mais forte do que pensa ser.¡± Damien casual, mas antes de atravessar o portal, fez algo que surpreendeu at¨¦ o mesmo. Ele se ajoelhou diante do Hades novamente, mas desta vez n?o como s¨²dito, e sim como um gesto de gratid?o. ¡°Obrigado, pai,¡± disse Damien, mantendo a cabe?a erguida. ¡°Por tudo. Pelas li??es, pela for?a, e por confiar em mim o suficiente para me deixar ir.¡± Hades o olhou com olhos firmes, mas havia algo diferente em sua express?o ¡ª talvez uma centelha de orgulho. Ele colocou a m?o no ombro de Damien, um gesto raro, mas poderoso. ¡°Voc¨º ¨¦ meu filho¡±, disse Hades. ¡°E onde quer que voc¨º esteja, sempre ter¨¢ um lugar neste reino. N?o se esque?a disso.¡± Damien declarou-se, segurando o pingente que Pers¨¦fone lhe dera e sentindo o peso da m?o de Hades em seu ombro como uma vit¨®ria sinalizada. Sem mais palavras, ele se virou e atravessou o portal. Ao cruz¨¢-lo, senti o calor do sol pela primeira vez em cem anos. O mundo mortal estava diante dele, vibrante e vivo. Ele se comprometeu profundamente, pronto para enfrentar o desconhecido. ¡°Este ¨¦ apenas o come?o¡±, murmurou para si mesmo, com um leve sorriso. "Hora de descobrir quem eu realmente sou." Mundo mortal Damien emergiu na superf¨ªcie do mundo mortal ao entardecer, quando o c¨¦u se tingia de laranja e as primeiras sombras da noite come?avam a se estender pelas ruas. Ele apareceu em um beco deserto, longe de olhares curiosos, como era apropriado para algu¨¦m que desejava passar despercebido. Vestindo roupas simples que contrastavam com sua presen?a majestosa, ele observou o mundo ao seu redor, absorvendo cada detalhe com uma mistura de fasc¨ªnio e estranheza. O ar era diferente ali ¡ª menos denso, mais v¨ªvido. O barulho constante das vozes, das risadas e dos ve¨ªculos parecia ecoar de todos os lados, uma cacofonia que ele ainda n?o sabia como interpretar. Ele caminhou pelas ruas movimentadas, atraindo olhares ocasionais por sua apar¨ºncia p¨¢lida e aura misteriosa. Mas, para a maioria das pessoas, ele era apenas mais um entre tantos. Damien analisava tudo. A pressa com que os humanos se moviam, a forma como gesticulavam e riam, como se cada momento fosse precioso demais para ser desperdi?ado. "Eles vivem como se o amanh? fosse incerto," ele refletiu, passando os olhos pelas multid?es. Para ele, que vivia no eterno sil¨ºncio do submundo, esse mundo parecia ca¨®tico e desorganizado, mas havia algo profundamente cativante nesse caos. Enquanto caminhava, Damien viu um grupo de crian?as brincando em uma pra?a pr¨®xima. Suas risadas ecoavam pelo ar, e a pureza de suas a??es contrastava com a seriedade e o peso que ele carregava desde sempre. Ele parou por um momento, observando. "Eles s?o fr¨¢geis," pensou, "mas ¨¦ exatamente essa fragilidade que os torna t?o... intensos." Mais adiante, ele notou um homem idoso sentado em um banco, alimentando pombos. Havia calma em seus gestos, mas seus olhos carregavam hist¨®rias que Damien n?o precisava ouvir para entender. Ele sabia como a mortalidade moldava as pessoas. Ela criava uma urg¨ºncia que, para ele, era fascinante e estranha. "Eles correm contra o tempo, como se pudessem derrot¨¢-lo. Mas, no fim, todos chegam at¨¦ mim," ele ponderou, enquanto seguia seu caminho. --- Conforme Damien vagava, come?ou a perceber algo mais profundo no tecido do mundo mortal. Havia camadas ali, for?as que mantinham a ordem e, ao mesmo tempo, criavam tens?es. Humanos, semideuses e aqueles que ele passou a chamar de "aben?oados" coexistiam, mas nunca em plena harmonia. Os semideuses, com sua for?a e habilidades excepcionais, eram vistos como her¨®is ou amea?as. Eles protegiam cidades, lideravam ex¨¦rcitos, ou, em alguns casos, causavam destrui??o. Suas a??es eram sempre marcantes, e eles raramente passavam despercebidos. Para Damien, os semideuses representavam o lado mais evidente da influ¨ºncia divina no mundo. Os aben?oados, por outro lado, eram diferentes. Eles n?o tinham a for?a ou o poder dos semideuses, mas carregavam algo ¨²nico: fragmentos do poder divino. Ele notou um jovem entregador que, com uma velocidade quase sobre-humana, passava por ele na cal?ada. Em outra ocasi?o, viu uma mulher que parecia acalmar uma multid?o apenas com sua voz suave, uma habilidade claramente fora do comum. Esses humanos, embora n?o fossem semideuses, eram especiais. Eles carregavam a marca de deuses que haviam escolhido aben?o¨¢-los. Mas Damien tamb¨¦m percebeu o peso que essas pessoas carregavam. Seus poderes, mesmo que pequenos, os isolavam dos outros, tornando-os alvo de inveja e medo. "Eles s?o um lembrete de que os deuses nunca deixam de influenciar este mundo," pensou Damien. --- Enquanto a noite ca¨ªa, Damien parou em frente a uma grande est¨¢tua no centro de uma pra?a. Era uma representa??o de Zeus, com raios na m?o e uma express?o severa. Ao redor da pra?a, pequenos altares para outros deuses eram adornados com flores, moedas e alimentos. Humanos ainda faziam oferendas, s¨¦culos depois de os deuses terem se retirado para suas esferas. "Eles n?o esqueceram," ele percebeu. "Os deuses ainda vivem aqui, mesmo que em sombras e s¨ªmbolos." Damien sentou-se em um banco pr¨®ximo e observou a pra?a em sil¨ºncio. Ele viu humanos normais apressados, aben?oados tentando esconder suas habilidades, e semideuses andando com uma postura que transbordava confian?a. Todos eles eram reflexos de algo maior, partes de um mundo que ele mal come?ava a compreender. "Este mundo ¨¦ um equil¨ªbrio fr¨¢gil," concluiu Damien. "Mas ¨¦ nesse equil¨ªbrio que reside sua for?a... e talvez as respostas que eu procuro."A case of theft: this story is not rightfully on Amazon; if you spot it, report the violation. Ele olhou para o pingente em forma de rom? que carregava no pesco?o, um presente de sua m?e, e o segurou com firmeza. Ali, no cora??o do mundo mortal, ele decidiu que encontraria seu pr¨®prio caminho, mesmo que tivesse que desafiar tudo o que conhecia. A noite j¨¢ havia se estabelecido completamente, envolvendo a cidade em uma mistura de escurid?o e luzes artificiais. O ambiente parecia ganhar uma nova vida, e Damien n?o p?de deixar de notar como as pessoas mudavam suas atitudes ¨¤ medida que o sol desaparecia. Caminhando pelas ruas iluminadas por n¨¦ons, ele avistou um grupo de pessoas reunidas. Todas vestiam roupas extravagantes e brilhantes, com os rostos pintados de formas curiosas. O contraste entre o mundo sombrio do submundo e aquela explos?o de cores era quase demais para ele. Damien franziu a testa. Aquilo era... estranho. Ele nunca havia presenciado algo parecido em sua exist¨ºncia. No submundo, tudo era s¨®brio, grave, e regido por uma l¨®gica imut¨¢vel. Mas aqui, tudo parecia vibrar de uma maneira que beirava o caos. As luzes piscantes e as cores intensas come?avam a deix¨¢-lo levemente atordoado. Era como se o ambiente estivesse desafiando seus sentidos, provocando-o a entender algo que ainda escapava ¨¤ sua compreens?o. No entanto, algo naquele grupo capturou sua aten??o de forma quase instintiva. --- Damien possu¨ªa uma habilidade ¨²nica: ele podia enxergar as almas de todos os seres vivos ¡ª e at¨¦ mesmo os mortos. Para ele, as almas eram mais do que simples manifesta??es espirituais. Elas eram a ess¨ºncia de tudo, o fio que conectava o corpo f¨ªsico ao universo. Mais do que isso, Damien era capaz de ver o destino dessas almas, incluindo o momento em que a morte inevitavelmente as reclamaria. Enquanto seus olhos percorreram o grupo colorido, ele parou ao notar algo que n?o fazia sentido. Entre as pessoas risonhas e pintadas, havia uma mulher jovem, vibrante, sorrindo como se o mundo inteiro fosse um palco feito para ela. Mas sua alma... A alma daquela mulher n?o brilhava como as outras. Ela n?o pulsava com a energia vital que ele havia aprendido a reconhecer em todos os vivos. N?o, a alma dela era escura, morta. Damien estreitou os olhos, intrigado. Como isso era poss¨ªvel? Para ele, o corpo f¨ªsico era apenas uma casca que abrigava a alma, um recept¨¢culo que dependia dela para funcionar. Quando a alma morria, o corpo a seguia ¡ª era a ordem natural das coisas. Mas ali estava aquela mulher, t?o cheia de vida em apar¨ºncia, com uma alma que j¨¢ n?o existia. Ele observou cada movimento dela, buscando alguma resposta. Sua risada era leve, seus passos cheios de energia, mas aquela aus¨ºncia na alma era um grito silencioso que Damien n?o podia ignorar. "Um corpo vivo sustentado por uma alma morta... isso vai contra tudo o que eu conhe?o," pensou ele, o olhar fixo na mulher. A perplexidade deu lugar a um fasc¨ªnio sombrio. Ele sabia que precisava entender o que estava acontecendo. Afinal, no mundo mortal, tudo parecia ter regras pr¨®prias ¡ª regras que talvez at¨¦ ele, um deus, ainda n?o compreendia totalmente. Aproximando-se cada vez mais do grupo, Damien manteve os olhos fixos na mulher que o intrigava. Ele analisava suas caracter¨ªsticas com cuidado: pele clara, olhos brilhantes e cabelos tingidos de loiro. Ela era baixa, mas usava plataformas que lhe davam uma altura artificial. Estava adornada com uma variedade de acess¨®rios que, para Damien, pareciam completamente desnecess¨¢rios. "Por que ela usa essas coisas?" ele se perguntou, franzindo a testa. Mas ent?o lembrou-se de sua m?e, que decorava o pal¨¢cio com os objetos mais extravagantes s¨® porque os achava bonitos. Esse pensamento fez o colar que ele carregava, o presente de Pers¨¦fone, brilhar suavemente por um instante. Ao notar o brilho, Damien abriu um pequeno sorriso, um gesto raro e quase impercept¨ªvel, mas genu¨ªno. Nesse momento, ele j¨¢ estava pr¨®ximo o suficiente do grupo para ser notado. Ainda com os olhos fixos na mulher, ele parou ao ouvir uma voz feminina e sussurrante vinda do grupo: ¡ª Ei, amiga, olha aquele bonit?o sorrindo pra voc¨º. Parece que hoje ¨¦ o seu dia. A mulher virou-se na dire??o dele, curiosa, e seus olhos encontraram os de Damien. Ele j¨¢ havia parado de sorrir, mas, para sua surpresa, agora era ela quem sorria. Com um gesto confiante, ela acenou para que ele se aproximasse. Damien, intrigado e curioso, n?o hesitou. Ele se infiltrou entre o grupo, posicionando-se diante dela, o olhar firme, quase inabal¨¢vel. ¡ª Eu me chamo Damien. ¨¦ um prazer. Qual ¨¦ o seu nome? ¡ª ele perguntou com sua voz grave, por¨¦m gentil. O sorriso dela permaneceu, e sem aviso, ela se aproximou repentinamente, inclinando-se em dire??o ao ouvido dele. Damien podia ter impedido aquele gesto, mas n?o sentiu amea?a alguma vindo dela. Al¨¦m disso, sua curiosidade o impedia de recuar. ¡ª O que voc¨º disse? ¡ª perguntou ela, quase gritando devido ao barulho ao redor. Damien percebeu que estavam em uma fila para entrar em algum lugar extremamente ruidoso, provavelmente um bar ou casa noturna. Para ele, o som n?o era problema; seus sentidos divinos eram muito mais agu?ados. Mas, para ela, uma simples mortal, o ru¨ªdo parecia tornar qualquer comunica??o um desafio. Com um suspiro breve, ele imitou o gesto dela. Inclinando-se para seu ouvido, respondeu com clareza: ¡ª Seu nome. Eu perguntei o seu nome. Ela riu, inclinando-se para tr¨¢s e olhando diretamente para ele, o brilho nos olhos dela ainda mais intenso. Damien permaneceu s¨¦rio, mas havia algo sobre aquela mulher que come?ava a capturar sua aten??o de um jeito que ele n?o podia ignorar. Por tr¨¢s do sorriso e da atitude descontra¨ªda, aquela alma morta ainda pairava como um mist¨¦rio que ele precisava desvendar. Aproximando-se, a mulher respondeu com um sorriso no rosto: ¡ª Eu me chamo Ellie. E voc¨º? Damien franziu a testa, ligeiramente incomodado. Ele nunca foi muito soci¨¢vel, e em poucos segundos j¨¢ havia sido for?ado a repetir algo duas vezes. Ele n?o era do tipo que gostava de gastar palavras desnecessariamente. ¡ª Eu me chamo Damien. Que tipo de lugar ¨¦ esse? ¡ª perguntou diretamente, com um tom firme. Damien tinha conhecimento profundo sobre os humanos; seus mil anos de exist¨ºncia n?o foram vividos em v?o. Ele passara muito tempo observando e aprendendo sobre eles, mas nunca havia ouvido falar de algo como aquilo. Ellie arqueou uma sobrancelha, visivelmente intrigada com a pergunta. ¡ª Voc¨º n?o sabe o que ¨¦ uma boate? "Entendo, ent?o ¨¦ assim que chamam," pensou Damien, enquanto assentia em resposta. A confus?o de Ellie aumentou, mas logo foi substitu¨ªda por um sorriso travesso. ¡ª Por acaso voc¨º viveu em uma caverna isolada? Damien franziu a testa, sua express?o ficando ainda mais s¨¦ria. ¡ª Voc¨º est¨¢ certa. Como soube? O tom s¨¦rio de Damien pegou Ellie de surpresa. Ela piscou, confusa, antes de explodir em uma risada genu¨ªna. ¡ª Deuses, como voc¨º ¨¦ engra?ado, Damien! Damien observou a mulher sem compreender o motivo do riso. Ele n?o tinha inten??o de ser engra?ado, mas algo em sua resposta pareceu entret¨º-la. Sem aviso, Ellie segurou a m?o dele e o puxou para dentro do pr¨¦dio barulhento. ¡ª Vamos, voc¨º precisa ver por si mesmo. Damien n?o resistiu. A curiosidade pulsava em suas veias como uma segunda natureza, e sua busca por respostas era mais importante do que qualquer desconforto. Ele deixou-se levar, entrando no ambiente vibrante e ca¨®tico da boate, onde as luzes piscantes e a m¨²sica alta desafiavam todos os seus sentidos. "Talvez aqui eu encontre al guma pista sobre essa alma morta," pensou ele, enquanto cruzava a entrada, mantendo os olhos atentos em Ellie e no que viria a seguir. Máscara quebrada O ambiente dentro da boate era... ca¨®tico, pelo menos aos olhos de Damien. As pessoas se moviam de formas estranhas, algumas pulando desordenadamente, outras trocando gestos de afeto em meio ¨¤ multid?o. Para ele, aquilo era um espet¨¢culo incompreens¨ªvel. Era tudo barulhento, brilhante e desconexo demais, algo que jamais teria presenciado no submundo. Ele mal havia chegado ao mundo mortal, mas j¨¢ tinha uma certeza clara: os humanos eram criaturas fascinantemente estranhas. Damien fechou os olhos por um breve momento, concentrando-se em sua habilidade de observar as almas ao seu redor. Em meio ¨¤quela multid?o dan?ante, ele viu uma torrente de emo??es ¡ª divers?o, tristeza, solid?o, mal¨ªcia e, em alguns casos, um leve tra?o de amor... ou talvez apenas lux¨²ria mascarada. Ainda assim, nada daquilo o surpreendia. Esses sentimentos eram parte da ess¨ºncia dos mortais, afinal. Ele suspirou, cansado de estudar a confus?o ao redor, e voltou sua aten??o para Ellie, que segurava sua m?o, liderando-o por um caminho que parecia levar a um local mais reservado. Damien estreitou os olhos, analisando novamente a alma dela. Era ali que sua curiosidade despertava ainda mais. "Nada." N?o havia nada al¨¦m de uma escurid?o impenetr¨¢vel. Ele n?o via qualquer emo??o. Nenhuma alegria genu¨ªna, nenhuma tristeza reprimida, nenhum resqu¨ªcio de dor ou prazer. Apenas um vazio absoluto. Mas l¨¢ estava ela, sorrindo com vivacidade, exalando felicidade para os amigos e at¨¦ mesmo para ele. Como ela conseguia esconder t?o bem o vazio de sua alma? Ellie percebeu o olhar fixo de Damien e abriu um sorriso travesso, quebrando o sil¨ºncio: ¡ª O qu¨º? Ela fez uma pausa, olhando para as m?os de ambos antes de adicionar com um tom provocativo: ¡ª Ah... entendi. Deve ser a sua primeira vez segurando a m?o de uma mulher, n?o ¨¦? Damien abaixou os olhos para suas m?os entrela?adas, mas sua express?o permaneceu s¨¦ria. ¡ª Voc¨º ¨¦ algum tipo de or¨¢culo ou algo assim? A pergunta o surpreendeu tanto quanto a ela, que explodiu em risadas. Damien inclinou a cabe?a, observando-a atentamente. Ele n?o conseguia entender por que ela achava tudo t?o engra?ado. "O que h¨¢ de t?o c?mico em mim hoje?", ele pensou, frustrado. Balan?ando a cabe?a, como quem deixa de lado a d¨²vida, Damien deu um passo mais perto de Ellie e perguntou com calma: ¡ª Ellie, voc¨º est¨¢ bem? As risadas dela cessaram abruptamente. Seus olhos, antes cheios de mal¨ªcia brincalhona, tornaram-se curiosos, como se esperassem outra piada. ¡ª Claro que estou. Por que pergunta? Damien manteve a voz firme, mas algo em seu tom carregava a gravidade de um julgamento final: ¡ª Porque, aos olhos de todos aqui, voc¨º parece radiante e feliz. Mas aos meus... n?o ¨¦ nada disso que vejo. Tudo o que vejo em voc¨º ¨¦... escurid?o. A express?o de Ellie mudou instantaneamente. Seus olhos se arregalaram e seu sorriso morreu, como uma chama sufocada. Por um breve momento, ela parecia vulner¨¢vel, desarmada. A m¨¢scara que carregava com tanto cuidado havia sido quebrada por um estranho. Damien ficou parado, observando. Ele sabia que essa era a rea??o natural de algu¨¦m que tinha seus segredos expostos. E ainda assim, ele n?o recuou. Por longos segundos, Ellie o encarou em sil¨ºncio, sem dizer nada. O som ensurdecedor da m¨²sica e das pessoas ao redor parecia agora distante, quase inexistente. Sem aviso, ela o puxou pela m?o novamente, afastando-o do tumulto. ¡ª Para onde est¨¢ me levando dessa vez? ¡ª Damien perguntou, sua voz carregada de curiosidade genu¨ªna. Dessa vez, Ellie respondeu sem hesitar, mas sua voz era quase um sussurro desesperado: ¡ª Apenas me siga... por favor. O tom dela fez Damien arquear uma sobrancelha. Ele sentiu que havia algo mais profundo por tr¨¢s daquele pedido, algo que ela n?o estava pronta para revelar. Ele permitiu que ela o conduzisse, seus olhos fixos nas costas da mulher que agora parecia estar fugindo de algo ¡ª talvez de si mesma. Ellie guiou Damien por um caminho sinuoso, afastando-se da confus?o e da intensidade da boate. Conforme se distanciavam, o som ensurdecedor da m¨²sica foi gradualmente substitu¨ªdo pelo sil¨ºncio tranquilo da noite. O ar ao redor tornou-se mais fresco, carregando consigo o aroma de grama ¨²mida e flores silvestres. Ap¨®s alguns minutos de caminhada, eles chegaram a um pequeno parque escondido entre os pr¨¦dios da cidade. Era um espa?o sereno, quase esquecido pelo ritmo fren¨¦tico ao redor. O lugar parecia m¨¢gico de t?o calmo, como se pertencesse a uma realidade paralela. Um lago cristalino ocupava o centro do parque, refletindo o brilho p¨¢lido da lua cheia. Ao redor do lago, ¨¢rvores robustas estendiam seus galhos como guardi?s silenciosas, e algumas flores noturnas desabrochavam, exalando um perfume suave. Havia bancos de madeira simples ao longo da margem, posicionados estrategicamente para que os visitantes pudessem contemplar a beleza da ¨¢gua e do c¨¦u estrelado. Ellie finalmente parou, soltando a m?o de Damien e deixando escapar um suspiro. Ela caminhou at¨¦ a margem do lago e sentou-se na grama macia, abra?ando os pr¨®prios joelhos.If you encounter this story on Amazon, note that it''s taken without permission from the author. Report it. Damien permaneceu de p¨¦ por um momento, estudando o ambiente ao seu redor. Era diferente de qualquer lugar que j¨¢ tivesse visto. O submundo era sombrio e opressivo, enquanto esse lugar era calmo, vibrante e cheio de vida. A luz da lua, refletida no lago, parecia quase acolhedora, algo que ele n?o estava acostumado a sentir. Depois de alguns segundos, ele caminhou at¨¦ Ellie e sentou-se ao seu lado, mantendo uma distancia respeitosa. ¡ª Esse lugar... ¨¦ estranho. ¡ª Damien quebrou o sil¨ºncio, observando a ¨¢gua. ¡ª N?o ¨¦ como o resto da cidade. Ellie sorriu de canto, sem tirar os olhos do lago. ¡ª Eu costumava vir aqui quando era crian?a. ¨¦ um dos poucos lugares que ainda me fazem sentir... em paz. Damien arqueou uma sobrancelha, intrigado. ¡ª Paz? Parece algo que os humanos buscam, mas raramente encontram. Ela riu suavemente, mas havia um toque de melancolia em sua risada. ¡ª Voc¨º tem raz?o. Paz ¨¦ algo raro. Mas aqui... por um momento, eu consigo esquecer o resto do mundo. Damien observou Ellie mais de perto. Seu sorriso era pequeno, quase triste, e ela parecia mais vulner¨¢vel ali, longe das luzes e do barulho da boate. Pela primeira vez, ele viu algo diferente em seus olhos. N?o era escurid?o pura como antes, mas um tra?o de nostalgia, talvez at¨¦ arrependimento. ¡ª Por que voc¨º me trouxe aqui? ¡ª ele perguntou, sua voz baixa e direta. Ellie demorou alguns instantes para responder. Ela jogou uma pequena pedra no lago, observando as ondula??es na ¨¢gua antes de falar: ¡ª Porque voc¨º viu atrav¨¦s de mim. E achei que voc¨º merecia ver a parte de mim que nem todos enxergam. Damien n?o respondeu imediatamente. Ele olhou para o lago, as ondula??es se dissipando lentamente, e se perguntou se aquela mulher tinha mais a esconder do que ele inicialmente imaginara. O sil¨ºncio entre eles n?o era desconfort¨¢vel. Era um sil¨ºncio que carregava peso, como se as palavras n?o fossem necess¨¢rias naquele momento. O brilho da lua iluminava o lago, enquanto um vento suave fazia as folhas das ¨¢rvores sussurrarem. Damien inclinou-se para tr¨¢s, apoiando-se nos bra?os enquanto continuava observando a paisagem. Pela primeira vez desde que deixara o submundo, ele sentiu algo pr¨®ximo de tranquilidade. Talvez os humanos fossem realmente estranhos, mas, naquele lugar, havia algo que ele n?o podia negar: uma beleza genu¨ªna e ef¨ºmera que nunca teria encontrado em sua antiga casa. Ellie o observou por um momento, seus olhos carregando uma dor profunda. Ent?o, quebrou o sil¨ºncio com uma voz carregada de tristeza e ang¨²stia. "Voc¨º estaria disposto a ouvir minha hist¨®ria? ¨¦ a ¨²nica forma que tenho de responder ao que voc¨º disse antes." Damien a encarou, seus olhos intensos cravados nos dela. Ajustando sua postura, ele respondeu sem hesitar: "Sim, estou disposto." Ao ver a seriedade nos olhos dele, Ellie esbo?ou um sorriso t¨ªmido, o primeiro sorriso genu¨ªno que havia dado em muito tempo. "Minha hist¨®ria come?a antes mesmo de eu nascer..." Ela come?ou, sua voz agora mais baixa, como se cada palavra pesasse em sua alma. "Minha m?e era uma mulher incrivelmente bela. N?o era s¨® sua apar¨ºncia; havia algo nela que atra¨ªa as pessoas - for?a, coragem, um brilho que parecia vir de dentro. Homens a admiravam e a cortejavam em todos os momentos, mas ela lidava com isso com gra?a e firmeza, nunca se deixando abalar." Ellie fez uma pausa, seus olhos se perdendo na mem¨®ria. "Mas ent?o ela conheceu algu¨¦m diferente, um semideus. Ele era encantador ¨¤ sua maneira, mas havia algo obscuro nele, uma obsess?o. Ele a desejava de forma doentia, tentando conquist¨¢-la a qualquer custo. S¨® que minha m?e... minha m?e j¨¢ tinha dado seu cora??o a outro homem meu pai. Ele era um homem comum, mas para ela era tudo. Juntos, constru¨ªram um amor que n?o precisava de divindades ou poderes, apenas de respeito e lealdade." A voz de Ellie come?ou a vacilar. "Quando o semideus descobriu que minha m?e estava gr¨¢vida do homem que ela amava, ele ficou furioso. A obsess?o dele virou algo monstruoso. Minha m?e e meu pai tentaram de tudo para se proteger. Buscaram ajuda at¨¦ de outros semideuses, mas o pre?o que cobraram foi alto demais, e ainda assim, n?o foi suficiente." Ela respirou fundo, como se reunir for?as para continuar fosse uma batalha interna. "Meses se passaram, e eu finalmente nasci. Era para ser um momento de felicidade, de renova??o, mas foi a¨ª que eles baixaram a guarda. Foi quando ele nos encontrou. O semideus n?o era apenas poderoso, ele era cruel al¨¦m do que palavras podem descrever." Ellie apertou as m?os, a raiva e a dor transparecendo em sua express?o. "Ele matou meu pai na nossa frente, de forma lenta e brutal, fazendo quest?o de prolongar o sofrimento dele. Mas com minha m?e... ele foi ainda pior. Ela, que sempre foi t?o forte, t?o determinada, enfrentou horrores que ningu¨¦m deveria enfrentar. Ele destruiu sua beleza, arrancou seus dentes com socos, quebrou seu esp¨ªrito com palavras e atos. Ele a violentou, f¨ªsica e emocionalmente, por tr¨ºs dias seguidos. Ela lutou, Damien. Mesmo em meio ¨¤ dor, ela tentou proteger o que restava de sua dignidade. Mas ele n?o parou at¨¦ arrancar tudo dela." As l¨¢grimas come?aram a escorrer pelo rosto de Ellie, mas sua voz, embora embargada, continuou firme. "E ent?o, quando finalmente se cansou dela, ele a matou. Cortou a cabe?a da mulher mais forte que eu j¨¢ conheci, que n?o merecia nada do que ele fez. Ela morreu desfigurada, mas ainda assim era minha m?e. Minha hero¨ªna." Ela fez uma pausa longa, enxugando as l¨¢grimas, mas outras imediatamente tomaram o lugar das que secaram. "E quanto a mim? Ele me poupou. Um ato de miseric¨®rdia, voc¨º diria? N?o. Ele me deixou viva com uma maldi??o, correntes invis¨ªveis que me amarram a ele. Essa maldi??o me faz lembrar de tudo. Eu era apenas um beb¨º, mas cada grito, cada l¨¢grima, cada detalhe daquele dia est¨¢ gravado na minha mente. Um peso que nunca me deixa respirar em paz." Ellie olhou para Damien por um momento, tentando recompor-se. "Desculpe, n?o sei por que estou contando tudo isso para um estranho. Talvez porque voc¨º seja bonito demais para ignorar." Ela sorriu, um sorriso frustrado, enquanto mais l¨¢grimas escapavam. Damien a observou em sil¨ºncio, seus olhos inabal¨¢veis, esperando que ela continuasse. Ellie notou, e pareceu reunir mais for?as para concluir. "O semideus roubou tudo de mim, Damien. Minha fam¨ªlia, minha felicidade, minha liberdade. N?o consigo sentir alegria, nem com aquelas pessoas que chamam a si mesmas de meus amigos. Tudo o que fa?o ¨¦ fingir. Fingir que estou bem, que sou algu¨¦m radiante e feliz. Mas por dentro... n?o existe nada. Apenas uma escurid?o que eu nunca consegui escapar." Ao terminar, sua voz quebrou de vez. Ellie abaixou a cabe?a, limpando as l¨¢grimas novamente, como se estivesse envergonhada por mostrar tanta vulnerabilidade. Damien continuou im¨®vel, processando cada palavra que ela disse. Ele estava prestes a expressar sua curiosidade em cima dela, por¨¦m seu pingente brilhou sutilmente, fazendo-o mudar de ideia. Dentro dele, algo havia se mexido. Talvez fosse compaix?o. Talvez fosse admira??o pela for?a que ela ainda possu¨ªa, mesmo que escondida sob a dor. "Ellie," ele disse, finalmente, sua voz firme e calma, "voc¨º sobreviveu. Isso j¨¢ faz de voc¨º algu¨¦m extraordin¨¢rio.¡± Damien permaneceu em sil¨ºncio por um momento, os olhos fixos em Ellie, como se enxergasse al¨¦m de sua carne e ossos, al¨¦m da dor que ela carregava. Quando ele finalmente falou, sua voz era baixa, mas carregava um peso avassalador, como o eco de um trov?o distante. "Ellie," ele come?ou, cada palavra parecendo vibrar no ar ao seu redor, "voc¨º me contou uma hist¨®ria de dor, perda e injusti?a. Mas h¨¢ algo que precisa saber. Eu n?o sou apenas um estranho que cruzou o seu caminho. Eu sou Damien, o Deus da Morte... e da Vida." Ao pronunciar essas palavras, o ambiente ao redor deles mudou. O mundo parecia parar. O vento cessou, as ¨¢rvores ficaram im¨®veis, e o ar ficou denso, como se a pr¨®pria natureza reconhecesse a presen?a de algo imensur¨¢vel. Damien deu um passo ¨¤ frente, e em sua m?o materializou-se um objeto singular: um pequeno c¨¢lice feito de um metal negro, adornado com runas vivas que brilhavam em tons ora dourados, ora prateados. "Voc¨º est¨¢ diante de uma escolha, Ellie. E como o deus que rege o fim e o renascimento, eu lhe concedo o poder de decidir o que vem a seguir." Ellie o olhou, os olhos arregalados pela surpresa. Mas havia algo em sua presen?a que a impedia de question¨¢-lo. Era como se cada palavra que ele dissesse fosse incontest¨¢vel, a pr¨®pria verdade do universo. Damien ergueu o c¨¢lice, sua voz se tornando ainda mais grave e reverberante. "Este c¨¢lice cont¨¦m dois destinos. Um ¨¦ a morte definitiva. Se voc¨º beber deste lado..." Ele girou o c¨¢lice, e as runas douradas come?aram a brilhar intensamente. "Seu sofrimento acabar¨¢. A dor, a escurid?o, a maldi??o ¨C tudo ser¨¢ silenciado. Voc¨º ser¨¢ libertada de sua exist¨ºncia atormentada." Ele fez uma pausa, seus olhos sombrios cravados nos dela, antes de girar o c¨¢lice novamente. Agora as runas prateadas pulsavam com uma luz suave. "Mas, se beber deste lado, voc¨º renascer¨¢. N?o como a Ellie de agora, mas como uma nova vers?o de si mesma, com um prop¨®sito. Suas correntes ser?o quebradas, mas isso exigir¨¢ de voc¨º algo que muitos n?o t¨ºm: coragem para enfrentar a dor e transform¨¢-la em for?a." Ellie engoliu em seco, sentindo a gravidade da escolha. Sua mente era um turbilh?o. As palavras de Damien, a presen?a dele, tudo parecia surreal, mas ao mesmo tempo... absolutamente real. "Por que... por que voc¨º est¨¢ fazendo isso por mim?" ela perguntou, sua voz quase um sussurro. Damien inclinou a cabe?a, o c¨¢lice ainda seguro em sua m?o, sua express?o t?o neutra quanto a pr¨®pria morte. "Porque eu vejo algo em voc¨º, Ellie. Voc¨º ¨¦ mais do que a dor que carrega, mais do que o sofrimento que enfrentou. Mas se quiser desistir, eu n?o a julgarei. Meu papel n?o ¨¦ decidir por voc¨º, mas conceder-lhe a escolha que poucos t¨ºm: o poder sobre seu pr¨®prio destino." Ellie olhou para o c¨¢lice, suas m?os tremendo. As palavras de Damien ecoavam em sua mente. Morte definitiva ou renascimento? Fim ou um novo come?o? Ela sentiu as l¨¢grimas retornarem, mas dessa vez, n?o eram apenas de tristeza. Eram de medo... e de esperan?a. "Eu... eu n?o sei o que escolher," ela murmurou, a voz fraca. Damien deu um passo ¨¤ frente, aproximando o c¨¢lice dela, sua voz mais suave agora. "N?o h¨¢ pressa. Esta decis?o ¨¦ sua, e s¨® sua. Mas saiba disso: mesmo na escurid?o mais profunda, h¨¢ uma centelha de luz, esperando para ser encontrada." O ambiente continuou parado, o mundo parecendo segurar a respira??o, enquanto Ellie encarava o c¨¢lice, sabendo que o momento de sua escolha definiria n?o apenas seu destino, mas quem ela se tornaria dali em diante.