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CapÃtulo 123 - Canecas e Coroas
Ao entrar na sala de tr¨¢s do balc?o, o cheiro adocicado e levemente ¨¢cido da fermenta??o artesanal preencheu o ar, puxando a aten??o de Ana para o canto onde um rudimentar equipamento de fabrica??o de cerveja estava disposto. Suas engrenagens de metal polido gotejavam um l¨ªquido azul-claro, quase iridescente, que se acumulava em pequenos barris alinhados logo ao lado.
Sobre uma mesa central de madeira r¨²stica, grandes canecas de madeira repousavam, com partes transl¨²cidas que deixavam escapar um brilho suave. O contraste entre a rusticidade da madeira e a intrigante bebida dentro delas chamou a aten??o de Ana, que arqueou uma sobrancelha, se perguntando o que exatamente estava diante dela. O cheiro era profundamente diferente da bebida comum que havia encontrado do lado de fora, uma diferen?a que despertou sua curiosidade instantaneamente.
¡ª Algo novo no menu? ¡ª comentou em voz alta, com um leve sorriso de curiosidade, chamando a aten??o das figuras sentadas ao redor.
Tr¨ºs pessoas, al¨¦m da Madame, estavam presentes. A primeira, Nyx, estava observando o conte¨²do das canecas com seu habitual ar de curiosidade quase infantil, evidentemente tendo se intrometido na cria??o da nova bebida. Ana lan?ou-lhe um olhar compreensivo, e a Sombra retribuiu com um sorriso, enquanto levantava a caneca em dire??o aos l¨¢bios.
Ao lado da barda necromante, havia um homem de apar¨ºncia familiar, mas cuja identidade escapava ¨¤ mem¨®ria de Ana. Ela prolongou o olhar por um momento, afinal, tinha certeza que o reconhecia de algum lugar, mas foi in¨²til, realmente n?o conseguia se lembrar. Isso a incomodou brevemente, mas ela deixou de lado.
E ent?o, viu a terceira pessoa, algu¨¦m realmente inesperado. A massa de m¨²sculos, Cassandra, estava claramente embriagada, suas bochechas coradas pelo ¨¢lcool enquanto se esfor?ava para manter a compostura e virar-se para ver o novo visitante. Mesmo b¨ºbada, sua presen?a impunha respeito, mas havia uma leveza em seu comportamento que trouxe certa nostalgia de suas conversas ap¨®s as batalhas na arena.
Antes que Ana pudesse sequer organizar suas ideias, Madame girou em seus calcanhares e a encarou com um olhar severo.
¡ª Ent?o ¨¦ voc¨º, sua maldita! Como teve coragem de servir aquela ¨¢gua choca pros clientes? ¡ª a leitora gesticulou exageradamente, o dedo apontando para Ana com a autoridade de quem n?o aceitava desculpas.
A rec¨¦m chegada ficou confusa por um segundo, mas logo seus pensamentos se direcionaram para as rugas no rosto de sua velha conhecida. Anos se passaram desde a ¨²ltima vez que se encontraram pessoalmente, e mesmo a mana n?o conseguia evitar que as garras do tempo deixassem suas marcas. Com certa melancolia na voz, a rainha soltou uma gargalhada curta e despreocupada, fechando a porta atr¨¢s de si com um aceno para que seus acompanhantes a esperassem por um momento.
¡ª Clientes? Madame, n¨®s nem abrimos oficialmente ainda.
¡ª Isso n?o importa! ¡ª a taverneira respondeu, cruzando os bra?os dramaticamente. ¡ª Devia ter feito algo melhor desde o come?o. Principalmente com esses mascarados t?o capazes ao seu redor, aprenderam a fazer depois de eu mostrar apenas uma vez!
Ana balan?ou a cabe?a em uma mistura de divers?o e exaspera??o. Havia um toque de absurdo na situa??o. Sempre tinha. Ela abriu a boca para responder algo, mas foi interrompida por uma garganta sendo limpa com for?a.
Jorge, o homem desconhecido, se aproximou, visivelmente desconfort¨¢vel com a tens?o na sala. Com um gesto formal, fez uma breve rever¨ºncia.
¡ª Sauda??es, Vossa Majestade ¡ª disse ele, com a voz contida, por¨¦m respeitosa. ¡ª Devo dizer que aprecio sua maravilhosa cidade das m¨¢scaras, e fico feliz de ver uma companheira de coroa tendo t?o grande ascens?o. Me chamo Jorge, e essa ¨¦ minha companheira, Cassandra.
"Droga¡±, pensou Ana, travando por um instante ao ouvir a frase, n?o pelo gesto sem necessidade, mas pela designa??o que foi dada para seu reino.
¡°Eu sabia que estava esquecendo de alguma coisa¡ essa cidade precisa de um novo nome logo."
Antes que pudesse dar continuidade a esse racioc¨ªnio, o homem puxou a grande guerreira para mais perto. A sua antiga dona trope?ou levemente, quase caindo de rosto no ch?o, mas conseguiu manter o equil¨ªbrio por puro instinto. Curvou-se de forma desajeitada, ainda lutando contra os efeitos do ¨¢lcool, mas com uma tentativa de formalidade, mesmo que falha.
Ana observou a cena, seu humor mudando de imediato. Um lampejo de f¨²ria passou por seus olhos, reacendendo brevemente a raiva que guardava dos acontecimentos relacionados ¨¤ chefe da arena. O Abismo passou por tr¨¢s de seus olhos, e era como se, por um segundo, o passado estivesse vivo novamente.
Mas ent?o, ao ver Cassandra trope?ar, b¨ºbada e vulner¨¢vel, algo dentro de Ana se quebrou. O peso do ¨®dio que carregava por tanto tempo parecia fora de lugar, desatualizado. Ela respirou fundo, sentindo a f¨²ria dissipar-se em uma ¨²nica expira??o.
¡°A situa??o faz a pessoa¡±, refletiu, como se estivesse finalmente enterrando aquela vers?o de si mesma. N?o estavam mais no Abismo, estavam em um novo mundo, um novo contexto, ent?o iria observar. Por enquanto. ¡°Ainda assim, fico feliz que n?o estou com a espada¡¡±
Dando um passo ¨¤ frente, Ana estendeu a m?o, e Jorge, um tanto hesitantemente, a apertou. Ele parecia incerto, como se n?o soubesse bem como agir diante da matriarca do reino emergente. Ainda assim, o toque de suas m?os foi firme, e a situa??o foi aliviada pela risada leve da rainha, que soou mais natural do que ela esperava.
¡ª ¨¦ um prazer conhec¨º-los, mas pe?o que deixem de lado essas formalidades ¡ª disse, tentando quebrar o gelo. ¡ª Afinal, somos todos mercen¨¢rios, n?o nobres! Me chamem apenas de Ana¡ bele.
Sua voz vacilou levemente ao final da frase, e Cassandra e Jorge se encararam, como se notassem a estranheza.
¡°Sou uma idiota¡±
O cumprimento durou mais do que o necess¨¢rio, e o clima come?ou a ficar um pouco desconfort¨¢vel. Ana ajustou a respira??o, preparando-se para um poss¨ªvel confronto, mas Jorge, antes que pudesse dizer qualquer coisa coerente, deu um solu?o alto enquanto afrouxava os dedos.
¡ª Me¡ hic¡ desculpe¡ ¡ª balbuciou repentinamente, ficando cada vez mais vermelho de vergonha, mas mantendo um sorriso cordial. ¡ª Acho que bebi mais do que devia... Sendo assim, ¨¦ um prazer, Anabele.
Madame observou a intera??o por tr¨¢s de sua caneca, com um brilho de compreens?o em seu rosto. Sem dar chances para que algo ocorresse, interrompeu-os com um sorriso malicioso.The narrative has been illicitly obtained; should you discover it on Amazon, report the violation.
¡ª Ah, a nova nobreza! ¡ª disse ela, enquanto colocava sua bebida de volta na mesa. ¡ª O mercado de mercen¨¢rios anda perdendo espa?o pras guildas. Mas parecem estar ¨¤ altura das coroas, n?o acha?
Confirmando que n?o emanavam um sentimento de amea?a, Ana suavizou o olhar, imaginando que nem mesmo se lembrariam da conversa na manh? seguinte.
¡ª S?o interessantes, n?o havia visto ningu¨¦m desse tipo nas cidades antes.
¡ª As coisas est?o mudando, querida! ¡ª respondeu Madame entre risos. ¡ª Adivinha, eles vieram do Abismo! Mas, bem¡ n?o ¨¦ como se isso fosse uma novidade aqui, n¨¦?
Ela gesticulou com as m?os para a sala, como se estivesse apresentando uma variedade de atra??es.
¡ª Sombras, corrompidos, mascarados¡ Isso ¨¦ puro suco de globaliza??o!
Ana balan?ou a cabe?a, sem jeito, enquanto uma pequena risada escapava de seus l¨¢bios. O exagero e a teatralidade de Madame sempre a pegavam de surpresa.
¡ª Sim¡ ¡ª murmurou, seu tom refletindo mais seriedade do que ela pretendia. ¡ª As mudan?as est?o surgindo de todos os lados ultimamente.
Com um suspiro silencioso, puxou uma cadeira e se sentou entre eles. Nyx, que at¨¦ ent?o estava quieta em seu canto, aproveitou a oportunidade para servir uma caneca de cerveja a Ana, que aceitou com um leve aceno de cabe?a. Em meio ¨¤ movimenta??o, Madame se inclinou para frente. Seu olhar, antes brincalh?o, agora parecia mais atento, quase conspirat¨®rio, enquanto ela aproximava os l¨¢bios do ouvido de Ana o suficiente para que suas palavras n?o fossem ouvidas por mais ningu¨¦m.
¡ª Falando em mudan?a, confesso que estou surpresa com voc¨º¡ Por um momento, pensei que voc¨º fosse uma mascarada. Afinal, voc¨º sabe¡ ¡ª seus olhos brilharam em um tom azul-claro intenso, que rapidamente percorreu o corpo de Ana de cima a baixo, analisando cada detalhe com aten??o. Quanto mais se concentrava, mais notava o emaranhado de fios que parecia dan?ar pelo corpo da rainha, como uma tape?aria de energias vibrantes. ¡ª Mas agora vejo que ¨¦ muito mais complexo do que isso... tem a ver com aquela jovem ali?
Ela apontou casualmente para a Sombra, que, ao notar, acenou de volta, sem entender muito bem o motivo de estar envolvida na conversa.
¡ª N?o, ela ¨¦ uma conhecida recente ¡ª respondeu Ana com um sorriso cheio de nostalgia. ¡ª A bagun?a que voc¨º v¨º em meu interior ¨¦ algo de alguns anos atr¨¢s...
Ela olhou ao redor, para as pessoas na sala, deixando o sil¨ºncio pairar por alguns instantes antes de concluir:
¡ª Mas isso ¨¦ uma conversa para outro momento.
Madame ergueu uma sobrancelha, evidentemente interessada, mas entendeu o recado. Ela sabia quando n?o pressionar. Com um aceno de cabe?a, permitiu que a mercen¨¢ria mudasse o curso da conversa.
¡ª Bom, indo pro que interessa, estou surpresa por voc¨º ter aceitado me encontrar ¡ª Ana come?ou, um toque de ironia em sua voz, mas seus olhos revelavam uma sinceridade afiada. ¡ª Quer dizer, eu n?o achei que fosse recusar, mas minha reputa??o n?o est¨¢ muito boa em Barueri¡ de qualquer forma, vejo que estava certa em fazer o convite, voc¨º j¨¢ est¨¢ at¨¦ mesmo melhorando a cerveja da cidade. Imagino que j¨¢ tenha em mente minha proposta.
Madame hesitou, seus olhos buscando algo dentro de si. Por um momento, ela parecia vulner¨¢vel, uma express?o rara para algu¨¦m t?o en¨¦rgico e confiante.
¡ª Eu¡ realmente posso?
¡ª ¨¦ claro que pode. N?o conhe?o absolutamente ningu¨¦m mais adequado.
Os olhos envelhecidos da taverneira brilharam com uma intensidade renovada, sua postura firme se tornando ainda mais imponente. O sorriso dela se alargou, feroz, enquanto seus olhos encaravam os de Ana com uma intensidade el¨¦trica. Embora Madame n?o pudesse ver o rosto de Ana por tr¨¢s da m¨¢scara, sabia, sem sombra de d¨²vidas, que sua antiga rainha mercen¨¢ria tamb¨¦m estava sorrindo.
¡ª Ent?o¡ devo dizer que ¨¦ uma honra estar sob seus cuidados, minha rainha.
Se espregui?ando, ela se levantou da cadeira e come?ou a caminhar ao redor. Seus dedos passavam por cada entalhe da madeira das paredes, como se absorvesse os detalhes do local, e um rubor suave surgiu em seu rosto, denotando a excita??o que ela tentava, sem muito sucesso, esconder. Pela janela da porta, viu os poucos habitantes da cidade que aproveitavam seu descanso. Sentia como se estivesse em um sonho realizado.
¡ª Sim¡ isso ¨¦ a pura fantasia¡ ¡ª sussurrou para si mesma, perdida em seu pr¨®prio mundo.
De repente, como se tomada por uma s¨²bita epifania, chutou a porta, fazendo-a abrir com um estalo, e subiu no balc?o com uma energia teatral. A aten??o de todos no sal?o foi imediatamente capturada, e ela abriu os bra?os, como se estivesse prestes a fazer uma grande proclama??o.
¡ª A partir de hoje, o Madame Eclipse abrir¨¢ suas majestosas portas para todos que desejarem uma romantica vida mercen¨¢ria!
Ela jogou as m?os para o alto, como se estivesse demonstrando uma grande vit¨®ria. Seus olhos brilhavam de antecipa??o, como se j¨¢ pudesse ver o sal?o cheio de figuras de todas as partes do mundo, uma mistura de corrompidos, todos com belas armaduras, afiadas espadas ou infames armas de fogo, prontos para se lan?arem em novas aventuras.
¡ª Que espalhem as minhas palavras e que espantem as amarguras desta porcaria de mundo! E, claro, que bebam at¨¦ cair nesse estranhamente belo entardecer!
Seu entusiasmo e suas gargalhadas eram contagiantes, e todos os que estavam presentes come?aram a levantar suas canecas em um brinde animado. As risadas e os aplausos encheram o sal?o, enquanto Madame, em cima do balc?o, observava tudo com um sorriso triunfante.
Ana, por sua vez, tinha um misto de divers?o e satisfa??o ao encarar a cena. Sabia que havia tomado a decis?o certa ao convid¨¢-la para aquele posto. Por mais ca¨®tica e imprevis¨ªvel que fosse, Madame tinha um magnetismo natural que parecia transformar qualquer lugar em um palco grandioso, um ref¨²gio para os aventureiros e desajustados.
Aquela intrigante taverneira era a ¨²nica pessoa capaz de envolv¨º-la em uma real atmosfera fantasiosa, onde tudo parecia mais leve, onde tudo parecia poss¨ªvel.
Em seu devaneio, quase n?o notou um estranho objeto brilhante voando em sua dire??o. Ele piscava sob a luz suave do ambiente enquanto rodopiava de forma elegante, quase como uma moeda. Por reflexo, ela o pegou no ar com facilidade, mas quando seus dedos se fecharam em torno do item, n?o p?de deixar de dar um leve bufar de descren?a.
¡ª Quase me esqueci de te entregar isso! ¡ª comentou de longe Madame, notando que o item foi recepcionado com sucesso e voltando a se engajar em uma animada conversa com alguns bestiais, gesticulando como de costume, completamente alheia ao que acabara de fazer.
Curiosa, Ana abriu a m?o, apenas para notar que entre seus dedos repousava um broche em formato de uma coroa dourada e preta, meticulosamente trabalhado, mas claramente envelhecido. Diferente de qualquer coroa nova e resplandecente que ela j¨¢ havia usado, este estava marcado com sinais do tempo. Arranh?es profundos atravessavam a superf¨ªcie brilhante, e o ouro, outrora reluzente, agora carregava um brilho mais opaco, cansado, mas ainda forte em sua presen?a.
Ela franziu o cenho, passando os dedos pelos detalhes finos e desgastados. E ent?o, a lembran?a veio ¨¤ tona, finalmente compreendendo o que aquilo significava.
¡ª N?o precisava ter se preocupado tanto com isso, Madame¡
Era o emblema de sua m?e, a antiga rainha mercen¨¢ria. O gesto de Madame foi novamente exagerado, mas ainda assim, Ana n?o p?de evitar um pequeno sorriso, guardando-o no bolso como sempre fez.
¡ª Realmente demorou para eu virar uma rainha de ouro aficionado¡ ¡ª murmurou, com certa ironia na voz.
Antes que pudesse mergulhar mais nas mem¨®rias, o leve tilintar do sino da porta da taverna chamou sua aten??o. O som era parte comum do ambiente, assim como as vozes e risadas, contudo, Ana olhou por curiosidade, sua cabe?a girando ligeiramente em dire??o ¨¤ entrada.
Ali, envolta em seus cabelos de um vermelho profundo, uma figura cabisbaixa escondia seu semblante por tr¨¢s de uma m¨¢scara de raposa.
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CapÃtulo 124 - Contornos Embriagados
A taverna estava agora silenciosa, e as luzes fracas das lamparinas lan?avam sombras oscilantes sobre a mesa central, onde uma bagun?a de pergaminhos estava espalhada. Desenhos de grandes estruturas cobriam os pap¨¦is, as linhas tortas e tra?adas com pressa revelando uma tentativa de capturar ideias que, em algum momento, pareceram brilhantes para os envolvidos. Torres ambiciosas, pontes que desafiavam a f¨ªsica, e at¨¦ esbo?os de uma nova muralha para a cidade emergiam do emaranhado de tra?os.
¡°Como tudo chegou nesse ponto?¡±, pensou Eva, parada ao lado da mesa, observando a cena com uma express?o de perplexidade.
Parecia que, em um instante, uma conversa trivial havia se transformado em uma explos?o de entusiasmo arquitet?nico e, logo depois, em uma competi??o desenfreada de bebidas. Ou talvez os dois ao mesmo tempo.
Ela passou os olhos pelas folhas tr¨ºs ou quatro vezes, tentando decifrar os planos ca¨®ticos. Muitas anota??es foram feitas com letras grandes e desalinhadas, misturadas a desenhos de pequenas criaturas enchendo os espa?os vazios com detalhes irreverentes.
No canto da sala, Jorge estava largado contra a parede, sua cabe?a apoiada de forma desajeitada no ombro. Um leve ronco escapava de seus l¨¢bios entreabertos, e um sorriso satisfeito estava fixo em seu rosto, como se at¨¦ em seu sono ele estivesse revivendo uma piada interna. Seu bra?o pendia ao lado do corpo, como se uma caneca invis¨ªvel ainda estivesse em sua posse.
A Sombra, por outro lado, permanecia em sua cadeira, incrivelmente ainda acordada, mas seus olhos estavam distantes, vagando por um ponto fixo do nada, como se observasse uma cena que s¨® ela conseguia ver. Ela se balan?ava lentamente de um lado para o outro, as pernas pendendo da cadeira, enquanto murmurava para si mesma uma melodia antiga que flutuava sem prop¨®sito. A caneca vazia em sua m?o girava entre seus dedos, num movimento hipn¨®tico que parecia ser a ¨²nica coisa que a mantinha conectada ¨¤quele mundo.
E no centro de toda aquela desordem, Ana e Cassandra estavam ca¨ªdas sobre a mesa, desmaiadas. As duas tinham os rostos pressionados contra os pergaminhos, como se as ideias que desenharam pudessem ser absorvidas pelos sonhos alco¨®licos que agora as dominavam. O cabelo de Ana estava desarrumado, caindo sobre a mesa e misturando-se aos desenhos, enquanto Cassandra, por sua vez, ressonava suavemente, seus bra?os musculosos ainda envolvendo o recipiente vazio da bebida como se fosse um trof¨¦u conquistado com esfor?o.
Na noite anterior, quando Eva contou ¨¤ rainha o que havia acontecido em Carapicu¨ªba, sentiu um frio percorrer sua espinha. Sabia que Ana n?o era exatamente conhecida por sua paci¨ºncia, ent?o fechou os olhos, esperando uma bronca severa, palavras frias e talvez at¨¦ mesmo uma reprimenda p¨²blica. Em sua mente, j¨¢ preparava uma s¨¦rie de justificativas, buscando desesperadamente por uma forma de suavizar a situa??o.
No entanto, quando voltou a os abrir, Eva foi surpreendida por uma risada alta e quase explosiva de Ana, que ecoou como um trov?o, seguida de um sussurro carregado de um entusiasmo peculiar.
¡ª Ah, crian?a burra... mais uma oportunidade acaba de surgir.
Antes que pudesse sequer entender o que estava acontecendo, a garota ruiva sentiu m?os firmes em seus ombros, guiando-a para dentro de uma estranha porta. Era uma mistura de urg¨ºncia e anima??o, como se a pr¨®pria Ana tivesse sido tomada por uma ideia irresist¨ªvel. Em poucos segundos, a jovem j¨¢ estava em uma cadeira central, e a rainha, com seu sorriso travesso, a apresentou como se fosse um pr¨ºmio rec¨¦m conquistado.
¡ª Quero que conhe?am Eva, uma das conselheiras do reino! Seja o que precisarem durante o tempo aqui, podem procurar por ela.
Os olhares de Jorge e Cassandra se voltaram para a menina, enquanto tentavam processar a introdu??o repentina. O jornalista, que estava encostado em uma das paredes com os bra?os cruzados, ergueu as sobrancelhas. J¨¢ Cassandra apenas lan?ou um olhar intrigado.
¡ª Um rosto t?o jovem para uma posi??o t?o importante... ¡ª o homem comentou, tentando manter a cortesia, embora a surpresa fosse vis¨ªvel em sua express?o. ¡ª Mascarados sempre me deixam confuso.
Foi ent?o que Ana, como se n?o quisesse nada, fez um gesto dram¨¢tico, levando a m?o ¨¤ testa como se estivesse refletindo sobre algo de extrema complexidade. Seus olhos semicerrados e o suspiro profundo criaram um momento de suspense, fazendo os outros na sala a observarem com aten??o redobrada.
¡ª Algo te preocupa, Anabele? ¡ª perguntou o homem, tentando ser educado.
Ana soltou um suspiro teatral e lan?ou um olhar significativo para Eva, como se dividisse com ela uma preocupa??o grave e compartilhada.
¡ª Ah, nada demais... ¡ª disse, arrastando as palavras. ¡ª ¨¦ que a Eva acabou de retornar de uma viagem importante, e... bem, parece que alguns habitantes de um reino vizinho estar?o chegando ¨¤ cidade em breve ¡ª fez uma pausa calculada, seus olhos brilhando com um toque de mal¨ªcia. ¡ª N?o ¨¦ exatamente um ataque, mas... digamos que t¨ºm um certo gosto por brigas.
Os olhos de Jorge se estreitaram enquanto ele tentava absorver a informa??o com sua mente nublada, e, paralelamente a isso, Ana lan?ou um leve belisc?o em Eva, que estava prestes a tentar esclarecer a situa??o. A jovem se esfor?ou para esconder a dor e frustra??o, mas por fim ficou quieta, apenas lan?ando um olhar levemente irritado para a mercen¨¢ria enquanto tentava decifrar suas inten??es. If you discover this tale on Amazon, be aware that it has been stolen. Please report the violation.
Foi ent?o que Cassandra, que vinha escutando tudo com os cotovelos apoiados na mesa, de repente, se ergueu com um salto, derrubando a cadeira com um estrondo. Seu rosto estava corado pela bebida, mas havia um entusiasmo inconfund¨ªvel em sua postura.
¡ª Voc¨º n?o pode os culpar! As pessoas precisam extravasar de alguma forma! ¡ª gritou, acentuando a explos?o repentina de energia. ¡ª Aqui em cima todo mundo finge que n?o quer dar uns bons murros em algu¨¦m, mas algum dia a popula??o se cansa! Se quer evitar que acabem destruindo metade da cidade... ent?o fa?a uma arena!
A sugest?o pairou no ar por um momento, e a express?o de Ana se suavizou, transformando-se em um sorriso sorrateiro, como se j¨¢ pudesse ver as engrenagens girando em sua mente. O sil¨ºncio que se seguiu foi quase palp¨¢vel, como se todos estivessem considerando a ideia, cada um ¨¤ sua maneira.
¡ª Uma arena? ¡ª repetiu finalmente a rainha, inocentemente. Ela se inclinou para frente, cruzando os bra?os sobre a mesa e fixando o olhar em Cassandra, que ainda parecia tomada por sua s¨²bita epifania.
¡ª Sim, sim, uma arena! ¨¦ claro que isso funcionaria! A brutalidade na medida certa ¨¦ o melhor dos calmantes. E... quem sabe, at¨¦ rende uma boa quantidade de¡ bem, apostas!
¡ª A ideia ¨¦ boa, mas temo que leve muito tempo para se organizar isso, eu n?o conhe?o tanto desse tipo de lugar¡
¡ª Deixe com a gente ¡ª o rei mercen¨¢rio ao seu lado comentou. ¡ª Cassandra parece bruta, mas se tratando de espet¨¢culos, ¨¦ realmente confi¨¢vel.
Eva notou que Ana mantinha uma express?o controlada, mas conhecendo a rainha como conhecia, era f¨¢cil perceber o pequeno tremor em seus l¨¢bios por baixo da m¨¢scara, como se estivesse segurando uma risada alta. Felizmente, apenas soltou um suspiro e continuou com sua encena??o, assumindo um semblante de dar pena a cada frase.
A garota ruiva ainda n?o entendia completamente a situa??o, mas suas sobrancelhas estavam quase se colando enquanto percebia que sua l¨ªder tentava se aproveitar da gentileza dos dois b¨ºbados.
¡ª Tem certeza disso? N?o quero dar trabalho para pessoas que acabei de conhecer ¡ª fingindo surpresa, Ana perguntou novamente enquanto levava a m?o pro peito como se estivesse emocionada.
Cassandra, cada vez mais animada pela oportunidade, soltou uma gargalhada profunda que ecoou pela sala.
¡ª Claro que sim! D¨º-me alguns construtores e um bom lugar para dormir, e logo transformarei um simples campo em um anfiteatro digno de gladiadores! ¡ª Seus olhos brilhavam com entusiasmo, e o jeito dela falar fazia parecer que j¨¢ estava visualizando cada detalhe em sua mente.
Ana balan?ou a cabe?a levemente, ainda mantendo a express?o de quem ponderava a oferta.
¡ª Ah, eu n?o posso aceitar algo assim de gra?a. Seria me aproveitar demais de sua generosidade... ¡ª Ela fez uma pausa e inclinou-se ainda mais para frente. ¡ª O que acha de trabalhar para mim?
Cassandra ergueu uma sobrancelha, considerando a oferta por um momento, antes de abrir um sorriso de orelha a orelha.
¡ª Isso ¨¦ ainda melhor! Sabe como ¨¦ dif¨ªcil conseguir dinheiro na superf¨ªcie?
Sem perder um segundo, a guerreira j¨¢ estava puxando alguns materiais que encontrou em um canto da sala. Com movimentos largos, come?ou a rabiscar rapidamente utilizando pequenos peda?os de carv?o. O esbo?o de sua mente come?ou a se mostrar enquanto falava com a voz acelerada, pulando entre mil possibilidades.
¡ª Ah, e n?o ia dizer nada, mas tenho que aproveitar a oportunidade... sua cidade est¨¢ muito crua! ¡ª ela gesticulava com a m?o enquanto desenhava, sem desviar os olhos do trabalho. ¡ª Todo bom reino precisa de uma casa termal, sabe? Algo como em Roma! Quem n?o gostaria de um banho quente depois de um dia de trabalho?
A sugest?o fez Ana soltar uma risada aberta e sincera. Ela arrastou sua cadeira para mais perto, posicionando-se ao lado da mulher robusta. A jovem conselheira permaneceu perdida, questionando-se de onde aquela pessoa havia vindo e qual era o v¨ªnculo que as unia, pois, olhando de fora, a proximidade entre elas era evidente.
As horas passaram em um piscar de olhos. Caneca ap¨®s caneca era esvaziada, e, contraditoriamente ao que se esperaria de uma noite de bebedeira insana, mais e mais rascunhos e desenhos surgiam na mesa, cada um mais elaborado e ousado que o anterior, como se o ¨¢lcool despertasse suas genialidades. As risadas e provoca??es se misturavam ao carv?o at¨¦ que, por fim, ambas ca¨ªram em um desmaio quase sincronizado, o cansa?o e o ¨¢lcool finalmente vencendo as duas.
Foi ent?o que se ouviu um som leve e met¨¢lico, um tintilar que ecoou pela sala, despertando a conselheira de sua recapitula??o interna. Buscando a origem do som, ela virou a cabe?a rapidamente, vendo um canudo de ferro, o qual a rainha usou para beber mantendo sua identidade escondida ao longo da noite, rolando pelo ch?o at¨¦ parar ao lado de sua bota.
O som pareceu ter um efeito imediato em Ana, que despertou de um salto, piscando os olhos v¨¢rias vezes enquanto se reorientava. Ainda meio sonolenta, olhou ao redor, deu uma risada baixa e se espregui?ou, girando o corpo para esticar os m¨²sculos enquanto seus ossos estalavam com o movimento.
¡ª Essa cerveja com mana ¨¦ boa demais, tenho que agradecer a Madame mais tarde ¡ª murmurou a mulher, vendo Eva a encarando. ¡ª N?o sinto nem um pouco de ressaca.
A menina apenas assentiu em sil¨ºncio, sem saber muito bem como responder. Ana ent?o a estudou por um momento, seus olhos deslizando de maneira cr¨ªtica sobre a figura da conselheira.
¡ª Voc¨º cresceu um pouco? Parece maior¡ Ah, a juventude...
Com o coment¨¢rio vindo do nada, se deitou novamente na mesa, fechando os olhos como se um punhado de areia os cobrisse.
Eva respirou fundo, e, com cuidado, recolheu os pergaminhos mais importantes, deixando de lado alguns que eram claramente apenas rabiscos embriagados. Em um deles, notou uma caricatura de Ana com uma coroa desproporcional na cabe?a e uma express?o carrancuda que algu¨¦m, provavelmente Nyx, desenhara com uma nota ao lado: ¡°Rainha do Drama¡±. N?o p?de evitar um sorriso, dobrando o papel junto com os outros.
Dando uma ¨²ltima olhada em todos, decidiu que, como sempre, o melhor seria focar nas suas tarefas. Levantou-se, com o peso das responsabilidades voltando a pairar em seus ombros, e se preparou para mais um dia de trabalho na cidade que, cada vez mais, parecia tomar um rumo inesperado e grandioso.
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CapÃtulo 125 - Cantos da Dupla Hélice
Ol¨¢ leitor, bom dia!
Hoje ¨¦ black friday, ent?o venho aqui com uma oferta especial!
A cada 3 reviews (avalia??es da obra com coment¨¢rios), 5 avalia??es comuns (s¨® as estrelas!) ou 7 novos seguidores/favoritos na obra, liberarei um novo cap¨ªtulo! (limitado a 20 cap¨ªtulos, ¨¦ o que tenho livre para mandar para voc¨ºs, rs)
Al¨¦m disso, j¨¢ deu uma olhada no nosso APOIA.se? Acabei de mandar uma nova capa toda desenhada por mim mesmo para a vers?o f¨ªsica do volume 1 da obra, adoraria sua opini?o sobre!
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Se der uma passada por l¨¢, o que acha de j¨¢ garantir seu exemplar? Mesmo 5 reais por m¨ºs j¨¢ ¨¦ um grande apoio para o sonho desse pobre autor...
Os dias passavam como folhas caindo no outono, e agora o inverno havia finalmente se instalado na cidade. O ar g¨¦lido penetrava pelas brechas das constru??es, fazendo os moradores se encolherem sob suas capas e casacos, enquanto o ch?o de pedra se tornava trai?oeiro, acumulando uma fina camada de gelo que obrigava a todos a caminharem com cuidado. No entanto, para Ana, a esta??o fria trazia um novo ritmo de trabalho. Com o subsolo impr¨®prio para a pesquisa devido ¨¤s baixas temperaturas e ¨¤ umidade que dificultava a opera??o de alguns maquin¨¢rios, ela transferiu seus experimentos para a torre mais alta do castelo. O lugar havia se tornado um observat¨®rio improvisado, um ref¨²gio onde podia contemplar a cidade e ao mesmo tempo dar continuidade aos seus estudos.
¡ª Tem certeza disso? ¡ª A pergunta ecoou pelo local, vinda de um r¨¢dio triangular e elegante que estava firmemente encaixado entre as esc¨¢pulas de Let¨ªcia, quase parecendo uma extens?o de seu corpo. A voz que emergia dele era suave, mas mantinha o toque est¨¢tico caracter¨ªstico de frequ¨ºncias sussurradas, um som que parecia distante e ao mesmo tempo ¨ªntimo.
Ouvindo a pergunta, Ana sorriu consigo mesma, lembrando-se das palavras de Marlene quando ela mencionou a possibilidade de Let¨ªcia ser sua assistente de pesquisa.
"Voc¨º quer ela como assistente? Isso ¨¦ ¨®timo, ela ¨¦ t?o louca quanto voc¨º. Bem, talvez um pouco menos."
Era um coment¨¢rio que, apesar de carregado de humor, resumia bem o esp¨ªrito da jovem mulher planta ao seu lado.
Com um gesto despreocupado da m?o, Ana sinalizou para que Let¨ªcia interrompesse suas perguntas incessantes. Ao inv¨¦s de responder diretamente, caminhou at¨¦ a janela do observat¨®rio, deixando seus olhos se perderem na vis?o ampla que se estendia abaixo.
A cidade parecia min¨²scula vista daquela altura, um emaranhado de ruas, constru??es e pessoas que se moviam como pequenas sombras. Do alto, Ana conseguia ver as mudan?as que ocorriam em seu dom¨ªnio. Era uma vis?o que a fazia lembrar de tempos antigos, de um passado que agora parecia uma mem¨®ria distante e borrada onde diariamente suas m?os trabalhavam organizando in¨²teis ma?os de papel.
¡ª ¨¦ uma lembran?a de merda¡
Em meio a suspiros e resmungos, continuou sua contempla??o. Mesmo no inverno rigoroso, a gigantesca arena estava em plena constru??o, erguendo-se como um colosso de pedra e madeira, dominando o horizonte como uma cicatriz marcante no tecido urbano. Bloco ap¨®s bloco, a estrutura se erguia com uma majestade brutal, uma obra de dedica??o e suor sob a lideran?a diligente de Cassandra. Ao redor, pequenos grupos de curiosos assistiam ao progresso, conversando entre si enquanto esfregavam as m?os enluvadas para afastar o frio.
A cidade das m¨¢scaras, que antes era apenas um ref¨²gio discreto, agora atra¨ªa aventureiros de todos os cantos. Mercen¨¢rios experientes, astutos comerciantes em busca de novos mercados, exploradores em busca de terras desconhecidas e at¨¦ mesmo ca?adores puristas, aqueles que, apesar de sua lealdade ¨¤ humanidade, n?o se importavam em conviver com outras ra?as. Todos encontravam ali um novo lar.
A promessa de riqueza e novas oportunidades era um im? poderoso. Barueri, conhecida por seu controle r¨ªgido atrav¨¦s das guildas, n?o oferecia a liberdade que muitos buscavam. Aqui, ao contr¨¢rio, a chance de ascens?o era mais real, ainda que com seus pr¨®prios desafios. No fim, poder e dinheiro ainda ditavam as regras do jogo, e a cidade estava aprendendo a tirar proveito disso.
Os conselheiros de Ana, por sua vez, trabalhavam incansavelmente para manter o ritmo de crescimento. Emitiam miss?es regularmente, desde tarefas simples como "Encontre uma mina de min¨¦rio X" ou "Recupere ossos da criatura Y" at¨¦ pedidos de escolta para proteger comboios em viagens perigosas, mantendo o fluxo constante de trabalho e recompensas. E claro, a famosa cerveja de mana local continuava a atrair muitos para uma visita. A bebida, com seu sabor ¨²nico e revigorante, tornara-se quase um s¨ªmbolo da cidade. N?o era algo exclusivo de l¨¢, outros faziam algo semelhante, mas os ingredientes usados em sua composi??o pareciam de primeira linha, levando os aventureiros a passarem horas a fio embriagados em conversas e jogos de azar.
¡ª Caralho, quando constru¨ªram isso? ¡ª pensou a rainha em voz alta, franzindo o cenho ao notar uma s¨¦rie de novas estruturas pr¨®ximas ¨¤s planta??es. Eram armaz¨¦ns robustos, prontos para armazenar reservas de alimentos para tempos de escassez. Um sorriso involunt¨¢rio curvou seus l¨¢bios enquanto pensava que sequer havia notado os oper¨¢rios trabalhando.
A cena a lembrou de Marlene e da Divis?o Dr¨ªades. Mesmo durante o inverno, as planta??es continuavam produtivas, tudo gra?as ao trabalho ¨¢rduo do povo verde. Ap¨®s meses de refei??es mon¨®tonas ¨¤ base de carne e ra¨ªzes, a cidade finalmente podia variar seus pratos com vegetais frescos e outros ingredientes que brotavam a um ritmo impressionante.
Ana ent?o ativou uma habilidade que havia come?ado a treinar recentemente em seus momentos de introspec??o. Com um leve brilho em seus olhos, direcionou a mana para os vasos sangu¨ªneos ao redor de suas retinas, ampliando seu alcance visual.
J¨¢ vira L¨²cia usar muitas vezes, mas a t¨¦cnica, apesar de b¨¢sica, ainda consumia mais energia do que sua regenera??o natural atrav¨¦s das flores. Felizmente, com treino suficiente, havia aprendido a manter controle para que sua reserva n?o ca¨ªsse abaixo do n¨ªvel seguro.
Foi assim que notou algo curioso: pequenos pontos amarelos brilhavam do lado de fora dos muros da cidade. Balan?avam suavemente, e lembravam manchas de sol em um inverno cinzento. Dr¨ªades dan?avam graciosamente entre eles, realizando movimentos ritual¨ªsticos enquanto cuidavam das plantas. A vis?o era, no m¨ªnimo, intrigante, e por um momento, ela se perguntou qual era o objetivo daquela planta??o t?o peculiar.
¡ª Girass¨®is?
¡ª Marlene tem trabalhado em alguns projetos ¡ª respondeu Let¨ªcia, com um tom sereno, mas carregado de entusiasmo. ¡ª Se isso for um problema, posso pedir para remov¨º-los, senhorita.
Ana deu de ombros, ainda observando a cena vibrante do alto da torre.
¡ª N?o, deixe como est¨¢. At¨¦ que traz um contraste interessante ao cen¨¢rio.
A plant¨ªnea, percebendo que Ana estava prestes a se perder em seus pensamentos novamente, limpou a garganta para chamar a aten??o de volta para a quest?o inicial.
¡ª Ent?o, sobre a pesquisa...
Ana piscou algumas vezes, como se voltasse de um devaneio profundo, antes de finalmente se virar para ela e responder com um leve sorriso.
¡ª Ah, sim, desculpe. Vamos come?ar logo.
Puxando as mangas do jaleco, Ana estendeu o bra?o, deixando ¨¤ mostra as marcas recentes de pequenos experimentos que vinham se acumulando em padr?es quase art¨ªsticos na sua pele. Na mesa ao seu lado, Let¨ªcia fazia os ajustes finais, preparando uma seringa que parecia fora de lugar, com um l¨ªquido cintilante de cor amarelada.Stolen content alert: this content belongs on Royal Road. Report any occurrences.
A grossa agulha perfurou sua pele com um leve estalo, e a substancia come?ou a ser introduzida em seu sistema. O ardor percorreu suas veias, irradiando a partir do ponto de inje??o como uma onda que descia por seus bra?os e se espalhava por seu peito. A sensa??o era desconfort¨¢vel, mas n?o exatamente dolorosa.
¡ª E a¨ª, como est¨¢ se sentindo? ¡ª perguntou Let¨ªcia, inclinando-se para analisar a rea??o da rainha.
¡ª Parece tudo bem. Dessa vez, n?o sinto nada queimando.
¡ª N?o se esque?a: qualquer rea??o anormal, pare a circula??o da mana imediatamente.
¡ª Eu sei, eu sei.
Ana assentiu, mas sua mente j¨¢ estava focada no pr¨®ximo passo. Deixou a agulha no bra?o por mais alguns segundos antes de retir¨¢-la e, em seguida, fechou os olhos, concentrando-se em sentir a energia das novas c¨¦lulas. Come?ou a circular a mana pelo corpo, conduzindo-a atrav¨¦s de suas art¨¦rias e veias, guiando-a at¨¦ os pontos onde a substancia deveria come?ar a agir.
No ¨²ltimo m¨ºs, Ana havia decidido ser sua pr¨®pria cobaia, utilizando seu corpo como um campo de testes para explorar os efeitos das infus?es de DNA. Havia ponderado em testar em outras pessoas, talvez alguns corrompidos, mas o tempo que levaria para monitorar os resultados a fizeram desistir da ideia. Mais do que isso, havia certo orgulho e confian?a que a atraia, afinal, ela mesma faria os c¨¢lculos, como poderia estar errada?
Os primeiros experimentos foram, em sua maioria, tentativas de compreender as varia??es gen¨¦ticas das diferentes ra?as e seres que agora habitavam a cidade, e como tais caracter¨ªsticas podiam ser transferidas. Era um trabalho tedioso, que exigia um rigor quase obsessivo em cada detalhe, mas que come?ava a apresentar resultados.
. Um dos testes iniciais usou DNA de algumas variantes com caracter¨ªsticas de p¨¢ssaros noturnos. N?o tinham asas ou coisas do tipo, mas ganharam uma vis?o incr¨ªvel durante a noite. O resultado foi, de certa forma, um sucesso. Ao olhar pela janela, viu cada canto escuro com uma nova nitidez, mas o ganho foi tempor¨¢rio e dif¨ªcil de mensurar, desaparecendo poucas horas depois. Haviam pensado que seria uma muta??o permanente, mas as c¨¦lulas dominantes rapidamente eliminavam as invasoras.
Outra tentativa envolveu a replica??o da ader¨ºncia de exos membros de alguns estranhos visitantes que escalavam paredes, mas, nesse caso, os resultados foram decepcionantes: um leve formigamento nas extremidades dos dedos e nada mais.
Para sua sorte, havia material mais que suficiente para aprimorar aos poucos, ent?o tinha esperan?a de conseguir algo mesmo nos testes falhos. Quando iniciou esses experimentos, havia considerado a possibilidade de sequestrar corrompidos para melhores estudos, mas um estranho senso de justi?a distorcido a fez mudar de ideia e, em vez disso, fez um an¨²ncio p¨²blico, buscando volunt¨¢rios.
Os sequestraria apenas se ningu¨¦m aparecesse.
Para sua surpresa, n?o faltaram candidatos. Alguns vieram para mostrar boa vontade para a rainha, com ambi??es pessoais ou torcendo por melhorias para suas fam¨ªlias. Outros estavam simplesmente interessados na ideia de se tornarem mais fortes, de transcender suas limita??es naturais caso a pesquisa desse certo. E havia, ¨¦ claro, os que vinham por pura curiosidade, fascinados pela mistura de ci¨ºncia e fantasia que Ana prometia. Assim, suas tardes eram passadas no laborat¨®rio, enquanto era vista na forja pelas noites, aperfei?oando sua engenharia m¨¢gica.
Claro, existiam momentos em que sua rotina mudava, e esses momentos se mostravam principalmente quando ela sentia os dedos come?arem a co?ar, ansiando por algo que a despertasse do cansa?o da rotina. Como um d¨¢diva dos c¨¦us, a solu??o para eliminar tais vontades brotou na sua frente sem que precisasse fazer nada.
Ringues clandestinos estavam pipocando nos becos sombrios da cidade, lugares onde a adrenalina flu¨ªa sem restri??es.
Isso se devia aos escamosos que haviam chegado recentemente. Eles pularam de felicidade ao saber que fizeram a escolha certa em ir at¨¦ os mascarados, pois finalmente teriam um lugar para mostrar sua for?a adequadamente. Tentaram aguardar ansiosamente pela inaugura??o oficial da grande arena ao inv¨¦s de criar brigas atoa, no entanto, sua impaci¨ºncia acabou prevalecendo.
As lutas eram espet¨¢culos em miniatura que aconteciam em c¨ªrculos de espectadores, onde as luzes fracas mal iluminavam os corpos em combate. Era uma briga de c?es, onde cada golpe era dado com um sorriso, e cada queda era apenas uma promessa de mais um round. Os ferimentos eram frequentemente graves, bra?os deslocados, dentes quebrados, ossos que se partiam. Era um ambiente ca¨®tico, mas as regras t¨¢ticas de n?o matar e respeitar a derrota mantinham uma certa ordem. Assim, Ana fechava os olhos para isso, como se n?o existissem, e deixava o som dos golpes e grunhidos preencherem seus ouvidos.
Quando visitava essas sess?es de pancadaria, vestia uma m¨¢scara simples, algo desassociado ao visual da rainha que todos atrelaram a sua m¨¢scara monocrom¨¢tica. Era uma decis?o simples, mas efetiva, pois ali ela se tornava apenas mais uma figura mascarada.
Foi entre esses golpes e quedas que viu pela primeira vez os efeitos da regenera??o do povo de Carapicu¨ªba.
Dias depois de terem sofrido fraturas m¨²ltiplas ou ferimentos profundos, l¨¢ estavam eles de novo, inteiros, prontos para mais uma rodada. O que Ana sentia ao observar aquilo era algo pr¨®ximo de inveja. N?o demorou para que a ideia gananciosa de absorver aquela habilidade surgisse. Felizmente, com todo o equipamento recuperado, isolar o DNA respons¨¢vel pela regenera??o usando m¨¦todos de biotecnologia avan?ada n?o foi um processo demorado. Crispr, uma ferramenta que outrora pertencia aos cientistas do mundo antigo, se mostrava ainda mais primoroso nas m?os da rainha milenar.
¡ª At¨¦ agora, nenhum sinal de rejei??o ¡ª comentou a mercen¨¢ria de repente, interrompendo o sil¨ºncio da sala.
¡ª N?o comemore antes da hora, ainda temos muito o que verificar ¡ª Let¨ªcia respondeu, mas a anima??o em sua voz tra¨ªa sua tentativa de parecer profissional.
O pr¨®prio ar parecia compartilhar da anima??o das mulheres, mas o verdadeiro teste viria agora, quando o corpo receptor se adaptaria ¨¤s mudan?as, ou brigaria contra ela. A substancia, ainda inst¨¢vel, se fundia ¨¤ pr¨®pria ess¨ºncia de Ana lentamente, e, aos poucos, a sensa??o quente do l¨ªquido foi se dissipando, sendo substitu¨ªda por uma corrente gelada que impregnou seus membros. A rainha deixou um suspiro escapar e abriu os olhos.
¡ª Acho que n?o vai al¨¦m disso.
Como se vendo se ainda funcionava, girou o bra?o, testando os movimentos, buscando algum sinal de dor ou desconforto. Ela riu, a voz carregada de uma satisfa??o ligeiramente insana.
Com um gesto despreocupado, pegou um bisturi de uma das mesas, fazendo-o dan?ar entre os dedos. Sem hesitar, tra?ou um corte limpo em seu pr¨®prio antebra?o, retirando um pequeno peda?o de carne, uma ferida que deveria sangrar abundantemente, mas que, para surpresa de ambas, apenas liberou algumas gotas de sangue antes de coagular de imediato.
¡ª Interessante... ¡ª murmurou a cientista vegetal, a curiosidade iluminando seu olhar.
Ana fechou os olhos, concentrando a mana ao redor da ¨¢rea danificada, guiando-a em espirais sutis para acelerar o processo de cicatriza??o. Sentiu a pele come?ar a se reorganizar, como uma teia que se tece sozinha. Com um toque casual, ela encaixou de volta o peda?o removido, como se estivesse fechando a tampa de um compartimento. Percebeu ele se reintegrando devagar ao seu corpo como uma pe?a de quebra cabe?a.
¡ª N?o ¨¦ nada milagroso, mas deu certo. Talvez, com alguns ajustes, eu possa conseguir algo ainda melhor... ¡ª Ana comentou, com um toque de frustra??o na voz. ¡ª Se aquele maldito l¨ªder lagarto nos desse umas partes do corpo, eu conseguiria resultados melhores. O que falta ¨¦ qualidade.
Por fim suspirou, limpando a crosta de sangue j¨¢ seco com a ponta dos dedos, enquanto Let¨ªcia fazia anota??es r¨¢pidas em um caderno de couro desgastado.
Foi nesse momento que Miguel entrou na sala. O mascarado estava com sua express?o habitual, a m¨¢scara branca escondendo tra?os de emo??o, mas o modo como seus olhos brilharam ao ver a cena denunciava um certo desapontamento.
¡ª Ah, Miguel, sempre t?o s¨¦rio.
¡ª Voc¨º se esqueceu da reuni?o do seu grupo, Ana. Eles est?o esperando h¨¢ meia hora.
Como se picada por um inseto, a mulher bateu a palma da m?o na testa, e a lembran?a surgiu em sua mente de forma explosiva.
¡ª Droga, realmente esqueci ¡ª ela co?ou o antebra?o onde a seringa havia perfurado sua pele recentemente, sentindo ainda um leve formigamento. Em seguida, jogou de lado o jaleco branco que usava, deixando-o em uma cadeira qualquer, e fez um aceno para Let¨ªcia. ¡ª Arrume tudo por aqui, eu volto depois.
A assistente retribuiu o aceno, j¨¢ come?ando a organizar os instrumentos. Miguel, sempre meticuloso, retirou de sua mochila um casaco pesado feito de pele, com um forro quente de tecido escuro que contrastava com o exterior branco e peludo. Ele o estendeu para Ana, que aceitou o gesto com um sorriso de satisfa??o.
¡ª E ¨¦ por isso que adoro voc¨º, Miguel ¡ª disse ela, enquanto vestia o casaco. O material denso era perfeito para enfrentar o frio constante que fazia do lado de fora. O toque da l? quente contra sua pele era um al¨ªvio bem-vindo, e a capa longa que acompanhava o casaco se arrastava levemente pelo ch?o enquanto ela caminhava.
¡ª Eu sei ¡ª respondeu Miguel, sem qualquer tra?o de emo??o, mas o tom seco de suas palavras fez Ana soltar uma risada abafada.
Com a nova veste firme em seus ombros, Ana desceu rapidamente as escadas da torre. Do lado de fora, a neblina acumulava-se nas bordas do rio, que agora corria gelado sob a ponte que levava ¨¤ entrada da caverna de Garm, onde rostos conhecidos a esperavam, irritados e com frio.
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CapÃtulo 126 - InsÃdia
Hoje, a atmosfera na caverna estava incomumente aconchegante. O calor da respira??o ansiosa e o brilho sobrenatural das luzes esverdeadas criavam um ambiente contrastante com o mundo l¨¢ fora. Ali, Ana, a rainha mascarada, reunira apenas os membros de sua unidade mais pr¨®xima, o Puni??o Divina.
As figuras de Nyx, Eva e Alex estavam dispostas ao redor de uma baixa mesa improvisada, sentados em grandes almofadas. Garm, como sempre, repousava pr¨®ximo ¨¤ entrada, o olhar vigilante enquanto descansava seu corpo imenso.
¡ª Faz tempo que a gente n?o se reune assim¡ t¨¢ todo mundo bem? Parece que o inverno realmente chegou pra valer, hein? ¡ª perguntou sucessivamente Alex, esfregando as m?os para afastar o frio. ¡ª O vento t¨¢ gelado demais!
¡ª Eu gosto do frio. Deixa tudo mais bonito ¡ª murmurou suavemente Nyx, mas seu corpo parecia tremer por baixo da manta escura em que se enrolava. ¡ª E voc¨º, o que acha, Ana?
A mercen¨¢ria deu de ombros, sentando-se entre eles.
¡ª Deixa meu corpo duro, mas n?o ¨¦ ruim. As crian?as caindo na ponte congelada s?o um ponto positivo desse tempo estranho.
Garm ergueu uma orelha e lan?ou um olhar de desaprova??o para a rainha, que apenas riu, satisfeita em ter provocado uma rea??o. Alex cruzou os bra?os, apoiando-se contra uma parede pr¨®xima, observando a intera??o com um leve sorriso no rosto.
Todos riram, imaginando a cena das pequenas figuras correndo e sentindo o desgosto da vida ao notarem seus corpos acertando pesadamente o ch?o. Mas a descontra??o durou pouco, pois Eva logo retomou a express?o s¨¦ria. Seu nariz estava em um forte tom rosado, e escorria um pouco, a obrigando a fazer o habitual som de fungar dos gripados, o que a deixava mais impaciente que o normal.
¡ª Certo, voc¨º nos reuniu aqui pra esse tal compromisso inadi¨¢vel, ent?o deve ter um bom motivo para isso ¡ª Eva cruzou os bra?os, seu tom sem rodeios, mas a curiosidade dan?ando em seus olhos. ¡ª Podemos ir logo ao ponto?
¡ª Calma, minha jovem. ¨¦ sempre bom manter um pouco de mist¨¦rio. Hoje temos muito o que discutir. Mas bem, que sejamos r¨¢pidos ent?o!
Ana sorriu, mas dessa vez, seu olhar tornou-se mais focado, um brilho de determina??o que Eva reconheceu. Ela se levantou de seu assento e estendeu a m?o, segurando um estranho objeto que at¨¦ ent?o estava escondido em seu bolso. O gesto foi acompanhado de um ar teatral, mas seus olhos n?o deixavam d¨²vidas de que falava s¨¦rio.
¡ª Como todos sabem, n?o somos mais s¨® uma pequena cidade. Ouso dizer que j¨¢ fomos muito al¨¦m disso, e em tempo recorde! Assim, precisamos de algo que represente a for?a e a uni?o de todos os que vivem sob essas muralhas.
Com um movimento preciso e cheio de inten??o, Ana girou o objeto entre os dedos, erguendo-o com elegancia para que todos pudessem v¨º-lo. O broche de metal que ela revelava era de uma elegancia simples, mas cheia de simbolismo. No centro, uma m¨¢scara, desprovida de detalhes individuais, representando a aus¨ºncia de identidade espec¨ªfica.
Era um s¨ªmbolo de unidade, indicando que todos povos de todas as variantes e origens, n?o importa suas diferen?as, s?o um s¨® dentro deste dom¨ªnio, unidos pela mesma coroa invis¨ªvel que governava sobre o reino de Ins¨ªdia. O rosto da m¨¢scara, sereno e enigm¨¢tico, trazia uma express?o de neutralidade, como se estivesse tanto a observar quanto a proteger.
Ao redor dela, ramos espinhosos e flores entrela?avam-se em um c¨ªrculo que n?o era nem perfeitamente sim¨¦trico nem totalmente irregular. As linhas delicadas dos espinhos sugeriam uma for?a oculta, um alerta de que, sob a aparente serenidade, havia brutalidade e poder prontos para serem despertados. Ao mesmo tempo, as flores davam um toque de vida, sugerindo crescimento e evolu??o.
¡ª Ele mant¨¦m as origens at¨¦ certo ponto, mas este ¨¦ o s¨ªmbolo da nossa na??o... Ins¨ªdia. A terra dos que foram abandonados, dos que reescrevem seus pr¨®prios destinos. ¡ª Suas palavras ressoaram pela caverna, e a intensidade em sua voz fez com que o novo nome gravasse uma marca no esp¨ªrito de todos presentes.
No mesmo instante, como se suas palavras tivessem sido um sinal, um som met¨¢lico ecoou pela caverna, e grandes bandeiras se desdobraram do teto em um movimento fluido, caindo como cortinas pesadas ao redor deles. As cores intensas do novo emblema reluziam ¨¤ luz das tochas, preenchendo o ambiente com uma aura de renova??o. O grupo, sem tempo de ter uma rea??o adequada, arregalou os olhos, e, ao fundo, puderam ouvir a exclama??o de surpresa que vinha das ruas l¨¢ fora, sugerindo que o mesmo espet¨¢culo acontecia pela cidade.
Mesmo que n?o vissem, podiam imaginar as bandeiras tremulando nas torres, destacando-se contra o c¨¦u cinzento do inverno. Inesperadamente, cada um deles foi preenchido por um intenso sentimento de realiza??o, um discreto orgulho de cada passo que deram juntos. Estavam esperando esse dia a meses, e hoje, finalmente, a cidade das m¨¢scaras deixava de ser apenas um ref¨²gio para os rejeitados e os perdidos, transformando-se em algo maior, um lugar que come?ava a definir sua pr¨®pria hist¨®ria.
Ana se virou novamente para os membros do grupo, deixando que as palavras vagassem no ar enquanto os olhares de seus aliados voltavam a se focar.
¡ª Claro, n?o se trata apenas de construir um esqueleto de um reino ¡ª continuou ela, sua voz ganhando um tom mais profundo, mais ambicioso. ¡ª Vamos criar festivais e cerim?nias, definir nossas pr¨®prias tradi??es, celebrar nossas vit¨®rias e chorar nossas derrotas juntos. Vamos consolidar o orgulho de sermos daqui, para que todos saibam que algo maior nasceu. ¨¦ hora de deixarmos nossa marca no mundo.
Nyx parecia fascinada, seu olhar brilhando com a promessa de um novo come?o, sua natureza selvagem capturando a ideia de um lugar onde a liberdade era lei. Alex, por outro lado, manteve uma express?o ponderada, mas havia um sorriso satisfeito em seus l¨¢bios, como se apreciasse a seriedade da proposta. Eva observava com uma mistura de ceticismo e admira??o, tentando processar o quanto aquela simples cidade havia crescido.
Foi ent?o que, sem aviso, Ana bateu duas palmas, chamando a aten??o de todos. Em resposta, um grupo de mascarados entrou na caverna de forma coordenada, carregando uma s¨¦rie de caixas robustas. Eles as dispuseram em um c¨ªrculo ao redor da mesa antes de se retirarem em sil¨ºncio, como sombras que se desfaziam na escurid?o das paredes de pedra.
¡ª Antes de discutirmos os detalhes do nosso novo lar, quero compartilhar algo que fiz pessoalmente para voc¨ºs ¡ª ela passou a m?o pelos entalhes da tampa de uma das caixas, sorrindo para si mesma. ¡ª Foi um trabalho que exigiu muito esfor?o. Usei tudo que aprendi neste novo mundo, todas as ideias e conceitos que absorvi. Espero que gostem do resultado.
Os membros do Puni??o Divina trocaram olhares curiosos e intrigados. A expectativa no ar era quase palp¨¢vel, e os olhos de todos se voltaram para as caixas, tentando adivinhar o que se escondia em seu interior.
¡ª O que est?o esperando? Abram!
O som das trancas sendo liberadas foi instantaneo. Quando as caixas foram abertas, um brilho escuro, mas intenso, preencheu a caverna. Em cada uma repousava uma armadura completa para o bra?o, uma pe?a ¨²nica de um metal escuro, quase como obsidiana, que cobria do ombro aos dedos, composto de pequenas pe?as esculpidas com uma precis?o quase sobrenatural. Cada parte continha finos ligamentos prateados, t?o finos que lembravam tecido, mas t?o firmes que traziam uma chama de seguran?a ao simples toque. O brilho emitido por elas era tanto intrigante quanto hipnotizante, o tipo de resplendor que quase exigia que as usassem imediatamente.Find this and other great novels on the author''s preferred platform. Support original creators!
¡ª Isso¡ ¨¦ impressionante ¡ª disse Alex, incapaz de esconder a admira??o.
Ele girou a pe?a em suas m?os, examinando o emblema do reino gravado nos ombros, um s¨ªmbolo complexo que apresentava um tom escurecido, mas ao mesmo tempo reluzente, criando um contraste fascinante com o metal negro. No entanto, seus olhos se estreitaram ao notar, ao lado do emblema, tr¨ºs estranhos sulcos sem um prop¨®sito aparente.
¡ª Sobre isso, vou demonstrar mais tarde ¡ª comentou Ana, com um sorriso provocador, interrompendo a pergunta que sabia que seria feita ao notar o olhar confuso do homem. ¡ª Primeiro quero que voc¨ºs experimentem. Depois eu explico.
Os membros do Puni??o Divina n?o contestaram, apenas vestiram as armaduras com pressa.
¡ª Parece que foram feitas para mim ¡ª comentou Eva, girando o bra?o para testar a flexibilidade. ¡ª N?o atrapalham em nada os movimentos.
Os outros assentiram. Cada pe?a se ajustou perfeitamente a seus bra?os, moldando-se aos contornos de seus corpos como se tivesse sido feita sob medida. O metal parecia fluir com a curvatura de seus bra?os, abra?ando a pele com uma press?o firme, mas n?o desconfort¨¢vel. Era como vestir uma segunda pele, que ao toque parecia fria, mas que se aquecia rapidamente, adaptando-se ¨¤ temperatura do corpo.
Ana sorriu enquanto colocava seu pr¨®prio protetor, notavelmente distinto do dos outros membros. Havia algo na sua pe?a que transbordava autoridade, poder e um certo mist¨¦rio. O emblema cravado em seu ombro era uma varia??o majestosa do s¨ªmbolo comum. No centro estava a mesma m¨¢scara desprovida de tra?os definidores, mas nesta vers?o, havia algo mais: um par de chifres curvados que se projetavam delicadamente da parte superior, formando arcos amplos e imponentes.
Esses chifres n?o tinham uma simetria perfeita; um deles se dobrava levemente para dentro, como se representasse controle e conten??o, enquanto o outro se expandia para fora, simbolizando uma selvageria indom¨¢vel.
Em seu entorno, o c¨ªrculo organico se mantinha, mas aqui, os espinhos pareciam mais afiados, e as flores, mais v¨ªvidas, quase pulsando com energia. Cada detalhe sutil sugeria a dualidade da rainha: a brutalidade e a realeza, o caos e a ordem, a vida e a morte. No topo da m¨¢scara, repousava uma coroa simples entrela?ada com ouro envelhecido, como se tivesse sido moldada diretamente do metal fundido. N?o era uma coroa de realeza comum; suas pontas eram afiadas como laminas de elegancia selvagem. As pontas alongadas pareciam tocar o ar, como garras prontas para se fechar sobre tudo ao redor.
¡ª Me dediquei bastante pra alcan?ar isso. O material ¨¦ um composto especial que desenvolvi nos ¨²ltimos meses com os min¨¦rios raros extra¨ªdos das minas rec¨¦m-descobertas ao norte, al¨¦m de cristais infundidos com mana concentrada ¡ª explicou Ana, orgulhosamente, enquanto olhava para os detalhes do item. ¡ª Flex¨ªvel, mas imensamente resistente, capaz de suportar os impactos mais severos sem perder sua leveza. Por sinal, n?o esqueci de voc¨º, Garm.
Saltitando, se aproximou rapidamente do lobo gigantesco, que se levantou em um salto, seu corpo causando um tremor no solo. A ansiedade estava clara em seus olhos, e sua cauda batia contra o ch?o com impaci¨ºncia.
Ana se abaixou e, com cuidado, retirou da caixa n?o um protetor de bra?o, mas sim uma pr¨®tese negra e majestosa, projetada especificamente para ele. O metal brilhava com o mesmo tom escuro das demais, mas era ainda mais imponente, mais robusta, feita para suportar o peso e a for?a de um ser t?o colossal. Quando ela a levou ao membro amputado, o encaixe foi perfeito.
¡ª Voc¨º sabe que vai doer quando isso for fixado, n?o ¨¦?
¡ª Podemos fazer isso mais tarde? ¡ª perguntou o lobo, bufando de forma meio envergonhada, lembrando de seus uivos involunt¨¢rios quando a mand¨ªbula foi implantada em sua face. Ele conhecia essa dor, mas tamb¨¦m sabia que era necess¨¢ria.
¡ª Vou pensar no seu caso.
¡ª Ele me lembra o Felipe ¡ª a voz de Alex saiu melanc¨®lica, mas seu sorriso era radiante com as mem¨®rias.
¡ª Eu disse a mesma coisa quando vi ele sem a perna! ¡ª respondeu Ana, rindo alto.
Enquanto todos observavam Garm se adaptar superficialmente ¨¤ nova pr¨®tese, Eva, ainda encantada com o presente, finalmente se aproximou.
¡ª E para que servem essas runas? Digo, s?o runas, n¨¦? ¡ª perguntou, referindo-se aos refinados s¨ªmbolos que se conectavam externamente e internamente em cada escama de metal, gravados com uma precis?o quase imposs¨ªvel.
Ana ergueu o olhar, os pequenos e alinhados dentes apresentando a composi??o sinistra que chamava de sorriso.
¡ª Como eu disse, isso ¨¦ o resultado de tudo que aprendi nesses ¨²ltimos meses.
Todos trocaram olhares nervosos ao ver que nenhuma explica??o real foi dada, e a sala pareceu esfriar por um momento. Havia algo na express?o de Ana que mexia com o instinto mais primitivo deles. Era como se gritos surgissem na profundidade de suas almas, dizendo selvagemente que algo estava prestes a acontecer, algo que desafiava a raz?o.
¡ª Bem, por que n?o testamos todos juntos? ¡ª sugeriu a jovem ruiva, tentando se recompor.
Com um aceno conjunto, tentaram deixar a preocupa??o de lado e come?aram a canalizar sua mana ao mesmo tempo. Conforme a energia flu¨ªa, as runas e linhas nas armaduras come?aram a se iluminar, partindo do emblema nos ombros e se espalhando at¨¦ as pontas dos dedos. O brilho sobrenatural parecia pulsar de forma misteriosa, amea?adora, mas ao mesmo tempo, acalentadora.
Foi ent?o que notaram algo se movendo entre as juntas do equipamento. Um som baixo e sutil de estalos reverberou pela caverna, como se algo estivesse acordando de um sono profundo enquanto as runas brilharam cada vez mais intensamente.
O sorriso de Ana se alargou ainda mais e, ao lado da perturbadora rainha, o primeiro grito soou.
Ra¨ªzes finas e escuras brotavam dos pontos de conex?o. Eram grossas como agulhas, adentrando diretamente na carne de seus usu¨¢rios. Pareciam criaturas famintas, que se enrolavam ao redor de cada osso, nervo e tend?o, invadindo o corpo de seus portadores at¨¦ que n?o houvesse mais distin??o entre onde terminava o humano e come?ava a armadura.
Para a pr¨®pria surpresa, n?o conseguiram cortar o fluxo de mana, estavam sendo sugados at¨¦ o limite. O desespero em seus olhos aumentou quando pensavam que tudo estava prestes a acabar, mas a macabra simbiose come?ou uma nova etapa. O metal come?ou a esquentar, irradiando um calor que rapidamente se tornou insuport¨¢vel. A pele em contato com o material come?ou a arder, sendo derretida e moldada, fundindo-se de forma dolorosamente ¨ªntima.
O ch?o da caverna logo se tingiu de vermelho quando o sangue come?ou a escorrer das perfura??es, formando um mar carmesim aos p¨¦s de todos. Alex caiu de joelhos, ofegante, enquanto Nyx apertava os dentes para n?o gritar. Eva, com os olhos arregalados, segurava o bra?o, apoiada na parede com l¨¢grimas escorrendo por suas bochechas.
Nem Garm foi poupado do sofrimento A pr¨®tese que se fundia ao seu corpo enviava choques agudos atrav¨¦s de seu nervo restante, como se cada fibra do equipamento buscasse um lugar no que restava de seu antigo membro. Ele apertou os dentes com for?a, o rugido de dor preso em sua garganta enquanto o metal se espalhava por sua carne, ancorando-se aos ossos do coto. O lobo gigante tremia, mas seus olhos mantinham uma resolu??o sombria, mesmo que cada segundo fosse um inferno particular.
E, no centro de tudo, a figura de Ana se destacava, sua risada alta e insana vagando por cada canto da caverna, misturando-se ao som angustiante e ¨¤ batida constante do sangue na pedra.
Para ela, a experi¨ºncia foi um misto de ¨ºxtase e agonia. Cada movimento das ra¨ªzes em seu bra?o era um esgar?ar da carne e do osso, que logo se fechava por conta pr¨®pria, reconstruindo-se de uma maneira que parecia mais r¨ªgida, mais forte. Ela sentia cada nervo sendo reconectado, cada c¨¦lula se adaptando ¨¤ nova estrutura, como se tudo estivesse sendo reescrito em tempo real. Isso a deixou satisfeita, afinal, era sinal de que havia funcionado.
¡ª Bem-vindos ao novo mundo! ¡ª exclamou a rainha, os olhos brilhando de uma loucura que parecia queimar com a intensidade de um sol prestes a explodir.
Neste momento, Ana notou que uma caixa permaneceu fechada, intocada em meio ao c¨ªrculo de caos. Ela franziu a testa, seus olhos varrendo a caverna rapidamente, em busca de uma presen?a ausente. Foi ent?o que percebeu: o mentalista n?o estava ali.
¡°Puta que pariu, esqueci completamente dos malditos insetos¡±, pensou, sentindo um misto de frustra??o e urg¨ºncia contida tomar conta de seus pensamentos, enquanto a brutalidade seguia firmemente ao seu redor.
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CapÃtulo 127 - Insanidade Celeste
¡ª Voc¨ºs entendem, n?o ¨¦?
A voz de Ana cortou o sil¨ºncio como uma lamina afiada, reverberando pelas paredes da caverna com um eco perturbador. O som dos seus passos, marcados pelas pegadas encharcadas de sangue, ecoava em sincronia, cada movimento criando uma cad¨ºncia sombria, como se o pr¨®prio ambiente se curvasse ¨¤ sua presen?a.
¡ª For?a? Ela n?o ¨¦ moldada pela paci¨ºncia ou pelo tempo. Voc¨ºs realmente acreditam que a mana, essa fagulha insignificante, pode nos salvar? N?o somos nada al¨¦m de cascas fr¨¢geis, vulner¨¢veis ao primeiro toque da realidade. Fracos, quebradi?os... rid¨ªculos!
Sua risada descontrolada se tornou um rugido de loucura, rasgando o ar como uma nota dissonante, um som t?o fora de lugar quanto a pr¨®pria sanidade da rainha. Seus olhos brilharam em um frenesi selvagem, enquanto continuava cada vez mais alto.
¡ª A verdadeira for?a requer sacrif¨ªcios... precisa ser arrancada, arrancada da pr¨®pria carne.
A armadura que agora cobria seu bra?o finalmente se aquietou, suas placas met¨¢licas chiando levemente antes de se integrarem de forma permanente ¨¤ carne de Ana.
¡ª Eu pensei nessas pe?as com muito carinho, sabem? Podemos dizer que ¨¦ minha obra-prima ¡ª sua voz agora era baixa, quase um murm¨²rio. ¡ª Foram inspiradas na minha espada. Aquele maldito peda?o de metal vivo. Est¨¢ viva, talvez? Tem c¨¦lulas que se duplicam? Ou alguma manipula??o inexplic¨¢vel que faz a massa aumentar? Honestamente, n?o consegui chegar nem perto de copiar ela, mas minha vers?o n?o pode ser chamada de totalmente inferior.
Ela se perdeu por um momento em seu pr¨®prio devaneio, sua voz oscilando entre lucidez e loucura.
¡ª Por sorte, os corrompidos me vieram ¨¤ mente... quase todos eles perderam a capacidade de manipula??o quando seus corpos foram alterados. Suas veias se deformaram, sumiram, ou afinaram.
Ana caminhou lentamente at¨¦ Nyx, e com certa curiosidade, passou o dedo ao longo de seus chifres.
¡ª Mesmo assim, n?o significa que perderam a capacidade de evoluir com a mana, cada um da sua maneira. N?o ¨¦ da forma tradicional, mas os bestiais, por exemplo, ganharam veias aprimoradas para distribui??o interna de energia. N?o podem mais criar manifesta??es, isso ¨¦ sofisticado demais, mas n?o v?o encontrar fortalecedores melhores por aqui. Ficaram¡ pr¨¢ticos!
Ana continuou, seus olhos brilhando com um entusiasmo insano enquanto fazia um gesto amplo, como se estivesse explicando um ponto crucial para um p¨²blico invis¨ªvel.
¡ª As dr¨ªades s?o ainda mais fascinantes. Suas veias fundiram-se completamente ao corpo. Agora absorvem mana lentamente, mas de forma direta, sem desperd¨ªcio. Uma simbiose perfeita entre corpo e energia.
Ana parou de falar por um segundo, observando as armaduras que pulsavam como se fossem um bra?o real. Ela deu um passo ¨¤ frente, gesticulando como se estivesse revelando um segredo.
¡ª Resumindo tudo, peguei um DNA daqui, uma parte estranha dali... um conceito de l¨¢, outro de c¨¢... criei algo que crescer¨¢ com voc¨ºs. Quanto mais voc¨ºs absorverem, mais forte ela ficar¨¢. Claro, ¨¦ apenas em teoria, talvez sejam s¨® ¨¢rvores de ferro in¨²teis que v?o acabar despeda?ando-os de dentro pra fora¡
Ela olhou para os corpos no ch?o com um sorriso quase maternal, antes de gargalhar do pr¨®prio discurso como se contasse uma s¨¦rie de piadas.
¡ª Bem, o poder tem um pre?o, mas apenas tratem-nas como plantas. Bem regadas, crescer?o saud¨¢veis... Mas, claro, podem absorver toxinas de um solo envenenado se n?o forem cuidadosos. Voc¨ºs v?o dar um jeito de controlar essa coisa.
¡ª Eles n?o podem mais te ouvir, Ana ¡ª disse uma voz serena, vinda de repente das costas da estranha mulher.
A mercen¨¢ria parou de rir e virou-se bruscamente para o visitante, o del¨ªrio evidente em seus globos oculares saltados.
¡ª Eu sei disso... Mas adoro mon¨®logos.
Horas se passaram, e os corpos dos membros do Puni??o Divina jaziam inertes no ch?o, como bonecos de carne quebrados devido ao esgotamento completo de mana. Suas respira??es vinham em arfadas rasgadas, entrecortadas pela dor que ainda parecia pulsar em suas veias. A pele ao redor das armaduras estava inchada, com veios de sangue coagulado se espalhando sob a carne, onde o metal havia se fundido com os ossos. Seus olhos, mesmo inconscientes, tremiam sob as p¨¢lpebras fechadas, como se suas mentes ainda lutassem contra o trauma de terem seus corpos violentamente modificados.
Ana, por sua vez, cambaleava. O custo havia sido alto para ela tamb¨¦m. Seu corpo tremia com cada passo, o sangue seco em seus l¨¢bios e a palidez de sua pele eram evid¨ºncias de que mesmo ela estava ¨¤ beira do colapso.
Miguel, observando ¨¤ distancia, notou que, apesar de manter o sorriso fixo, os dentes dela estavam tremendo levemente, como se estivesse a um passo de perder o controle completamente. Por mais que tentasse, o mascarado n?o p?de esconder sua inquieta??o diante do que presenciava.
¡ª Eu queria saber o que est¨¢ fazendo aqui, Miguel¡ N?o mandei que ficasse longe at¨¦ eu terminar?
Ela mal esperou por uma resposta antes de enfiar a m?o no casaco, tirando seis pequenas ampolas de vidro. Os frascos brilhavam sob a luz fraca, cada um contendo o res¨ªduo do ¨²ltimo experimento que realizara. Infelizmente, ela havia descoberto que os efeitos duravam menos de trinta minutos. Uma falha frustrante, j¨¢ que a efic¨¢cia do composto se dissipou antes mesmo de ter chegado ¨¤ caverna.
¡ª S?o lixo! ¡ª gritou, com raiva, enquanto jogava um dos frascos na parede, explodindo em centenas de fragmentos. ¡ª Mas devem ser o suficiente.
Ela foi de membro em membro do Puni??o Divina, enfiando o composto no primeiro dos tr¨ºs sulcos nas armaduras. O l¨ªquido foi absorvido imediatamente, escorrendo pela parte organica da pe?a e desaparecendo em segundos por seus corpos, como se tivesse sido sugado por uma for?a invis¨ªvel. O processo foi r¨¢pido, deixando um intenso brilho momentaneo antes de suas respira??es ficarem mais est¨¢veis.Stolen content warning: this tale belongs on Royal Road. Report any occurrences elsewhere.
Miguel, aproveitando o sil¨ºncio inc?modo, deu um passo ¨¤ frente, tentando medir suas palavras com cuidado.
¡ª N?o quebrei suas ordens propositalmente ¡ª come?ou ele, sua voz controlada, embora um toque de urg¨ºncia pudesse ser sentido. ¡ª Um imprevisto acaba de chegar ¨¤ cidade.
Ana parou por um instante, seus dedos ainda tocando as armaduras dos guerreiros inconscientes. Seus olhos se voltaram lentamente para Miguel, agora fixos nele com uma intensidade que o fez gelar. Ela n?o disse nada, apenas come?ou a girar as m?os no ar, impaciente, sinalizando para que ele continuasse a falar.
¡ª Um grupo de ca?adores de Barueri est¨¢ nos port?es. Eles exigem uma reuni?o. ¡ª Terminando a frase, olhou para o casaco da rainha, percebendo o quanto estava encharcado de sangue. ¡ª Eu ia perguntar se gostaria de v¨º-los... mas creio que seja melhor adiarmos a reuni?o, dadas as circunstancias.
Ana, com um brilho de mal¨ªcia nos olhos, girou nos calcanhares.
¡ª Adiar? Mas ¨¦ claro que n?o! ¡ª exclamou com entusiasmo inesperado. ¡ª Eles chegaram na hora perfeita!
¡ª Temo que¡ a sala do trono, bem¡ ela n?o foi devidamente preparada para uma audi¨ºncia.
¡ª Que bobagem ¨¦ essa? ¡ª Ana gargalhou, como se os motivos fossem absurdos.
Ela come?ou a cantarolar, indo at¨¦ as caixas de equipamento e alinhando-as de maneira improvisada no centro da caverna. Em um piscar de olhos, acenou com um ar de satisfa??o e se sentou no topo, a postura imponente, enquanto se inclinava para tr¨¢s, relaxada.
¡ª Uma sala do trono ¨¦ onde a rainha est¨¢! ¡ª declarou com uma anima??o inquietante. ¡ª Agora, tirem esses dorminhocos daqui e tragam os ca?adores em seguida. Vou receb¨º-los pessoalmente.
Miguel suspirou internamente e inclinou a cabe?a em um leve aceno de concordancia
¡ª Por sorte, eles est?o logo acima de nossas cabe?as ¡ª comentou, e, com mais um aceno, se retirou para cumprir as ordens.
Logo ap¨®s a sa¨ªda de Miguel, algumas est¨¢tuas entraram silenciosamente na caverna. Com cuidado, come?aram a retirar os membros ca¨ªdos do Puni??o Divina, como se fossem rel¨ªquias preciosas. Cada corpo foi carregado com delicadeza, evitando qualquer dano adicional ¨¤s suas armaduras fundidas e corpos exauridos.
Quando chegaram a Garm, no entanto, a tarefa exigiu um pouco mais de esfor?o. O gigantesco lobo, com sua nova pr¨®tese presa ao corpo, n?o poderia ser movido com facilidade. Ent?o, com a mesma precis?o meticulosa, as est¨¢tuas cobriram seu corpo imenso com um tecido pesado e resistente, escondendo sua presen?a da vis?o dos visitantes que logo chegariam. A cena da montanha de mantos no meio do cen¨¢rio causava certa estranheza, mas Ana achou a prepara??o boa o suficiente.
Minutos depois, as est¨¢tuas retornaram ¨¤ caverna, desta vez acompanhadas do som pesado das botas dos ca?adores de Barueri, que ecoaram alto enquanto entravam com a arrogancia de quem se v¨º no controle. Tal arrogancia gradualmente desaparecia quanto mais se aprofundavam, e o passo firme vacilou ao primeiro olhar para o ambiente.
O ch?o escorregadio com sangue fresco, as est¨¢tuas de rostos vazios observando-os como predadores ¨¤ espreita, e no centro, a rainha, sentada em um trono improvisado. O sorriso de Ana os encarando como uma fera que acabara de escolher sua pr¨®xima presa. O ar estava pesado, quase imposs¨ªvel de respirar, e, por um momento, a postura confiante deles se desfez em puro desconforto.
Ainda assim, se esfor?ando para dissipar o medo, avan?ando com passos decididos. O primeiro, um homem de fei??es endurecidas e olhos calculistas, adiantou-se, falando de maneira ¨¢spera.
¡ª Voc¨ºs s?o uma amea?a ¨¤ humanidade. Devem se submeter e obedecer se desejam a paz. Est¨¢ claro que essa "cidade" n?o tem lugar no nosso mundo.
¡ª Este lugar ¨¦ um antro de corrup??o! ¨¦ simplesmente hediondo, n?o vamos permitir que continue! ¡ª outro ca?ador, mais jovem e impetuoso, gritou logo em seguida.
As est¨¢tuas mascaradas que guardavam as laterais da caverna se moveram de maneira quase impercept¨ªvel. Suas presen?as emanavam uma autoridade silenciosa, e uma delas, n?o conseguindo se conter, deu um passo ¨¤ frente.
¡ª Mostrem respeito diante da rainha.
Ana levantou a m?o, um gesto para silenciar a est¨¢tua, e sorriu com um brilho cruel nos olhos.
¡ª Tudo bem, tudo bem ¡ª disse ela, sua voz carregada de um tom zombeteiro. ¡ª Mal come?amos essa conversa, e j¨¢ estamos assim?
Ela se inclinou para frente, os dedos tamborilando no bra?o improvisado de seu trono, pensativa.
¡ª Sabem de uma coisa? Que se fodam.
Foi ent?o que, com outro pequeno movimento de seus dedos, as est¨¢tuas explodiram em a??o. A velocidade e brutalidade de seus movimentos foram inesperadas, e, antes que qualquer um pudesse reagir, os ca?adores sentiram suas pernas cederem violentamente.
Um estalo seco ecoou pela caverna quando os joelhos dos emiss¨¢rios colidiram com o ch?o encharcado de sangue, fazendo o l¨ªquido carmesim espirrar para todos os lados. O cheiro met¨¢lico inundou suas narinas enquanto eles lutavam para respirar, ofegantes e impotentes sob o peso daquele ambiente esmagador.
Os demais, mais afastados, tentaram recuar, mas foram rapidamente imobilizados por outros mascarados que aguardavam perto da sa¨ªda. Seus movimentos precisos e implac¨¢veis deixaram os ca?adores indefesos.
Ana se levantou de seu trono improvisado, caminhando lentamente at¨¦ o emiss¨¢rio mais pr¨®ximo. Seus passos eram met¨®dicos, e traziam em sua ess¨ºncia um claro pren¨²ncio de algo terr¨ªvel. Ela parou na frente deles, inclinando-se ligeiramente. Ela parou ¨¤ frente do homem, inclinando-se levemente com um sorriso frio e amea?ador.
Desesperado, o ca?ador levantou a m?o tr¨ºmula, apontando para Ana enquanto tentava articular uma acusa??o, sua voz cheia de ¨®dio e impot¨ºncia.
¡ª Voc¨º...! Isso ¨¦ um absurdo! Eu vou¡ª
Ele n?o teve chance de terminar a frase. Ana levantou levemente a m¨¢scara que escondia seu rosto, e mantendo o mesmo sorriso cruel nos l¨¢bios, abocanhou o dedo erguido, mordendo-o com for?a sem qualquer hesita??o. O estalo do osso se partindo foi seguido pelo grito agonizante do homem, e os demais demoraram para raciocinar o ocorrido, reagindo tarde demais a imobiliza??o ainda mais firme que veio em seguida.
¡ª Da pr¨®xima vez voc¨º deve se ajoelhar diante da monarca sem precisar de incentivos ¡ª falou ela em uma voz quase suprimida pelo som de mastiga??o, com dentes agora manchados de sangue. ¡ª Claro, isso se quiser sair desta sala com a cabe?a ainda presa aos ombros.
Tirando seus olhos do homem ainda em choque, a mercen¨¢ria se esticou e soltou um suspiro, mantendo uma express?o sorridente que parecia irradiar uma luz amb¨ªgua, como um sol distante: acolhedor e mortal ao mesmo tempo. O calor daquele sorriso contrastava com a vastid?o abissal em seus olhos, o olhar de algu¨¦m que j¨¢ n?o conseguia ver o fio t¨ºnue entre o poder e o del¨ªrio.
¡ª Si vis pacem, para bellum, meus caros¡ matem o restante e soltem esse cara ¡ª murmurou Ana, com sua risada final se espalhando por cada canto, envolta pelo sangue e temor que se fundiam como uma dan?a macabra, transformando aquele instante em um prel¨²dio divino de caos, pronto para consumir tudo. ¡ª A paz que eles tanto anseiam ¨¦ o tipo de paz que s¨® se conquista atrav¨¦s da for?a. A grande quest?o ¨¦ qual de n¨®s ¨¦ o lado forte.
O tempo para todos os presentes parecia suspenso, como se o pr¨®prio universo hesitasse ante a imin¨ºncia de uma destrui??o guiada pela doce insanidade celeste da rainha.
E aqui encerramos o volume 3 da novel!
Espero que tenham aproveitado a leitura e agrade?o imensamente por me acompanharem ao longo desses meses!
Se puderem avaliar a novel, ficarei eternamente grato!
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CapÃtulo 128 - Sonhos de Paz
¡ª Foi voc¨º quem escreveu sobre isso? ¡ª perguntou Cassandra, enquanto mordia um grande peda?o de carne, seus olhos lan?ando um olhar r¨¢pido para o jornal que folheava desinteressadamente.
Jorge, de p¨¦ ao lado da mesa, fez um aceno afirmativo com a cabe?a, com um calmo sorriso brotando no rosto.
¡ª Sim, fui eu. ¨¦ incr¨ªvel que tenham conseguido fazer um papel de t?o boa qualidade nesses tempos. Me lembro dos meus dias de estagi¨¢rio, antes do mundo desabar nesse caos.
Cassandra revirou os olhos, balan?ando a cabe?a com uma express?o que misturava incredulidade e zombaria.
¡ª Ah, voc¨º e suas hist¨®rias ¡ª ela deu uma risada curta. ¡ª Mas n?o t? falando disso, Jorge. Quero saber dessa not¨ªcia aqui. A gente vai entrar em lei marcial de verdade?
Jorge, com sua t¨ªpica tranquilidade, suspirou, como se estivesse se preparando para explicar algo ¨®bvio.
¡ª Sempre estivemos sob lei marcial, Cass. Parece livre, mas Annabelle manda em tudo por aqui com m?o de ferro, voc¨º sabe disso.
¡ª Mas nunca tivemos restri??es desse tipo!
¡ª E ainda n?o temos ¡ª respondeu Jorge, com um toque de impaci¨ºncia na voz. ¡ª Para de ser pregui?osa e l¨º direito a not¨ªcia. N?o ¨¦ nada t?o dram¨¢tico quanto voc¨º t¨¢ pensando.
¡ª J¨¢ bati o olho, ¨¦ o suficiente! ¡ª Cassandra retrucou, mexendo no jornal com desd¨¦m. ¡ª Campanhas de recrutamento, treinamentos obrigat¨®rios para quem quiser ficar na cidade... Isso ¨¦ um saco.
¡ª Sim, ¨¦ um saco ¡ª Jorge admitiu com um suspiro, antes de lan?ar uma pergunta que pairou no ar. ¡ª Quando vamos embora, ent?o?
Cassandra parou, sua mastiga??o desacelerando, e olhou para ele com uma express?o pensativa.
¡ª Ir embora? Quem disse que vamos embora?
¡ª Voc¨º quer lutar por uma cidade que a gente mal conhece?
Cassandra soltou um longo suspiro, seu olhar agora mais pensativo, quase introspectivo. Com um movimento r¨¢pido, puxou um banco ao seu lado, batendo no assento suavemente para que Jorge se juntasse a ela. Seu tom de voz suavizou, mas havia uma firmeza na forma como ela se expressava.
¡ª Senta a¨ª, Jorge. Olha ao nosso redor.
A casa ao redor deles exalava uma simplicidade aconchegante. As paredes nuas, sem adornos extravagantes, ofereciam uma sensa??o de serenidade em meio ao caos que permeava o mundo l¨¢ fora. Dois quartos modestos, um banheiro funcional e uma sala espa?osa se conectavam de maneira fluida ¨¤ cozinha, onde cada detalhe parecia cuidadosamente pensado para proporcionar conforto.
A geladeira, embora simples, estava surpreendentemente abastecida, com condimentos e alimentos organizados em prateleiras, algo raro para aqueles tempos. Sobre o balc?o, uma vasilha repleta de frutas frescas se destacava; um verdadeiro luxo em tempos de incerteza, um s¨ªmbolo sutil de que, pelo menos ali, uma pequena forma de estabilidade e fartura havia sido alcan?ada.
¡ª Isso aqui... ¡ª ela gesticulou. ¡ª ¨¦ a vida mais confort¨¢vel que tive em anos.
Havia uma nostalgia dolorida em sua voz, como algu¨¦m que j¨¢ havia desistido de encontrar um ref¨²gio t?o acolhedor.
¡ª E se a gente for embora... pra onde vamos?
¡ª Eu sei, Cass. Mas e se as coisas ficarem feias?
¡ª E quando ¨¦ que n?o ficam feias? ¡ª Cassandra rebateu, seus olhos fixos nos de Jorge. ¡ª Tudo nesse mundo ¨¦ uma merda. Pelo menos aqui temos uma chance de lutar por algo que vale a pena.
Cassandra mordiscou o peda?o de carne, seus olhos observando com aten??o os detalhes da refei??o como se fosse uma met¨¢fora para o que estava em jogo. O fogo suave da lareira lan?ava sombras quentes pela sala, iluminando seus cabelos enquanto ela erguia o peda?o de carne novamente, agora mais reflexiva.Stolen story; please report.
¡ª Talvez falte um pouco da emo??o do abismo... mas as lutas aqui n?o s?o ruins. ¡ª Cassandra balan?ou a carne. ¡ª E olha isso, Jorge. L¨¢ embaixo, esse simples peda?o valeria metade da minha casa!
Jorge suspirou profundamente, enquanto se servia de vinho da jarra. O l¨ªquido rubro escorreu para o copo de barro, o som suave misturando-se ao crepitar das chamas. Ele o ergueu aos l¨¢bios e deu um gole, aproveitando a pausa, como se as palavras que viessem a seguir exigissem uma prepara??o cuidadosa.
¡ª Ainda podemos voltar pra Barueri ¡ª sugeriu ele, com uma calma que contrastava com a preocupa??o subjacente. ¡ª Tamb¨¦m gosto daqui, mas¡ n?o acho que podem vencer se essa guerra realmente estourar.
Cassandra arqueou uma sobrancelha, seus olhos se fixando nos dele, desafiadores como sempre.
¡ª Voc¨º j¨¢ viu aqueles caras l¨¢ fora brigando? Acha mesmo que n?o t¨ºm chance? Eles s?o m¨¢quinas de guerra!
O jornalista balan?ou a cabe?a, sua express?o se tornando mais sombria enquanto apoiava o copo sobre a mesa.
¡ª N?o ¨¦ uma quest?o de for?a. Eles s?o fortes, inegavelmente. Mas a maior parte da popula??o aqui n?o ¨¦ feita de guerreiros, s?o moradores comuns. Voc¨º realmente acha que v?o resistir a um bombardeio de manipuladores puros? Ou as estrat¨¦gias complexas das guildas?
¡ª Ah, VOU TROCAR ESSA FRASE eles n?o s?o tantos assim ¡ª retrucou Cassandra, dando de ombros. ¡ª E n?o v?o ter mana suficiente pra uma guerra prolongada. V?o focar em destruir as muralhas, isso ¨¦ ¨®bvio ¡ª ela tomou um gole de vinho antes de continuar. ¡ª Al¨¦m disso, se formos para Barueri, n?o pense que vamos escapar de lutar. N?o d¨¢ pra fugir de uma guerra como essa.
Ela fez uma pausa, sua express?o endurecendo um pouco ao encarar o olhar preocupado de Jorge.
¡ª E, pra ser honesta, n?o quero lutar contra essa rainha louca.
¡ª Podemos escolher outro lugar ent?o ¡ª sugeriu o jornalista, sua voz quase um sussurro, como se temesse que a ideia fosse insensata. ¡ª Um lugar mais longe. N?o somos fracos, Cass. Podemos viajar, encontrar uma cidade fora do radar, sem essa confus?o toda.
A mulher, no entanto, n?o desviou o olhar. Ela se inclinou levemente e pousou uma m?o firme no ombro de Jorge, um gesto carregado com uma mistura de camaradagem e afei??o.
¡ª Voc¨º me conhece melhor do que qualquer pessoa viva, sabe que n?o sou de recusar esse tipo de aventura. Se fosse alguns anos atr¨¢s, eu estaria l¨¢ fora, em busca de uma nova luta.
Ela parou, como se n?o soubesse como continuar, e por fim gesticulou para o pr¨®prio rosto, apontando para o canto dos olhos.
¡ª Olha pra isso.
O mercen¨¢rio a observou em sil¨ºncio, um tanto confuso no in¨ªcio, at¨¦ que seus olhos finalmente captaram o que ela estava mostrando: as rugas finas ao redor dos olhos dela, marcas sutis que apareciam mesmo na retorcida pele queimada, demonstrando de forma ineg¨¢vel o peso do tempo. Ele piscou, e sua pr¨®pria m?o subiu at¨¦ o rosto, tocando as rugas que agora decoravam sua pele, um lembrete silencioso da passagem dos anos.
¡ª N?o somos mais jovens ¡ª continuou Cassandra, sua voz agora tingida de uma melancolia resignada. ¡ª Eu estou chegando aos quarenta. Talvez seja a hora de darmos uma pausa. Quero¡ ¡ª ela hesitou, sua voz vacilando por um segundo, como se as palavras fossem dif¨ªceis de serem ditas ¡ª eu quero morrer em paz. Talvez eu n?o mere?a, eu sei, mas quem sabe o karma permita que eu construa uma fam¨ªlia, at¨¦ ter uma filha, talvez?
A confiss?o caiu como uma pedra no sil¨ºncio que se seguiu. O homem a olhou, atordoado, incapaz de esconder o choque em seu rosto. Finalmente, em um movimento repentino, pegou o jornal que estava na m?o dela e o jogou de lado, uma risada alta e incr¨¦dula escapando de seus l¨¢bios.
¡ª Voc¨º, a bruta chefe de arena, pensando em fam¨ªlia? ¡ª zombou ele, mas havia carinho em sua voz.
Ela riu de volta, empurrando o bra?o dele de brincadeira, mas n?o o respondeu, perdida nos pr¨®prios devaneios.
¡ª Ah, e quanto aos nossos objetivos?
¡ª Isso n?o mudou. ¡ª Cassandra deu de ombros, um brilho desafiador voltando aos seus olhos. ¡ª Aquela escrava ainda ¨¦ minha posse, n?o ¨¦? Mas e se¡ buscarmos aos poucos?
Jorge suspirou novamente, mas dessa vez havia algo diferente em sua postura. Como se, ao inv¨¦s de resistir ¨¤ ideia, estivesse finalmente aceitando a possibilidade.
¡ª Se voc¨º diz¡ bem, ent?o tamb¨¦m ficarei. N?o ¨¦ como se esse reino fosse menos interessante do que a glutona. E fazer uma pequena pausa na hist¨®ria da gladiadora louca n?o vai ser um problema.
Cassandra sorriu, um riso baixo e genu¨ªno escapando de seus l¨¢bios. Havia uma sensa??o de al¨ªvio em seu peito, por mais que tentasse ao m¨¢ximo evitar demonstrar.
¡ª De alguma forma ¡ª disse ela, seu tom cheio de um otimismo renovado ¡ª tudo vai dar certo.
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CapÃtulo 129 - A Arte da Destrui??o
¡ª Tem certeza que n?o quer levar um bode? N?o parece, mas s?o bem r¨¢pidos.
¡ª Sim, tenho certeza.
¡ª E o Garm? ¡ª insistiu o pugilista com uma teimosia que parecia testar a paci¨ºncia de Ana. ¡ª Ele n?o se importaria de ir com voc¨º.
¡ª Chega, Alex. ¡ª sua voz estava firme, mas fatigada. ¡ª Estou h¨¢ meses sem um momento de paz. Vai ser bom relaxar a mente... sozinha.
¡ª Est¨¢ virando um padr?o... essa sua inconsequ¨ºncia. O que custa deixar algu¨¦m te acompanhar?
Ana parou bruscamente, virando-se para ele com um olhar de puro desgosto.
¡ª Chegou a hora de me fortalecer. Estou enferrujada, muito, muito, enferrujada! No pior dos cen¨¢rios... eu morro. E da¨ª? ¡ª ela deu de ombros, voltando a revisar sua mochila. ¡ª Que diferen?a isso faz? Sozinha, n?o vou mudar o rumo dessa guerra de qualquer forma. Voc¨ºs conseguem se virar.
O sil¨ºncio que se seguiu foi quase palp¨¢vel, e logo ela notou que todos ao redor a encaravam, desconfort¨¢veis com sua indiferen?a. Ela suspirou de novo, mas desta vez suavizando o tom.
¡ª S¨® vou ca?ar por alguns dias, meu amigo ¡ª murmurou, os olhos voltados para a floresta ao longe. ¡ª J¨¢ passou da hora de dar aten??o pra essa velha amiga. ¡ª completou com um resmungo, ajeitando a espada negra enrolada em couro em suas costas com um toque carinhoso.
¡ª Ca?ar? Voc¨º vai literalmente para um reino inimigo sozinha!
¡ª Esse ¨¦ s¨® o b?nus, n?o a raz?o principal ¡ª um sinuoso sorriso apareceu em seus l¨¢bios, sutil, mas n?o despercebido. ¡ª A n?o ser que d¨º para juntar os dois objetivos em um s¨®. Isso pouparia tempo.
O homem suspirou, desistindo da batalha perdida para tentar convencer sua l¨ªder. Cruzou os bra?os e lan?ou um olhar para Fernando, que estava ao seu lado com sua rabugenta m¨¢scara vermelha habitual. Com uma cotovelada suave, incitou o companheiro, que apenas se espregui?ou teatralmente, hesitando antes de falar.
¡ª O que foi? Vai me encher o saco tamb¨¦m? ¡ª perguntou Ana, arqueando uma sobrancelha.
O segundo conselheiro de guerra, meio desconfort¨¢vel, se endireitou enquanto tentava encontrar palavras.
¡ª Bem... n¨®s... est¨¢vamos conversando e... com tudo o que est¨¢ acontecendo, achamos que talvez voc¨º pudesse nos... instruir. ¡ª Ele parou, buscando apoio.
¡ª A verdade ¨¦ que atingimos nosso limite ¡ª continuou Alex. ¡ª As est¨¢tuas n?o podem se fortalecer da maneira tradicional, n?o tem m¨²sculos para treinar. Elas precisam de algo mais... de inspira??o. Precisam ir al¨¦m da t¨¦cnica, al¨¦m do que j¨¢ conhecem.
¡ª H¨¢ tamb¨¦m os novos soldados... ¡ª Fernando complementou. ¡ª N?o est?o t?o avan?ados, mas ter uma orienta??o da rainha com toda certeza os daria animo para colocarem um pouco mais de esfor?o nisso tudo.
Ana bufou, balan?ando a cabe?a com irrita??o, mas seus olhos brevemente capturaram o olhar de Alex. L¨¢, no fundo de seus olhos cansados, ela viu algo. Respeito, sim, mas tamb¨¦m uma tristeza velada, uma preocupa??o que parecia o corroer por dentro. Fernando, ao lado, tentou n?o encarar por muito tempo, mas seu sil¨ºncio dizia tudo. Eles tinham¡ medo.
¡ª Voc¨ºs esperam muito de mim. N?o tenho nada a dizer que voc¨ºs j¨¢ n?o tenham dito.
¡ª N?o ¨¦ uma ideia ruim, Ana. Apenas considere por um momento ¡ª Gabriel, o anjo de pedra, que at¨¦ ent?o estava em sil¨ºncio, interveio com sua habitual serenidade.
Ana o encarou com irrita??o, mas logo sorriu em uma desist¨ºncia resignada. N?o adiantava ter conselheiros se n?o fosse seguir seus conselhos.
¡ª Voc¨ºs t¨ºm uma hora para reunir todos no port?o. Vai ser uma aula r¨¢pida. Depois disso, eu parto.
Alex e Fernando se entreolharam, surpresos por terem conseguido convenc¨º-la, mesmo que sem entusiasmo. Sem perder tempo, ambos acenaram rapidamente e correram em dire??o ¨¤ fortaleza para reunir todos que conseguissem do pequeno ex¨¦rcito de Ins¨ªdia.
Terminando seus preparativos, Ana caminhou at¨¦ uma ¨¢rvore retorcida, cujas ra¨ªzes gigantescas sa¨ªam do ch?o desordenadamente. Ela se sentou entre duas delas, o corpo afundando lentamente no conforto que a natureza proporcionava. O som suave das folhas ao vento e a brisa fria trouxeram uma calma inesperada. Os minutos passaram devagar, a tranquilidade da floresta envolvendo-a como um cobertor de mem¨®rias distantes.
Seu olhar vagou at¨¦ seu conselheiro principal, que permanecia im¨®vel ao seu lado. Havia uma certa melancolia no cen¨¢rio, um sentimento que provinha das vagas mem¨®rias dos primeiros anos de sua solid?o, quando Gabriel costumava ficar, daquela mesma forma, a acompanhando de forma silenciosa, enquanto os anos passavam sem pressa.
¡ª Como ¨¦ que eu passei mil anos ao seu lado sem nunca perguntar sobre isso? Mesmo no fim, n?o parecia que as estava usando¡
Suas sobrancelhas inconscientemente se franziram enquanto finalizava seus sussurros, e n?o p?de deixar de lan?ar o questionamento ao s¨®sia.
¡ª Suas asas podem voar?
Gabriel olhou para ela com seus olhos frios por tr¨¢s da m¨¢scara, intrigado pela casual pergunta.
¡ª Infelizmente, n?o.
¡ª Imaginei... ¡ª Ana desviou o olhar para o c¨¦u. ¡ª Ainda assim, o movimento delas ¨¦ bem realista para asas de pedra. ¨¦ incr¨ªvel.
Ela passou alguns segundos em sil¨ºncio. Mem¨®rias vagas surgiam sem parar, mas se dissolviam t?o r¨¢pido quanto.
¡ª Voc¨º est¨¢ disposto a morrer aqui, Gabriel?
O anjo de pedra inclinou a cabe?a, confuso.
¡ª N?o entendi a pergunta.
¡ª Est¨¢ disposto a abrir m?o da sua imortalidade por... isso? ¡ª a mercen¨¢ria fez um gesto vago com a m?o, apontando para o reino ao longe.
Gabriel se sentou em uma das ra¨ªzes pr¨®ximas a ela, pensativo. Ele olhou para o horizonte da floresta, onde as sombras dan?avam ao vento.
¡ª No come?o, sequer imaginei que seria poss¨ªvel. Mas este lugar... nos deu algo... algo que nem sab¨ªamos que existia. Um desejo de proteger. N?o s¨® voc¨º, Ana... mas todos. O reino. As pessoas. Nos deu um prop¨®sito.
Ana o encarou, surpresa com a honestidade que vinha da voz. Pela primeira vez, Gabriel n?o falava como uma est¨¢tua ou uma parte inerte do mundo ao seu redor.
¡ª Era s¨®... imita??o. Copi¨¢vamos gestos, sorrisos, express?es, bord?es.
¡ª Era rid¨ªculo. Parecia que t¨ªnhamos atores amadores por toda parte. Bem, combinava com as m¨¢scaras ¡ª Ana sorriu, lembrando-se do nascimento da cidade.
Gabriel riu suavemente, um som quase impercept¨ªvel, mas que fez novamente os cantos dos olhos de Ana tremerem pelo ato inesperado.
¡ª Sim, era meio c?mico ¡ª ele admitiu. ¡ª Mas, com o tempo, absorvemos aquilo. Hoje n?o existimos... vivemos. Talvez ainda n?o como os outros... mas eu n?o me sinto mais vazioUnauthorized duplication: this narrative has been taken without consent. Report sightings.
¡°Eu¡", refletiu Ana, notando a provavelmente involunt¨¢ria troca para o singular.
Ela abaixou a cabe?a, brincando com um galho que havia pegado do ch?o, tra?ando formas aleat¨®rias na terra.
¡ª Sinto muito, Gabriel.
¡ª Pelo qu¨º? ¡ª ele perguntou, surpreso.
¡ª Por te deixar mais fraco. ¡ª respondeu Ana, sem levantar o olhar.
Gabriel balan?ou a cabe?a suavemente, negando.
¡ª N?o estamos mais fracos. Estamos mais... completos.
¡ª ¨¦. Talvez... ¡ª sua voz saiu como um sussurro, baixa e sem convic??o, mas o conselheiro de pedra n?o pareceu se importar.
Os dois ficaram ali, encarando o vazio, cada um em uma reflex?o pr¨®pria sobre o conversado, at¨¦ finalmente serem despertados pelo alto som de passos.
Um punhado de gente vinha em sua dire??o, com Alex logo ao lado. N?o passavam de cem, uma fra??o dos soldados e moradores, mas seria suficiente para o que Ana pretendia. Ele se aproximou, respirando fundo enquanto o grupo se reunia.
¡ª Eu os trouxe. Fernando est¨¢ vendo se mais algu¨¦m aparece ¡ª disse Alex, ofegando.
A rainha passou os olhos por cada um dos volunt¨¢rios. Soldados e mascarados entre eles acenaram em reconhecimento, enquanto os rec¨¦m-chegados, os novos moradores da cidade, recuavam discretamente diante de seu olhar penetrante, sucumbindo ao peso da autoridade.
¡ª Hum-hum ¡ª o som de Ana limpando a garganta saiu alto, trazendo o sil¨ºncio de todos. Ana ergueu o queixo, e sua voz, firme, mas sem necessidade de elevar o tom, ressoou claramente ¡ª Se organizem. Quero ver o padr?o b¨¢sico de treinamento.
Ao ouvirem a ordem, os soldados obedeceram de imediato.
A maneira como cada grupo se alinhava com sua respectiva arma demonstrava uma disciplina que Ana n?o esperava. Os lanceiros estocavam com precis?o quase mecanica, enquanto espadachins tra?avam arcos com suas laminas, como se desenhassem padr?es invis¨ªveis no ar. J¨¢ os pugilistas atacavam e recuavam, suas sequ¨ºncias fluindo como uma dan?a marcial perfeitamente sincronizada. At¨¦ os arqueiros e usu¨¢rios de armas incomuns mantinham seu ritmo, suas m?os seguindo os movimentos repetitivos como se gravassem a t¨¦cnica em seus ossos.
¡ª Surpreendentemente bem adestrados ¡ª comentou Ana, enquanto seus olhos acompanhavam cada movimento.
Fernando chegou nesse momento, e sem nem mesmo perguntar, o novo grupo se juntou ¨¤ exibi??o. A rainha sorriu, ainda mais satisfeita com o que viu.
¡ª Est?o diferentes de um minuto atr¨¢s, e est?o confiantes. N?o s?o os mais fortes... mas s?o ferozes. Voc¨ºs dois fizeram um ¨®timo trabalho.
Seu olhar voltou-se para Alex e Fernando, e com um leve aceno de cabe?a, ela reconheceu seus esfor?os.
¡ª Voc¨ºs, se aproximem. ¡ª Ana apontou para alguns membros de cada grupo. ¡ª Me emprestem suas armas.
Os soldados prontamente avan?aram e, um por um, colocaram suas armas diante da rainha.
Ana ergueu a espada primeiro. Era pesada para uma lamina comum, mas n?o mais do que o esperado. O ar ao redor dela pareceu se contrair, como se o pr¨®prio ambiente segurasse a respira??o. A poeira, que antes repousava calmamente no solo, se ergueu lentamente, rodopiando ao redor dela com cada movimento da lamina, enquanto a luz suave do amanhecer refletia no fio da espada, criando um brilho breve, mas intenso.
¡ª Observem atentamente ¡ª disse, fazendo todos pararem seus movimentos repetitivos. ¡ª Mesmo que esta n?o seja a sua arma principal, h¨¢ algo a se aprender.
Ela respirou profundamente, sentindo o equil¨ªbrio da arma em suas m?os. Seus olhos se estreitaram, concentrando-se no fio da lamina, e ent?o em um movimento suave, quase impercept¨ªvel para olhos destreinados... ela se moveu.
N?o foi extravagante, mas houve uma precis?o e inten??o por tr¨¢s dele que fez o tempo ao redor parecer desacelerar. Os m¨²sculos de Ana trabalharam em perfeita sincronia, e o som do metal rasgando o ar foi como um trov?o silencioso. Seus p¨¦s mal se moviam, e ainda assim, todo o seu corpo parecia participar do golpe.
¡ª Uma espada ¡ª come?ou, sua voz reverberando por entre as ¨¢rvores. ¡ª N?o ¨¦ apenas uma ferramenta. ¨¦ uma extens?o da alma de quem a empunha. N?o corta s¨® carne, corta o esp¨ªrito, a vontade do oponente. O que um espadachim deve ser? Preciso, implac¨¢vel, controlado. Ele faz o inimigo duvidar antes de atacar, e quando o golpe final ¨¦ desferido, ele j¨¢ venceu. Um corte deve ser o fim... de tudo. ¡ª a lamina percorreu o ar novamente, um arco perfeito que parecia rasgar a pr¨®pria realidade.
Todos que a assistiam notaram repentinamente que estavam suando. As m?os, antes firmes nas armas, agora tremiam ligeiramente, seus dedos apertando os punhos com for?a. Alguns sentiram seus cora??es acelerarem, como se a press?o invis¨ªvel da t¨¦cnica estivesse esmagando seus peitos.
Um toque de temor podia ser visto em seus olhares enquanto engoliam em seco, tocando seus pr¨®prios pesco?os, conferindo se ainda repousavam onde deveriam. As respira??es ficaram rasas, e alguns nem mesmo piscaram, com medo de perder um segundo sequer daquele espet¨¢culo aterrador.
Sem hesitar, Ana largou a espada e agarrou a lan?a cravada no ch?o. O movimento foi r¨¢pido e preciso, como se a arma sempre tivesse feito parte dela. A lan?a girava entre suas m?os com fluidez, obedecendo a cada comando como uma parte de sua pr¨®pria vontade, seus movimentos carregados com uma elegancia letal.
¡ª Uma lan?a ¨¦ diferente. N?o ¨¦ apenas uma arma de alcance. ¨¦ uma ferramenta de precis?o. Sua finalidade ¨¦ clara: abrir caminho, romper defesas. N?o importa o que esteja a sua frente, deve penetrar onde nada mais consegue. Se voc¨º empunha uma lan?a, deve faz¨º-lo com a convic??o de que pode perfurar o pr¨®prio mundo.
Enquanto falava, seus dedos manipulavam a arma com facilidade, fazendo-a girar em arcos perfeitos, como um furac?o de a?o e madeira. Os movimentos eram graciosos, quase art¨ªsticos, mas havia uma tens?o palp¨¢vel em cada gesto, como se estivesse prestes a explodir.
Ent?o, sem aviso, ela parou. Seu corpo, antes relaxado, contraiu-se. Seu bra?o se estendeu em um instante, r¨¢pido como um relampago, e a ponta da lan?a, que antes se assemelhava somente a um borr?o, tocou sutilmente o tronco da ¨¢rvore ¨¤ frente. Tudo permaneceu im¨®vel, o ambiente silencioso, como se o tempo tivesse congelado.
Ent?o, veio o estrondo.
A madeira se despeda?ou, fragmentos voando em todas as dire??es. A for?a concentrada no toque havia se manifestado em um ¨²nico ponto, e o impacto, silencioso no in¨ªcio, liberou toda a energia acumulada em uma explos?o brutal. A ¨¢rvore, outrora firme e imponente, agora n?o passava de destro?os espalhados pelo ch?o.
Os soldados observavam em um sil¨ºncio at?nito. O impacto da demonstra??o revelava a verdadeira ess¨ºncia da lan?a, devastadora, impar¨¢vel, os atravessando como se eles quem tivessem sido atingidos pelo golpe.
Sem mais rodeios, Ana a largou no ch?o e sua postura mudou imediatamente, os p¨¦s plantados firmemente no ch?o, o corpo relaxado, mas pronto para a a??o. Ela avan?ou com um soco que estranhamente n?o moveu o ar, seguido de um chute que, de forma semelhante, o cortou sem causar vibra??es.
¡ª Nas artes marciais ¡ª murmurou entre um golpe e outro. ¡ª O corpo ¨¦ a arma. N?o h¨¢ lamina, n?o h¨¢ ponta afiada. Apenas voc¨º. Bem, h¨¢ exce??es... ¡ª ela deu uma breve pausa, um sorriso sutil surgindo no canto de seus l¨¢bios. ¡ª Mas confie apenas em seus punhos, em suas pernas e em sua vontade.
Diferente de suas exibi??es anteriores, que carregavam a grandiosidade de uma for?a bruta ou a precis?o letal de uma lamina, os movimentos de Ana agora eram mais sutis, quase silenciosos. Ela n?o precisava de espet¨¢culo, cada a??o era calculada, eficiente, sem excessos. Seus p¨¦s se moviam com precis?o, seus punhos acertando o ar como se o moldassem. N?o havia nada de espalhafatoso, mas carregava uma sensa??o de controle absoluto.
¡ª Seja sutil, ¨¦ uma dan?a entre voc¨º e o oponente. N?o espere gritos, n?o espere o brilho do metal. Respire, ataque e repita o processo. Seja como ¨¢gua: sem forma, capaz de se adaptar a qualquer situa??o. Flua, nunca resista. Cada movimento deve ser uma resposta, e cada resposta, um golpe devastador. N?o ataque o inimigo... absorva-o. E ent?o... destrua-o de dentro para fora.
Por fim, ap¨®s alguns minutos de demonstra??o, Ana seguiu para o pr¨®ximo item, mantendo seu ritmo meticuloso. Com exce??o das artes marciais, ela apresentou apenas um movimento de cada arma, sem repetir. Era como se cada t¨¦cnica fosse deliberadamente contida, resumida a sua forma mais pura. A simplicidade aparente de seus gestos quase beirava o bobo, algo que, em outros contextos, poderia ser considerado insuficiente. Afinal, o que algu¨¦m poderia aprender com t?o pouco?
No entanto, ningu¨¦m ousou reclamar. N?o havia risos contidos, nem olhares de d¨²vida. O sil¨ºncio era pesado, como se o ambiente estivesse carregado de uma energia indescrit¨ªvel. Na verdade, ningu¨¦m sequer cogitava desdenhar daquilo. Os olhos de todos estavam vidrados, presos pelos movimentos de Ana, como se as dan?as que ela executava carregassem consigo algo muito mais profundo do que poderiam compreender ¨¤ primeira vista.
Ela n?o apenas ensinava... ela impunha.
A sabedoria da monarca parecia ter uma vontade pr¨®pria que n?o admitia ser ignorada, um dom¨ªnio absoluto e palp¨¢vel que n?o dava escolha a n?o ser absorver aquele conhecimento. Era como se estivesse gravando, ¨¤ for?a, sua influ¨ºncia em seus corpos e mentes, deixando claro que tudo o que viam deveria ser lembrado, custe o que custar.
N?o era uma aula, n?o era um treinamento.
Era uma transforma??o.
Naquele momento, a vontade da rainha havia se tornado a deles.
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CapÃtulo 130 - Um Encontro Cortês
¡ª Lalala, lalala¡
Ana caminhava despreocupadamente, seus p¨¦s movendo-se com uma leveza que contrastava com a densidade da floresta ao seu redor. O sil¨ºncio absoluto da natureza a envolvia como um cobertor, quebrado apenas pelo som suave de sua voz cantarolando uma melodia sem ritmo que parecia deslocada naquele cen¨¢rio. Havia algo de quase m¨¢gico na tranquilidade do ambiente, mas tamb¨¦m algo perturbador.
¡ª T¨¢ quieto demais ¡ª resmungou, interrompendo sua cantoria por um momento. Olhou ao redor com um olhar cansado, apertando os olhos para ver mais al¨¦m nas sombras da vegeta??o densa. ¡ª Eu devia ter trazido a Nyx.
J¨¢ era o segundo dia de caminhada solit¨¢ria, e o sil¨ºncio, apesar de uma ben??o, estava trazendo certo t¨¦dio.
¨¤s vezes, Ana corria, tentando for?ar sua mente a esquecer um pouco do mundo, e outras vezes apenas andava devagar, contemplativa. A floresta era calma, excessivamente calma. Pequenos animais, esquilos e p¨¢ssaros, se escondiam por entre as ¨¢rvores, mas algo maior estava ausente. Tudo parecia... vazio. N?o havia sinais de grandes predadores, exceto pelos lobos cinzentos que ocasionalmente corriam ¨¤ distancia, quase como sombras fugazes.
Foi ent?o que seus olhos captaram algo entre a vegeta??o: uma torre semi-destru¨ªda, suas pedras antigas e manchadas de musgo dando um ar ainda mais misterioso ¨¤ paisagem.
¡ª Hmm, ouvi falar disso... ¡ª murmurou, semicerrando os olhos, observando cada detalhe da velha constru??o. Reproduzindo o mapa em sua mente com seus m¨ªnimos detalhes, calculou mentalmente a distancia para Myrmeceum. ¡ª Mais meio dia de viagem, talvez?
Voltando ¨¤ sua melodia descompromissada, dessa vez um pouco mais animada, bateu as m?os com um estalo e come?ou a correr em uma explos?o de energia. Entretanto, ap¨®s apenas tr¨ºs passos, sentiu algo muito pr¨®ximo de seu corpo.
Ela parou abruptamente, seus p¨¦s girando em um movimento ¨¢gil, enquanto sua m?o j¨¢ estava no cabo da espada nas costas.
Foi instinto.
N?o houve som, n?o houve brisa, n?o houve nada. Mas Ana sabia que algo estava errado. Muito errado.
Sem pensar duas vezes, acionou o mecanismo de libera??o r¨¢pida que prendia sua arma. O tamanho da lamina era grande demais para ser desembainhada da maneira comum, ent?o as amarras se romperam com um estalo, e a espada girou ao redor de seu corpo, que assumiu uma postura defensiva.
¡°Eu nem ouvi ela se aproximar... ¡°
A figura que se erguia ¨¤ sua frente parecia ter surgido do pr¨®prio ch?o, como um fantasma.
Uma velha, de apar¨ºncia acabada, estava parada ali, a encarando, como se tivesse vindo de um pesadelo. Seu corpo estava coberto por trapos sujos, pendendo de forma desajeitada sobre a pele enrugada. O cabelo, um emaranhado branco seco e sem brilho, ca¨ªa sobre o rosto, ocultando parte de seus olhos esbugalhados.
Os dentes da velha eram pretos, como carv?o queimado. Podres ou pintados? Ana n?o conseguia dizer, mas pelo odor ¨¢cido e ran?oso que sentiu, inclinou-se para a primeira hip¨®tese.
No entanto, o que mais chamou sua aten??o, foram as asas. Das costas da mulher brotavam duas asas cinzentas, ca¨ªdas e desajeitadas, t?o grandes que mal pareciam pertencer ¨¤quele corpo franzino. Estavam enrugadas, sem vida, pendendo como uma capa.
¡ª Tu ¨¦ bicho? ¡ª a voz da velha saiu como um sussurro distorcido, como se o som se arrastasse por entre as palavras.
Ana mal teve tempo de processar a pergunta quando, em um piscar de olhos, a velha j¨¢ estava quase colada em seu rosto, observando-a a poucos cent¨ªmetros, t?o perto que conseguia ver as veias avermelhadas em suas pupilas dilatadas, cheias de uma insanidade que ela conhecia bem. Seu olhar lentamente fixou-se na grande espada negra, observando a lamina com um fasc¨ªnio desconcertante.
Em um movimento r¨¢pido, Ana saltou para tr¨¢s, com seu cora??o, para sua surpresa, disparando em um alerta de perigo.
A velha pareceu n?o se importar com a rea??o. Ela parou de olhar a espada por um instante, seu corpo permanecendo est¨¢tico enquanto, de forma antinatural, apenas sua cabe?a girava completamente para encarar a mercen¨¢ria fugitiva, como se desafiasse as leis da anatomia.
Sem hesitar mais, Ana girou em um movimento fluido, fintando um golpe na altura do peito da mulher, mas mudando a dire??o para atingir as pernas no ¨²ltimo momento. Contudo, com um pequeno salto, a estranha visita desviou facilmente, pousando no outro lado da lamina com a leveza de uma folha.
¡ª Tu ¨¦ bicho? ¡ª repetiu a velha.
Vendo a falta de resposta de Ana, ela voltou novamente a focar na arma com uma curiosidade infantil. Ent?o, sem qualquer aviso, mordeu a lamina com for?a. Seus dentes pretos se cravaram no metal, emitindo um som alto de ranger, como se a velha estivesse realmente tentando comer a lamina.
¡°Mas que merda ¨¦ essa?¡±, pensou Ana, totalmente sem rea??o, mas j¨¢ se preparando para um novo ataque, quando uma voz autorit¨¢ria quebrou a miraculosa cena.
¡ª Suca, deixe a viajante em paz. Voc¨º acabou de almo?ar.
Cada pisada do homem que se aproximava trazia uma sensa??o de poder bruto. Ele usava roupas simples, quase modestas, mas nada poderia mascarar a impon¨ºncia que emanava de seu corpo. Sua cabe?a era adornada por dois enormes chifres curvados para cima, e no lugar de p¨¦s humanos, ele possu¨ªa cascos, cada um t?o grande quanto a cabe?a de Ana.
Diferente de sua apar¨ºncia intimidadora, seu tom de voz era educado, quase cort¨ºs, embora a gravidade do som fizesse o peito dos ouvintes tremerem.
A velha imediatamente soltou a espada da boca, dando um ¨²ltimo olhar malicioso para Ana antes de se virar para o rec¨¦m-chegado. Seus olhos insanos brilharam com uma estranha afei??o, e ela correu para o lado dele como uma crian?a travessa que sabia que tinha ido longe demais.Unauthorized tale usage: if you spot this story on Amazon, report the violation.
¡ª Pe?o desculpas, minha cara ¡ª disse o homem, fazendo uma leve rever¨ºncia com a cabe?a. ¡ª Nossa pequena Suca... ¨¦ um produto com defeito.
Ana ergueu uma sobrancelha, ainda mantendo sua guarda.
¡ª E com ¡°nossa¡± voc¨º quer dizer...?
O homem sorriu, seu olhar estudando a viajante de cima a baixo, como um ca?ador avaliando uma presa, mas com um toque de respeito genu¨ªno. Ele demorou um segundo a responder, como se quisesse saborear a expectativa no ar.
¡ª Eu sou Taurus. Um nome pouco criativo, eu sei ¡ª ele disse finalmente, uma leve nota de divers?o em sua voz. ¡ª Pode nos considerar seus novos vizinhos. Somos apenas um grupo que gosta de... experimentar algumas coisas.
¡ª Vizinhos? Algum reino nas proximidades?
¡ª Na verdade n?o. Pense em um contexto maior.
O olhar do homem passeou rapidamente pela espada de Ana, mas ele n?o demonstrou qualquer preocupa??o com a lamina erguida. Em vez disso, seus olhos se demoraram na armadura que cobria o bra?o esquerdo da mulher. Ele parecia intrigado, especialmente quando, ap¨®s alguns segundos, notou a m?o oposta ¨¤ armadura, onde as flores vivas se mesclavam ¨¤ carne
Seu sorriso imediatamente cresceu, com grandes dentes amarelados deixando clara sua alegria.
¡ª Parece que podemos nos dar bem, minha jovem.
Antes que pudessem seguir a conversa, a velha Suca o cutucou com um cotovelo magro e pontudo, apontando para Ana.
¡ª Essa ¨¦ bicho?
Taurus soltou uma risada grave, mas n?o desdenhosa, e sacudiu a cabe?a.
¡ª N?o. Esta ¨¦ sapien.
¡ª Pufft¡ ¡ª o rosto da velha se iluminou com uma gargalhada abafada, seus ombros tremendo enquanto tentava conter o riso. ¡ª Sapien num guenta!
Com um suspiro, o homem colocou uma m?o gigantesca e firme na cabe?a da velha, segurando-a no lugar como quem segura um cachorrinho desobediente. Suca, no entanto, come?ou a se contorcer, balan?ando o corpo de um lado para o outro para tentar se livrar do aperto, mas ainda rindo de forma quase sufocante.
Foi nesse momento que Ana notou as cicatrizes nas costas da mulher, as marcas profundas que revelavam uma verdade sombria: aquelas asas n?o eram dela. Foram implantadas de forma grosseira e cruel, e o que uma vez poderiam ter sido membros poderosos, agora eram apenas restos pendentes, inertes como se pertencessem a um cad¨¢ver.
¡ª Essa ¨¦ diferente, Suca, ¨¦ uma sapien com pedigree ¡ª comentou o homem com uma risada gutural, ainda mantendo a velha em seu lugar. ¡ª Novamente, pe?o desculpas¡ viajante.
¡ª Me chame de Ana ¡ª respondeu a rainha, notando sua pr¨®pria falta de cortesia.
¡ª Oh sim, Ana. ¨¦ um bom nome. Apenas n?o se sinta ofendida, estamos apenas de passagem por esse territ¨®rio. O clima dos povos daqui parece... tenso, ent?o talvez seja melhor que finja que nunca nos viu.
Ele fez uma pausa, o sorriso de mist¨¦rio retornando.
¡ª A n?o ser, ¨¦ claro, que tenha interesse em nos acompanhar ¡ª Taurus inclinou levemente a cabe?a, os chifres brilhando na luz suave, sua voz sedutora como o canto de uma serpente.
Ana ignorou a maior parte de tudo o que ele disse at¨¦ aquele ponto. Suas palavras eram como ru¨ªdos de fundo, sem importancia. Mas ao ouvir a proposta inesperada, algo dentro dela estremeceu. Seu cora??o bateu mais forte.
¡ª Clar... ¡ª come?ou ela, sem perceber a resposta empolgada e autom¨¢tica que surgia em seus l¨¢bios.
Mas ent?o parou, como se tivesse sido puxada bruscamente de volta ¨¤ realidade. Ela ficou ali, congelada por um momento.
¡°Luiz, seu desgra?ado.¡±
¡°Ins¨ªdia, reino de merda.¡±
¡°Myrmeceum, filhos da puta.¡±
Aos poucos se recomp?s, um leve tremor correndo por seu corpo enquanto sua m?o apertava a empunhadura da espada com mais for?a.
¡ª Infelizmente, n?o poderei aceitar ¡ª respondeu finalmente, sua voz firme e desanimada. ¡ª Tenho obriga??es urgentes. Mas n?o se preocupem, n?o h¨¢ conflito entre n¨®s. N?o falarei sobre voc¨ºs.
O homem soltou uma risada alta e satisfeita.
¡ª Gosto de voc¨º, garota ¡ª disse ele, retirando do bolso um peda?o de couro fino.
No centro, havia um s¨ªmbolo desenhado em um vermelho intenso, uma estranha representa??o do Homem Vitruviano. Cada um de seus bra?os, pernas e partes do corpo era composto de diferentes texturas e formatos, como se fossem partes de criaturas diferentes, uma colcha de retalhos grotesca e bizarra. Uma muta??o monstruosa e aterradora.
Os olhos de Ana brilharam com uma curiosidade intensa ao ver tal s¨ªmbolo. Lentamente, abaixou a espada e pegou o objeto.
¡ª E como os encontro, Taurus?
O homem deu de ombros.
¡ª Isso eu n?o posso dizer. Na verdade, n?o tenho como ¡ª ele deu um passo para tr¨¢s, o sorriso ainda nos l¨¢bios. ¡ª Por enquanto, somos n?mades, ent?o fica a cargo do destino se nossos caminhos voltar?o a se cruzar.
Virando-se para a mata, o homem soltou um som gutural, como o bramido de um touro. Em resposta, alguns sinos ecoaram pela floresta, e logo Ana avistou um grupo de pessoas se aproximando entre as ¨¢rvores.
¡°Vinte¡ n?o, talvez um pouco mais¡ Corrompidos?¡°
Logo balan?ou a cabe?a, negando a pr¨®pria hip¨®tese. Havia algo diferente neles. Seus olhares eram intensos, predat¨®rios, famintos. Atr¨¢s dos viajantes, tr¨ºs carro?as grandes e pesadas se moviam lentamente, rangendo sob o peso do que quer que estivesse sendo transportado.
Ana refletiu por um momento, o cora??o ainda acelerado, mas decidiu n?o pensar muito sobre aquilo.
¡ª Bem, ent?o me despe?o ¡ª ela disse, inclinando a cabe?a levemente. ¡ª Tenham uma boa viagem, seja l¨¢ para onde forem.
Taurus tamb¨¦m curvou a cabe?a em resposta, seus olhos n?o deixando de estud¨¢-la.
¡ª V¨¢ com cuidado, Ana.
Ao lado dele, Suca, com um grande sorriso no rosto, levantou o polegar para a rainha, antes de sair pulando ao lado do homem, cantarolando alegremente.
¡ª Sapien, sapien, sapien...
Ana ficou ali, observando-os at¨¦ desaparecerem da sua linha de vis?o. Quando finalmente estavam longe, soltou um longo suspiro de al¨ªvio. Ela percebeu que estava suando, mas, ao inv¨¦s de medo, sentia uma excita??o inexplic¨¢vel.
¡ª Que porra foi essa? ¡ª murmurou para si mesma, sentando-se no ch?o para enrolar a espada de volta.
Durante o processo, pequenas marcas em um semic¨ªrculo chamaram sua aten??o. Haviam aparecido bem no meio do corpo da arma, quase como cicatrizes. Ela passou a m?o por elas, sentindo os pequenos sulcos, e olhou uma ¨²ltima vez na dire??o de onde o grupo havia partido. Era quase como se pudesse ouvir a voz da velha, repetindo a m¨²sica em sua mente.
¡°Sapien, sapien, sapien¡¡±
Uma gargalhada inesperada saiu de seus l¨¢bios. Alta, estridente, louca. Ela largou a espada e se jogou de costas na grama, olhando para o c¨¦u.
¡ª Novos vizinhos, hein? Esse mundo ¨¦ realmente interessante¡
Ent?o, com uma decis?o repentina, ela se levantou e come?ou a correr novamente. Tinha que acabar essa guerra o mais r¨¢pido poss¨ªvel.
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CapÃtulo 131 - Novo Decreto
Natalya segurava a t¨¢bua com uma express?o de t¨¦dio nos olhos. Girava-a nas m?os, analisando cada detalhe com olhos experientes, mas o brilho de descoberta, t?o comum em suas expedi??es, estava ausente. A superf¨ªcie da t¨¢bua, repleta de entalhes e s¨ªmbolos desgastados, nada mais era do que um lembrete frustrante do fracasso daquela jornada. Nenhum segredo oculto, nenhuma promessa de um novo tesouro ou revela??o. Apenas mais uma rel¨ªquia in¨²til em um vasto mar de falsos achados.
¡ª T¨ªpico lixo¡ ¡ª resmungou, jogando a t¨¢bua dentro da mochila com um gesto brusco e um suspiro pesado.
¡ª T?o ruim assim? ¡ª perguntou uma voz met¨¢lica que vinha do seu lado, cortante e fria, uma voz que soava mais como o ranger de engrenagens do que como palavras humanas.
Natalya ignorou a pergunta por um instante, como se estivesse acima de responder a algo t?o ¨®bvio. Suas m?os vagaram at¨¦ um cigarro no bolso de seu casaco, que ela acendeu com a mesma despreocupa??o habitual, tragando longamente antes de soltar a fuma?a no ar pesado da sala. O brilho alaranjado da ponta do bast?o de nicotina iluminou brevemente suas fei??es endurecidas, e ap¨®s mais alguns segundos, resmungou com desd¨¦m.
¡ª Abaixo do esperado. N?o valeu o esfor?o.
A sala ao redor era um cen¨¢rio de caos e morte. Criaturas deformadas e grotescas jaziam pelo ch?o em angulos imposs¨ªveis, como se suas mortes tivessem sido t?o violentas quanto suas exist¨ºncias.
Sangue escuro, quase negro, pingava das laminas da Colecionadora e de seu companheiro, formando pequenos riachos que se misturavam ao mofo e ¨¤ umidade impregnada nas pedras antigas do local. O cheiro met¨¢lico do sangue, junto com a terra ¨²mida, dominava o ar, uma constante em suas expedi??es.
Natalya passou a m?o pelos cabelos bagun?ados, manchando ainda mais os fios j¨¢ sujos com sangue seco. Seu olhar estava distante, sem emo??o, como se aquela carnificina fosse apenas uma rotina entediante.
¡ª Vamos voltar para a cidade. Talvez tenham descoberto alguma nova ru¨ªna para verificarmos. N?o quero perder mais tempo aqui.
Com um movimento despreocupado, jogou a caixa de cigarros para seu companheiro. O homem pegou o item no ar, mas, com um movimento t?o r¨¢pido e desinteressado quanto o da mulher, jogou de volta.
¡ª J¨¢ disse que n?o tenho interesse em ter cancer. Obrigado.
¡ª Que porra de pulm?o voc¨º tem para ter medo de cancer? ¡ª zombou, soprando a fuma?a para o lado, rindo de leve enquanto voltava a tragar.
O companheiro emitiu um som que poderia ser interpretado como uma risada, um ru¨ªdo arranhado e artificial.
¡ª Ainda assim, n?o vou arriscar.
Natalya o encarou por um momento. Ele era uma combina??o grotesca de carne e metal, resultado de in¨²meras batalhas e reconstitui??es, ¨¤s vezes, propositais. Grande parte de seu corpo original j¨¢ havia sido substitu¨ªda por pe?as met¨¢licas, pr¨®teses avan?adas que mais pareciam sa¨ªdas de uma f¨¢brica do que de um ser vivo.
Por fim, a Colecionadora deu de ombros, aceitando o cigarro de volta e se preparando para guardar novamente dentro da roupa, quando, de repente, um tremor repentino percorreu seu corpo. Falhou ao tentar guardar a caixa, derrubando-a no ch?o com um baque surdo. Ela levou ambas as m?os ¨¤s t¨ºmporas, apertando-as com for?a, como se estivesse tentando esmagar a dor que pulsava em sua cabe?a.
¡ª Merda, merda, merda! ¡ª rugiu, curvando-se no ch?o, o rosto perdendo a cor, os olhos cerrados em agonia.
¡ª O que foi?
¡ª A porcaria das vozes! ¡ª gritou, sua voz tomada de raiva. ¡ª Faz meses que sumiram, e agora voltam com tudo! Essas desgra?adas deveriam ser mais gentis¡
Ela respirou fundo, tentando recobrar o controle. Apesar de dolorosas, eram uma presen?a familiar. Cada vez que surgiam, traziam consigo a promessa de grandes descobertas. Natalya sentia um misto de exaspera??o e expectativa. A dor era brutal, mas sempre carregava consigo uma excita??o indescrit¨ªvel. O companheiro a observava de maneira inexpressiva, esperando.
¡ª Voc¨º deveria procurar um m¨¦dico. Ouvir vozes n?o ¨¦ normal.This tale has been pilfered from Royal Road. If found on Amazon, kindly file a report.
Natalya soltou uma risada curta e amarga, um som seco em meio ¨¤ dor, mas com uma ponta de sarcasmo.
¡ª As coisas boas da minha cole??o sempre vieram das vozes... ¡ª murmurou, como se estivesse tentando convencer a si mesma. Ela respirou fundo mais uma vez e completou com a voz falha. ¡ª E dessa vez, parece que tiramos a sorte grande. Sete apontamentos de uma vez, todos no mesmo lugar¡ isso ¨¦ novo.
Ainda tr¨ºmula, afastou uma m?o da cabe?a e ajustou seus ¨®culos no rosto. O brilho das lentes refletiu por um breve momento a luz da tocha improvisada que prenderam na parede, enquanto seus dedos tocavam nos pequenos controles localizados na lateral da arma??o.
¡ª Busque as coordenadas -23.515402, -46.851100.
O sil¨ºncio que seguiu foi t?o intenso que o som de sua respira??o, aos poucos voltando ao normal, ecoou pelo ambiente. Por um momento, tudo parecia suspenso no tempo, at¨¦ que uma voz suave e impessoal a respondeu.
¡ª Busca finalizada.
Diante de seu olho direito, um mapa tridimensional surgiu, flutuando atrav¨¦s da interface de seus ¨®culos. Linhas de topografia, contornos detalhados, e s¨ªmbolos informativos come?aram a se formar, todos levando a um ponto marcado com precis?o nas profundezas de um local familiar.
A Colecionadora analisou as informa??es com um sorriso que se formava lentamente em seus l¨¢bios. As coordenadas n?o mentiam. Aquilo n?o era apenas um novo achado.
¡ª Olha s¨®... parece que vamos visitar velhos conhecidos
Ela se levantou, ignorando a dor que ainda latejava em sua cabe?a, e olhou para o mapa com renovado interesse. As coordenadas levavam a um local que ela conhecia muito bem.
Ela se levantou, ignorando a dor que ainda latejava em sua cabe?a, ajustou o casaco e puxou a mochila para cima, a arrumando sobre os ombros. O companheiro met¨¢lico a observava em sil¨ºncio, sem fazer perguntas. Ele sabia que, no final, as respostas sempre vinham quando Natalya decidia revel¨¢-las. At¨¦ l¨¢, ele seguiria em frente, como sempre fazia.
¡ª Vamos nos preparar. A estrada vai ser longa.
¡ª Iremos por terra?
¡ª ¨¦ claro que n?o ¡ª respondeu a mulher.
Ela soltou a ¨²ltima baforada do cigarro que ainda segurava e o jogou no ch?o de pedra, esmagando-o com a bota. O som do papel e tabaco sendo pisoteados ecoou pelo ambiente sombrio, um ru¨ªdo insignificante diante da vastid?o do local.
Os dois come?aram a se mover em dire??o ¨¤ sa¨ªda da sala, atravessando o mar de cad¨¢veres sem se importar com o sangue que se agarrava ¨¤s solas de seus p¨¦s. O caminho pelas ru¨ªnas era estreito, com paredes recobertas de limo e rachaduras que deixavam o som do vento se infiltrar, como um lamento distante.
¨¤ medida que avan?avam, o ch?o tremeu brevemente sob seus p¨¦s, sugerindo que as velhas estruturas lutavam para se manter intactas, como se o peso da hist¨®ria estivesse prestes a colapsar.
¡ª Voc¨º acha que essa t¨¢bua realmente n?o significa nada? ¡ª a voz met¨¢lica do companheiro cortou o sil¨ºncio. ¡ª Estava guardada fundo demais para ser s¨® algo in¨²til.
Natalya fez uma pausa breve, o olhar distante enquanto ponderava. Seus dedos tocaram a borda de sua mochila, onde a t¨¢bua repousava.
¡ª Pode ser s¨® uma pedra velha ¡ª respondeu ela com um tom desinteressado. ¡ª Ou pode ser a chave para algo que ningu¨¦m jamais pensou em procurar. Se n?o me der uma resposta, vai para o dep¨®sito como qualquer outra coisa.
Horas depois, a luz fraca do sol de fim de tarde os recebeu ¨¤ medida que emergiam das ru¨ªnas. O calor do deserto os envolveu como uma onda de nostalgia, uma sensa??o estranhamente familiar ap¨®s tantos dias no subterraneo.
¡ª A volta ¨¦ sempre mais r¨¢pida ¡ª comentou o homem. ¡ª Acho que come?o a entender sua motiva??o. ¨¦ realmente satisfat¨®rio visitar esses lugares abandonados.
Natalya lan?ou-lhe um olhar de lado, os l¨¢bios se curvando em um sorriso seco.
¡ª Voc¨º est¨¢ falador hoje, hein?
¡ª Talvez porque voc¨º est¨¢ respondendo mais do que o normal ¡ª respondeu ele, com um toque de ironia. ¡ª Mas estou certo? Ou voc¨º s¨® est¨¢ atr¨¢s de algo que n?o seja apenas "lixo"?
Natalya manteve o olhar fixo no horizonte enquanto suas botas afundavam levemente na areia macia. Seus dedos brincaram com um estranho pingente preso na ponta de uma de suas tran?as, e ela logo mudou o olhar para o c¨¦u enquanto inspirava o ar seco e quente.
¡ª Fa?o isso porque ainda n?o encontrei nada que seja¡ o suficiente.
Sua voz, embora firme, carregava uma sombra de melancolia que raramente deixava escapar.
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CapÃtulo 132 - Euforia do Metal Negro
Ana corria a toda velocidade pelos t¨²neis escuros, cada m¨²sculo trabalhando em sincronia, os p¨¦s mal tocando o ch?o antes de empurr¨¢-la para frente. A espada negra balan?ava com o movimento, presa firmemente pelas suas m?os enquanto ocasionalmente criava fa¨ªscas ao raspar na pedra, mas sempre pronta para ser usada. Em um movimento fluido, a mercen¨¢ria fincou no ch?o e, com um impulso calculado, usou o peso para girar bruscamente, fazendo uma curva fechada sem perder o ritmo.
¡ª Maldita ideia est¨²pida ¡ª resmungou, os dentes cerrados de leve.
O barulho que vinha dos t¨²neis era assustador, ressoando nas paredes como um trov?o constante, aumentando a sensa??o de perigo iminente. Eram patas, centenas, talvez milhares, que corriam em todas as dire??es.
Sua vis?o aos poucos escurecia, e, sem perder tempo, alcan?ou um pequeno frasco preso ao cinto e o enfiou no ombro com for?a. O l¨ªquido reagiu quase imediatamente, e em poucos segundos sua vis?o, que havia sido ofuscada pela escurid?o dos t¨²neis, se clareou novamente.
¡ª S¨® mais cinco ¡ª murmurou, contando as ampolas de vidro do mesmo tipo que ainda possu¨ªa ¡ª Preciso sair daqui em menos de tr¨ºs horas, se n?o vai ficar mil vezes mais dif¨ªcil¡
Foi nesse exato instante que, de uma das encruzilhadas ¨¤ frente, algo emergiu da escurid?o. Uma boca grotesca e desproporcional voava em dire??o ao seu rosto com uma voracidade monstruosa. Ana abaixou-se rapidamente por reflexo, o ataque passou sobre sua cabe?a por um triz. Enquanto a criatura voava por cima dela, p?de ver com detalhes o abd?men pulsante e suas patas curtas e deformadas.
Sem hesitar, girou a espada em um arco brutal, cortando a criatura ao meio. O sangue viscoso manchou o ch?o quando o corpo despeda?ado caiu com um baque seco, mas Ana j¨¢ estava correndo de novo.
¡ª ¨¦ uma sorte que pare?am miniaturas das que lutei no abismo ¡ª comentou em dire??o ao nada, mantendo a passada.
Suas m?os atingiam cada criatura que se aproximava com precis?o perfeita, derrotando-os com o m¨ªnimo de esfor?o ao eliminar as lacunas do exoesqueleto. No entanto, a dificuldade era muito maior que a do abismo. N?o eram como os insetos ca¨®ticos e descoordenados que conhecia, nestes t¨²neis, atacavam em forma??o, como se fossem parte de um todo maior. Eles vinham em ondas, n?o em pequenos grupos isolados. Ana cortava o que conseguia, sua lamina ceifando vidas com precis?o, mas a cada golpe sabia que estava ficando com menos tempo.
¡ª Da pr¨®xima vez ¡ª comentou entre dentes, seu tom carregado de auto ironia ¡ª Vou gastar mais de cinco segundos pensando num plano.
Tudo havia come?ado minutos antes com uma ideia impulsiva. Se os emiss¨¢rios j¨¢ estivessem mortos, que sentido faria negociar? Por que n?o infiltrar-se e descobrir o que precisava primeiro? Assim, sem mais nem menos, Ana come?ou a cavar por baixo dos muros usando a ponta da espada e um pouco de mana, esperando que o terreno fosse simples o suficiente para realizar sua incurs?o.
Foi uma surpresa quando, pouco depois, se viu despencando no vazio. Em vez de solo comum, encontrou uma rede subterranea de t¨²neis vastos e interconectados, muito maiores do que havia imaginado, mas n?o t?o profundos quanto.
A queda foi r¨¢pida e, quando se levantou, notou que n?o estava sozinha. Cinco corrompidos, com partes de seus corpos semelhantes aos finos membros de formigas, estavam ali, refor?ando as paredes do t¨²nel. Conversavam animadamente, como se estivessem apenas realizando um trabalho rotineiro, sem imaginar o que acontecia ao redor. Todos ficaram paralisados no momento em que a viram, os olhos arregalados, congelados pela surpresa.
Ana os observou de volta por um segundo, e depois os matou. Cada um deles. R¨¢pido, preciso, sem hesita??o.
¡ª N?o me culpem. N?o posso ser descoberta t?o cedo ¡ª sussurrou enquanto os corpos ca¨ªam ao ch?o.
Sem dar uma segunda olhada para eles, deu passos ¨¢geis pelos longos corredores. Foi a¨ª que o caos come?ou. Trabalhadores, ou talvez guerreiros, come?aram a surgir de todos os lados, armados e assustados, mas avan?ando implacavelmente contra ela.
¡ª Merda. N?o era para ser assim¡
A contragosto, Ana matou um ap¨®s o outro, continuando a seguir a rota que escolheu por capricho. Os inimigos, at¨¦ ent?o, tinham partes de seus corpos fundidas com equipamentos de engenharia m¨¢gica, no entanto, seus implantes, embora sofisticados o suficiente para fazer Ana ficar surpresa, n?o possu¨ªam materiais de alta qualidade para respaldar a habilidade utilizada em sua confec??o. Mesmo os mais fortes aguentavam apenas dois ou tr¨ºs golpes da mulher antes de ca¨ªrem perante a afiada lamina.
¡ª Como est?o me achando t?o r¨¢pido?
Era estranho, surgiam oponentes continuamente, n?o dando tempo para pensar. A princ¨ªpio, foi inc?modo, mas logo Ana se pegou se divertindo enquanto abandonava o cuidado e corria por a¨ª, matando tudo e todos que cruzavam seu caminho. O cheiro acre de sangue enchia o ar, mas o peso da batalha trazia uma estranha satisfa??o.
¡ª Realmente n?o foi s¨® impress?o... algo est¨¢ diferente.
A espada, ap¨®s tanto tempo inutilizada, parecia deliciar-se com o sangue que a cobria. Conforme mais corpos eram deixados para tr¨¢s, mais Ana reparava que ela estava mudando, apesar de n?o da mesma forma de antes. Mil¨ªmetro a mil¨ªmetro, a lamina de quase dois metros afinava ao inv¨¦s de se alargar, ao mesmo tempo que permanecia crescendo de forma quase impercept¨ªvel. Ainda mais impactante era o fato de que estava cada vez mais leve, uma virada radical no comportamento anterior dessa massa s¨®lida de metal que mal era manuse¨¢vel.Enjoying this book? Seek out the original to ensure the author gets credit.
¡ª No fim, realmente deu para misturar a miss?o com o treinamento ¡ª a rainha riu baixinho, sentindo a excita??o crescer conforme ela avan?ava.
Queria descobrir at¨¦ onde aquela arma iria, mas, para sua tristeza, o avan?o caminhava a passos de tartaruga. Um ou outro guarda, mais forte que os demais, acabava por dar impulso suficiente para que uma altera??o min¨²scula ocorresse, mas precisava matar mais de dez oponentes comuns para que o mesmo efeito surtisse. Ainda pior era o fato de que, a cada morte, parecia que a lamina estava menos satisfeita, como se a mana absorvida fosse insuficiente para sustent¨¢-la.
De qualquer forma, foi em meio a seu doce passeio que finalmente chegou a uma bifurca??o e, ao virar o corredor, viu um homem-inseto de p¨¦. Ele tinha tra?os de grilo, com pernas que se dobravam em uma posi??o antinatural, e a princ¨ªpio parecia s¨® o mesmo dos outros, mas uma fina coleira pendia em suas m?os. Preso a sua ponta, um besouro gigantesco se debatia, como uma fera faminta esperando para ser solta.
O homem olhou diretamente nos olhos de Ana por, e ela soube, naquele instante, que as coisas estavam prestes a ficarem complicadas. Com um ¨²ltimo sorriso do homem inseto, a coleira foi solta, batendo pesadamente no ch?o.
Foi como uma explos?o. Antes que ela pudesse reagir, n?o s¨® aquele besouro, mas sim centenas de outros insetos, n?o habitantes, mas sim criaturas em sua forma animalesca, todas do tamanho de c?es, surgiram das mais variadas dire??es, inundando o t¨²nel como uma mar¨¦ viva.
Foi ent?o que Ana correu. E correu. E correu.
¡ª Porra, porra, porra! ¡ª gritou em frustra??o, sentindo o suor escorrer por seu rosto ¡ª Esses t¨²neis n?o acabam!
N?o importava quantos corredores ou salas ela atravessava. Galp?es, quartos, aposentos cuja fun??o ela nem se importava em entender... tudo parecia intermin¨¢vel. Era como se estivesse presa em um labirinto vivo, onde o fim nunca aparecia.
¡ª Chegar at¨¦ as celas sem ser notada... Imposs¨ªvel desde o come?o... ¡ª ofegou, sentindo o suor escorrer por seu rosto. Seus olhos se estreitaram ao avistar uma porta de metal ao lado. Com um movimento brusco, empurrou-a com o ombro, encontrando uma sala repleta de prateleiras organizadas com equipamentos. N?o era o ideal, mas pelo menos poderia se esconder e recuperar o f?lego.
Com um gesto r¨¢pido, levantou a m?o e, como um reflexo, manifestou vinhas que se enroscaram ao redor das prateleiras, puxando-as para bloquear a entrada. As plantas brotavam de seus bra?os sem que ela sequer precisasse prestar aten??o. Seu longo estudo sobre a vida vegetal utilizada para criar as armaduras organicas a fizeram visualizar seus detalhes quase que no autom¨¢tico.
¡ª Merda de mana... ¡ª resmungou. Mesmo com as flores ainda vivas em seu bra?o, a quantidade de mana absorvida era m¨ªnima, quase insignificante. A atmosfera dentro do t¨²nel, onde o Sol n?o dava as caras, drenava suas reservas como uma esponja.
Ela se apoiou nos joelhos, sentindo o cansa?o pesando em seu corpo. Permanecer na situa??o atual n?o era vi¨¢vel. Ela sabia que teria que tomar uma atitude.
¡ª Voc¨º precisa pensar, Ana, sua idiota ¡ª sussurrou para si mesma, massageando as t¨ºmporas com for?a por baixo da m¨¢scara ¡ª Organofosforados... Glifosato¡
As palavras sa¨ªam quase como um mantra, enquanto sua mente corria para organizar as f¨®rmulas qu¨ªmicas que conhecia. As mol¨¦culas, as rea??es, tudo se alinhava como pe?as de um quebra-cabe?a complexo que precisava ser resolvido naquele exato minuto. Ela visualizava cada componente, cada ¨¢tomo, como se as rea??es estivessem flutuando ¨¤ sua frente.
"Ou vai dar certo, ou vou morrer agonizando", pensou, enquanto rasgava a manga de seu casaco e, com pressa, a enrolava firmemente ao redor do rosto, cobrindo a boca e o nariz.
Com um suspiro contido, Ana se sentou no ch?o frio do t¨²nel, com as m?os tremendo levemente pelo esfor?o de manter a concentra??o. Ela esfregou as palmas contra os joelhos, como se tentasse transferir o calor do atrito para clarear sua mente. Respirou fundo e, com um foco que beirava o desespero, come?ou a concentrar a pouca mana que ainda tinha dispon¨ªvel para modificar as mol¨¦culas ao redor.
O ar que a cercava come?ou a mudar lentamente. Uma tonalidade verde quase impercept¨ªvel come?ou a tomar forma. O vento, inicialmente leve e inofensivo, come?ou a se intensificar, carregando consigo as part¨ªculas do composto t¨®xico que ela tentava enviar pelos t¨²neis.
¡ª Preciso que isso se espalhe... r¨¢pido ¡ª murmurou, for?ando sua mente a continuar o processo.
Os sons das patas estavam crescendo em volume. Uma marcha incessante, um som que parecia vir de todos os lados. Logo, os primeiros insetos come?aram a surgir na extremidade do a sua frente, oposto a barricada, avan?ando com velocidade absurda. Ana os encarou por um momento, os olhos fixos nas grotescas criaturas. O ambiente ao seu redor ficava cada vez mais pesado, saturado com o composto t¨®xico, ent?o fechou os olhos, sentindo uma ard¨ºncia crescente pela exposi??o. Seu est?mago revirava, e a n¨¢usea amea?ava derrub¨¢-la ali mesmo.
A sua frente podia sentir o qu¨ªmico atingindo as criaturas, e, para sua alegria, elas congelaram. Algumas come?aram a se contorcer, caindo no ch?o com espasmos descontrolados, seus corpos tremendo enquanto o veneno invadia seus sistemas. Mas, para a frustra??o de Ana, muitas delas se levantaram novamente.
¡ª Droga! ¡ª rosnou entre os dentes. Ela for?ou mais mana no ar, intensificando o fluxo que saia de seu corpo. O esfor?o era imenso, e sua mente dava sinais claros de esgotamento. As m?os tremiam incontrolavelmente, os m¨²sculos queimavam pelo uso excessivo de energia.
E ainda n?o era o suficiente.
As criaturas estavam desacelerando, isso era certo, mas o n¨²mero era grande demais. Mesmo com todo o seu esfor?o, a horda continuava a avan?ar.
Pelo menos, foi o que pareceu... at¨¦ a mana reversa come?ar a tomar o controle.
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CapÃtulo 133 - Manto de ExtermÃnio
Mana reversa.
Uma for?a distorcida, imprevis¨ªvel, violenta. Ela agia como uma cobra espreitando sua presa: pequenas part¨ªculas, quase invis¨ªveis, come?avam a emergir do ambiente, part¨ªculas t?o sutis que at¨¦ mesmo um observador atento poderia n?o perceber. Mas, como uma serpente que n?o hesita em atacar, o verdadeiro perigo estava no bote.
Aquela tonalidade esverdeada que permeava o ar foi subitamente consumida. N?o houve fus?o, nem uma harmoniosa mistura de energias; foi um ato de domina??o. A mana reversa subjugou a energia que j¨¢ havia preenchido o espa?o, torcendo-a, dobrando-a sob sua vontade deturpada. A n¨¦voa, que antes j¨¢ era venenosa, se transformou em algo mais letal, uma sombra negra que pairava pesada no ambiente, pulsando com uma presen?a incontrol¨¢vel e destrutiva.
O efeito foi imediato. As criaturas que antes resistiam agora ca¨ªam aos montes. Seus corpos, que at¨¦ ent?o s¨® haviam sentido o inc?modo do composto qu¨ªmico, agora convulsionavam de forma violenta. Exoesqueletos rachavam com sons agudos e dolorosos enquanto a substancia corrosiva consumia suas entranhas. N?o havia chance de sobreviv¨ºncia: suas carnes se desintegravam, seus ¨®rg?os se liquefaziam, e cada uma delas ca¨ªa ao ch?o em pilhas grotescas de carne dilacerada e restos em decomposi??o.
O cheiro da morte se espalhou rapidamente, encharcando os t¨²neis com um odor sufocante. O ch?o ficou coberto de corpos, os olhos inexpressivos das criaturas refletiam o terror absoluto enquanto observavam a n¨¦voa negra avan?ar, trazendo consigo a destrui??o.
Ana, ofegante e exausta, finalmente se for?ou a levantar. Suas m?os tremiam violentamente enquanto agarrava a espada cravada no ch?o, usando a lamina para se sustentar. A arma, t?o encharcada de sangue quanto o pr¨®prio ar ao seu redor, parecia, de alguma forma, descontente com o rumo das coisas, insatisfeita com as a??es de sua portadora, mas Ana n?o conseguia definir se era apenas uma sensa??o ou n?o.
A mercen¨¢ria percebeu que mesmo com todo o esfor?o, seu corpo a tra¨ªa. Uma dor lancinante percorreu seu abd?men, for?ando-a a vomitar sangue. O gosto met¨¢lico invadiu sua boca, e a bile misturada com o veneno a sufocava, queimando por dentro. Cada respira??o era um esfor?o colossal, o ar ao redor dela havia se transformado em sua pr¨®pria maldi??o. A mesma n¨¦voa que matava seus inimigos fazia quest?o de deix¨¢-la ¨¤ beira do colapso.
Ainda assim, em meio ¨¤ agonia, um meio sorriso se formou em seus l¨¢bios, radiante, imperturb¨¢vel, refletindo o prazer perverso que aquela situa??o trazia. Sentia-se viva de um jeito que nada mais a fazia sentir. Ela estava no limiar entre a vida e a morte, e aquele era o espa?o onde Ana aprendeu a brilhar.
Ela deu um passo, depois outro.
Ent?o, como um furac?o prestes a engolir tudo em seu caminho, Ana come?ou a correr.
Sua corrida era desleixada, mas r¨¢pida, e a espada em suas m?os, sutilmente mais leve do que nos ¨²ltimos meses, era arrastada pelo ch?o, criando fa¨ªscas que davam um toque fantasioso para a escurid?o da caverna. A n¨¦voa negra a seguia como um manto de destrui??o, se expandindo a cada segundo, acompanhando seus movimentos.
Os t¨²neis que antes pareciam intermin¨¢veis agora se tornaram sua arena. Ana era a rainha daquele espa?o. Uma rainha est¨²pida, mas uma rainha. A cada espa?o que cruzava, a toxina se infiltrava nas passagens como uma praga viva, se espalhando sem controle.
Os "animais insetos" que a observavam come?aram a recuar descontroladamente, seus movimentos descoordenados e err¨¢ticos denunciando o pavor que os consumia. Mas nenhum deles foi r¨¢pido o suficiente para escapar da invasora. Com a for?a obscura pulsando em seus m¨²sculos, Ana os alcan?ou em um piscar de olhos. Ela podia sentir os estalos nas juntas, os ossos e m¨²sculos reclamando de forma aud¨ªvel. Seu corpo implorava por descanso, mas n?o conseguia parar.
¡ª ¨¦ t?o bom... ¡ª murmurou, quase como se estivesse compartilhando um segredo com o pr¨®prio ar ao seu redor. ¡ª E isso ¨¦ apenas o come?o.
Aquela situa??o era como nadar em um vasto oceano de mana. Havia algo quase c?mico, at¨¦ reconfortante, na forma como aquela energia a envolvia. Era como se a sustentasse, mantendo sua mente consciente o suficiente para saborear cada momento do caos que criava. Cada corpo que ca¨ªa aos seus p¨¦s exalava o divino nutriente necess¨¢rio para expandir cada vez mais sua mini encarna??o de inferno.
E ent?o, ela os encontrou.
Pais, m?es, crian?as. Habitantes daquela enorme cidade, todos caminhando pelos t¨²neis sinuosos, alheios ao destino que os aguardava. Eles faziam parte da col?nia, mas naquele momento eram meros prisioneiros da pr¨®pria exist¨ºncia.
Os t¨²neis complexos e apertados haviam se tornado a ferramenta dos sonhos de um genocida. Um labirinto sem sa¨ªda, onde podia-se ca?ar sem piedade. Uma armadilha mortal para todos os que ousavam estar ali.
¡ª Seria perfeito... se n?o fosse um suic¨ªdio... ¡ª ela riu, o som seco e rouco ecoando pelos t¨²neis, enquanto continuava sua corrida desenfreada.
Ana n?o parou para lutar. N?o havia necessidade. Ela apenas corria entre eles, como uma sombra da morte, deixando a n¨¦voa fazer o trabalho sujo. Gritos ecoavam por todos os lados, gritos de desespero, de dor. O panico se alastrava. Ela ouvia atr¨¢s de si os sonos angustiados de fam¨ªlias sendo destru¨ªdas, as s¨²plicas de m?es enquanto viam seus filhos desmoronarem diante de seus olhos, as preces v?s dirigidas a c¨¦us que n?o iriam responder.
Cada grito enchia Ana de uma excita??o que mal podia conter.
Sua corrida n?o tinha uma dire??o definida, era como um c?o enlouquecido em busca de seu pr¨®ximo brinquedo. Virava esquinas bruscamente, mudava de dire??o, sempre em busca de mais vida. Love this novel? Read it on Royal Road to ensure the author gets credit.
Todos os tr¨ºs encaixes de sua armadura estavam preenchidos com os ¨²ltimos frascos da ess¨ºncia regenerativa que levava consigo, mas at¨¦ isso tinha seus limites. A cada segundo que passava, tornava-se menos eficaz. A adrenalina a mantinha em p¨¦, mesmo quando seu corpo dava sinais claros de que n?o aguentaria por muito mais tempo. O sangue escorria de cada orif¨ªcio, tornando suas vestes cada vez mais vermelhas. Sua vis?o estava obscurecida por esse l¨ªquido carmesim, tornando o mundo apenas um borr?o, mas isso n?o a incomodava. A dor, o cansa?o, tudo era irrelevante.
¡ª S¨® mais um grito... ¡ª sussurrou em um som abafado pelo sangue que escorria de seus l¨¢bios enquanto se divertia com sua pr¨®pria obsess?o.
E ent?o, de repente, algo chamou sua aten??o. Uma grande porta estava ¨¤ sua frente, imponente, selada com firmeza. O contraste entre a estrutura e a carnificina ao seu redor era estranho, quase deslocado. Diante da estrutura, dois guardas estavam de p¨¦, como os ¨²ltimos basti?es daquele mundo de sofrimento.
A armadura deles era mais complexa que o normal, uma obra-prima de combate. Cobria seus corpos como uma segunda pele, cada pe?a meticulosamente moldada para oferecer tanto prote??o quanto intimida??o. As runas gravadas ao longo das placas de metal n?o eram meramente ornamentais, todas brilhavam com um fulgor g¨¦lido, emanando uma energia densa, carregada de poder. Mantinham-se firmes, postados sobre suas alabardas, com uma postura ereta e imponente que deixava claro que, independentemente do que acontecesse, eles n?o iriam sair da frente daquela porta.
Ana se aproximou devagar, cautelosa. Ela parou sua manifesta??o, fazendo a n¨¦voa negra que a envolvia desaparecer em um instante, apesar de ainda estar firmemente impregnada pelo ar. Ela podia sentir que o pr¨®ximo confronto seria diferente, precisaria de concentra??o total. Seus olhos, por¨¦m, n?o puderam evitar desviar por um momento, tentando decifrar o que poderia estar atr¨¢s daquela porta magistral. Por fim, voltou a olhar para a dupla, avaliando as possibilidades.
¡ª ¨¦ uma atitude idiota, mas honrada. ¡ª murmurou ela, quase para si mesma, mas com o volume suficiente para ser ouvido. ¡ª Eu os respeito por isso.
Ela deu mais um passo, agora entrando em uma posi??o de guarda, sua espada tocando o ch?o, como se estivesse embainhada na pr¨®pria terra, pronta para um golpe iminente. O movimento parecia vacilante ¨¤ primeira vista, mas os guardas sentiram que havia algo profundamente calculado ali.
Foi ent?o que Ana percebeu que, apesar de manterem as apar¨ºncias, os dois n?o estavam em melhores condi??es que ela. Sangue escorria pelas fendas de suas armaduras em uma estranha e espessa mistura de amarelo e verde. Seus corpos tamb¨¦m estavam destru¨ªdos, mas ainda assim, ergueram suas alabardas com esfor?o, apontando-as diretamente para Ana. A madeira das hastes das armas rangia sob a press?o de seus apertos, e suas laminas brilhavam mortalmente sob ¨¤ luz fraca que adornava a porta.
¡ª Quem ¨¦ voc¨º, intrusa? ¡ª perguntou o guarda mais ¨¤ esquerda em uma voz surpreendentemente refinada, cort¨ºs e civilizada, como se estivesse iniciando uma conversa trivial em vez de uma luta iminente.
Ele trajava uma armadura negra, pontilhada com espinhos amarelados que lembravam a estrutura de um vespeiro. Sua presen?a era esguia, mas n?o menos amea?adora. Duas asas se dobravam em suas costas, mas pareciam pequenas demais para sustentar seu peso no ar, apesar de completarem a imagem de uma criatura letal, sempre pronta para atacar. A pr¨®pria forma de sua armadura dava a impress?o de que ele estava preparado para ferroar qualquer inimigo que ousasse se aproximar. Seus movimentos, mesmo restritos na caixa de metal, exalavam uma certa elegancia. Uma letalidade controlada, quase nobre.
¡ª Apenas mate-a, Aculeo ¡ª rugiu o guarda da direita, um colosso de um homem-inseto, com quase o dobro do tamanho de um humano comum. ¡ª N?o v¨º que ela ¨¦ a causa disso?
Contr¨¢rio ao outro homem, sua armadura parecia mais um tanque do que uma vestimenta. Grossa, refor?ada e quase impenetr¨¢vel, ela o fazia parecer imbat¨ªvel. O grande chifre que sa¨ªa de sua testa, dividido em dois como uma est¨¢tua gigante de um besouro-rinoceronte, completava a imagem de uma besta de guerra. Cada passo que ele dava era um lembrete de sua for?a esmagadora, o ch?o sob seus p¨¦s tremendo com o peso de sua presen?a. Sua postura n?o era apenas defensiva, mas sim agressiva, como se estivesse prestes a explodir a qualquer momento.
Aculeo lan?ou um olhar feroz para seu companheiro, que agora se colocava ¨¤ sua frente, preparado para atacar.
¡ª Isso se chama cordialidade, Cornua. N?o viu que ela foi educada quando se aproximou? ¡ª disse ele, dando um passo ¨¤ frente. Antes de continuar, fez um leve aceno de cabe?a em dire??o a Ana, como se reconhecesse sua atitude.
Ana ouviu a troca entre eles com uma leve divers?o estampada no rosto. A situa??o era tensa, mas o tom cordial de um, em contraste com a brutalidade do outro, trazia uma ironia que a divertia. Ent?o, ela fez uma rever¨ºncia exagerada, teatral, baixando-se tanto que sua testa quase tocou o ch?o, falando diretamente nesta posi??o, sem encarar seus ouvintes.
¡ª Eu sou Annabelle, a Rainha dos Mascarados. Soube que, em minha aus¨ºncia, ousaram fazer amea?as aos meus conselheiros. Vim humildemente solicitar uma audi¨ºncia pac¨ªfica com essa a tal rainha Niala!
A risada baixinha que vinha de tr¨¢s da m¨¢scara monocrom¨¢tica da mulher foi a gota d¡¯¨¢gua para Cornua. Furioso, rugiu e deu um passo ¨¤ frente, sua alabarda j¨¢ preparada para o ataque.
¡ª Como ousa zombar de n¨®s?! ¡ª bradou, lan?ando-se na dire??o de Ana com a for?a de um trem de guerra.
¡ª Tsc... ¡ª suspirou Aculeo, como se j¨¢ antecipasse o que estava prestes a acontecer. Ele estava alguns passos atr¨¢s, mas, estranhamente, o alcan?ou em um instante, movendo-se com uma rapidez inesperada.
O sorriso de Ana se alargou, seus olhos brilhando com uma mal¨ªcia predat¨®ria.
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CapÃtulo 134 - Crepúsculo de Bons Guerreiros
Aproveitando sua posi??o j¨¢ inclinada, Ana impulsionou seu corpo para frente com a precis?o de uma predadora. Seu movimento, fluido como um relampago, trouxe em seu rastro a grande espada em um arco devastador, cortando o ar com for?a tremenda enquanto avan?ava em dire??o ¨¤ cabe?a do gigante ¨¤ sua frente. A alabarda do colosso tentou perfurar seu abd?men no ¨²ltimo instante, mas a mercen¨¢ria habilmente se curvou um pouco mais, desviando com facilidade.
¡ª Eu pensei que estavam sendo rudes com a visitante! Fico feliz que, na verdade, queiram apenas dan?ar!
No entanto, apesar do ataque que parecia inevit¨¢vel, o gigante sorriu, um sorriso frio e sombrio que logo se transformou em uma tosse de sangue. Recuperando-se rapidamente, infundiu sua armadura com mais mana, fazendo o chifre que sa¨ªa de sua testa pulsar como brasas vermelhas misturadas a sombras, oscilando entre um vermelho profundo e um preto azeviche. Antes que Ana pudesse compreender a estranha rea??o, o colosso moveu a cabe?a para interceptar sua espada, e o metal chocou-se diretamente contra o chifre.
A rainha foi pega completamente de surpresa. Ela havia enfrentado incont¨¢veis inimigos em Myrmeceum, sabia o qu?o duro eram os corpos dos habitantes, todos sendo facilmente abatidos por sua lamina afiada. No pior dos casos, esperava um corte parcial, algo que poderia exigir alguns golpes a mais.
Mas o que se seguiu foi o oposto de tudo o que previra: o chifre estava intacto. O impacto reverberou por todo o seu bra?o. A for?a do contra-ataque foi tamanha que sua m?o foi jogada para tr¨¢s. Ela sentiu os dedos dobrarem em angulos desconfort¨¢veis, uma dor explosiva invadindo seus nervos. Mesmo assim, n?o perdeu a espada. Permitiu que a mana reversa percorresse suas articula??es, reduzindo a dor ao m¨ªnimo necess¨¢rio para continuar lutando. A fome insaci¨¢vel da energia sombria a impedia de ceder, queimando em suas veias e for?ando-a a ignorar cada sinal de fraqueza.
Antes mesmo de cair no ch?o, seus olhos captaram o movimento do segundo guarda. A outra alabarda vinha de sua lateral, em uma trajet¨®ria veloz e precisa, pronta para decapitar sua cabe?a. Ela sabia que n?o havia tempo para um desvio completo, mas n?o planejava sucumbir ¨¤ press?o. Com um giro r¨¢pido, moveu o corpo, posicionando sua armadura do bra?o esquerdo em um angulo inclinado. O golpe da alabarda encontrou a superf¨ªcie met¨¢lica, mas, ao inv¨¦s de acertar o alvo, deslizou com for?a para baixo. O homem-vespa foi desequilibrado, seu corpo cambaleando com o peso do golpe desperdi?ado somado a seu estado fragilizado.
Mesmo assim, Ana n?o saiu ilesa. O impacto do ataque, apesar de ter sido desviado, ainda era brutal. Ela foi arremessada para tr¨¢s, colidindo violentamente contra a parede de pedra do t¨²nel. O som da colis?o ecoou como o estalar de ossos, e pequenas fissuras se formaram na pedra atr¨¢s dela. Ana sentiu a dor atravessar suas costas, pulsando em sua espinha, mas estava longe de ser abatida por algo assim.
Caiu pesadamente por cima de sua espada, e foi ent?o que mais uma surpresa foi apresentada.
¡°Matar... Matar...¡±
Os sussurros surgiam, incontrol¨¢veis, trazendo um sorriso torto ao rosto de Ana.
¡ª Eu sabia que voc¨º ia gostar deles. Somos parecidas, sabia? Tamb¨¦m gosto de esmagar os fortes.
Ela se levantou, lentamente, com seu esp¨ªrito fortalecido pela excita??o do combate. Seus olhos, ardentes de determina??o, encontraram os dos guardas ¨¤ distancia. Com um gesto r¨¢pido, puxou os dedos deslocados de volta ao lugar. O som alto e seco de cada estalo encheu o t¨²nel. A sensa??o de al¨ªvio percorreu sua m?o.
Em seguida, rasgou a manga remanescente de seu casaco, agora em farrapos. Com a tira de tecido, come?ou a amarrar firmemente o cabo de sua espada em sua m?o.
¡ª N?o vai adiantar muito ¡ª murmurou. ¡ª Mas se voc¨º n?o voar pra longe, j¨¢ t¨¢ bom demais.
Ana sabia que aquela luta era in¨²til. N?o importava o quanto brigassem, o envenenamento causado pela n¨¦voa negra eventualmente mataria ambos os lados se n?o sa¨ªssem daqueles t¨²neis imediatamente.
Se os guardas continuassem ali, morreriam.
Se ela continuasse ali, morreria.
E, mesmo se, por algum milagre, conseguisse vencer, n?o tinha confian?a que seu corpo em frangalhos teria for?a para abrir aquela enorme porta. Cada movimento queimava seus m¨²sculos, cada respira??o do¨ªa como fogo.
Era uma luta sem sentido, sem um objetivo claro.
Mas, ironicamente, era isso que a excitava. Ana n?o precisava de raz?o. A expectativa da morte iminente fazia seu sangue ferver.
"Matar... Matar!"
Ela n?o podia resistir a esse apelo.
Ent?o, n?o resistiu. Deixou que a palavra tomasse conta de seus pensamentos, um mantra de sobreviv¨ºncia e sede de sangue, e se jogou de volta na batalha.
O primeiro a reagir foi Cornua, com sua f¨²ria col¨¦rica. Ap¨®s tossir violentamente, com gotas de sangue manchando o ch?o diante de seus p¨¦s, ele ergueu a alabarda como se fosse um martelo e desceu-a com uma for?a esmagadora.
A for?a do golpe fez o t¨²nel tremer, e Ana, ainda sem for?as para um movimento evasivo, usou a lateral de sua espada para bloquear. O choque quase a derrubou, e seus joelhos dobraram enquanto o metal negro tremia em suas m?os.
Aproveitando a abertura, Aculeo deslizou pela lateral com a precis?o de uma v¨ªbora, girando a alabarda e mirando o flanco exposto de Ana. Ela percebeu a manobra apenas a tempo de se soltar do bloqueio contra Cornua e girar o corpo para o lado. Seus m¨²sculos falharam durante a evasiva, permitindo apenas um movimento cambaleante, mas felizmente ainda foi o suficiente para a tirar da trajet¨®ria, fazendo a lamina da alabarda passar apenas de rasp?o, abrindo uma linha sangrenta entre seu ombro direito e seu pesco?o. A dor foi imediata, mas antes que pudessem reagir, ela usou o movimento para mover sua espada em um arco baixo, mirando as pernas massivas do colosso.
O metal chocou-se contra a armadura resistente com um estrondo, mas o gigante manteve-se firme, sua robustez formando uma parede impenetr¨¢vel. Ana retraiu a lamina com rapidez, ciente de que ele usaria o pr¨®prio peso para contra-atacar. Em um impulso, Cornua curvou-se, trazendo o chifre reluzente em dire??o ao peito dela.
A mulher percebeu o perigo um segundo antes do impacto. Sabia que n?o teria for?a para um desvio completo, mas poderia suportar o golpe e abrir uma chance de ataque. Ignorando o instinto de proteger o corpo e mantendo a proximidade necess¨¢ria, estendeu a perna e usou o impulso para desferir um chute violento com a ponta de sua bota de metal na lateral do joelho de Cornua. Foi arremessada para tr¨¢s, mas o colosso vacilou por um momento, seus movimentos desacelerando pela dor que ecoava pela armadura. E foi nesse instante que Aculeo aproveitou novamente a oportunidade.
A arma do homem elegante direcionou-se para seu pesco?o. Ela mal teve tempo de erguer a espada, e notou que o homem-vespa parecia j¨¢ esperar tal rea??o. Com uma precis?o impiedosa, ele largou a alabarda e avan?ou, tentando cravar o punho com espinhos em sua clav¨ªcula.
Ana se curvou e girou o bra?o, enla?ando o bra?o do inimigo com a pr¨®pria espada. Ela torceu o punho e a lamina deslizou pela armadura de Aculeo, mas o golpe apenas cortou a superf¨ªcie, sem penetra??o. O guarda usou a abertura para desferir uma joelhada brutal no abd?men de Ana, com as pontas afiadas perfurando-a como facas quentes.
A rainha fincou a ponta da longa espada no ch?o e se impulsionou para tr¨¢s, j¨¢ pressionando o est?mago sangrento enquanto tentava respirar, sentindo n?o apenas as feridas, mas tamb¨¦m o veneno corroer seu pulm?o com cada inspira??o. Seu campo de vis?o come?ava a se estreitar, mas ela n?o parava. N?o podia parar.
¡°Matar¡ Matar¡¡±
O sussurro da espada incentivava, com a mesma ansia pela viol¨ºncia que sua portadora possu¨ªa, incendiando o frenesi da mercen¨¢ria.
Para sua sorte, ningu¨¦m se aproximou para atacar em seu momento de fragilidade. Cornua se levantava devagar do ch?o, ca¨ªdo de joelhos, arfando de dor ap¨®s sua ¨²ltima investida. O homem removeu seu capacete com dificuldade, como se isso facilitasse a entrada de ar em seus pulm?es, mas logo o vestiu de volta desleixadamente. Seu rosto, coberto de suor, refletia o sofrimento pelo qual passava. Aculeo ao seu lado estava um pouco melhor. Apoiado na alabarda, encarava Ana nos olhos. Apesar de ofegante, n?o deixava transparecer seu estado debilitado.
Os dois claramente n?o eram soldados comuns. O ritmo de seus movimentos era ensaiado, a precis?o de seus ataques, coordenada. Quando Cornua errava, Aculeo j¨¢ vinha com uma estocada inesperada, e o mesmo se repetia em sentido contr¨¢rio. Aquela sincronia revelou que Ana enfrentava guerreiros de elite, e isso apenas intensificou seu desejo de encarar o desafio.A case of literary theft: this tale is not rightfully on Amazon; if you see it, report the violation.
¡ª Em outra situa??o, voc¨ºs seriam oponentes mais do que formid¨¢veis ¡ª comentou a rainha, ajustando a postura para mais uma investida. ¡ª Fico feliz que fa?am parte da minha ¨²ltima batalha.
¡ª Tamb¨¦m seria uma honra lutar em perfeitas condi??es, "rainha" ¡ª grunhiu Aculeo, sem esconder o cansa?o, enquanto se posicionava defensivamente diante do colosso, que ainda se levantava.
Vendo a a??o do sujeito, Ana riu roucamente e disparou em sua dire??o. Usou toda a sua for?a para empurrar a lamina de Aculeo, que veio em forma de estocada, para o lado com a m?o esquerda, mas n?o parou ali. Em um movimento fluido, deixou a espada cair at¨¦ a ponta tocar o ch?o e a arrastou em um arco ascendente, em dire??o ao rosto do gigante que esperava logo atr¨¢s do primeiro oponente. O guarda menor, em um movimento quase desesperado, optou por chutar diretamente a arma negra, fazendo-a deslizar acidentalmente por sua armadura at¨¦ chegar ¨¤ coxa, onde grandes fragmentos de metal voaram. Ficou surpreso com o corte em sua perna, mas soltou um suspiro de al¨ªvio por ter desviado o golpe com sucesso.
Cornua rugiu em f¨²ria ao ver o companheiro ferido por sua causa, e tendo a chance, avan?ou com vigor renovado. Com uma m?o, ele arremessou sua alabarda na dire??o de Ana, mas ao inv¨¦s de segur¨¢-la na trajet¨®ria, soltou a arma com uma precis?o amea?adora, fazendo-a girar no ar como um proj¨¦til. A mulher desviou para o lado, sentindo o vento mortal passar rente ao ombro. No entanto, antes da alabarda chegar ao solo, o enorme homem-besouro esticou o bra?o para recuper¨¢-la, puxando a arma de volta de forma a atingir em cheio a cabe?a da invasora.
Por um breve momento, Ana se viu sem sa¨ªda al¨¦m de enfrentar o golpe de frente, mas visando minimizar os danos, se inclinou velozmente para a esquerda e ergueu a espada para uma tentativa de bloqueio. O impacto fez sua m?o, mesmo presa, quase escorregar do cabo da lamina, e o corte desviado passou logo abaixo de seus seios, dilacerando a carne de forma que era poss¨ªvel ver o branco de suas costelas. Apesar do resqu¨ªcio da ess¨ºncia regenerativa come?ar a criar liga??es na ferida aberta, ela j¨¢ estava em seu limite, e desequilibrou-se, caindo de costas no ch?o, sentindo o amargo gosto do sangue em sua boca.
Mesmo assim, seu sorriso ainda estava l¨¢. Um sorriso voraz, mas dolorido.
Mal teve tempo de respirar quando o homem-vespa, tremendo com os espasmos da perna despeda?ada e mal conseguindo distribuir o peso igualmente sobre ambos os p¨¦s, voltou a atacar com uma precis?o mortal. Sua alabarda vinha com um arco descendente, e Ana sabia que n?o tinha for?a para desviar como antes, ent?o recorreu a algo mais desesperado. Usando a espada como apoio, virou-se e deixou o bra?o esquerdo deslizar pela haste da alabarda, agarrando-a e puxando de repente Aculeo para perto.
Sentiu a lamina do inimigo ro?ar em seu cabelo, n?o a acertando por pouco, mas o homem, j¨¢ sem for?as, n?o p?de fazer nada al¨¦m de cambalear para frente, e rainha aproveitou a oportunidade, socando diretamente a ferida rec¨¦m-feita com toda a for?a que restava em seus punhos. O osso estalou sob a press?o, e Aculeo grunhiu quando caiu em um baque seco logo ao seu lado.
Com o pequeno segundo de respiro, Ana abra?ou a espada e rolou o m¨¢ximo que p?de para longe, mas n?o foi r¨¢pida o suficiente, pois antes de se afastar o sentiu o homem ca¨ªdo agarrar firmemente seu tornozelo esquerdo. Ela olhou rapidamente para os p¨¦s, mas n?o p?de fazer nada al¨¦m de colocar a espada em frente ao seu corpo quando percebeu que Cornua, o qual se aproximou em meio ao embate com o outro guarda, desferia um soco com ferocidade em dire??o a seu peito.
N?o sabia quando ele abandonara a alabarda, mas a not¨ªcia n?o a deixou t?o feliz quanto deveria. Seus bra?os estalaram com a for?a do golpe, e pequenas rachaduras apareceram no ch?o duro abaixo de seu corpo. Ana n?o teve nem tempo de raciocinar quando um novo soco veio em sua dire??o.
As runas da armadura do colosso brilhavam intensamente, e ele n?o parecia se importar de acertar a lateral da espada, ou talvez n?o tivesse for?as para calcular a rota adequada para contornar ela, pois simplesmente socou e socou, com movimentos que nem mesmo eram t?o r¨¢pidos, mas estavam prestes a esmag¨¢-la.
A mercen¨¢ria queria se afastar, mas Aculeo a prendia com firmeza, obrigando-a a resistir. Ela o chutava selvagemente com sua pesada bota infundida com mana, destruindo os espinhos que compunham sua armadura e criando cada vez mais amassados, mas ele se recusava firmemente a deix¨¢-la ir.
Ap¨®s quase um minuto de intermin¨¢veis socos, Cornua finalmente caiu de joelhos, exausto. Por um instante, ele pareceu desistir dos ataques, mas, com um ¨²ltimo f?lego, ergueu as m?os entrela?adas e desceu com um golpe de martelo, o estrondo reverberando pelo t¨²nel, fazendo a estrutura tremer enquanto Ana suportava seu peso.
O primeiro ataque a fez tremer.
O segundo ataque a fez perder a consci¨ºncia brevemente.
O terceiro ataque, nunca chegou.
Esse era o ponto que o gigante podia aguentar. Com os bra?os deslizando fracamente, ele agarrou a mulher pelo pesco?o, a erguendo em frente a seus olhos. Toda a mana de sua armadura concentrou-se em seu chifre, o qual brilhava cada vez mais intensamente. Era um ataque de adeus, um ataque que encerraria aquela disputa. Mas inesperadamente, Ana come?ou a gargalhar.
¡ª Voc¨º cometeu um ¨²nico erro nessa luta, meu amigo.
Antes que sequer entendessem o fraco sussurro que saia daqueles l¨¢bios quase mortos, Ana for?ou toda a mana reversa em seu corpo a fluir em velocidade m¨¢xima, e em seguida jogou a cabe?a para tr¨¢s com for?a. Na mesma intensidade, a levou para frente de novo, batendo brutalmente a pr¨®pria testa contra o chifre que parecia prestes a explodir. O impacto ecoou pelo t¨²nel, e estilha?os da m¨¢scara de Ana preencheram o ar. Por outro lado, Cornua n?o se feriu de forma alguma, tendo como resultado da a??o apenas sua cabe?a involuntariamente recuando alguns cent¨ªmetros.
¡ª Qual era sua inten?¡
A fraca voz do homem n?o p?de terminar sua frase. Sangue come?ava lentamente a vazar pelos cantos da boca do guarda, e seus olhos aos poucos perdiam o pequeno resto de vida que ainda possu¨ªam. A espada negra nas m?os de Ana pareceu afinar mais de um cent¨ªmetro em tempo real enquanto era cravada profundamente no pesco?o do gigante, adentrando com perfei??o a articula??o exposta pelo movimento repentino entre a ombreira de Cornua e o capacete mal afivelado.
¡°Matar!¡±
O som de metal atravessando carne ecoou pelas paredes, seguido pelo estalo seco dos ossos. Cornua estremeceu, seu corpo titanico balan?ando antes de cair pesadamente no ch?o, o sangue verde escorrendo para todos os lados. Ana foi solta, caindo por cima dele. Com esfor?o, virou-se de barriga para cima, mas mal teve tempo de aproveitar a vit¨®ria, pois Aculeo j¨¢ estava sobre ela novamente.
¡ª Desgra?ada¡ Ele¡ Ele n?o merecia isso!
Movido pela raiva, ele atacou novamente, estocando a alabarda em dire??o ao rosto da mulher, por¨¦m a vis?o turva da exaust?o fez com que se movesse em dire??o a seu ombro. O golpe perfurou a pele, rasgando o m¨²sculo e fazendo um jorro de sangue escorrer pela armadura do companheiro morto. Ana soltou um grunhido de dor, mas prendeu a arma em seu corpo, impedindo que fosse puxada de volta.
Com um grito grosseiro, girou o bra?o da espada para o alto, deixando o peso da lamina fazer o trabalho. Aculeo tentou se proteger, mas seu corpo j¨¢ n?o obedecia. O golpe de Ana cortou atrav¨¦s do elmo dele, rachando o metal e destro?ando de imediato grande parte de seu rosto. O homem-vespa cambaleou para tr¨¢s, o sangue escorrendo enquanto gritava a plenos pulm?es.
Notando tal abertura e utilizando a alabarda abandonada como bengala, Ana se impulsionou, n?o com elegancia, mas com pura determina??o. Seus p¨¦s escorregaram no sangue e na poeira do ch?o, mas ela avan?ou, tentando manter o equil¨ªbrio enquanto seu corpo praticamente ca¨ªa para frente.
E, no fim, foi isso que aconteceu, ela realmente caiu bem ao lado de seu oponente, mas n?o sem antes cravar a espada em seu flanco, for?ando a lamina com as duas m?os. Aculeo gritou em ainda mais agonia, se debatendo para tentar afast¨¢-la. Mas a mercen¨¢ria, implacavelmente, girou a lamina dentro do corpo dele, torcendo com toda a for?a restante.
¡°Matar!¡±
O guarda tentou um ¨²ltimo golpe com o punho espinhoso, mas sua for?a falhou. Ana, com a vis?o j¨¢ come?ando a escurecer, sentiu o ¨²ltimo f?lego de vida dele se esvair. Com um movimento final, retirou a espada, e o corpo do elegante guarda caiu ao ch?o, convulsionando antes de se silenciar para sempre.
Ela encarou a cena por um momento que parecia eterno, sangue e suor se misturando enquanto o mundo ao seu redor continuamente desaparecia.
¡ª No fim, venci¡
Ana riu da pr¨®pria situa??o, mas a risada soou rouca e entrecortada, quase um engasgo em meio ao som ¨¢spero. Ela pressionou o est?mago com for?a, como se pudesse conter a dor ardente que se espalhava por suas entranhas, o sangue denso escorrendo lentamente enquanto a adrenalina diminu¨ªa. O l¨ªquido que expelia por cada parte de seu corpo n?o era mais vermelho, mas sim preto, denso e viscoso como piche, uma prova do estrago interno que sofrera.
Ainda estava consciente, mas respirar era um esfor?o herc¨²leo. Ela quase cedeu ao desejo de se deixar cair ali, no meio dos corpos de Aculeo e Cornua. Contudo, sua teimosia a mantinha viva.
Foi ent?o que, de canto de olho, percebeu algo acima da porta ¨¤ sua frente: duas cameras fixadas, im¨®veis, como olhos inumanos, fitando-a em sua condi??o deplor¨¢vel.
¡°Algu¨¦m est¨¢¡ Me assistindo?¡±
Estava sendo observada, monitorada como um animal em uma arena? E da¨ª?
Um sorriso torto surgiu em seu rosto enquanto ela ergueu o dedo do meio para quem quer que estivesse do outro lado. Era um gesto de pura insol¨ºncia, um desafio mudo e sem sentido.
Mas para sua surpresa, um som reverberou pelo t¨²nel. Um estrondo met¨¢lico, pesado. Lentamente, a grande porta diante dela come?ou a se abrir.
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CapÃtulo 135 - Justa Limpeza
O c¨¦u estava encoberto por nuvens pesadas, abafando a luz do sol e criando uma penumbra sobre o terreno irregular. O ar estava denso, impregnado pelo cheiro pungente de morte e fuma?a, enquanto o vento soprava de leve, espalhando o odor dos corpos sem vida que balan?avam nas estacas fincadas no ch?o. Corrompidos, decapitados e desfigurados, agora jaziam imobilizados, como um aviso para qualquer um que ousasse desafiar a humanidade.
Jasmim observava em sil¨ºncio. Sua silhueta se destacava entre os corpos, uma figura envolta em um manto negro, com o capuz puxado para baixo, ocultando o rosto. Mesmo sob a prote??o do pano, ela ainda cobria o nariz e a boca com uma m?o, evitando que o cheiro p¨²trido chegasse a suas narinas. Seus olhos, no entanto, estavam fixos no carrasco ¨¤ sua frente. Ele trabalhava com precis?o, manchando o solo j¨¢ encharcado de vermelho com o sangue de mais uma execu??o.
O som da carne sendo dilacerada ecoou pelo campo, seguido pelo baque surdo da cabe?a rolando no ch?o. Cada golpe parecia ressoar nas mentes dos presentes, mas acreditavam ser apenas o rumo natural das coisas.
"Isso ¨¦ justi?a", pensou a l¨ªder da guilda, com as m?os repousando na cintura, satisfeita com a brutalidade que marcava o destino de tais criaturas. Para ela, n?o havia outra maneira de lidar com aqueles que amea?avam a pureza de sua ra?a.
A crueldade das execu??es era um mal necess¨¢rio, uma forma de manter a ordem. Se n?o temessem a morte, como poderiam ser controlados? O medo era uma arma t?o afiada quanto qualquer lamina, e ela sabia us¨¢-la bem. Cada corpo nas estacas era um aviso, um grito silencioso de que a desobedi¨ºncia seria paga com sangue.
Afinal, eles n?o eram mais humanos; eram sujos, falhos, e mereciam esse destino.
O som de passos leves atr¨¢s dela a tirou de seus pensamentos. Sem se virar, ela j¨¢ sabia quem era. Arthur, o jovem escudeiro, se aproximava. Seus olhos estavam fixos em um corpo rec¨¦m-decapitado que era erguido por alguns soldados. Sua express?o era de nojo e hesita??o conforme o som da carne sendo perfurada pela madeira dura e seca se propagava, mas ele sabia que n?o podia demonstrar fraqueza diante de Jasmim. Ela percebeu o olhar incerto do garoto e, com um sorriso frio, virou-se para ele.
¡ª N?o se preocupe com isso, escudeiro. Estamos apenas fazendo uma limpeza.
Arthur acenou, tentando ignorar o desconforto e se concentrar no motivo de sua vinda.
¡ª Entendido¡ Recebi mais relat¨®rios dos infiltrados em Ins¨ªdia, senhora.
¡ª Prossiga ¡ª disse Jasmim, impass¨ªvel, voltando a observar o carrasco que limpava sua lamina carmesim.
¡ª N?o parecem t?o preocupados com a guerra quanto pens¨¢vamos, mas h¨¢ rumores sobre n¨®s se espalhando.
¡ª Rumores?
¡ª Sim, pelo que me foi informado, notaram o aumento dos puros pelas ruas antes dos port?es serem fechados. Sinto que seremos expulsos em breve¡
Jasmim suspirou, como se fosse apenas uma leve inconveni¨ºncia.
¡ª Se formos, que assim seja. N?o h¨¢ muito o que fazer ¡ª ela deu de ombros, desdenhosa da especula??o. ¡ª Algo mais?
Arthur hesitou, seus olhos se movendo inquietos enquanto encarava o ch?o por um breve momento. O desconforto dentro dele crescia como uma onda prestes a se romper.
¡ª H¨¢ apenas um problema... O plano do alvoro?o interno... N?o vai acontecer.
Jasmim franziu o cenho, agora mais interessada. O garoto respirou fundo, escolhendo cuidadosamente as palavras.
¡ª A poucas semanas atr¨¢s, um dos nossos estava na taverna mercen¨¢ria da cidade, aquela da traidora, Madame Eclipse. Ele estava preparado para iniciar a confus?o, conforme planejado. A ideia era simples: uma briga, alguns gritos, e logo a coisa escalaria. S¨® que... a rainha apareceu.This story has been unlawfully obtained without the author''s consent. Report any appearances on Amazon.
¡ª A rainha? Em uma taverna?
¡ª Sim, senhora ¡ª Arthur assentiu, engolindo em seco. ¡ª Parece que ela frequenta o lugar com certa regularidade. Naquele dia, surgiu de uma porta dos fundos, sem falar com ningu¨¦m, apenas caminhou em dire??o ¨¤ sa¨ªda. Nosso homem ficou surpreso ao v¨º-la, mas ainda assim seguiu o plano... ele escolheu um corrompido aleatoriamente e o atacou. Por¨¦m... ela simplesmente parou. Ficou l¨¢, observando. N?o se envolveu... n?o de imediato.
Jasmim cruzou os bra?os, seus olhos endurecendo. Embora o sil¨ºncio fosse predominante, sua express?o mostrava a crescente impaci¨ºncia. Arthur, ciente disso, continuou.
¡ª Ele pensou que poderia escalar a situa??o ao envolv¨º-la diretamente e¡ Bem, o relat¨®rio est¨¢ bem detalhado e ¨¦ um pouco longo¡
¡ª Apenas fale de uma vez!
¡ª Desculpe, vou seguir o relato¡ A dona do bar, Madame, chegou para tentar parar a briga, mas o homem apenas a empurrou. Parece que todos ficaram at?nitos com essa a??o, a taverneira tem uma autoridade grande por l¨¢, e foi a¨ª que a rainha finalmente se aproximou ¡ª o escudeiro parou um momento, limpando a garganta. ¡ª Ela perguntou o que ele estava fazendo, ent?o ele come?ou a gritar, perguntando quem era ela pra se meter na vida dos outros, se fazendo de b¨ºbado. A rainha simplesmente o encarou, at¨¦ que¡ devo repetir palavra por palavra?
¡ª Voc¨º enrola demais! ¡ª reclamou Jasmim, puxando os pap¨¦is da m?o do garoto. ¡ª Vamos ver¡ ¡°Que porra de atua??o ¨¦ essa?¡±... ¡°Isso aqui n?o ¨¦ uma democracia¡±... ¡°Minhas leis s?o poucas, mas absolutas¡±... T¨¦tano? Como o assunto chegou nisso?
¡ª Bem, parece que ela come?ou um mon¨®logo estranho sobre pregos bons sustentarem um castelo inteiro, e pregos enferrujados causarem t¨¦tano¡ depois que n?o tinham vacina antitetanica, ent?o n?o podiam correr risco de ter pessoas como ele por perto¡
¡ª Hm¡ ¡ª resmungou a mulher, levantando a m?o para que ele parasse a explica??o, voltando a ler as p¨¢ginas rapidamente. ¡ª Ela realmente o nocauteou com uma caneca?
¡ª Na verdade, n?o foi bem um nocaute¡ Se ler alguns par¨¢grafos abaixo, vai notar encontrar a men??o de que n?o sobrou mais que uma pasta vermelha no ch?o¡ Parece que em Ins¨ªdia existe consideram ser a primeira cidade a n?o precisar de uma pris?o, mas n?o por um motivo t?o bom¡ as leis s?o relativamente brandas, grande parte delas finaliza com a rid¨ªcula frase de ¡°siga o bom senso¡±, mas as puni??es por descumpri-las s?o extremamente severas¡
Arthur pausou, olhando para Jasmim, esperando uma rea??o. A mulher soltou um suspiro longo e guardou os pap¨¦is restantes na mochila.
¡ª Irei ver tudo com mais calma depois ¡ª a guerreira passou a m?o pela borda do capuz, ajeitando-o. ¡ª Continue seguindo para o ponto de encontro. Precisamos ser cautelosos por agora. Enfim, e quanto aquela menina est¨²pida?
Ao ouvir a pergunta, o jovem n?o p?de deixar de sorrir.
¡ª Ela est¨¢ seguindo a rotina di¨¢ria, senhora. ¨¤s vezes passeamos juntos pela cidade, e geralmente conversamos bastante.
¡ª E quanto a guerra? Ela j¨¢ demonstrou alguma mudan?a de opini?o?
¡ª N?o, de forma alguma. A L¨²cia parece se interessar muito por essas... abomina??es, como se estivesse tentando entend¨º-las. N?o gosta da ideia de lutar contra eles. Mas¡ ¡ª ele fez uma pausa, ajustando a postura. ¡ª Est¨¢ dando tudo certo.
¡ª Oh, dando tudo certo, voc¨º diz? Ent?o suponho que conseguiu se aproximar ainda mais dela? ¡ª Jasmim arqueou uma sobrancelha, com um sorriso distorcido brotando aos poucos em sua face.
¡ª Sim. A idiota acredita em tudo o que eu digo. Realmente acha que estamos procurando aquela sombra nojenta que ela chama de mestra ¡ª seu sorriso refletia o da mulher a sua frente, e parecia ter certo divertimento em sua voz.
¡ª Maravilha, garoto. Voc¨º fez bem. Muito bem...
No campo, o machado foi novamente erguido no ar, cortando a conversa momentaneamente com o som surdo de mais uma execu??o. O choro dos condenados, alinhados na fila para a morte era um ru¨ªdo distante para os dois, abafado pela seriedade e frieza de seus planos.
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CapÃtulo 136 - Ainda Viva
¡°Ainda viva¡¡±
O pensamento veio acompanhado de uma tosse seca, enquanto aos poucos recobrava a consci¨ºncia.
Seus olhos se abriram lentamente, a mente emba?ada pelo cansa?o. Sentia o corpo pesado, como se cada m¨²sculo tivesse sido esticado ao limite, e a dor irradiava por suas costelas, pernas e bra?os, um lembrete do que havia passado. Ela piscou, tentando focar a vis?o e se situar do que estava acontecendo.
O ambiente ao redor era surpreendentemente distinto do que esperava encontrar. Ainda estava no subsolo, mas n?o se parecia com os t¨²neis claustrof¨®bicos e ¨²midos que havia percorrido at¨¦ agora. Aquela sala era imponente e elegante, como se fosse o cora??o de algo grandioso. As paredes eram feitas de uma mistura de pedra natural e exoesqueletos gigantes, entrela?ados e moldados como adornos intrincados, como se restos de antigos guerreiros insetos fossem transformados em pe?as de arte, esculpidas com precis?o, formando arcos e colunas que sustentavam a estrutura como se fossem ra¨ªzes de uma ¨¢rvore colossal.
Entre as colunas, teias densas e prateadas pendiam do teto, criando ¨¢reas de sombra que escondiam detalhes e sugeriam segredos ocultos. Essas teias eram grossas e resistentes, tecidas com um padr?o que lembrava um desenho ritual¨ªstico, m¨ªstico. Essas divis¨®rias balan?avam levemente com as correntes de ar que passavam, lan?ando sombras dan?antes sobre o ch?o, criando uma sensa??o de movimento constante.
A ilumina??o era suave e peculiar: casulos bioluminescentes estavam espalhados pelas paredes, emitindo uma luz verde-azulada que preenchia o ambiente com um brilho et¨¦reo. Os casulos pulsavam como se estivessem vivos, acompanhando um ritmo pr¨®prio, semelhante a batidas card¨ªacas lentas.
O ar estava saturado com um cheiro doce e levemente azedo, como uma mistura de flores e mofo. Havia pequenas fontes de ¨¢gua cristalina que brotavam do ch?o, fluindo por sulcos esculpidos que desenhavam padr?es complexos no solo e que convergiam para o centro da sala, onde formavam um lago raso, cercado por plantas que pareciam vibrar ao toque da luz. A combina??o de elementos organicos e arquitet?nicos criava uma atmosfera que era ao mesmo tempo bela e amea?adora.
Ela estava prestes a se perder em sua an¨¢lise quando ouviu um grito que cortou o sil¨ºncio, ecoando pelas paredes ornamentadas. Virou-se em dire??o a ele e viu uma mulher curvada no ch?o, as m?os apertando a cabe?a em agonia, emitindo um intenso lamento que permeava o ambiente. Suas pernas de aranha, longas e cobertas por uma carapa?a escura, se contra¨ªam violentamente, com espasmos descoordenados, como se ela estivesse em meio a um ataque interno que a devastava por completo. Ana observou a cena, sentindo uma curiosidade latente se acender.
¡ª Essa deve ser Niala¡ ¡ª sussurrou, franzindo o cenho. ¡ª O que diabos est¨¢ acontecendo aqui?
Ela tentou se erguer, mas seu corpo se recusou a responder. Frustrada, cerrou os dentes e tentou de novo, mas sem sucesso. Tentou mover os bra?os, as pernas, qualquer coisa que a ajudasse a sair daquela posi??o, mas sentiu apenas o peso paralisante da exaust?o. Foi ent?o que seu olhar se voltou para o lado, avistando a espada negra a poucos cent¨ªmetros de sua m?o. Fitou-a por um longo momento.
"Se deixaram minha arma aqui¡ ou s?o amistosos, ou pensam que n?o represento perigo¡"
Seja como for, o fato de ter a arma por perto n?o era o bastante para tranquiliz¨¢-la.
A lamina havia novamente mudado de forma. Antes, j¨¢ era maior do que Ana, mas agora se estendia por praticamente dois metros. Apesar disso, estava fina como uma espada curta, criando uma desproporcionalidade que a fazia parecer um fio de metal, quase como se estivesse prestes a se partir ao meio. Ana franziu o cenho, analisando a estranha transforma??o.
¡ª Mas que maravilha... ¡ª murmurou a mulher, um sorriso sarc¨¢stico brincando em seus l¨¢bios. ¡ª Gabriel claramente n?o entendia nada de ergonomia quando fez essa merda¡
Ela continuou a observar a lamina, avaliando os problemas ¨®bvios que surgiam com a nova forma. Al¨¦m de estar perigosamente fina, a distribui??o de peso estava completamente errada. A lamina se alongava tanto que o equil¨ªbrio, que deveria estar pr¨®ximo ao cabo, estava quase inexistente. A espada parecia ter um centro de gravidade impratic¨¢vel, o que a tornaria dif¨ªcil de manejar e quase imposs¨ªvel de controlar com precis?o.
Por fim, esticou a m?o, tentando alcan?ar a espada. Seus m¨²sculos tremiam, e a dor irradiava de cada movimento, mas ela for?ou at¨¦ o limite. Quando seus dedos finalmente tocaram o cabo frio da arma, eles falharam, perdendo for?a e caindo no solo com um estalo. O olhar de Ana ficou mais severo, mas logo ela riu baixinho.This text was taken from Royal Road. Help the author by reading the original version there.
¡ª Imagina usar isso em um duelo, vai ser incr¨ªvel ¡ª a ironia pesava em cada palavra. ¡ª Quando voltarmos pra casa, voc¨º vai virar um enfeite de parede, faca idiota. Um graveto parece uma op??o mais pr¨¢tica.
Ao mesmo tempo que se distra¨ªa com zombarias, viu de canto de olho um homem se aproximando de Niala, trazendo consigo uma bacia de ¨¢gua e um pano branco. Ele tinha uma express?o de extrema preocupa??o, e sua respira??o estava pesada, como se tivesse acabado de se recuperar de um esfor?o intenso.
Com cuidado, ajoelhou-se ao lado da rainha com corpo de aranha, a bacia repousando no ch?o ao seu lado, enquanto ele molhava o pano e come?ava a limpar o suor no rosto da mulher. A express?o dele era tensa, quase desesperada.
Ana percebeu que o homem era Luiz.
¡ª Eu vou fazer de novo, Niala ¡ª disse ele, a voz carregada de tens?o. ¡ª J¨¢ me recuperei o suficiente.
A rainha, ainda uivando de dor, acenou levemente, l¨¢grimas escorrendo por seu rosto severo, tra?ando caminhos sobre a pele p¨¢lida. Ela ergueu os olhos por um breve momento e encarou Ana, um olhar que misturava raiva e dor. Mesmo naquele estado vulner¨¢vel, havia algo indom¨¢vel em sua a??o.
Luiz colocou as m?os nas t¨ºmporas de Niala, fechando os olhos e respirando fundo. Ana observou enquanto ele come?ava a se conectar mentalmente com ela, e o processo n?o era nada tranquilo. Seus m¨²sculos se contra¨ªam, os dedos apertando o cranio dela com for?a. Cada segundo parecia arrancar um pedacinho da for?a dele. O rosto do homem estava tenso, e o suor escorria, caindo em gotas pesadas. A express?o dele logo se tornou de agonia, os dentes cerrados enquanto ele resistia ¨¤ dor mental que o processo causava.
Ap¨®s alguns segundos, com um estalo, Niala desabou, como se toda a tens?o tivesse se esva¨ªdo de uma s¨® vez. Seu corpo relaxou completamente, e seu rosto, que antes carregava a ang¨²stia de um grito contido, agora parecia sereno, pac¨ªfico. Havia um contraste brutal entre a cena anterior e a tranquilidade que se instalou. O sil¨ºncio que se seguiu era quase assustador.
O mentalista permaneceu ajoelhado por um momento, respirando pesadamente. Ele havia claramente esgotado parte de suas energias, mas aos poucos, recobrou a compostura.
Logo levantou-se e caminhou em dire??o a Ana. Seu olhar encontrou o dela, e por um momento, havia uma mistura de cansa?o, compaix?o e, talvez, uma sombra de vergonha ou culpa. Ao notar o olhar afiado da rainha, rapidamente virou o rosto, desviando os olhos, com a m?o direita co?ando a nuca nervosamente, visivelmente desconfort¨¢vel.
¡ª Filho da puta, ent?o voc¨º est¨¢ vivo¡
A voz da rainha mascarada continha um toque de surpresa e raiva, e um sorriso amb¨ªguo se formou em seus l¨¢bios. Sem entender completamente o que estava acontecendo, soltou um suspiro cansado e apoiou a cabe?a na parede atr¨¢s de si.
Luiz parou a alguns passos dela, mantendo o uma quietude que pareceu se arrastar. Ele respirou fundo antes de falar, a voz baixa e quase t¨ªmida.
¡ª Como voc¨º est¨¢? Eu tratei suas feridas, l¨ªder¡
Ana n?o respondeu, mas ficou surpresa. Mal sentia seu corpo, ent?o n?o se preocupou em se autoavaliar at¨¦ o momento. Ao tocar levemente a lateral de seu abd?men, onde antes havia uma dor lancinante, sentiu a superf¨ªcie mais lisa e fria, coberta por algo que trazia certo frescor ¨¤ pele.
¡ª O que voc¨º colocou neles? O cheiro ¨¦ estranho.
Luiz hesitou, co?ando a nuca novamente, como se tentasse encontrar as palavras certas.
¡ª ¨¦ um... um composto da cidade. ¨¦ utilizado como pomada e ¨¦ gerado por alguns insetos da col?nia. A substancia tem propriedades ideais para uso m¨¦dico ¡ª ele explicou, com um tom incerto.
Ana arqueou uma sobrancelha, ainda de olhos fechados, processando a informa??o.
¡ª Me d¨º mais detalhes depois. Parece... interessante.
O sil¨ºncio que se seguiu foi desconfort¨¢vel. Luiz permanecia de p¨¦, nervoso, sem saber como prosseguir.
¡ª E ent?o, idiota, n?o vai falar mais nada? ¡ª provocou Ana, seu tom carregado de sarcasmo.
Durante a intera??o, Ana a cada pouco tempo, esticava a m?o, tentando alcan?ar a espada que estava a poucos cent¨ªmetros de distancia, por¨¦m ainda sem sucesso.
¡ª Pe...perd?o, Ana... ¨¦ que... ¨¦ complicado ¡ª gaguejou Luiz.
¡ª Oh, sim, eu vejo. Realmente complicado, afinal, olhe como fiquei ap¨®s tentar buscar meus subordinados ¡ª o tom de Ana era ¨¢cido, mas ela sustentava o sorriso ir?nico nos l¨¢bios.
¡ª Perd?o¡
¡ª Relaxa, s¨® t? enchendo o saco... Eu j¨¢ tinha que vir aqui de qualquer forma. N?o pod¨ªamos parecer t?o fracos aceitando amea?as de qualquer um ¡ª resmungou a rainha, voltando a abrir os olhos. ¡ª Agora, chega de pedir desculpas. Explique de uma vez.
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CapÃtulo 137 - Pelo Direito dos Fortes
Luiz respirou fundo antes de come?ar a explicar, o olhar ainda distante, como se revivesse cada detalhe.
¡ª Eu tentei influenci¨¢-los durante as negocia??es. Entrei na mente de Niala, achei que poderia direcionar as decis?es dela para que a alian?a fosse favor¨¢vel a n¨®s.
¡ª ¨®timo, fodam-se as orienta??es, n¨¦?
¡ª ¨¦ que¡
¡ª S¨® continue ¡ª riu Ana, balan?ando a m?o da forma que podia.
¡ª Certo¡ Eu tentei influenci¨¢-los durante as negocia??es. Mas eles t¨ºm uma mente coletiva. N?o ¨¦ como invadir uma pessoa, ¨¦ como lidar com centenas, talvez milhares, de consci¨ºncias ao mesmo tempo. Fui capturado antes de sequer entender o que estava acontecendo.
Ana o ouviu, seus olhos afiados fixos em Luiz, mas havia algo mais ali: uma frieza que acompanhava a curiosidade.
¡ª E os outros emiss¨¢rios? ¡ª perguntou, direta.
O semblante de Luiz obscureceu e ele hesitou, os l¨¢bios se apertando em uma linha fina. Quando finalmente falou, sua voz era um sussurro carregado de culpa.
¡ª Foram destru¨ªdos...
Ana suspirou, desviando o olhar para o ch?o por um momento.
¡ª Que merda... ¡ª murmurou, sentindo o peso da perda. Mas n?o havia luto em seu tom, apenas a constata??o sem emo??o de uma falha.
Ela voltou os olhos para Niala, que ainda estava ca¨ªda no ch?o, seu corpo de aranha encolhido e im¨®vel.
¡ª Mente coletiva, voc¨º disse? ¡ª apontou para a rainha inseto com um movimento da cabe?a. ¡ª Esse ¨¦ o motivo dela estar nesse estado?
Luiz assentiu, a preocupa??o evidente em seu rosto.
¡ª Sim. A col?nia est¨¢ em caos. O desespero do povo a afeta diretamente. Eles s?o como um organismo s¨®, e quando a col?nia sente dor, ela tamb¨¦m sente, como se estivessem arrancando peda?os de sua exist¨ºncia.
Ana ouviu e, inesperadamente, come?ou a gargalhar. O som era ¨¢spero, quase cruel, como se ela encontrasse uma ironia m¨®rbida na situa??o.
¡ª Se fodeu! ¡ª disse, ainda rindo, enquanto se ajeitava na parede, arrastando as costas lentamente at¨¦ encontrar uma posi??o menos desconfort¨¢vel.
Ela respirou fundo e se virou novamente para Luiz, o sorriso sarc¨¢stico ainda estampado no rosto.
¡ª Achei que voc¨º estivesse preso... ou morto. Mas quem diria que voc¨º tem a porra da s¨ªndrome de Estocolmo. Como chegou nisso?
Luiz desviou o olhar, envergonhado.
¡ª No come?o, eu realmente fui tratado como prisioneiro. Trancado, vigiado o tempo todo. Mas... com o tempo, as coisas mudaram. A rainha Niala, em meio ao t¨¦dio di¨¢rio, come?ou a se interessar em mim ¡ª o homem riu fracamente, como se a ideia ainda fosse estranha para ele. ¡ª Ela nunca tinha visto uma pessoa com veias mutadas pessoalmente, parece que nem mesmo leitores nasceram em Myrmeceum. Era uma novidade para ela.
¡ª Ah, ent?o o pobre Luiz criou uma amizade com a rainha ap¨®s essas reuni?es do ch¨¢? ¡ª provocou a mercen¨¢ria, sua voz carregada de ironia.
O homem balan?ou a cabe?a, um sorriso amargo se formando.
¡ª N?o foi exatamente assim ¡ª ele deu de ombros. ¡ª N?o que... n?o tenhamos uma amizade hoje em dia. Mas, no come?o, era algo de benef¨ªcio m¨²tuo. Ela me chamava com frequ¨ºncia, mas n?o era apenas por gentileza ou curiosidade. Era porque a vida dela ¨¦... um inferno constante.
Ana arqueou as sobrancelhas, genuinamente intrigada. Luiz continuou, o tom da voz mais grave.
¡ª Niala recebe sinais mentais da col?nia o tempo todo, sem descanso, vinte quatro horas por dia. N?o importa se ela est¨¢ acordada ou dormindo, os sinais continuam. N?o h¨¢ sil¨ºncio, n?o h¨¢ paz. ¡ª ele fez uma pausa, fazendo um pequeno gesto acima da cabe?a com dois dedos para indicar as antenas. ¡ª Ela n?o entende por que isso come?ou depois de ter se tornado uma corrompida, mas aceitou a responsabilidade de orientar a col?nia. Enfim, tenta ser uma boa rainha, mesmo com a carga absurda que isso traz.
¡ª Se a culpa ¨¦ das antenas, n?o basta arranc¨¢-las?
¡ª Talvez sim, mas tornaria a vida muito menos pr¨¢tica, s?o o tipo de gente que nunca aceitaria fazer isso¡.
¡ª Uma rainha presa pelas pr¨®prias emo??es do povo. ¨¦ idiota.
¡ª Felizmente, n?o ¨¦ sempre assim. O povo inseto n?o ¨¦ como n¨®s, humanos puros. Eles sentem, mas de maneira... diferente. S?o emo??es mais simples, a maior parte do tempo os pensamentos giram em melhorar a col?nia, sem distra??es. Mas quando algo os afeta, ¨¦ intenso. Situa??es como a de hoje se transformam em uma tortura mental pra rainha. ¨¦ por isso que ela... ¡ª o mentalista pareceu travar levemente, escolhendo as palavras com cuidado ¡ª Se tornou alco¨®latra¡ A bebida nubla um pouco os sinais, entorpecendo a mente. N?o ¨¦ uma solu??o perfeita, mas ¨¦ a ¨²nica maneira que ela encontrou para sobreviver.
¡ª Isso me faz gostar mais dela.
¡ª Pra ser sincero, quando a conheci logo senti que voc¨ºs iam se dar bem.
Ana bufou, cruzando os bra?os e rindo baixinho, e Luiz continuou.
¡ª Nos ¨²ltimos meses comecei a me conectar novamente com a col?nia, como da primeira vez. No come?o, foi insuport¨¢vel. Cada vez que eu entrava, sentia como se minha mente fosse rachar ao meio. O tempo fez eu sincronizar com eles de forma quase perfeita, consigo ajud¨¢-la a cortar algumas conex?es quando as coisas ficam dif¨ªceis, para que ela tenha um pouco de descanso. Mas como eu disse antes, era algo de benef¨ªcio m¨²tuo. Aprendi muito a respeito das minhas pr¨®prias habilidades no processo. Mentes s?o¡ fascinantes.
Por um breve momento, o olhar no rosto do homem ficou feroz, predat¨®rio, enquanto encarava Ana, mas como se fosse apenas uma ilus?o, sua express?o logo voltou ao normal.
¡ª Bem, vou considerar tudo isso treinamento, n?o falaremos sobre puni??es. ¡ª disse Ana casualmente. ¡ª Agora vai l¨¢ e corta a cabe?a dessa desgra?ada.
¡ª Eles s?o boas pessoas, Ana... ¡ª murmurou, quase como se estivesse se desculpando.If you discover this tale on Amazon, be aware that it has been stolen. Please report the violation.
¡ª Boas pessoas? ¡ª a rainha mercen¨¢ria repetiu, sua voz carregada de incredulidade. ¡ª Eles nos amea?aram com guerra se n?o explod¨ªssemos uma cidade inteira. Isso ¨¦ ser "bom"?
¡ª Isso ¨¦ coisa do Verath...
¡ª O homem de terno? ¡ª Ana perguntou, lembrando-se da figura distinta que havia sido mencionada no relat¨®rio.
¡ª Sim, ele ¨¦ o conselheiro da rainha. ¡ª Luiz assentiu. ¡ª ¨¦ meio estranho, mas n?o ¨¦ uma pessoa ruim. Bom, ¨¦ mais frio que os outros insetos... Quando ele pediu para explodir a cidade, estava sendo pr¨¢tico. Os escamosos estavam causando problemas para os habitantes. E sobre a guerra... N?o passa de um blefe. ¨¦ a estrat¨¦gia dele para pressionar outras cidades e evitar um conflito real, uma rela??o de medo para manter tudo sob controle.
¡ª ¨¦ um blefe burro ¡ª Ana comentou em meio a um riso seco.
¡ª Ele n?o quer uma guerra, mas tamb¨¦m n?o a teme. A capacidade reprodutiva dos insetos ¨¦ absurda, e h¨¢ alguns entre os soldados que s?o realmente monstruosos¡ N?o ¨¦ uma batalha que podemos vencer facilmente, caso venha a acontecer.
¡ª Que seja ¡ª Ana deu de ombros. ¡ª De qualquer forma, arranque a cabe?a dela. N?o acho que d¨¢ pra resolver a bagun?a dessa vez, aqueles t¨²neis est?o realmente bagun?ados.
Luiz hesitou, e Ana notou a mudan?a em sua express?o. Sua m?o novamente tentou discretamente se mover para a espada, cheia de desconfian?a.
¡ª Apenas v¨¢ embora, minha senhora ¡ª disse ele, a voz saindo firme, mas com um tra?o de tristeza. ¡ª Todos aqueles mortos s?o menos de um d¨¦cimo da popula??o total. V?o ficar bravos, claro, mas v?o evitar uma guerra que n?o garanta vit¨®ria.
¡ª "Apenas v¨¢ embora"? ¡ª Ana repetiu, erguendo uma sobrancelha enquanto ignorava o resto da frase. ¡ª N?o quis dizer "vamos embora"?
¡ª N?o posso deix¨¢-la. N?o at¨¦ encontrarmos uma maneira de controlar as conex?es.
Ana estreitou os olhos, o sorriso nos l¨¢bios se tornando mais afiado.
¡ª Quem diria que o cara que tinha preconceito com os corrompidos ia ficar t?o pr¨®ximo de uma, hein?
Luiz n?o respondeu de imediato, e sua express?o ficou carregada de seriedade.
¡ª Quero que voc¨º entenda uma coisa, Luiz ¡ª disse Ana, a voz mais grave e firme. ¡ª Eles t¨ºm a merda de uma mina de salitre!
¡ª Salitre?
¡ª P¨®lvora, caralho, p¨®lvora! N?o d¨¢ pra arriscar depois de recebermos amea?as.
Nesse instante, um som de riso dolorido ecoou pelo ambiente. Ana e Luiz se viraram para a origem do som, notando Niala, ainda deitada no ch?o, com um sorriso amargo nos l¨¢bios. Sua voz soava arrastada e desgastada, como se a simples fala fosse um esfor?o monumental.
¡ª N?o... Vou gastar... A p¨®lvora que tenho... Com mascarados... Isso ¨¦ para¡ Os puros ¡ª a voz da rainha inseto era entrecortada por pequenas tosses. ¡ª E... n?o temos uma mina de salitre... ¡ª ela fez uma pausa, respirando fundo ¡ª Apenas um estoque de p¨®lvora j¨¢ produzida... da Terra antiga.
¡ª Olha quem j¨¢ acord¡ ¡ª comentou Ana, ap¨®s virar o pesco?o com esfor?o, tendo a frase interrompida por tosses semelhantes ¨¤s da outra rainha a sua frente.
A fragilidade m¨²tua pareceu desencadear uma sincronia entre as mulheres, que tossiam ritmicamente, quase como um reflexo uma da outra. Eventualmente, as tosses ¨¢speras deram lugar a risadas fracas, ambas compartilhando um momento de humor sombrio, at¨¦ que um sil¨ºncio pesado dominou a sala. Ana foi a primeira a quebrar a quietude.
¡ª Voc¨º mencionou que o uso destina-se aos puros. Pretendem explodir parte de Barueri?
Niala, ainda deitada, ergueu o olhar, os olhos brilhando com um toque de desd¨¦m.
¡ª Voc¨º ¨¦ mais ing¨ºnua do que parece, assassina est¨²pida ¡ª respirou fundo antes de continuar, o esfor?o evidente em seu rosto. ¡ª Barueri ¨¦ um pesadelo. Eles n?o dependem apenas de constru??es, ¨¦ uma fortaleza.
Ana estreitou os olhos, observando a mulher-inseto com interesse.
¡ª E como exatamente isso impediria uma bela explos?o ¨¤ moda antiga?
Niala sorriu levemente, como se achasse divertida a falta de conhecimento de Ana.
¡ª Eles t¨ºm runas de dissocia??o nas funda??es dos pr¨¦dios, desenhadas para dissipar qualquer impacto direto que atinja as estruturas. Uma explos?o, especialmente uma que n?o envolve mana... s¨® deixaria fuma?a e algumas marcas ¡ª Niala parou por um momento, olhando para Ana, como se gostasse de sua ignorancia sobre o assunto. ¡ª Voc¨º n?o conseguiria nem arranhar as paredes.
Ana inclinou a cabe?a, ponderando as palavras de Niala. Por um breve instante, um brilho de admira??o cruzou seu rosto.
¡ª Interessante ¡ª comentou, sem rodeios, como se conversasse consigo mesma. ¡ª Minha cidade n?o tem isso.
Luiz arregalou os olhos, claramente surpreso com a exposi??o de detalhes t?o importantes da defesa de seu pr¨®prio territ¨®rio, mesmo que confiasse em Niala, n?o se devia falar esse tipo de coisa. A rainha mascarada percebeu a incredulidade do mentalista, o que a fez rir.
¡ª Relaxe, homem. Neste momento, n?o importa que ela saiba disso.
Suspirando, Ana balan?ou o corpo para impulsionar-se para frente, for?ando-se a se levantar. Involuntariamente, mostrou os dentes por um instante, sentindo que as bandagens ao redor de seu torso come?avam a se tingir de vermelho novamente.
Com passos lentos e pesados, se dirigiu at¨¦ sua espada, abaixando-se com esfor?o para peg¨¢-la. Luiz observava, inquieto, sem saber o que esperar, enquanto ela, como se n?o quisesse nada, come?ou a caminhar em dire??o ¨¤ rainha inseto.
Niala, ao perceber o movimento, moveu uma de suas patas, a ponta afiada como uma lan?a, na dire??o do est?mago de Ana. Mas a mercen¨¢ria foi mais r¨¢pida, com um movimento certeiro, levantou a perna e esmagou a armadura negra que protegia o fino membro contra o ch?o. O movimento quase a fez perder o equil¨ªbrio, mas ela se firmou, sorrindo com um ar de desafio.
Sem perder tempo, as outras tr¨ºs pernas aracn¨ªdeas foram direcionadas ao rosto de sua inimiga, preparando-se para uma retalia??o. Mas j¨¢ era tarde demais. Ana, com um sorriso g¨¦lido, j¨¢ havia encostado a lamina contra o p¨¢lido pesco?o a sua frente.
¡ª Voc¨º j¨¢ deve saber, mas meu pequeno reino em breve estar¨¢ cruzando armas com os puros ¡ª murmurou, a voz baixa e amea?adora. ¡ª O inimigo do meu inimigo ¨¦ meu amigo, certo? Vai se juntar a essa guerra?
¡ª As perdas ser?o maiores que os ganhos. Essa guerra s¨® levar¨¢ voc¨º e os seus ao colapso ¡ª Niala bufou de forma cansada e desdenhosa.
Ana aumentou a press?o da lamina, a qual come?ou a deixar uma leve marca vermelha no aparentemente fr¨¢gil corpo. Seus olhos percorreram as patas de aranha que a circundavam, reparando nas runas intricadas que cobriam cada segmento, cada uma mais complexa que as vistas nos habitantes de Myrmeceum. Ela sentiu um leve formigamento de ambi??o ao imaginar o que poderia estudar com aqueles s¨ªmbolos.
¡°Parece que ainda tenho muito o que aprender¡¡±, pensou, mal conseguindo supor a funcionalidade de cada parte da armadura. Com tal conhecimento, poderia aprimorar suas pr¨®prias cria??es. Era um desperd¨ªcio ter que destruir um povo que podia agregar tanto.
Logo sua vista voltou a fixar-se nos olhos de Niala, aproximando o rosto da outra rainha com um sorriso frio.
¡ª Covarde.
¡ª Sim, mas uma covarde viva... a sobreviv¨ºncia nem sempre permite seu rid¨ªculo idealismo.
¡ª Idealismo? ¡ª perguntou Ana, com um tom de ironia marcando seu tom. ¡ª Voc¨º me entendeu errado. Covarde ¨¦ um elogio. Recusar uma batalha perdida ¨¦ mais sensato que se jogar em uma guerra suicida. Mas... essa guerra entrou no meu caminho, e eu n?o vou recuar. N?o lute, se quiser, mas n?o espere que eu venha te salvar se os puros finalmente baterem na sua porta.
Ana afastou a lamina do pesco?o da rainha, dando um ¨²ltimo olhar antes de voltar a sentar-se.
¡ª E claro, quanto ao estoque¡ pelo direito dos fortes, ou seja, de quem consegue levantar a porra da espada nesse momento, a p¨®lvora agora ¨¦ minha.
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CapÃtulo 138 - Ponto de Ebuli??o
¡ª ¨¦ incr¨ªvel te ver por aqui ¡ª disse Madame, com um sorriso caloroso no rosto, servindo duas canecas de cerveja azul e espumante e empurrando-as em dire??o aos visitantes inesperados.
¡ª Digo o mesmo. Quem pensaria que voc¨º sairia do seu lugar de sempre? Tenho boas mem¨®rias daquela taverna... Afinal, foi onde minha hist¨®ria come?ou.
¡ª Ah, tamb¨¦m tenho, querida ¡ª Madame riu, relembrando com afeto. ¡ª Mas Ins¨ªdia... Ins¨ªdia ¨¦ a realiza??o de um mundo m¨¢gico. N?o tinha como ficar longe por muito tempo. Al¨¦m disso, as coisas andam bem desagrad¨¢veis por l¨¢ ultimamente. Achei melhor mudar de ares.
Natalya riu tamb¨¦m, levando a caneca aos l¨¢bios e experimentando a bebida azulada. Ela observou o l¨ªquido por um instante, girando-o vagarosamente.
¡ª N?o posso negar que a cidade ¨¦ a sua cara ¡ª comentou, dando outro gole. ¡ª Voc¨º realmente avan?ou em suas receitas nesses anos, isso aqui est¨¢ muito bom.
¡ª Pare com esses elogios desnecess¨¢rios ¡ª a taverneira acenou a m?o em um gesto despreocupado enquanto se voltava para o homem ao lado de Natalya. ¡ª E esse a¨ª, quem ¨¦?
A Colecionadora lan?ou um breve olhar ao companheiro, ponderando como apresent¨¢-lo antes de responder com simplicidade.
¡ª Um aprendiz ¡ª respondeu por fim, dando uma batidinha no pr¨®prio peito met¨¢lico escondido por baixo de um pesado casaco preto. O homem, sem dizer uma palavra, ergueu a cabe?a, cumprimentando brevemente Madame. O rosto sob o capuz exibia um olhar frio, atento, analisando a taverneira de cima a baixo.
¡ª Achei que voc¨º seria uma loba solit¨¢ria para sempre. Quem diria que acharia algu¨¦m t?o louco... digo, com interesses t?o semelhantes para te acompanhar¡
Os olhos dela percorreram a armadura do suposto aprendiz com interesse, inicialmente assumindo que fosse apenas isso, uma armadura. Mas conforme olhava mais, notava detalhes sutis: fragmentos de carne artificial, mecanismos internos e um estranho reflexo que passava por tr¨¢s das placas, semelhantes ao de Natalya, que revelavam que aquilo tinha um uso muito al¨¦m da simples prote??o, uma fus?o complexa de modifica??es corporais.
¡ª Coincid¨ºncias da vida ¡ª murmurou Natalya, ironicamente, a voz carregada de um humor seco. Seu companheiro bufou levemente com a resposta e bebeu de sua caneca com uma express?o de aprova??o, antes de come?ar a ajustar uma arma acoplada ao bra?o, desinteressado com o restante da conversa.
Natalya observou-o um segundo mais, ent?o voltou-se para Madame.
¡ª Mas e ent?o? Como foi que este lugar cresceu t?o r¨¢pido? J¨¢ conheci os mascarados de antes... Lutavam bem, mas eram pouco mais que est¨¢tuas vagando por a¨ª.
¡ª ¨¦ uma longa hist¨®ria... mas, em resumo, a suposta rainha deles surgiu de repente e tomou as r¨¦deas de tudo.
¡ª Uma rainha? ¡ª Natalya arqueou uma sobrancelha, intrigada.
¡ª Sim, uma incr¨ªvel, por sinal. ¡ª Madame inclinou-se, falando em tom mais baixo. ¡ª Tudo aqui avan?a a passos r¨¢pidos. Mas n?o recomendaria que criasse problemas... ela n?o bate muito bem.
Natalya sorriu com uma express?o torta e virou mais uma vez o copo, sentindo o frescor passar por sua garganta..
¡ª E quem bate bem hoje em dia, Madame? O mundo l¨¢ fora est¨¢ um caos.
¡ª Imagino ¡ª a taverneira respondeu, suspirando. ¡ª Vai ficar na cidade por um tempo? Adoraria ouvir algumas das suas novas hist¨®rias.
¡ª N?o tenho certeza... Soube que algumas coisas interessantes est?o surgindo por aqui. Vim ver se consigo pegar algo da famosa cidade das m¨¢scaras para minha cole??o.
¡ª Oh, "famosa cidade"? N?o sabia que as not¨ªcias se espalharam tanto. Mas, querida, voc¨º chegou em uma p¨¦ssima hora. Ins¨ªdia est¨¢ ¨¤ beira de uma guerra, o clima est¨¢ cada vez mais tenso.
Antes que pudesse responder, Natalya sentiu uma leve press?o em sua cabe?a, um zunido quase impercept¨ªvel que ecoou como um sussurro em sua mente. Sua express?o endureceu enquanto a familiar voz interior rompia a quietude de seus pensamentos.
¡°Inconsist¨ºncias¡ pegue-as¡¡±
Ela piscou, tentando clarear os pensamentos, mas seus olhos se estreitaram, e seu corpo entrou em alerta. Com a vis?o perif¨¦rica, come?ou a analisar o ambiente ao redor, observando cada figura que preenchia o sal?o. De relance, seus dedos se contra¨ªram, como se quisessem agarrar algo. Ela mordeu o l¨¢bio ao perceber uma dupla se aproximando, e a tens?o no ar pareceu engrossar, carregada de uma antecipa??o estranha e palp¨¢vel.
O primeiro, um homem de passos leves, usava uma m¨¢scara azul de apar¨ºncia demon¨ªaca e exalava um ar inegavelmente marcial, que contrastava com a energia leve e jovial da garota ao seu lado, uma ruiva com uma pequena m¨¢scara de raposa que falava animadamente sobre algo. O brilho r¨²nico do metal escuro reluzia em seus bra?os, e Natalya quase sentiu os dedos formigarem, uma ansia de tocar aquela armadura que parecia mais um artefato vivo. Quando deu por si, eles j¨¢ estavam ao seu lado no balc?o.Unauthorized tale usage: if you spot this story on Amazon, report the violation.
¡ª Boa tarde, Madame ¡ª cumprimentou o homem, acomodando-se em uma banqueta com um leve arquejo de cansa?o.
¡ª Boa tarde! ¡ª respondeu a mulher, sorrindo enquanto pegava mais uma caneca. ¡ª Dia livre? N?o costumo te ver por aqui neste hor¨¢rio.
¡ª Livre? ¡ª Alex soltou uma risada seca, que mais parecia um grunhido abafado pela m¨¢scara. ¡ª Est¨¢ sendo um dia de matar, isso sim. Vim relaxar um pouco.
¡ª Ent?o perfeito! ¡ª riu Madame, enchendo o recipiente de cerveja enquanto, com destreza, servia uma ta?a de vidro com um l¨ªquido amarelo arom¨¢tico e refrescante para a jovem ao lado. ¡ª Para a mocinha, um suco de outono.
Eva aceitou a bebida com um aceno e um sorrisinho resignado, que parecia desmoronar lentamente em uma express?o contrariada.
¡ª E a cerveja de mana? ¡ª murmurou a garota, os olhos faiscando com uma expectativa frustrada.
¡ª N?o pra voc¨º ¡ª respondeu Madame, rindo baixinho.
¡ª Voc¨ºs t¨ºm algo... realmente intrigante ¡ª comentou Natalya, de repente e sem rodeios, com a curiosidade expl¨ªcita. ¡ª Tamb¨¦m s?o aficionados por implantes? ¡ª perguntou, indicando os bra?os blindados de seu aprendiz.
¡ª ¨¦ uma armadura¡ ¡ª Eva foi a primeira a responder, adotando um tom sombrio que contrastava com sua usual vivacidade. Sentia arrepios sempre que recordava que aquilo estava em seu corpo.
Em conjunto com seus resmungos, seus olhos examinaram o estranho corpo do homem apontado pela mulher, e n?o p?de deixar de exclamar ao notar suas caracter¨ªsticas incomuns.
¡ª Voc¨º ¨¦ um rob?? Que incr¨ªvel! Como nunca te vi por aqui antes?
¡ª Quase isso. Digamos que¡ ele gosta de melhorias ¡ª respondeu Natalya no lugar do homem calado. ¡ª Acabamos de chegar ¨¤ cidade, ¨¦ um prazer conhec¨º-la, jovem.
¡ª Eu me chamo Eva!
¡ª ¨®timo, ent?o ¨¦ um prazer, Eva. Eu me chamo Na¡
Um estalo alto interrompeu a apresenta??o. Todos se voltaram para Alex, que segurava a m?o tr¨ºmula sobre o balc?o, onde cacos de vidro espalhados refletiam a luz em fragmentos reluzentes. Ele olhava para Natalya com uma intensidade estranha, quase perturbadora.
¡ª Ei, tonto, presta aten??o! ¡ª Eva passou a m?o em frente aos olhos dele, estalando os dedos algumas vezes at¨¦ que ele finalmente despertasse do transe.
¡ª Me¡ me desculpem. Como eu disse, o dia est¨¢ dif¨ªcil hoje... ¡ª Alex pareceu se recompor, mas ainda sem desviar o olhar de Natalya. ¡ª Voc¨º acabou de chegar na cidade? Mesmo com os port?es fechados?
Natalya inclinou a cabe?a levemente, um sorriso enigm¨¢tico brincando em seus l¨¢bios enquanto colocava um dedo sobre eles, num gesto de segredo.
¡ª Admito que mexi uns pauzinhos com meu status... mas n?o contem para ningu¨¦m.
Alex riu roucamente, sua voz saindo em um estranho som contido.
¡ª Certo¡ ¡ª Ele lan?ou um olhar para a taverneira, que j¨¢ estava com a velha vassoura e a p¨¢ em m?os, varrendo os cacos com a pr¨¢tica de quem j¨¢ viu in¨²meras cenas assim. ¡ª Madame, desculpe pela bagun?a. Acabei de lembrar de uma reuni?o urgente.
Madame fez um gesto com a m?o, dispensando as desculpas enquanto continuava a varrer.
¡ª Voltarei mais tarde para pagar as bebidas e o estrago. Eva, precisamos ir.
¡ª Mas estou no meio de uma conversa! ¡ª protestou a garota.
¡ª Vamos agora. Voc¨º tamb¨¦m precisa participar.
Resmungando, a menina virou o suco em um ¨²nico gole e saltou do banco.
¡ª A gente se fala depois! ¡ª disse para os tr¨ºs que a observavam, seguindo Alex, que dava passos anormalmente apressados at¨¦ a porta.
¡°Inconsist¨ºncia¡ busque-as.¡±
¡ª Calem a boca¡ ¡ª sussurrou a Colecionadora de forma quase inaud¨ªvel para si mesma, fechando os olhos por um instante. Ignorando as ordens doloridas, se virou para a taverneira com uma express?o cansada.
¡ª S?o interessantes, esses dois.
¡ª Eu vi seu olhar. N?o se deixe levar pela ganancia em rela??o aos equipamentos dos conselheiros ¡ª murmurou Madame, sem sequer olhar para ela. ¡ª Os itens que carregam s?o presentes da rainha. Voc¨º n?o vai querer problemas com eles.
¡ª Conselheiros? Esses jovens? ¡ª Natalya arqueou as sobrancelhas, surpresa.
¡ª Sim, eles gerenciam tudo por aqui. Mas ignore as idades. Ningu¨¦m sabe o que existe atr¨¢s das m¨¢scaras¡ nem mesmo se s?o pessoas como n¨®s.
Natalya estreitou os olhos, batucando a mesa devagar.
¡ª E... quantos conselheiros exatamente fazem parte desta cidade?
¡ª Conselheiros temos muitos, um cuidando de cada ¨¢rea. Mas, pelo que sei, apenas cinco comp?em o grupo principal... embora eu s¨® conhe?a tr¨ºs pessoalmente.
Natalya assentiu, pensativa.
¡ª Entendo¡ Bom, prometo que vou tentar me controlar.
A taverneira lan?ou um olhar de soslaio, um sorriso c¨¦tico curvando o canto de seus l¨¢bios. Seu gesto foi quase impercept¨ªvel, mas dizia tudo. Depois de anos lidando com mercen¨¢rios e aventureiros, aprendera a reconhecer quando fa¨ªscas estavam prestes a incendiar uma fogueira. Para certos tipos de pessoas, o controle era apenas uma promessa vazia.
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CapÃtulo 139 - Rum, Runas e Reféns
¡ª Realmente h¨¢ necessidade disso?
Ana riu com a pergunta do mentalista, mas seu olhar continuava fixo e impiedoso em Niala.
¡ª Necessidade? Voc¨º ficou mais est¨²pido no tempo que ficou com esses caras? ¡ª o desprezo em sua voz estava escancarado. ¡ª ¨¦ l¨®gico que tem necessidade. Nem fodendo vou entrar em um barco cheio de p¨®lvora sem uma garantia.
Ela passara os ¨²ltimos dias recuperando-se apenas o necess¨¢rio para carregar a espada outra vez, e imediatamente colou o a?o frio da lamina sob o pesco?o da soberana com precis?o, sem nunca amea?ar de fato sua vida, mas o suficiente para deixar claro quem estava no controle.
Desde ent?o, se recusara a deixar a lamina baixar, permanecendo a meros cent¨ªmetros de distancia da rainha inseto, sendo obrigada a dar passos ao mesmo tempo que sua prisioneira para manter o equil¨ªbrio. Era uma cena no m¨ªnimo peculiar, talvez c?mica, mas, se algu¨¦m achava aquilo covarde, Ana n?o estava interessada. Mesmo beirando o exagero, ela tomaria todas as precau??es para evitar uma reviravolta.
Niala mantinha seu habitual semblante entediado e fedia a bebida, ocasionalmente lan?ando um olhar fugaz de desd¨¦m para a espada pressionada contra sua pele. Ela n?o protestava, apenas caminhava um passo de cada vez, acompanhada de perto por Luiz, que n?o disfar?ava seu desconforto com a cena.
A prepara??o para a partida acontecia em meio ao caos da col?nia. A ordem dada por Niala parecia ter causado um alvoro?o, mas, devido ¨¤ quantidade de habitantes de Myrmeceum, carregavam a grande embarca??o em tempo recorde, enchendo-a com centenas de ba¨²s de p¨®lvora.
O barco era uma estrutura simples, mas impressionante, de madeira escura, com remendos de metal nas bordas que lhe davam uma apar¨ºncia robusta e desgastada pelo tempo. Apesar de grande e projetado para carregar uma quantidade massiva de carga, sua estrutura interna havia sido adaptada para permitir que fosse manejado por poucas pessoas. Cordas grossas e bem tran?adas pendiam das laterais, presas a suportes de ferro com entalhes r¨²nicos, indicando que algum n¨ªvel de engenharia m¨¢gica havia sido implementado ao mesmo.
A cabine de comando, elevada em rela??o ¨¤s demais partes, oferecia uma vis?o panoramica do rio, sendo protegida por uma estrutura curva que abrigava o leme. Os mastros altos mantinham-se firmes, apesar das velas esfarrapadas de tecido refor?ado com fios met¨¢licos que cintilavam ¨¤ luz do sol.
Os ba¨²s com a carga preenchiam cada canto poss¨ªvel do conv¨¦s, amarrados com cordas grossas e fixados com ancoras improvisadas, para evitar que qualquer movimento os jogasse na ¨¢gua. Apesar de seus m¨²ltiplos detalhes, era uma embarca??o que parecia sustentada por adaptabilidade. Nos tempos antigos seria impratic¨¢vel que algo desse porte navegasse pelas ¨¢guas turvas do Tiet¨º, mas o rio agora era bem diferente.
O som da correnteza, pesado e ruidoso, indicava a for?a com que ele flu¨ªa. Com a mescla dos mundos, se tornara vasto e incontrol¨¢vel, largo o suficiente para transportar um ex¨¦rcito. Esse era o ¨²nico caminho r¨¢pido at¨¦ Ins¨ªdia, j¨¢ que era invi¨¢vel atravessar a floresta em seguran?a com uma carga t?o grande e na presen?a de tantos inimigos.
Ana caminhava de costas at¨¦ o barco. A cada passo, suas botas faziam um estranho barulho ao afundar levemente na lama da beira do rio, e olhares surpresos e receosos a acompanhavam. Quando finalmente subiu em seu transporte, fez quest?o de declarar em voz alta, olhando diretamente para quem quer que estivesse por perto.
¡ª Assim que chegarmos ao destino, ela ser¨¢ liberada. N?o vim aqui para buscar guerra.
N?o houve resposta para o coment¨¢rio, ent?o a mercen¨¢ria simplesmente deu de ombros. A figura de Verath era a ¨²nica que os observava de perto com uma express?o diferente do medo. Ele havia retornado ¨¤s pressas de uma viagem nas aldeias pr¨®ximas ao ouvir a not¨ªcia da partida da rainha e, por sorte e muito esfor?o de suas fr¨¢geis asas, conseguiu chegar pouco antes de partirem.
¡ª N?o se preocupe, Verath. Eu confio que os mascarados n?o buscam uma batalha... Apesar de toda a como??o. ¡ª disse Niala, interrompendo as palavras que sairiam da boca do homem inseto, em um tom arrastado e mon¨®tono.
Aquelas palavras n?o pareciam convenc¨º-lo, que a encarou com frustra??o evidente. Niala, no entanto, manteve-se calma, virando o rosto lentamente para ele.
¡ª Cuide da col?nia enquanto estou fora. Sei que ficar¨¢ tudo bem.
Verath aproximou-se, e embora mantivesse uma postura respeitosa, os punhos cerrados e os l¨¢bios pressionados mostravam a verdadeira express?o de desagrado. Ele estava rangendo os dentes com tanta for?a que todos puderam ouvir o som. Seus olhos se voltaram para Ana com uma intensidade cortante, como se sua raiva pudesse atravessar a distancia entre eles e cort¨¢-la ao meio ali mesmo. Ele parecia prestes a reclamar, mas se conteve. Com relutancia, fez uma leve rever¨ºncia para sua rainha.
¡ª Como quiser, majestade.
A rainha mascarada observou o s¨²bito ato de lealdade com uma mistura de desprezo e divers?o. O olhar g¨¦lido que ele continuava a lhe lan?ar s¨® a divertiu ainda mais, e ela retribuiu com um sorriso sard?nico, como se o desafio dele fosse um mero detalhe.
Enquanto o sol se punha, lan?ando sombras douradas nas ¨¢guas do rio, o cen¨¢rio transformava a cena em algo quase surreal. Era como se a natureza conspirasse para observar aquela intera??o delicada entre amea?as e uma paz inc?moda.
Assim que tudo estava pronto, Luiz subiu no barco, desamarrando a corda que mantinha a embarca??o presa ao porto. Ana, com um gesto meio torto devido ao corpo da mulher colado ao seu, ergueu a perna e deu um chute seco na rampa de acesso, que caiu pesadamente na ¨¢gua com um som abafado.
Sem mais conversa, o barco come?ou a se mover, impulsionado pela correnteza forte do rio. Quando finalmente estavam longe do alcance da vis?o do povo de Myrmeceum, Luiz soltou um suspiro longo e exausto. Ele observava o cen¨¢rio que passava rapidamente ao seu redor, enquanto lentamente ajustava uma das velas.
A embarca??o balan?ava ritmicamente, o som da ¨¢gua batendo nas laterais misturando-se com o rangido das velas. Ao longe, a vegeta??o densa das margens parecia indiferente ¨¤ tens?o crescente a bordo, como se o mundo natural zombasse do teatro humano.The narrative has been taken without authorization; if you see it on Amazon, report the incident.
Ana, por outro lado, continuava com a espada em m?os, ocasionalmente lan?ando um olhar afiado para Luiz, como se at¨¦ mesmo ele n?o estivesse completamente isento de sua desconfian?a.
¡ª Pensei que ele ia quebrar os dentes enquanto te encarava ¡ª comentou o mentalista, se sentando na borda do barco.
¡ª Aquele cara ¨¦ bizarro. Como consegue manter ele do seu lado, mulher aranha?
¡ª Verath n?o ¨¦ exatamente do tipo f¨¢cil de lidar, admito. Mas o que lhe falta em tato, ele compensa com efici¨ºncia. ¨¦ leal ¨¤ col?nia e a mim, mas possui um... senso de pragmatismo afiado demais.
Ana riu, um som curto e c¨ªnico, e finalmente baixou a arma, flexionando o bra?o com al¨ªvio. Arrastando a arma pela madeira, caminhou ao redor, dando pequenas batidas no tampo dos muitos caixotes empilhados.
¡ª Podem parar de me olhar assim? ¡ª Ana resmungou, sentindo o olhar confuso dos outros dois navegantes. ¡ª Meu bra?o j¨¢ estava doendo.
Luiz riu com discri??o, enquanto Niala apenas a encarou, como se analisasse cada movimento. Ignorando-os, Ana continuou com as batidas, at¨¦ ouvir um som diferente, um toque que indicava algo oco.
¡ª Achei! ¡ª exclamou, triunfante.
Ao abrir o ba¨², revelou uma fileira ordenada de garrafas de rum, cada uma brilhando sob a luz do dia como uma promessa l¨ªquida de al¨ªvio. Com um sorriso travesso, pegou uma garrafa e lan?ou-a para Luiz, que a pegou no ar, surpreso. Pegou outra e jogou para Niala, que a recebeu com um estranho entusiasmo. Por fim, arrancou a rolha da pr¨®pria garrafa com os dentes e bebeu longamente, permitindo que o calor do ¨¢lcool descesse em um fluxo forte e cont¨ªnuo.
¡ª Sorte que n?o deixaram isso escondido no meio das outras caixas ¡ª murmurou para si mesma. ¡ª Eu ficaria puta, seria um inferno encontrar.
Sem mais rodeios, ela deu passos firmes em dire??o ao leme do barco. Ao tentar mov¨º-lo, percebeu imediatamente o peso robusto da madeira, que exigia for?a descomunal para girar. Contudo, Ana n?o se intimidou. Passou os dedos pelos s¨ªmbolos r¨²nicos finamente gravados ao redor do leme e tomou outro gole de rum, sentindo o calor aumentar em seu peito. Com curiosidade crescente, decidiu experimentar aquele grande ¡°equipamento¡±, e canalizou um fio fino de mana, infundindo-o diretamente nas marcas.
Gradualmente, uma luz suave e hipn¨®tica de azul-claro com toques de amarelo come?ou a emanar da estrutura do barco, iluminando cada linha e detalhe entalhado na madeira. Fascinada, Ana observou a embarca??o reagir, tornando-se quase viva sob seu toque.
¡ª Ora, ora¡ ¡ª sussurrou ela, fascinada.
Com o controle restaurado, girou o leme mais uma vez, experimentando o peso do barco na correnteza. O barco tremeu intensamente em resposta, fazendo um movimento brusco que balan?ou todos os presentes. Luiz arregalou os olhos e soltou um leve palavr?o, enquanto agarrava a borda para evitar uma queda desastrosa. Sua surpresa era vis¨ªvel, o rosto ligeiramente p¨¢lido, mas ele rapidamente recomp?s a express?o com um suspiro aliviado. J¨¢ Niala, impass¨ªvel, manteve-se firme, segurando-se com precis?o usando uma das patas de aranha para estabilizar-se. Um leve desconforto cruzou seu rosto, mas ela rapidamente reajustou a postura, com uma express?o fria e controlada. Ana apenas sorriu em uma excita??o contida.
¡ª Incr¨ªvel... ¡ª sussurrou com os olhos brilhando.
Logo ap¨®s tudo se normalizar, ela se abaixou e come?ou a inspecionar mais de perto cada entalhe, murmurando suas fun??es em voz baixa, at¨¦ que encontrou uma sequ¨ºncia de runas que n?o reconhecia.
¡ª Rainha alco¨®latra, pra que serve isso aqui? ¡ª ela gritou para Niala, sem sequer levantar a cabe?a.
¡ª Qual das interposi??es? ¡ª perguntou Niala, parando de beber com um misto de irrita??o e exaspera??o.
¡ª Quinta linha inferior, partindo do centro, logo abaixo da runa de controle principal.
Niala refletiu por um momento, tomando mais um gole de rum antes de responder.
¡ª Est¨¢ vendo a runa anterior, de estabiliza??o? Seguindo ela voc¨º chega na de redistribui??o de for?a, ajustando o leme para suportar o fluxo de mana sem quebrar.
¡ª Ooooh, muito pr¨¢tico! ¡ª Ana sorriu, visivelmente impressionada. ¡ª N?o tinha pensado em us¨¢-las desse jeito.
Animada com a descoberta, ela deu um pulo leve por cima do leme e caminhou at¨¦ Niala, puxando a manga esquerda da camisa que Luiz havia lhe arranjado. A roupa improvisada revelou parte de sua armadura, adornada com runas simples de endurecimento.
¡ª E ent?o? O que acha? Como posso aprimorar isso?
Niala observou a armadura por alguns segundos, sua express?o indecifr¨¢vel. Ana notou que as pernas de aranha da rainha se aproximavam, mas n?o sentiu nenhuma hostilidade, ent?o manteve-se parada. Niala come?ou a passar a ponta dos membros aracn¨ªdeos pelas runas, franzindo o cenho ao ver que algumas delas terminavam de forma abrupta.
¡ª Isso n?o parece apenas engenharia m¨¢gica¡ ¡ª comentou Niala, com uma ponta de curiosidade.
¡ª E n?o ¨¦. H¨¢ uma parte organica ligada diretamente ¨¤ carne.
¡ª Qual o sentido disso?
¡ª Bem... Eu... "rego" elas ¡ª respondeu a rainha mercen¨¢ria, dando de ombros.
Niala arqueou uma sobrancelha, sem entender completamente o que Ana quis dizer, mas decidiu n?o insistir. Em vez disso, seguiu observando o item como um quebra-cabe?a interessante.
¡ª Runas conectadas ¨¤s veias ¡ª Niala disse, percebendo o detalhe. ¡ª Isso expande enormemente as possibilidades de uso.
Ana piscou, surpresa que a rainha tivesse notado a liga??o com tanta precis?o.
¡ª N?o ¨¦ f¨¢cil aplicar m¨²ltiplas runas em um equipamento, especialmente para prop¨®sitos diversos ¡ª continuou Niala, mostrando suas pernas enquanto levava a garrafa a boca novamente. ¡ª Veja, cada uma dessas pernas tem um tipo de runa espec¨ªfica, mas as que n?o possuem runas de prote??o s?o fr¨¢geis, focadas em aprimoramentos de ataque. Quando se coloca mana em um equipamento comum, ¨¦ imposs¨ªvel prever a dire??o do fluxo, o que torna a inclus?o de m¨²ltiplas fun??es um risco. Em resumo, uma combina??o de prop¨®sitos pode simplesmente fazer tudo explodir.
Ela pausou, observando a rea??o de Ana, que escutava com uma intensidade incomum.
¡ª Mas no seu caso, com as veias conectadas e com treino suficiente, voc¨º poderia considerar isso como uma extens?o do seu corpo, controlando os fluxos em cada dire??o. Deve ter sido aterrorizante fazer essa fus?o.
Ana riu alto, seu rosto iluminado por uma mistura de admira??o e excita??o.
¡ª Ah, dor ¨¦ o tempero da vida, n?o acha? Se ¨¦ f¨¢cil demais, n?o vale o esfor?o ¡ª Arrumando a manga, ela se sentou ao lado da rainha inseto. ¡ª Sabe, eu adoraria saber mais. Que tal uns minutos para me ensinar durante a viagem?
Apesar do tom leve, Ana manteve sua espada em uma posi??o propositalmente amea?adora, e Niala revirou os olhos, sabendo que, mesmo sendo uma pergunta, ela n?o teria escolha.
¡ª Claro... Por que n?o?
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CapÃtulo 140 - Mau Presságio
A faca estava firmemente segura entre os dedos, movendo-se com precis?o cir¨²rgica enquanto riscava a madeira do ba¨². A resist¨ºncia da madeira sob a lamina, o som baixo e raspado de cada entalhe, e a leve vibra??o que ecoava pela madeira eram sensa??es que lhe traziam um prazer peculiar. Seus olhos brilhavam com intensidade focada, refletindo seu dom¨ªnio, ainda que n?o absoluto, sobre a t¨¦cnica. A lamina se movia com um controle preciso, como uma extens?o de seu pr¨®prio corpo, e ela se deixava envolver na tarefa com a mesma seriedade de um escultor criando sua obra-prima.
¡ª O que voc¨º t¨¢ fazendo? ¡ª disse, de repente, o entediado mentalista, tentando desvendar o que aqueles padr?es significavam.
Ana n?o respondeu de imediato, terminando o entalhe antes de se erguer e circundar o ba¨², inspecionando a simetria das linhas como se fosse uma cr¨ªtica de arte avaliando uma pe?a valiosa. S¨® ent?o, com um leve sorriso, ela se voltou para ele, estranhamente animada.
¡ª Runas em dupla camada ¡ª respondeu, dando de ombros como se fosse algo ¨®bvio. ¡ª Depois da conversa de mais cedo fiquei ansiosa para fazer alguns testes. At¨¦ chegarmos ao destino, pretendo entalhar runas de compress?o em cada um desses ba¨²s. ¡ª Sua express?o se tornou levemente ir?nica enquanto completava. ¡ª E, por baixo, algo¡ aleat¨®rio, s¨® pra criar uma pequena bagun?a, se poss¨ªvel.
Luiz franziu o rosto, sem conseguir compreender por completo o que ela estava planejando, mas optou por ficar quieto. Seus olhos passavam dos entalhes para o rosto de Ana, e percebendo a confus?o dele, a rainha continuou, explicando pacientemente.
¡ª P¨®lvora por si s¨® n?o ¨¦ t?o poderosa assim. O que quero ¨¦ fazer com que esses ba¨²s se comprimam em si mesmos quando ativados, criando cont¨ºineres de alta press?o. Isso deve aumentar o impacto e a for?a da explos?o.
Luiz assentiu devagar, tentando processar a explica??o.
¡ª Entendi¡ bem, ao menos o b¨¢sico, mas e a segunda camada? Qual o prop¨®sito?
Uma express?o de divers?o surgiu no rosto da rainha, e ent?o deu uma pequena pausa antes de responder, relembrando algo de tempos atr¨¢s.
¡ª Essa parte ¨¦ s¨® um toque de instabilidade criativa ¡ª Ana puxou um novo ba¨², sentando-se por cima dele enquanto come?ava as novas marca??es. ¡ª Alguns anos atr¨¢s, acabei estragando um conjunto de equipamentos r¨²nicos enquanto treinava engenharia m¨¢gica. Os entalhes fizeram a energia se tornar ca¨®tica, incontrol¨¢vel, e a maioria ficou in¨²til... mas o que restou foi uma esp¨¦cie de ¡°bomba improvisada¡±.
Ela fez uma pausa, inclinando a faca de forma pensativa e dando uma risada seca.
¡ª Naquela vez, de cinco supostas bombas, s¨® uma explodiu de verdade. Numa batalha, n?o servem pra muita coisa. A ativa??o era incerta, demorada, e dependia de pura sorte, ent?o deixei a ideia de aprimorar aquilo de lado ¡ª ela ergueu o olhar para Luiz, seu sorriso adquirindo um toque perigoso. ¡ª Aqui, o objetivo ¨¦ simplesmente destruir o m¨¢ximo poss¨ªvel. Se acabar n?o funcionando, nada vai mudar, mas se der certo¡ bem, deve aumentar um pouco o estrago.
O homem observou o trabalho dela, ainda com alguma perplexidade, mas tamb¨¦m com fasc¨ªnio. Ele percebia o n¨ªvel de detalhamento e o cuidado que Ana dedicava ao processo. A mulher parecia t?o concentrada no trabalho, t?o ¨¤ vontade naquela combina??o entre risco e controle, que ele simplesmente a deixou seguir em frente, sem incomodar mais.
Sua vis?o ent?o se desviou para a proa, onde Niala estava de olhos fechados, im¨®vel. Ela parecia distante, como se estivesse em um transe profundo. Ana acompanhou o olhar dele e, ao perceber onde estava mirando, arqueou uma sobrancelha e perguntou casualmente.
¡ª E a doida ali, o que t¨¢ fazendo?
¡ª N?o sei ao certo¡ Mas parece¡ sei l¨¢, feliz?
Ana apenas bufou com a resposta incerta, voltando ao trabalho, com o interesse pelo estado da cativa desaparecendo. Da mesma forma, alheia a dupla que conversava a suas costas, Niala sentia o mundo ¨¤ sua volta se dissolver em uma serenidade que mal lembrava existir.
¡°Em meio ao caos, um raro instante de tranquilidade¡±, pensou, respirando fundo, deixando que o ar fresco lhe enchesse os pulm?es como se tentasse capturar o momento e guard¨¢-lo consigo.
Ao abrir os olhos, seu olhar encontrou ao longe as margens verdejantes do rio, o contraste das sombras e da luz que dan?avam entre as folhas. A vastid?o da natureza ao redor a envolvia, sussurrando segredos esquecidos, e Niala quase podia ouvir a liberdade que tanto lhe escapava. Era um chamado suave, uma promessa de tranquilidade.Love what you''re reading? Discover and support the author on the platform they originally published on.
Acima dela, p¨¢ssaros voavam em c¨ªrculos despreocupados, suas asas batendo no ar em um ritmo constante e seguro. A rainha inseto os observou com uma melancolia quase palp¨¢vel. Era a primeira vez em muito tempo que ela podia escutar o som puro do canto das aves sem os murm¨²rios da col?nia. Por um instante, se permitiu ouvir, realmente ouvir, aquele som que trazia a paz de um mundo que n?o era mais o seu.
¡ª Eu realmente devo ser uma rainha?
A pergunta escapou como um sussurro que foi incapaz de conter, acompanhada por um sorriso ir?nico que navegava sutilmente por seus l¨¢bios. Ali, sozinha com seus pensamentos, as d¨²vidas que geralmente reprimia surgiam livres. N?o era mais a figura imponente e decisiva que todos viam, mas sim uma pessoa comum, cheia de preocupa??es.
Uma de suas pernas aracn¨ªdeas deslizou suavemente at¨¦ a ¨¢gua, submergindo-se no fluxo do rio. A sensa??o era fria e renovadora, como se o toque do do l¨ªquido apagasse, ainda que brevemente, todas as responsabilidades que a prendiam. Era f¨¢cil esquecer o fardo de sua posi??o quando estava ali, conectada ao mundo ao redor, sem compromissos, sem povo, sem guerra. A cada segundo, o sil¨ºncio confort¨¢vel a envolvia mais, fazendo o tempo parecer suspenso.
Foi ent?o que uma sutil vibra??o na ¨¢gua a despertou de sua tranquilidade. Sem muita pressa, ela abaixou os olhos, ainda balan?ando sua fina perna de inseto no rio, como se brincasse com algum peixe curioso que pudesse ter se aproximado.
Mas, ent?o, o rio mudou.
Uma a uma, pequenas sombras come?aram a crescer nas profundezas. A princ¨ªpio, as formas escuras pareciam meras ondula??es, mas, aos poucos, elas tomaram corpo, ganhando movimento. Fascinada, ela inclinou-se mais para a borda, os olhos estreitando enquanto tentava identificar o que estava se formando l¨¢ embaixo.
De repente, a superf¨ªcie da ¨¢gua foi rompida com uma s¨²bita distor??o, lan?ando-se direto em dire??o ao seu rosto. No instante em que ela arregalou os olhos em surpresa, sentiu uma m?o firme agarrar a gola de sua t¨²nica, puxando-a bruscamente para tr¨¢s.
¡ª No que estava pensando, idiota? ¡ª Ana murmurou com uma voz dura e r¨ªspida, ainda segurando-a com for?a.
¡ª Obrigada¡ ¡ª balbuciou Niala, o rosto corando levemente com a adrenalina. Ajustando sua postura, perguntou, ainda at?nita. ¡ª O que foi¡ aquilo?
Ana soltou a roupa dela, e lentamente apontou para a superf¨ªcie onde, agora, dezenas, ou talvez centenas, de peixes saltavam em torno do barco em uma esp¨¦cie de dan?a ca¨®tica.
As criaturas tinham escamas espessas e reflexos met¨¢licos. Suas cores eram um misto de verde-escuro e bronze, cintilando ¨¤ luz difusa como laminas afiadas, cada uma com um brilho amea?ador.
Os olhos, grandes e esbranqui?ados, transmitiam uma aura de cegueira, dando a impress?o de que os movimentos eram feitos somente por um estranho instinto, sem saber realmente para onde estavam indo. Nadadeiras largas e irregulares cortavam o ar antes dos peixes mergulharem de volta ao rio com precis?o e for?a, levantando respingos pesados que pareciam reverberar como trov?es no sil¨ºncio dos arredores.
¡ª S?o lindos... ¡ª comentou a rainha inseto, absorta no momento.
¡ª S?o Kiaraks ¡ª disse Ana. ¡ª Monstros pequenos que vivem no fundo do rio. Nunca os tinha visto pessoalmente, mas fazem parte da fauna local identificada pelos mascarados.
¡ª N?o ¨¦ algo que se v¨º todo dia! ¡ª exclamou Luiz, que agora tamb¨¦m observava com fasc¨ªnio.
Ana deu um leve suspiro, mantendo o rosto r¨ªgido.
¡ª N?o mesmo. E se eu pudesse escolher, n?o gostaria de t¨º-los visto hoje ¡ª murmurou ela enquanto os outros dois a encararam, confusos. ¡ª Se est?o se comportando dessa forma, ¨¦ porque alguma coisa os perturbou, ¨¦ raro virem a superf¨ªcie.
Luiz franziu o cenho, prestes a perguntar mais, quando uma sensa??o estranha come?ou a pulsar sob seus p¨¦s. Era como uma leve vibra??o, um tremor quase impercept¨ªvel que, no entanto, se espalhava pelo conv¨¦s do barco. O som era baixo e ressonante, um "tum-tum" abafado que parecia presente no pr¨®prio ar.
Os tr¨ºs se entreolharam, sentindo a tens?o aumentar. Ana inclinou-se para a borda, os olhos fixos na margem mais pr¨®xima, notando que n?o era apenas o barco, arbustos e pequenas pedras tamb¨¦m vibravam em um ritmo cadenciado.
¡ª Voc¨ºs sentem isso? Parece¡ uma marcha? ¡ª o mentalista perguntou, sussurrando como se o pr¨®prio ato de falar alto pudesse alertar o que quer que fosse.
Ana soltou rapidamente mais algumas velas para aumentar o ritmo da embarca??o.
¡ª Precisamos nos apressar ¡ª disse em um murm¨²rio, deixando claro a seriedade da situa??o.
Niala observava com uma express?o grave, a admira??o pelos peixes agora completamente esquecida. O instante de paz se transformava numa tens?o opressiva, como uma tempestade que se arma no horizonte.
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CapÃtulo 141 - A última Reuni?o
O barco deslizava solenemente pelo rio, apenas o murm¨²rio da ¨¢gua rompendo o sil¨ºncio tenso que pairava entre o trio, cada um absorto em seus pr¨®prios pensamentos.
¡ª Estamos pr¨®ximos, j¨¢ consigo ver as primeiras torres ¡ª murmurou Luiz, quebrando o clima inc?modo.
¡ª Vamos avan?ar s¨® um pouco mais ¡ª comentou Ana, apoiada na lateral do barco. Seus olhos varriam a mata sem pressa, buscando o melhor lugar para o desembarque.
Foi ent?o que, no limiar entre as ¨¢rvores, vislumbrou um par de olhos amarelos brilhando na escurid?o. Um lobo cinzento parecia tranquilamente beber alguns goles de ¨¢gua, quando de repente ficou im¨®vel como uma est¨¢tua, apreensivo com a aproxima??o da grande embarca??o. A mercen¨¢ria, notando sua tens?o desnecess¨¢ria, acenou levemente para chamar sua aten??o, e um macabro sorriso acabou nascendo no rosto da criatura.
¡ª Rai...nha... Ana... ¡ª as palavras sa¨ªam de forma distorcida, dan?ando entre o som de um rosnado e um sussurro quase humano.
Ana se surpreendeu, era raro encontrar um lobo que falasse diretamente com ela, e isso indicava que ele era um dos mais conscientes da matilha. Com uma ideia repentina, subiu ao leme e usou a mana para desacelerar o barco, se aproximando da margem. A intelig¨ºncia que eles haviam desenvolvido era um dom que, principalmente nessa situa??o, se assemelhava a uma b¨ºn??o.
Saltando para o solo, ela se aproximou do animal, avaliando a for?a das patas e seu porte robusto. Depois que come?aram a ser cuidados pela cidade, perderam um pouco de seu aspecto raqu¨ªtico, apesar de ainda serem uma vis?o assustadora. Deu algumas batidinhas em sua cabe?a, e o lobo ficou estranhamente alegre com o pequeno gesto.
¡ª Eu preciso que voc¨º e os seus carreguem alguns suprimentos, caixas pesadas. Conseguem fazer isso?
O lobo inclinou a cabe?a, o olhar intrigado e quase confuso. Ele rosnou baixinho, claramente tentando compreender a ordem, mas sem sucesso.
¡ª Cai¡xas? Carregar? N¨®s... lutamos. Carregar...?
Ana suspirou, cruzando os bra?os. Seu olhar endureceu um pouco, mas sabia que precisava ser paciente.
¡ª Lembre-se, garoto, voc¨ºs j¨¢ me ajudaram com algo do tipo antes ¡ª ela tentou explicar novamente, abaixando-se para ficar ao n¨ªvel dos olhos dele. ¡ª Essas caixas t¨ºm algo importante dentro. Voc¨ºs podem lev¨¢-las at¨¦ o Gabriel?
Suas m?os simularam asas, tentando deixar mais claro que falava sobre o anjo. O lobo continuou hesitante, os olhos piscando em d¨²vida, como se n?o conseguisse assimilar o conceito. Ana suspirou mais uma vez.
¡ª Escute ¡ª disse ela, tentando um tom ainda mais firme, embora sem perder a calma. ¡ª Ali ¡ª apontou para os ba¨²s presentes no barco. ¡ª Comida. Levar para Garm. Certo?
¡ª Presente¡ pro l¨ªder?
¡ª Isso! Quero que deem um presente para o l¨ªder! ¡ª com pressa e receio do lobo deixar de entender novamente, rasgou uma fina p¨¢gina de um bloco de notas que levava em seu bolso, dando orienta??es de que as caixas deveriam ser entregues para o anjo que gerenciava a cidade e levadas aos laborat¨®rios subterraneos, amarrando-a diretamente na perna do animal. ¡ª Chame sua matilha, temos muitos presentes para entregar.
O lobo pareceu finalmente captar o que a rainha desejava. Ele assentiu com um movimento de cabe?a, e soltou um uivo alto e prolongado. Aos poucos, outros lobos come?aram a emergir da escurid?o, suas silhuetas se formando na penumbra, respondendo ao chamado de seu companheiro.
Com um leve sorriso satisfeito, Ana acariciou novamente o pelo do lobo, e em conjunto com Niala e Luiz, come?ou a amarrar cuidadosamente as caixas em suas costas. Ela calculou mentalmente quantas cada um poderia suportar e logo percebeu que, felizmente, o trabalho n?o seria t?o demorado quanto pensava. Claro, desde que n?o explodissem pelo caminho.
¡ª Luiz, irei me apressar para reunir os conselheiros. Quero que passe na cidade antes de partir. Se a rainha inseto desejar, n?o h¨¢ problemas em lev¨¢-la junto.
Vendo o aceno do mentalista, Ana subiu nas costas de um dos animais. O pelo espesso e a estrutura ¨®ssea faziam o transporte se mover de forma inesperada, o que a fez ajustar rapidamente seu equil¨ªbrio.
¡ª N?o ¨¦ t?o confort¨¢vel quanto andar no Garm ¡ª murmurou, quase divertindo-se com a situa??o.Stolen from Royal Road, this story should be reported if encountered on Amazon.
Assim que deu o sinal, o monstro partiu em disparada, e Ana sentiu o vento frio da noite cortando seu rosto. Os poucos quil?metros passaram em um instante, e ela podia ver os primeiros guardas observando o retorno deles com express?es de surpresa.
Assim que cruzaram os port?es, Ana saltou do animal, dispensando-o com um aceno. Notou, satisfeita, que os demais lobos seguiram corretamente para os t¨²neis onde os ba¨²s seriam armazenados. Sem perder tempo, ela se dirigiu diretamente ao castelo, onde logo avistou Miguel, trabalhando em sua habitual pilha de relat¨®rios. A pergunta saiu de forma direta assim que se aproximou do secret¨¢rio.
¡ª Todos est?o cientes do ex¨¦rcito se aproximando, certo?
Miguel assentiu, um brilho de preocupa??o percorrendo seus olhos.
¡ª Sim, fui informado recentemente pelos guardas das divisas. Devem chegar at¨¦ n¨®s ao longo do dia de amanh?.
¡ª Quantos s?o?
¡ª Algo entre dois mil e quinhentos e quatro mil. Talvez mais, mas felizmente sem artilharia ¡ª suspirou Miguel. ¡ª Parece que v?o confiar nos manipuladores para atravessar os muros.
¡ª Bom, poderia ser pior.
¡ª Poderia, mas a situa??o ainda n?o ¨¦ boa.
¡ª N?o disse que era ¡ª brincou Ana. ¡ª Convoque todos os conselheiros. Quero v¨º-los na sala da t¨¢vola redonda o mais r¨¢pido poss¨ªvel.
Miguel fez um gesto de entendimento e rapidamente partiu para reunir o conselho, enquanto Ana se dirigia aos aposentos. Mesmo para ela, a viagem de alguns dias no mar havia sido cansativa, precisava se recompor e estar pronta para o que vinha a seguir.
Ao entrar em seus aposentos, soltou um longo suspiro, tirou o manto de viagem com movimentos r¨¢pidos, jogando-o sobre uma cadeira, e retirou as botas empoeiradas. Com passos decididos, dirigiu-se ao canto do quarto, onde um pequeno c?modo com um ralo de escoamento e um chuveiro simples a esperavam.
Despiu-se, removendo cuidadosamente as bandagens que ainda estavam presas a sua pele, e entrou, sentindo a ¨¢gua quente escorrer por seu corpo, relaxando a tens?o acumulada e lavando o peso da viagem. Ela inclinou a cabe?a, deixando que ca¨ªsse sobre seu rosto e ombros, e fechou os olhos por um momento. Sua mente vagou, e em meio ao confort¨¢vel calor, pensou nos sacrif¨ªcios que todos teriam que fazer.
Os minutos passaram devagar, mas logo encerrou seu banho. Se secou e come?ou a vestir seu traje de batalha, o qual raramente utilizava, com aten??o meticulosa a cada pe?a. O tecido negro refor?ado, com adornos de metal nos ombros e o s¨ªmbolo de Ins¨ªdia bordado em prata no peito, conferia-lhe uma presen?a imponente. Se complementava por amarra??es firmes, ligas refor?adas e uma capa curta, que lhe dava agilidade e, ao mesmo tempo, transmitia respeito. N?o gostava de como pesava sobre o seu corpo, principalmente por, nesse mundo com mana, sentir que eram apenas adornos sem sentido.
¡°Bem, ¨¦ uma ocasi?o especial, n?o custa nada parecer um pouco mais legal enquanto luto por a¨ª¡±.
Por fim, rindo de si mesma, ajeitou o cabelo, prendendo-o de modo a deixar o rosto completamente vis¨ªvel, permitindo que todos enxergassem a resolu??o fria em seus olhos cor de mel.
Pronta, saiu de seus aposentos e seguiu pelos corredores at¨¦ a sala de reuni?es. ¨¤ medida que se aproximava, o murm¨²rio abafado das vozes dos conselheiros se tornava mais claro, cada um aparentemente discutindo algo em uma tonalidade melanc¨®lica compartilhada. Quando ela entrou, a sala silenciou-se instantaneamente.
Seus olhos percorreram cada rosto ao redor da mesa. Havia express?es de preocupa??o, cansa?o e at¨¦ um leve toque de medo em alguns olhares. Eles sabiam o que estava em jogo; sentiam o peso da responsabilidade e do momento, e a chegada dela s¨® fazia que esse momento se tornasse ainda mais real.
Para sua surpresa, o general escamoso apresentado por Eva, Leandro, tamb¨¦m estava presente, observando o cen¨¢rio em um dos cantos, levemente mais afastado. J¨¢ Alex, que geralmente exibia um sorriso confiante e at¨¦ brincalh?o, parecia mais perturbado que os demais, com olhos baixos e sombrios, como se estivesse carregando um fardo invis¨ªvel. Isso despertou a curiosidade de Ana, mas ela decidiu guardar para si a observa??o por enquanto.
Sem hesitar, ela caminhou at¨¦ um lugar vazio pr¨®ximo ¨¤s grandes janelas. Os olhos de todos seguiram cada movimento seu, e o som da madeira sendo arrastada pelo ch?o ao puxar a cadeira ecoou ruidosamente na sala. Ela se sentou, e por um momento, permitiu que o sil¨ºncio pesasse sobre todos, at¨¦ que enfim soltou sua declara??o, o prel¨²dio de decis?es da batalha que j¨¢ se aproximava das portas de Ins¨ªdia.
¡ª Temos muito a conversar.
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CapÃtulo 142 - Desgostosa Lealdade
Miguel se aproximou de Ana, os olhos fixos no horizonte com uma intensidade que refletia a urg¨ºncia da situa??o.
¡ª Os batedores mandaram novos sinais ¡ª disse ele. ¡ª Est?o a apenas duas horas de distancia.
Ana soltou um suspiro, absorvendo a informa??o enquanto mantinha o olhar firme na linha das ¨¢rvores ¨¤ frente.
¡ª Pelo menos tivemos sorte ¡ª comentou, sua voz controlada. ¡ª Realmente n?o ¨¦ um ex¨¦rcito t?o grande. Mas isso ¨¦ apenas uma como??o inicial. ¡ª ela fez uma pausa, pensativa. ¡ª Mesmo com nossos n¨²meros maiores, n?o temos for?as suficientes para enfrent¨¢-los fora das muralhas. Essa merda foi repentina demais¡ ¡ª acrescentou ela, um brilho de irrita??o passando por seus olhos.
Miguel assentiu, ajustando o bin¨®culo e olhando para outra dire??o. Foi ent?o que notou a mancha escura que parecia deslizar pelo rio entre as copas das ¨¢rvores, avan?ando devagar, mas constantemente.
¡ª Parece que a rainha de Myrmeceum conseguiu partir com seguran?a.
¡ª No fim aquele idiota realmente decidiu acompanh¨¢-la?
¡ª Sim, o conselheiro Luiz partiu com ela ¡ª Miguel fez uma pausa, recolocando o bin¨®culo em seu cinto e voltando-se para Ana. ¡ª Ele pediu que lhe diss¨¦ssemos que far¨¢ de tudo para ajudar com a guerra.
Ana n?o respondeu, mas seus olhos ponderavam sobre as palavras do mentalista enquanto um novo suspiro nascia em seus l¨¢bios. Em meio a correria, nem mesmo teve tempo para despedidas com Niala, mas isso n?o importava muito, pois j¨¢ havia a libertado desde que pisou em terra.
A cada segundo, o som dos tambores inimigos se aproximava, espalhando-se pela floresta como trov?es amea?adores. Mesmo a quil?metros de distancia, a intensidade da batida fazia o peito de Ana tremer, reverberando nas ¨¢rvores e penetrando o solo. Cada batida carregava a tens?o do que estava por vir, anunciando que o confronto n?o poderia mais ser evitado. A floresta parecia compartilhar da mesma inquieta??o, como se todos os seres ao redor soubessem que algo sombrio e inexor¨¢vel se aproximava.
Por sorte, as dr¨ªades estavam em seu elemento, e seu habitat as fortalecia. Desde que sentiram a presen?a do inimigo se aproximando, come?aram a observar e catalogar cada movimento do ex¨¦rcito invasor, seus n¨²meros e forma??es.
Miguel e Ana estavam posicionados no topo da torre mais alta de Ins¨ªdia, o vento cortante da manh? fria chicoteando seus rostos enquanto examinavam a maquete tridimensional que representava o reino. Era uma vis?o sombria e fascinante. Cada movimento de pe?as sobre o tabuleiro era um reflexo direto dos sinais enviados pelo povo verde, e o secret¨¢rio deslizava os dedos pelas miniaturas com uma precis?o calculada. As pe?as representavam tanto as for?as aliadas quanto as inimigas, um mapa dinamico de batalha que lhes oferecia uma compreens?o clara dos movimentos iminentes, permitindo que Ana desse ordens espec¨ªficas para cada divis?o.
Felizmente, a prepara??o para a defesa j¨¢ estava em andamento h¨¢ meses, e as for?as de Ins¨ªdia j¨¢ haviam sido alertadas e instru¨ªdas. A reuni?o do dia anterior fora realizada ¨¤s pressas, mas cada detalhe foi cuidadosamente discutido, cada rota, cada estrat¨¦gia, ajustados com a frieza e precis?o de quem sabia que n?o haveria segunda chance.
Claro, tal reuni?o n?o se limitou a planejamento, pois a surpresa mais desconcertante surgira ao final, e Ana n?o conseguiu ignorar a inquieta??o que o assunto lhe causou.
¡ª J¨¢ encontraram a Colecionadora? ¡ª perguntou, mantendo o olhar fixo na maquete do reino, perdida nas linhas do fr¨¢gil equil¨ªbrio daquela situa??o.
Miguel soltou um suspiro pesado, quase resignado, antes de responder.
¡ª Ainda n?o. Por mais que tenhamos buscado por todos os cantos logo depois do aviso do conselheiro Alex, ningu¨¦m conseguiu encontrar qualquer rastro dela ¡ª ele pausou, franzindo a testa em desconforto. ¡ª ¨¦ como se tivesse simplesmente desaparecido no ar.
¡ª Mantenham as buscas ¡ª Ana cruzou os bra?os, o olhar se estreitando com irrita??o contida enquanto dava a ordem secamente. ¡ª Se algu¨¦m a encontrar, quero saber antes de qualquer um.
¡ª Ela ¨¦ realmente t?o perigosa? A jovem Eva parecia muito agitada enquanto reportava a not¨ªcia.Unauthorized usage: this tale is on Amazon without the author''s consent. Report any sightings.
¡ª N?o mais do que um ex¨¦rcito ¡ª Ana soltou uma risada baixa, embora seu semblante se mantivesse s¨¦rio. ¡ª Mas ela matou alguns membros do meu antigo grupo, e quase conseguiu me matar. Se ela tem interesse nos conselheiros, suponho que pelas armaduras, a situa??o pode decair rapidamente.
¡ª Entendo¡ Nesse caso, voc¨º tamb¨¦m est¨¢ em perigo, Ana. Quer que eu providencie uma escolta?
¡ª Acha que sou mais fraca do que ela?
Miguel balan?ou a cabe?a rapidamente, claramente desconfort¨¢vel.
¡ª N?o quis dizer isso¡
¡ª Estou s¨® te provocando ¡ª interrompeu a mercen¨¢ria, antes que ele pudesse se justificar mais. ¡ª Talvez eu realmente seja. Mas n?o se preocupe, provavelmente eu vou estar morta em uma pilha de corpos l¨¢ embaixo antes que tenha a chance de encontr¨¢-la.
Miguel franziu o cenho, e sua express?o endureceu.
¡ª Ana, voc¨º n?o deveria ir para o campo de batalha. Sua presen?a aqui ¨¦ essencial para a lideran?a da cidade. N?o podemos arriscar sua vida dessa maneira.
A rainha ergueu um dedo, sinalizando para ele encerrar o assunto. Seu olhar era firme, deixando claro que n?o havia espa?o para obje??es.
¡ª N?o ¨¦ uma escolha sua. Minha cidade, meu povo, minha luta. N?o sou do tipo que observa de cima e comanda sem agir. E, sinceramente, n?o suportaria ficar parada enquanto todos se divertem lutando.
A conversa foi subitamente interrompida por uma movimenta??o incomum no port?o principal da muralha externa. Em destaque sobre os grandes muros, Garm se apresentava, imponente e solene, como uma est¨¢tua esculpida para a guerra. Seus olhos amarelos faiscavam intensamente, fixos na torre que lan?ava sombras sobre a cidade.
¡ª Chegou a hora ¡ª- murmurou Ana, sentindo o peso do momento.
Sem mais rodeios, ativou um pequeno dispositivo em seu ouvido, transmitindo um sinal breve. No port?o, um dos guardas recebeu o comando e se apressou em retirar o comunicador. Com cautela, ele se aproximou do rosto do grande lobo, mantendo o dispositivo pr¨®ximo o suficiente para que a voz de Ana pudesse ser ouvida claramente.
¡ª Tem certeza de que s?o descart¨¢veis? ¡ª a voz dela soou firme, mas a presen?a de ru¨ªdos intermitentes adicionava uma crueza ¨¤ pergunta.
Por um breve instante, Garm manteve o encarou a linha de ¨¢rvores ao longe, como se estivesse pesando a pergunta nas pr¨®prias entranhas. Lentamente, virou a cabe?a na dire??o do guarda e do dispositivo, com uma decis?o j¨¢ tomada e uma chama feroz que revelava sua aceita??o do risco.
¡ª N?o enviarei todas as unidades logo de cara ¡ª respondeu o lobo, a voz profunda e ¨¢spera, reverberando em cada pedra das redondezas. ¡ª Os filhotes e algumas f¨ºmeas j¨¢ foram separados para garantir a continuidade da ra?a. Se sobrevivermos a isso, meus guerreiros se levantar?o novamente algum dia.
Ana esbo?ou um sorriso frio, um sinal de aprova??o sombria. Ela voltou a infundir uma leve dose de mana no dispositivo, sua energia intensificando a clareza de sua voz enquanto respondia.
¡ª Ent?o, que comece o sacrif¨ªcio.
Ao ouvir as palavras, Garm ergueu a cabe?a para o c¨¦u e deixou escapar um uivo longo e poderoso, um comando que atravessava eras, pulsante como o batimento de um cora??o guerreiro. Era um chamado ¨¤ luta, um brado que rasgava o ar e reverberava por toda a floresta, alcan?ando cada ser vivo ao redor com uma intensidade inescap¨¢vel. O uivo de um l¨ªder, um sinal de sacrif¨ªcio e honra, convocando seus seguidores a uma batalha sem garantias de retorno.
A resposta foi instantanea. Centenas de uivos emergiram em un¨ªssono, criando uma sinfonia brutal e primitiva, carregada de promessas de lealdade e viol¨ºncia iminente. O som espalhou-se pelas muralhas e inflamou os cora??es dos soldados humanos que aguardavam ansiosos na linha de defesa, contagiados pela determina??o feroz das criaturas ao seu lado.
Os lobos cinzentos, com seus corpos retorcidos, mas fortes, saltaram das sombras e se alinharam nas fronteiras da cidade, suas silhuetas misturando-se com a folhagem. Olhos faiscando, m¨²sculos tensos e pelos eri?ados. O frio da manh? parecia congelar aquele momento, mas o calor das respira??es aqueciam o campo, antecipando o caos.
Com um grunhido seco e implac¨¢vel, Garm lan?ou a ordem final. A primeira onda de matan?a explodiu da linha de lobos, avan?ando com uma ferocidade avassaladora em dire??o ao inimigo.
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CapÃtulo 143 - Primeiro Impacto
A floresta densa ao redor ecoava o som ensurdecedor dos tambores de guerra. N?o eram tambores comuns, mas colossais, gravados com intrincadas runas que pulsavam a cada batida, como se amplificando-as atrav¨¦s da mana. Cada pulsar reverberava no ch?o, enviando ondas de tens?o para o pr¨®prio cora??o do ex¨¦rcito em marcha.
Mais de tr¨ºs mil guerreiros avan?avam com rostos endurecidos para onde sabiam que a vit¨®ria os esperava. O port?o principal de Ins¨ªdia era o alvo. Apesar de todas as defesas e do fosso ao redor, aquele ponto era a entrada mais vulner¨¢vel na fortaleza. O plano era simples: destru¨ª-lo e invadir a cidade, abrindo caminho com pura for?a esmagadora.
A moral estava alta, e as armas dos ca?adores, afiadas e refletindo a luz do amanhecer, criavam uma imagem poderosa. Escudos brilhantes, lan?as erguidas e espadas reluzentes se moviam com anima??o.
Seus inimigos tinham mais que o dobro de seus n¨²meros, com uma popula??o estimada em mais de dez mil habitantes. No entanto, os soldados confiavam na superioridade estrat¨¦gica e no intenso treinamento militar que os definia. Mesmo armados, o povo de Ins¨ªdia era composto, em sua maioria, de civis adaptados ¨¤ vida cotidiana. Tal disparidade fazia os olhos dos ca?adores de Barueri brilharem com a oportunidade clara de gl¨®ria f¨¢cil.
Havia tamb¨¦m o fato de que, embora os corrompidos fossem abundantes, a muta??o que os afetava privava muitos deles de habilidades cruciais que a humanidade pura possu¨ªa. Muitos n?o apresentavam caracter¨ªsticas f¨ªsicas ou habilidades vantajosas no campo de batalha e, acima de tudo, haviam perdido a capacidade de manifestar mana, uma limita??o cr¨ªtica que os colocava em ainda mais desvantagem.
¡ª Tem alguma coisa errada ¡ª murmurou um dos soldados, sua voz quase inaud¨ªvel em meio ¨¤s intensas batidas das botas contra o solo.
Tal frase foi apenas o in¨ªcio dos muitos sussurros inc?modos que preencheram o ar. No come?o, notaram apenas alguns vultos espreitando nas bordas da forma??o, t?o r¨¢pidos que podiam ser confundidos com sombras projetadas pelas ¨¢rvores. Mas, aos poucos, os vultos se multiplicaram, e os ca?adores piscavam continuamente, achando que aquilo podia ser uma simples ilus?o.
¡ª Mantenham o ritmo!
O general Roldan, l¨ªder da guilda dos Brutos de Ferro, estava respons¨¢vel pela lateral direita do ex¨¦rcito. Sua postura era firme e imponente, mas at¨¦ ele sentia o peso daquela atmosfera opressiva. Foi em meio a tentativa de manter a ordem, que, de repente, um grito cortou o ar.
¡ª Aaaah!
Os tambores cessaram, e o sil¨ºncio pesado se instalou, envolvendo os soldados como um v¨¦u de chumbo. Apenas as respira??es pesadas e o leve ranger das armaduras quebravam o clima tenso. Aquele que havia gritado n?o estava mais l¨¢; seu lugar estava vazio, e a vegeta??o ao redor tremia violentamente.
¡ª O que foi isso? ¡ª murmurou um dos capit?es, seus dedos apertando o punho da espada at¨¦ os n¨®s dos dedos ficarem brancos.
A resposta foi apenas um longo uivo, um som que rasgou o ar como uma lamina, fazendo com que at¨¦ os soldados mais experientes segurassem o ar por um instante. Logo outros uivos se juntaram, um coro crescente e amea?ador que parecia vir de todas as dire??es. Os soldados de Barueri come?aram a trocar olhares de apreens?o, cada um tentando entender de onde o ataque viria.
¡ª Lobos Cinzentos! Eles nos cercaram! ¡ª algu¨¦m bramiu, recuando instintivamente, mas sendo repentinamente pego antes que pudesse reagir.
Os olhos da criatura eram ferozes e penetrantes, o soldado tentou desferir um golpe de retalia??o, mas ela desviou com uma agilidade inesperada, atacando de volta e cravando os dentes no bra?o dele. Ele gritou, sentindo o osso quebrar sob a press?o da mordida, e caiu no ch?o enquanto o lobo o arrastava para os arbustos.
Em apenas um segundo a floresta inofensiva se transformou em um verdadeiro pesadelo. Cenas semelhantes ao primeiro ataque eram vistas por todos os lados, com sangue manchando a vibrante vegeta??o. De forma organizada, os lobos isolaram pequenos grupos, separando-os da forma??o principal. As tropas dos puros, que momentos atr¨¢s eram uma for?a ordenada e unida, agora se fragmentavam, cada um tentando defender-se como podia.
¡ª Formem um c¨ªrculo! Protejam-se! ¡ª bradou o general Roldan, tentando manter a calma e reunir seus homens.
Os soldados tentaram obedecer, unindo-se para criar uma barreira defensiva, mas os lobos eram astutos. Eles sabiam exatamente onde atacar. Moviam-se nas sombras, atacando com precis?o e ferocidade, desaparecendo t?o rapidamente quanto surgiam. Os soldados ergueram seus escudos, mas o impacto ainda assim foi esmagador. As garras afiadas rasgavam as armaduras, e as presas, t?o fortes quanto metal, cravavam-se na carne em um frenesi selvagem.
Os inimigos n?o eram apenas animais; eram guerreiros por direito pr¨®prio, cada um disposto a se sacrificar pela ordem do lobo alfa. Eles corriam entre as fileiras, e mesmo quando feridos e sangrando, continuavam a lutar, a morder e dilacerar, como se a dor fosse apenas um detalhe.
A cacofonia de viol¨ºncia se espalhou pelo campo. Humanos e feras ca¨ªam, suas vozes criando uma atmosfera opressiva que parecia engolir a pr¨®pria floresta. Jasmim se movia entre os ca?adores, e em um instante, encontrou-se lado a lado com Roldan, ambos com express?es de determina??o e uma pitada de divers?o fria em seus olhos.
¡ª Parece que resolveram nos atacar com tudo logo de in¨ªcio, hein? ¡ª Roldan sorriu, o sarcasmo pingando de sua voz enquanto erguia a lamina para bloquear um golpe lateral.
¡ª Um ataque desesperado de criaturas idiotas ¡ª Jasmim replicou, enquanto cortava o ar com um golpe preciso, sua lamina arrancando a perna de um lobo que ousou chegar perto demais. O animal caiu com um grito rasgado, mas o olhar da l¨ªder de guilda j¨¢ estava fixo nos pr¨®ximos oponentes. ¡ª Vamos acabar com isso de uma vez.
Ela ergueu a voz, dominando o ru¨ªdo do campo de batalha ao seu redor.
¡ª Forma??o Escudo Prateado! ¡ª ordenou. Imediatamente, os ca?adores sob seu comando come?aram a se alinhar, criando uma muralha de escudos e lan?as que bloquearia qualquer avan?o frontal.
Roldan observou os ca?adores de Jasmim assumirem a posi??o e riu, chamando a pr¨®pria guilda ao combate com um tom ir?nico e desdenhoso. Mesmo com os cont¨ªnuos abates, o panico n?o havia tomado conta de suas fileiras. Sabia que seus ca?adores eram bem treinados o suficiente para resolver a situa??o.
¡ª Vamos l¨¢, brutos! Organizem-se! Abram espa?o para os J¨®queis!
Enquanto falava, ele manteve o olhar fixo nos lobos, observando-os com um ceticismo crescente. As feras se moviam com uma precis?o estranha para criaturas ditas irracionais. Unauthorized content usage: if you discover this narrative on Amazon, report the violation.
¡ª Acha que eles est?o criando essas feras? Se tiverem domadores nas fileiras, as coisas podem se complicar um pouco.
¡ª J¨¢ ouviu falar de algum domador vivendo nas redondezas? ¡ª perguntou Jasmim em tom de zombaria. ¡ª Pelo que soube, nem mesmo na capital tem muitos deles.
¡ª Voc¨º est¨¢ certa. Devo estar pensando demais ¡ª riu Roldan, terminando de organizar suas tropas.
Seus esquadr?o central, os J¨®queis, montados em grtandes monstros de armadura pesada, iniciaram um intenso cavalgar, formando uma carga devastadora. Estavam apenas girando por entre as ¨¢rvores, sem rumo, mas mesmo isso j¨¢ era o suficiente para esmagar os ossos dos lobos que ousaram entrar em seu caminho.
Em outros locais, as demais guildas iniciavam suas pr¨®prias estrat¨¦gias, mantendo a mesma calmaria da dupla de l¨ªderes. Na ala esquerda do ex¨¦rcito, a Guilda dos Grifos avan?ava com a for?a de uma rajada de vento. Em um ataque devastador, os cavaleiros leves perseguiram diretamente as feras com afiadas lan?as, dispersando-as por alguns segundos. Ao fundo, os Silenciosos se juntaram a guilda Ventos Livres, se fazendo de iscas para que poderosas flechas atravessassem os flancos das criaturas.
Jasmim tomou a dianteira, e sua muralha de escudos avan?ava diretamente para qualquer criatura que se aproximasse com for?a implac¨¢vel. Partes das criaturas eram decepadas sem hesita??o, e seus cranios esmagados em seguida, como se n?o passasse de uma tarefa banal para seu grupo.
Manipuladores de mana em todas as cinco guildas acabaram por se reunir no centro, criando prote??es diversas quando poss¨ªvel. Os animais eram r¨¢pidos, ¨¢geis demais para que as suas manifesta??es os acompanhassem. Desta forma, eram incapazes de enfrentar os lobos em combate direto, deixando tudo para os guerreiros na linha de frente.
Aos poucos, o ataque, que come?ou com uma grande quantidade de baixas dos puros, tomou o rumo contr¨¢rio. As duas centenas de lobos cinzentos enviados por Ins¨ªdia ainda avan?avam com ferocidade contra as forma??es das guildas, no entanto, cada vez mais rapidamente come?aram a cair sob as afiadas armas dos humanos.
Claro, mesmo na morte iminente, garantiriam que sempre ao menos um soldado fosse arrastado com eles para o t¨²mulo, como se um pacto cruel estivesse selado entre os dois lados. Garm observava de longe, uma apreens?o pesada nublando seu olhar.
Ele sabia que aquela investida era, como Ana insistiu em deixar claro, apenas um sacrif¨ªcio, parte de uma estrat¨¦gia maior; o objetivo alinhado com os demais conselheiros era que deveriam derrubar ao menos quinhentos soldados inimigos antes de recuar. Mesmo n?o sendo uma quantidade t?o grande, j¨¢ era mais que o suficiente para um batalh?o de criaturas rank C. Mas ouvir os gritos agoniados de seus companheiros, os gemidos sangrentos e os rosnados de f¨²ria, fazia o cora??o do lobo negro apertar com uma dor que ele jamais admitiria em voz alta.
A tens?o acumulada transbordou. Garm rosnou, seus m¨²sculos se enrijecendo. Em um salto poderoso, ele lan?ou-se ¨¤ frente, seu corpo imenso aterrissando no meio do campo de batalha com a intensidade de uma tempestade. Vendo a aproxima??o, um dos ca?adores de posi??o elevada, assustado, tentou dar um golpe com sua lan?a, mas o lobo desviou, avan?ando rapidamente sobre ele e derrubando-o no ch?o. Com uma mordida precisa, Garm rasgou o capacete do homem, expondo seu rosto antes de atac¨¢-lo de novo, destro?ando sua face como se despejasse seu reprimido e feroz ¨®dio.
Logo voltou a saltar em dire??o a outros grupos. Mesmo quando juntos, suas garras dilaceravam armaduras e carne em um movimento fluido e brutal. Suas investidas eram calculadas, eliminando v¨¢rios soldados antes que qualquer um conseguisse revidar. Sempre que o perigo se intensificava, Garm recuava para se reposicionar, mantendo-se em movimento constante, um verdadeiro predador no caos.
Entre um avan?o e outro, soltava altos uivos, dando ordens para os dispersos lobos menores se reorganizarem. Sempre que o fazia, outras dezenas de uivos ecoavam, distribuindo as orienta??es por todo o local. Cada fera rapidamente mudava de posi??o, e seus padr?es se tornavam aos poucos cada vez mais refinados.
Eles estavam se adaptando, fazendo at¨¦ mesmo a firme forma??o Escudo Prateado come?ar a ceder sob a press?o constante dos ataques coordenados. A t¨¢tica dos Ventos Livres, que antes mantinha os lobos ¨¤ distancia, come?ou a falhar, pois as feras haviam aprendido a ignorar os movimentos ilus¨®rios. E mesmo os Brutos de Ferro, que avan?avam com f¨²ria implac¨¢vel, foram for?ados a recuar para manter sua linha, enquanto os Grifos eram flanqueados pelas feras.
A floresta tornara-se um jogo de xadrez, onde cada lado ajustava suas t¨¢ticas em tempo real para eliminar o m¨¢ximo de inimigos poss¨ªveis. Foi em meio a este frenesi que o olhar do l¨ªder lobo finalmente se cruzou com o de Jasmim.
Por um momento, ambos ficaram parados, como se o tempo houvesse congelado ao redor deles. A l¨ªder da guilda arregalou os olhos, surpresa ao ver o lobo gigante ali, lutando pelo inimigo. Seus pensamentos corriam enquanto ela varria o campo de batalha com os olhos, procurando por uma figura familiar. Foi ent?o que avistou L¨²cia, lutando muito ao fundo, alheia ¨¤ presen?a de seu antigo companheiro.
¡°Se o lobo est¨¢ lutando pelos mascarados¡ ent?o Ana deve estar l¨¢ tamb¨¦m¡±, pensou ela, deduzindo rapidamente o contexto da presen?a do animal na linha de frente.
Um sorriso trai?oeiro curvou seus l¨¢bios.
¡ª Eu devia ter te matado logo nos primeiros dias, lobo.
Garm a encarou por um instante, indeciso sobre disparar em sua dire??o ou n?o. Manteve passos laterais, circundando a l¨ªder da guilda, pronto para disparar no menor sinal de abertura.
¡ª N?o lobo. Me chamo Garm.
A express?o de Jasmim ficou repentinamente fria, e sua espada se ergueu em dire??o ¨¤ grande fera.
¡ª Olha s¨®¡ Quem diria que voc¨º evoluiria a ponto de conseguir falar em apenas um ano¡ ¡ª come?ando a correr, a mulher ergueu a voz. ¡ª Todos! Foquem no lobo negro!
A instru??o de Jasmim foi obedecida sem hesita??o. Em segundos, as centenas de ca?adores dos Escudos de P¨¦talas convergiu contra Garm. Flechas zumbiam em sua dire??o, cada uma mais precisa que a anterior. Guerreiros se lan?avam contra ele, lan?as e espadas em punho. Garm se movia com agilidade, desviando dos ataques com saltos e ocasionalmente se defendendo com suas pr¨®teses, mas o cerco se fechava rapidamente. Ele sabia que n?o poderia enfrentar aquela investida direcionada por muito tempo.
Ap¨®s derrubar mais alguns inimigos, com um rosnado frustrado, recuou, abrindo uma passagem em meio aos soldados, deixando um rastro de corpos abatidos enquanto a exaust?o come?ava a pesar em seus m¨²sculos.
Um ¨²ltimo uivo de comando soou, e os poucos lobos restantes se reagruparam, correndo ao seu lado a uma velocidade absurda de volta para a cidade. Atr¨¢s deles, os ca?adores eliminaram os que n?o conseguiram escapar com uma frieza implac¨¢vel.
Os minutos pareciam passar devagar, e ao conseguirem finalmente retornar, Garm saltou com seu pequeno grupo, de apenas uma d¨²zia de sobreviventes, para a caverna oculta abaixo da ponte.
¡°O sacrif¨ªcio de voc¨ºs n?o ser¨¢ em v?o¡±, pensou o grande lobo para si mesmo, Ele sabia que precisava sobreviver para liderar os que restavam, e mesmo em meio ¨¤ tristeza pela perda de tantos subordinados, sua determina??o era inabal¨¢vel.
Com um ¨²ltimo esfor?o, derrubou as paredes de entrada, selando o local. N?o podia deixar que o acesso ao subterraneo da cidade chegasse ¨¤s m?os do inimigo.
¡°Espero que tenhamos conseguido fazer o suficiente, Ana¡¡±
Indiferentes aos passos pesados do lobo, a n?o tantos quil?metros de distancia, o som dos tambores voltou a ecoar, como uma trilha macabra que acompanhava a alta moral dos ca?adores ap¨®s a aparente vit¨®ria inicial, reiniciando a marcha em dire??o aos altos port?es da cidade mascarada.
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CapÃtulo 144 - A Sinfonia da Resistência
¡ª Aumentem o ataque no flanco direito ¡ª ordenou Ana, transmitindo instru??es rapidamente. ¡ª N?o deixem que eles se aproximem dos port?es principais.
As muralhas de Ins¨ªdia eram uma fortaleza viva, e o ataque era incessante, com trabucos e catapultas lan?ando pedras e proj¨¦teis afiados em dire??o ao ex¨¦rcito de Barueri. Dos parapeitos, flechas e lan?as enfeitavam o ar, transformando a ¨¢rea em um campo minado de metal e destro?os.
As tropas com menos aptid?o ao combate corpo a corpo foram as designadas para aquele tipo de defesa. Ajustavam os angulos das armas e mantinham a alta frequ¨ºncia dos ataques, com cada pedra lan?ada descendo como um cometa.
Infelizmente, apenas destru¨ªram o terreno em volta dos soldados inimigos, pois os quase seiscentos manipuladores de mana de Barueri levantavam barreiras invis¨ªveis para desvi¨¢-las antes que os ataques mais letais atingissem suas forma??es. Sob sua prote??o,era dif¨ªcil para Ins¨ªdia infligir danos profundos ¨¤s for?as, e os ca?adores fortalecedores mantinham-se relativamente intocados, protegidos.
"Eles est?o bem coordenados", pensou a rainha mercen¨¢ria em uma admira??o contida, notando a sincronia entre os muitos batalh?es de seu oponente. "Eu deveria estar l¨¢ embaixo..."
Seu olhar estava fixo no campo de batalha. Sua postura era tensa e atenta, cada fibra de seu ser instigada pela vontade de entrar na luta, mas sabia que sua presen?a estrat¨¦gica ali era crucial naquele primeiro momento.
Seus inimigos eram disciplinados, moviam-se em bloco e com a firmeza de um ex¨¦rcito que n?o hesitava em sacrificar o avan?o em favor da defesa.
¡ª Direcione os trabucos para o centro das tropas! ¨C ela ordenou, de repente. ¡ª Forcem-nos a recuar as defesas ou quebrar a forma??o. Se recuarem, teremos mais tempo; se hesitarem, nossas flechas os alcan?ar?o.
Os artilheiros nas muralhas rapidamente ajustaram as m¨¢quinas de guerra conforme o comando, redirecionando os ataques para a espinha dorsal do ex¨¦rcito. Cada lan?amento que ca¨ªa abria buracos profundos no solo, tornando-o cada vez mais dif¨ªcil de atravessar e limitando as manobras. Ainda assim, o problema foi resolvido rapidamente, espalhando um pouco mais os manipuladores por entre os guerreiros. Tal t¨¢tica ocasionalmente abria brechas para acertos, mas ainda era efetiva em manter a investida.
As m?os da mercen¨¢ria apertaram o parapeito da janela com for?a ao ver, mesmo que lentamente, passos continuarem a ser dados. O campo estava prestes a se acirrar, e o reino todo parecia respirar em un¨ªssono.
¡ª Quero que voc¨º v¨¢ ao Madame Eclipse, Miguel ¡ª comentou a mulher, quase em um sussurro. ¡ª Fa?a como combinamos, se proteja e proteja o local. Irei me juntar ¨¤s fileiras em alguns minutos.
¡ª Se me permitir, gostaria de esperar ao seu lado, An¡ minha senhora.
A rainha sorriu pelo t¨ªtulo que a tempos n?o ouvia, um sinal claro de rebeldia de seu subordinado. Balan?ando a cabe?a em uma zombaria interna, ela ignorou o teimoso secret¨¢rio mascarado, caminhando em dire??o a um grande dispositivo, onde um pequeno microfone repousava.
Era um grande improviso, tendo mais tecnologia moderna do que engenharia m¨¢gica. A m¨¢quina estava ligada por cabos a centenas de grandes caixas de som distribu¨ªdas por toda a cidade, e as poucas runas absorviam a mana do usu¨¢rio apenas para energiz¨¢-las.
Com gestos despreocupados, Ana deu tr¨ºs batidinhas no microfone, provocando um zumbido agonizante que fez todo o reino franzir a testa. Ela riu baixo, dando de ombros pelo pequeno erro, e, com um movimento solene, ativou o dispositivo completamente.
Antes que falasse, Ana se permitiu um instante de sil¨ºncio, uma pausa carregada de significado. E ent?o, o campo de batalha, at¨¦ ent?o ensurdecedor pelo barulho das m¨¢quinas de guerra e dos tambores, foi dominado por sua voz imponente, que ressoou atrav¨¦s das paredes e sobre as grandes colinas.
¡ª A HORA CHEGOU, MEUS GUERREIROS!
A voz n?o era apenas um comando; era um chamado, uma convoca??o, uma senten?a. Em toda Ins¨ªdia, gritos de aprova??o e sorrisos selvagens surgiram. Eram homens e mulheres de todas as origens e formas, unidos pela mesma causa: proteger o lar que constru¨ªram contra a amea?a invasora.
Ana continuou, deixando o tom firme e solene. Ap¨®s um breve inc?modo nos t¨ªmpanos, optou por abandonar os gritos, mantendo sua fala em um ritmo mais calmo, mas n?o menos imponente.
¡ª Hoje, lutamos n?o apenas pela sobreviv¨ºncia, mas pelo direito de sermos quem somos! O direito de viver em paz, sem medo do que vem pela frente!
Ela fez uma pausa, permitindo que suas palavras se assentassem no ar, como uma chama que crescia devagar antes de um grande inc¨ºndio. Seus olhos percorreram a cidade, cada pr¨¦dio, cada rua, cada jovem segurando uma espada.
Os bestiais, com seus corpos imponentes e m¨²sculos tensionados, batiam nos peitos com for?a, invocando coragem enquanto recitavam canticos que remetiam a sua aldeia desolada. At¨¦ os soldados mais jovens repetiam as palavras com olhos fechados, em uma comunh?o final com as for?as invis¨ªveis que acreditavam os proteger.
Montados em suas ferozes ovelhas, suas figuras imponentes, com armaduras simples, mas de apar¨ºncia indestrut¨ªvel, refletiam o esp¨ªrito selvagem de guerreiros que nasceram para a luta. Desde que a mana os corrompeu, n?o sabiam mais o que era viver sem guerra, e essa batalha era apenas mais uma das muitas que haviam enfrentado para garantir o direito de existir.
¡ª Eles chamam voc¨ºs de monstros, e, ao menos hoje, ¨¦ isso que precisamos nos tornar. No entanto, n?o traremos terror, mas sim liberdade!
As muitas cores dos escamosos brilhavam em todos os cantos, com cicatrizes de batalhas antigas e recentes marcando suas peles como medalhas. N?o eram habitantes oficiais de Ins¨ªdia, mas, sabe-se l¨¢ quando, passaram a gastar mais tempo no novo reino do que em seu pr¨®prio territ¨®rio.
Preparavam-se para a batalha de sua pr¨®pria maneira, com pinturas de guerra que marcavam seus rostos e rodas de briga cheias de bebidas, onde suas m?os afiadas e impiedosas se moviam com destreza em confrontos cheios de risos e empurr?es disfar?ados de aquecimento. Os generais, figuras sombrias e imponentes, eram os l¨ªderes deste povo, e observavam seus soldados com um olhar que misturava aprova??o e vigilancia, garantindo que tudo estava no lugar certo.
A pele escura de Leandro reluzia sob uma luz fria enquanto abra?ava pela ¨²ltima vez sua esposa, e, com um carinho descuidado, bagun?ava o cabelo de sua filha Lana. N?o tinha o fugaz sonho de conseguir voltar em seguran?a, faria de tudo para que sua fam¨ªlia ficasse bem. Encarando a torre onde a estranha rainha mascarada discursava, ergueu sua caneca de cerveja, s¨ªmbolo de uma camaradagem que nasceu ao conviver com o povo deste reino. Com um ¨²ltimo longo gole, ele sorriu, e ent?o soltou a caneca, voltando a pegar sua lan?a e a afiar com uma precis?o quase ritual¨ªstica.
¡ª N?o somos apenas um ex¨¦rcito. Somos um s¨ªmbolo de resist¨ºncia, de for?a e de honra! E quem tentar nos parar, ser¨¢ esmagado pela nossa presen?a!
O pequeno ex¨¦rcito de elite de Alex e Fernando estava afastado, preparado para a batalha. O comando de Ana os separava da linha de frente, mas n?o os exclu¨ªa. N?o havia medo em seus olhos. Eles estavam prontos, suas armaduras refletindo a luz dourada da manh?. O calor da batalha os chamava, e nenhum deles hesitaria quando o momento chegasse.
As est¨¢tuas mascaradas os cercavam, guerreiros que se erguiam ao lado de seus comandantes. Estas figuras, armadas at¨¦ os ossos, eram seres quase m¨ªsticos na cidade. Suas armaduras estavam incrustadas diretamente em suas peles, e ouviam o discurso de sua rainha com uma determina??o t?o feroz quanto a vontade de lutar que transmitiam.
¡°Os incans¨¢veis¡± era como os chamavam, e o simples ato de estarem ali, im¨®veis e prontos para a batalha, fazia os cora??es dos observadores ao redor pularem com uma nova e intensa energia. Eles eram a ess¨ºncia do reino de Ins¨ªdia, e cada m¨¢scara uma representa??o de que, neste local, todos eram o mesmo.
¡ª A luta n?o ser¨¢ f¨¢cil, e a morte estar¨¢ conosco o tempo todo. Que o nosso sangue, se necess¨¢rio, seja o alicerce desta cidade. Mas que nossa esperan?a seja o que nos fa?a seguir em frente, at¨¦ o ¨²ltimo suspiro, at¨¦ o ¨²ltimo grito!
As dr¨ªades moviam-se como sombras elegantes entre as fileiras dos guerreiros, trazendo consigo uma aura de tranquilidade e mist¨¦rio. Suas passadas eram leves, e a forma como deslizavam entre espadas e lan?as fazia parecer que dan?avam, como se a batalha fosse apenas uma parte de um evento sagrado. Em suas m?os, carregavam pequenos recipientes de madeira, esculpidos de forma intrincada com s¨ªmbolos da natureza.Ensure your favorite authors get the support they deserve. Read this novel on the original website.
Ofereciam aos soldados uma bebida de cor amarronzada, algo entre um ch¨¢ amargo e um licor misterioso. O l¨ªquido parecia brilhar suavemente sob a luz, e cada gole trazia uma sensa??o de calma e coragem inesperadas, afastando o medo e a ansiedade que haviam se acumulado antes da batalha. Os guerreiros, por mais endurecidos ou nervosos que estivessem, aceitavam a oferenda do povo verde, sentindo que ali havia um peda?o da pr¨®pria floresta os fortalecendo.
N?o s¨® com o estranho elixir auxiliava o grupo de dr¨ªades, j¨¢ que no ouvido de cada habitante murmuravam frases quase musicais atrav¨¦s de seus pequenos r¨¢dios, uma reza para o al¨¦m para que protegessem aquelas pessoas. Era como uma b¨ºn??o silenciosa, uma promessa de que o mundo estaria ao lado deles no campo de batalha.
O comportamento se repetiu por toda a cidade, com cada povo seguindo seus pr¨®prios rituais, infundindo o ar com um misticismo carregado de prop¨®sito. Alguns guerreiros passavam panos escurecidos sobre suas laminas, como se selassem pactos silenciosos com suas armas, tornando-as extens?es de suas pr¨®prias almas. Outros mantinham pequenas bolsas de brasas em seus bolsos, um calor discreto, mas constante, que parecia incendiar seus esp¨ªritos para o combate. Podia-se ver tamb¨¦m alguns que tra?avam s¨ªmbolos de prote??o na palma das m?os, r¨¢pidos gestos que acreditavam ser uma defesa invis¨ªvel contra o perigo.
Ana sorriu para si mesma ao ouvir os excitados gritos de resposta reverberarem pelos c¨¦us ap¨®s suas curtas, por¨¦m incisivas palavras. Apesar de seu usual controle, n?o p?de evitar o calor que subiu ¨¤s bochechas ap¨®s o vergonhoso discurso, trazendo um raro rubor que, felizmente, ficava oculto sob sua m¨¢scara. Com um resmungo divertido, ergueu a cabe?a e virou-se para a multid?o fervilhante abaixo. A antecipa??o brincava em seus l¨¢bios enquanto segurava o microfone, com um toque de humor que permanecia, mesmo em meio ¨¤ tens?o crescente.
¡ª Ah, quase me esqueci ¡ª come?ou, com uma nota teatral na voz. ¡ª Muitos anos atr¨¢s, aprendi que toda boa batalha precisa de uma m¨²sica!
Pressionando um pequeno bot?o, e os alto-falantes liberaram uma melodia envolvente, o som de um ala¨²de ecoando com uma do?ura intensa que parecia acariciar os sentidos, mas com uma for?a subjacente que prometia gl¨®ria e luta. A m¨²sica crescia em intensidade, envolvendo Ins¨ªdia em uma aura de puro desafio. Ent?o, ao fundo da grava??o, surgiu uma voz bem conhecida, recitando uma prosa que unia a suavidade de um sussurro com a intensidade de uma tempestade. N?o havia uma pessoa que n?o sorrisse ao ouvir aquele tom ¨²nico, carregado de emo??o e uma selvageria peculiar.
Nyx, mesmo sendo uma Sombra, conquistara o cora??o de todos. O medo instintivo que sua presen?a outrora evocara havia desaparecido ao longo dos meses, substitu¨ªdo por uma admira??o genu¨ªna. A sorridente conselheira era agora uma das figuras mais queridas de todo o reino, e n?o havia arrependimento na possibilidade de morrer com sua voz ressoando nos ouvidos..
¡ª Voc¨ºs s?o Ins¨ªdia! ¡ª bradou Ana, com uma energia vibrante e eletrizante que transpassava a pr¨®pria m¨²sica, contagiando a todos. ¡ª V?o l¨¢ e vivam! Mas, se ca¨ªrem¡ que seja mordendo a jugular deles!
O som do ala¨²de atingiu um cl¨ªmax, preenchendo o ar com uma intensidade quase palp¨¢vel. Ana respirou fundo, permitindo que o peso do momento se instaurasse, a tens?o dan?ando no ar como uma for?a viva. De forma instintiva, os guerreiros fecharam os olhos, deixando a melodia adentrar seus corpos tensos, aquecendo-lhes os cora??es. At¨¦ mesmo as montarias, como se tomadas pelo mesmo esp¨ªrito, batiam as patas no ch?o em uma cad¨ºncia que se mesclava ¨¤ m¨²sica, criando uma trilha r¨ªtmica quase tribal.
A rainha tamb¨¦m fechou os olhos por um breve instante, buscando um momento de comunh?o silenciosa com Ins¨ªdia. Ela n?o se importava tanto com a cidade, seu povo era apenas um detalhe relativamente inc?modo, mas ainda assim prometeu a si mesma que, ao menos nesta batalha, nenhum deles seria esquecido, independentemente do desfecho. Voltando a abrir os olhos, fez um pequeno sinal com a m?o, e Miguel, que permanecia ali com olhos encantados, fez um sinal da janela para o pr¨®ximo grupo iniciar o planejamento.
No mesmo instante, do alto das muralhas, os poucos manipuladores de mana, representando menos de um d¨¦cimo dos manipuladores do ex¨¦rcito de Barueri, subiram e assumiram suas posi??es defensivas. Eram um povo corrompido n?o muito diferente dos humanos antigos, desde que, claramente, fossem desconsideradas suas peles e olhos de um intenso amarelo, fei??es faciais um pouco achatadas e o estranho costume de evitarem ao m¨¢ximo qualquer tipo de refei??o salgada. Felizmente, suas veias estavam intactas.
Os trabucos n?o pararam seu ataque, por¨¦m, o ex¨¦rcito inimigo estava perto demais para que Ins¨ªdia arriscasse uma ofensiva com manifesta??es, sabiam que um ataque direto seria repelido com facilidade pelos puros, ent?o, dessa vez, era sua miss?o defender. Seus olhos amarelados brilharam com determina??o, cada um deles sabia o que estava em jogo.
Um manifestador de Barueri, finalmente vendo a oportunidade, deixou de defender e lan?ou a primeira bola de fogo sobre o muro, deixando um rastro de fuma?a enquanto voava em dire??o ¨¤ cidade. Antes que pudesse de fato atingir o alvo, uma fina barreira de ¨¢gua foi erguida por um dos guerreiros da cidade mascarada, bloqueando-a com precis?o. O vapor se espalhou pelo ar, e quando se dissipou, revelou o brilho de centenas de novas manifesta??es de mana surgindo em dire??o ¨¤ cidade, tornando o c¨¦u em um belo e perigoso campo de estrelas.
Os manipuladores de Ins¨ªdia reagiram rapidamente, invocando novas barreiras e escudos com toda a for?a que possu¨ªam, camadas finas, mas poderosas, dos mais variados elementos que bloqueavam os m¨²ltiplos ataques inimigos. Sangue escorreu pelos cantos de suas bocas, e suas m?os tremiam conforme exauriam o m¨¢ximo de sua mana. Mas eles n?o desistiram, pois sabiam ser os ¨²nicos que podiam oferecer essa defesa.
Para eles, cada segundo conquistado era uma vit¨®ria. Se conseguissem fazer o inimigo desperdi?ar sequer uma gota a mais de mana, seu sacrif¨ªcio seria v¨¢lido. Estavam dispostos a morrer por todos que permaneceram atr¨¢s daquelas muralhas e, um a um, ca¨ªram, mas n?o antes de criarem um intervalo precioso.
Foi ap¨®s poucos minutos que o ¨²ltimo dos manipuladores finalmente cedeu, desmaiando com espuma saindo de sua boca. Como se tal ato honroso fosse um sinal, cordas de arcos foram puxadas ao limite por um grupo especial de arqueiros.
Eva, posicionada no topo de uma torre, segurava sua arma com orgulho. Havia um sil¨ºncio reverente ao seu redor, e, naquele instante, ela se tornou o s¨ªmbolo da resist¨ºncia Ins¨ªdia. Sem pressa, ela ergueu a flecha, permitindo que o mundo ao redor visse sua inten??o. Pouco a pouco, seu arco riscava elegantes runas nela, fazendo o objeto emitir um brilho de um vermelho t?o intenso quanto o de seus cabelos.
Abaixo dela, o restante dos arqueiros tomaram seus lugares nos telhados e nas torres, aguardando o comando. N?o possu¨ªam arcos especiais, mas suas flechas carregavam runas improvisadas, prontas para causar estrago.
¡ª Esperem mais um pouco ¡ª sussurrou a jovem, fechando os olhos e concentrando mana em seus ouvidos.
De repente, um som abafado de corneta ecoou ao longe. Qualquer outro teria ignorado, mas a garota estava atenta. Embaixo da terra, o estranho povo escavador captava com precis?o as vibra??es do ex¨¦rcito de Barueri. Eram pessoas curvadas e pequenas, e sua frequente viv¨ºncia no subterraneo os tornou quase cegos ap¨®s a transforma??o da mana. Apesar de suas m?os possu¨ªrem garras e terem uma concentra??o acima da m¨¦dia, n?o eram adequados para o campo de batalha e, desta forma, sua miss?o era apenas dar o sinal quando cada se??o dos invasores atingissem a posi??o exata. Felizmente, fizeram tal tarefa com excel¨ºncia.
¡ª Disparar! ¡ª gritou a pequena conselheira raposa, soltando a flecha. Ela cortou o c¨¦u como um raio, com um rastro alaranjado que perfurou as nuvens, voando sozinha por um segundo eterno como um tipo de pren¨²ncio cerimonial.
Centenas de flechas logo a seguiram, cada uma tra?ando seu pr¨®prio belo arco. Um arco-¨ªris de morte pairou sobre o campo de batalha, substituindo o calor do sol por uma sombra fria e multicolorida que envolvia a todos. Quando a primeira flecha caiu, era como se o pr¨®prio universo tivesse se rasgado, vomitando uma tempestade de destrui??o.
Os manipuladores de mana de Barueri tentaram erguer barreiras, mas a quantidade de ataques era simplesmente absurda. As flechas recheadas de engenharia m¨¢gica perfuraram as manifesta??es com facilidade, caindo brutalmente nas fileiras inimigas.
Pontas cravadas em carne, armaduras quebradas, chamas e gelo se espalhando em impactos explosivos. O ch?o estava tomado por uma neblina de vapor e sangue, e vendo a impot¨ºncia de suas habilidades, os manipuladores rapidamente se abrigam sob os escudos de seus aliados, mas mesmo isso n?o foi o suficiente para evitarem algumas dezenas de baixas.
L¨¢ em cima, Ana observava, sentindo a adrenalina pulsar em suas veias como fogo l¨ªquido. Suas m?os firmes, mas cheias de emo??o contida, alcan?aram um pano espesso, que lentamente desenrolou, revelando a lamina negra de sua longa espada. O brilho opaco da arma refletia seu desejo, enquanto seu olhar se fixava nas linhas inimigas que marchavam ao longe.
Ela n?o ouvia diretamente os sons do campo de batalha, mas podia sentir cada movimento como uma ressonancia profunda que ecoava em seu pr¨®prio corpo: o couro rangendo quando os guerreiros apertavam as empunhaduras, o som met¨¢lico das espadas sendo desembainhadas, o clangor das armaduras sendo ajustadas, e os gritos dos comandantes preparando seus soldados para o confronto iminente.
¡ª Admito que menti quando disse que n?o te usaria, minha amiga ¡ª segurando a fina lamina ¨¤ frente, ela sussurrou.
Em meio ¨¤ carnificina, a guerra havia come?ado.
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CapÃtulo 145 - Vis?o do Campo Amarelo
Fui convocado para a batalha de repente, sem qualquer aviso pr¨¦vio. N?o tenho problemas em lutar contra monstros, afinal, foi pra isso que me tornei ca?ador. Mas invadir outra cidade? Isso ¨¦ novo pra mim.
Ainda assim, fui junto com o resto da guilda, seguindo ordens, mantendo a posi??o. N?o fazia parte da linha de frente, n?o estava entre os grandes, os poderosos, ent?o marchava um pouco mais atr¨¢s. Pra ser sincero, fiquei at¨¦ aliviado.
¡ª Hoje ¨¦ realmente meu dia de sorte.
Por enquanto, sou apenas um observador. Os manipuladores de mana do inimigo finalmente foram derrubados, um a um, e a ¨²ltima barreira caiu, permitindo come?armos a avan?ar em definitivo. As flechas continuavam a chover sobre n¨®s, mas as baixas do nosso lado pareciam m¨ªnimas; os fortalecedores no fronte estavam fazendo um bom trabalho em defender o grosso do ataque.
Eu diria que j¨¢ perdemos seiscentas, talvez setecentas vidas at¨¦ agora, mas quem ¨¦ que est¨¢ contando? O problema maior foram aqueles lobos. At¨¦ me arrepio s¨® de lembrar. Alguns conhecidos ca¨ªram l¨¢, gente com quem treinei, com quem bebi. Foi uma sorte que a confus?o n?o chegou em mim.
Enfim, a cidade toda est¨¢ fortificada, at¨¦ com um fosso ao redor dos port?es!
Parece coisa de hist¨®ria medieval, algo que voc¨º leria em um romance velho, mas, infelizmente pra eles, temos manipuladores que s?o bem vers¨¢teis. Fosso ou n?o, nada disso impede o avan?o de um ex¨¦rcito moderno.
Os manipuladores, ainda protegidos, manifestaram pontes firmes sobre o fosso, conectando nossas fileiras aos muros. Os port?es, como era de se esperar, estavam refor?ados com algumas runas. Mas n?o duraram muito tempo frente ao poder devastador hahaha!
Me pego pensando que, hoje em dia, as batalhas chegam a ser rid¨ªculas. ¨¦ incr¨ªvel o quanto a tecnologia, a mana, e o puro poder de fogo podem desmontar qualquer coisa.
D¨¢ at¨¦ um pouco de d¨® deles, uma pontada de compaix?o. Imagino como deve ser estar do outro lado, todo o medo que devem estar sentindo. N?o tenho ideia de como essa loucura toda de matar corrompidos come?ou, mas, no fim, n?o sou pago pra questionar.
Ao atravessar os port?es da cidade, a primeira impress?o ¨¦ estranhamente desoladora. A entrada est¨¢ praticamente vazia, mas h¨¢ uma beleza peculiar nas ruas. Casas de estilos diferentes alinham-se ao longo da avenida principal, mas sem os sinais vibrantes de um com¨¦rcio ativo. ¨¦ quase agoniante ver o tudo assim, t?o vazio e silencioso, exceto pelas ocasionais flechas que ainda s?o lan?adas de algum ponto oculto da cidade. N?o fosse por isso, o clima seria mesmo de filme de terror, uma cidade fantasma que s¨® falta nos engolir aos poucos.
Os cinco l¨ªderes acabaram de passar por mim, com aquele ar descontra¨ªdo. Alguns at¨¦ sorriram, mas tinham uma express?o de leve irrita??o. Algum tipo de discuss?o interna, provavelmente. J¨¢ houve v¨¢rias no caminho at¨¦ aqui, todos eles se acham os chef?es.
Creio que planejam dividir o ex¨¦rcito em grupos para agilizar a ¡°limpeza¡± da cidade. Sendo honesto, n?o acho que seja uma boa ideia. Cada guilda tem sua pr¨®pria especialidade, e tudo bem separ¨¢-las em uma ca?ada, mas em uma guerra? Me sinto um pouco vulner¨¢vel, pra dizer a verdade. Sem arqueiros e monstros no meu grupo, a coisa parece desbalanceada.
Mas, de alguma forma, sinto que vai dar certo. Ou espero que d¨º, pelo menos. O ¨²nico problema ¨¦ que essa espera est¨¢ come?ando a me deixar exausto. Quando ¨¦ que os inimigos v?o aparecer?
Aparentemente, Jasmim vai direto para as muralhas internas. Ainda bem! Se tem algu¨¦m aqui que me faz sentir um pouco desconfort¨¢vel, ¨¦ ela. Que fique o mais longe poss¨ªvel. Nosso grupo, por outro lado, est¨¢ seguindo para a ala Leste, disseram que dever¨ªamos tomar a ¨¢rea de suprimentos da cidade o mais r¨¢pido poss¨ªvel.
Os Sombrios e a guilda Ventos Livres continuam trabalhando juntos, est?o indo para o Oeste. Eles t¨ºm uma harmonia no campo de batalha que me impressiona, algo que eu gostaria que minha pr¨®pria guilda pudesse compartilhar com outra. Mas, infelizmente, esse n?o ¨¦ o nosso estilo; somos mais reservados e independentes. Boa sorte para eles, de qualquer forma.This book was originally published on Royal Road. Check it out there for the real experience.
J¨¢ os Brutos de Ferro¡ bem, os caras simplesmente ignoram qualquer conven??o. Os soldados rasos deles seguem meio perdidos, um pouco atr¨¢s de n¨®s, enquanto a for?a de elite, a menor entre as guildas, com s¨® cinquenta cavaleiros pesados montados naqueles animais gigantescos, se espalhou entre as ruas assim que passamos pelos port?es. Cada um foi para uma dire??o diferente, como se n?o precisassem de mais ningu¨¦m al¨¦m de suas armaduras e montarias para proteg¨º-los. A confian?a deles beira a arrogancia, ¨¦ uma loucura.
Quanto mais a gente anda, mais estranho fica o sil¨ºncio. Ser¨¢ que realmente abandonaram a cidade?
Talvez seja at¨¦ melhor assim. Mas, quer saber? At¨¦ que aqui ¨¦ agrad¨¢vel, se acabar virando uma base posso considerar me mudar pra c¨¢. Quem ¨¦ que coloca tantas flores em uma cidade? Uns malditos viciados em girass¨®is, s¨® pode! Hahaha.
Ser¨¢ que tem algum problema se eu pegar alguns? Girass¨®is sempre foram os favoritos dela¡
¡ª Claro que tem problema, eu os amo, filho! Nem pense em arranc¨¢-los!
¡ª Eu s¨® queria coloc¨¢-los no seu t¨²mulo, m?e¡
¡ª Pra qu¨º? Eu n?o estou os apreciando aqui do seu lado?
¡ª Ah, ¨¦ verdade, sou t?o tonto¡ hahaha¡
Mas¡ h¨¢ algo estranho. Ela est¨¢ aqui? N?o faz sentido, mas eu sinto sua presen?a. Como isso ¨¦ poss¨ªvel?
E¡ quem liga?
¡ª M?e! M?e! Como eu senti sua falta¡
Ent?o, no momento em que chego perto, ela come?ou a desaparecer, se desfazendo em uma pequena montanha de p¨¦talas que caiam suavemente no ch?o. Eu j¨¢ sabia que n?o era real, mas ainda d¨®i tanto¡
As l¨¢grimas come?aram a correr sem que eu percebesse. Sinto o peso delas, molhando meu rosto, encharcando minha armadura... Espera, minha armadura? Mas que porra ¨¦ essa? Tentei gritar, mas tudo o que consegui foi ver um escarlate v?mito de sangue.
Tem algu¨¦m na minha frente agora. Um cara de pernas estranhas. Um fauno, talvez? Cada vez mais me sinto em um livro de hist¨®rias... haha¡ Seus olhos me encaram com um misto de serenidade e desd¨¦m, me d?o um pouco de medo. Claro, n?o mais medo do que a lan?a que atravessa meu est?mago.
Atr¨¢s dele, duas criaturas igualmente bizarras se destacam. A primeira ¨¦ uma mulher que parece ter sido esculpida das pr¨®prias plantas, como se cada ramo e folha formasse o contorno de seu corpo. Ela carrega... um r¨¢dio? Que seja¡ n?o vou gastar meus ¨²ltimos suspiros pensando nisso¡ Ao lado dela, uma criatura gigantesca e sinuosa se arrasta pelo ch?o, uma minhoca feita de p¨¦talas e flores, um ser que parece ter sa¨ªdo de algum pesadelo on¨ªrico.
Foi ent?o que entendi: era a porcaria de um sussurrador de p¨¦talas. Esse maldito campo de girass¨®is¡ Porra, precisava ser justo a minha m?e? ¨¦ um truque cruel.
Merda de mundo. Merda de flores. Merda de guildas.
Minha vis?o come?ou a ficar turva e, ao redor, ou?o os gritos de outros ca?adores, um som abafado, como se viesse debaixo d¡¯¨¢gua. Alguns caem de joelhos, entregues ao mesmo destino que eu, enquanto outros, mais sortudos, parecem se afastar ao custo de deixar para tr¨¢s amigos ensanguentados.
Merda, merda... Bom, pelo menos posso tentar sair disso com alguma dignidade. Se conseguir deixar alguma marca antes de partir, talvez eu possa terminar como um her¨®i.
Minhas m?os tremem enquanto procuro meu isqueiro. Cad¨º ele? Droga...
¡ª Ah, foda-se, que se dane.
Tenho certeza que algum manipulador vai ter a mesma ideia em breve. Que queimem no inferno, malditos corrompidos.
Pelo jeito, n?o era meu dia de sorte¡
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CapÃtulo 146 - O Gelo e o Verde
A cena, antes ordenada e controlada, explodiu em um banho de sangue ca¨®tico. Dos aproximadamente seiscentos soldados que marchavam sistematicamente, cerca de cem agora estavam ca¨ªdos, empalados por lan?as simples, mas extremamente afiadas. A vis?o era horrenda: olhos arregalados em choque, bocas entreabertas, tentando entender o que havia acontecido. Tudo fora r¨¢pido demais, t?o de repente que nem tiveram tempo para reagir. Alguns ainda respiravam, mas nenhum deles estava em condi??es de continuar na batalha.
Aqueles que n?o foram atingidos despertaram subitamente com os gritos de agonia ao redor, erguendo as armas em reflexo e assumindo posi??es defensivas.
¡ª Despertem, o inimigo nos cercou!
Entre eles estava Am¨¦lia, a l¨ªder da guilda dos Grifos. Vociferava comandos enquanto avan?ava com elegancia feroz, perfurando cada corrompido que se aproximava. Sua presen?a era marcante e, ao mesmo tempo, contradit¨®ria: era intensa, mas de fei??es doces, e movia-se com uma suavidade quase graciosa.
Sua arma n?o era menos peculiar: uma fina agulha de pouco mais de um metro, praticamente invis¨ªvel a olho nu, mas brilhando sutilmente com um tom esbranqui?ado toda vez que ela a movia para atacar, com as min¨²sculas runas em sua empunhadura acendendo por breves instantes antes de voltarem a se apagar. Era t?o delicada e afiada que parecia mais uma extens?o de seus dedos do que uma arma propriamente dita.
Mantinha uma postura impec¨¢vel, o corpo levemente inclinado, com uma das m?os repousando nas costas, quase como se duelasse em um sal?o nobre. Seus cachos castanhos balan?avam ao ritmo de seus passos, e embora seus olhos mostrassem uma pontada de tristeza, como se lamentasse cada vida que ceifava, sua determina??o n?o deixava espa?o para hesita??es. Cada golpe era letal.
¡ª Se agrupem! ¡ª bradou Am¨¦lia, sua voz cortando o ar e puxando os soldados para a realidade brutal ¨¤ sua volta. ¡ª Foquem nos sussurradores de p¨¦talas antes que eles iniciem uma nova ilus?o!
A cena ao seu redor era desconcertante. O n¨²mero de corrompidos era impressionante, um mosaico de seres que, para ela, pareciam ter sa¨ªdo de um pesadelo. Observando-os de relance, teve que refrear seu impulso de recuar, afinal, eram o dobro de suas tropas. Felizment, ao estudar rapidamente a forma??o inimiga, percebeu que a maioria dos advers¨¢rios mal sabia como empunhar uma arma, claramente despreparados para uma guerra em grande escala.
Apesar do estranho povo-planta se destacar com seus corpos cobertos de trepadeiras, musgo e flores ex¨®ticas que brotavam diretamente de suas peles, n?o eram os ¨²nicos presentes naquele campo de morte.
Entre as fileiras havia uma gama fascinante de variantes, e cada grupo parecia ter sua pr¨®pria peculiaridade. Sua aten??o foi atra¨ªda principalmente por pessoas de ossos retorcidos, figuras em que as deformidades eram t?o pronunciadas que seus pr¨®prios corpos pareciam enredados em ganchos e espinhos naturais. Seus n¨²meros eram pequenos e seus movimentos lentos, mas cada golpe era brutal e quase suicida. Eles avan?avam de forma incontrol¨¢vel, e suas extremidades afiadas perfuravam armaduras com uma facilidade anormal.
Nos flancos, corrompidos salivantes causavam ainda mais desconforto. Estas pobres pessoas possu¨ªam pele viscosa e olhos injetados de sangue, e seus dentes serrilhados pareciam prontos para despeda?ar qualquer coisa em seu caminho, acompanhados de um filete de saliva que escorria constantemente de suas bocas, deixando manchas de um l¨ªquido escuro no ch?o. Apesar de quase rastejarem, moviam-se com rapidez, esgueirando-se pelas beiradas e tentando atacar os soldados desprevenidos.
No entanto, n?o eram esses combatentes improvisados que a preocupavam, mas sim aqueles malditos vermes feitos de milhares de flores. Seus corpos massivos seguiam de perto alguns membros do povo verde, os quais, descaradamente, exibiam estranhas coroas feitas inteiramente de girass¨®is em suas cabe?as.
Assemelhavam-se a cachorros adestrados, mas, apesar disso, n?o mantinham a mesma fofura destes animais dom¨¦sticos, pois o denso p¨®len que exalavam tecia perturbadoras ilus?es, t?o detalhadas e cru¨¦is que amedrontavam at¨¦ mesmo os soldados mais experientes.
A guerreira avan?ava em frente a ela com rapidez e calma, cada golpe uma estocada mortal, e, em menos de um minuto, mais de cinco inimigos j¨¢ haviam ca¨ªdo perante sua lamina, sem muita amea?a.
Isso at¨¦ o primeiro plant¨ªneo se aproximar, indiferente ¨¤ pr¨®pria seguran?a, com uma faca avermelhada firmemente empunhada na m?o. Ele se lan?ou contra Am¨¦lia com a f¨²ria de um desespero inesperado. No reflexo, Am¨¦lia jogou a agulha contra o peito do atacante, que foi perfurado com um som seco, como se fosse apenas mais uma folha quebrando ao vento. O homem de madeira apenas sorriu, a faca a poucos cent¨ªmetros de alcan?ar o rosto da l¨ªder inimiga.
¡ª Pat¨¦tico ¡ª murmurou Am¨¦lia, com um suspiro de desd¨¦m.
Ela se moveu com um sutil passo para tr¨¢s, desviando-se do ataque sem perder a compostura. O plant¨ªneo, ainda sorrindo, virou o bra?o bruscamente, pronto para uma nova investida. Dessa vez, mirou diretamente no peito da mulher, e com uma velocidade impressionante, avan?ou em seu cora??o.
Seus planos foram frustrados quando repentinamente a intensidade da luz na lamina encravada em seu corpo aumentou. O brilho, antes discreto, transformou-se em uma luminosidade quase cegante, ofuscando a vis?o ao redor.
"Eu... com dor?" pensou o atacante, incr¨¦dulo.
Havia quanto tempo desde que ele sentira algo assim? Desde que havia sido transformado pela mana, seu corpo de madeira e folhas substitu¨ªra a vulnerabilidade da carne. A dor havia se tornado uma mem¨®ria distante.
Mas n?o era uma alucina??o: a dor estava l¨¢, real e intensa, cada fibra vegetal de seu corpo pulsava com uma agonia insuport¨¢vel. Contudo, foi uma sensa??o passageira, pois logo percebeu algo ainda mais perturbador. Rachaduras surgiam em seu peito e se espalhavam com velocidade assustadora. Ele tentou gritar, mas, antes que o som escapasse, sua garganta come?ou a se desfazer em estilha?os transl¨²cidos. Sua boca, seus olhos, cada parte de seu corpo come?ou a se fragmentar, se despeda?ando em uma destrui??o silenciosa.
E ent?o, ele j¨¢ n?o existia mais.
Am¨¦lia fitou o que restava dele com olhos cheios de pesar, seu semblante carregando um toque de melancolia. Era sempre assim: matar lhe trazia uma sensa??o amarga.
Com um movimento suave e quase cerimonial, balan?ou a agulha, limpando a lamina da poeira gelada que havia se depositado nela. Os pequenos peda?os de gelo ca¨ªram ao ch?o, estalando ao se misturarem com o sangue e a terra.
¡ª Desgra?ados, o que est?o esperando?! ¡ª gritou, levantando os olhos, a raiva escapando em um tom r¨ªspido. ¡ª Queimem tudo e recuem!
A ordem parecia ¨®bvia, mas execut¨¢-la era um desafio maior do que poderia parecer. Cada vez que um manipulador tentava se concentrar para lan?ar uma labareda, um ataque surgia de algum canto, for?ando-o a quebrar o foco. Quando uma fagulha ocasionalmente conseguia tocar as flores que cobriam o solo, os habitantes corrompidos se jogavam sobre ela, extinguindo-as com seus pr¨®prios corpos para impedir que o fogo se espalhasse. J¨¢ quando um sussurrador de p¨¦talas era atingido, rapidamente amputava a parte danificada de seu corpo sob as ordens das dr¨ªades que os comandavam. Ficavam menores, enfraquecidos, mas ainda capazes de exercer algum impacto no combate.Unauthorized duplication: this tale has been taken without consent. Report sightings.
A batalha se arrastava, as fileiras de ambos os lados diminuindo rapidamente. Os soldados estavam exaustos, seus movimentos se tornaram mais calculados e hesitantes, enquanto o ritmo fren¨¦tico da luta aos poucos era substitu¨ªdo por uma cautela cuidadosa para evitar mais baixas, perdendo a intensidade.
A ¨²nica exce??o eram os cavaleiros leves da Guilda dos Grifos. Eles seguiam em alta velocidade nas bordas do campo em seus cavalos, investindo e recuando com cautela. Com suas montarias ¨¢geis, n?o permitiam nenhuma brecha que os tornasse alvo das ilus?es dos sussurradores, embora os danos que infligiam fossem menos impactantes a cada incurs?o.
Amelia sentia o sangue ferver com a estagna??o. Os dentes cerrados e as m?os crispadas revelavam sua irrita??o crescente, queria acabar logo com aquilo, n?o gostava deste tipo de ambiente.
¡ª Pat¨¦tico! Pat¨¦tico! ¡ª murmurava, cada vez mais fora de controle, enquanto a compostura fria e disciplinada come?ava a ruir. A m?o que mantinha atr¨¢s das costas apertava seus cabelos com tanta for?a que fios rebeldes se soltavam em suas m?os.
Foi ent?o que, nesse momento, um som de est¨¢tica cortou o campo de batalha. Era baixo, mas claramente direcionado a ela. Seus olhos, ferozes e atentos, se viraram rapidamente em dire??o ao ru¨ªdo, se deparando com uma mulher planta carn¨ªvora de formato estranho, a qual parecia rir, como se zombasse da situa??o.
¡ª Acham mesmo que ignorar¨ªamos a fraqueza mais ¨®bvia do nosso ex¨¦rcito? ¡ª murmurou Marlene, com um sorriso desafiador nos l¨¢bios cheios de seiva. ¡ª O solo est¨¢ extremamente ¨²mido, n?o permitiremos que queimem esse local.
Amelia a ignorou; em um movimento r¨¢pido, atacou a figura zombeteira, mas a lamina cortou apenas fuma?a enquanto Marlene desaparecia.
¡ª Como ousam atacar nosso lar¡ ¡ª sussurrou a voz cheia de est¨¢tica da plant¨ªnea, t?o pr¨®ximo que Amelia sentiu o calor da respira??o em sua orelha. Instintivamente, a guerreira girou a espada, mas o movimento foi em v?o, acertando o ar mais uma vez. Nesse exato momento, um ataque invis¨ªvel acertou sua armadura, fazendo um rasgo no metal.
¡ª Vadia covarde, me encare de frente! ¡ª irritada, ela rosnou e olhou ao redor. A express?o gentil da l¨ªder dos Grifos havia se transformado em um ¨®dio puro e descontrolado. Ela apertou a espada, que come?ou a brilhar com uma intensidade ainda mais fria, e o ar em seu entorno tornou-se anormalmente gelado.
Outro ataque sibilou no ar. Amelia, agora mais alerta, tentou desviar, mas a lamina inimiga ainda conseguiu fazer um corte fino em sua cintura. Ela grunhiu, a frustra??o evidente em seus olhos.
¡ª Imundos pat¨¦ticos, apare?am! ¡ª rugiu. A frieza implac¨¢vel da lamina novamente cresceu, t?o intensa que os pr¨®prios l¨¢bios da guerreira come?aram a tremer. Uma leve neblina se estendia da arma, formando uma aura g¨¦lida que aumentava sua presen?a intimidadora no campo.
Seu foco aumentou ainda mais, e um sorriso sombrio surgiu em seus l¨¢bios quando, subitamente, um estalo sutil rompeu o ar semi congelado ao seu lado, um som quase inaud¨ªvel, mas o suficiente para denunciar a presen?a da oponente.
¡ª Te peguei, aberra??o!
O golpe foi certeiro. Um grito curto e ruidoso acompanhou o som de estilha?os quebrando-se. Em um instante, o mundo ao redor dela tremeu, a vis?o distorcida se despeda?ando como um espelho em frangalhos, dissolvendo a ilus?o em que estava. Quando a fuma?a clareou, Marlene estava ¨¤ sua frente, segurando o ombro onde antes estivera seu bra?o.
Sem olhos, mas com uma raiva quase palp¨¢vel, a mulher planta fixou um olhar mortal em Amelia, que, satisfeita, repetiu o movimento brusco da espada de sua luta anterior, fazendo os fragmentos congelados que antes eram o bra?o de Marlene ca¨ªrem ao ch?o.
¡ª N?o se preocupe ¡ª murmurou, o tom de voz carregado de ironia. ¡ª Eu n?o preciso de fogo para acabar com todos voc¨ºs.
Marlene n?o respondeu. Sabia que Amelia estava em um n¨ªvel muito acima em termos de combate, n?o seria capaz de derrot¨¢-la diretamente. Com uma express?o de desconforto, a mulher vegetal recuou lentamente, dissolvendo-se em meio ao sussurrador de p¨¦talas atr¨¢s de si.
A l¨ªder da guilda dos Grifos, agora em um breve momento de al¨ªvio, tamb¨¦m retornou, aproximando-se de um de seus capit?es, um homem alto com uma espada larga que parecia o completo oposto da sua, e com um olhar brusco, mas estranhamente gentil. Observando a armadura parcialmente destru¨ªda da l¨ªder, o capit?o bufou, uma express?o de respeito e desaprova??o misturadas em seu rosto.
¡ª Metade das nossas for?as j¨¢ foram destru¨ªdas ¡ª reportou ele. ¡ª Mas eles tamb¨¦m n?o est?o muito melhor. Nossos manipuladores restantes conseguiram reagrupar e incineraram algumas daquelas malditas minhocas, mas¡ as demais simplesmente desapareceram.
Amelia assentiu, encarando fixamente o ex¨¦rcito inimigo ¨¤ distancia.
¡ª Ordene que os cavaleiros deem a volta e ataquem de surpresa pelos flancos. Enquanto isso, vamos investir direto no centro da forma??o deles.
¡ª Isso ¨¦ perigoso, Amelia.
¡ª Cale a boca. Olhe o n¨ªvel desses caras. Vai me dizer que est¨¢ com medo?
¡ª N?o ¨¦ medo, mas...
¡ª Apenas me siga, idiota! ¡ª ela o interrompeu, sua voz cortante, enquanto partia para a linha de frente, sem olhar para tr¨¢s.
Os soldados entraram em forma??o rapidamente atr¨¢s dela, como se a presen?a firme de Amelia fosse o ¨²nico escudo necess¨¢rio. O capit?o, ainda um pouco reticente, fez um gesto aos cavaleiros, que entenderam a ordem prontamente e come?aram a se reposicionar, preparando o ataque lateral.
Do outro lado do campo, o ex¨¦rcito de Ins¨ªdia os observava com express?es misturadas de apreens?o e determina??o. Os feridos estavam sendo atendidos por dr¨ªades, que passavam pelas fileiras com recipientes de medicamentos estranhos. Os soldados que os bebiam pareciam recuperar rapidamente o vigor perdido; seus olhos se focavam, e suas m?os, que antes tremiam, ficavam firmes como a?o. A l¨ªder, Marlene, assistia ¨¤ cena com uma express?o impass¨ªvel.
Ela alinhou o r¨¢dio em seu peito e preparou o que poderia ser sua ¨²ltima mensagem para o ex¨¦rcito.
¡ª Pensem em suas fam¨ªlias ¡ª come?ou, com uma voz que adentrou no ouvido de cada um ao redor. ¡ª Pensem em suas casas. Pensem neste mundo t?o cheio de podrid?o¡ Hoje, guerreiros, temos apenas uma miss?o. E n?o ¨¦ uma miss?o bonita. A morte, afinal, quase nunca ¨¦ bonita.
Enquanto falava, ajustava os bot?es do r¨¢dio. Ela riu pensar que teria sido perfeito se houvesse tempo para instalar caixas de som nas planta??es, soube que estavam tocando a todo vapor no centro da cidade, mas aquele detalhe n?o importava mais. Com um ¨²ltimo giro no dial, o r¨¢dio se sintonizou fracamente na transmiss?o de Ana, e a m¨²sica intensa e vibrante tamb¨¦m ressoou no dispositivo preso em seu peito.
Ela fechou os olhos, sentindo a vibra??o em seu corpo.
A m¨²sica era especial para o mudo povo verde. E, nessa situa??o, tamb¨¦m foi para os soldados em campo.
O efeito da melodia misturava-se ¨¤ bebida que as dr¨ªades haviam entregado anteriormente; seus olhos, que haviam recuperado um intenso foco que sobrepunha o medo, come?aram a desanuviar-se. Os corpos balan?avam inconscientemente no mesmo ritmo das notas musicais que sa¨ªam como uma cachoeira, envolvendo-os como se fossem um s¨® com o som.
¡°Me desculpem por isso¡ mas ¨¦ o melhor para todos n¨®s¡±, pensou ela, com o olhar preenchido por uma sensa??o indescrit¨ªvel, enquanto via o efeito das drogas enraizarem-se profundamente na mente de cada soldado.
¡ª N?o se preocupem, povo de Ins¨ªdia! Hoje, a natureza est¨¢ do nosso lado! Hoje, venceremos!
Um grito de guerra se ergueu da multid?o, seguido de outro, e mais outro, at¨¦ que o campo de batalha ecoava com a promessa de resist¨ºncia. O ex¨¦rcito corrompido estava pronto, e avan?ou como uma onda viva de cor e for?a, al¨¦m de uma paz artificial que n?o deveria estar presente em seus estranhos sorrisos.
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CapÃtulo 147 - Direitos dos Vencedores
Se visto de longe, o campo de batalha parecia uma antiga pintura, uma daquelas imagens imortalizadas em livros de hist¨®ria: corpos e armas, rostos endurecidos e olhos vidrados em um campo de batalha que logo se tornaria uma lenda. Aqui acontecia uma guerra sem her¨®is, um confronto desesperado derivado do simples medo de deixar de existir.
A corrida inicial foi envolta em um sil¨ºncio quase respeitoso. Apenas o som de uma m¨²sica profunda e rascante, vindo de um ¨²nico r¨¢dio, ecoava em meio ¨¤ massa disforme de combatentes. A guilda dos Grifos, bem alinhada e organizada, avan?ava com uma disciplina impec¨¢vel, alinhados com a precis?o de um rel¨®gio.
Mas do outro lado, Ins¨ªdia se parecia mais com uma horda selvagem, movida por uma for?a primitiva, animalesca, zumbis vindos diretos dos filmes de terror da antiga era. Sob o efeito dos estranhos elixires das dr¨ªades, os corrompidos tinham olhos opacos e opressivos, estavam no limiar da consci¨ºncia, movidos apenas pela determina??o de vencer, de matar. Suas vontades eram levadas ao extremo pela necessidade, e, mesmo mal conseguindo pensar, cada um deles sabia que n?o havia escolha al¨¦m de lutar at¨¦ o fim.
Quando os primeiros corpos se chocaram, o sil¨ºncio se desfez em um mundo composto de gritos, a?o se chocando contra a?o e ossos se quebrando. Os soldados de Am¨¦lia tentaram deter a linha de frente dos corrompidos com escudos massivos, e, no in¨ªcio, a estrat¨¦gia parecia funcionar.
Espadas e lan?as se ergueram atr¨¢s dos defensores, perfurando a primeira onda de atacantes com efici¨ºncia brutal, mas a aparente ordem come?ou a ruir rapidamente. Ins¨ªdia n?o lutava como um ex¨¦rcito comum; seus combatentes eram t?o numerosos quanto imprevis¨ªveis, dispostos a sacrificar o pr¨®prio corpo, jogando-se contra a muralha de guerreiros em uma massa de carne e ossos.
A pilha de cad¨¢veres se amontoava com o passar dos minutos, mas ainda assim mais corrompidos continuavam com a avalanche humana, e assim finalmente quebraram a barreira. Os invasores, empurrados e esmagados, ca¨ªram de joelhos sob o peso brutal dos inimigos.
Tudo se transformou em um espet¨¢culo horrendo de viol¨ºncia pura onde, quando suas armas eram perdidas, os corrompidos usavam os dentes, m?os e punhos para continuar a briga. A ferocidade era carregada de uma tristeza tr¨¢gica, e cada encontro de duelistas era acompanhado de um ¨²ltimo suspiro resignado.
No centro do campo, Am¨¦lia permanecia imperturb¨¢vel, e lutava com seu melanc¨®lico sorriso renovado, com movimentos calmos que, apesar da irrita??o contida de pouco antes, eram um contraste completo com o pandem?nio ao redor.
¡ª Est?o demorando demais... cad¨º esses desgra?ados?
¡ª ¨¦ realmente estranho, j¨¢ deveriam estar aqui ¡ª ao seu lado, o capit?o, que escutou o murm¨²rio, deu de ombros.
Foi ent?o que, quase como se tivessem programado, finalmente ouviram cascos galopando. O som prometia destrui??o, uma investida que viraria a mar¨¦ do combate ainda mais a favor dos Grifos. Amelia sorriu com um toque de satisfa??o, j¨¢ imaginando o estrago que causariam na retaguarda dos inimigos, mas assim que os cavaleiros apareceram em seu campo de vis?o, notou imediatamente a forma??o estranha, desorganizada e espalhada.
Eles n?o avan?avam para um ataque, os melhores de sua guilda tinham express?es marcadas pelo pavor. Aqueles eram claros movimentos de desespero, n?o de estrat¨¦gia.
¡ª Algo est¨¢ acontecendo¡
Antes que pudesse analisar mais a fundo, o horror se revelou por vontade pr¨®pria: uma criatura gigantesca, um sussurrador de p¨¦talas do tamanho de um pequeno pr¨¦dio, avan?ava com uma presen?a monstruosa sobre o campo de batalha, perseguindo os cavaleiros em um frenesi devastador. A vis?o de uma massa viva de flores e ra¨ªzes colossais era surreal e bela, mas tamb¨¦m, aterrorizante,
"Eles se uniram?"
O pensamento da guerreira cacheada foi interrompido pela cena horrenda de dois cavaleiros sendo agarrados e esmagados pela criatura. Alguns, pegos antes disso, ainda estavam pendurados em sua boca, seus corpos despeda?ados ou perfurados, transformados em simples sacos de carne inerte. As p¨¦talas eram afiadas como laminas, cortando com a mesma facilidade com que uma espada corta o ar.
¡ª Manipuladores, ataquem aquela coisa! Agora!
Cada segundo contava; em instantes, aquela aberra??o estaria sobre eles.
¡ª Muitos j¨¢ est?o quase sem mana, Am¨¦lia ¡ª comentou o capit?o ao ouvir a ordem. ¡ª N?o teremos poder suficiente para derrubar algo como isso.
¡ª Se ainda est?o de p¨¦, podem fazer algo. Que usem tudo o que resta at¨¦ desmaiar! Precisamos incinerar essa coisa antes que ela chegue at¨¦ n¨®s!
O capit?o, tomando um respiro, desistiu de contrari¨¢-la e bradou uma reafirma??o da ordem.
¡ª Esquadr?o de mana, formem uma linha na ala direita! Os demais, protejam-nos!
Os soldados rapidamente obedeceram, movendo-se o melhor que podiam dentro da confus?o. Os manipuladores, suando e tr¨ºmendo, juntaram-se em frente a uma pequena casa de madeira, formando uma barreira de resist¨ºncia para impedir ataques de surpresa. Cada um come?ou a manifestar fogo da maneira que conseguia, criando uma variedade ca¨®tica de formas e intensidades.
Algumas chamas eram ferozes e inst¨¢veis, como brasas vivas que dan?avam no ar, enquanto outras, mais concentradas, criavam um fogo mais controlado, pulsando com uma energia est¨¢vel. Havia tamb¨¦m algumas mais exc¨ºntricas, esferas de fogo semelhantes a fogos de artif¨ªcio e, claro, chamas dos que mal se aguentavam de medo, as quais mal passavam de fagulhas. De qualquer forma, cada um colocava tudo o que restava de mana naquela ¨²ltima tentativa antes de seus corpos atingirem o limite.This content has been misappropriated from Royal Road; report any instances of this story if found elsewhere.
¨¤ distancia, era poss¨ªvel ver as dr¨ªades coroadas com os girass¨®is em um foco absoluto, tentando controlar a besta floral. Seus olhos estavam fixos no sussurrador, unindo-se em um s¨® fluxo de energia, sacrificando o que tinham para evitar que aquele monstro destru¨ªsse tamb¨¦m o seu pr¨®prio ex¨¦rcito.
N?o demorou muito para que finalmente os cavaleiros alcan?aram os inimigos, for?ando passagem pelas linhas desordenadas dos corrompidos. A estrat¨¦gia de atacar e recuar havia sido completamente abandonada; agora, era uma batalha desesperada pela pr¨®pria sobreviv¨ºncia..
Alguns foram capturados no caminho, suas montarias esmagadas pela multid?o que se jogavam sobre eles. Mas os sobreviventes n?o pararam. Ali¨¢s, nem mesmo olharam para tr¨¢s. Queriam apenas alcan?ar seus companheiros, sobreviver.
¡ª Lancem! R¨¢pido!
Com a ordem finalmente dada pela l¨ªder, o c¨¦u se encheu de fogo.
O impacto dos ataques foi devastador, mas n?o do jeito que os Grifos esperavam. O monstro queimava, as chamas dan?ando e lambendo suas p¨¦talas como um espet¨¢culo infernal. A mira n?o foi complicada, ent?o ningu¨¦m errou, afinal, n?o tinha como algo t?o massivo se esquivar, mas a criatura continuava sua marcha impiedosa mesmo com as labaredas. Tudo em seu caminho ardia ¡ª casas, ¨¢rvores e tropas de ambos os lados.
Aqueles que estavam em combate se dispersaram em panico, tentando escapar de qualquer jeito do ser que se debatia descontroladamente. Em apenas dez segundos, dezenas de soldados ca¨ªram. Ao fim de quarenta segundos, uma grande ¨¢rea ao redor do monstro havia se tornado um campo completamente preto. Quando sessenta segundos se passaram, o monstro finalmente sucumbiu, seu corpo se desfazendo em uma massa escura, e o ar sendo tomado por um mar de fuma?a espessa.
Os soldados, com tosse rouca e pulm?es queimando, tentavam proteger-se das substancias, mas parecia que nem a mana interna que concentravam em suas gargantas ajudava o suficiente. Am¨¦lia, envolta em um pano que umedeceu utilizando sua pr¨®pria espada, mal conseguia enxergar o que estava ¨¤ frente. Estava coberto de cortes e hematomas que adquiriu em pequenos combates durante a fuga, e seus olhos ardiam pelo contato com as part¨ªculas de cinzas. Mas, paradoxalmente, sentia-se estranhamente feliz, tomada por uma insanidade momentanea, ao perceber que seus soldados come?avam a se recuperar e ganhar terreno.
Caminhava de forma vagarosa quando, metros ¨¤ frente, um j¨¢ conhecido ru¨ªdo chamou sua aten??o. Ela franziu as sobrancelhas, surpresa, procurando sua origem, a qual encontrou entre uma pilha de corpos. Seus olhos n?o esconderam a alegria quando viu que era Marlene, a mulher-planta, com grande parte do corpo chamuscado. No entanto, essa alegria logo foi dissipada quando, mesmo com a sua inimiga ca¨ªda n?o tendo olhos, percebeu que a dr¨ªade a encarava com um ar de zombaria.
Enraivecida, se aproximou e, com um gesto impiedoso, pisou com for?a no corpo da plant¨ªnea, esmagando-o no ch?o. A est¨¢tica baixa e est¨¢vel vibrou descontroladamente de forma perturbadora, at¨¦ que se estabilizou em um baixo som cadenciado.
¡ª Do que est¨¢ rindo, criatura pat¨¦tica?
Marlene n?o respondeu. Em vez disso, aumentou a intensidade do seu riso de esc¨¢rnio. Am¨¦lia sentiu que ia explodir, e, num acesso de f¨²ria, come?ou a perfurar o corpo da dr¨ªade repetidamente com sua lamina fria, lascas de gelo se espalhando como vidro quebrado a cada impacto.
O riso da plant¨ªnea finalmente cedeu, substitu¨ªdo por leves gemidos e palavras cheias de dor.
¡ª Voc¨ºs¡ n?o t¨ºm¡ o direito de nos impedir¡ de viver¡
A frase, dita em uma s¨¦rie de tons quebrados e fragmentados, quase como se viesse de v¨¢rias vozes ao mesmo tempo, fez a l¨ªder dos Grifos pausar o ataque por um momento, seu rosto se contorcendo em desd¨¦m.
¡ª Direitos? ¡ª ela cuspiu as palavras. ¡ª Esse mundo ¨¦ regido por quem det¨¦m o poder. Somente os vencedores podem definir os direitos dos fracos.
¡ª Voc¨º est¨¢ certa¡ ¨¦ por isso que repito¡ voc¨ºs n?o t¨ºm o direito¡ n¨®s¡ venceremos¡
Antes que Am¨¦lia pudesse reagir, uma fina raiz que havia se enrolado sorrateiramente em torno de sua bota, perfurou a parte de tr¨¢s do seu joelho. Era uma perfura??o m¨ªnima feita atrav¨¦s da brecha da armadura, mas intensa o suficiente para faz¨º-la dar um passo atr¨¢s. Sem pensar muito sobre, ela esmagou a raiz com um chute, furiosa.
Contudo, em meio a esse gesto, notou que a m¨²sica no r¨¢dio de Marlene voltou a tocar, agora mais alta do que quando estavam em combate. Ela tentou chutar o r¨¢dio. N?o sabia o motivo, mas s¨® queria que aquela m¨²sica parasse desesperadamente. Foi ent?o que algo ainda mais estranho aconteceu: a m¨²sica deixou de vir somente do r¨¢dio, come?ando a ser emitida de todos os lados.
A percep??o foi acompanhada de uma leve vertigem. Seus olhos raivosos adquiriram uma intensa e desfocada cor branca. Ela piscou, tentando clarear a vis?o, mas os contornos ao seu redor estavam borrados. Sentia seu corpo ceder, como se sua pr¨®pria vontade estivesse sendo drenada, e a batida da m¨²sica parecia penetrar sua mente, invadindo cada pensamento.
Os sons de batalha ao redor diminu¨ªram, at¨¦ desaparecerem completamente, e Am¨¦lia se viu perdida em um espa?o vazio. E ent?o, de repente, estava cercada de flores de todas as cores, tudo t?o vivo e vibrante que a tranquilidade quase parecia um sonho.
Sem saber o que estava acontecendo, caiu de joelhos, ofegante e babando. No ¨²ltimo lampejo de lucidez viu o sorriso triunfante de Marlene, al¨¦m de m¨²ltiplas ra¨ªzes adentrando lentamente na terra ao redor da mulher. Por fim, ouviu o som de sua pr¨®pria voz, misturada ¨¤ da dr¨ªade, em um eco distante e contorcido.
¡ª Voc¨ºs¡ n?o t¨ºm o direito¡
Assim, em um piscar de olhos, a l¨ªder dos Grifos j¨¢ n?o era mais ela mesma. Seu corpo se perdeu na mesma dan?a macabra de seus inimigos, e sua espada se infundiu de mana inconscientemente, trazendo um frio inverno para o campo de batalha
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CapÃtulo 148 - O Orgulho do Bruto de Ferro
Duas risadas altas ecoavam pelo campo, soando como uma mistura bizarra de alegria e algo que beirava a insanidade. Para o grande cavaleiro montado em seu sapo colossal, aquele som n?o era nada reconfortante. Ele apertou as r¨¦deas da criatura, tentando ignorar o suor que escorria de sua testa. Cada gota que descia parecia anunciar um press¨¢gio sombrio.
O homem, um veterano da Guilda dos Brutos de Ferro, havia encontrado as duas mulheres mascaradas enquanto vagava pela cidade, e, ¨¤ primeira vista, achou que seria uma luta simples. Uma delas empunhava uma espada t?o grande e desproporcional que parecia mais decorativa do que pr¨¢tica, e a outra carregava um instrumento musical, um ala¨²de, que parecia ainda mais absurdo em um campo de batalha. Ele quase riu quando as viu, o cen¨¢rio era, no m¨ªnimo, inusitado.
Suspirou desanimadamente. Tudo tinha sido t?o entediante desde que se separara do resto de sua guilda. N?o havia ningu¨¦m com quem trocar uma boa conversa, e pior, o povo dali era simplesmente¡ fraco. Ainda assim, era uma pessoa otimista, ent?o tinha esperan?a de que aquelas duas figuras ao menos o entretecem um pouco.
Ativando um pequeno dispositivo, um choque de baixa propor??o atingiu o sapo-boi em que montava, fazendo-o parar. Era uma aberra??o da natureza, resultado de cruzamentos controlados de monstros, a especialidade de seu seleto grupo de J¨®queis.
Era uma vis?o aterrorizante por si s¨®, com quase quatro metros de comprimento, dois pequenos chifres afiados e uma pele esverdeada e salpicada de manchas negras que brilhava como um pantano sob a luz. Suas patas traseiras, musculosas e potentes, eram capazes de saltos devastadores, enquanto as dianteiras, menores, escondiam garras afiadas que cravavam no solo como se marcassem territ¨®rio. A cada coaxar profundo, suas glandulas pulsavam, emanando um cheiro acre que trazia n¨¢useas.
A sela era um espet¨¢culo ¨¤ parte, um trono improvisado com metal bruto e couro, cravado com runas que canalizavam eletricidade diretamente para o corpo do animal, ajudando em seu controle. Nas laterais, dois suportes refor?ados seguravam curtas lan?as de arremesso, enquanto um compartimento escondido carregava frascos de veneno extra¨ªdo diretamente de seu animal.
¡ª Voc¨ºs duas ¡ª o J¨®quei chamou de repente, fazendo com que as mulheres virassem simultaneamente os rostos. ¡ª N?o fa?am disso um t¨¦dio, ok? Meu Bogaroth est¨¢ cansado de n?o fazer nada.
Sem inten??o de acabar com aquilo rapidamente, o cavaleiro deu um comando silencioso. A montaria respondeu com um coaxar profundo que reverberou pelo campo, e sua longa l¨ªngua foi disparada em dire??o ¨¤ Ana.
O ¨®rg?o viscoso cortou o ar com uma velocidade impressionante, mas, para sua surpresa, a mulher mascarada nem se mexeu. Ela apenas inclinou a cabe?a ligeiramente, observando o ataque com uma calma perturbadora.
O cavaleiro sabia que n?o era poss¨ªvel ela defender com aquela estranha espada. N?o fazia sentido. A lamina era enorme, desequilibrada, desajeitada, e a mulher sequer parecia se preocupar em us¨¢-la com o devido cuidado. Ainda assim, com um giro elegante que desafiava as leis da f¨ªsica, segurando diretamente na lamina, mas sem um ¨²nico arranh?o, a mulher mascarada girou o bra?o e prendeu a l¨ªngua da criatura no ch?o. A perfura??o foi abafada, mas fez o sapo-boi guinchar em uma mistura de dor e surpresa quando, por instinto, a puxou de volta, dividindo a ponta ao meio.
¡ª Finalmente achamos algu¨¦m ¡ª murmurou Ana, limpando um pouco do muco que escorria pela lamina com a ponta do dedo.
¡ª Ele n?o parece muito forte ¡ª comentou Nyx, inclinando a cabe?a de forma entediada enquanto afinava as cordas de seu ala¨²de.
¡ª ¨¦ uma pena¡ Vamos procurar algo mais interessante.
¡ª Combinado!
E assim, como se a luta n?o fosse digna de sua aten??o, a rainha arrancou a espada do ch?o e voltou a caminhar, com a Sombra seguindo vagarosamente ao seu lado. Nenhuma delas olhou para tr¨¢s. A cena era t?o absurda que o cavaleiro ficou paralisado, sem saber se ria ou se gritava de ¨®dio. A m?o apertou o punho da espada bastarda que carregava, os n¨®s dos dedos ficando brancos.
¡ª Quem pensam que s?o para me ignorar assim?! ¡ª murmurou ele, finalmente recobrando a compostura.
Com um novo comando na lateral de sua montaria, o sapo-boi lan?ou duas novas l¨ªnguas ao mesmo tempo, ainda mais r¨¢pidas e ferozes. A dupla de Ins¨ªdia, sentindo a flutua??o no ar, reagiu imediatamente. Antes que as massas rosadas atingissem seus corpos, ambas saltaram em dire??es opostas.
¡ª Voc¨º ¨¦ est¨²pido? ¡ª perguntou Ana, pousando suavemente no ch?o, o tom de sua voz carregado de puro desd¨¦m. ¡ª Vai procurar o que fazer, caralho.
O cavaleiro tremia de raiva, o rosto queimando sob o capacete.
¡ª Voc¨º¡ como ousa um simples mascarado falar assim comigo?
Sem aviso, sua montaria deu um salto poderoso, lan?ando-se ao ar com uma for?a surpreendente. O impacto das patas traseiras contra o solo levantou uma nuvem de poeira, enquanto o sapo-boi projetava sua massa colossal diretamente sobre a espadachim. No alto, o monstro parecia ainda mais amea?ador, e sua sombra engoliu Ana, uma amea?a tang¨ªvel que a fazia parecer pequena em compara??o.
Enquanto isso, Nyx, agora confortavelmente sentada em uma pedra pr¨®xima, encarava o c¨¦u pregui?osamente.This text was taken from Royal Road. Help the author by reading the original version there.
¡ª Quer ajuda?
¡ª N?o esquenta. Vou acabar com isso de uma vez ¡ª Ana ajustou sua postura, os olhos avaliando a trajet¨®ria do ataque no ar.
Com a espada pronta, ela preparou um corte vertical, de baixo para cima, mirando o centro da criatura. Era um golpe calculado, direto, preciso.
Mas quando come?ou o movimento, ouviu um riso abafado vindo debaixo do capacete do cavaleiro. Era discreto, mas carregava uma satisfa??o maliciosa que a fez hesitar por um segundo.
"Ah, merda¡ Vacilei"
No momento em que a lamina tocou a barriga do sapo-boi, em vez de cort¨¢-la como esperado, deslizou sobre o muco que cobria sua pele. O atrito inesperado desviou a trajet¨®ria da espada e desequilibrou Ana, que deu um passo em falso para tr¨¢s.
O riso do cavaleiro aumentou, e como se j¨¢ soubesse o que aconteceria, moveu sua espada com for?a em dire??o ¨¤s costas de sua oponente, certo de que o golpe seria fatal. A arma atingiu o ar, pois, inesperadamente, Ana usou sua longa espada negra como uma vara de salto, impulsionando-se para o alto com uma agilidade que muitos achariam imposs¨ªvel naquela situa??o.
O homem ainda assim estava satisfeito. Mesmo errando o corpo de sua oponente, ainda atingiu em cheio a espada que ela usava como apoio. A for?a do impacto lan?ou Ana para longe, como uma boneca de pano sendo arremessada pelo vento, e ela deslizou pela avenida poeirenta. Sem ferimentos graves, mas agora coberta de sujeira, ela se levantou com um murm¨²rio irritado.
¡ª Quem ¨¦ o est¨²pido agora, mascarada idiota? ¡ª zombou o cavaleiro, rindo ao v¨º-la se recompor e balan?ando levemente conforme o sapo virava o corpo.
Ana o encarou, seu olhar se demorando no longo risco avermelhado que sua espada havia deixado no corpo do sapo. Sem responder, ela come?ou a bater as m?os na lateral de sua armadura para tirar a poeira. O som met¨¢lico era irritante, e ela sorriu ao perceber isso. Fez quest?o de continuar batendo, como se apenas quisesse incomod¨¢-lo.
¡ª Tem certeza de que n?o quer ajuda? ¡ª provocou Nyx, os p¨¦s balan?ando vigorosamente enquanto continuava sentada, observando a cena com um interesse renovado. ¡ª Agora que olho melhor, ele talvez n?o seja t?o ruim assim.
Ana revirou os olhos, sem responder, chutando uma pedra com descaso.
¡ª Voc¨º ¡ª come?ou ela, encarando novamente o homem ¡ª De que guilda ¨¦?
O inimigo a observou com aten??o, mantendo a espada em posi??o defensiva para qualquer sinal de um ataque surpresa.
¡ª Sou um orgulhoso J¨®quei dos Brutos de Ferro ¡ª declarou em uma voz carregada de orgulho.
¡ª J¨®quei? Ent?o faz parte do grupo de elite?
¡ª N?o apenas de elite! Somos a nata entre todas aquelas guildas in¨²teis.
¡ª E por que voc¨º est¨¢ sozinho? N?o deveria estar com o resto do ex¨¦rcito?
¡ª ¨¦ entediante enfrentar pessoas t?o fracas em conjunto¡
¡ª Te entendo ¡ª resmungou Ana. ¡ª Seria bom se as pr¨®ximas lutas tamb¨¦m fossem interessantes, mas justo os J¨®queis¡
¡ª Qual o problema? ¡ª questionou Nyx, curiosa.
¡ª Se est?o andando sozinhos, vamos ter sorte se encontrar mais algum. ¨¦ um grupo bem pequeno¡
O cavaleiro n?o esperou por mais conversas dispersas. Golpeando as r¨¦deas com mais for?a do que pretendia, e o sapo-boi reagiu com um coaxar furioso antes de voltar a saltar. Desta vez, a criatura n?o foi para o alto, mas diretamente na dire??o de Ana. A mercen¨¢ria sorriu, mas n?o desviou. Em vez disso, repetiu a estrat¨¦gia de usar sua espada como uma vara de salto, impulsionando-se para cima e girando o corpo no ar, em um movimento que fazia sua silhueta parecer um borr?o no c¨¦u.
O cavaleiro ergueu sua espada bastarda, preparado para aparar o ataque. Mas a mulher, no ¨²ltimo segundo, soltou a espada com uma m?o e a pegou com a outra, mudando a trajet¨®ria do golpe com uma precis?o que fez o cavaleiro arregalar os olhos.
Bogaroth, percebendo o perigo iminente, lan?ou sua l¨ªngua novamente, acertando-a com uma for?a brutal no est?mago. O impacto arrancou o ar de seus pulm?es, for?ando-a a cuspir involuntariamente, mas sua espada ainda alcan?ou o cavaleiro. No entanto, o golpe, embora preciso, apenas deslizou pela armadura pesada, deixando um profundo risco no metal, mas sem tocar a carne, e logo ela foi arremessada para longe.
Ainda no ar, a rainha mascarada fincou sua espada no ch?o para amortecer a queda antes de atingir uma das casas na lateral da avenida. Seu movimento parou com um estrondo, mas ela j¨¢ estava de p¨¦ antes que a poeira assentasse.
¡ª Porra, estou muito despreocupada ¡ª resmungou para si mesma, enquanto se alongava para tentar afastar o desconforto. Ela ent?o ergueu a espada novamente, girando o punho com um movimento ¨¢gil em dire??o a Sombra.
¡ª Finalmente encontramos nosso objetivo, s¨® por isso vou permitir que voc¨º toque.
¡ª Que mentira! Sei que voc¨º est¨¢ se co?ando pra me ouvir, minha voz ¨¦ t?o bonita! Ent?o¡ posso realmente come?ar?
¡ª Pode sim ¡ª respondeu Ana, balan?ando a cabe?a com um sorriso desconcertado N?o conseguia desgostar da mulher ao seu lado, por mais idiota que fosse.
O sorriso de Nyx se alargou enquanto seus dedos come?avam a dedilhar uma melodia intrigante, destoando do caos iminente. A primeira nota reverberou como um eco profundo, vibrando no ar ao redor do campo. O cavaleiro, ainda no alto de sua montaria, franziu o cenho, sem entender o que estava acontecendo. No entanto, um arrepio percorreu sua espinha ao notar a fuma?a negra que come?ou a emanar do instrumento.
¡ª Calma, Bogaroth¡ ¡ª ele murmurou, vendo o sapo sobre si estremecer, a voz carregada de uma apreens?o que n?o existia minutos antes. Mesmo sua armadura pesada parecia mais fria, como se o ambiente estivesse drenando sua coragem. ¡ª Que porcaria ¨¦ essa?
¡ª Isso? ¡ª Ana perguntou, se alinhando em um movimento pregui?oso. ¡ª Segundo essa mulher estranha, ¨¦ a hora do show.
E assim, com este ¨²ltimo sussurro de resposta, o ar foi preenchido pelo doce canto da barda.
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CapÃtulo 149 - O Grito da Lan?a Negra
Os cora??es das duas mulheres batiam como ar¨ªetes prestes a destruir um resistente port?o. Seus olhos, ambos negros como o mais profundo po?o, refletiam algo que n?o podia ser descrito como raiva ou f¨²ria, mas sim como uma calma perigosa, uma cortina que pouco escondia a loucura que ali se esgueirava.
A rainha mascarada gargalhava, sua voz ecoando pelo campo e tornando a situa??o perigosa em algo pr¨®ximo ao rid¨ªculo. A mana reversa pulsava ferozmente, alimentando seu corpo, mas exigindo um pre?o. Sempre que a Sombra tocava as cordas do ala¨²de, o caos parecia aumentar, dificultando para Ana manter a seriedade.
Ela n?o corria mais. Cada passo era uma declara??o, ent?o avan?ava com calma, como se o pr¨®prio tempo obedecesse ¨¤ sua vontade. Conforme a luta avan?ava, ap¨®s aprender um pouco os padr?es do grande sapo, se tornou muito mais f¨¢cil desviar, identificando com precis?o os pontos para onde ele n?o conseguiria saltar diretamente.
Com um ¨²nico golpe que beirava o cruel, cheio de um inc?modo desprezo silencioso, mais uma l¨ªngua foi cortada.
A extremidade caiu ao ch?o com um som molhado, e Bogaroth soltou um grito estridente, balan?ando desajeitadamente, mas logo uma nova l¨ªngua brotou, crescendo como uma serpente renascida. Ana observava com interesse, limpando a gosma que respingou em sua capa.
¡ª ¨¦ uma criatura incr¨ªvel, admito.
¡ª Acha melhor que a cura dos escamosos? ¡ª perguntou Nyx, dando uma breve pausa na m¨²sica.
Ana n?o teve tempo de responder. A interrup??o repentina dos acordes fez com que travou o fluxo for?ado de mana reversa, e seu corpo reagiu como se estivesse afundando em areia movedi?a. Ela cambaleou, uma m?o pressionando o peito antes de vomitar uma bocada de sangue.
¡ª Desgra?ada, quer me matar?
¡ª Ops! ¡ª respondeu a barda com falsa inoc¨ºncia, seus dedos j¨¢ voltando ¨¤ melodia. ¡ª Geralmente uso isso em cad¨¢veres, ent?o n?o costuma ser um problema.
Ana suspirou, endireitando o corpo e limpando ointenso carmesim que vazava pela borda da m¨¢scara. Seus m¨²sculos queimavam, mas a dor j¨¢ era parte dela.
¡ª Enfim, n?o d¨¢ pra saber se seria uma boa adi??o para as pr¨®teses. Ainda n?o estudei o DNA de criaturas, s¨® de corrompidos. Quem sabe quando tudo isso acabar.
¡ª ¨¦, quem sabe... ¡ª respondeu Nyx com desinteresse, voltando a dedilhar mais algumas notas r¨¢pidas.
Um grunhido profundo quebrou o momento. O cavaleiro soltou as r¨¦deas de Bogaroth e inclinou-se pregui?osamente contra seus chifres, guardando a espada bastarda de volta na bainha.
¡ª Que diabos... que diabos¡ ¡ª murmurou. ¡ª Eu n?o gosto de ser obrigado a lutar assim, mas voc¨ºs duas j¨¢ est?o me cansando. Chega. Bogaroth, salte!
O sapo obedeceu enquanto as duas mulheres o encaravam confusas, e o cavaleiro aproveitou o momento. J¨¢ no alto, com uma movimenta??o fluida, puxou uma lan?a curta de sua sela, concentrou sua mana interna, estabilizou sua mira e atirou-a com toda a for?a. O proj¨¦til voou, cortando o ar como uma flecha mortal.
Tudo aconteceu em um piscar de olhos, e Nyx viu apenas uma mancha vermelha explodindo em conjunto com um som nauseante. O sangue que atingiu seu rosto a deixou paralisada por um breve segundo.
Antes que pudesse processar o que havia acontecido, viu um soco vindo em sua dire??o. Instintivamente se abaixou, esquivando-se por um triz.
¡ª Idiota! Tira a cabe?a da lua!
O golpe havia sido dado diretamente pela pr¨®pria rainha, e o motivo estava claro: a lan?a que fora atirada estava cravada na m?o de Ana, atravessando carne e osso por completo.
¡ª Uou! Essa foi por muito pouco! ¡ª brincou a barda, com uma risada exagerada, saltando para tr¨¢s para desviar de mais um soco dado pela companheira, como se aquilo fosse parte de uma grande performance teatral. Sua m¨¢scara de ¨®pera escondia o sorriso, mas sua postura e movimentos tornavam imposs¨ªvel ignorar sua divers?o.
Ana estava preparada para investir novamente em dire??o a mulher, mas um brilho prateado chamou sua aten??o. Notou tardiamente que se tratava de um fino fio de metal entrela?ado ao cabo da lan?a, e antes que pudesse reagir, foi puxada pela m?o ainda perfurada.
O movimento a desestabilizou, e um estranho frasco que vinha junto com o pux?o se estilha?ou perto de sua perna. Felizmente, a maior parte de seu l¨ªquido c¨¢ustico atingiu o solo, mas o pouco que chegou ao seu corpo conseguiu corroer o couro e infiltrar-se nas brechas de sua armadura.
Ana cerrou os dentes enquanto sentia sua pele arder. Sem hesitar, arrancou um frasco regenerativo de seu cinto e o colocou com for?a no encaixe da armadura. O l¨ªquido demorou alguns segundos para se espalhar, e quando finalmente chegou na ¨¢rea afetada, apenas aliviou parte da dor, com a batalha entre o veneno e o regenerador continuando profundamente em sua carne.
¡°Vai ficar uma cicatriz, mas ¨¦ melhor do que perder uma perna¡±.
Ana usou a espada cravada no ch?o para apoiar-se e arrancou a lan?a de sua m?o ferida. O momento foi exato, pois assim que finalizou o gesto a arma foi novamente puxada, e sem um respiro foi obrigada a se impulsionar para tr¨¢s, desviando no ¨²ltimo instante de outra ponta afiada que estava chegando.
¡ª Impressionante, espadachim ¡ª zombou o cavaleiro, sua voz carregada de esc¨¢rnio enquanto suas m?os enrolavam as correntes com calma, recuperando os itens lan?ados. ¡ª Poucos sobrevivem ¨¤s minhas lan?as, e ainda menos ao ¨¢cido de Bogaroth.
¡ª E poucos conseguem ser t?o irritantes quanto voc¨º, est¨¢ de parab¨¦ns ¡ª respondeu de forma vagarosa Ana, balan?ando a perna para livrar-se dos ¨²ltimos vest¨ªgios do l¨ªquido venenoso atrav¨¦s da bota que agora estava parcialmente derretida.
Ao fundo, a fuma?a negra voltou a emergir de Nyx, que tocava o instrumento ainda mais intensamente do que em sua can??o inicial, e Ana estalou o pesco?o, sentindo o fluxo de for?a selvagem retornar para dentro de si como uma onda avassaladora. O cavaleiro resmungou algo inaud¨ªvel antes de dar outro comando ¨¤ sua montaria, e Bogaroth voltou ao ar, cobrindo o Sol com seu corpo em um tipo de eclipse grotesco.
¡ª Vai ser uma porra lutar com esse cara¡ Tenta s¨® fugir, Nyx. Vou ver o que fa?o.The author''s narrative has been misappropriated; report any instances of this story on Amazon.
¡ª Voc¨º pode usar manifesta??es, n?o?
¡ª ¨¦ nossa primeira luta, se eu gastar mana agora, as coisas podem se complicar um pouco¡ Bem, voc¨º sabe...
Nyx acenou, sem discutir, e girou o corpo no momento exato em que uma lan?a passou zumbindo a cent¨ªmetros de sua cabe?a. Ana desviou de duas outras que vinham em sua dire??o, aparando uma com sua espada. Para sua sorte, um frasco oculto entre as armas tamb¨¦m atingiu a lamina, derramando o l¨ªquido venenoso para o ch?o sem causar danos.
Bogaroth voltou a tocar o solo com for?a, mas quase imediatamente saltou novamente, obedecendo a outro comando de seu mestre. Mais tr¨ºs lan?as foram lan?adas, cada uma for?ando as mulheres a movimentos r¨¢pidos para desviar.
Desta vez, por¨¦m, o ¨¢cido foi em dire??o ¨¤ barda, que sem tempo para pensar, atirou o ala¨²de diretamente contra o proj¨¦til em um gesto quase desesperado. O impacto fez o frasco explodir no ar, espalhando o veneno longe. Felizmente, o instrumento, impregnado da mesma ess¨ºncia que a arma de Ana, permaneceu intacto.
A pausa na melodia, entretanto, fez Ana trope?ar mais uma vez. O retrocesso do poder a deixou momentaneamente pesada e descoordenada.
¡ª Desculpe! ¡ª gritou Nyx, j¨¢ correndo para recuperar o ala¨²de e voltar a tocar.
¡ª Isso n?o vai dar certo¡ ¡ª Ana suspirou, balan?ando a cabe?a enquanto sua mente trabalhava rapidamente para analisar o campo de batalha.
Bogaroth pousou novamente, rachando o ch?o sob seu peso, e preparou-se para, mais uma vez, repetir a a??o de ir aos c¨¦us.
¡ª Sem lan?as dessa vez? ¡ª pensou rapidamente a mulher com os olhos seguindo o movimento do J¨®quei. ¡ª Seis, ent?o... supondo que ele n?o esteja escondendo algumas.
Com o corpo movendo-se quase automaticamente, ela come?ou a correr em dire??o ¨¤ ¨¢rea onde o cavaleiro estava. Quando a montaria flexionou as patas traseiras, Ana deu um impulso poderoso, e sua lamina brilhou sob a luz enquanto cortava o ar, desferindo um golpe pesado na enorme pata traseira do monstro.
Seus m¨²sculos, agora repletos de mana reversa, quase explodiram com o esfor?o, mas diferente do ¨²ltimo ataque direto ao animal, esse surtiu efeito. Um longo corte abriu-se na carne da pata, e o salto saiu descontrolado, fazendo a criatura colidir com o telhado de uma grande casa, que desmoronou sob seu peso. Infelizmente Ana n?o teve tempo para comemorar. Antes que a poeira baixasse, ouviu um suave tintilar de correntes, e duas novas lan?as vieram voando em sua dire??o.
A primeira passou de rasp?o, abrindo um corte ardente em seu bra?o. A segunda errou por pouco, e o impacto contra o ch?o pr¨®ximo a ela jogou fragmentos de pedra e metal que arranharam sua armadura. Rangendo os dentes, esperou por um momento, tentando prever de onde o J¨®quei viria em seguida.
¡°Concentre-se, idiota¡ concentre-se¡±
Respirou fundo, os segundos pareciam anormalmente demorados, at¨¦ que, como esperava, o som do atrito met¨¢lico denunciou mais uma vez as lan?as sendo puxadas de volta para a sela. Disparou na dire??o do J¨®quei, que j¨¢ comandava um novo salto. Desta vez, Ana ajustou sua posi??o e desferiu outro golpe r¨¢pido, abrindo mais um corte no corpo da criatura.
¡ª N?o est¨¢ sendo profundo o suficiente... ¡ª resmungou, sentindo o cansa?o acumular-se em seus m¨²sculos e vendo que, por mais que machucada, a criatura continuou os movimentos. Seus ossos come?aram a protestar com estalos cada vez mais aud¨ªveis, e ela alcan?ou mais um frasco regenerativo no cinto. ¡ª S¨® restam mais tr¨ºs... Isso vai ter que bastar.
A sua frente, a sombra do sapo indicava onde ele pousaria em seguida. Ana correu para intercept¨¢-lo, afinal, era tudo o que poderia fazer. N?o esperava que, desta vez, o J¨®quei estaria preparado. Assim que ela se aproximou, uma das armas foi lan?ada diretamente em dire??o ao seu rosto, enquanto a enorme espada bastarda do cavaleiro descia em um arco mortal em dire??o ao seu tronco.
N?o havia tempo para desviar de ambos. Com um movimento r¨¢pido, ela conseguiu sair da trajet¨®ria da lan?a, mas para a espada, precisou colocar sua pr¨®pria lamina como barreira. O choque percorreu seu corpo como um raio, e, pela primeira vez em muito tempo, Ana soltou sua arma. A dor na m?o mutilada tornou imposs¨ªvel manter o agarre.
¡ª Merda! ¡ª gritou, impulsionando-se para tr¨¢s com um fluxo de mana reversa que concentrou nos p¨¦s. O movimento evitou o pr¨®ximo golpe, mas, ao pousar, suas pernas fraquejaram, e ela caiu de joelhos.
O J¨®quei come?ou a rir em um tom alto e cheio de arrogancia. Contudo, ao inv¨¦s de irrit¨¢-la, o som instigou-a, e um riso contido pela dor escapou de seus l¨¢bios, crescendo at¨¦ se igualar ao do inimigo.
Cambaleando, a mercen¨¢ria se levantou. Estendeu a m?o para pegar sua espada ca¨ªda, mas sentiu algo estranho. A arma parecia menor do que deveria. Seus olhos estreitaram-se em confus?o, e antes que pudesse entender o motivo, sentiu o pux?o s¨²bito da corrente. O homem, com um movimento firme, arrancou a arma de arremesso de suas m?os.
¡ª Ah¡ Eu devo estar realmente cansada¡ ¡ª murmurou Ana, os l¨¢bios curvando-se em um sorriso incr¨¦dulo. Desta vez, estendeu o bra?o corretamente em dire??o ¨¤ sua arma escura. ¡ª Acredita que confundi voc¨º, velha amiga, com uma simples... lan?a¡?
Foi quando a realiza??o a atingiu com a for?a de um soco de lutador de boxe. Seus olhos se arregalaram, e uma gargalhada estrondosa escapou de sua boca, reverberando pelo campo.
¡ª Caralho¡ caralho! Estou ficando senil! Uma velha est¨²pida e senil!
Ela balan?ava o metal negro em suas m?os como se tivesse acabado de descobrir um segredo mirabolante do universo. Ao mesmo tempo, n?o conseguia deixar de sentir-se ridiculamente burra.
¡ª Longa demais para uma espada. Fina demais para uma espada. T?o estupidamente ¨®bvio! S¨® pode ser uma lan?a!
Ao fundo, o som dos saltos de Bogaroth ecoava mais uma vez, a terra tremendo a cada impacto. Mas ela ignorava a aproxima??o do monstro. Fechou os olhos brevemente, deixando o mundo ao redor se dissolver em ru¨ªdos abafados. Quando soltou o ar, junto com ele veio um punhado da fuma?a negra que a fortalecia, ondulando como serpentes ao seu redor.
¡ª Gastar s¨® um pouquinho de mana n?o vai fazer mal... ¡ª resmungou, enquanto uma fina vinha emergia de sua armadura, subindo em espirais pela empunhadura da arma negra. A energia reversa fluiu como um veneno vivo, e com sua influ¨ºncia sobre a mana comum, espinhos surgiram por toda a extens?o da manifesta??o. Eles perfuraram sua m?o sem piedade, gotas de sangue escorriam por seu bra?o, mas Ana n?o se importava.
Como se absorvendo parte da energia de sua dona, a arma come?ou a brilhar fracamente. Era um brilho opaco, quase como o reflexo de um abismo infinito, devorando tudo ao seu redor.
Vendo isso, Ana ajustou sua postura com cuidado. Mem¨®rias do Grande Vazio afloraram em sua mente, de um tempo onde aquele movimento fora praticado milhares de vezes, mas seu corpo parecia lembrar antes mesmo de sua consci¨ºncia.
Flexionou os joelhos, transferindo o peso para a perna de apoio. A m?o que segurava a arma ajustou-se levemente, buscando o equil¨ªbrio perfeito. Os m¨²sculos de seus ombros e bra?os tensionaram-se, enquanto o fluxo de mana reversa percorria suas veias como fogo l¨ªquido. Cada parte de seu corpo parecia uma mola prestes a se soltar. Bogaroth, agora quase sobre ela, era uma amea?a colossal, mas a mercen¨¢ria estava pronta para isso.
Com um grito rouco, jogou a arma.
A lan?a negra rasgou o ar com uma estranha beleza em um trajeto hipnotizante. Seu movimento era t?o gracioso quanto implac¨¢vel, uma obra de arte forjada para a destrui??o, um predador ansioso por ser liberado.
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CapÃtulo Extra 1: Sabor de FamÃlia
*Cap¨ªtulo extra n?o can?nico
A floresta estava coberta por uma fina camada de neve, que ca¨ªa em espirais silenciosas, absorvendo o som dos passos de Ana. O frio era t?o intenso que parecia cortar sua pele, o que, para ela, era uma sensa??o incomum e inusitada, por¨¦m mais um inc?modo do que uma amea?a.
Foi ent?o que, em meio ¨¤ tempestade, uma luz distante chamou sua aten??o. Uma cabana simples, com dois andares, surgiu ¨¤ sua frente. As luzes das velas iluminavam fracamente a neblina nas janelas, revelando vultos que se moviam l¨¢ dentro. Sem ter um rumo claro, Ana decidiu se aproximar.
Com o p¨¦, bateu ¨¤ porta. Esperava que ningu¨¦m a atendesse, afinal, quantos moradores estariam dispostos a abrir suas casas a estranhos em uma noite como aquela?
Para sua surpresa, rapidamente ouviu um rangido leve, revelando uma mulher de cabelos grisalhos e um sorriso doce. Seu rosto era acolhedor, como o de uma av¨® que sempre sabe o que dizer para confortar.
¡ª Oh, meu Deus! ¡ª exclamou a mulher, surpresa. ¡ª Uma viajante! Voc¨º deve estar congelando. Entre, querida, entre!
A mulher a puxou suavemente para dentro da cabana, e Ana permitiu que o calor a envolvesse. O interior era aconchegante, a lareira crepitava no canto, o cheiro de algo assando no forno preenchia o ar, e a decora??o simples, mas charmosa, criava uma atmosfera que contrastava violentamente com a nevasca l¨¢ fora.
¡ª Fui pega de surpresa pela tempestade de neve ¡ª comentou a mercen¨¢ria, observando o ambiente com cuidado, seus olhos analisando cada detalhe.
¡ª Ah, isso acontece muito por aqui. A neve ¨¤s vezes chega sem aviso. Meu marido est¨¢ preparando o jantar. Querido, temos visita!
¡ª ¨®timo! ¡ª uma voz grave e abafada respondeu da cozinha. ¡ª Vou colocar mais carne na grelha!
¡ª N?o precisam se preocupar comigo. Vou embora assim que a nevasca enfraquecer ¡ª disse Ana, sem querer atrapalhar a noite do casal.
¡ª N?o seja boba, querida. Isso pode durar horas! ¡ª comentou a mulher, soltando uma risada suave. ¡ª No pior dos casos, at¨¦ dias!
¡ª Certo, ent?o. Acho que posso ficar um pouco mais¡ ¡ª Ana esbo?ou um sorriso contido, quase impercept¨ªvel, e cedeu, encostando sua espada com cuidado ao lado da porta. Sendo orientada pela senhora, sentou-se em uma cadeira de madeira acolchoada, sentindo o calor da lareira ao fundo aquecer suas costas.
Minutos depois, o marido da mulher apareceu com uma grande bandeja. Ele era um homem imenso, de quase dois metros de altura, com uma constitui??o robusta, um pouco gordo, mas de apar¨ºncia forte. Seu avental estava salpicado de manchas vermelhas, algo que, em qualquer outro contexto, poderia passar despercebido, mas que chamou a aten??o de Ana imediatamente pelo contraste com seu sorriso amig¨¢vel.
¡ª Carne fresca? ¡ª perguntou casualmente a rainha, sentindo o forte aroma no ar enquanto o homem se aproximava da mesa.
Ele sorriu amplamente, um brilho de orgulho surgindo em seus olhos.
¡ª Ah, sim! Tentamos sempre manter tudo fresco. Isolados assim, precisamos garantir que o corte seja feito na hora ¡ª disse, ajeitando a bandeja com cuidado. ¡ª N?o h¨¢ nada como o sabor de algo¡ Bem, voc¨º sabe, rec¨¦m-preparado.
¡ª Realmente ¨¦ mais saborosa assim ¡ª comentou Ana, avaliando os cortes. ¡ª Isso est¨¢ muito bem alinhado, ¨¦ uma t¨¦cnica maravilhosa.
¡ª Parece que temos uma convidada que entende das coisas esta noite ¡ª comentou a gentil senhora.
¡ª Meu Deus, onde est?o meus modos! ¡ª exclamou o grande homem de repente. ¡ª Meu nome ¨¦ Jefferson, e esta ¨¦ minha esposa, Ana.
¡ª Curioso. Tamb¨¦m me chamo Ana. ¨¦ um prazer.
Os dois sorriram com a coincid¨ºncia, compartilhando o momento com uma leveza desconcertante, e logo come?aram a se servir. Ana tamb¨¦m come?ou a comer em sil¨ºncio, mastigando devagar. Por um breve momento, seus olhos se arregalaram ao sentir o gosto da carne, mas logo sua express?o voltou ao habitual.
¡ª E de onde voc¨º ¨¦? ¡ª perguntou a mulher, a outra Ana, curiosa, enquanto se servia de mais um peda?o de carne.
¡ª De uma vila pr¨®xima. Estou apenas treinando por aqui. Nada demais.
¡ª N?o sabia que tinha uma por aqui. Sabe, n?o conhecemos muito da regi?o ¡ª comentou Jefferson. ¡ª Gostamos do nosso canto isolado. Tranquilo, sem perturba??es.
As conversas flu¨ªram naturalmente, enquanto o vento l¨¢ fora soprava forte, aumentando a sensa??o de isolamento. A luz das velas iluminava o ambiente de forma aconchegante, mas havia uma tens?o sutil no ar.
Finalmente, ap¨®s alguns minutos de mais mastiga??o, Ana colocou seu garfo sobre o prato e levantou o olhar devagar, limpando a boca com um guardanapo de tecido.
¡ª Pode ser meio indelicado, e realmente n?o quero ser rude... ¡ª disse ela, em um tom calmo, mas com uma pitada de ironia. ¡ª Mas apesar do bom corte, a carne est¨¢ muito mal preparada.Stolen from Royal Road, this story should be reported if encountered on Amazon.
O casal parou, trocando um olhar breve e confuso. Por um momento, um novo sil¨ºncio pairou sobre a mesa, dessa vez mais pesado do que o anterior.
¡ª N?o entendi... ¡ª disse a mulher, a do?ura ainda presente, mas um pouco mais hesitante.
¡ª Se voc¨ºs realmente quiserem aproveitar bem esse tipo de carne, precisam entender como cada parte do corpo funciona ¡ª come?ou Ana, encostando com o dedo na comida que restava no prato para sentir a textura. ¡ª Por exemplo, m¨²sculos como este aqui ¡ª apontou com a faca para o prato ¡ª S?o bastante firmes, e por isso ¨¦ preciso uma prepara??o cuidadosa. O ideal seria marin¨¢-los por v¨¢rias horas com algo ¨¢cido, como vinho ou vinagre, para quebrar as fibras. Depois, devem ser cozidos lentamente, de prefer¨ºncia a baixas temperaturas, para que a carne n?o endure?a.
Os dois moradores a encaravam, seus sorrisos suaves se esvaindo enquanto o choque de ouvir uma an¨¢lise t?o meticulosa surgia em seus rostos.
¡ª Mas claro, se voc¨ºs querem mais sabor e maciez, o melhor ¨¦ usar partes mais gordurosas. As coxas, por exemplo ¡ª continuou Ana, contornando a pr¨®pria perna com a faca como se estivesse falando de algo trivial. ¡ª Elas t¨ºm uma combina??o perfeita de m¨²sculo e gordura. Assadas com a pele, a gordura derrete e infunde a carne, mantendo-a suculenta. Mas, para conseguir o melhor resultado, ¨¦ importante usar a t¨¦cnica correta de tempero. Algo simples, como alho, ervas e um pouco de sal grosso, pode fazer maravilhas.
Jefferson e sua esposa ainda estavam como est¨¢tuas, sem saber como reagir, mas Ana n?o parecia se importar. Ela levantou a faca levemente, apontando para o prato novamente, e depois subindo por seus bra?os.
¡ª Os ombros tamb¨¦m s?o uma boa escolha ¡ª explicou, mudando o tom para algo quase apreciativo. ¡ª Eles t¨ºm bastante col¨¢geno. Se forem cozidos lentamente, o col¨¢geno se transforma em uma gelatina natural, o que deixa a carne desmanchando na boca. Um bom ensopado com os ombros pode alimentar uma fam¨ªlia por dias!
Ela ent?o franziu a testa ligeiramente, como se estivesse se lembrando de algo importante.
¡ª E n?o podemos esquecer dos ¨®rg?os! ¡ª havia uma pontada de entusiasmo em sua voz que causou um calafrio no casal. ¡ª O f¨ªgado ¨¦ uma iguaria, especialmente quando ainda macio e cheio de sangue. Basta sel¨¢-lo rapidamente em uma frigideira bem quente, com manteiga e ervas. Simples, mas elegante.
Ana fez uma pausa, saboreando as palavras.
¡ª E o cora??o... ah, o cora??o ¨¦ uma verdadeira obra de arte. Cada m¨²sculo firme e cheio de vida. Se cortado em fatias finas, grelhado at¨¦ atingir a perfei??o, com apenas um toque de sal e lim?o, pode se transformar em uma experi¨ºncia que faz voc¨º... transcender seus limites. Digo por experi¨ºncia pr¨®pria!
O casal estava estupefato, suas express?es revelando uma mistura de fasc¨ªnio e horror, como se estivessem ouvindo uma especialista falar de um banquete em um restaurante sofisticado, mas a realidade da situa??o tornava aquilo tudo grotesco.
Foi ent?o que, em um movimento s¨²bito, o marido e a esposa puxaram facas longas de suas cinturas, tentando esconder o nervosismo em seus rostos.
Ana sequer olhou para eles. Continuou cortando outro peda?o da carne e, com tranquilidade, levou-o ¨¤ boca. O sil¨ºncio ensurdecedor da sala foi interrompido apenas pelo som de seus dentes cortando as fibras do alimento.
¡ª Parem com isso ¡ª disse ela com um tom despreocupado, olhando para eles por cima do prato. ¡ª S¨® quis ajudar.
¡ª Quem... quem ¨¦ voc¨º, afinal?
¡ª Eu? ¡ª ela inclinou a cabe?a levemente, um sorriso ir?nico nos l¨¢bios. ¡ª Sou apenas uma viajante. Algu¨¦m que entende de boas refei??es e sabe apreciar um trabalho bem feito.
Jefferson abaixou lentamente a arma que carregava, confuso e claramente intimidado.
¡ª Voc¨º realmente entende de carne... ¡ª disse por fim, tentando parecer calmo, mas sua voz tremia levemente. ¡ª Poderia repetir o que disse? Acho que... n?o anotei direito.
Ana riu alto, um som que ecoou pela cabana, reverberando nas paredes de madeira. O riso era ao mesmo tempo leve e carregado de uma frieza desconcertante.
¡ª Posso fazer melhor do que repetir; Se tiverem carne suficiente, posso ensinar na pr¨¢tica!
A outra Ana, ainda um tanto abalada, tentou manter a compostura. Seu sorriso nervoso retornou, embora seus olhos tra¨ªssem o medo crescente.
¡ª Claro que temos carne suficiente, querida. J¨¢ disse que estamos sempre preparados.
¡ª ¨®timo ¡ª respondeu a rainha, caminhando at¨¦ o centro da sala e estalando os dedos, como se estivesse se preparando para algo do dia a dia. ¡ª Vou preparar a ceia eu mesma. Hoje vamos ter um verdadeiro banquete.
Ela foi ent?o em dire??o ¨¤ cozinha, seus passos lentos e deliberados.
¡ª Afinal, ¨¦ Natal!
O casal permaneceu em sil¨ºncio, enquanto Ana j¨¢ dava uma boa olhada nos utens¨ªlios, como se estivesse na pr¨®pria casa. Jefferson olhou para a esposa, que deu de ombros, e ambos seguiram-na, ainda incertos se deviam temer ou admirar aquela estranha mulher que havia transformado a noite em algo muito al¨¦m do que haviam planejado.
Aos poucos, as tens?es baixaram, e as horas se passaram lentamente. O trio se envolveu em pequenas conversas, relembrando anedotas de um passado antigo e, por um breve momento, parecia que o tempo havia parado. L¨¢ fora, o vento uivava, mas dentro da cabana, o calor e a luz do fog?o tornavam a cena quase id¨ªlica, com Ana, Jefferson e a outra Ana rindo juntos como se fossem velhos amigos.
De vez em quando, um leve ru¨ªdo vindo do por?o ¡ª algo entre um arrastar e um gemido abafado ¡ª atravessava o ambiente, mas parecia t?o distante que ningu¨¦m mencionava. O cheiro de comida sendo preparada era intenso, e a leveza das intera??es criavam uma atmosfera quase familiar, fazendo, por um breve momento, que ali parecesse um ref¨²gio de aconchego e alegria, e, acima de tudo, uma fam¨ªlia perfeita e feliz.
Afinal¡
¨¦ Natal.
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CapÃtulo 150 - Bifurca??o dos Caminhos
O J¨®quei, alheio ao que sua oponente pensava, preparava-se para lan?ar outra ofensiva. Sua mente estava completamente focada, as m?os firmemente enroladas nas correntes das lan?as, como se pudesse resolver tudo com o mesmo ritmo que manteve at¨¦ o momento. Por¨¦m, de repente, algo estranho surgiu bem ¨¤ frente da sela de sua montaria.
Parecia um estranho incha?o e crescia de maneira grotesca, como se o pr¨®prio corpo do monstro estivesse tentando expelir algo. Ele franziu a testa e piscou repetidamente, como se a vis?o fosse um truque da luz.
¡ª Ser¨¢ que te levei ao limite, Bog?
Foi s¨® quando a ponta negra e afiada da lan?a atravessou a pele viscosa, rasgando carne e tecido de um lado ao outro, que ele entendeu o que havia acontecido.
O sapo sequer teve tempo de dar um ¨²ltimo coaxar. Seu corpo balan?ou no ar, descontrolado, e ent?o caiu de lado, capotando como uma pedra descendo uma colina, esmagando tudo em seu caminho.
O cavaleiro, antes preso ¨¤ sela, foi arremessado com a viol¨ºncia do tombo. Seu corpo, envolto na pesada armadura, colidiu brutalmente contra uma ¨¢rvore, o impacto foi suficiente para entort¨¢-la levemente e arrancar folhas e galhos, e ele caiu ao solo com um baque, ofegante e claramente atordoado.
Ana sorriu satisfeita e puxou a vinha que ainda estava conectada ¨¤ lan?a negra, fazendo a arma voltar para sua m?o com um movimento estranho, mas funcional.
¡ª N?o posso negar... esse truque ¨¦ excelente ¡ª disse ela, com um tom casual e divertido.
O cavaleiro grunhiu de dor, tentando recuperar o f?lego. Seus movimentos eram lentos e desajeitados enquanto se levantava. A armadura rangia a cada esfor?o, como se cada parte protestasse contra a decis?o de continuar.
¡ª Voc¨ºs¡ ¡ª murmurou ele, enquanto se endireitava, pegando a espada bastarda que por sorte foi lan?ada ao seu lado. ¡ª Voc¨ºs s?o duas FILHAS DA PUTA! Sabem quanto tempo eu gastei criando o Bogaroth?! Voc¨ºs v?o pagar¡ v?o virar ra??o, suas desgra?adas! FILHAS DA PUTA!
Come?ou ent?o a correr na dire??o de Ana, movendo-se como um touro enfurecido. Seu grito de guerra reverberava pelo campo, mas a rainha permaneceu im¨®vel. Uma express?o s¨¦ria preencheu seus olhos, contrastando com seus muitos dentes ¨¤ mostra.
Dessa vez, se preparou n?o para uma espada incomum, mas sim com uma postura adequada para a natureza de uma lan?a. Seu agarrar simulava a forma que se segura um pique, e seu corpo se alinhou com a arma, os p¨¦s firmemente plantados no ch?o. O direito ficou um pouco mais ¨¤ frente, para dar apoio e absorver o impacto, e j¨¢ o esquerdo, recuado, ancorava seu equil¨ªbrio.
A m?o dominante estava firmemente presa ao cabo da arma, enquanto a outra, coberta pela armadura, se posicionava mais pr¨®xima ao centro, diretamente sobre a lamina, pronta para redirecionar o movimento quando necess¨¢rio. Era uma postura cl¨¢ssica, mas implac¨¢vel, projetada para o simples prop¨®sito de atravessar inimigos.
¡°Matar¡±.
O agarre da rainha mercen¨¢ria ficou mais firme com o sussurro inesperado.
¡ª Agora, sim¡ Achei que esse cara n?o tinha chamado sua aten??o ¡ª murmurou para a arma, com um sorriso afiado sob a m¨¢scara. ¡ª Vamos acabar com isso de uma vez.
Ela ent?o esperou, observando cada detalhe do oponente. Era um guerreiro admir¨¢vel, n?o podia negar. Sua postura, mesmo sem sua montaria, era perfeita. Cada movimento dele parecia mais um pren¨²ncio do impacto iminente. O movimento dos p¨¦s, a forma como segurava a arma, tudo.
Quando finalmente o J¨®quei estava perto o bastante, Ana agiu, movendo-se com a precis?o de uma predadora. A ponta da lan?a brilhou sob a luz do campo, e seu objetivo era claro: empal¨¢-lo de uma vez s¨®.
No entanto, antes que o golpe pudesse ser desferido, algo inesperado aconteceu.
Uma massa rosada surgiu em sua vis?o, a mesma l¨ªngua que ela havia visto v¨¢rias vezes durante o combate. Confusa, pensou em desviar, mas notou que desta vez se estava indo em dire??o ao cavaleiro. Tomou s¨® um momento para enrolar-se bruscamente ao redor do homem com uma for?a esmagadora, interrompendo sua investida no ¨²ltimo segundo.
¡ª O qu¨º?! ¡ª ele gritou, sua voz carregada de surpresa e indigna??o enquanto era puxado para tr¨¢s, diretamente para a grande boca de Bogaroth.
O cavaleiro se debatia com f¨²ria, tentando libertar-se. Sua espada bastarda, ainda em m?os, foi erguida em um arco desesperado e cravada com for?a dentro da boca do sapo. Sem sucesso, repetiu o movimento v¨¢rias vezes. O a?o perfurava o interior do monstro, atravessando partes de sua carne e emergindo pelo lado de fora em estocadas brutais.
Mas Bogaroth n?o reagia. Os ataques pareciam insignificantes para o sapo colossal, que mastigava com for?a inabal¨¢vel.The narrative has been taken without authorization; if you see it on Amazon, report the incident.
¡ª N?o! Eu sou um J¨®quei dos Brutos de Ferro! N?o vou morrer assim!
Sua declara??o saiu em um forte rugido, mas foi tragada pela cacofonia grotesca que preenchia o ar. Estalos horrendos ressoaram, o som de ossos sendo triturados contra os dentes massivos da criatura. Cada mordida parecia uma senten?a, acompanhada pelo ru¨ªdo molhado de carne sendo dilacerada. O esfor?o do cavaleiro tornava-se cada vez mais fren¨¦tico, at¨¦ que, por fim, os gritos foram substitu¨ªdos por um sil¨ºncio abrupto e opressor.
¡ª Ooooh, quem diria que ele tem dentes! ¡ª exclamou Nyx, com uma anima??o que beirava o c?mico ap¨®s toda a como??o.
A Sombra surgiu como se tivesse ensaiado sua entrada teatral ¨¤ perfei??o. Sentada com uma tranquilidade desconcertante nas costas da criatura, ela dedilhava o ala¨²de, os dedos dan?ando despreocupadamente pelas cordas.
Logo abaixo dela, a fuma?a negra que antes flu¨ªa diretamente para Ana, agora se dividia, convergindo tamb¨¦m em dire??o ao Bogaroth, adentrando o animal morto atrav¨¦s do buraco grotesco em seu peito, onde peda?os rasgados de carne e pele ainda pendiam, grosseiramente pendurados. Os olhos do sapo, antes apagados em sua morte, piscavam de forma antinatural, e apenas escurid?o preenchia suas ¨®rbitas.
Ana foi de protagonista a espectadora em um suspiro, e, exausta, sentou-se no ch?o, observando a barda fazer carinho na cabe?a do monstro. Se n?o fosse o forte cheiro que emanava do est?mago perfurado do cad¨¢ver, a mercen¨¢ria pensou que seria uma cena at¨¦ que fofa.
¡ª Recebi a atualiza??o dos mensageiros enquanto voc¨º lutava ¡ª comentou Nyx ap¨®s alguns minutos de descanso. ¡ª Parece que est¨¢ tudo uma bagun?a.
¡ª Quando n?o est¨¢? ¡ª respondeu Ana com um leve riso cansado, balan?ando a cabe?a. ¡ª O que te disseram?
Nyx ergueu os olhos do sapo para encar¨¢-la, um brilho levemente divertido em seu olhar, mesmo enquanto falava algo s¨¦rio. A melodia suave que tocava contrastava com o tom tenso da situa??o.
¡ª Perdemos contato com as dr¨ªades e a maior parte do ex¨¦rcito inimigo se reuniu na ala oeste. Est?o em um aparente empate com a divis?o Bestial. Parece que pediram refor?os por l¨¢.
Ana franziu as sobrancelhas, sua express?o endurecendo.
¡ª Carapicu¨ªba est¨¢ l¨¢ tamb¨¦m, certo?
¡ª Pelo que me lembro, sim. Mas os detalhes n?o foram muito claros. Parece que a comunica??o n?o est¨¢ t?o confi¨¢vel ultimamente.
Ana soltou um longo suspiro, inclinando-se para frente antes de se levantar. Seus movimentos eram lentos, como se a batalha tivesse drenado mais dela do que estava disposta a admitir. Ela pegou a lan?a negra ao seu lado, girando-a com as duas m?os em um gesto autom¨¢tico antes de prend¨º-la improvisadamente na armadura.
¡ª Certo. Ent?o nossa ca?ada a outros J¨®queis vai ter que esperar um pouco. Vamos ver se conseguimos ajudar esses caras.
¡ª Na verdade¡ s¨® eu vou.
Ana virou-se rapidamente, encarando Nyx com uma mistura de surpresa e irrita??o.
¡ª S¨® voc¨º? Por qu¨º?
O sorriso da barda cresceu levemente, e sua melodia diminuiu at¨¦ quase parar.
¡ª No meio dos avisos do dispositivo, Miguel repassou uma mensagem especial. A Colecionadora parece estar se aproveitando da guerra para fu?ar pelo castelo.
Ana ficou im¨®vel por um instante, processando as palavras. Ent?o, lentamente, tirou a m¨¢scara de seu rosto, revelando um olhar exasperado enquanto massageava as t¨ºmporas com as pontas dos dedos.
¡ª Eu acabei de sair de l¨¢¡ ¡ª murmurou ela, com um tom que oscilava entre frustra??o e resigna??o. ¡ª Ser¨¢ que ela n?o podia ter aparecido antes?
¡ª Talvez ela tenha esperado exatamente por isso.
A rainha bufou, cruzando os bra?os e olhando para o horizonte. Seu semblante s¨¦rio refletia a complexidade da situa??o. Ap¨®s alguns segundos de sil¨ºncio, ela voltou a falar, sua voz mais firme.
¡ª Certo, eu volto para o castelo. Mas voc¨º, Nyx¡
¡ª N?o se preocupe. Prometo n?o morrer ¡ª interrompeu a barda com um sorriso travesso, enquanto ajustava a postura em cima da criatura.
Ela fez um gesto exagerado para se arrumar na sela, e aumentou sutilmente a intensidade da melodia. A fuma?a negra que ainda serpenteava ao redor da criatura pulsou levemente, como se reagisse ao som. Bogaroth, at¨¦ ent?o inerte, ergueu-se lentamente, seus movimentos mais firmes e controlados do que antes. O sapo gigantesco flexionou as patas traseiras, e com um salto poderoso, o monstro come?ou a se mover pelo campo de batalha.
¡ª Se cuide, Ana! E mande um oi pra essa tal Colecionadora! ¡ª gritou a Sombra, rindo enquanto acenava despreocupadamente, desaparecendo no horizonte.
Ana revirou os olhos, e ficou parada por um instante, sorrindo. Por fim, prendeu novamente o cabelo, que agora era um grande emaranhado de fios. Seus dedos tocaram a borda da m¨¢scara que descansava em sua m?o, e ela a ergueu lentamente, colocando-a novamente sobre o rosto. Sentiu o peso familiar retornar, tanto f¨ªsico quanto simb¨®lico, um lembrete de quem ela precisava ser, independentemente do caos ao redor.
O vento soprou, fazendo a capa rasgada agitar-se enquanto ela caminhava. Ana desaparecia aos poucos no cen¨¢rio devastado, como uma sombra que se mistura ao entardecer, uma figura solit¨¢ria avan?ando para o pr¨®ximo desafio.
Quer cap¨ªtulos adiantados? Leia no Illusia!
https://illusia.com.br/story/a-eternidade-de-ana/
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