《A Escolhida. Portuguese》 A Espada. ¨¤ medida que os meus dedos rodeavam o cabo, sentia o meu cora??o bater e a terra a tremer sob os meus p¨¦s. Aquela espada era minha, n?o sabia porqu¨º, nem como, mas era minha. O meu dia come?ou como qualquer outro, levantei-me da cama e fui lavar a cara. Olhei-me no espelho, algo que tento evitar, visto que estou cada vez mais parecida com a minha m?e, menos as olheiras escuras que tenho abaixo dos olhos e a cor deles. Lembrar-me dela deixa-me sempre com ansia, mas n?o consigo desviar o olhar, limito-me apenas a fechar os olhos, enquanto a minha respira??o come?a a acelarar e o meu cora??o a bater com mais for?a. Sinto suor a escorrer da minha testa, e um arrepiar pelo meu corpo inteiro. Consigo tamb¨¦m sentir uma linha de energia a passar pelas minhas veias, uma dor que arde mas que me faz sentir adrelina como nunca tinha sentido antes. Subitamente, essa energia ¨¦ transferida para fora do meu corpo e eu vejo um vulto negro a antigir o espelho ¨¤ minha frente, deixando-o despeda?ado em menos de um segundo. "De novo n?o..." Sussurro e come?o a descartar as "provas do crime", deitando o vidro para o pequeno lixo ao lado da sanita. Com isto, lavo a cara novamente e abano a cabe?a. Agora tudo o que refletia eram peda?os do meu rosto, o que me deixava at¨¦ mais aliviada. Respiro fundo. Saindo da casa de banho para a cozinha, vejo que o meu pai j¨¢ se encontra na sala, sentado no sof¨¢ a ver televis?o, com a sua ch¨¢vena de caf¨¦ numa m?o e o comando da televis?o noutra. "Bom dia." Sinto os seus olhos em mim, mas como sempre, ele mant¨¦m-se calado e volta a aten??o para as imagens no ecr? ¨¤ sua frente. "Eu... parti o espelho da casa de banho sem querer..." Novamente, nada. Suspiro e dijiro-me para a cozinha, onde come?o a fazer os meus cereiais. Comi rapidamente e voltei para o quarto onde pude vestir a minha blusa roxa de gola alta e cal?as pretas. Estava a ficar frio, por isso coloquei umas meias altas e calcei os ¨²nicos t¨¦nis que tinha. Na casa de banho, fiz a minha higiene e quando terminei, vesti um casaco preto e coloquei a minha mochila. N?o disse nada ao meu pai, sa¨ª e fui a andar para a escola, que era apenas 15 minutos da minha casa. Eu gostava do passeio que fazia todas as manh?s. Apesar da neve sempre cair sobre os meus cabelos ¨C o que felizmente n?o se notava tanto j¨¢ que eles eram loiros ¨C e o meu rosto ficar sempre vermelho nas bochechas e nariz, o frio era de certa forma aconchegante. Enquanto andava, olhava para os sapatos a serem cobertos pela neve a cada passo que dava. Uns minutos se passam e eu sinto a necessidadede olhar para o meu rel¨®gio. Ao ver as horas, abri a boca e arregalei os olhos. "Merda!" Sem dar conta, j¨¢ estava 5 minutos atrasada, e a minha primeira aula era de matem¨¢tica. A professora de matem¨¢tica odiava atrasos, e o meu pai odiava cartas dos professores sobre os meus atrasos, que s¨® por acaso, eram regulares. Sem hesitar, come?o a acelerar o passo, e nem segundos depois, vejo-me a correr, agora sempre com o meu olhar na escola. A minha respira??o estava ofegante, o meu cora??o acelerado. Como ¨¦ que me pude atrasar? N?o demorei a comer. O alarme tocou ¨¤s horas certas! Como ¨¦ que- De repente sinto a minha canela esbarrar contra algo duro, e antes de perceber o que estava a acontecer, caio no ch?o. Fico ali por algum tempo, com o frio da neve na minha cara e a dor na canela aumentar. If you spot this tale on Amazon, know that it has been stolen. Report the violation. Coloco as palmas da m?o na superf¨ªcie branca e fa?o for?a para me levantar, olhando para tr¨¢s, para a causa da minha queda. Parecia uma grande bola de pelo branco, camuflava-se perfeitamente com a neve ¨¤ nossa volta. Parecia um... animal? Aproximo-me para o tocar, mas antes de o poder fazer, a criatura levanta-se e boceja, como se a pancada que me fez quase partir o nariz para ele fosse apenas um leve empurr?o. Sinto os olhos do que agora percebo ser um c?o em mim, olhos estes... iguais aos meus. O olho direito era castanho e o olho esquerdo era azul. Igual a mim. "¨¦s t?o bonito..." aproximo a minha m?o do seu focinho e consigo finalmente sentir a sua pelagem. Nunca tinha sentido nada t?o macio. O pelo era quentinho e completamente branco, de comprimento longo, e estranhamente nada emaranhado para um c?o sem coleira, supostamente sem dono. Sem mais nem menos, o animal come?a a andar para a direita, onde se encontrava uma floresta muito conhecida pelas suas lendas da Espada Celeste, espada da Escolhida. Diziam ser ali que a arma estava a ser guardada pela est¨¢tua da Deusa das Estrelas. Qualquer pessoa podia simplesmente ir e tentar a sua sorte de se tornar a pr¨®xima Escolhida, mas o que se diz ¨¦ que se nasceste sem poderes, j¨¢ nasceste com azar. Isso e nascer com magia negra. J¨¢ experienciei v¨¢rias vezes feixes de energia negra, mas desde pequena fui ensinada que n?o devia mostrar os meus poderes, porque os portadores de magia negra, ou como muitos dizem, magia "proibida", ou at¨¦ "impura", acabariam mortos se fossem descobertos. Foi isso que aconteceu h¨¢ 23 anos atr¨¢s. A Escolhida ¨C agora morta ¨C foi capaz de encontrar todos os portadores de magia negra e matou-os sem pensar duas vezes. Tudo isso em menos de um ano. Uma sociedade inteira, morta. Bem, h¨¢ 17 anos nasci e azar caiu sobre a minha fam¨ªlia quando se descobriu que o sangue que corria pelas minhas veias era impuro. E agora aqui estou, sentada no ch?o a olhar para um c?o que parece estar a tentar comunicar comigo. Mas ¨¦ um animal, e eu n?o falo a l¨ªngua do ladrar. Respirei fundo e expirei enquanto me levantava e aproximava-me da criatura, que j¨¢ teria come?ado a caminhar para dentro da floresta. Nunca tinha entrado neste lugar. Tento afastar-me de tudo o que se relaciona com magia, tento ficar o mais longe poss¨ªvel. Mas finalmente aqui, vejo que ¨¦ mais bonito do que pensava, ¨¦ mais... vulgar do que eu pensava. As ¨¢rvores estavam cobertas por uma manta branca. O ch?o uma carpete de neve, com as ervas mais altas ainda verdes. Uns minutos se passam, e o caminho por que aquele c?o estava a andar come?a a tornar-se cada vez mais estreito, cada vez mais escondido. Agora estava noutro territ¨®rio, sentia a mesma sensa??o de manh? a tomar conta de mim novamente, mas n?o era intrusivo, n?o era doloroso, simplesmente estava l¨¢, a nadar no meu sangue, a aquecer-me o corpo. Soube a¨ª que era a floresta a falar comigo, a magia daquele lugar a tentar entrar na minha mente, a tentar conhecer-me. "Tu n?o ¨¦s um c?o normal... certo?" Olho para o animal, e este devolve-me o olhar, mas logo volta a olhar para a frente. A minha vis?o percorre as ¨¢rvores daquele local, que come?aram a dobrar-se e a criar um t¨²nel pela dire??o que ¨ªamos. Com isso, mais neve come?ou a cair sobre mim, mas esta rapidamente se evaporava e se tornava particulas de magia. Reconhi estas part¨ªculas como sendo a magia mais pura que existia, alguns dizem que s?o as almas de todas as Escolhidas que j¨¢ existiram juntas. N?o sei ao certo o que s?o, mas lia v¨¢rios livros de magia antes, e sei que a Espada Celeste possu¨ª a magia mais pura do mundo, chamada de magia da luz. O total contr¨¢rio de magia negra. E se eu estava a ver a particulas da magia pura, s¨® podia querer dizer uma coisa... Devido ¨¤ minha distra??o das part¨ªculas, acabo por esbarrar novamente contra o c?o, que j¨¢ teria terminado a sua rota e estava agora parado ¨¤ minha espera. ¨¤ espera de eu ver o motivo dele me ter trazido aqui. Ao olhar para a frente, deparo-me com uma est¨¢tua um pouco mais alta que eu, coberta de videiras e outro tipo de vegeta??o. Pelo tamanho, j¨¢ estavam aqui ¨¤ muito tempo, no entanto a est¨¢tua estava perfeita, sem algum sinal de decomposi??o. Havia uma fenda feita pelas ¨¢rvores que davam permiss?o ao sol para iluminar aquela esbelta figura. Os seus cabelos eram longos, e parecia usar um vestido com v¨¢rias camadas, e alsas ca¨ªdas nos ombros. Mas o destaque principal, era o que a est¨¢tua aparentava agarrar ao peito. Uma espada de cabo completamente branco, e a lamina quase igual, embora ainda tivesse travos acizentados do metal. Percebi ent?o que era esta a Espada Celeste. Era esta a est¨¢tua da Deusa das Estrelas. "Era isto que me querias mostrar, c?o?" Eu pergunto, mas obviamente, n?o obtive resposta. "Eu n?o devia estar aqui, eu sou talvez a ¨²ltima pessoa que devia estar aqui!" Digo, virando a minha aten??o para o caminho de volta ¨¤ cidade. Por¨¦m, ao olhar de novo para aquela mulher, algo em mim dizia que era aqui que devia estar. Observo novamente a espada, e por modo autom¨¢tico, os meus p¨¦s come?am a se mover. Os meus passos dirigem-me at¨¦ aquele artefacto, e o c?o afasta-se, dando-me o espa?o que precisava para finalmente ficar diante da mulher, diante da Espada. As minhas m?os come?am a tremer, mas isso n?o me impede de as levantar e segurar no cabo. Assim que o toquei, o ch?o abaixo dos meus p¨¦s come?a a tremer e ou?o os p¨¢ssaros que estavam nas ¨¢rvores voar para longe, contudo segurei com mais vontade na arma e fechei os olhos com for?a. ¨¦ agora ou nunca. O meu cora??o est¨¢ acelerado, e as minhas m?os est?o a ficar suadas, mas j¨¢ estou aqui, s¨® tenho de puxar. S¨® tenho de puxar. S¨® tenho de- Os dedos da est¨¢tua que apertavam a espada soltam-se de repente, e pude assim afastar-me enquanto segurava o cabo com for?a. Boquiaberta e com os olhos fixos naquela espada, noto que a terra parou de tremer e os ¨²ltimos p¨¢ssaros j¨¢ teriam ido embora. Olho para o c?o, que n?o parece nada entusiasmado sobre o que acabou de acontecer. Mas isso n?o me deixou abalada, sorri como se fosse natal e abanei a espada como se fosse um trof¨¦u. Mas como sempre, n?o pude ficar feliz durante muito tempo, porque antes de poder fazer alguma coisa, sinto um raio de energia correr pelas minhas veias. A dor voltara, e a minha vis?o estava agora turva. Olho para as minhas m?os, e vejo que a espada, uma vez branca, come?ara a tomar uma cor preta. O cabo, at¨¦ a lamina de metal estavam a ficar completamente escuros. Oi?o um estrondo, e quando retomo o olhar para a est¨¢tua, deparo-me com um cen¨¢rio antigo, estragado. O m¨¢rmore da est¨¢tua em ru¨ªnas, parecia que estava em decomposi??o h¨¢ anos. Confusa, procuro respostas no c?o, mas para minha surpresa, o animal j¨¢ n?o estava l¨¢. Olho em volta, olho para a mulher, olho para a espada. Nada. Sil¨ºncio total. "O que ¨¦ que eu fiz?" A Escolhida. Com a espada agora completamente escura, come?o a correr para casa. Fa?o os meus m¨¢ximos para n?o escorregar, mas percebo que a neve derrete-se ¨¤ medida que a piso e a erva por baixo dela come?a a perder a cor verde. Fica tal igual ¨¤ minha espada. As ¨¢rvores que antes formavam um t¨²nel, agora pareciam desfazer-se em cinzas. Olho para tr¨¢s, tudo aquilo parecia o resultado de um inc¨ºndio, mas n?o havia fogo. Finalmente termino a minha corrida quando chego de novo ¨¤ cidade, no local exato onde me tinha esbarrado contra aquele c?o. Com a minha respira??o ainda ofegante, volto o meu olhar para a floresta, e perplexa, observo com aten??o o cen¨¢rio diante de mim. A folhagem verde e a neve branquinha teriam desaparecido, tudo o que sobrava agora eram cinzas e part¨ªculas escuras que flutuavam no ar, tal como a magia pura que vi. Mas isto de longe era magia pura. Sinceramente, parecia mais o p¨® que tinha na cave debaixo da minha casa... Suspiro e olho para a espada que tenho segurado este tempo todo. Felizmente esta ¨¢rea da cidade n?o era muito frequentada a estas horas. Geralmente s¨® se via tanto movimento quando os adolescentes sa¨ªam da escola e vinham testar sua sorte, ou apenas tirar fotos com a est¨¢tua. Bem... agora era imposs¨ªvel. Ao ver que n?o tem ningu¨¦m por perto, agacho-me e deixo a minha mochila e espada no ch?o. N?o vai ficar muito bem escondida, mas ¨¦ melhor do que a levar na m?o. Abro o fecho da mala e tento colocar a espada l¨¢ dentro. Como ¨¦ ¨®bvio, o cabo fica de fora, mas melhor nunca conseguirei. Fecho o que consigo da mochila, volto a coloc¨¢-la ¨¤s costas e come?o ent?o a andar para casa. O al¨ªvio no meu peito vem ¨¤ tona ao ver que estou com neve nos meus p¨¦s novamente, e a cinza daquele local que ca¨ªa sobre mim teria sido substitu¨ªda pelos floquinhos de neve pousados na minha cabe?a. Foi o suficientemente para me deixar com um sorriso no rosto, sorriso este que some ao me aperceber que estou ¨¤ frente da minha casa. A minha m?o treme enquanto se aproxima da ma?aneta. N?o sei se ¨¦ do frio, ou do facto de ter de explicar ao meu pai porque voltei para casa uma hora depois de sair para ir para a escola. Mas algo dentro de mim reconhia o motivo, e de longe era a primeira op??o. Respiro fundo e rodo a ma?aneta, pinsando o ch?o de casa e segundos depois fechando a porta. "Hum... comecei a sentir-me mal disposta, por isso voltei..." Digo ao olhar para a sala, onde o meu pai continua sentado, agora com a caneca de caf¨¦ na mesinha ¨¤ frente do sof¨¢, mas ainda com o comando na m?o. No seu estilo habitual, n?o me responde, por isso decido ir logo para o meu quarto. Sem demoras, abro a mochila e retiro a espada, ¨¤ procura de um lugar para a esconder. Os meus olhos percorrem o quarto, a cabeceira, o meu arm¨¢rio, a secret¨¢ria... mas uma lampada acende-se na minha mente quando olho para a minha cama. Levanto com cuidado o colch?o e coloco ent?o a arma por cima do estrado. Agora sim, tudo estava bem novamente, e melhor ainda, tenho um dia livre de aulas. Aproveito ent?o para fazer o que fa?o melhor...deitar-me na cama a ler um livro. Pego no meu livro, deito-me debaixo dos len?¨®is, e come?o a ler. Tendo a habilidade de magia negra, os meus pais sempre me incentivaram a conhecer as minhas ra¨ªzes. Eles n?o gostavam do que eu era capaz, por isso os livros que me davam, ou at¨¦ os filmes que me colocavam a ver tinham uma m¨¢ conota??o contra a magia negra. Mesmo assim, adotei uma paix?o por ler t¨®picos de magia. O livro que segurava nas m?os agora contava a hist¨®ria das estrelas, e como elas ajudaram a sua Deusa criar o planeta em que estamos. Supostamente, ela fez com que o universo, que ainda estava totalmente vazio, explodisse e criasse v¨¢rios planetas, estrelas, e at¨¦ buracos negros. Acho que ¨¦ qualquer coisa "Bang"? N?o sei, este livro ¨¦ um pouco confuso para mim. Se ela fez os planetas e as estrelas, quem ¨¦ que a fez? Uns minutos se passam, e depois uma hora ou duas, e quando dou por mim, estou... naquela maldita floresta de novo? N?o ¨¦ poss¨ªvel, s¨® pode ser um sonho! Mas ¨¦ tudo t?o real. As ¨¢rvores em cinza, a neve derretida, a est¨¢tua partida. Mas a espada... a espada n?o est¨¢ aqui. Procuro a minha mochila mas esta tamb¨¦m teria desaparecido. Era s¨® eu, o cen¨¢rio sombrio e a figura da mulher, agora a olhar diretamente para mim. Tento fugir no sentido contr¨¢rio, mas por algum motivo n?o consigo sair do lugar. Olho para a mulher, mas para minha surpresa, ela j¨¢ l¨¢ n?o est¨¢. "Como ¨¦ que...?" Oi?o a minha voz ecoar e a minha respira??o ficar mais pesada. O sil¨ºncio era intenso, com o ¨²nico som a se ouvir sendo o meu f?lego. Decido respirar fundo e fechar os meus olhos, certa de que quando os voltar a abrir, a est¨¢tua estar¨¢ l¨¢ novamente. Abro os olhos. Nada. Pergunto-me o que est¨¢ a acontecer, e ao virar-me de costas, sou subitamente levada para o meu quarto. Agora estou deitada, e diante de mim, em p¨¦ na cama, est¨¢ a minha m?e a segurar a espada, que teria voltado ¨¤ sua cor original. "M-m?e?!" Era imposs¨ªvel ela estar aqui. Ela estava morta, enterrada a seis p¨¦s de profundidade no cemit¨¦rio da cidade. Antes de me poder sentar na cama, ela aperta o cabo da espada e, com um movimento mais r¨¢pido que podia prever, perfura o meu peito com a sua lamina. Sinto meu cora??o disparar, e em pouco tempo acordo sobressaltada e com a minha respira??o acelerada. Sento-me na cama e aperto o meu peito com for?a, tentado processar o sonho que acabei de ter. "Kate, tem algu¨¦m ¨¤ porta!" N?o consigo pensar durante muito tempo, pois minutos depois, oi?o o meu pai chamar-me. Sempre que algu¨¦m batia ou tocava ¨¤ porta, ele chamava-me para ser eu a abrir. Suponho que se fosse um ladr?o ou algo parecido, o meu pai preferia que eu fosse assaltada. Isso ou adorava aquele sof¨¢. Nesta situa??o, acho que s?o ambas as op??es. "Kate!" "Vou j¨¢!" Grito de volta enquanto me levanto da cama. Come?o a andar at¨¦ ¨¤ entrada, e oi?o algu¨¦m a bater ¨¤ porta. O corredor por que passo d¨¢ para a sala, que em consequ¨ºncia d¨¢ para a entrada, j¨¢ que est?o na mesma divis?o, e ao chegar, percebo que o meu pai teria baixado o volume da televis?o. Talvez quer saber quem est¨¢ no outro lado da porta, mas n?o ¨¦ homem suficiente para abri-la e tem de pedir ¨¤ filha. Oi?o o bater novamente, tr¨ºs toques. Sinto os olhos do meu pai em mim, e sem sequer olhar pelo buraquinho, abro a porta. A mulher perante mim era alta, com o cabelo negro longo e os olhos rasgados, a sua pele era clara e o sorriso que emitia era t?o rosado como as flores no jardim da escola. Usava um vestido longo vermelho, com as mangas cortadas nos ombros, parecia at¨¦ que n?o sentia o frio que estava. Mas o que mais me deixou curiosa foi a pedra que ela segurava na sua m?o esquerda. Parecia um cristal, completamente branco, que brilhava mais que os postes da nossa rua. Era quase cegante. Stolen content warning: this tale belongs on Royal Road. Report any occurrences elsewhere. "Oh, pe?o desculpa!" Ao perceber os meus olhos quase fechados por conta da luz que emanava da pedra, a senhora tirou da sua pequena bolsa um len?o que colocou por cima da origem da minha futura cegueira. Agora, n?o brilhava tanto, j¨¢ dava para olhar diretamente para aquilo. "Assim est¨¢ melhor?" Aceno e volto a olhar para ela "Ent?o...o que a traz aqui?" Sem responder, a mulher decide entrar em casa como se fosse dela e come?a a analisar o local. Os olhos dela v?o para a sala, depois para o corredor, depois para a cozinha. Vejo que o meu pai est¨¢ agora de bra?os cruzados a observar a nossa visita, mas continua calado. Enquanto anda pela sala, ela olha para todas as nossas decora??es, para a televis?o, e muito provavelmente para o p¨® acumulado ao longo dos anos. Eu fazia a limpeza toda ¨¤ casa. N?o s¨® isso, eu fazia tudo em casa, mas ¨¤s vezes escapavam-me lugares, tipo a lareira que a senhora estava agora a ver. Noto que algo ganha a sua aten??o ao ver os seus olhos arregalarem com a vis?o da moldura ¨¤ sua frente. ¨¦ a moldura da minha m?e. Sempre que vejo aquela fotografia sinto um calor no cora??o que mais ningu¨¦m me consegue fazer sentir. ¨¦ n¨ªtido que a senhora sente o mesmo, porque o seu sorriso fica mais pequeno, mas de certa forma, mais genu¨ªno. Ela respira fundo e olha para mim novamente. "N?o era suposto estares na escola, menina?" Pergunta, levantando uma sobrancelha. "E-eu senti-me mal disposta..." Tanto eu como as duas pessoas naquela sala sabemos que aquilo era uma mentira descarada, mas parece que ningu¨¦m quer saber. O meu pai continua neutro, e a mulher apenas diz um ''hm'', e decide sentar-se na poltrona ao lado do sof¨¢. "Ent?o explica-me porque ¨¦ que esta j¨®ia brilha da forma que brilha quando est¨¢ perto de ti." Ao terminar a frase, ela atira a pedra mencionada para as minhas m?os e por pouco que n?o a apanho. Com o s¨²bito movimento, o lencinho que cobria a j¨®ia cai no ch?o, deixando-me temporariamente cega de novo. Sem saber o que fazer, vou at¨¦ ao sof¨¢ e coloco a j¨®ia por baixo de uma das almofadas. Olho para a mulher novamente, as minhas sobrancelhas franzidas e os punhos cerrados. "J¨¢ chega!" Grito. "O que ¨¦ que voc¨º quer?! Quem ¨¦ a senhora?! E o que raios ¨¦ aquela rocha?!" "Rocha?!" Ofendida com o termo, a mulher levanta-se e fica de frente para mim com o olhar de um drag?o. Literalmente, as pupilas dela mudam completamente de forma e eu posso jurar que vejo fumo a sair das suas narinas. "Aquilo ¨¦ uma das j¨®ias mais raras do mundo! Como ¨¦ que-" Ela cala-se de repente, entrela?ando os dedos uns nos outros e deitando uma ¨²ltima bufada de fumo. Oi?o-a murmurar enquanto abana levemente a cabe?a para os lados, mas n?o consigo entender o que diz. Com um suspiro, ela continua: "O meu nome ¨¦ Ch¨­ Li Baker. Sou a diretora da melhor escola de magia do mundo! E esta j¨®ia ¨¦ de imensa importancia, ok. E tu ¨¦s...?" A atitude da aparente diretora muda por completo ao se apresentar. Talvez falar sozinha ajuda as pessoas ficarem calmas... "Kate Garrison..." "Bem, Kate, eu n?o vou atrasar mais isto." Sinto o olhar dela a penetrar o meu. "Sabes o que fizeste?" Os meus olhos, tal como a minha boca, abrem, mas tento esconder o espanto. Ela sabe. Ela sabe e ¨¦ ¨®bvio que ela sabe! Ela ¨¦ diretora de uma escola de magia. O meu cora??o come?a a acelarar, a minha casa era agora uma sala de interroga??o, iguais ¨¤quelas que vejo nos filmes policiais com o meu pai ¨¤s vezes. Bem, eu vejo, pelo menos, ele fica a dormir b¨ºbado no sof¨¢. Sem saber o que dizer, olho para o meu pai que, consequentemente, tamb¨¦m est¨¢ a olhar para mim. A sua express?o diz mil palavras, ele est¨¢ t?o curioso como a senhora Baker para ouvir a minha resposta. Mordo o meu l¨¢bio a pensar no que poderei dizer para escapar desta situa??o, mas as minhas bochechas come?am a aquecer no meio daquele frio e revelam que de facto estou a esconder algo. "Foi o c?o! O c?o ¨¦ que me levou para aquela floresta, ok?! E-ele disse- bem, n?o disse, ele ¨¦ um c?o, mas ele deu a entender que eu tinha de tentar tirar a espada daquele lugar!" As minhas palavras correm uma maratona enquanto falo. Agora j¨¢ n?o dava para voltar atr¨¢s. "E a espada saiu e depois ficou tudo escuro e negro e-" "Que espada?" Antes que me pudesse enterrar mais, o meu pai interrompe-me. Era sempre estranho ouvir a sua voz, especialmente quando esta era direcionada a mim. "A espada da Escolhida." Sem me deixar responder, a diretora decide falar, e sinceramente, at¨¦ prefiro assim. O sil¨ºncio entra na sala como se tivesse chegado como ¨²ltima visita, e antes que ambas pudessemos dizer alguma coisa, oi?o o meu pai a rir. O seu riso era de certa forma pertubador, j¨¢ que n?o o oi?o rir ¨¤ 12 anos. Estou a exagerar, ¨¤s vezes ele d¨¢ umas risadinhas para a televis?o. Mas nunca para mim, nunca para algo relacionado a mim. Era estranho, era assustador, mas era bom finalmente ouvi-lo a rir como uma pessoa de verdade. "Est¨¢ a dizer-me que a minha filha, que ela" ele aponta para mim "¨¦ a Escolhida?" Questiona-se, claramente espantado, mas ainda entre risos. "Sim, porque seria isso motivo de piada?" A diretora v¨º-se incr¨¦dula com a falta de apoio que o meu pai tem por mim. Fico calada. Nada que n?o esteja habituada. "Com todo o respeito, diretora, mas a senhora est¨¢ na casa errada." "Como se atreve dizer isso quando a j¨®ia-" "A Kate tem magia negra." E o sil¨ºncio volta. A diretora olha para mim, e por um mil¨¦simo de segundo, vejo os olhos da minha m?e, o momento em que descobriu que a sua querida filha possu¨ª a "magia proibida". Eu sabia que ela nunca me discriminou, ela nunca teve medo de mim. Ela tinha medo das pessoas, de como elas iriam reagir. E acima de tudo, ela tinha medo que a pr¨®xima Escolhida, quem quer que ela fosse, tentasse terminar o trabalho incompleto da antiga. Ela sempre me protegeu, e o meu pai sempre protegeu esta fam¨ªlia. Quem me dera poder dizer o mesmo atualmente. "Isso ¨¦ imposs¨ªvel..." A diretora sussurra, sempre com os seus olhos em mim. "Foi o que disse." O meu pai responde. "Por acaso..." Decido quebrar o meu sil¨ºncio. "Eu acho que ¨¦ verdade." Agora, os dois estavam a olhar para mim, ambos ¨¤ espera de um resposta mais complexa para entender esta hist¨®ria toda. Suspiro e vou at¨¦ ao quarto, onde retiro a espada debaixo do colch?o. Ao voltar para a sala, os olhares j¨¢ n?o estavam em mim, mas sim naquele artefacto m¨¢gico. Vejo a diretora a aproximar-se e a tirar-me a espada da m?o bruscamente. N?o contrario, provavelmente faria o mesmo se estivesse ¨¤ procura da Escolhida e ela me aparecesse com a sua arma totalmente diferente. "Porque ¨¦ que ela est¨¢ desta cor?! O que ¨¦ que tu fizeste?!" N?o era preciso olhar para ela para ver que estava aterrorizada. A sua cara, at¨¦ a sua voz, parecia que tinha acabado de ver um assassinato ¨¤ sua frente. "Eu n?o fiz nada! Ela ficou dessa forma assim que a tirei da est¨¢tua." "Posso ver?" O meu pai estava agora em p¨¦ um pouco atr¨¢s da diretora, que lhe deu a espada. Ele come?a a observar a espada, a examin¨¢-la com cuidado. A minha ansiedade aumenta. Se ele n?o gostava de mim antes, ent?o agora vai odiar-me de verdade ao perceber o que aconteceu ¨¤ espada mais conhecida e mais adorada do mundo. D¨¢ para cortar a tens?o naquela sala com uma faca. N?o sei quanto tempo se passa, mas estou cada vez mais ansiosa, com medo do que ele possa vir a dizer. ¨¦ ent?o que ele olha para mim, depois para a diretora. "Isto ¨¦ apenas uma teoria, mas..." ele pausa. "acho que esta espada foi corrompida pela magia da Kate." Com a revela??o, a mulher come?a a arejar-se a si mesma e senta-se no sof¨¢, como se estivesse quase a desmaiar. "E quanta certeza tem dessa teoria?" "Cem porcento. J¨¢ li muitos livros sobre magia negra, e se ela for forte o suficientemente... ¨¦, cem porcento." "Mas como ¨¦ que ¨¦ poss¨ªvel?" A diretora j¨¢ n?o parecia t?o assustada como antes, agora era simplesmente uma mulher confusa. Eu tamb¨¦m sou. Isto ¨¦ tudo confuso para mim. Volto a pegar a espada do meu pai, que n?o parece muito feliz com a a??o. Devagar, sento-me ao lado da senhora Baker e deixo a espada ao nosso colo. "Ela continua a ser uma espada, certo?" Digo com esperan?as de conseguir aliviar o ambiente. E continua de facto a ser uma espada. Pode n?o ser branca como antes, pode n?o deitar as part¨ªculas de magia que deitava antes, mas ainda dava para lutar com ela. Sinto que a diretora pensou o mesmo que eu, pois come?ou a acariciar a espada, o seu olhar sempre nela, e o sorriso sempre evidente, mas desta vez mais leve. De repente, ela olha para mim. "Kate... queres estudar na minha escola?"