《Bruxas da Noite》 Capítulo 1 - O Livro A hist¨®ria de como conheci as Bruxas da Noite ¨¦ longa e atribulada. Cont¨¢-la de forma a que todos entendam implica explicar o mundo paralelo ao nosso, que a maior parte das pessoas n?o sabe que existe. Como tal, vou come?ar pelo que, para mim, foi o in¨ªcio: o evento que me deu a conhecer esse mundo. Desde novo que tenho interesse pela explora??o urbana. Aos treze anos, juntei-me ao grupo de Braga e, durante os anos que se seguiram, explorei as ru¨ªnas de solares, f¨¢bricas, mosteiros e muitos outros edif¨ªcios interessantes. Por¨¦m, s¨® quando j¨¢ estava na casa dos trinta ¨¦ que me atrevi a fazer uma explora??o sozinho. Foi a uma casa na freguesia de Palmeira, nos arredores de Braga, que eu havia descoberto durante uma das muitas visitas ao Pal¨¢cio da Dona Chica que o grupo organizara. Apesar de eu ter chamado aten??o para ela, mais ningu¨¦m mostrou interesse em explor¨¢-la. Era uma casa pequena, s¨® com r¨¦s-do-ch?o, e com nada que a distinguisse daquelas que a rodeavam. Mas algo nela me chamava. Talvez por me fazer lembrar da casa da minha bisav¨®, ou porque era antiga que chegue para conter testemunhos da vida de outrora, que n?o se encontram em nenhuma casa moderna. Fosse porque fosse, numa tarde de domingo morrinhosa, quando a minha mulher foi visitar os pais com a nossa filha, conduzi at¨¦ ¨¤ velha casa. Tendo cuidado para os vizinhos n?o me verem, entrei por uma janela cujos vidros e persiana haviam sido partidos por vandalos. Do outro lado, encontrei o que seria de esperar: uma sala cheia de vidros partidos, seringas e mob¨ªlia destru¨ªda. Tudo o que teria algum valor, j¨¢ havia h¨¢ muito sido saqueado. Ainda assim, n?o me detive. Cuidadosamente, temendo encontrar alguma pessoa menos recomend¨¢vel, continuei a explorar a casa. Entrei no corredor, que dava acesso a mais duas divis?es. Passando por cima dos restos partidos de portas, entrei no quarto, onde o cen¨¢rio n?o era muito melhor do que na sala. Na janela, agitados pelo vento, dan?avam os farrapos que restavam de umas cortinas em croch¨¦. Roupa cobria quase todo o ch?o, de vestidos negros a chap¨¦us de feltro, claramente arrancada do arm¨¢rio apodrecido e descartada por n?o ter qualquer valor. Curiosamente, e apesar do interesse que os antiqu¨¢rios costumam ter em tais pe?as, uma cama de ferro, cuja pintura branca j¨¢ tinha sido quase inteiramente substitu¨ªda por ferrugem, ainda se encontrava na divis?o, mas virada e atirada para um canto. O colch?o havia sido retirado e posto no ch?o, encostado ¨¤ parede. Estava coberto de manchas vermelhas, amarelas e brancas, e senti um arrepio ao pensar em tudo o que podia ter ali acontecido. Passei, ent?o, para a divis?o que restava, a cozinha. O ch?o estava pejado de loi?a partida, e os arm¨¢rios, escancarados e vazios. Tudo o resto havia sido levado. Desanimado, preparei-me para voltar para casa. Infelizmente, n?o havia ali nada de interesse. Os outros do grupo de exploradores urbanos tinham raz?o. You could be reading stolen content. Head to Royal Road for the genuine story. Ia deixar a cozinha, quando um brilho met¨¢lico chamou a minha aten??o para a diminuta dispensa. L¨¢, por entre prateleiras partidas e restos nauseabundos de comida apodrecida, encontrei uma porta. O brilho pertencia a uma primitiva fechadura de trinco, que abri imediatamente. Do outro lado, encontrei uma escadaria de pedra que descia para a escurid?o. Como era meu h¨¢bito quando explorava uma estrutura, tinha levado uma lanterna comigo. A sua luz revelou uma cave no fundo das escadas, aparentemente intocada pelos vandalos. Talvez a falta de luz natural os tivesse mantido afastados. Degrau a degrau, pois n?o sabia o que me esperava nem tinha certezas quanto ¨¤ robustez das escadas, desci. No fundo, encontrei uma verdadeira c¨¢psula do tempo do Portugal do meio do s¨¦culo passado. Num canto, vi uma antiga m¨¢quina de costura manual, ainda com o pedal e a correia que transmitia o movimento at¨¦ ¨¤ agulha. Numa mesa mesmo ao lado, ainda repousava um ferro de engomar a carv?o. Quase que ainda conseguia ver o fumo a sair da sua pequena chamin¨¦. No outro lado da cave, junto a um sof¨¢ de tecido apodrecido e esburacado, encontrei um arm¨¢rio contendo um r¨¢dio de v¨¢lvulas, o pl¨¢stico amarelado testamento da sua antiguidade. Em cima de todas as superf¨ªcies, havia testemunhos de tempos passados: candeeiros de petr¨®leo, lajes de lousa, frascos de tinta, canetas de embeber, etc. Contudo, o meu olhar recaiu principalmente num ba¨² de madeira bichada pousado no ch?o ao lado das escadas. Curioso, abri-o. N?o estava trancado. L¨¢ dentro, encontrei ¨¢lbuns com fotografias, algumas certamente com mais de cem anos. Era triste ver aquelas fotos de grupos animados, de casais a dan?ar, de jantaradas e pensar que a maioria daquelas pessoas, se n?o todas, j¨¢ haviam partido. No meio dos ¨¢lbuns, contudo, encontrei um pequeno caderno. Abri-o e verifiquei que se tratava de um di¨¢rio. Normalmente, nunca tiro nada dos lugares que exploro, nem acho que algum explorador urbano o devia fazer, mas ter nas m?os o relato de uma vida nos tempos de outrora era demasiado tentador, e a minha curiosidade levou-me a melhor, como sempre. Sa¨ª da casa com o livro no bolso. A minha vontade era l¨º-lo logo ali no carro, mas a hora de jantar aproximava-se. Quando cheguei a casa, pousei o livro e fui preparar a refei??o com o resto da fam¨ªlia. Apesar de estar algo curioso sobre o seu conte¨²do, jantei com calma e ainda ajudei a minha filha com os trabalhos de casa. Ent?o, sentei-me ¨¤ secret¨¢ria e comecei a ler. As hist¨®rias no di¨¢rio eram, de facto, interessantes, fant¨¢sticas, at¨¦, mas de uma forma que nunca esperara. Mencionavam lugares escondidos em cidades, montanhas e at¨¦ no fundo do mar, e encontros com fadas, vampiros, bruxas, trasgos e in¨²meros outros seres mitol¨®gicos e imagin¨¢rios. Seria aquilo uma obra de fic??o, ou os devaneios de um louco? Na altura, n?o conseguia considerar outra hip¨®tese. Contudo, tamb¨¦m n?o conseguia parar de ler, at¨¦ porque muitas das hist¨®rias se passavam em, ou perto, de s¨ªtios que conhecia. Quando finalmente fui para a cama, j¨¢ eram quase duas da manh?, e s¨® me deitei porque tinha de trabalhar no dia seguinte. Ainda assim, s¨® com muito esfor?o consegui afastar o livro da minha mente por tempo suficiente para adormecer. Capítulo 2 - O Bar das Fadas No dia a seguir a ter encontrado o di¨¢rio, as hist¨®rias que este continha n?o me sa¨ªam da cabe?a. Depois de sair do trabalho, a minha curiosidade levou-me a melhor, como habitual, e decidi visitar um lugar chamado no livro de Bar das Fadas, que n?o ficava muito longe do meu escrit¨®rio. Segundo o que eu lera, este situava-se junto ao Arco da Porta Nova, em Braga, debaixo de uma loja que j¨¢ albergara v¨¢rios neg¨®cios e que era agora uma pastelaria. ¨¤ primeira vista, era semelhante a todos os outros neg¨®cios do seu tipo, com uma pequena esplanada na rua, uma vitrine cheia de bolos e outras do?arias e um balc?o com uma m¨¢quina de caf¨¦ e outra parafern¨¢lia que se encontrava em qualquer snack bar. Entrei, sentei-me numa das mesas, entre outros tr¨ºs clientes, e pedi um ch¨¢ e um bolo. Queria ganhar tempo para estudar o local mais atentamente e ver se havia um fundo de verdade no que lera no di¨¢rio. De facto, a porta que supostamente dava acesso ao Bar das Fadas estava no s¨ªtio esperado, mas podia ter sido apenas uma coincid¨ºncia ou inspira??o. Durante o tempo que estive ali sentado, n?o aconteceu nada de extraordin¨¢rio. Pareceu-me, em tudo, uma pastelaria normal. Por fim, impaciente, paguei e dirigi-me ¨¤ casa de banho, que ficava pouco depois da porta misteriosa. Por¨¦m, ao passar junto desta, ignorei a placa vermelha que dizia "Acesso Restrito" e abri-a. Do outro lado, encontrei uma escadaria que descia at¨¦ se perder na escurid?o. N?o entrei de imediato. Estava ¨¤ espera que algu¨¦m me chamasse ¨¤ aten??o, que me dissesse que n?o podia estar ali. Contudo, ningu¨¦m o fez, e comecei a descer. Uns dez degraus depois, a porta fechou-se atr¨¢s de mim, deixando-me ¨¤s escuras. N?o tinha planeado aquela visita, pelo que n?o tinha comigo a minha fiel lanterna. Tive de recorrer ¨¤ do telem¨®vel. Desci durante o que me pareceram longos minutos. Finalmente, cheguei ao fundo, onde encontrei uma segunda porta. Esta em pouco diferia da primeira. At¨¦ tinha uma placa vermelha a dizer "Acesso Restrito". Mais uma vez, ignorei-a e abri a porta. Esse instante foi o mais importante de toda a minha vida. Na altura n?o o sabia, mas o meu mundo, o meu universo, nunca mais seria o mesmo, pois foi ent?o que percebi que tudo o que estava no caderno que havia encontrado era verdade. Do outro lado da porta, havia um bar, como tinha lido. A decora??o era moderna, com cadeiras e mesas de metal e vidro e paredes brancas, lisas e limpas. Contudo, era a¨ª que terminavam as semelhan?as com os bares da superf¨ªcie. A sua clientela era formada por estranhos seres, alguns dos quais nem nos meus sonhos mais estranhos havia imaginado. Muitos eram humanoides, embora os mais baixos nem me chegassem aos joelhos e os mais altos tivessem o dobro da minha altura, com tons de pele que variavam do branco mais alvo ao negro mais escuro, passando pelo cinzento e o roxo. Garras, chifres e espig?es tamb¨¦m eram comuns. Depois havia aqueles que eram quase imposs¨ªveis de descrever. Massas de tent¨¢culos com um pequeno corpo esf¨¦rico entre eles; misturas de diversos animais; corpos longos com m¨²ltiplas pernas. Em grupos, os clientes conversavam e consumiam o conte¨²do de copos em forma de l¨¢grima, que consistia, exclusivamente, num l¨ªquido l¨ªmpido como a ¨¢gua. O nome Bar das Fadas devia ter sido um nome criado pelo autor do di¨¢rio, pois a maioria daquelas criaturas n?o se adaptava ¨¤ imagem popular das fadas (embora houvesse ali alguns seres humanoides diminutos com asas de inseto). Pelo que havia lido, o meu predecessor n?o ficara muito tempo no bar nem tentara conversar com os clientes. A minha curiosidade, por¨¦m, era mais forte do que a dele. A medo, atravessei o bar at¨¦ ao balc?o. Como o resto da mob¨ªlia, este era feito de metal e vidro, por¨¦m, atr¨¢s dele, n?o haviam prateleiras com filas de garrafas, como estava habituado a ver. De facto, a bebida parecia ter uma s¨® origem: do teto, jorrava um fio de ¨¢gua que ca¨ªa numa conduta de pedra, sobre o balc?o, e a levava at¨¦ junto do empregado. The tale has been stolen; if detected on Amazon, report the violation. Sentei-me num banco alto e olhei de novo em volta. Ningu¨¦m parecia ter reparado em mim, ou, pelo menos, n?o me deram importancia. O empregado pousou um copo ¨¤ minha frente, cheio da estranha ¨¢gua. N?o disse nada, nem sequer perguntou o que eu queria. N?o que houvesse grande escolha. Embora fosse uma criatura intimidante, com pequenos chifres que lhe coroavam a cabe?a e incisivos que n?o lhe cabiam totalmente na boca, tentei meter conversa: - Isto costuma estar sempre assim t?o cheio? N?o me respondeu. Simplesmente virou costas e foi servir outro cliente. - O Miguel n?o ¨¦ muito falador - disse uma voz feminina ao meu lado. Virei-me e vi uma mulher muito p¨¢lida, com cabelos brancos e v¨¢rias argolas prateadas nas orelhas e na cara. Tinha um pesco?o longo, com o dobro ou o triplo do tamanho do de um humano, decorado com um torque de ouro. Os seu olhos eram grandes e felinos, mas possu¨ªa um nariz pequeno e discreto. - Miguel? - perguntei. - ¨¦ assim que ele se chama? - Que esperavas? - respondeu ela. - Gorash ou um desses nomes rid¨ªculos que voc¨ºs d?o aos das nossas ra?as nas vossas hist¨®rias? Confesso que n?o sabia o que responder. Senti-me, at¨¦, um pouco envergonhado. Felizmente, ela mudou de assunto. - N?o se veem muitos da tua ra?a por aqui. -N?o sabia. ¨¦ a primeira vez que aqui venho. Ela pousou uma m?o no meu antebra?o. - Sabes, sempre senti curiosidade pela tua ra?a. - E eu tenho curiosidade nas vossas. - Posso responder a qualquer pergunta que tenhas - ronronou-me ao ouvido. As inten??es dela eram claras, contudo, n?o conseguia deixar escapar aquela oportunidade para come?ar perceber aquele mundo que eu acabara de descobrir. - Chamo-me Alice, j¨¢ agora. Disse-lhe o meu nome. - Acho curioso que ningu¨¦m tenha estranhado a minha presen?a, se n?o aparecem muitos da minha ra?a por aqui. Ela sorriu. - N?o aparecem muitos, mas aparecem alguns. Pelo menos, n¨®s vemos mais de voc¨ºs, do que voc¨ºs de n¨®s. - Por qu¨º? Qual ¨¦ a raz?o para voc¨ºs se esconderem de n¨®s? Porque n?o vivem abertamente connosco? - Para ser honesta, n?o fa?o ideia. Acho que ¨¦ uma coisa cultural. Sempre nos mantivemos afastados dos humanos. E aquela vossa Organiza??o tamb¨¦m n?o ajuda. - Organiza??o? - Sim. Sempre que um de n¨®s aparece no vosso mundo, por acidente ou n?o, ou sempre que um humano que nos conhece tenta revelar a nossa exist¨ºncia, a Organiza??o aparece para ocultar e encobrir tudo. Juro que, ¨¤s vezes, parece que eles t¨ºm mais medo que os humanos descubram a nossa exist¨ºncia do que n¨®s. Foi uma revela??o curiosa. Havia uma organiza??o dedicada a evitar que o p¨²blico em geral tomasse conhecimento daquele mundo que eu acabara de descobrir. Contudo, a sua exist¨ºncia revelava que havia mais intersec??es entre os dois mundos e mais humanos a saberem destas criaturas do que eu, a princ¨ªpio, imaginara. - N?o bebes? - perguntou-me ela, apontando para o copo cheio da estranha ¨¢gua ¨¤ minha frente. Com a conversa, tinha-me esquecido completamente da minha bebida. A medo, bebi um gole. N?o me pareceu particularmente boa. Sabia a ¨¢gua, mais leve do que estava habituado a beber, mas, ainda assim, ¨¢gua. Temendo que me estivesse a escapar algo, bebi o resto do copo, mas o sabor continuava o mesmo, e n?o senti nenhum efeito adicional. Alice notou o meu desapontamento. - Acho que tens de ser um de n¨®s para sentir o efeito da ¨¢gua. Vem de uma fonte muito antiga, com propriedades especiais. Um gole basta-nos para nos sentirmos mais calmos e desinibidos. ¨¦ por isso que me podes encontrar aqui todos os dias. Se quiseres. Mais uma vez, tocou-me no bra?o. - E se f?ssemos para um s¨ªtio mais privado esclarecer as minhas curiosidades sobre a tua ra?a? N?o moro muito longe. Confesso que me senti tentado, mas n?o pelas raz?es mais ¨®bvias. Queria saber mais sobre aqueles seres e a sociedade em que viviam. Al¨¦m disso, durante a conversa, tinha reparado em v¨¢rias outras portas al¨¦m daquela por onde entrara, e cada uma parecia dar acesso a um t¨²nel. Devia ser neles que aquelas criaturas viviam, e o explorador urbano em mim queria desesperadamente explor¨¢-los. Contudo, tinha de pensar que era um homem casado e com uma filha. Era melhor n?o me p?r no caminho da tenta??o. Al¨¦m disso, j¨¢ tinha descoberto tanto naquele dia que n?o sabia se aguentava mais emo??es. Deixar os meus sentimentos quanto ¨¤ descoberta daquele mundo assentarem e depois voltar pareceu-me melhor ideia. Afinal, o simples facto de eu estar ali rodeado por seres que n?o deviam existir era suficiente para me fazer questionar tudo o que acreditava e sabia sobre o Mundo e a vida. Para surpresa de Alice, desculpei-me que se estava a fazer tarde e que tinha a minha mulher ¨¤ espera. A princ¨ªpio, insistiu para que fosse com ela, mas acabou por me deixar ir. Voltei para a pastelaria ¨¤ superf¨ªcie e para as ruas de Braga. N?o fui imediatamente para casa. Estava demasiado entusiasmado com o que acabara de descobrir. Durante mais de uma hora, deambulei pela cidade pensando naquele novo mundo, em todas as quest?es que a sua exist¨ºncia levantava e em futuras explora??es a outros s¨ªtios mencionados no caderno. Hoje, lamento n?o me ter conseguido controlar, n?o ter simplesmente esquecido o que havia visto e continuado com a minha vida normal. Capítulo 3 - A Prociss?o das Almas Ap¨®s a minha descoberta do Bar das Fadas, e ter confirmado que o relato no di¨¢rio que havia encontrado n?o era apenas fic??o, n?o conseguia deixar de pensar nisso. A minha mulher, os meus amigos, at¨¦ os meus colegas de trabalho, repararam que eu andava mais distra¨ªdo. Por¨¦m, eu tinha decidido n?o contar nada a ningu¨¦m. Naquela altura, n?o tinha a certeza como aquele conhecimento nos podia afetar e, al¨¦m disso, temia que os pudesse por em perigo. Como tal, tive de esperar algum tempo at¨¦ ter uma oportunidade de embarcar noutra explora??o sem levantar suspeitas. Esta surgiu quando a minha sogra ficou doente e a minha mulher, juntamente com a nossa filha, foi tomar conta dela. Depois do encontro com Alice, quis deixar passar algum tempo antes de voltar ao Bar das Fadas, pelo que decidi explorar outro local. Ap¨®s reler mais uma vez algumas das entradas do di¨¢rio, decidi viajar at¨¦ ao Ger¨ºs e visitar uma aldeia abandonada na serra onde, supostamente, durante a noite, os mortos se levantam do cemit¨¦rio e partem numa prociss?o pelas encostas e vales. Sa¨ª de casa ainda de dia, por¨¦m, quando entrei na estrada que subia a montanha, o Sol j¨¢ se havia posto. Apesar de as encostas mais elevadas do Ger¨ºs n?o terem muitas ¨¢rvores, a escurid?o tornava dif¨ªcil encontrar a aldeia, mesmo com a ajuda de um GPS. Finalmente, decidi parar num pequeno espa?o na berma da estrada, junto ao ponto onde a aldeia supostamente ficava. Sa¨ª do carro e comecei a procurar a p¨¦. Com a ajuda da lanterna mais poderosa que tinha, encontrei as ru¨ªnas que procurava, situadas um pouco abaixo de onde havia estacionado. Os telhados j¨¢ haviam ru¨ªdo, assim como muitas paredes e soalhos de madeira. Por todo o lado, vigas tombadas erguiam-se no c¨¦u noturno, como costelas de gigantescos animais. Com a ajuda da lanterna, procurei a melhor maneira de descer. N?o havia propriamente um trilho, mas, entre os penedos e as moitas de silvas, consegui encontrar uma passagem. Ap¨®s v¨¢rios trope??es e escorregadelas, evitando, por pouco, algumas quedas aparatosas, cheguei ¨¤ aldeia abandonada. As suas ruas de terra batida, j¨¢ de si estreitas e obstru¨ªdas com rochedos, estavam cobertas de escombros, silvedos e erva, tornando o avan?o bastante dif¨ªcil. O sil¨ºncio da noite era apenas quebrado pelo som de animais a rastejarem para longe e o pio das corujas que se refugiavam nas ru¨ªnas. Finalmente, cheguei ao que restava da igreja local. O topo da torre sineira j¨¢ havia ca¨ªdo, assim como o telhado, contudo, a fachada parecia intacta, embora um nicho vazio sobre a porta me fizesse suspeitar que tivesse ali existido a est¨¢tua de um santo, agora desaparecida. Teria sido, certamente, roubada por algu¨¦m para depois vender. Ao lado da igreja, rodeado por uma baixa parede de pedras soltas, encontrei o lugar que procurava: o cemit¨¦rio. Segundo o di¨¢rio, era dali que os esp¨ªritos dos mortos partiam na sua prociss?o noturna. L¨¢pides de pedra partidas e gastas, ocupavam o local, juntamente com peda?os de madeira apodrecida que, em tempos, teriam sido cruzes. Sentei-me do lado de fora, encostado ao muro, e esperei pela meia-noite, a hora a que o meu antecessor registou ter come?ado a ver os fantasmas. Est¨¢vamos no fim do Outono, pelo que o frio j¨¢ apertava nas montanhas. Em parte, ainda bem, pois foi apenas gra?as a ele que n?o adormeci. Quando a hora, finalmente, chegou, n?o fiquei desapontado. No preciso instante em que o rel¨®gio do meu telem¨®vel marcou meia-noite, olhei para as campas. Sobre estas, come?aram a formar-se vultos. A princ¨ªpio, eram praticamente invis¨ªveis, mas, aos poucos, come?aram a tomar uma forma branca e transl¨²cida. Tratavam-se de pessoas envergando vers?es fantasmag¨®ricas das roupas, chap¨¦us e len?os t¨ªpicos daquela regi?o at¨¦ muito recentemente. Conforme iam tomando as suas formas finais, os esp¨ªritos deixavam o cemit¨¦rio e come?avam a descer a encosta, enquanto, sobre as campas, novos vultos se formavam. Deixei que todos se juntassem ¨¤ prociss?o, antes de come?ar a segui-los. Desci a encosta por um carreiro, atravessei uma velha ponte de pedra e at¨¦ caminhei por uma geira romana. Os fantasmas percorreram quil¨®metros de terreno, durante quase duas horas. De s¨²bito, a norte, avistei uma fila branca que descia outra encosta como uma gigantesca serpente albina. N?o tardei a aperceber-me de que que se tratava de outra prociss?o de almas. The author''s content has been appropriated; report any instances of this story on Amazon. Mais tr¨ºs surgiram pouco depois, sa¨ªdas de vales e montanhas, e, uma a uma, juntaram-se, continuando a avan?ar para este. Mais do que a uma prociss?o, agora assemelhavam-se a uma coluna militar. Ent?o, para minha surpresa, os mortos come?aram a voltar ao solo. Pouco a pouco, foram desaparecendo para debaixo de terra, at¨¦ nenhum se encontrar ¨¤ superf¨ªcie. Estava novamente sozinho, na escurid?o das montanhas, com a minha lanterna. Aproximei-me do s¨ªtio onde os fantasmas tinham desaparecido e procurei, sem grande esperan?a, por alguma maneira de os seguir. Ap¨®s quase meia hora, encontrei um buraco no ch?o, grande o suficiente para eu conseguir passar. Apontei a lanterna l¨¢ para dentro. N?o era particularmente fundo, tinha apenas uns cinco metros, e pareceu-me ver uma caverna que partia dele em dire??o a oeste. N?o tinha comigo equipamento de escalada, mas a parede do buraco tinha apoios suficientes para eu conseguir descer sem grandes dificuldades. Em poucos minutos, cheguei ao fundo e confirmei que, realmente, havia uma caverna. Apontei a lanterna para o seu interior e vi que se alongava por uma centena de metros, at¨¦ chegar a uma curva e mudar de dire??o. Cuidadosamente, pois n?o sabia como os mortos iam reagir caso me encontrassem ali, adentrei-me na caverna. Cheguei ¨¤ curva sem qualquer percal?o, por¨¦m assim que a dobrei, dei de caras com dois fantasmas. Apesar do meu cuidado, eles avistaram-me imediatamente. Afinal, sem a luz da lanterna, n?o conseguia ver nada ali, mas esta denunciava-me claramente. Olhei para tr¨¢s, pensando em fugir, mas nunca conseguiria subir at¨¦ ¨¤ superf¨ªcie antes de eles me alcan?arem. Os fantasmas aproximaram-se lentamente e com cuidado, como se n?o me quisessem assustar. Embora estivesse desconfiado, esperei por eles. N?o pareciam agressivos. Um deles segurava uma vela, que estendeu na minha dire??o quando chegou junto a mim. A medo, peguei nela. No instante em que a agarrei, transformou-se numa t¨ªbia humana. Surpreso, larguei-a e recuei alguns passos. Os dois fantasmas come?aram a rir ¨¤s gargalhadas. - A cara dele - disse um dos esp¨ªritos. Durante alguns instantes, fiquei a olhar para eles, at¨®nito. - Desculpa l¨¢, amigo, mas n?o resisti - disse-me o fantasma que me dera a vela. - Quem s?o voc¨ºs? - perguntei. - Os esp¨ªritos dos mortos, claro. Nem todos temos a sorte de descansar em paz. Pareciam amistosos, pelo que decidi continuar a fazer perguntas: - Porque v¨ºm para aqui? Porque n?o ficam junto dos vossos cemit¨¦rios? - Porque, no fundo deste t¨²nel, fica a nossa cidade. N¨®s s¨® fic¨¢mos para tr¨¢s porque te vimos a seguir-nos e decidimos divertir-nos um bocado - disse o fantasma da vela, sorrindo. - Cidade?! - disse eu, admirado. - Os mortos t¨ºm uma cidade? - Claro - respondeu o outro fantasma. - Vamos andar por aqui para sempre. Precisamos de um s¨ªtio onde afastar a pasmaceira. Anda, n¨®s mostramos-te, como compensa??o pelo susto. Segui-os atrav¨¦s do t¨²nel durante uns quinhentos metros, passando por diversas curvas. Por fim, cheg¨¢mos a uma caverna gigantesca, maior do que qualquer outra que eu tinha visto antes. Encontr¨¢vamo-nos numa sali¨ºncia em uma das paredes, mas a caverna prolongava-se v¨¢rias centenas de metros para baixo, o seu fundo sendo apenas vis¨ªvel gra?as ¨¤ p¨¢lida luminosidade emitida pelos fantasmas. Havia muitas mais sali¨ºncias nas paredes para al¨¦m daquela onde me encontrava. Nas maiores, erguiam-se edif¨ªcios de todos os per¨ªodos hist¨®ricos de Portugal. Assombrado, avistei casas circulares castrenses, vilas romanas, casebres medievais, casas de campo, pr¨¦dios pombalinos e, at¨¦, um grande condom¨ªnio de m¨²ltiplos andares, entre outros. Nada ligava as sali¨ºncias umas ¨¤s outras, pois os fantasmas flutuavam entre elas. Ao contr¨¢rio do que acontecera no Bar das Fadas, a minha presen?a na Cidade dos Mortos n?o passou desapercebida. Todos os fantasmas que passavam olhavam para mim com um misto de curiosidade e surpresa. - J¨¢ h¨¢ muito que n?o vinha aqui um vivo - disse a criatura que me dera a vela. - Nunca ouvi falar que j¨¢ tivesse acontecido antes - comentou o outro. De s¨²bito, do fundo da caverna, surgiu um outro esp¨ªrito, com ar zangado. - O que ¨¦ que voc¨ºs, seus idiotas, fizeram? Trazem um vivo para aqui, ainda por cima agora, com estes desaparecimentos todos? - Desculpe Sr. Presidente - disseram os dois fantasmas em un¨ªssono, olhando para o ch?o, como duas crian?as admoestadas. - Desaparecimentos? - perguntei eu, curioso. - Sim, nos ¨²ltimos meses t¨ºm desaparecido alguns fantasmas - disse o esp¨ªrito que me dera a vela. - Nunca aconteceu antes - comentou o outro. - Os mortos sempre aumentaram, nunca diminu¨ªram. - Voc¨ºs s?o capazes de estar calados! - gritou o presidente. Virou-se, ent?o, para mim. - E quanto a ti, sai daqui enquanto podes. E nem penses em voltar. Vamos mudar a entrada de s¨ªtio. O tom do presidente n?o deixava espa?o a discuss?o, e fiz o que ele disse. No caminho de regresso ao carro e, depois, enquanto conduzia para casa, uma pergunta n?o me sa¨ªa da cabe?a: como podiam os mortos estar a desaparecer? Depois da minha visita ao Bar das Fadas e de uma leitura mais atenta do di¨¢rio que encontrei, a exist¨ºncia de fantasmas, ou, at¨¦, da sua incr¨ªvel cidade, n?o me surpreenderam particularmente, mas essa quest?o fazia com que arrepios me subissem pela espinha. Na altura, n?o percebia bem porqu¨º, contudo, acabaria por descobrir. Capítulo 4 - O Rei das ínsuas Como era tradi??o, na altura do Natal, eu, a minha mulher e a minha filha pass¨¢mos uma semana de f¨¦rias em casa dos meus av¨®s, em Viana do Castelo. Algumas das entradas no di¨¢rio que encontrara passavam-se em ou perto dessa cidade, pelo que aproveitei a oportunidade para as investigar. Uma noite, depois do jantar, desculpando-me dizendo que ia falar com alguns velhos amigos, sa¨ª e dirigi-me at¨¦ ¨¤ margem do rio Lima. A desculpa at¨¦ nem era uma absoluta mentira. Durante a tarde, havia telefonado a um amigo de infancia para ele me emprestar um barco, e ainda convers¨¢mos durante uma meia hora antes de eu entrar a bordo e come?ar a remar. Estava ali para investigar umas sombras e silhuetas peculiares, e estranhos movimentos nos juncos que o autor do di¨¢rio havia visto nas ¨ªnsuas pr¨®ximas da foz do rio. Como habitual, o meu antecessor n?o havia investigado a quest?o a fundo, nem sequer sa¨ªra da margem, mas eu estava determinado a descobrir o que havia ali. Como tal, remei at¨¦ ¨¤ maior das ¨ªnsuas, popularmente conhecida como Camalh?o, que se situava a pouco mais de uma centena de metros do ancoradouro onde o meu amigo tinha o barco. Mal cheguei ¨¤ ¨ªnsua, desembarquei, prendi a ancora a um dos enormes torr?es e adentrei-me por uma regueira pr¨®xima. Como a mar¨¦ estava em baixo, as margens desta, mais os longos juncos, erguiam-se acima da minha cabe?a, pelo que n?o conseguia ver nada em volta. Por¨¦m, tendo passado uma parte da minha infancia naquelas ¨ªnsuas, sabia que aquela regueira me levaria ao cora??o do Camalh?o de forma mais r¨¢pida do que atravessando os juncos. Logo ap¨®s a primeira curva, deparei-me com um mau press¨¢gio. De uma po?a na quase seca regueira, a cabe?a decepada de um homem olhava para mim. Estava inchada e mostrava sinais de putrefa??o e de ataques de animais. De facto, a parte ainda submersa estava, naquele momento, a servir de alimento a v¨¢rios camar?es do rio. Ap¨®s o susto e choque iniciais, cheguei ¨¤ conclus?o que n?o devia ter raz?o para me preocupar. N?o era invulgar encontrar corpos e partes de corpos no rio, v¨ªtimas de naufr¨¢gios trazidas e depositadas pela mar¨¦ alta. Aquela cabe?a n?o devia ter nenhuma rela??o com as silhuetas que eu tinha ido ali investigar. Continuei a avan?ar, tomando uma nota mental para mais tarde avisar as autoridades quanto ¨¤ cabe?a. Tinha percorrido poucas dezenas de metros, quando um diminuto vulto negro saltou sobre a regueira mesmo ¨¤ minha frente. De imediato, subi a margem. Quando cheguei ao topo, n?o o vi, mas os movimentos dos juncos denunciavam-no, e consegui segui-lo. Corri atr¨¢s dele durante v¨¢rias centenas de metros, as pontas dos juncos atravessando-me as cal?as e ferindo-me as pernas. Finalmente, cheg¨¢mos a uma ¨¢rea mais limpa, coberta apenas por erva baixa, situada debaixo da chamada Ponte Nova. Foi s¨® ent?o que vi o que estava a perseguir: um pequeno ser humanoide, com pouco mais de dez cent¨ªmetros de altura. Este desapareceu atr¨¢s de um enorme monte de ramos de ¨¢rvore e embalagens de pl¨¢stico, lixo certamente trazido pela corrente e pelas mar¨¦s. This text was taken from Royal Road. Help the author by reading the original version there. Continuei a segui-lo, contudo, assim que cheguei aos detritos, ouvi uma voz grave e pausada vinda de uma regueira pr¨®xima. ¨C Quem ¨¦s tu? O que fazes no meu reino e porque persegues um dos meus s¨²bditos? Eu ia responder, mas a criatura que falara levantou-se e deixou-me sem palavras. Tratava-se de um enorme ser com quase o dobro do meu tamanho. N?o podia ser apelidado de gordo, embora n?o fosse propriamente magro, e, sob o luar, parecia ter uma pele p¨¢lida como marfim. Sobre a cabe?a levava uma coroa feita de juncos entrela?ados, o que, juntamente com o facto de se ter referido, pouco antes, aos seus s¨²bditos, levou-me a concluir que ele era o rei das criaturas cujas silhuetas o meu antecessor vira. O enorme ser saiu da regueira e aproximou-se do monte de detritos. Afastei-me para lhe dar passagem, mas n?o me atrevi a tentar fugir. Para minha surpresa, ele sentou-se sobre o lixo, e s¨® ent?o percebi que se tratava de um tosco trono. - Diz-me l¨¢ o que est¨¢s aqui a fazer ¨C insistiu a criatura. Contei-lhe sobre as silhuetas e como fui at¨¦ ali para descobrir o que eram. ¨C Parece que alguns dos meus s¨²bditos precisam de come?ar a ter mais cuidado ¨C respondeu ele, no fim. - Especialmente agora. - Especialmente agora porqu¨º? ¨C Os meus s¨²bditos andam a desaparecer. N?o sabemos como nem porqu¨º. O que me leva a desconfiar de ti. Como ¨¦ que eu sei que n?o ¨¦s tu o raptor. Eu vi-te a perseguir um dos nossos. Tentei justificar a minha curiosidade. At¨¦ lhe contei sobre as minhas idas ¨¤ cidade dos mortos e ao bar das fadas. Enquanto eu falava, uma bizarra criatura emergiu dos juncos. Andava em quatro patas, embora o seu corpo fosse esguio e se contorcionasse como o de uma serpente, mas tinha uma face vagamente humana. Ele aproximou-se do rei, ergueu-se nas pernas de tr¨¢s e sussurrou-lhe algo ao ouvido. Depois, desapareceu outra vez nos juncos. O rei deixou-me terminar a minha explica??o. - Acho que acredito em ti ¨C disse, por fim. - Se fosses o respons¨¢vel pelos desaparecimentos, n?o tinhas deixado as minhas sentinelas ver-te. Apontou com a cabe?a para o ponto por onde a criatura serpentiforme desaparecera. Mais calmo, ocorreu-me que os desaparecimentos nas ¨ªnsuas talvez estivessem relacionados com os dos mortos e contei ao rei o que descobrira no Ger¨ºs. ¨C Curioso - respondeu ele. - Agora preciso que v¨¢s embora. Estou a juntar o meu povo aqui e vou precisar de falar com ele. N?o esperei que me dissesse uma segunda vez. Entrei nos juncos e dirigi-me ao barco. Conforme atravessava o Camalh?o, avistei v¨¢rias pequenas sombras no meio do rio, no espa?o entre as ¨ªnsuas. Ap¨®s olhar mais atentamente, percebi que se tratavam de troncos e at¨¦ de pequenas folhas de ¨¢rvore carregando v¨¢rias das criaturas que eu agora sabia viverem ali. Ainda vi as primeiras desembarcar no Camalh?o, mas logo retomei a caminhada at¨¦ ao barco, temendo que o Rei das ¨ªnsuas me expulsasse. Ou pior. Remei de volta ¨¤ margem e, depois de devolver o barco, regressei a casa dos meus av¨®s. Enquanto conduzia, n?o conseguia deixar de pensar nos desaparecimentos. Haveria realmente uma rela??o entre os das ¨ªnsuas e os dos mortos? Ainda n?o sabia o suficiente sobre aquele mundo paralelo para responder a essas perguntas, mas ia continuar a investigar. A minha curiosidade nunca me deixaria parar. Capítulo 5 - O Culto Aproveitando que estava a passar as f¨¦rias de Natal com a minha mulher e filha em casa dos meus av¨®s, em Viana do Castelo, decidi explorar outra das entradas do di¨¢rio que encontrara. Desta vez, a minha curiosidade incidiu sobre um local importante da minha infancia. Desde pequeno, ouvi o meu pai e o meu av? contarem hist¨®rias sobre as ru¨ªnas do convento de S?o Francisco. Entre elas, destacava-se um j¨¢ antigo rumor de que o local era usado para estranhos rituais popularmente conhecidos como macumba. Nunca tinha encontrado nenhumas provas de tal, nem sequer algu¨¦m que dissesse ter assistido, at¨¦ que, ao ler o di¨¢rio, encontrei uma entrada que referia um culto que se reunia no convento. Como habitual, a timidez do meu antecessor n?o lhe permitira assistir a todo o ritual, e ele apenas vira uma pequena parte atrav¨¦s das grades do port?o. Usando de novo a desculpa de que ia visitar um velho amigo, na noite da primeira segunda-feira ap¨®s o Natal, dia da semana em que o di¨¢rio dizia que o culto se reunia, encaminhei-me para o convento. Quando era mi¨²do, este ficava no meio do monte e era preciso uma longa caminhada para l¨¢ chegar, pelo que fiquei surpreendido ao ver que agora havia urbaniza??es quase at¨¦ ao primeiro port?o. Estacionei nas traseiras de uma destas novas casas, liguei a lanterna e encaminhei-me para o monte. Ap¨®s passar uma ¨¢rea de terra revirada, certamente um resqu¨ªcio da constru??o da urbaniza??o, cheguei ao port?o que, em tempos, protegia o caminho que subia at¨¦ ao convento. Deste apenas restava parte do portal, j¨¢ que uma das colunas havia ca¨ªdo ou sido derrubada. Mal o atravessei, vi-me rodeado por eucaliptos, austr¨¢lias e o ocasional pinheiro. A floresta, agora, tinha ali o seu in¨ªcio. Comecei, ent?o, a subir o caminho. A tosca cal?ada, formada por pedras grandes e irregulares, n?o era f¨¢cil de subir, mesmo com a ajuda da lanterna. Tropecei v¨¢rias vezes. Felizmente, j¨¢ n?o chovia h¨¢ algum tempo, ou as lisas pedras estariam impossivelmente escorregadias. A meio da subida, pouco antes de uma curva apertada, encontrei um velho cruzeiro. Este mostrava sinais de cinzas e fumo. Se estes se deviam ao culto que eu estava ali para investigar ou a uma causa mais mundana, n?o sei dizer. Finalmente, depois da curva, cheguei ao tro?o final da subida. Pouco depois, a minha lanterna iluminou o alto port?o do convento propriamente dito. Um arco suportando as est¨¢tuas de tr¨ºs santos albergavam-no, e uma parede com mais de dois metros partia dele. A um visitante casual, pareceria n?o haver forma de entrar, pois um cadeado fechava o port?o, mas eu n?o era um visitante casual. Ao lado do port?o, havia uma subida muito ¨ªngreme, quase vertical, onde algu¨¦m havia amontoado pedras e escavado degraus. Subi-a sem grande dificuldade e entrei num estreito carreiro que penetrava a vegeta??o cerrada. Avancei durante algumas dezenas de metros, a parede do convento ¨¤ minha direita. Aqui e ali, havia pequenas falhas, mas nenhuma grande o suficiente para eu passar. Finalmente, cheguei ao local que procurava: uma segunda entrada que dava acesso a uma escadaria que descia at¨¦ ao terreiro do convento. Em tempos, devia ali ter existido um port?o, mas este seria anterior ¨¤s minhas primeiras visitas. Entrei e, por fim, desci at¨¦ ao convento propriamente dito. Com a lanterna, varri os edif¨ªcios em volta. Embutidas na parede que separava o terreiro do terreno elevado e do carreiro, encontravam¨Cse duas pequenas capelas. N?o tinham porta e estavam vazias, a n?o ser por trepadeiras e mato, e os seus telhados de pedra estavam partidos e esburacados. No lado oposto, erguiam-se as ru¨ªnas dos edif¨ªcios principais do convento: a igreja e as ¨¢reas de habita??o e trabalho. Contudo, n?o entrei de imediato. Primeiro, dirigi-me ¨¤ base do cruzeiro no centro do terreiro. A cruz em si j¨¢ l¨¢ n?o se encontrava, mas a base vagamente piramidal formada por quatro camadas de pedra sim. Segundo o meu antecessor, era nela que o culto realizava os seus rituais. De facto, as marcas estavam l¨¢. Havia manchas vermelhas escuras por todo o lado. Aqui e ali, viam-se penas, certamente pertencentes a galinhas usadas em sacrif¨ªcios. Com provas t?o claras de que realmente se passava algo ali, entrei nas ru¨ªnas dos edif¨ªcios em busca de um local para me esconder e esperar pelo aparecimento dos cultistas. Segundo o di¨¢rio, eles s¨® apareciam depois da uma da manh?, pelo que ainda tinha bastante tempo. Aproveitei para visitar o local e ver o que tinha mudado desde a minha anterior visita, mais de vinte anos antes. If you discover this tale on Amazon, be aware that it has been unlawfully taken from Royal Road. Please report it. A primeira coisa que me saltou ¨¤ vista foi que os resqu¨ªcios do soalho do andar superior, que eu ainda vira em crian?a, tinham apodrecido completamente. De facto, o ¨²nico sinal de que alguma vez houvera um andar superior eram as escadarias que n?o levavam a lugar nenhum e as paredes parcialmente ru¨ªdas, mas anormalmente altas para um edif¨ªcio t¨¦rreo. Ap¨®s visitar a antiga cozinha, com a sua enorme lareira e pia decorada de calc¨¢rio, encaminhei-me para a igreja. Esta j¨¢ h¨¢ muito perdera o telhado, embora o enferrujado candelabro, preso ¨¤s paredes por cabos met¨¢licos igualmente corro¨ªdos, ainda se mantivesse no seu s¨ªtio. Do altar nada restava, assim como de qualquer outro elemento decorativo. Tive alguma dificuldade em atravess¨¢-la at¨¦ ¨¤ entrada principal. As lajes tumulares que, quando eu era mi¨²do, cobriam o ch?o tinham sido arrancadas, deixando enormes buracos dif¨ªceis de transpor. Quando cheguei ao pequeno adro de terra batida, encontrei as lajes amontoados num canto, algumas inteiras, outras partidas, nas quais ainda se conseguiam ver gravados os nomes e as datas de morte e nascimento dos sepultados. Passei, ent?o, para o claustro. Como os soalhos de madeira j¨¢ haviam desaparecido, este encontrava-se totalmente a descoberto. No seu centro, o pequeno espa?o reservado para o jardim dos monges estava, agora, cheio de silvedos. Algumas das colunas que o delimitavam e que outrora seguravam o teto tinham tombado, se por a??o dos elementos ou vandalismo, n?o tenho como dizer. Foi, ent?o, que avistei o s¨ªtio perfeito para me esconder: a velha torre sineira. Do interior, n?o havia maneira de lhe aceder, pois a porta ficava no segundo andar junto a um ch?o que j¨¢ l¨¢ n?o se encontrava. Sa¨ª para as traseiras do convento, onde se encontravam os acessos ao monte e aos campos, alguns pequenos edif¨ªcios de apoio e, claro, a base da torre. Depois de a circundar, encontrei uma pequena entrada secund¨¢ria com menos de um metro de altura. Tive quase de me arrastar, mas acabei por conseguir entrar. Como acontecera aos soalhos, as escadas haviam¨Cse desintegrado. Felizmente, a torre era estreita, pelo que, pressionando as costas, os p¨¦s e os bra?os contra as paredes, consegui, com muito esfor?o, chegar ao topo. Tinha, agora, uma vis?o privilegiada de todo o convento, principalmente do terreiro onde o culto supostamente se reunia, e duvidava que algu¨¦m me avistasse ali. Desliguei a lanterna. Ainda n?o era sequer meia-noite, mas temia que os cultistas aparecessem mais cedo ou que vissem a luz ¨¤ distancia. J¨¢ estava ¨¤ espera h¨¢ quase duas horas, quando comecei a ouvir um cantico vindo do fundo do caminho que me levara ali. Pouco depois, detr¨¢s da curva, surgiu uma luz alaranjada. Fixei l¨¢ o meu olhar, pois sabia que estava prestes a ver o que tinha ido ali procurar. De tr¨¢s da curva, surgiu uma fila de pessoas, todas elas segurando candeias. Algumas tamb¨¦m traziam sacos de pano, no interior dos quais algo se movia. Confesso que fiquei surpreendido e at¨¦ algo desiludido. Talvez por influ¨ºncia do cinema e da televis?o, esperava figuras encapu?adas com longas vestes negras. Contudo, tratavam-se de pessoas normais envergando roupas do dia a dia. Os cultistas subiram at¨¦ ao port?o e, ent?o, tomaram o mesmo carreiro que eu usara para entrar. Passado pouco tempo, estavam todos no terreiro, em volta da base do cruzeiro. N?o se ouvia nada, a n?o ser os canticos e o cacarejar das galinhas nos sacos. De repente, as vozes silenciaram-se. Um dos cultistas, um homem de cabelo longo e desgrenhado, subiu ao altar improvisado e come?ou a entoar um novo cantico, desta vez a plenos pulm?es. Ao fim de alguns minutos, um dos outros cultistas abriu o saco e passou uma galinha ao sacerdote. Este, com uma pequena faca que tirou do cinto, cortou a garganta ao animal e deixou o sangue escorrer sobre as pedras. Isto repetiu-se durante uma meia hora, at¨¦ que todos os sacos se encontraram vazios. Depois, os cultistas emitiram um grito em un¨ªssono. O ch?o come?ou a estremecer. Aos poucos, uma falha abriu-se no ch?o em frente do altar improvisado. Um brilho vermelho alaranjado projetava-se dela. Era como se se tratasse de uma passagem para o pr¨®prio Inferno. Os cultistas olharam para ele, como se hipnotizados, durante alguns momentos, at¨¦ que um gigantesco punho vermelho, maior do que uma pessoa, saiu dele. Perante o olhar expectante do culto, a m?o abriu-se, libertando cerca de uma dezena de estranhos seres humanoides. Estes eram pequenos, com cerca de meio metro de altura, e estavam cobertos por uma curta pelagem negra. Dois diminutos chifres coroavam-lhes a cabe?a, que tamb¨¦m apresentava focinhos afiados e dentes pontiagudos. Com grande entusiasmo, os cultistas correram atr¨¢s destes mafarricos, apanhando-os e enfiando-os nos sacos onde tinham trazido as galinhas. Ao mesmo tempo, a m?o desapareceu, voltando ao abismo, e, assim que o ¨²ltimo mafarrico foi apanhado, a falha fechou-se. Satisfeitos, os cultistas voltaram pelo mesmo caminho por onde tinham vindo, desta vez em total sil¨ºncio. Nem os mafarricos, enfiados nos sacos, faziam qualquer ru¨ªdo. Deixei a luz das candeias desaparecerem atr¨¢s da curva no caminho e ainda esperei uma meia hora depois disso antes de descer do meu esconderijo e voltar para o carro. Apesar de ser a primeira entrada do di¨¢rio que eu investigava que envolvia humanos, foi provavelmente uma das que me deixou com mais perguntas. Quem eram aqueles cultistas? Que iam fazer com os mafarricos? A quem pertencia a m?o que os trouxera? Fui a pensar nisso at¨¦ casa e at¨¦ perdi o sono nessa noite. As possibilidades causavam-me arrepios. S¨® obteria as respostas muito depois, mas estas superariam tudo o que conseguia imaginar. Capítulo 6 – El Gato de Campanh? Como adepto da explora??o urbana, sou, tamb¨¦m, um apreciador de arte de rua. Ao longo dos anos, tive a oportunidade de conhecer v¨¢rios artistas, com os quais me mantive em contacto. Um dia, durante uma conversa por chat com um deles, descobri algo estranho. Quem conhece a Esta??o de Campanh?, no Porto, sabe que esta est¨¢ rodeada por uma enorme infraestrutura de cimento. O que a maioria das pessoas desconhece ¨¦ que esta oculta uma enorme rede de t¨²neis de servi?o, parte da qual j¨¢ tinha tido a oportunidade de explorar. Como seria de esperar, artistas de rua conseguiram entrar em alguns destes t¨²neis e aproveitaram as paredes para praticar a sua arte. Foi durante uma destas visitas que o meu amigo e mais alguns colegas se depararam com algo de muito estranho. Num dos t¨²neis, encontraram um gato. Isto nada teria de excecional, n?o fosse o facto de o animal n?o sair do mesmo s¨ªtio h¨¢ meses e repetir constantemente os mesmos movimentos. Depois de tudo o que tinha visto desde que encontrara o di¨¢rio, n?o podia deixar de ir investigar. Combinei uma hora com o meu amigo e apanhei o comboio de Braga at¨¦ Campanh?. Quando l¨¢ cheguei, ele levou-me diretamente para o t¨²nel. A porta met¨¢lica encontrava-se junto ¨¤ berma da linha, a uns trezentos metros da esta??o, e estava escancarada, dando acesso f¨¢cil ao interior. L¨¢ dentro, as paredes e at¨¦ o teto estavam cobertos de grafitos de estilo variado. De simples ¡°tags¡± a elaborados murais, via-se ali de tudo. Adentr¨¢mo-nos no t¨²nel durante v¨¢rias dezenas de metros, at¨¦ que cheg¨¢mos a uma parte onde este se abria ¨¤ direita. Nessa dire??o, havia um largo po?o, cujo prop¨®sito ningu¨¦m parecia perceber. ¨C ¨¦ a¨ª que est¨¢ o gato ¨C disse-me o meu amigo. Apontei a lanterna para o fundo, uns oito metros mais abaixo, e logo avistei o animal. Realmente, parecia um gato comum, cinzento e branco. Fiquei a observ¨¢-lo durante uns minutos. Durante esse tempo, permaneceu quase im¨®vel, sentado no ch?o, movendo-se apenas ocasionalmente em intervalos que me pareceram regulares para lamber uma das patas da frente, sempre a mesma. Atr¨¢s do animal, encontrei uma porta de ferro, mas esta encontrava-se enferrujada e n?o parecia ser usada h¨¢ anos. De facto, duvidava que fosse poss¨ªvel sequer abri-la, pelo menos n?o sem a destruir. ¨C Desde que o descobrimos, h¨¢ quatro meses, que est¨¢ ali sempre a fazer o mesmo ¨C contou o meu amigo. ¨C Um gato normal j¨¢ tinha morrido ¨¤ fome. Tive de concordar com ele. Aquele gato podia n?o constar do di¨¢rio que eu encontrara, mas merecia constar. ¨C Eu trouxe uma corda ¨C disse eu, apontando para a mochila nas minhas costas. ¨C Podemos descer para ver melhor. ¨C Parece-me bem. The narrative has been taken without permission. Report any sightings. Nesse momento, dois outros artistas que pintavam junto a n¨®s aproximaram-se e um deles disse: ¨C Podemos ir convosco? Tamb¨¦m estamos curiosos com o gato. ¨C ¨¤ vontade ¨C respondeu o meu amigo. Tirei, ent?o, a corda da mochila e prendi-a a uma viga de cimento situada quase diretamente por cima do po?o. Deixei que cada um dos meus companheiros testasse o n¨® e, assim que ficaram satisfeitos, come?amos a descer. O artista que me chamara ali foi o primeiro a descer, seguido por mim e s¨® ent?o pelos dois que nos abordaram. Durante tudo isto, o gato manteve-se imperturbado, lambendo apenas a pata algumas vezes. N?o se mostrava s¨® indiferente ¨¤ nossa presen?a, era como se n?o estiv¨¦ssemos ali. Andamos ¨¤ volta dele, observando-o atentamente, mas, fisicamente, nada o distinguia de um gato comum. N?o fosse o seu estranho comportamento e o facto de estar naquele po?o h¨¢ tanto tempo, ningu¨¦m lhe teria prestado nenhuma aten??o. Inspecionei, tamb¨¦m, a porta enferrujada e confirmei que esta estava t?o perra que era imposs¨ªvel mov¨º-la. Finalmente, a curiosidade levou a melhor de um dos artistas que se juntara a n¨®s e ele tentou tocar no animal. Para nossa surpresa, a sua m?o atravessou o gato como se n?o estivesse nada ali, enquanto este permaneceu im¨®vel, como se nada fosse. Recuamos. N?o sab¨ªamos o que era aquela criatura ou o que podia fazer. Depois de tudo o que vira antes, eu era o menos alarmado dos quatro. Os meus acompanhantes pareciam aterrados. ¨C ¨¦ um fantasma! ¨C disse um dos homens que se haviam juntado a n¨®s. Como eu podia atestar, era uma boa possibilidade. Contudo, n?o disse nada. Eles j¨¢ tinham sofrido um grande choque, n?o havia necessidade de o agravar. ¨C Que fazemos agora? ¨C perguntou o meu amigo. ¨C Avisamos algu¨¦m? Antes de algu¨¦m conseguir responder, o homem que tentara tocar no gato come?ou a gritar desesperadamente. ¨C Que se passa? ¨C perguntou o companheiro dele, mas ele apenas continuou a gritar. Os seus gritos eram t?o intensos que me faziam doer os ouvidos. Come?ou, ent?o, a correr em c¨ªrculos ¨¤ volta do po?o, como se estivesse a tentar fugir de algo, mas n?o soubesse para onde ir. Finalmente, tentou subir a corda, mas caiu ao fim de pouco mais de um metro, ficando sentado no ch?o e encostado ¨¤ parede. Juntamo-nos em volta dele para o tentar acalmar e perceber o que se passava, mas ele n?o parava de gritar. ¨C Olhem?! ¨C disse o meu amigo de repente, apontando para a m?o do ca¨ªdo. Parte desta j¨¢ n?o tinha pele, mostrando os m¨²sculos debaixo. Diante dos nossos olhos, estes desapareceram, deixando apenas ossos. Por fim, at¨¦ estes se desvaneceram. O homem, finalmente, parou de gritar. ¨C Est¨¢s bem? ¨C perguntou-lhe o amigo. Ao n?o obter resposta, tentou tocar-lhe, mas retraiu a m?o quando o corpo do ca¨ªdo se esvaziou como um bal?o. Finalmente, desapareceu por completo. O que quer que o tivesse consumido, f¨º-lo tanto de fora para dentro como de dentro para fora. Em panico, os meus dois acompanhantes que restavam treparam a corda de volta ao t¨²nel e correram para o exterior. Com mais calma, segui-os, deitando um ¨²ltimo olhar para o gato, que continuava como se nada se passasse. S¨® voltei a falar com o meu amigo dias depois, pelo chat. Ainda estava algo abalado com o que v¨ªramos, pelo que apenas lhe dei algum conforto e n?o lhe contei sobre as coisas igualmente estranhas que havia visto antes e a mir¨ªade descrita no di¨¢rio que eu encontrara. Contudo, ele contou-me algo de muito interessante. Depois da nossa visita, tentara visitar novamente o t¨²nel, mas descobrira que a entrada deste havia sido selada com cimento. Quem o fizera? Teria sido a organiza??o de que Alice me falara durante a minha primeira visita ao Bar das Fadas? E como haviam descoberto a exist¨ºncia do gato? Como sempre, uma das minhas explora??es tinha trazido mais perguntas para me atormentar. Infelizmente, estas s¨® aumentavam ainda mais a minha insaci¨¢vel curiosidade, puxando-me cada vez mais na dire??o de conhecimento que nenhum ser humano devia possuir. Capítulo 7 - Os Cerqueira Um dia, depois do trabalho, alguns meses ap¨®s a minha primeira visita ao Bar das Fadas, decidi l¨¢ voltar. Devido ao trabalho e a compromissos familiares, j¨¢ h¨¢ algum tempo que n?o tinha a oportunidade de investigar uma das entradas do di¨¢rio, mas a minha curiosidade come?ava a tornar-se insuport¨¢vel. O Bar das Fadas ficava perto do escrit¨®rio onde trabalhava, pelo que era o local ideal para uma visita r¨¢pida. Quem sabe, talvez encontrasse l¨¢ algu¨¦m que pudesse responder a algumas das minhas perguntas ou at¨¦ surgisse a oportunidade de visitar os t¨²neis escondidos debaixo de Braga. Como antes, acedi ao bar atrav¨¦s das escadas situadas atr¨¢s de uma porta nos fundos de uma pastelaria junto ao Arco da Porta Nova. Quando l¨¢ cheguei, deparei-me com uma cena semelhante ¨¤ da minha primeira visita. Havia apenas uma diferen?a significativa. Sentado ao balc?o, encontrava-se um homem. Alice dissera-me que era raro aparecer algu¨¦m da minha ra?a ali, pelo que me aproximei devagar, observando-o atentamente para me certificar que n?o era apenas uma outra criatura semelhante a um humano. Assim que tive a certeza de que n?o estava enganado, sentei-me a seu lado. Ele pareceu t?o surpreendido como eu por ver ali outro humano. Chamava-se Henrique Cerqueira e, embora tivesse conhecimento daquele outro mundo h¨¢ mais tempo, n?o parecia saber muito mais do que eu. Ainda assim, troc¨¢mos impress?es enquanto beb¨ªamos um copo daquela ¨¢gua que era a ¨²nica bebida servida no bar. Ele n?o costumava sair de Braga, pelo que desconhecia tudo aquilo que eu encontrara fora dela, mas falou-me de um outro s¨ªtio parecido com o Bar das Fadas no outro lado da cidade, embora me tivesse avisado que n?o era t?o bem frequentado. N?o havia men??o a esse local no caderno que eu encontrara, pelo que tomei uma nota mental para o visitar depois. A nossa conversa viu-se interrompida, ao fim de pouco mais de uma hora, por um telefonema da minha mulher. Tive, ent?o, de ir para casa, mas n?o antes de Henrique me dar o seu n¨²mero de telem¨®vel e me convidar a ir um dia almo?ar a sua casa. Talvez por ter finalmente encontrado algu¨¦m com quem podia falar daquele mundo que a maioria das pessoas desconhecia e em que provavelmente se recusariam a acreditar, fiquei expectante quanto a essa minha visita. Infelizmente, s¨® pude aceitar o convite quase tr¨ºs semanas depois, quando a minha mulher teve de ir para fora em trabalho e a minha filha foi passar uns dias a casa de uma amiga. Conduzi at¨¦ ¨¤ antiga freguesia de Dadim, onde se situava a casa de Henrique. Esta n?o foi dif¨ªcil de encontrar. Seguindo pelo caminho que me ele havia indicado, dei imediatamente de caras com uma casa isolada, um pouco acima da base de uma colina coberta por uma floresta. ¨¤ frente dela, estendia-se um vale que eu nunca me apercebera que existia, pois encontrava-se numa depress?o que n?o era vis¨ªvel da estrada. Uma parede de granito delimitava-o juntamente com a casa, indicando que tudo aquilo pertencia aos Cerqueira. Conduzi at¨¦ ¨¤ entrada e toquei ¨¤ campainha, uma voz perguntou atrav¨¦s do intercomunicador quem era e, assim que respondi, o port?o abriu-se. Mesmo estando de carro, ainda me levou uns cinco minutos a percorrer o caminho de terra batida, que serpenteava entre socalcos cobertos de vinhedos. Depois de uma ¨²ltima curva, cheguei ¨¤ casa. De t?o perto, era verdadeiramente impressionante. Tinha apenas um piso, ¨¤ exce??o da torre no lado direito, que se erguia mais um andar, embora o s¨®t?o tamb¨¦m aparentasse ser espa?oso. Toda a frente da casa era ocupada por um enorme alpendre, cujo teto se apoiava em v¨¢rias colunas de ferro fundido. Atr¨¢s dele, janelas ocupavam quase toda a parede, tamb¨¦m elas de ferro fundido e decoradas com diversas formas. Parei o carro em frente ¨¤ escadaria que subia at¨¦ ¨¤ porta principal, onde me esperava Henrique e o resto da fam¨ªlia Cerqueira. ¨C Seja bem-vindo ¨¤ Vila Marta - disse Henrique, com um sorriso, quando subi as escadas. Depois, apresentou-me a sua fam¨ªlia. Entre crian?as e adultos, estavam ali umas vinte pessoas. Da entrada pass¨¢mos para o vest¨ªbulo, onde deixei o casaco, e dali para a sala de jantar. L¨¢, encontrava-se uma enorme mesa, com dez cadeiras de cada lado. Como convidado, deram-me um lugar no in¨ªcio da mesa, em frente a Henrique. ¨¤ nossa direita, na cabe?a da mesa, sentou-se a m?e de Henrique, a matriarca da fam¨ªlia, enquanto que o resto da fam¨ªlia se sentou nos restantes lugares, ¨¤ esquerda. Passado pouco tempo, uma empregada idosa, mais velha do que qualquer um dos comensais, come?ou a trazer travessas da cozinha. A conversa iniciou-se com as habituais trivialidades sobre emprego, fam¨ªlia e at¨¦ o tempo. Depois, desviou-se finalmente para o mundo paralelo ao nosso, de que toda a fam¨ªlia tinha conhecimento. - Como encontrou o Bar das Fadas e todos os outros s¨ªtios que o Henrique me disse que visitou? - acabou por perguntar a matriarca. Contei-lhe a hist¨®ria sobre como encontrei o caderno que me tinha levado ¨¤quelas descobertas. ¨C No nosso caso, ¨¦ uma heran?a de fam¨ªlia - explicou Henrique. - Ningu¨¦m sabe ao certo h¨¢ quantas gera??es temos esse conhecimento. A conversa passou a ser, ent?o ,sobre criaturas estranhas e lugares escondidos da vista da maioria dos homens. Todos contribu¨ªram com algo e fiquei a conhecer at¨¦ coisas que n?o constavam do caderno. O almo?o estendeu-se quase at¨¦ ¨¤s quatro da tarde, hora a que os comensais se come?aram a levantar. Henrique levou-me at¨¦ ¨¤ sala de estar, onde nos sent¨¢mos a beber um whisky mais velho do que eu. Atrav¨¦s das amplas janelas, viam-se os vinhedos em frente ¨¤ casa. Por entre bebidas, Henrique contou-me como aquelas vinhas eram a origem da riqueza da fam¨ªlia desde tempos imemoriais. Foi ent?o que reparei em algo peculiar. ¨C Onde est?o os trabalhadores? - perguntei, estranhando a falta de movimento nos campos. - De certeza que precisam de muita m?o de obra para manter um vinhedo t?o grande. - Aqui, o trabalho ¨¦ feito de noite - explicou ele. - De noite? - perguntei, confuso. - Venha - pediu ele, levantando-se da poltrona. Henrique levou-me para o corredor e, atrav¨¦s dele, at¨¦ ao andar t¨¦rreo da torre. L¨¢, desviou uma estante cheia de livros, revelando um estreito t¨²nel contendo uma escadaria que descia, em curva, at¨¦ desaparecer de vista. Conduzido pelo meu anfitri?o, desci at¨¦ ao fundo, onde nos depar¨¢mos com uma porta de madeira e ferro que j¨¢ devia ter d¨¦cadas, se n?o s¨¦culos. Apesar da sua idade, Henrique abriu-a sem qualquer dificuldade, dando acesso a uma enorme cave que devia ocupar toda a ¨¢rea da casa. Atravess¨¢mos os estreitos corredores criados entre sacos de fertilizante, t¨²neis e pipas de vinho, garrafas vazias e cheias e utens¨ªlios agr¨ªcolas at¨¦ chegarmos ao lado da cave oposto ¨¤quele por onde entr¨¢mos. L¨¢, encontr¨¢mos uma parede interrompida apenas por uma porta gradeada. Foi at¨¦ ela que Henrique me levou. Quando espreitei por entre as grades, fiquei sem saber o que dizer. Do outro lado, encontrava-se um pequeno quarto do qual emanava um cheiro pungente. No meio do ch?o, quase ¨¤s escuras, amontoavam-se dezenas de pequenas criaturas, que n?o teriam mais de um metro de altura. A sua pele era cinzento azulada, e cabelo negro, longo e emaranhado descia-lhes pelas costas. Garras terminavam-lhes os p¨¦s e as m?os. The narrative has been taken without authorization; if you see it on Amazon, report the incident. - N?o se encontra m?o de obra mais barata em lado nenhum - disse Henrique, claramente orgulhoso. - Um balde de carne cozida todas as noites e est?o prontos para trabalhar. N?o sabia como responder. Aquelas criaturas n?o eram humanas, bem sei, nem conhecia o seu n¨ªvel de intelig¨ºncia, mas, de qualquer forma, tudo aquilo me parecia errado. Henrique notou o meu desconforto e levou-me de novo para a sala, para acabarmos as nossas bebidas. Ainda l¨¢ fiquei durante quase mais uma hora. Pouco fal¨¢mos. Por fim, desculpei-me que se estava a fazer tarde e deixei a quinta. A caminho de casa, n?o conseguia esquecer o meu desapontamento. Tinha encontrado algu¨¦m com quem podia falar daquele mundo oculto, mas ele usava esse mundo em proveito pr¨®prio. Durante essa noite, mal dormi, pois n?o conseguia expulsar a imagem daquelas criaturas presas na cave. Mesmo no dia seguinte, durante o trabalho, n?o conseguia esquecer. Como tal, e apesar de estar sobrecarregado com trabalho, depois da hora de expediente fui at¨¦ ao Bar das Fadas. Tinha esperan?a de encontrar Alice para lhe contar o que vira. Abri a porta que dava acesso ao bar com cuidado. N?o me queria deparar com Henrique Cerqueira. Felizmente, n?o havia nem sinal dele. Por outro lado, Alice estava sentada ao balc?o quase no mesmo s¨ªtio onde a vi pela primeira vez. Aproximei-me e sentei-me no banco mesmo ao lado dela. - Ol¨¢ - disse eu. - Ol¨¢ - respondeu ela sarcasticamente. Claramente n?o havia esquecido a minha sa¨ªda repentina da ¨²ltima vez. Comecei a contar-lhe o que tinha visto na casa dos Cerqueira. Embora, a princ¨ªpio, n?o se tivesse mostrado muito interessada, acabei por lhe captar a aten??o. ¨C Pelo que dizes, eles usam trasgos para trabalhar os campos. N?o s?o das criaturas mais inteligentes, nem das mais agrad¨¢veis, mas n?o merecem ser tratados assim. Volta aqui logo ¨¤ noite. Vou ver se encontro algu¨¦m para nos ajudar. Eu concordei. Depois de jantar, disse ¨¤ minha mulher e filha que tinha de ir ao escrit¨®rio trabalhar para poder sair sem levantar muitas suspeitas. De facto, n?o era propriamente mentira. Eu devia ter ido trabalhar essa noite, mas n?o podia deixar que os Cerqueira continuassem a abusar daquelas pobres criaturas. Quando voltei ao Bar das Fadas, este estava quase vazio. Para al¨¦m de um ou outro cliente solit¨¢rio, encontrava-se l¨¢ um grupo de cinco criaturas, do qual Alice fazia parte. Ela chamou-me e pediu-me que contasse aos outros o que tinha visto. Enquanto contava, mais uma vez, o que vira na casa dos Cerqueira, observei os meus novos companheiros. Um deles, um homem, devia ser da mesma ra?a de Alice, pois tinha o mesmo cabelo branco, pesco?o comprido e olhos felinos que ela. Outro, era pequeno, mal me chegava ¨¤ cintura, e possu¨ªa uma pele amarela e laranja. Em contraste, a seu lado, encontrava-se uma mulher muito alta e esguia, de pele azul e olhos grandes, com v¨¢rios desenhos negros na cara que n?o consegui perceber se eram naturais ou tatuagens. Por fim, numa mesa pr¨®xima, sentava-se uma diminuta criatura que se assemelhava muito ¨¤ ideia popular da fada. Nas costas, cresciam-lhe asas semelhantes ¨¤s de uma lib¨¦lula, e pequenas escamas multicoloridas cobriam-lhe a parte de tr¨¢s do pesco?o e dos bra?os. Quando acabei a minha hist¨®ria, todos prontamente concordaram em ajudar a libertar os trasgos. Em seguida, Alice liderou-nos at¨¦ uma das portas que levavam aos t¨²neis onde os das suas ra?as habitavam. Desde que descobrira o bar, que os queria visitar. S¨® gostava que as circunstancias tivessem sido outras. A porta, ap¨®s uma curta passagem, desembocava num t¨²nel largo e alto com ch?o calcetado, paredes de granito e teto arqueado. Chamas azuis, que pareciam n?o emitir qualquer calor, ardiam em nichos nas paredes e iluminavam tanto ou mais do que luzes el¨¦tricas. Uma mir¨ªade de portas despontava em ambas as paredes. Durante o nosso percurso, pass¨¢mos por v¨¢rias curvas e bifurca??es. Quanto mais avan?¨¢vamos, maiores ficavam os t¨²neis e maior era multid?o que os percorria. Na superf¨ªcie, s¨® durante o Ver?o se via tanta gente. E nunca com aquela diversidade. Perdi a conta ao n¨²mero de ra?as diferentes com que me cruzei. Finalmente, descemos uma escadaria at¨¦ uma enorme camara retangular. Esta era atravessada, no seu centro, por uma vala que se ligava, em ambos os estremos, a t¨²neis maiores do que qualquer um pelo que t¨ªnhamos passado. Juntamente com outras criaturas, esper¨¢mos naquela plataforma. Uns dez minutos depois, uma luz surgiu no fundo de um dos t¨²neis. Pouco depois, deste saiu uma gigantesca criatura, da altura da vala, e comprida o suficiente para ocupar todo o comprimento da camara. Assemelhava-se vagamente a uma centopeia, com um corpo vermelho acastanhado e uma mir¨ªade de patas delgadas. Contudo, n?o possu¨ªa antenas, e a sua face tinha tra?os humanos. Sobre as costas da criatura, alinhavam-se seis carruagens de madeira. Atrav¨¦s de uma t¨¢bua, subimos para uma destas carruagens e instalamo-nos nos bancos de madeira e ferro. Pouco depois, partimos, entrando no outro t¨²nel alto que desembocava na camara. Afinal, Braga tinha metro. Os habitantes da superf¨ªcie ¨¦ que n?o o conheciam. Desembarc¨¢mos uns quinze minutos depois, numa camara muito semelhante ¨¤quela onde entr¨¢mos. Subimos escadas e volt¨¢mos para um sistema de t¨²neis. Este era muito mais pequeno do que aquele junto ao Bar das Fadas, com muitas menos portas e bifurca??es. Por fim, cheg¨¢mos a uma porta de metal guardada por uma criatura alta e musculada, que nos deixou sair. Est¨¢vamos, agora, numa ex¨ªgua caverna natural, a qual s¨® consegui percorrer caminhando de lado. Instantes depois, mais ¨¤ frente, surgiu uma luz prateada. Ap¨®s passar uma moita, que disfar?ava a entrada, cheg¨¢mos ao exterior. Foi com alguma surpresa que, sob o luar, me apercebi que est¨¢vamos no vale dos Cerqueira, junto ¨¤ fronteira entre este e o monte, n?o muito longe de uma das paredes da quinta. Seria por ali que Henrique acedia ao mundo escondido debaixo de Braga? Sem perder tempo, a pequena fada voou sobre o muro. Regressou uns cinco minutos depois. - Os trasgos j¨¢ est?o a trabalhar - disse¨Cnos. - E n?o est?o sozinhos. Os Cerqueira t¨ºm Ogrons como capatazes. - Quantos s?o? - perguntou Alice. - N?o sei ao certo, mas n?o s?o muitos. - Ent?o, vamos. - Espera - disse eu. - Qual ¨¦ o plano? - Entrar ali e empatar os capatazes enquanto os trasgos fogem - respondeu Alice, sem parar. - Anda. O muro que circundava a Vila Marta e os seus campos era de granito e tinha mais de dois metros de altura. Fossemos todos humanos, ter¨ªamos tido alguma dificuldade em subir. Felizmente, um dos meus companheiros tinha garras retr¨¢cteis, pelo que chegou ao topo com relativa facilidade. Depois, ajudou-nos a passar para o outro lado. N?o havia ilumina??o naqueles socalcos, e era uma das ¨²ltimas noites de quarto minguante, pelo que estava escuro. N?o conseguia ver nada para al¨¦m das silhuetas difusas dos vinhedos e dos postes que a suportavam. - N?o vejo nada - disse aos meus companheiros. - N¨®s vemos - disseram a fada e a criatura que nos ajudara a entrar quase em un¨ªssono. - Vamos - disse Alice. Comigo a seguir os outros cegamente, subimos at¨¦ ao primeiro socalco. Escondemo-nos atr¨¢s de um muro circular, que devia pertencer a um po?o, e olh¨¢mos atentamente para cima. No socalco seguinte, consegu¨ªamos ver v¨¢rias silhuetas por entre as vinhas, a maioria pequenas, mas uma delas excecionalmente grande, provavelmente o capataz. Alice pousou-me uma m?o no bra?o. - Tu n?o v¨ºs bem no escuro, por isso vais ajudar-me com aquele capataz. Os outros tratam dos socalcos mais acima. Prontamente concordei. Agachados, subimos a rampa de terra que levava ao socalco seguinte. Ent?o, eu e Alice separ¨¢mo-nos dos outros. Tent¨¢mos aproximarmo-nos sem ser vistos, usando os postes como esconderijos, por¨¦m, a vis?o noturna do capataz tamb¨¦m devia ser melhor do que a minha, pois prontamente emitiu um tem¨ªvel urro e avan?ou para n¨®s. Alice puxou-me e, juntos, lan?¨¢mo-nos contra ele. A princ¨ªpio, o ser resistiu ¨¤ nossa investida, mas acab¨¢mos por atir¨¢-lo ao ch?o. Enquanto mant¨ªnhamos o capataz preso contra o ch?o, Alice gritou, na dire??o dos trasgos: - Fujam! Saiam daqui! As criaturas hesitaram um momento, mas logo se puseram em fuga, descendo a parede que suportava o socalco como se fossem gatos. O ogron continuava a debater-se e a gritar. Alice deu-lhe um murro e, quando este n?o resultou, outro e mais outro e ainda outro. A criatura continuava a mexer-se, pelo que n?o tinha perdido a consci¨ºncia, mas j¨¢ n?o se debatia. - Acho que j¨¢ podemos ir - disse Alice. Quando cheg¨¢mos ¨¤ rampa por onde hav¨ªamos subido, vimos as silhuetas dos nossos companheiros a correr vindos dos socalcos mais altos, acompanhados por pequenas formas que s¨® podiam ser trasgos. Atr¨¢s deles, ouvi a voz de Henrique e de passos pesados. T¨ªnhamos sido descobertos e estavam a chegar refor?os. Corremos de volta para o muro, os trasgos, na sua ansia por liberdade, ultrapassando-nos e chegando ao exterior antes de n¨®s come?armos sequer a trepar. Depois de deixarmos o terreno dos Cerqueira, n?o vimos nem ouvimos mais nenhum sinal de persegui??o. Ainda assim, s¨® par¨¢mos de correr quando entr¨¢mos nos t¨²neis que levavam ao comboio vivo. Para onde tinham fugido os trasgos, n?o sab¨ªamos, nem se t¨ªnhamos conseguido libertar todos. Tamb¨¦m n?o valia a pena pensar nisso. Depois daquela noite, os Cerqueira iam ficar de sobreaviso. Nunca mais ¨ªamos conseguir salvar mais ningu¨¦m da sua quinta. Capítulo 8 - A Organiza??o Ap¨®s a minha descoberta do di¨¢rio, tinha praticamente abandonado a explora??o urbana. Contudo, uma not¨ªcia num jornal di¨¢rio minhoto despertou, de novo, esse meu interesse. Um navio destinado ao porto de Viana do Castelo havia afundado na foz do rio Lima. Curiosamente, este afundara de proa, ficando a popa e a metade de tr¨¢s fora de ¨¢gua quase na vertical. A ¨®bvia oportunidade para explora??o n?o me passou despercebida. Logo no fim de semana seguinte, fui at¨¦ Viana. Para meu al¨ªvio, desta vez n?o tive de mentir nem esconder a verdade da minha mulher. Ela estava bem ciente do meu interesse pela explora??o urbana. N?o gostava de a enganar, e de certeza que ela j¨¢ come?ava a desconfiar de algo. Encontrei-me com um velho amigo que me emprestou um barco (o mesmo que eu usara para explorar o Camalh?o e encontrar o Rei das ¨ªnsuas) e, quando anoiteceu, remei at¨¦ ao navio naufragado. Ocorreu-me, ent?o, que podia ter convidado o resto do grupo de explora??o urbana de Braga. J¨¢ estava t?o habituado a fazer as expedi??es baseadas no di¨¢rio sozinho que, desta vez, nem me lembrei deles. E ainda bem, como estava prestes a descobrir. J¨¢ perto do navio, com a ajuda da minha lanterna, procurei um s¨ªtio por onde entrar. N?o demorei muito a encontrar uma vigia situada pouco acima da linha de ¨¢gua. Aproximei-me e, com o cabo da lanterna, parti o vidro. Tive alguma dificuldade em passar pela ex¨ªgua vigia, mas acabei por conseguir. Mal pousei os p¨¦s no ch?o met¨¢lico, apontei a lanterna ¨¤ minha volta. Estava numa cabine. A primeira coisa que me saltou ¨¤ vista foi que esta n?o possu¨ªa qualquer mob¨ªlia. Contudo, esse n?o era o elemento mais estranho daquela divis?o. Para minha surpresa, a porta encontrava-se na vertical. Como o navio tinha afundado de proa, eu devia estar sobre uma das paredes. Portanto, era como se aquela cabine estivesse preparada para se inclinar noventa graus. Aproximei-me da porta e, cautelosamente, abri uma frincha. Do outro lado n?o encontrei nada sen?o escurid?o, pelo que abri a porta um pouco mais e apontei a lanterna para o exterior. Vi, ent?o, um corredor onde se alinhavam v¨¢rias outras portas. Sa¨ª e comecei a abri-las. Atr¨¢s de cada uma delas apenas encontrei cabines vazias que pouco diferiam daquela por onde tinha entrado. Finalmente, ap¨®s uma curva no corredor, avistei um brilho ¨¤ distancia. Aproximei-me e encontrei uma porta estanque entreaberta. Era de tr¨¢s dela que vinha a luz. Abri-a, esperando revelar outro corredor, mas o que encontrei foi algo que nunca tinha imaginado. ¨¤ minha frente, estava, agora, um enorme espa?o aberto, que devia ocupar grande parte da metade submersa do navio. Escadas met¨¢licas desciam at¨¦ uma rede de plataformas e passagens e, por fim, at¨¦ ao ch?o. Este era formado por terra lamacenta que, ¨¤quela profundidade, s¨® podia ser o leito do rio. Sobre ele, e nas plataformas, homens, gruas e retroescavadoras abriam um enorme buraco. Ap¨®s ver gigantescas dobradi?as e pist?es hidr¨¢ulicos presos ao interior do casco, percebi que aquele navio estava n?o s¨® preparado para se virar num angulo de noventa graus, como tamb¨¦m podia abrir a proa para explorar o fundo. Imediatamente, perguntei-me do que estariam ¨¤ procura, mas um golpe na cabe?a fez-me perder os sentidos e impediu-me de ir logo em busca da resposta. Quando voltei a mim, encontrava-me numa das cabines pequenas e vazias dos n¨ªveis superiores. Esta, por¨¦m, n?o tinha vigias, e a parca ilumina??o provinha apenas de uma luz que entrava por baixo da porta. Procurei nos bolsos, mas tudo o que tinha neles (telem¨®vel, lanterna, canivete, carteira, chaves) havia desaparecido. N?o sei quanto tempo mais estive ali at¨¦ ouvir a porta a ser destrancada. Esta abriu-se logo em seguida, revelando quatro homens. Tr¨ºs deles envergavam uniformes cinzento escuros, incluindo botas e boinas, e empunhavam espingardas de assalto. Eram claramente militares, mas n?o tinham nenhuma ins¨ªgnia que identificasse o seu pa¨ªs ou servi?o. O quarto homem, por¨¦m, vestia fato e gravata negros e uma camisa branca. Tinha cabelo curto bem penteado, com vest¨ªgios de gel, e n?o seria muito mais velho do que eu, provavelmente no in¨ªcio da casa dos quarenta. De facto, ele parecia um dos homens de neg¨®cios com que me cruzo diariamente na empresa. Fazendo sinal aos soldados para ficarem no corredor, o homem de fato entrou na cabine e aproximou-se de mim. - O meu nome ¨¦ Almeida e sou o encarregado desta investiga??o - disse, estendendo-me a m?o. Por mero h¨¢bito, cumprimentei-o. Ele meteu, ent?o, as m?os nos bolsos das cal?as. - Eu sou... - comecei a dizer. - Eu sei - interrompeu-me Almeida. - Sabe, o seu blogue n?o nos passou despercebido. Aquela afirma??o apanhou-me de surpresa. De facto, eu tinha um blogue pouco lido onde escrevia sobre as minhas explora??es (podem encontr¨¢-lo em www.terceirarealidade.wordpress.com mas, como perceber?o de seguida, n?o ¨¦ uma fonte muito fidedigna). No entanto, nunca ningu¨¦m me tinha identificado como o autor. - N?o precisa de ficar t?o surpreendido. As suas atividades s?o de grande interesse para n¨®s. - Porqu¨º? - foi a ¨²nica coisa que me lembrei de dizer. - Blogues podem ser uma boa ferramenta para descredibilizar os acontecimentos que s?o nossa responsabilidade esconder. Quantos mais aparentes maluquinhos escreverem sobre estes temas, menos o p¨²blico acredita neles. N?o precisei de ouvir mais nada para perceber quem eram aqueles homens. Pertenciam, certamente, ¨¤ organiza??o de que Alice me falara, encarregada de esconder o mundo que existe paralelo ao nosso. - Ali¨¢s, tenho uma proposta para si - continuou Almeida. - Se concordar em acrescentar artigos e alterar os escritos por si segundo as nossas instru??es, estou disposto a mostrar-lhe o que encontr¨¢mos aqui. Se n?o, lembre-se de que podemos fazer o seu blogue desaparecer e dificultar muito a sua vida e a da sua fam¨ªlia. Olhando para os soldados atr¨¢s dele e pensando em todos os recursos que vira a escavar o leito do rio, j¨¢ para n?o falar do navio em si, n?o duvidava de que ele fosse capaz de cumprir a sua amea?a. Al¨¦m disso, eu escrevia o blogue mais para passar o tempo do que para ser lido, pelo que a veracidade do que l¨¢ estava escrito n?o era de grande importancia para mim. Acabei por aceitar a proposta de Almeida. Unlawfully taken from Royal Road, this story should be reported if seen on Amazon. - ¨®timo! - respondeu ele. - Venha comigo. Estamos quase a encontrar o que viemos aqui procurar. Ele levou-me de volta aos corredores e, atrav¨¦s deles, at¨¦ ¨¤ enorme camara onde decorria a escava??o. De uma plataforma, observ¨¢mos os trabalhos. A nosso lado, um ecr? mostrava o que eu deduzi ser uma imagem do subsolo obtida por algum tipo de sensor. Nesta, via-se claramente uma enorme mancha branca que s¨® podia ser o que aqueles homens procuravam. Almeida n?o me disse do que se tratava, e eu tamb¨¦m n?o perguntei. Afinal, a julgar pela imagem, ia descobrir em breve. Minutos depois, algo surgiu. Por entre a lama escura, via-se, agora, um ponto branco. As m¨¢quinas afastaram-se e pararam, sendo a escava??o retomada por homens com p¨¢s. Aos poucos, o objeto misterioso foi sendo revelado. A cada segundo que passava, parecia maior. ¨¤ distancia a que me encontrava era dif¨ªcil ter a certeza, mas a mat¨¦ria branca que o formava parecia ter uma textura estranha, semelhante a pele. De facto, sempre que um dos escavadores lhe tocava, esta mostrava alguma elasticidade. Quando, ao fim de mais de uma hora, o objeto ficou completamente descoberto, n?o sabia bem para o que estava a olhar. Por um lado, parecia um animal do tamanho de um cachalote, com a pele coberta por uma substancia viscosa de origem claramente organica. Por outro, tinha uma forma triangular com os cantos arredondados t?o regular que n?o parecia de origem natural. Os homens de Almeida, pacientemente, escavaram por baixo do objeto e passaram cintas, do que imagino ser kevlar, de um lado ao outro. Depois, prenderam os dois extremos ao gancho de uma grua. Esta, lenta e cuidadosamente, come?ou a levant¨¢-lo, tendo como objetivo uma plataforma n?o muito longe daquela onde nos encontr¨¢vamos. Quando passou junto a n¨®s, por¨¦m, a ¡°pele¡± do objeto come?ou a mexer-se, primeiro ligeiramente, e depois, violentamente. Parecia que algo estava a tentar sair do interior. Os soldados apontaram-lhe as armas. - N?o disparem - ordenou Almeida. A nossa suspeita confirmou-se segundos depois, quando uma m?o terminada por garras rompeu a superf¨ªcie. Antes de algu¨¦m conseguir reagir, de dentro do objeto saiu uma criatura negra vagamente humanoide. Era maior do que um homem, com uns dois metros de altura, e possu¨ªa bra?os t?o longos que tocariam no ch?o caso se erguesse sobre ele. Fitou-nos com os seus olhos amarelos e depois saltou na nossa dire??o. - Disparem! - gritou Almeida. Balas zumbiram em dire??o ¨¤ criatura, passando desconcertantemente perto de n¨®s, mas nenhuma pareceu atingi-la. Impulsionada pelas suas poderosas pernas, esta alcan?ou a nossa plataforma, empurrando-me e atirando-me ao ch?o. Tenho de confessar que estar ali prostrado aos p¨¦s daquele ser foi um dos mais assustadores momentos da minha vida, pelo menos at¨¦ ent?o. Aquelas garras e presas podiam desfazer-me num instante. Felizmente, a criatura n?o se demorou e correu escadas acima. - Atr¨¢s dele! - ordenou Almeida. - N?o o deixem sair do navio. Os soldados assim fizeram. Almeida seguiu logo atr¨¢s. Quando me consegui levantar e recuperar, j¨¢ eles tinham desaparecido atr¨¢s da porta estanque que levava aos n¨ªveis superiores. Corri atr¨¢s deles. Seguindo os ru¨ªdos de botas nas passagens de ferro, percorri corredores e subi escadas at¨¦ chegar ao exterior. Encontrei-os no que s¨® posso chamar de conv¨¦s situado sobre a parte de tr¨¢s da ponte do navio. Estavam debru?ados sobre a amurada, apontando as armas para ¨¢gua. Juntei-me a eles. - Ele saltou para o rio - disse-me Almeida. Juntamente com eles, comecei a procurar a criatura por entre as ¨¢guas. Ela ressurgiu, momentos depois, nas escadas altas de cimento que sustentavam a margem do rio. Com a biblioteca de Viana logo acima, os homens da Organiza??o n?o se atreveram a disparar, e a criatura desapareceu para o interior de uma das quelhas da cidade. - Vamos ter de o perseguir pela cidade - disse Almeida, mais para si mesmo do que para os que o rodeavam. - Baixem o barco. Depois, virou-se para mim: - Conhece Viana? - Cresci aqui - respondi. - Ent?o vai ter de vir connosco. Os soldados voltaram para o interior pela mesma porta por onde sa¨ª. Pouco depois, vi a parede a mover-se. Uma sec??o inteira deslizou para o lado, revelando um por?o contendo v¨¢rios barcos semirr¨ªgidos. Os soldados pegaram num em peso e levaram-no at¨¦ ¨¤ amurada. Ao pressionar um bot?o, esta inclinou-se e rodou, formando uma rampa atrav¨¦s da qual o barco foi levado at¨¦ ¨¤ ¨¢gua. Depois de embarcarmos, foi uma quest?o de pouco mais de um minuto at¨¦ chegarmos ¨¤ margem. Desembarc¨¢mos aproximadamente no mesmo ponto onde a criatura subira a terra e seguimo-la para o interior da quelha. Como esperava, ela j¨¢ l¨¢ n?o se encontrava. Os soldados apontaram as lanternas para os outros tr¨ºs becos que desembocavam naquele, mas n?o viram nenhum sinal do nosso alvo. Estes pareciam bastante experientes em situa??es daquelas, pois, sem esperar por uma ordem de Almeida, come?aram ¨¤ procura de pistas que indicassem para onde a criatura podia ter ido. N?o tardaram a encontrar umas marcas no estuque meio ca¨ªdo de uma casa pr¨®xima. Tratavam-se de buracos enormes a espa?os mais ou menos regulares. - Subiu para os telhados - disse Almeida, verbalizando o ¨®bvio. Olh¨¢mos todos para cima, mas ¨¦ claro que a criatura j¨¢ l¨¢ n?o estava. Contudo, sab¨ªamos agora que sinais procurar. Numa quelha adjacente, encontr¨¢mos fragmentos de telhas que n?o pareciam estar l¨¢ h¨¢ muito tempo. Noutra, paralela ¨¤ segunda, encontr¨¢mos o mesmo. Numa transversal a esta ¨²ltima, uma parede mostrava marcas na parte superior. Seguindo estas pistas, acab¨¢mos por avistar um vulto que se movia por entre os telhados da cidade. Quando est¨¢vamos a passar diante da Igreja Matriz, ele at¨¦ saltou por cima de n¨®s, aterrando dentro da torre sineira. Contudo, n?o ficou l¨¢ muito tempo, pois prontamente saltou para o telhado da igreja e passou para o edif¨ªcio atr¨¢s. Almeida e os seus homens come?aram a descer a rua, certamente indo em busca de uma passagem atrav¨¦s da qual pudessem seguir na mesma dire??o da criatura, mas eu chamei-os: - Por aqui. Tomando uma quelha escondida ao lado da igreja, conseguimos seguir paralelos ¨¤ criatura. Quando emergimos para uma rua maior, est¨¢vamos ¨¤ frente dela. Finalmente, cheg¨¢mos ao largo situado ao lado do antigo mercado, no centro do qual se encontrava a Capela da Almas. Numa tentativa de nos prepararmos para todos os poss¨ªveis movimentos da criatura, avan?¨¢mos at¨¦ meio caminho entre o fim da rua e a capela. Dali, pod¨ªamos segui-la rapidamente fosse para onde fosse. Por sorte, o ser saltou diretamente para cima da capela. Com rapidez e precis?o militar, os soldados da Organiza??o cercaram o edif¨ªcio antes de ele ter tempo de passar para o pr¨®ximo. - Abatam-no - ordenou Almeida, quando o ser come?ou a ganhar balan?o para um novo salto. As autom¨¢ticas abriram fogo. Apesar de ter algum interesse em armas, n?o fazia ideia que modelo era aquele. N?o faziam barulho quase nenhum ao disparar. N?o que vivesse muita gente naquela parte da cidade para as ouvir. Ao ser atingida pelas primeiras balas, a criatura interrompeu o salto e tentou encontrar ref¨²gio, mas soldados cobriam todos os angulos daquele telhado. Balas e mais balas alojaram-se no seu corpo, at¨¦ que, finalmente, caiu do telhado. Ainda assim, aquilo n?o estava terminado. O ser levantou-se e, com um rosnar, avan?ou na dire??o de um dos soldados. Almeida tirou uma pistola de um bolso interior do casaco e juntou-se aos seus homens, cercando a criatura. Perante o fogo cruzado, esta n?o resistiu e, por fim, tombou, ficando im¨®vel no ch?o. Num movimento quase mecanico, sem hesitar e nem sequer pensar, um dos soldados tirou um pl¨¢stico negro da mochila, aproximou-se do corpo e cobriu-o. - Pode ir - disse-me Almeida, guardando a pistola e enfiando as m?os nos bolsos das cal?as. - N¨®s agora vamos proceder ¨¤ limpeza. Entraremos em contacto para lhe dizer o que queremos que altere no seu blogue. Como ¨¦ ¨®bvio, estava cheio de perguntas. O que era aquela criatura? O que estava a fazer no fundo do rio? O que era aquela coisa dentro da qual se encontrava? E a Organiza??o, fora criada por quem? A quem respondia? Quem a financiava? Contudo, n?o me parecia que Almeida fosse responder a nada, pelo que deixei o local e fui recuperar o barco do meu amigo. Mais uma vez, no caminho de volta a casa, a minha mente estava perdida nas poss¨ªveis explica??es para o que havia visto. Cheguei a casa quase sem notar e s¨® quando o port?o da garagem se come?ou a abrir ¨¦ que percebi que tinha estado fora muito mais tempo do que esperara. Que desculpa ia dar ¨¤ minha mulher? Capítulo 9 - Trasgos Citadinos Mais uma vez, uma not¨ªcia num jornal local despertou a minha curiosidade. Esta reportava uma s¨¦rie de estranhos acidentes de autom¨®vel que andavam a ocorrer na cidade de Braga. Todos eles aconteciam pr¨®ximo do local onde os carros ficavam estacionados durante a noite e mostravam sinais de sabotagem, geralmente trav?es cortados. As mortes j¨¢ superavam uma dezena. Segundo a not¨ªcia, a pol¨ªcia acreditava que se tratava de um ou v¨¢rios vandalos em s¨¦rie, mas ainda n?o tinha encontrado qualquer pista, ind¨ªcio ou testemunha que ajudasse a identific¨¢-los. Noutros tempos, teria prontamente concordado com as autoridades, mas, depois de tudo o que vira nos meses anteriores, perguntei-me se a causa n?o seria outra, algo associado ao outro mundo que eu havia descoberto. Como tal, uma noite em que sa¨ª tarde do trabalho, decidi fazer uma ronda pela cidade. A p¨¦, percorri todas a ruas em que carros costumavam ficar estacionados durante a noite, atento a qualquer movimento debaixo deles. Durante a primeira hora, n?o vi mais do que um ou outro animal vadio. Contudo, perto da meia noite, avistei um estranho vulto negro debaixo de um Ford Fiesta. Se eu n?o tivesse visto criaturas bizarras antes, podia ter pensado que se tratava de mais um gato, mas havia algo na forma daquela sombra que n?o parecia animal. Aproximei-me. Lentamente, baixei-me, e, ligando rapidamente a lanterna, espreitei para baixo do carro. O que encontrei, realmente, n?o foi um gato, mas sim um trasgo, como os que eu ajudara a libertar da casa dos Cerqueira. Estava, claramente, a tentar romper parte das tubagens e cablagens na parte de baixo do carro. Alarmado, o ser tentou fugir. Agarrei-o por um bra?o. Se o capturasse, talvez pudesse encontrar algu¨¦m que conseguisse comunicar com ele e perceber porque estava a fazer aquilo. Contudo, o trasgo prontamente me mordeu a m?o, obrigando-me a larg¨¢-lo. Ainda corri atr¨¢s dele, mas, usando os seus quatro membros, era muito mais r¨¢pido do que eu. Perdi-o, por fim, quando ele subiu a parede do terreno adjacente a uma das torres medievais da cidade. Para al¨¦m de ser demasiado alta para eu escalar, tratava-se de propriedade privada habitada, que eu n?o me atrevia a invadir. O encontro, contudo, n?o foi infrut¨ªfero. Quando agarrei o bra?o da criatura, apercebi-me que este tinha uma marca constitu¨ªda por um c¨ªrculo com um C invertido gravado na pele. Decidi, ent?o, ir at¨¦ ao Bar das Fadas procurar Alice na esperan?a que ela soubesse do que se tratava e isso me desse alguma pista sobre a origem e objetivos daquele trasgo. Como esperava, e como em quase todas as minhas visitas ao Bar das Fadas, encontrei Alice sentada ao balc?o. Sentei-me ao lado dela. Depois da nossa aventura na casa dos Cerqueira, ela j¨¢ n?o parecia t?o ressentida com o nosso primeiro encontro, pelo que n?o tive dificuldade em iniciar a conversa. Depois dos cumprimentos iniciais, falei-lhe dos acidentes, das mortes, da minha vig¨ªlia e do meu encontro incriminat¨®rio com o trasgo. - J¨¢ ouvi falar desses acidentes - disse ela. - Quase todos os carros bateram em s¨ªtios habitados por algumas das nossas ra?as mais pequenas. Aquele que derrubou a parede do Pal¨¢cio dos Biscainhos destruiu uma comunidade inteira de fadas que fizeram casa no interior oco. A Marta, a fada que foi connosco ¨¤ quinta dos Cerqueira, perdeu a fam¨ªlia toda. Que tenha sido um trasgo a causar os acidentes pode ser uma revela??o importante. Fiquei em sil¨ºncio durante um instante, tentando digerir o que acabara de ouvir. As mortes podiam ter sido apenas danos colaterais de algu¨¦m a tentar disfar?ar atentados contra as fadas como acidentes. Contudo, isso n?o reduzia a minha vontade de encontrar o respons¨¢vel. Antes pelo contr¨¢rio. Contei, ent?o, a Alice sobre marca que vi no bra?o do trasgo. Ela olhou para mim com uma express?o grave. - Eu j¨¢ vi essa marca antes - disse ela. - Nos trasgos que libert¨¢mos da quinta dos Cerqueira. Nesse momento, fiquei sem pinga de sangue. Uma, talvez mais, das criaturas cuja liberta??o eu promovera e ajudara, podia ser respons¨¢vel por mais de uma dezena de mortes. Era dif¨ªcil n?o sentir que o sangue deles estava nas minhas m?os. - Tens a certeza? - perguntei, procurando uma brecha por onde escapar ¨¤ minha culpa. If you spot this narrative on Amazon, know that it has been stolen. Report the violation. Ela apenas acenou com a cabe?a, em sil¨ºncio. Levantei-me imediatamente e voltei para as ruas de Braga, mais decidido do que nunca a descobrir a raz?o para todas aquelas mortes. Dirigi-me ¨¤ rua onde encontrara o trasgo. Com sorte, tinha-o interrompido antes de ele acabar a sua sabotagem e voltaria para terminar o trabalho. Esperei, im¨®vel, sob a sombra de uma ¨¢rvore, na esperan?a que a escurid?o me escondesse. Estive ali quase uma hora, antes de o trasgo voltar, sa¨ªdo de uma quelha pr¨®xima. Assumi que era o mesmo, pois dirigiu-se para o mesmo carro. Desta vez, n?o interrompi o seu trabalho. Queria que terminasse para segui-lo e ver para onde iria depois. Havia ali algo mais, tinha de haver, e ia descobrir o que era, ou a culpa seria minha¡­ Mais tarde deixaria no para-brisas uma mensagem a avisar o condutor do carro. A criatura nem cinco minutos esteve debaixo do ve¨ªculo. Correu para a quelha de onde emergira e, desta vez, consegui ir atr¨¢s dele. Estava preocupado em n?o perd¨º-lo, como da ¨²ltima vez, felizmente, a persegui??o n?o foi longa. Vi-o a subir a parede traseira de uma casa abandonada nas Carvalheiras - um largo situado no outro extremo da quelha - e a desaparecer na escurid?o atr¨¢s das grades que delimitavam o jardim, constru¨ªdo sobre a garagem. Conhecia bem aquela casa, j¨¢ a tinha visitado com o grupo de explora??o urbana, pelo que sabia como entrar. N?o tinha a agilidade nem as garras do trasgo, por¨¦m, subindo para cima de uma caixa de eletricidade, consegui alcan?ar um espa?o entre as grades largo o suficiente para eu passar. Como era habitual em casas abandonadas h¨¢ muito tempo, esta havia sido vandalizada. A porta traseira tinha sido arrombada. Entrei. Peguei na minha lanterna, mas n?o me atrevi a acend¨º-la. N?o queria assustar quem ou o que l¨¢ estivesse, pelo menos n?o antes de eu descobrir o que se passava. Ainda assim, a luz da lua, das estrelas e at¨¦ da ilumina??o p¨²blica que entrava pelas janelas partidas iluminava o interior o suficiente para eu ver o que me circundava. O ch?o do vest¨ªbulo estava pejado de folhas, provavelmente trazidas pelo vento atrav¨¦s da porta. Felizmente, tamb¨¦m estava coberto de p¨®, no qual se viam, distintamente, v¨¢rias pequenas pegadas, que assumi serem de trasgo. Segui-as at¨¦ ¨¤ escadaria que levava ao piso superior, ignorando duas portas abertas para salas que, pelo pouco e empoeirado mobili¨¢rio que ainda continham, eram de estar e de jantar. As escadas de madeira rangentes levaram-me at¨¦ ao corredor do andar superior, onde se alinhavam v¨¢rias portas abertas ou arrombadas. A luz que sa¨ªa destas era suficiente para eu ver o que me rodeava. Como no andar de baixo, o corredor estava coberto de p¨®, e neste continuavam a ver-se as pegadas de trasgo. Segui-as at¨¦ um dos quartos. Mal cheguei ¨¤ porta, vi pequenos vultos, certamente trasgos, a correr e desaparecer pela porta que levava ¨¤ varanda. Esta, por¨¦m, enquadrava uma forma maior, talvez at¨¦ mais alta do que eu. N?o parecia particularmente incomodada com a minha presen?a, pois n?o moveu um s¨® m¨²sculo quando entrei no quarto. Um capuz e uma capa cobriam-lhe todo o corpo e, com a escassa ilumina??o, era imposs¨ªvel eu conseguir ver o que se encontrava debaixo. - Quem ¨¦ voc¨º? - perguntei. - O que pretende? S¨® podia ser este vulto quem controlava os trasgos, pelo que era altura de eu obter algumas respostas sobre os acidentes e as mortes. - Vai-te embora - respondeu a criatura com uma voz feminina e rouca. - Isto n?o tem nada a ver contigo nem com os da tua ra?a. Esquece tudo o que viste. - Mas... - comecei eu, mas ela virou-me costas e avan?ou para a varanda. Corri atr¨¢s dela, disposto a lutar se fosse preciso, para obter respostas. Contudo, mal chegou ao exterior, ela come?ou a pairar. A surpresa fez-me hesitar momentaneamente, tempo suficiente para a criatura se elevar no c¨¦u noturno, bem acima da casa. Vi-a, ent?o, voar em dire??o a oeste, desaparecendo pouco depois detr¨¢s dos pr¨¦dios que ocultavam o horizonte. Frustrado, deixei a casa e encaminhei-me de novo para o Bar das Fadas. Talvez Alice soubesse quem ou o que era aquele ser encapu?ado. Ela ainda l¨¢ se encontrava, sentada ao balc?o, no mesmo s¨ªtio. Sentei-me a seu lado e, antes de ela ter tempo de dizer alguma coisa, contei-lhe o que tinha acabado de descobrir. Quando lhe falei da figura encapu?ada e de como esta levantara voo, uma express?o aterrorizada apareceu na sua face. - Bruxas da Noite - sussurrou ela, como se tivesse medo de dizer o nome em voz alta. - Quem s?o as Bruxas da Noite? - perguntei, alarmado com a sua rea??o. - A lenda das Bruxas da Noite ¨¦ muito antiga. Diz-se que s?o criaturas misteriosas que atacam algumas das nossas ra?as. Como ¨¦ normal nestas coisas, h¨¢ v¨¢rias hist¨®rias de avistamentos, se bem que ultimamente tem-se ouvido mais. Nunca lhes dei muita importancia. Mas, agora, com o que me contaste... Continu¨¢mos a conversar sobre as Bruxas da Noite durante mais algum tempo. Infelizmente, as hist¨®rias que ela conhecia n?o eram muito ¨²teis. Frequentemente, contrariavam-se umas ¨¤s outras. Mas ¨¦ essa a natureza das lendas. Deixei o Bar das Fadas decidido a encontrar e fazer o que pudesse para parar as Bruxas da Noite. Quando cheguei a casa, a minha mulher j¨¢ tinha adormecido. Eu ligara-lhe a dizer que ia trabalhar at¨¦ tarde. N?o me juntei a ela de imediato. Sentei-me ¨¤ secret¨¢ria com o di¨¢rio que havia encontrado, procurando por todas as entradas sobre bruxas. As minhas pr¨®ximas expedi??es iam centrar-se nelas. Capítulo 10 - As Bruxas de Montalegre Como seria de esperar, uma das primeiras refer¨ºncias a bruxas no di¨¢rio que encontrei estava associada ¨¤ localidade portuguesa mais conhecida por estas: Montalegre. De facto, a vila organiza todas as sextas-feiras treze um evento chamado Noite das Bruxas para celebrar essa mesma tradi??o. Numa tarde chuvosa de s¨¢bado, em que nem a minha mulher, nem a minha filha quiseram sair de casa, dirigi-me para l¨¢. N?o havia autoestradas que levassem at¨¦ Montalegre, pelo que tive de usar a nacional. Durante grande parte do caminho, a estrada era larga e bem mantida, mas algumas dezenas de quil¨®metros antes de chegar ¨¤ vila, tornou-se estreita e cheia de curvas. Foi devagar e com muita aten??o que a percorri, subindo e descendo montes cobertos de pinheiros e eucaliptos. Finalmente, ap¨®s uma ¨²ltima subida, deparei-me com Montalegre. Constru¨ªda numa colina que se erguia sobre um vast¨ªssimo planalto vazio e parcamente arborizado, era uma vis?o impressionante, especialmente num dia pardacento como aquele. No seu ponto mais alto, entre uma mistura de edif¨ªcios novos e antigos, erguia-se o castelo medieval, a sua massiva torre de menagem parecendo capaz de resistir ao pr¨®prio Apocalipse. Segundo o di¨¢rio, as bruxas da regi?o apenas se encontravam depois de anoitecer. Est¨¢vamos quase no Inverno, pelo que n?o tinha de esperar muito, e decidi fazer tempo num caf¨¦ local. Aproveitei a oportunidade para pedir mais informa??es sobre o local onde o di¨¢rio dizia que as bruxas se reuniam e dire??es mais precisas. O empregado explicou-me como l¨¢ chegar e como seria o terreno at¨¦ l¨¢ sem fazer perguntas ou colocar qualquer dificuldade. Contudo, um cliente sentado numa mesa pr¨®xima, um homem de j¨¢ alguma idade com um chap¨¦u e uma bengala pousados na cadeira a seu lado, ouviu a conversa e disse: - N?o v¨¢ l¨¢! ¨¦ onde as bruxas se juntam de noite. Se sabem que algu¨¦m andou pelo s¨ªtio delas, lan?am-lhe um feiti?o. Se estiverem de bom humor, s¨® lhe d?o uma caganeira, se n?o, d?o-lhe uma doen?a que o enfraquece e mata. Foi assim que um vizinho meu morreu. Deu-lhe a curiosidade e... A advert¨ºncia daquele senhor n?o me dissuadiu de ir procurar as bruxas. Pelo contr¨¢rio, apenas confirmou que estava no caminho certo. Paguei e voltei ao carro. Conduzi, ent?o, para este da vila, entrando na estrada que atravessava esse lado do planalto. Ali, naquele dia cinzento, n?o era dif¨ªcil ver porque a regi?o ganhara a sua reputa??o sobrenatural. Uma charneca flanqueava a estrada. Aqui e ali, crescia uma ¨¢rvore e, ocasionalmente, via-se uma lagoa, mas continha sobretudo pedras e vegeta??o rasteira, por entre as quais se erguiam pequenas eleva??es. Segundo o di¨¢rio, o ponto de encontro das bruxas escondia-se atr¨¢s de uma destas. Estacionei o carro junto ao in¨ªcio de um trilho que, segundo o empregado do caf¨¦, me levaria at¨¦ l¨¢, e comecei a segui-lo. Quase de imediato, fiquei contente por ter levado as minhas melhores botas de montanha. O caminho era irregular, cheio de pedras e enlameado. Com qualquer outro cal?ado teria ficado com os p¨¦s encharcados e doridos. Demorei pouco mais de uma hora a chegar ¨¤ pequena eleva??o que procurava. Atr¨¢s dela, encontrei um pequeno arvoredo com meia d¨²zia de ¨¢rvores e algumas moitas. No espa?o vagamente circular entre elas, encontrei as cinzas recentes de uma fogueira. N?o havia d¨²vida de que estava no s¨ªtio certo. O Sol j¨¢ desaparecia detr¨¢s do horizonte, pelo que n?o devia faltar muito para as bruxas chegarem para o encontro dessa noite. Escondi-me atr¨¢s de uma moita espessa, situada do lado da clareira oposto ao do trilho, e esperei. Passou outra hora, antes de eu come?ar a ouvir algu¨¦m a chegar. A noite j¨¢ tinha ca¨ªdo em pleno, e o c¨¦u estava encoberto, pelo que ali, longe de qualquer ilumina??o p¨²blica, pouco mais via do que negro. Ouvi a pessoa entrar na clareira vinda do trilho, e, pouco depois, o som de toros de madeira a serem atirados ao ch?o. De repente, uma pequena chama acendeu-se e, instantes depois, a fogueira ardia vivamente. Junto desta, conseguia agora ver uma mulher com j¨¢ alguma idade. Estava toda vestida de negro, incluindo um len?o que lhe cobria a cabe?a. If you find this story on Amazon, be aware that it has been stolen. Please report the infringement. Durante alguns minutos, ela ficou ali de p¨¦, ¨¤ espera. Ent?o, uma segunda mulher, mais jovem, mas envergando roupas semelhantes, surgiu vinda do trilho. Mal tiveram tempo de trocar cumprimentos quando uma terceira e, depois, uma quarta se juntaram a elas. Os dois ¨²ltimos elementos do grupo tardaram um pouco mais, mas, assim que chegaram, as seis formaram um c¨ªrculo em volta da fogueira. Ent?o, tiraram as roupas, e eu pude v¨º-las bem pela primeira vez. A mais jovem teria pouco mais de vinte anos, enquanto que a mais velha j¨¢ h¨¢ muito teria passado dos oitenta. Ao contr¨¢rio do que contam algumas lendas, n?o vi nenhuma marca fora do normal nos seus corpos. Nuas, come?aram a dan?ar em volta da fogueira, cantando algo numa l¨ªngua que eu n?o reconheci. A dan?a durou uma meia hora, os seus corpos contorcendo-se de forma ca¨®tica, mas, ao mesmo tempo, bela e quase hipnotizante. At¨¦ as bruxas mais idosas mostravam uma agilidade e flexibilidade extraordin¨¢rias, sobrenaturais, at¨¦. Quando terminaram, prostraram-se, viradas para a fogueira. De s¨²bito, de entre as chamas, saltou uma pequena criatura de pele vermelha viva. Tinha orelhas pontiagudas, entre as quais cresciam dois diminutos chifres, e um focinho afiado cheio de dentes como agulhas. Pequenas asas, claramente incapazes de suportar o seu corpo num voo constante, sa¨ªam-lhe das costas. A ela, seguiram-se em r¨¢pida sucess?o outras cinco. Prontamente, todas elas se juntaram ¨¤s bruxas e retomaram a dan?a. Qual o prop¨®sito daquele ritual, n?o conseguia imaginar. Havia uma semelhan?a ¨®bvia entre aqueles seres e os invocados pelo culto que encontrara no convento de S?o Francisco, em Viana do Castelo. Contudo, na altura n?o me apercebi disso. Estava demasiado preocupado em descobrir se aquelas eram ou n?o as Bruxas da Noite. Se me tivesse apercebido, talvez algumas mortes que ocorreram mais tarde pudessem ter sido evitadas. De s¨²bito, uma das criaturas saiu do c¨ªrculo de dan?a e come?ou a farejar o ar. Passado uns segundos, virou-se para os seus companheiros e disse: - N?o estamos sozinhos. Um arrepio subiu-me a espinha. Estava claramente a falar de mim. As bruxas e os restantes mafarricos interromperam a dan?a e os canticos. Eu preparei-me para fugir, mas era demasiado tarde. - Sai da¨ª! - disse o primeiro mafarrico, com uma voz estridente, na dire??o da moita atr¨¢s da qual eu me escondera. - E nem penses em fugir. Eu e os meus irm?os vemos bem no escuro e somos mais r¨¢pidos do que parecemos. Apanhamos-te de certeza. E n?o vais gostar do que vamos fazer depois disso. A criatura emitiu uma risada cruel. Com um misto de medo e curiosidade, sa¨ª de tr¨¢s da moita e aproximei-me da fogueira. - ¨¦ perigoso andar por estas bandas depois de anoitecer - disse uma das bruxas, uma das mais jovens, com um sorriso malicioso. - E mais ainda ficar a espreitar os nossos rituais. - Voc¨ºs s?o as Bruxas da Noite? - perguntei, indo direto ao assunto. Afinal, que mais podia eu dizer. Ao ouvir o nome, os mafarricos rosnaram e as bruxas cuspiram para a fogueira. - N?o nos confundas com essas cabras - disse uma das bruxas mais velhas. - N¨®s somos devotas do Cornudo, do Diabo, de Belzebu. ¨¦ ele que nos d¨¢ os nossos poderes - explicou uma bruxa de meia-idade. - As Bruxas da Noite sa¨ªram de repente do nada e ningu¨¦m sabe de onde vem o seu poder ou quem servem. Mas n?o s?o como n¨®s. - Cabras! - gritou a bruxa mais idosa. - Aparecem do nada e acham-se melhores que a gente. N?o v?o aos Grandes Convent¨ªculos, n?o respeitam o nosso mestre, nem sequer nos reconhecem como irm?s. - Qual ¨¦ o teu interesse nelas? - perguntou um dos mafarricos. Apesar de j¨¢ estar habituado a falar com criaturas estranhas, hesitei durante um segundo. Havia algo de perturbador naquelas criaturas. Contudo, l¨¢ acabei por contar a hist¨®ria das mortes e dos trasgos e do vulto negro na casa abandonada. Durante alguns momentos, ningu¨¦m disse nada. Acho que n?o sabiam bem como reagir. Por fim, o mafarrico que me interrogou disse: - Vai-te embora. E s¨® te deixamos ir porque queres interferir nos planos das Bruxas da Noite. Mas n?o voltes. Sem dizer mais nada, assim fiz. J¨¢ no trilho, de volta ao carro, ouvi as bruxas e os mafarricos a retomarem o seu cantico. Durante grande parte do caminho, ao contr¨¢rio do que era habitual, n?o consegui pensar no que acabara de descobrir. As estradas estreitas e cheias de curvas requeriam toda a minha aten??o durante a noite. Por¨¦m, assim que cheguei a estradas melhores, a minha mente come?ou a divergir. Aquelas n?o eram as Bruxas da Noite, isso ficou claro, mas o desprezo que mostraram por elas e o facto de as considerarem como uma ceita ¨¤ parte foi uma descoberta importante. Infelizmente, isso n?o respondia ao mist¨¦rio de quem eram as Bruxas da Noite, o que pretendiam e onde encontr¨¢-las. Apenas o adensava. Quando cheguei a Braga j¨¢ era quase hora de jantar. Telefonei ¨¤ minha mulher e ¨¤ minha filha a perguntar se queriam refei??es do Burger King. Queria compens¨¢-las pela minha aus¨ºncia. Capítulo 11 - Bruxas Urbanas Quando procurei no di¨¢rio entradas sobre bruxas, uma em particular chamou-me ¨¤ aten??o. Quando pensamos em bruxas, pelo menos em Portugal, v¨ºm-nos ¨¤ cabe?a imagens de mulheres em volta de fogueiras num campo abandonado ou no meio da floresta, ou curandeiros e adivinhos populares que atendem clientes nas suas caves ou em pequenos anexos. Esta entrada, por¨¦m, falava de um grupo de bruxas do Porto que se encontrava num sal?o de ch¨¢ no cora??o desta que ¨¦ a segunda maior cidade do pa¨ªs. N?o ¨¦ de admirar, portanto, que, depois da entrada mais ¨®bvia, a de Montalegre, eu tenha decidido investigar esta. Um dia em que estava sozinho naquela cidade em trabalho, aproveitei um intervalo grande entre as minhas reuni?es da manh? e da tarde para visitar o referido sal?o de ch¨¢. Com a ajuda do GPS do meu telem¨®vel, l¨¢ encontrei a morada. Deparei-me, ent?o, com um problema. A entrada no di¨¢rio tinha v¨¢rios anos, e o sal?o de ch¨¢ j¨¢ n?o existia. No seu lugar, erguia-se, agora um pequeno centro comercial. Estacionei num parque pr¨®ximo e entrei. Talvez conseguisse encontrar alguma pista que me indicasse qual era o novo ponto de encontro das bruxas. Mal passei a porta, apercebi-me que aquele n?o era um centro comercial comum. Em vez de lojas de roupa, bijuteria, tecnologia e artigos desportivos, como na maioria de estabelecimentos do g¨¦nero, este tinha lojas de esoterismo, maquilhagem natural, comida biol¨®gica e artigos culturais. Percorri os corredores e subi as escadas at¨¦ ao segundo andar. Foi ent?o que me deparei com o que procurava: um sal?o de ch¨¢ com o mesmo nome daquele onde as bruxas se reuniam. Deviam ter reaberto no centro comercial depois de este ter substitu¨ªdo o sal?o original. Entrei e sentei-me numa mesa. A decora??o era bastante moderna: cadeiras ovais brancas, sof¨¢s de pele, mesas de um s¨® p¨¦. At¨¦ os pedidos eram feitos atrav¨¦s de tablet pcs embutidos em colunas ou atrav¨¦s de um qualquer smartphone gra?as a QR codes impressos nas caixas de madeira dos guardanapos. Pedi um ch¨¢ e uma tosta, que consumi relaxadamente, enquanto observava os clientes que entravam e sa¨ªam. As idades pareciam variar entre os vinte e os cinquenta e, a julgar pelas roupas, eram todas pessoas de algumas posses. Na sua maioria, eram mulheres, embora n?o por muito. Durante a cerca de meia hora em que estive ali sentado, notei algo que, se n?o soubesse o que estava a procurar, me teria passado desapercebido. Sozinhas ou aos pares, sete mulheres na casa dos trinta, todas elas de saltos altos, bem vestidas e maquilhadas e com cabelos meticulosamente cuidados, entraram e, sem hesitar, dirigiram-se imediatamente para o andar de cima. Felizmente, o sinal para o WC apontava para l¨¢, pelo que tinha a desculpa perfeita para subir e confirmar as minhas suspeitas. Subi as escadas de ferro e madeira. No topo, deparei-me com uma sala em tudo semelhante ¨¤ de baixo. Das sete mulheres, contudo, n?o havia nem sinal. Cuidadosamente, tentando n?o chamar demasiado ¨¤ aten??o, pois n?o sabia se estava a ser filmado, tentei perceber para onde podiam ter ido. No corredor que levava ¨¤s casas de banho, encontrei uma terceira porta com o comum sinal dizendo "Proibida a entrada a pessoas estranhas ao servi?o". Era o ¨²nico local onde, aparentemente, as poss¨ªveis bruxas se podiam ter escondido. The story has been stolen; if detected on Amazon, report the violation. Encostei silenciosamente o ouvido ¨¤ porta, mas n?o ouvi nada. Lentamente, abri uma pequena frincha e espreitei. Assim que um pouco de luz dissipou a escurid?o do outro lado, vi umas escadas que levavam at¨¦ uma outra porta, mais acima. Fechei a primeira atr¨¢s de mim e acendi a lanterna. Tendo cuidado para n?o fazer barulho, comecei a subir. Apenas alguns degraus depois, ouvi um cantico. Quanto mais subia, mais este se intensificava. Assim que encostei o ouvido ¨¤ segunda porta, apercebi-me que vinha de tr¨¢s dela. Era ali que as bruxas se reuniam, n?o havia d¨²vida. O cantico durou mais uns quinze minutos. Ap¨®s uns momentos de sil¨ºncio, uma voz distante e aguda perguntou: - Que querem de mim? Devia tratar-se de algum esp¨ªrito ou criatura que o ritual invocara. - Tu v¨ºs mais do que qualquer uma de n¨®s. Cham¨¢mos-te aqui para responderes ¨¤s nossas perguntas - disse uma voz feminina, certamente pertencente a uma das bruxas. Uma a uma, as mulheres puseram as suas quest?es. Confesso que fiquei desiludido. Com todos os mist¨¦rios sobre a hist¨®ria e o universo que podiam tentar deslindar, as suas perguntas foram do mais b¨¢sico poss¨ªvel. Com quem ¨¦ que fulana andava a trair o marido? Onde sicrano foi buscar dinheiro para comprar um Mercedes novo? Como fulano conseguiu conquistar a atual mulher quando era t?o feio? Fofoquices! Pessoas como aquelas n?o podiam ser as Bruxas da Noite. Preparava-me para ir embora, quando ouvi a voz aguda e distante dizer: - Gostavam de saber quem est¨¢ atr¨¢s da porta? Virei-me para fugir, mas tinha apenas descido tr¨ºs degraus quando a porta se abriu atr¨¢s de mim e algo me empurrou. Ca¨ª pelas escadas, embatendo contra a porta inferior. Atordoado e dorido, senti v¨¢rias m?os pegarem em mim e arrastarem-me pelos degraus acima. Ap¨®s alguns minutos de recupera??o, as tonturas e a n¨¦voa diante dos meus olhos dissiparam-se. Estava, agora, num pequeno quarto sem janelas, iluminado por mais de uma dezena de velas. Havia ali uma estranha mistura entre o moderno e o antigo. Tablets, no ecr? das quais se podiam ver p¨¢ginas com textos escritos em estranhos caracteres, repousavam sobre um tapete gasto e cheio de marcas de queimado. No seu centro, ardia um pequeno braseiro, cujas chamas se agitavam com o sopro do ar condicionado. Cadeiras modernas, iguais ¨¤s usadas no sal?o de ch¨¢, misturavam-se com arm¨¢rios que pareciam sa¨ªdos de antiqu¨¢rios e continham uma infinidade de instrumentos ancestrais. Sentadas no tapete, as sete mulheres rodeavam-me. Todas elas agora levavam ao pesco?o amuletos enormes com um ar antigo e gasto, contrastando marcadamente com os seus vestidos modernos e saltos altos. - Quem ¨¦s tu? - perguntou-me uma das bruxas. - E porque nos estavas a escutar? - Ando ¨¤ procura das Bruxas da Noite. Conhecem-nas? - E quem s?o essas? - perguntou outra bruxa. - Algumas parolas que andam por a¨ª de noite montadas em vassouras? As suas companheiras riram-se. - N?o nos damos com gentinha dessa - acrescentou uma terceira bruxa. - S¨® se for mesmo preciso. - Agora, temos de decidir o que fazer contigo. - Deixamo-lo ir - disse a primeira bruxa que falou. - E se ele conta a algu¨¦m? - perguntou a mulher que levantara a quest?o. - Olha para a roupa dele - respondeu-lhe a companheira. - Achas que algu¨¦m vai p?r a palavra de um Z¨¦ Ningu¨¦m como ele acima da nossa? Ia dar-nos mais problemas desfazermo-nos dele. - Tens raz?o - disse outra bruxa. - Vai-te l¨¢ embora. Mas n?o voltes! Assim fiz. Aquelas n?o eram claramente as Bruxas da Noite, pelo que n?o tinham qualquer interesse para mim. Fui ¨¤ casa de banho de um caf¨¦ pr¨®ximo do centro comercial para limpar o fato e as minhas feridas da queda e encaminhei-me para a minha reuni?o da tarde. Ao contr¨¢rio do que ocorrera nas minhas explora??es anteriores, esta n?o suscitou nenhum pensamento ou pergunta. Aquelas bruxas eram in¨²teis para deslindar o mist¨¦rio que perseguia. Capítulo 12 - A Taverna dos Encantados As minhas primeiras buscas pelas Bruxas da Noite tinham sido infrut¨ªferas. Embora ainda tivesse outras entradas sobre bruxas no di¨¢rio para explorar, um dia, durante o intervalo para o almo?o, lembrei-me de um outro s¨ªtio onde podia encontrar mais informa??o. No meu primeiro encontro com Henrique Cerqueira, ele falara-me de um outro local de conv¨ªvio para as estranhas criaturas que habitavam debaixo dos nossos p¨¦s em Braga. A sua localiza??o foi provavelmente a ¨²nica coisa boa que veio de eu ter conhecido o homem. Como tal, uns dias depois, ap¨®s o trabalho, dirigi-me para a loja dos chineses, uma das maiores da cidade, sob a qual o local se encontrava. Estacionei o carro no parque subterraneo e, de imediato, comecei a procurar a grelha de escoamento que me levaria aos t¨²neis abaixo. Encontrei-a escondida atr¨¢s de uma coluna, como Henrique me indicara. De facto, n?o havia como enganar. Era a ¨²nica por onde um homem adulto podia passar, pelo menos se n?o fosse muito gordo. Eu tinha ido preparado com um p¨¦ de cabra e, usando-o, consegui retirar a pesada grade de ferro com relativa facilidade. Depois, baixei-me para o interior do t¨²nel de escoamento. Arrastando-me, comecei a descer a estreita e ¨ªngreme passagem. A princ¨ªpio, esta estava revestida com cimento, mas este prontamente deu lugar a terra e lama. Felizmente, tinha mudado para roupa informal antes de sair do trabalho. O t¨²nel manteve a dire??o durante toda a sua extens?o e n?o tinha nenhuma bifurca??o, pelo que, com a ajuda da minha lanterna, n?o foi dif¨ªcil chegar ao outro extremo. Assim que sa¨ª da passagem, encontrei-me num novo t¨²nel, este muito maior. Devia ter uns dois metros e meio de altura e outros tantos de largura, pelo que podia caminhar confort¨¢vel atrav¨¦s dele. Ao contr¨¢rio das passagens em volta do Bar das Fadas, o ch?o, o teto e as paredes eram de terra, lama e pedra, com vigas de madeira aqui e ali para refor?ar pontos mais cr¨ªticos. Apontei a lanterna em ambas as dire??es que o t¨²nel seguia, mas n?o consegui ver nenhum dos extremos. Seguindo as indica??es de Henrique Cerqueira, encaminhei-me para este. Durante quase dez minutos, n?o vi mais do que as paredes e a escurid?o al¨¦m da luz da minha lanterna, at¨¦ que, por fim, avistei a porta que procurava. Esta era tosca, feita de troncos de ¨¢rvores unidos com pregos, e cordas prendiam-na a uma viga fazendo o papel de dobradi?as. A medo, empurrei-a at¨¦ abrir uma frincha grande o suficiente para eu passar. O que encontrei do outro lado n?o podia ser mais diferente do Bar das Fadas. Como o t¨²nel atr¨¢s de mim, tratava-se de um espa?o aberto no subsolo com refor?os aqui e ali. A mob¨ªlia era t?o tosca como a porta, e o mesmo podia ser dito da clientela. Criaturas disformes, sujas e com express?es de pouca intelig¨ºncia bebiam de canecas de barro mal limpas. A maior parte era maior e mais musculada do que eu, se bem que uns seres com pele verde mal me chegavam ¨¤ cintura. Nunca tinha visto nenhuma daquelas ra?as no Bar das Fadas. Henrique chamara ao local a Taverna dos Encantados, mas era agora ¨®bvio que se tratava de uma alcunha jocosa, pois n?o havia ali qualquer encanto. Ao contr¨¢rio do que acontecera nas minhas visitas ao Bar das Fadas, a minha entrada n?o passou desapercebida. Todos os olhos se pousaram em mim. N?o estariam habituados a humanos ou estranhos em geral? Tentando mostrar confian?a, avancei at¨¦ ao balc?o. Stolen content alert: this content belongs on Royal Road. Report any occurrences. - Que queres? - perguntou o taberneiro, uma enorme criatura de pele castanha com a cara deformada. - O que tem? Ele apontou para as prateleiras bichadas fixas ¨¤ parede atr¨¢s dele, onde se encontravam v¨¢rias garrafas sujas com conte¨²dos de cor estranha. Escolhi o que me pareceu menos intrag¨¢vel, e a criatura serviu-mo numa caneca. Depois de, a custo, beber um trago da repelente mistela, passei ao assunto que me levara ali: - Algu¨¦m aqui j¨¢ ouviu falar nas Bruxas da Noite? Ou sabe algo sobre os trasgos que andam a provocar acidentes de carro? Nunca aprendi a ser subtil. Mal acabei de falar, uma das pequenas criaturas verdes deixou a taverna por outra porta que n?o aquela por onde entrei. - P¨¢ - disse um cliente sentado numa mesa atr¨¢s de mim - se fosse a ti, ia-me embora. Virei-me. Todos os olhos continuavam pousados em mim, mas agora havia neles ¨®dio. - N?o ouviste? - insistiu a criatura, levantando-se. Era enorme, com bem mais de dois metros de altura e o dobro da minha largura, e possu¨ªa quatro musculados bra?os. Pegou em mim como se nada fosse e atirou-me de volta ao t¨²nel por onde eu havia entrado. - Sai daqui! - gritou ele. N?o tive coragem de fazer outra coisa. Comecei a afastar-me a passo. Pouco depois, ouvi a outra porta da taberna abrir-se. Olhei sobre o ombro e vi a criatura verde a voltar acompanhada por v¨¢rias outras muito maiores e musculadas. Comecei a correr, n?o fossem perseguir-me. S¨® relaxei quando voltei ao parque de estacionamento. Duvidava que eles me seguissem at¨¦ ¨¤ superf¨ªcie. Ainda assim, entrei logo no carro e arranquei em dire??o a casa. J¨¢ tinha avan?ado algumas centenas de metros, e deixado o meu temor para tr¨¢s, quando uma figura enorme surgiu ¨¤ minha frente no meio da estrada. Tratava-se da criatura que me expulsara da taberna. Tinha uma m?o estendida ¨¤ sua frente, pedindo-me que parasse. Confesso que o meu primeiro instinto foi atropel¨¢-lo, mas n?o fui capaz de o fazer. Travei e parei um meio metro ¨¤ frente dele. Ele aproximou-se e bateu-me ao de leve no vidro. Cautelosamente, abri-o. - ¨¦ p¨¢ - disse a criatura, - desculpa l¨¢ aquilo de h¨¢ bocado, mas se n?o te tivesse corrido dali n?o ias durar muito. A minha surpresa foi tal que fiquei boquiaberto. - Arruma a¨ª o carro e vamos falar. Acho que te posso ajudar com as tuas perguntas. Curioso, mas cuidadoso, assim fiz. Fomos para o jardim de um pr¨¦dio pr¨®ximo e sent¨¢mo-nos num banco onde ele podia ficar sentado escondido na metade escura e eu na iluminada, onde me sentia mais seguro. - Ora muito bem, por onde come?o? Depois de uns instantes de sil¨ºncio, continuou: - ¨¦ assim, os trasgos n?o andam a matar os teus de prop¨®sito. As Bruxas da Noite, que s?o quem manda neles, n?o querem saber dos humanos para nada. Os acidentes s?o s¨® uma maneira de destruir os seus alvos sem levantar grandes suspeitas. Ap¨®s as minhas conversas com Alice, eu j¨¢ havia chegado a essa conclus?o. - Quem s?o essas Bruxas da Noite? O que querem? - ¨¦ p¨¢, isso j¨¢ n?o sei. E olha que eu e o resto da malta na taberna trabalhamos para elas. S¨® as vi uma vez, mas com os capuchos, e acho que s?o cinco. Elas andam a atacar fadas e outros dessas ra?as, e est?o a recrutar para um ex¨¦rcito. Eu fa?o parte dele. O que v?o fazer com ele e porqu¨º, n?o fa?o a m¨ªnima. Fiquei imediatamente alarmado ao ouvir que as Bruxas da Noite estavam a reunir um ex¨¦rcito. Como pretenderiam us¨¢-lo? - Sabe onde as posso encontrar? - perguntei, sem grande esperan?a na resposta. - P¨¢, n?o sei. S¨® as vi uma vez e foi na Pra?a. N?o lhe perguntei onde se situava essa Pra?a, pois era ¨®bvio que fazia parte dos t¨²neis pr¨®ximos da Taberna dos Encantados. - Agora tenho de ir - disse ele, levantando-se. - J¨¢ te contei tudo o que sei. - Espere! - pedi. - Porque me est¨¢ a ajudar? - ¨® p¨¢, n?o acho justo que os teus sofram sem raz?o. Achei que, pelo menos, merecias uma explica??o. Dito isto, a criatura adentrou-se na escurid?o do fim de tarde invernal e, pouco depois, desapareceu atr¨¢s de um pr¨¦dio. Voltei para o carro e regressei a casa. Durante o percurso, a conversa n?o me saiu da cabe?a. As Bruxas da Noite estavam a tentar enfraquecer os seus inimigos e a preparar-se para uma guerra. Perguntei-me se os desaparecimentos dos s¨²bditos do Rei das ¨ªnsuas e na cidade dos mortos no Ger¨ºs n?o teriam alguma rela??o. Contudo, o que mais me aterrorizava era n?o conseguir descobrir o seu objetivo final. Seria algo grande, isso agora era claro, mas o qu¨º era um mist¨¦rio at¨¦ para os soldados delas. As possibilidades n?o me deixaram dormir nem nessa nem nas noites seguintes. Mas o que descobriria por fim superou tudo o que eu imaginara. Capítulo 13 - As Bruxas do Mar Ap¨®s tudo o que descobrira gra?as ¨¤ minha visita ¨¤ Taberna dos Encantados, a minha vontade de encontrar as Bruxas da Noite viu-se ainda mais refor?ada. Como tal, logo no fim de semana seguinte, investiguei mais uma das entradas do di¨¢rio que me parecia estar relacionada com bruxas. Na tarde de s¨¢bado, em que a minha mulher e filha foram a uma livraria ¨¤ apresenta??o de um livro, dirigi-me a Barcelos. A entrada falava de v¨¢rios desaparecimentos numa localidade dos arredores daquela cidade, envolvendo um olho marinho no Rio Neiva junto a um rochedo conhecido como o ¡°Penedo da Moira¡±. Supostamente, em certas noites, mulheres sa¨ªdas de baixo das ¨¢guas arrastavam qualquer homem que encontrassem para o olho marinho, e ele nunca mais era visto. Depois de tudo o que vira, n?o tinha dificuldades em acreditar em moiras, contudo, como estas n?o eram referidas em mais nenhuma parte do di¨¢rio, assumi que se tratavam de bruxas. Cheguei ao local ao princ¨ªpio da tarde. Havia ali v¨¢rias pequenas lagoas, onde as pessoas costumavam nadar no Ver?o, por¨¦m, sendo um frio dia de Inverno, n?o se encontrava l¨¢ ningu¨¦m. Procurei imediatamente por aquela que seria o suposto olho marinho. Investiguei todos os rochedos na zona, procurando o ¡°Penedo da Moira¡±, que indicaria qual era a lagoa certa. Levou-me algum tempo, mas acabei por encontrar um em cuja superf¨ªcie superior havia uma cova cheia de ¨¢gua, a suposta ¡°Pegada da Moira¡±. Este encontrava-se parcialmente dentro de uma das lagoas, indicando claramente que era aquela que eu procurava. Anos antes, durante umas f¨¦rias na Gr¨¦cia, tirara um curso de mergulho para poder visitar umas ru¨ªnas subaqu¨¢ticas. Comprara, at¨¦, o equipamento completo, esperando us¨¢-lo depois para investigar outros locais semelhantes (o que, infelizmente, nunca aconteceu). Nesse dia levei-o comigo e, junto ao carro, vesti-o. Cuidadosamente, entrei na lagoa e, assim que a ¨¢gua me chegou ¨¤ cintura, mergulhei. A ¨¢gua era l¨ªmpida, pelo que, mesmo nas partes mais profundas, conseguia ver o fundo claramente. Este era formado por seixos e alguma areia. Infelizmente, depois de uma busca demorada, n?o encontrei nenhum sinal do olho marinho. Toda a lagoa parecia ter um fundo bem definido. Contudo, uma pequena depress?o no ponto mais profundo chamou-me ¨¤ aten??o. Parecia deslocada, pois n?o havia uma corrente clara que a pudesse provocar, e, a quase quatro metros debaixo da superf¨ªcie, era duvidoso que pudesse ter sido criada por banhistas. Aproximei-me. Desviei alguns seixos e, agitando a m?o sobre ela, afastei a areia. Assim que esta assentou, revelou-se uma das coisas mais estranhas que eu j¨¢ vira. Debaixo da depress?o, havia apenas trevas, uma escurid?o que nem a luz da minha lanterna de mergulho conseguia penetrar. S¨® podia ser o olho marinho. Lentamente, mergulhei a m?o nessa escurid?o. Para minha surpresa, deixei de a ver, mas conseguia mov¨º-la l¨¢ em baixo. Passado alguns momentos, apercebi-me que se tratava de um t¨²nel. De repente, comecei a sentir a ¨¢gua ¨¤ minha volta mover-se, a princ¨ªpio, lentamente, mas acelerando rapidamente. Apercebi-me, ent?o, que se tratava de um turbilh?o centrado no ponto escuro que eu acabara de descobrir. Instintivamente, tentei lutar contra ele, por¨¦m, ao ver que este era mais forte do que eu, acabei por me deixar levar. Afinal, estava ali para descobrir o que havia do outro lado. Confesso que n?o foi das minhas decis?es mais inteligentes. Pouco depois de entrar no t¨²nel, bati com a cabe?a e perdi a consci¨ºncia. Quando voltei a mim, estava num local escuro, mas fora de ¨¢gua. Do¨ªa-me o corpo todo, e n?o precisava de ver para saber que tinha v¨¢rios ferimentos. Felizmente, n?o me pareceu ter nada partido. Varri o ch?o com as m?os em busca da minha lanterna de mergulho, no entanto, quando a encontrei, descobri que esta estava completamente destru¨ªda. Por sorte, a mais pequena, que anda sempre comigo e que tinha guardado no bolso dos cal??es, debaixo do fato de mergulho, ainda funcionava. Assim que a acendi, confirmei as minhas suspeitas. O fato estava rasgado em diversos pontos, e eu sangrava de v¨¢rios cortes. Depois, dirigi a luz para a escurid?o ¨¤ minha volta. A primeira coisa que descobri foi um pequeno charco circular a meu lado, certamente a sa¨ªda do olho marinho. Logo em seguida avistei paredes. Feitas de enormes blocos de granito, erguiam-se atr¨¢s e ¨¤ minha frente, at¨¦ desaparecerem na escurid?o. Eram t?o altas, que a minha pequena lanterna n?o conseguia iluminar o teto. If you stumble upon this tale on Amazon, it''s taken without the author''s consent. Report it. Sem mais nada que pudesse fazer, levantei-me e comecei a explorar o local. Tinha avan?ado apenas alguns passos quando encontrei o que mais temia, mas j¨¢ esperara: um esqueleto humano. Certamente pertencia a algu¨¦m como eu, que chegara ali atrav¨¦s do olho marinho, mas n?o conseguira sair. Respirei fundo para me tentar acalmar e forcei-me a continuar a avan?ar. Mais e mais esqueletos apareceram, alguns envoltos em roupas e envergando joalharia t?o antigas que deviam estar ali desde a idade m¨¦dia e at¨¦ da ¨¦poca castrense. Tentei animar-me com a ideia de que talvez conseguisse encontrar algo que os meus antecessores n?o conseguiram. Afinal, entre os montes de ossos e farrapos n?o havia uma ¨²nica lanterna. Ocasionalmente, deparei-me com est¨¢tuas e baixos relevos gravados nas paredes representando o que s¨® podia descrever como dem¨®nios. Tinham chifres e focinhos afiados, dentes pontiagudos, barbatanas e alguns at¨¦ asas. As suas representa??es variavam muito em tamanho, mas se esta era a sua escala real ou apenas liberdade art¨ªstica, n?o tinha maneira de saber. Por fim, avistei uma t¨¦nue luz ao longe. Aproximei-me com cuidado, pois n?o sabia o que esperar, mas alguns metros mais ¨¤ frente, apercebi-me que se tratava do fim da longa estrutura onde me encontrava. Por momentos, senti-me aliviado, pensando que tinha encontrado a sa¨ªda. Todavia, logo descobri que assim n?o era. A estrutura encontrava-se, de facto, aberta naquela dire??o. Contudo, em vez de uma sa¨ªda, ali erguia-se o pr¨®prio oceano. Aproximei-me e descobri que uma barreira invis¨ªvel, certamente de origem m¨¢gica, impedia as ¨¢guas do Atlantico de entrarem. E a mim de sair. N?o que fizesse diferen?a. Mesmo que eu conseguisse transpor a barreira, dificilmente chegaria ¨¤ superf¨ªcie vivo. Dali conseguia v¨º-la e encontrava-se uns cem metros mais acima. Al¨¦m disso, a probabilidade de ser encontrado e salvo no oceano quando ningu¨¦m andava ¨¤ minha procura era m¨ªnima. Em desespero, bati com os punhos na barreira invis¨ªvel e, depois, deixei-me deslizar para o ch?o. Durante longos minutos, ali fiquei, resignado a morrer ali. Depois, lembrei-me da minha fam¨ªlia, e decidi ir ver o que havia no outro extremo do edif¨ªcio. N?o tinha muitas esperan?as, mas podia existir l¨¢ uma sa¨ªda. Estava prestes a levantar-me, quando ouvi uma batida na barreira invis¨ªvel. Levantei o olhar e, por entre um cardume passageiro, vi uma mulher jovem, na casa dos vinte. Esta n?o envergava qualquer equipamento de mergulho, apenas umas cal?as de ganga e uma blusa que pareciam n?o afetar a sua flutuabilidade. Recuei dois passos, n?o sabendo o que esperar. Logo em seguida, a mulher atravessou a barreira m¨¢gica e desceu para o interior do edif¨ªcio. Para minha surpresa, as suas roupas pareciam completamente secas. - N?o tenha medo - disse ela. - Vim tir¨¢-lo daqui. - Quem ¨¦ voc¨º? ¨¦ uma das Bruxas da Noite? A sua face contorceu-se em sofrimento ao ouvir aquele nome. - N?o - respondeu, por fim. - Mas conhece-as? Sabe onde as posso encontrar? - N?o sei onde as encontrar, mas conhe?o-as, sim. Infelizmente. A tristeza na sua voz deixou-me curioso, mas n?o tive coragem de perguntar nada. Ela, por¨¦m, apercebeu-se disso e continuou: - A minha m?e e as outras Bruxas do Mar morreram por causa delas. Vieram ter connosco para as ajudar-mos a destruir uma comunidade de criaturas marinhas, ao largo de Castelo do Neiva, prometendo-nos objetos m¨¢gicos e outras recompensas. Mas, assim que fizemos o que elas pediram, atacaram-nos. Eu s¨® sobrevivi porque a minha m?e insistiu que eu ficasse para tr¨¢s. As outras est?o todas mortas. Com a minha curiosidade satisfeita, os meus pensamentos voltaram para o local onde me encontrava, para como ia sair dali e, principalmente, para as ossadas que encontrara. Aquela mulher podia n?o ser uma Bruxa da Noite, mas tudo indicava que as suas inten??es tamb¨¦m n?o eram ben¨¦volas. - Que s¨ªtio ¨¦ este? - perguntei. - Um velho templo constru¨ªdo pelas minhas antepassadas, n?o se sabe bem quando. Durante s¨¦culos, usou-se um olho marinho e ilus?es para trazer sacrif¨ªcios humanos at¨¦ aqui. Acreditava-se que estes ajudavam a chamar a aten??o do Diabo e dos dem¨®nios e facilitava o lan?amento de feiti?os e maldi??es. A minha av¨® acabou com isso. Os desaparecimentos come?aram a atrair demasiada aten??o. Agora, diga-me, qual ¨¦ o seu interesse nas Bruxas da Noite? Contei-lhe tudo sobre a minha busca e os "acidentes" que lhe deram origem. - Se as quer parar, pode contar com a minha ajuda. Venha, vou tir¨¢-lo daqui. Aproximei-me. Ela agarrou-me e puxou-me, atrav¨¦s da barreira invis¨ªvel, para o oceano. Ap¨®s um momento de panico, apercebi-me que conseguia respirar debaixo de ¨¢gua. Atrav¨¦s de um m¨¦todo de propuls?o al¨¦m do meu entendimento, provavelmente de origem m¨¢gica, rapidamente cheg¨¢mos a uma praia. Assim que levantei o olhar, vi as torres de Ofir. Est¨¢vamos em Esposende. - Continue a procurar as Bruxas da Noite. Se precisar de ajuda, telefone-me. - A bruxa disse-me o seu n¨²mero de telem¨®vel, que repeti na minha mente at¨¦ o memorizar. Depois, voltou para o mar e logo desapareceu debaixo das ondas. Tinha encontrado outra bruxa inimiga das Bruxas da Noite. Contudo, naquele momento, tinha coisas mais prementes em que pensar. Estava sozinho a mais de quinze quil¨®metros do meu carro. Como ia explicar a situa??o ¨¤ minha mulher sem lhe revelar o perigoso e assustador mundo paralelo ao nosso que eu descobrira? E os meus ferimentos? Foi a pensar nisto que deixei a praia e me adentrei pela cidade. Capítulo 14 - A Demonóloga A inspira??o para esta investiga??o surgiu de forma bastante inesperada. Numa noite de Halloween, a minha filha convenceu-me a mim e ¨¤ m?e a ir a um evento anual no Pa?o dos Duques, em Guimar?es. L¨¢, uma trupe transformara o pal¨¢cio numa casa assombrada, cheia de monstros, fantasmas e sustos. Foi o final do espet¨¢culo, por¨¦m, que mais capturou a minha aten??o. Tratava-se da encena??o de um exorcismo supostamente feito a uma duquesa que ali morara. Quando cheguei a casa, fiz alguma pesquisa e verifiquei que, n?o s¨® aquilo se baseara em factos hist¨®ricos, como havia rumores de que acontecimentos estranhos continuaram a ocorrer no pal¨¢cio mesmo ap¨®s o exorcismo. Tendo os meus encontros anteriores com bruxas revelado uma clara rela??o entre elas e dem¨®nios, n?o pude deixar de ir investigar, na esperan?a de finalmente encontrar as Bruxas da Noite. Numa noite de semana, em Novembro, disse ¨¤ minha mulher que ia trabalhar at¨¦ tarde e dirigi-me a Guimar?es e ao Pa?o dos Duques. Evidentemente, o pal¨¢cio estava fechado, e n?o havia ningu¨¦m por perto. Estacionei e comecei a procurar uma maneira de entrar. Como seria de esperar, para al¨¦m dos guardas no seu interior, o local encontrava-se protegido por um sistema de alarme. Um dos meus camaradas do grupo de explora??o urbana de Braga, que se auto intitulava de "o maior dos exploradores urbanos", pois gostava de visitar n?o s¨® edif¨ªcios abandonados, mas tamb¨¦m alguns em uso e at¨¦ habitados, ensinara-me algumas maneiras de contornar os alarmes. S¨® esperava que esse meu parco conhecimento fosse suficiente para ali entrar. No fim, por¨¦m, acabei por n?o ter de o usar. Ao virar a esquina para as traseiras, protegidas de olhares por ¨¢rvores e vegeta??o, descobri que algu¨¦m se adiantara a mim. Uma mulher, que n?o devia ter mais de trinta anos, j¨¢ desativara o alarme e esticava-se, agora, at¨¦ uma pequena janela quase dois metros acima do ch?o. Ao aperceber-me da sua dificuldade, aproximei-me e disse, com um sorriso: - Precisa de ajuda? Ela olhou para mim com um misto de surpresa e medo. Era relativamente baixa, com pouco mais de um metro e cinquenta, e magra. Usava ¨®culos de metal negros, e prendia o cabelo num rabo de cavalo. Durante uns momentos, os seus olhos dardejaram em todas as dire??es. Por fim, ao perceber que eu n?o era um pol¨ªcia nem guarda, decidiu n?o fugir e perguntou: - Quem ¨¦ voc¨º? - Isso pergunto-lhe eu. Quem ¨¦ voc¨º? Porque est¨¢ a tentar arrombar um monumento nacional? D¨º-me uma raz?o para n?o chamar j¨¢ a pol¨ªcia. - Eu at¨¦ lhe dava uma raz?o, mas depois vai deixar de conseguir dormir sossegado. H¨¢ mais aqui do que que pessoas normais podem imaginar. - Como dem¨®nios? Ela ficou a olhar para mim, surpreendida, durante uns instantes. Isso disse-me que ela sabia do que eu estava a falar e que, provavelmente, encontrava-se ali pela mesma raz?o do que eu. Ao fim de alguns instantes, ela perguntou: - Diga-me o que sabe. Contei-lhe tudo sobre o di¨¢rio, as minhas explora??es anteriores, as Bruxas da Noite e o que me levara ali. - Um dia, gostava de ver esse di¨¢rio - respondeu ela, quando terminei. - J¨¢ ouvi falar dessas criaturas a que chama de Bruxas da Noite, mas costumo focar-me em dem¨®nios, e elas parecem n?o os usar como as outras bruxas. Pelo que diz, talvez me devesse come?ar a interessar por elas tamb¨¦m. ¨¦ da minha responsabilidade. - Da tua responsabilidade? Porqu¨º? - Fa?o parte de uma tradi??o milenar que protege as pessoas dos dem¨®nios e seus agentes. Eu e o meu mestre ¨¦ramos os respons¨¢veis pelo norte de Portugal. - Ela olhou tristemente para o ch?o. - Mas ele faleceu e agora estou sozinha. - N?o t¨ºm ajuda da Organiza??o? - perguntei, pois pareceu-me que tinham objetivos em comum. - Essa Organiza??o de que fala s¨® apareceu no s¨¦culo passado. Al¨¦m disso, est?o mais preocupados em esconder a verdade do que a ajudar as pessoas. N?o t¨ºm nada a ver connosco. - Ap¨®s uma curta pausa, continuou. - Se estamos aqui pela mesma raz?o, talvez me pudesse ajudar. J¨¢ abri a janela e confirmei que desliguei o alarme corretamente. Agora tenho de come?ar a levar o equipamento para dentro, e sozinha ¨¦ mais complicado. Aceitei de imediato e ela levou-me para a frente do monumento e em dire??o ¨¤ rua pr¨®xima. A meio caminho, ap¨®s umas curtas apresenta??es, lembrei-me de perguntar: - Como soubeste deste dem¨®nio? Tamb¨¦m vieste c¨¢ no Halloween? - N?o. Por acaso, nem sabia do evento at¨¦ teres falado dele. Tenho um pequeno cluster que usa t¨¦cnicas de data mining para encontrar padr?es nas not¨ªcias e em outras bases de dados a que tenho acesso que possam indicar a presen?a de dem¨®nios. Descobri que muitos dos que visitaram este pal¨¢cio estiveram, depois, envolvidos em crimes. ¨¦ um claro sinal de influ¨ºncia demon¨ªaca. Continu¨¢mos a andar, at¨¦ que ela parou atr¨¢s de uma Ford transit branca do final dos anos 90. J¨¢ vira melhores dias, pois, em v¨¢rios pontos, a tinta tinha dado lugar a ferrugem, e a fechadura da porta traseira j¨¢ n?o existia e fora substitu¨ªda por um sistema de fecho e cadeado. A demon¨®loga correu uma das portas laterais, revelando um espa?o de carga contendo uma estranha mistura de antigo e moderno. V¨¢rias prateleiras de madeira alinhavam as paredes, contendo livros claramente ancestrais, artefactos religiosos das mais variadas religi?es e objetos eletr¨®nicos com os componentes expostos, claramente constru¨ªdos ou misturados de forma improvisada. No ch?o, estavam pousados alguns artefactos maiores, como um tapete com uma mandala, um enorme menor¨¢ e o que parecia ser um ou v¨¢rios computadores ligados a uma bateria. A demon¨®loga passou-me duas altas e esguias colunas de som, enquanto ela pegou num monitor e num pequeno tablet que, se os meus escassos conhecimentos de eletr¨®nica n?o me enganam, tinha sido constru¨ªdo a partir de um raspberry pi. Assim que volt¨¢mos para as traseiras do pal¨¢cio, ajudei-a a subir a janela e a entrar. Depois, passei-lhe todo o equipamento e, por fim, entrei no pal¨¢cio. Como j¨¢ esperava dada a exiguidade e altura da janela, est¨¢vamos no interior de um pequeno quarto. De momento, encontrava-se vazio, mas, em tempos, devia ter sido usado como arrecada??o, pois n?o havia espa?o para nada mais. Cautelosamente, Susana, a demon¨®loga, encostou o ouvido ¨¤ ¨²nica porta, certificando-se de que n?o havia guardas do outro lado. Assim que ficou satisfeita, abriu-a. A enorme sala com que ent?o nos depar¨¢mos era-me familiar. Fora ali que, durante o espet¨¢culo de Halloween, se encontrara a condessa possu¨ªda a sua cama e onde um padre procedera ao exorcismo. Assim que lhe contei isto, a demon¨®loga come?ou a inspecionar cada cent¨ªmetro da divis?o, usando o tablet e um instrumento que tirou de uma das bolsas que levava ¨¤ cintura. Foi um processo demorado, durante o qual me mantive nervosamente vigilante para n?o sermos descobertos. Assim que terminou, ela abanou a cabe?a negativamente e decidimos prosseguir. Gra?as ¨¤ minha ¨²ltima visita, eu sabia que a ¨²nica outra porta dava para o p¨¢tio central, onde ser¨ªamos facilmente vistos pelos guardas, pelo que decidimos subir ao andar superior. Atrav¨¦s de umas escadas ex¨ªguas com dois lances, cheg¨¢mos a um corredor com algumas portas do lado direito e uma divis?o ao fundo. O primeiro quarto estava cheio de armaduras montadas, enquanto que os seguintes albergavam exposi??es de outros artefactos mediavalescos, como livros, mobili¨¢rio e estatuetas. A demon¨®loga inspecionou cada um deles, mas, mais uma vez, n?o encontrou nada. O mesmo n?o aconteceu, por¨¦m, na divis?o ao fundo do corredor. Mal entr¨¢mos, LED acederam-se no instrumento eletr¨®nico da minha companheira. - Assim est¨¢ melhor - disse ela. Encontr¨¢vamo-nos num quarto vazio, com uma lareira embutida numa das paredes. Seria, possivelmente, o verdadeiro quarto da condessa. A demon¨®loga seguiu o rasto do dem¨®nio at¨¦ uma segunda porta. Sempre atr¨¢s das indica??es do instrumento improvisado, atravess¨¢mos quartos, vest¨ªbulos, corredores e at¨¦ uma enorme sala de jantar. Por fim, quando cheg¨¢mos ¨¤ capela do pal¨¢cio, a demon¨®loga disse, apontando com o queixo para os LED todos acesos da m¨¢quina na sua m?o e para um gr¨¢fico no ecr? do tablet: - Est¨¢ aqui. Vamos instalar as colunas. - O guarda n?o vai ouvir quando as ligar-mos? - perguntei. - ¨¦ quase certo, mas n?o temos escolha. Temos de expulsar este dem¨®nio daqui. Posicion¨¢mos as colunas entre os bancos compridos da capela, viradas para o altar. Devido a uma adapta??o da demon¨®loga, eram alimentadas por baterias, pelo que bastou um pressionar no tablet dela para que uma cacofonia de vozes e l¨ªnguas come?asse a soar. - ¨¦ uma mistura de v¨¢rias preces crist?s, mu?ulmanas, judaicas, hindus e taoistas usadas para expulsar dem¨®nios - explicou a demon¨®loga. Durante longos momentos ali fic¨¢mos, esperando que o dem¨®nio fosse expulso antes que um dos guardas nos ouvisse. Apesar do meu nervosismo, n?o consegui deixar de admirar a capela. O espet¨¢culo de Halloween n?o passara por ela, pelo que nunca a tinha visitado. Traves de madeira envernizadas seguravam o telhado, e enormes vitrais preenchiam quase a totalidade da parede atr¨¢s do pequeno altar. Por¨¦m, o que mais me impressionou foram os dois palanques laterais, j¨¢ que o seu aspeto marcadamente medieval me fazia viajar no tempo. De s¨²bito, estes come?aram a estremecer, assim como o altar e os bancos ¨¤ minha volta. Segundos depois, do ch?o, emergiu uma criatura quase do meu tamanho com pele vermelha, dois chifres, e nariz e queixo afiado. Quase ao mesmo tempo, a porta atr¨¢s de n¨®s abriu-se, dando entrada a um seguran?a de lanterna em punho. A vis?o da criatura, por¨¦m, ou a combina??o desta com a cacofonia emitida pelas colunas foram demasiado para ele, e o homem desmaiou para cima da ¨²ltima fileira de bancos. Ao contr¨¢rio de mim, Susana n?o prestara qualquer aten??o ao guarda e avan?ava em dire??o ao dem¨®nio com o ecr? do tablet virado para ele. De relance, vi v¨¢rias imagens a passar: s¨ªmbolos religiosos variados, excertos de textos sagrados, imagens de santos e deuses. A criatura estacou e come?ou a gritar. Lentamente, a demon¨®loga deslocou-se, tentando colocar o tablet entre o dem¨®nio e a porta, ao mesmo tempo que tirava algo da mochila que levava ¨¤s costas. Contudo, antes que o conseguisse, a criatura emitiu um tem¨ªvel rugido e saltou sobre os bancos quase at¨¦ ¨¤ porta. Instintivamente, tentei barrar-lhe a passagem, mas ele atirou-me ao ch?o como se nada fosse e saiu. - Ele ¨¦ mais forte do que estava ¨¤ espera disse a demon¨®loga, ajudando-me a levantar. - Vamos. Corremos para fora da capela e descemos as escadas at¨¦ ao claustro do pal¨¢cio e, de l¨¢, seguimos o dem¨®nio para o exterior. Pelo caminho, pass¨¢mos por diversos guardas, mas estes, at¨®nitos com a vis?o do dem¨®nio ou com a nossa presen?a ali, nem reagiram. Perseguimos a criatura pela colina em cujo topo se erguia o Castelo de Guimar?es. No entanto, a meio caminho, junto a uma pequena capela ali constru¨ªda, Susana agarrou-me por um bra?o. - Espera. Este dem¨®nio ¨¦ muito forte. Normalmente, n?o conseguem escapar daquela maneira. Vou buscar umas coisas para lhe fazer uma emboscada e encurral¨¢-lo nesta capela. Leva o meu tablet, vai atr¨¢s dele e tenta empurr¨¢-lo para aqui. Antes de eu poder responder, ela meteu o tablet nas minhas m?os e virou costas. No ecr?, ainda passavam todo o tipo de imagens religiosas. Respirando fundo, comecei a correr pela estrada de terra batida que levava ao topo da colina e ¨¤s ru¨ªnas do castelo, onde o dem¨®nio entrara. Sendo a fortaleza mais famosa de Portugal, j¨¢ a havia visitado mais do que uma vez, pelo que a conhecia bem e podia concentrar-me em encontrar a criatura. A torre de menagem, que fora restaurada, era o ¨²nico edif¨ªcio que se encontrava em p¨¦, mas estava fechada, pelo que n?o havia muitos s¨ªtios onde o dem¨®nio se podia esconder. Isto, se n?o tivesse nenhum truque que eu desconhecesse, claro. Tentando segurar, ao mesmo tempo, a minha lanterna de bolso e o tablet ¨¤ minha frente, comecei a procurar em todos os recantos, desde atr¨¢s de escombros at¨¦ ¨¤s lareiras e ¨¤s chamin¨¦s quebradas que delas partiam. N?o demorei muito a ver um vulto passar ao meu lado. Quando apontei a luz para l¨¢, por¨¦m, n?o encontrei nada. Podia ter sido apenas um gato, mas, por alguma raz?o, pressenti que era algo mais, pelo que o persegui. You might be reading a pirated copy. Look for the official release to support the author. Finalmente, quando cheguei a uma esquina sem sa¨ªda, avistei o dem¨®nio e estendi o tablet na sua dire??o. Como eu bloqueava a ¨²nica rota de fuga, uma estreita passagem entre a muralha e a torre de menagem, a criatura, tentou, em desespero, usar as garras para trepar a muralha. Por¨¦m, ao ver que n?o conseguia, carregou contra mim, gritando com um misto de dor e ¨®dio. Mais uma vez, fui incapaz de o parar, e ele passou por mim, atirando-me ao ch?o. Felizmente, recuperei depressa e persegui-o. Correndo o mais depressa que conseguia, tentei manter-me colado a ele e, com o tablet, conduzi-lo para onde Susana o esperava. Apesar de ele se ter desviado uma ou duas vezes do caminho mais direto, l¨¢ o consegui levar at¨¦ ¨¤ pequena capela. Junto ¨¤ porta desta, encontrava-se a demon¨®loga, que segurava um outro tablet e, entretanto, havia constru¨ªdo uma passagem delimitada com colunas ¨¢udio emitindo a sua mistura de canticos e preces e um monitor enorme que conduzia para o interior. Percebendo a inten??o, tentei conduzir o dem¨®nio para a armadilha. Este ainda tentou escapar, mas, com a ajuda da demon¨®loga e do seu segundo tablet, consegui lev¨¢-lo para a passagem e para o interior da capela. Mal a criatura passou a porta, Susana selou-a com o enorme monitor onde passavam imagens similares ¨¤s do tablet. Depois, ativou as colunas que colocara no interior do edif¨ªcio sagrado. O dem¨®nio come?ou a gritar. Primeiro, atirou-se contra as paredes, como se quisesse atravess¨¢-las, depois, investiu na dire??o da porta. Atr¨¢s do ecr?, a demon¨®loga tirou da mochila um curioso objeto que parecia ser uma espingarda de ¨¢gua, como as usadas pelos mi¨²dos, mas pintada com tinta prateada e coberta com s¨ªmbolos sagrados. Assim que o ser ficou ao alcance, ela disparou a arma. V¨¢rios jatos de l¨ªquidos voaram na dire??o do dem¨®nio. Mal foi atingido, este come?ou a gritar ainda mais violentamente. Susana, por¨¦m, continuou a disparar. Notei, ent?o, que a criatura come?ava a derreter, como se tivesse sido atingida por um ¨¢cido. Aos poucos, desapareceu, at¨¦ que tudo o que restava dela era um po?a avermelhada no ch?o, a maior parte da qual se infiltrou pelas frinchas entre as lajes funer¨¢rias que cobriam o ch?o da capela. - O que tens nessa arma? - perguntei, surpreendido e curioso. - ¨¢gua benta, ¨®leo ungido, ¨¢gua de rios sagrados, ¨¢gua do po?o de Zamzam, coisas desse g¨¦nero - explicou ela. - Agora ¨¦ melhor sairmos daqui antes que os guardas do pal¨¢cio recuperem e venham atr¨¢s de n¨®s. Assim fizemos. Ajudei-a a levar o material para a carrinha e voltei para o meu carro, mas n?o antes de ela me dar o seu contacto. Esta investiga??o podia n?o me ter dado novas informa??es sobre as Bruxas da Noite,mas trouxe-me um novo aliado na minha miss?o de as encontrar e parar. A inspira??o para esta investiga??o surgiu de forma bastante inesperada. Numa noite de Halloween, a minha filha convenceu-me a mim e ¨¤ m?e a ir a um evento anual no Pa?o dos Duques, em Guimar?es. L¨¢, uma trupe transformara o pal¨¢cio numa casa assombrada, cheia de monstros, fantasmas e sustos. Foi o final do espet¨¢culo, por¨¦m, que mais capturou a minha aten??o. Tratava-se da encena??o de um exorcismo supostamente feito a uma duquesa que ali morara. Quando cheguei a casa, fiz alguma pesquisa e verifiquei que, n?o s¨® aquilo se baseara em factos hist¨®ricos, como havia rumores de que acontecimentos estranhos continuaram a ocorrer no pal¨¢cio mesmo ap¨®s o exorcismo. Tendo os meus encontros anteriores com bruxas revelado uma clara rela??o entre elas e dem¨®nios, n?o pude deixar de ir investigar, na esperan?a de finalmente encontrar as Bruxas da Noite. Numa noite de semana, em Novembro, disse ¨¤ minha mulher que ia trabalhar at¨¦ tarde e dirigi-me a Guimar?es e ao Pa?o dos Duques. Evidentemente, o pal¨¢cio estava fechado, e n?o havia ningu¨¦m por perto. Estacionei e comecei a procurar uma maneira de entrar. Como seria de esperar, para al¨¦m dos guardas no seu interior, o local encontrava-se protegido por um sistema de alarme. Um dos meus camaradas do grupo de explora??o urbana de Braga, que se auto intitulava de "o maior dos exploradores urbanos", pois gostava de visitar n?o s¨® edif¨ªcios abandonados, mas tamb¨¦m alguns em uso e at¨¦ habitados, ensinara-me algumas maneiras de contornar os alarmes. S¨® esperava que esse meu parco conhecimento fosse suficiente para ali entrar. No fim, por¨¦m, acabei por n?o ter de o usar. Ao virar a esquina para as traseiras, protegidas de olhares por ¨¢rvores e vegeta??o, descobri que algu¨¦m se adiantara a mim. Uma mulher, que n?o devia ter mais de trinta anos, j¨¢ desativara o alarme e esticava-se, agora, at¨¦ uma pequena janela quase dois metros acima do ch?o. Ao aperceber-me da sua dificuldade, aproximei-me e disse, com um sorriso: - Precisa de ajuda? Ela olhou para mim com um misto de surpresa e medo. Era relativamente baixa, com pouco mais de um metro e cinquenta, e magra. Usava ¨®culos de metal negros, e prendia o cabelo num rabo de cavalo. Durante uns momentos, os seus olhos dardejaram em todas as dire??es. Por fim, ao perceber que eu n?o era um pol¨ªcia nem guarda, decidiu n?o fugir e perguntou: - Quem ¨¦ voc¨º? - Isso pergunto-lhe eu. Quem ¨¦ voc¨º? Porque est¨¢ a tentar arrombar um monumento nacional? D¨º-me uma raz?o para n?o chamar j¨¢ a pol¨ªcia. - Eu at¨¦ lhe dava uma raz?o, mas depois vai deixar de conseguir dormir sossegado. H¨¢ mais aqui do que que pessoas normais podem imaginar. - Como dem¨®nios? Ela ficou a olhar para mim, surpreendida, durante uns instantes. Isso disse-me que ela sabia do que eu estava a falar e que, provavelmente, encontrava-se ali pela mesma raz?o do que eu. Ao fim de alguns instantes, ela perguntou: - Diga-me o que sabe. Contei-lhe tudo sobre o di¨¢rio, as minhas explora??es anteriores, as Bruxas da Noite e o que me levara ali. - Um dia, gostava de ver esse di¨¢rio - respondeu ela, quando terminei. - J¨¢ ouvi falar dessas criaturas a que chama de Bruxas da Noite, mas costumo focar-me em dem¨®nios, e elas parecem n?o os usar como as outras bruxas. Pelo que diz, talvez me devesse come?ar a interessar por elas tamb¨¦m. ¨¦ da minha responsabilidade. - Da tua responsabilidade? Porqu¨º? - Fa?o parte de uma tradi??o milenar que protege as pessoas dos dem¨®nios e seus agentes. Eu e o meu mestre ¨¦ramos os respons¨¢veis pelo norte de Portugal. - Ela olhou tristemente para o ch?o. - Mas ele faleceu e agora estou sozinha. - N?o t¨ºm ajuda da Organiza??o? - perguntei, pois pareceu-me que tinham objetivos em comum. - Essa Organiza??o de que fala s¨® apareceu no s¨¦culo passado. Al¨¦m disso, est?o mais preocupados em esconder a verdade do que a ajudar as pessoas. N?o t¨ºm nada a ver connosco. - Ap¨®s uma curta pausa, continuou. - Se estamos aqui pela mesma raz?o, talvez me pudesse ajudar. J¨¢ abri a janela e confirmei que desliguei o alarme corretamente. Agora tenho de come?ar a levar o equipamento para dentro, e sozinha ¨¦ mais complicado. Aceitei de imediato e ela levou-me para a frente do monumento e em dire??o ¨¤ rua pr¨®xima. A meio caminho, ap¨®s umas curtas apresenta??es, lembrei-me de perguntar: - Como soubeste deste dem¨®nio? Tamb¨¦m vieste c¨¢ no Halloween? - N?o. Por acaso, nem sabia do evento at¨¦ teres falado dele. Tenho um pequeno cluster que usa t¨¦cnicas de data mining para encontrar padr?es nas not¨ªcias e em outras bases de dados a que tenho acesso que possam indicar a presen?a de dem¨®nios. Descobri que muitos dos que visitaram este pal¨¢cio estiveram, depois, envolvidos em crimes. ¨¦ um claro sinal de influ¨ºncia demon¨ªaca. Continu¨¢mos a andar, at¨¦ que ela parou atr¨¢s de uma Ford transit branca do final dos anos 90. J¨¢ vira melhores dias, pois, em v¨¢rios pontos, a tinta tinha dado lugar a ferrugem, e a fechadura da porta traseira j¨¢ n?o existia e fora substitu¨ªda por um sistema de fecho e cadeado. A demon¨®loga correu uma das portas laterais, revelando um espa?o de carga contendo uma estranha mistura de antigo e moderno. V¨¢rias prateleiras de madeira alinhavam as paredes, contendo livros claramente ancestrais, artefactos religiosos das mais variadas religi?es e objetos eletr¨®nicos com os componentes expostos, claramente constru¨ªdos ou misturados de forma improvisada. No ch?o, estavam pousados alguns artefactos maiores, como um tapete com uma mandala, um enorme menor¨¢ e o que parecia ser um ou v¨¢rios computadores ligados a uma bateria. A demon¨®loga passou-me duas altas e esguias colunas de som, enquanto ela pegou num monitor e num pequeno tablet que, se os meus escassos conhecimentos de eletr¨®nica n?o me enganam, tinha sido constru¨ªdo a partir de um raspberry pi. Assim que volt¨¢mos para as traseiras do pal¨¢cio, ajudei-a a subir a janela e a entrar. Depois, passei-lhe todo o equipamento e, por fim, entrei no pal¨¢cio. Como j¨¢ esperava dada a exiguidade e altura da janela, est¨¢vamos no interior de um pequeno quarto. De momento, encontrava-se vazio, mas, em tempos, devia ter sido usado como arrecada??o, pois n?o havia espa?o para nada mais. Cautelosamente, Susana, a demon¨®loga, encostou o ouvido ¨¤ ¨²nica porta, certificando-se de que n?o havia guardas do outro lado. Assim que ficou satisfeita, abriu-a. A enorme sala com que ent?o nos depar¨¢mos era-me familiar. Fora ali que, durante o espet¨¢culo de Halloween, se encontrara a condessa possu¨ªda a sua cama e onde um padre procedera ao exorcismo. Assim que lhe contei isto, a demon¨®loga come?ou a inspecionar cada cent¨ªmetro da divis?o, usando o tablet e um instrumento que tirou de uma das bolsas que levava ¨¤ cintura. Foi um processo demorado, durante o qual me mantive nervosamente vigilante para n?o sermos descobertos. Assim que terminou, ela abanou a cabe?a negativamente e decidimos prosseguir. Gra?as ¨¤ minha ¨²ltima visita, eu sabia que a ¨²nica outra porta dava para o p¨¢tio central, onde ser¨ªamos facilmente vistos pelos guardas, pelo que decidimos subir ao andar superior. Atrav¨¦s de umas escadas ex¨ªguas com dois lances, cheg¨¢mos a um corredor com algumas portas do lado direito e uma divis?o ao fundo. O primeiro quarto estava cheio de armaduras montadas, enquanto que os seguintes albergavam exposi??es de outros artefactos mediavalescos, como livros, mobili¨¢rio e estatuetas. A demon¨®loga inspecionou cada um deles, mas, mais uma vez, n?o encontrou nada. O mesmo n?o aconteceu, por¨¦m, na divis?o ao fundo do corredor. Mal entr¨¢mos, LED acederam-se no instrumento eletr¨®nico da minha companheira. - Assim est¨¢ melhor - disse ela. Encontr¨¢vamo-nos num quarto vazio, com uma lareira embutida numa das paredes. Seria, possivelmente, o verdadeiro quarto da condessa. A demon¨®loga seguiu o rasto do dem¨®nio at¨¦ uma segunda porta. Sempre atr¨¢s das indica??es do instrumento improvisado, atravess¨¢mos quartos, vest¨ªbulos, corredores e at¨¦ uma enorme sala de jantar. Por fim, quando cheg¨¢mos ¨¤ capela do pal¨¢cio, a demon¨®loga disse, apontando com o queixo para os LED todos acesos da m¨¢quina na sua m?o e para um gr¨¢fico no ecr? do tablet: - Est¨¢ aqui. Vamos instalar as colunas. - O guarda n?o vai ouvir quando as ligar-mos? - perguntei. - ¨¦ quase certo, mas n?o temos escolha. Temos de expulsar este dem¨®nio daqui. Posicion¨¢mos as colunas entre os bancos compridos da capela, viradas para o altar. Devido a uma adapta??o da demon¨®loga, eram alimentadas por baterias, pelo que bastou um pressionar no tablet dela para que uma cacofonia de vozes e l¨ªnguas come?asse a soar. - ¨¦ uma mistura de v¨¢rias preces crist?s, mu?ulmanas, judaicas, hindus e taoistas usadas para expulsar dem¨®nios - explicou a demon¨®loga. Durante longos momentos ali fic¨¢mos, esperando que o dem¨®nio fosse expulso antes que um dos guardas nos ouvisse. Apesar do meu nervosismo, n?o consegui deixar de admirar a capela. O espet¨¢culo de Halloween n?o passara por ela, pelo que nunca a tinha visitado. Traves de madeira envernizadas seguravam o telhado, e enormes vitrais preenchiam quase a totalidade da parede atr¨¢s do pequeno altar. Por¨¦m, o que mais me impressionou foram os dois palanques laterais, j¨¢ que o seu aspeto marcadamente medieval me fazia viajar no tempo. De s¨²bito, estes come?aram a estremecer, assim como o altar e os bancos ¨¤ minha volta. Segundos depois, do ch?o, emergiu uma criatura quase do meu tamanho com pele vermelha, dois chifres, e nariz e queixo afiado. Quase ao mesmo tempo, a porta atr¨¢s de n¨®s abriu-se, dando entrada a um seguran?a de lanterna em punho. A vis?o da criatura, por¨¦m, ou a combina??o desta com a cacofonia emitida pelas colunas foram demasiado para ele, e o homem desmaiou para cima da ¨²ltima fileira de bancos. Ao contr¨¢rio de mim, Susana n?o prestara qualquer aten??o ao guarda e avan?ava em dire??o ao dem¨®nio com o ecr? do tablet virado para ele. De relance, vi v¨¢rias imagens a passar: s¨ªmbolos religiosos variados, excertos de textos sagrados, imagens de santos e deuses. A criatura estacou e come?ou a gritar. Lentamente, a demon¨®loga deslocou-se, tentando colocar o tablet entre o dem¨®nio e a porta, ao mesmo tempo que tirava algo da mochila que levava ¨¤s costas. Contudo, antes que o conseguisse, a criatura emitiu um tem¨ªvel rugido e saltou sobre os bancos quase at¨¦ ¨¤ porta. Instintivamente, tentei barrar-lhe a passagem, mas ele atirou-me ao ch?o como se nada fosse e saiu. - Ele ¨¦ mais forte do que estava ¨¤ espera disse a demon¨®loga, ajudando-me a levantar. - Vamos. Corremos para fora da capela e descemos as escadas at¨¦ ao claustro do pal¨¢cio e, de l¨¢, seguimos o dem¨®nio para o exterior. Pelo caminho, pass¨¢mos por diversos guardas, mas estes, at¨®nitos com a vis?o do dem¨®nio ou com a nossa presen?a ali, nem reagiram. Perseguimos a criatura pela colina em cujo topo se erguia o Castelo de Guimar?es. No entanto, a meio caminho, junto a uma pequena capela ali constru¨ªda, Susana agarrou-me por um bra?o. - Espera. Este dem¨®nio ¨¦ muito forte. Normalmente, n?o conseguem escapar daquela maneira. Vou buscar umas coisas para lhe fazer uma emboscada e encurral¨¢-lo nesta capela. Leva o meu tablet, vai atr¨¢s dele e tenta empurr¨¢-lo para aqui. Antes de eu poder responder, ela meteu o tablet nas minhas m?os e virou costas. No ecr?, ainda passavam todo o tipo de imagens religiosas. Respirando fundo, comecei a correr pela estrada de terra batida que levava ao topo da colina e ¨¤s ru¨ªnas do castelo, onde o dem¨®nio entrara. Sendo a fortaleza mais famosa de Portugal, j¨¢ a havia visitado mais do que uma vez, pelo que a conhecia bem e podia concentrar-me em encontrar a criatura. A torre de menagem, que fora restaurada, era o ¨²nico edif¨ªcio que se encontrava em p¨¦, mas estava fechada, pelo que n?o havia muitos s¨ªtios onde o dem¨®nio se podia esconder. Isto, se n?o tivesse nenhum truque que eu desconhecesse, claro. Tentando segurar, ao mesmo tempo, a minha lanterna de bolso e o tablet ¨¤ minha frente, comecei a procurar em todos os recantos, desde atr¨¢s de escombros at¨¦ ¨¤s lareiras e ¨¤s chamin¨¦s quebradas que delas partiam. N?o demorei muito a ver um vulto passar ao meu lado. Quando apontei a luz para l¨¢, por¨¦m, n?o encontrei nada. Podia ter sido apenas um gato, mas, por alguma raz?o, pressenti que era algo mais, pelo que o persegui. Finalmente, quando cheguei a uma esquina sem sa¨ªda, avistei o dem¨®nio e estendi o tablet na sua dire??o. Como eu bloqueava a ¨²nica rota de fuga, uma estreita passagem entre a muralha e a torre de menagem, a criatura, tentou, em desespero, usar as garras para trepar a muralha. Por¨¦m, ao ver que n?o conseguia, carregou contra mim, gritando com um misto de dor e ¨®dio. Mais uma vez, fui incapaz de o parar, e ele passou por mim, atirando-me ao ch?o. Felizmente, recuperei depressa e persegui-o. Correndo o mais depressa que conseguia, tentei manter-me colado a ele e, com o tablet, conduzi-lo para onde Susana o esperava. Apesar de ele se ter desviado uma ou duas vezes do caminho mais direto, l¨¢ o consegui levar at¨¦ ¨¤ pequena capela. Junto ¨¤ porta desta, encontrava-se a demon¨®loga, que segurava um outro tablet e, entretanto, havia constru¨ªdo uma passagem delimitada com colunas ¨¢udio emitindo a sua mistura de canticos e preces e um monitor enorme que conduzia para o interior. Percebendo a inten??o, tentei conduzir o dem¨®nio para a armadilha. Este ainda tentou escapar, mas, com a ajuda da demon¨®loga e do seu segundo tablet, consegui lev¨¢-lo para a passagem e para o interior da capela. Mal a criatura passou a porta, Susana selou-a com o enorme monitor onde passavam imagens similares ¨¤s do tablet. Depois, ativou as colunas que colocara no interior do edif¨ªcio sagrado. O dem¨®nio come?ou a gritar. Primeiro, atirou-se contra as paredes, como se quisesse atravess¨¢-las, depois, investiu na dire??o da porta. Atr¨¢s do ecr?, a demon¨®loga tirou da mochila um curioso objeto que parecia ser uma espingarda de ¨¢gua, como as usadas pelos mi¨²dos, mas pintada com tinta prateada e coberta com s¨ªmbolos sagrados. Assim que o ser ficou ao alcance, ela disparou a arma. V¨¢rios jatos de l¨ªquidos voaram na dire??o do dem¨®nio. Mal foi atingido, este come?ou a gritar ainda mais violentamente. Susana, por¨¦m, continuou a disparar. Notei, ent?o, que a criatura come?ava a derreter, como se tivesse sido atingida por um ¨¢cido. Aos poucos, desapareceu, at¨¦ que tudo o que restava dela era um po?a avermelhada no ch?o, a maior parte da qual se infiltrou pelas frinchas entre as lajes funer¨¢rias que cobriam o ch?o da capela. - O que tens nessa arma? - perguntei, surpreendido e curioso. - ¨¢gua benta, ¨®leo ungido, ¨¢gua de rios sagrados, ¨¢gua do po?o de Zamzam, coisas desse g¨¦nero - explicou ela. - Agora ¨¦ melhor sairmos daqui antes que os guardas do pal¨¢cio recuperem e venham atr¨¢s de n¨®s. Assim fizemos. Ajudei-a a levar o material para a carrinha e voltei para o meu carro, mas n?o antes de ela me dar o seu contacto. Esta investiga??o podia n?o me ter dado novas informa??es sobre as Bruxas da Noite,mas trouxe-me um novo aliado na minha miss?o de as encontrar e parar. Capítulo 15 - O Bruxo Depois de v¨¢rias investiga??es sem encontrar nenhuma pista quanto ao esconderijo e inten??es das Bruxas da Noite, decidi reler todas as entradas sobre bruxas no di¨¢rio que me introduzira a este mundo paralelo ao nosso. Acabei por decidir investigar uma que j¨¢ h¨¢ muito me suscitava curiosidade. Esta falava de um bruxo curandeiro e adivinho que atendia os seus clientes num anexo perto de casa, na freguesia de Perre, em Viana do Castelo. Era uma hist¨®ria que eu conhecia desde crian?a. Ali¨¢s, durante alguns anos, passei diariamente pelo seu "gabinete" a caminho da escola e via as filas de carros l¨¢ estacionados. Na altura, nem eu nem a minha fam¨ªlia t¨ªnhamos muita f¨¦ nas suas capacidades, mas, depois de tudo o que vira recentemente e de ler aquela entrada, achei que devia reconsiderar. Um fim de semana, disse ¨¤ minha mulher que ia a Viana do Castelo visitar os meus av¨®s. De facto, passei pela casa deles, mas fiquei l¨¢ pouco tempo, e logo me dirigi a Perre. Quando cheguei ¨¤ casa do bruxo, tive uma forte sensa??o de d¨¦j¨¤ vu. O anexo, do outro lado da estrada da sua casa, estava na mesma, assim como o campo ao seu lado. At¨¦ as filas de carros nas bermas eram como me lembrava. Estacionei atr¨¢s de uma delas e dirigi-me ao anexo. L¨¢, pessoas juntavam-se em grupos de familiares ou amigos, esperando pela sua vez. Estes pareciam ter origens variadas, pois fatos de marca misturavam-se com fatos de macaco e roupas de campo. A fama do bruxo chegara a toda a gente. Juntei-me a eles e esperei. Aos poucos, os grupos foram entrando e saindo. Todos, sem exce??o, emergiam do anexo com um ar bem mais feliz do que com que haviam entrado. Por fim, chegou a minha vez. Por fora, o edif¨ªcio parecia um armaz¨¦m de utens¨ªlios agr¨ªcolas, por¨¦m, assim que atravessei a porta, senti que tinha viajado no tempo para o est¨²dio de um m¨ªstico renascentista. Uma das paredes estava tapada por uma estante cheia de livros, todos eles com um aspeto bastante antigo. Na parede oposta, v¨¢rias prateleiras continham frascos com po??es de uma enorme diversidade de cores. As restantes, por seu lado, encontravam-se quase totalmente cobertas por tape?arias com s¨ªmbolos m¨ªsticos e estranhas representa??es do corpo humano. Tapetes esot¨¦ricos, um telesc¨®pio de lat?o e um planet¨¢rio mecanico completavam a decora??o. De tr¨¢s de uma secret¨¢ria pejada de livros e de estranhos instrumentos cujo nome desconhecia, sentava-se o bruxo. N?o contrastando com o resto da sala, este envergava vestes longas e uma tiara met¨¢lica. - Aproxime-se - disse ele. Assim fiz. Por indica??o dele, sentei-me na cadeira em frente da secret¨¢ria. - Conte-me, ent?o, o que o traz aqui. Confesso que me tinha esquecido de criar uma hist¨®ria para testar o bruxo. Depois lembrei-me de que essa podia ser a hist¨®ria. - Vim aqui para testar as suas capacidades de adivinho, para o meu blogue sobre o paranormal. - At¨¦ nem era propriamente mentira. - Se pagar, como toda a gente, teste ¨¤ vontade. Por onde quer come?ar? Come?¨¢mos pelo b¨¢sico. Sem demora, ele conseguiu dizer-me o nome e idade da minha filha e da minha mulher. Depois, fez um pequeno resumo da minha vida profissional. Por fim, elaborou uma previs?o quanto ao percurso acad¨¦mico da minha filha, que eu s¨® poderia confirmar anos depois. - Agora gostaria de ver os seus dotes de curandeiro. - Com uma pequena navalha que tinha comigo, fiz um pequeno corte no bra?o. - Esse arranh?o n?o ¨¦ grande desafio - disse ele, saindo de tr¨¢s da secret¨¢ria e aproximando-se. This book is hosted on another platform. Read the official version and support the author''s work. Pedindo autoriza??o, p?s uma m?o sobre o meu ferimento. Depois, fechou os olhos e permaneceu em sil¨ºncio durante alguns segundos. Quando me largou, o ferimento havia desaparecido sem deixar rasto. Era ¨®bvio que aquele homem era o que dizia ser: um bruxo. Talvez soubesse alguma coisa sobre as Bruxas da Noite ou, quem sabe, talvez fosse um dos seus constituintes. - Espero que fale bem de mim no seu... blogue. Ele ficou a olhar para mim com ar assustado durante um instante. Depois, f¨²ria surgiu na sua face e gritou: - Saia daqui! Imediatamente! O seu tom n?o deixava margem para discuss?o e assim fiz, perguntando-me o que teria acontecido. Ser¨¢ que os seus poderes lhe tinham permitido ver a natureza do blogue que escrevia na altura? (Os mais curiosos podem encontr¨¢-lo em terceirarealidade.wordpress.com) ¨¦ claro que deixei o anexo, mas n?o abandonei a investiga??o. Estava determinado a descobrir se ele me poderia dar alguma pista sobre as Bruxas da Noite. Ocultei o carro numa ruela pr¨®xima e esperei pelo anoitecer. Depois, escondi-me numa sombra e esperei que o mago deixasse o consult¨®rio e voltasse para casa. Com a quantidade de clientes que tinha nesse dia, isso s¨® ocorreu por volta das onze da noite. Assim que passou o port?o de casa, corri para o anexo. Usando umas ferramentas que levei comigo e algo que aprendi com o grupo de explora??o urbana de Braga, abri a fechadura. Mal entrei, fechei a porta atr¨¢s de mim, acendi as luzes e comecei a procurar ind¨ªcios de uma rela??o entre aquele bruxo e as Bruxas da Noite. Procurei nas estantes, nas gavetas da secret¨¢ria e por detr¨¢s das tape?arias. At¨¦ tentei encontrar compartimentos secretos. Contudo, acabei por me aperceber que n?o havia nada ali. Os livros eram meramente decorativos, sem qualquer rela??o com o que era feito ali. E n?o havia nada escondido. Decidido a chegar ao fundo da quest?o, dirigi-me ¨¤s traseiras da casa do bruxo e, verificando que n?o havia ningu¨¦m por perto, saltei o muro para o quintal. ¨¤ primeira vista, a ¨²nica luz provinha de uma janela no piso superior. Comecei a circundar a casa em busca de uma forma de subir e ver para o seu interior. Por¨¦m, enquanto procurava, reparei numa t¨¦nue luminosidade alaranjada que brilhava atr¨¢s de uma das janelas da cave. Aproximei-me com cuidado e espreitei. Encontrei uma sala quase vazia, ¨¤ exce??o de um c¨ªrculo cheio de s¨ªmbolos m¨ªsticos semelhantes aos encontrados em manuais de ocultismo e um trip¨¦ de madeira sobre o qual repousava um livro claramente antigo. Atr¨¢s deste, o mago, agora envergando roupa comum em vez das andrajosas vestes com que atendia os clientes, parecia recitar o que lia, embora, do exterior n?o o conseguisse ouvir. A cave devia estar insonorizada. Durante cerca de quinze minutos, ali fiquei, observando o homem a folhear e ler do livro. De s¨²bito, fumo surgiu no centro do c¨ªrculo desenhado no ch?o. Aos poucos, foi aumentando, tomando forma e ganhando consist¨ºncia, at¨¦ que uma bizarra criatura surgiu diante dos meus olhos. Tinha uma forma humanoide, com longos cabelos negros, embora uma fila de chifres se alinhasse no meio da sua cabe?a e tivesse orelhas longas e pontiagudas, j¨¢ para n?o falar na pele vermelha viva. Numa m?o, levava um corvo e ia montado num crocodilo. Ele e o bruxo falaram durante alguns minutos, mas, mais uma vez, n?o consegui ouvir nada. Eventualmente, a criatura come?ou a desenhar no ar v¨¢rios s¨ªmbolos m¨ªsticos, na dire??o do homem. Quando terminou, voltou a dissolver-se numa nuvem de fumo negro, que desapareceu t?o subitamente como aparecera. Devia ser aquele ritual que dava os poderes, ou pelo menos parte deles, ao bruxo. Este fechou o livro e preparou-se para abandonar a cave. Por¨¦m, eu queria falar com ele, pelo que decidi chamar a sua aten??o e mostrar que conhecia o seu segredo batendo no vidro. Ele olhou para mim com um misto de surpresa e terror, mas a sua express?o logo mudou para uma de resigna??o ao perceber que n?o havia nada que pudesse fazer. Atrav¨¦s de gestos, indiquei-lhe que queria falar com ele, e ele pediu-me que esperasse. Nem cinco minutos depois, a porta da casa abriu-se e o bruxo veio ter comigo. - Pronto, sabe o meu segredo - disse ele. - Que vai fazer quanto a isso? - Voc¨º ¨¦ uma Bruxa da Noite? Ou sabe alguma coisa sobre elas? O homem olhou para mim genuinamente confuso. - N?o v¨º que sou um homem? - protestou, por fim. Decidi, ent?o, contar-lhe tudo o que descobrira sobre as Bruxas da Noite. - Eu n?o sei nada sobre isso. Eu s¨® aprendi a invocar os dem¨®nios certos para me darem os poderes que preciso, mais nada. N?o fa?o mal a ningu¨¦m. S¨® fa?o bem. E nem sei nada dessas fadas e bichos esquisitos de que falou. O medo no seu olhar dizia-me que ele estava a dizer a verdade. Al¨¦m disso, apesar da sua rela??o com dem¨®nios, ele parecia realmente estar a ajudar pessoas, mesmo que estivesse a ganhar dinheiro com isso. Disse-lhe que o ia deixar em paz, mas que o manteria debaixo de olho. Ele agradeceu-me e deixou-me sair do quintal pelo port?o. Mais uma vez, voltei para casa sem descortinar mais nada sobre as Bruxas da Noite. O meu ¨²nico consolo era ter descoberto que a fama daquele bruxo de que eu ouvia falar desde mi¨²do era justificada. Capítulo 16 - Luzes no Céu Como parte da minha explora??o do mundo paralelo ao nosso que o di¨¢rio que encontrei me revelou, costumo seguir os f¨®runs e blogues nacionais de paranormal e ufologia, n?o v¨¢ um deles revelar algo que mere?a aten??o. Foi uma destas leituras que deu o mote a esta investiga??o. Nos f¨®runs de ufologia, havia uma grande excita??o sobre estranhas luzes que andavam a aparecer sobre o Monte do Pilar, nos arredores da P¨®voa do Lanhoso. ¨¦ claro que, apenas isso, n?o chegaria para despertar a minha curiosidade, pois rumores de luzes n?o identificadas no c¨¦u eram frequentes. O que realmente tornava este caso ¨²nico eram as hist¨®rias de homens que cortavam a estrada de acesso ao topo do monte durante essas ocorr¨ºncias. Pensei logo na Organiza??o, e, se a Organiza??o estava presente, era porque algo realmente se passava. Esquecendo a minha busca pelas Bruxas da Noite durante algum tempo, um s¨¢bado ¨¤ noite, altura em que os avistamentos ocorriam, dirigi-me ¨¤ P¨®voa do Lanhoso. Nessa noite, a minha mulher estava em casa da m?e, que adoecera novamente, e a minha filha tinha ido passar o fim de semana com uma amiga, pelo que n?o precisei de inventar uma desculpa. Deixei o carro junto da igreja constru¨ªda na base do Monte do Pilar, ao lado da estrada que levava at¨¦ ao topo, para investigar o alegado bloqueio. De facto, mal passei a primeira curva, encontrei dois carros atravessados na estrada a barrar o caminho. Atr¨¢s deles, cinco homens vigiavam a estrada. Ao contr¨¢rio do que eu assumira, estes n?o pareciam ser membros da Organiza??o. Estavam armados com tacos de basebol e, em vez de fatos ou uniformes militares, envergavam roupas casuais. Aproximei-me para tentar perceber o que se passava. Ainda estava a uns dois metros dos carros, quando um dos homens gritou: - N?o pode passar! - Porqu¨º? - perguntei, dando mais dois passos em frente. - N?o tem nada a ver com isso. Volte para tr¨¢s. - Com que autoridade me nega passagem numa estrada p¨²blica? - perguntei, tentando for?¨¢-los a revelar quem eram. - Vais dar-nos problemas, p¨¢? - respondeu um outro homem, batendo com o taco de basebol na m?o. Os seus companheiros, ergueram as armas. - Vai-te embora antes que te magoes. Assim fiz, mas n?o ia desistir t?o facilmente daquela investiga??o. Conhecia bem aquele monte, j¨¢ o havia visitado v¨¢rias vezes, e sabia que existia um velho caminho medieval que tamb¨¦m levava ao topo. Mal desapareci do angulo de vis?o dos homens, por detr¨¢s da curva, trepei atrav¨¦s da vegeta??o at¨¦ ao antigo caminho. Como esperava, este n?o parecia vigiado. A subida n?o era f¨¢cil. As pedras da cal?ada, expostas aos elementos e sem manuten??o durante s¨¦culos, eram irregulares, e erva crescia entre elas. Em alguns pontos, a cal?ada at¨¦ havia desaparecido completamente. Por¨¦m, o ¨²ltimo tro?o era ainda pior. If you stumble upon this narrative on Amazon, be aware that it has been stolen from Royal Road. Please report it. O Monte do Pilar estava coroado por um colossal rochedo, um dos maiores da Europa, sobre o qual se erguia o Castelo do Lanhoso e um pequeno santu¨¢rio. A nova estrada contornava-o e dava acesso pela encosta oeste, menos ¨ªngreme. O velho caminho medieval, por¨¦m, levava para a entrada este. Em tempos, acredito que uma escada ligaria esta ¨¤ estrada medieval, no entanto, agora, apenas alguns apoios para m?os e p¨¦s escavados na rocha nua ajudavam na subida. Apesar de a explora??o urbana me ter obrigado a obter alguma experi¨ºncia em escalada, foi com bastante dificuldade que cheguei ¨¤ entrada este. Esta dava acesso a um pequeno socalco coberto de ¨¢rvores e com mesas de pedra situado uns metros abaixo da ¨¢rea principal do santu¨¢rio. Felizmente, n?o se encontrava ningu¨¦m ali, pelo que pude parar um pouco para recobrar energias ap¨®s a subida. Assim que me senti capaz, subi, lentamente, alguns degraus das escadas que davam para o n¨ªvel superior e espreitei. Sobre o rochedo, a meio caminho entre a pequena igreja e o castelo, estava um grupo de cerca de vinte pessoas. Estas encontravam-se reunidas em volta do que me pareceu ser um padre segurando uma enorme cruz de madeira com as duas m?os. O homem recitava, a plenos pulm?es, um cantico em latim, abafando todos os outros sons da noite. Durante vinte minutos ali fiquei, ouvindo-o e observando-os, mas nada de not¨¢vel aconteceu. Come?ava a pensar que se tratava, apenas, de uma seita qualquer, sem qualquer rela??o com as luzes no c¨¦u. Apenas o bloqueio na estrada e a rela??o estabelecida entre este e as luzes nos f¨®runs de ufologia me mantiveram ali. Um quarto de hora depois, alegrei-me de n?o ter ido embora. O grupo come?ou a ficar excitado e a apontar para o c¨¦u. Segui os seus olhares, e vi v¨¢rios pontos de luz, alto acima do monte. O padre intensificou o seu cantico, e as luzes come?aram a aproximar-se. Pouco depois, pareciam pequenos s¨®is brilhando sobre o santu¨¢rio. A sua intensidade era tal que, a princ¨ªpio, quase n?o conseguia olhar diretamente para elas. Contudo, aos poucos, come?aram a perder for?a, at¨¦ que, finalmente, fui capaz de ver o que eram. Tratavam-se, talvez, das criaturas mais bizarras que j¨¢ havia visto. Algumas pareciam ter forma humana, por¨¦m possu¨ªam seis asas brancas semelhantes ¨¤s das pombas, usando as duas de cima para cobrir as faces, as de baixo para cobrir os p¨¦s e as pernas, e apenas as do meio para voar. Outras eram vagamente humanoides, contudo, tinham quatro cabe?as, a de um homem, a de uma ¨¢guia, a de um boi e a de um le?o e quatro asas cobertas de olhos. N?o obstante o qu?o bizarros eram estes seres, foi um terceiro tipo de criatura que me causou mais estranheza. Tratavam-se de v¨¢rias rodas conc¨ºntricas com os aros cobertos de olhos. Como conseguiam voar, n?o sei dizer. Quando era adolescente, tinha um grande interesse em mitologia e, embora angelologia crist? n?o fosse uma das minhas favoritas, reconheci aqueles seres como sendo anjos, nomeadamente da primeira esfera, os mais pr¨®ximos de Deus. Lentamente, os seres voaram ¨¤s voltas sobre os homens, enquanto estes erguiam as m?os em dire??o ao c¨¦u e gritavam s¨²plicas. Passados alguns minutos, os anjos come?aram a afastar-se. Aos poucos, a sua luz foi-se tornando mais fraca e distante, at¨¦ que desapareceram por completo. Com sorrisos nos l¨¢bios, as pessoas come?aram a dispersar e a regressar aos carros. O que conseguiram com aquele ritual, n?o sei dizer, mas fiquei a saber que n?o eram s¨® dem¨®nios que aquele tipo de seitas invocavam. Fiquei onde estava e esperei que deixassem o santu¨¢rio. Depois, dei-lhes mais algum tempo para desobstru¨ªrem a estrada e s¨® depois comecei a descer o monte, desta vez pelo percurso principal. Como sempre, v¨¢rias perguntas passaram-me pela cabe?a no caminho de regresso a casa. Qual o objetivo do ritual? Porque viriam anjos das mais altas ordens ¨¤ Terra? Se os anjos eram reais, ser¨¢ que Deus tamb¨¦m o era? Felizmente, a minha mente ainda estava focada em encontrar as Bruxas da Noite e descobrir os seus objetivos, caso contr¨¢rio, se tivesse tido tempo de pensar nas implica??es daquela noite, o meu mundo podia ter desabado. Capítulo 17 - Fogos-fátuos Como a anterior, esta investiga??o come?ou num f¨®rum online que falava do avistamento de estranhas luzes, desta vez na Citania de Briteiros. Contudo, estava tamb¨¦m associada ¨¤s Bruxas da Noite e ao di¨¢rio, pois uma das entradas deste reunia v¨¢rias hist¨®rias captadas em segunda m?o que contavam que bruxas poderosas habitavam entre as ru¨ªnas, escondidas. O meu antecessor, t¨ªmido como parecia ser, nunca tentou confirmar essas hist¨®rias, mas a exist¨ºncia destas e das luzes pareciam mais do que coincid¨ºncia, e eu tinha de investigar. Uma noite, ap¨®s o trabalho, telefonei ¨¤ minha mulher para lhe dizer que ia trabalhar at¨¦ tarde e, depois, encaminhei-me para a citania. Esta n?o ficava longe do meu emprego, por¨¦m, parte da estrada era muito ex¨ªgua, com muitas curvas de pouca visibilidade, pelo que requeria uma condu??o cuidada. Como tal, demorei mais de meia hora a l¨¢ chegar. Estacionei num pequeno espa?o de terra batida ao lado da estrada, em frente da entrada da citania. Embora ainda n?o fosse noite, j¨¢ come?ara a anoitecer, e esta encontrava-se fechada. Decidi aproveitar o pouco de luz que ainda restava para procurar outra forma de entrar. Percorri quase todo o per¨ªmetro das ru¨ªnas virado para a estrada. Finalmente, uma centena de metros abaixo de onde deixei o carro, encontrei um espa?o entre a rede e o ch?o grande o suficiente para eu passar. Arrastando-me de costas e empurrando a rede para cima, consegui entrar. Estava, agora, junto das ru¨ªnas de uns banhos situados num dos pontos mais baixos da citania. Mesmo com a escurid?o crescente e intento em descobrir as origens das luzes, n?o consegui deixar de admirar a chamada Pedra Formosa dos banhos, gravada com motivos celtas. Comecei a subir uma ancestral rua, a mesma que os habitantes da idade do ferro usavam no seu dia-a-dia, ladeada por uma conduta que levava ¨¢gua aos banhos. A subida n?o foi f¨¢cil, pois a cal?ada era irregular e bastante ¨ªngreme, mas, por fim, cheguei ¨¤ zona onde se concentravam a maior parte das ru¨ªnas de casas. Depois de descansar um pouco, decidi continuar a subir at¨¦ ao topo da acr¨®pole. Sendo o ponto mais alto da citania, era o local ideal para ficar de vigia e avistar as luzes que ali fui procurar. Subi por outro dos caminhos originais. Este serpenteava por entre as ru¨ªnas dos v¨¢rios complexos familiares, em que casas circulares constru¨ªdas em volta de um terreiro central se encontravam envoltas por uma parede mais alta do que eu. Passei, tamb¨¦m, junto da muralha mais interior e do seu port?o norte. Apesar de, na escurid?o, n?o as conseguir ver, sabia que, gra?as a uma minha visita anterior, havia mais duas muralhas al¨¦m desta. Finalmente, cheguei ao topo da acr¨®pole. Para al¨¦m de duas casas reconstru¨ªdas, havia ali as ru¨ªnas de um enorme edif¨ªcio redondo com bancos de pedra adossados ¨¤ parede. Segundo as leituras que fiz antes da minha visita anterior ¨¤ citania, os arque¨®logos pensavam tratar-se da casa onde os governantes ou os anci?os se juntavam para discutir e resolver os problemas da povoa??o. Dali, conseguia ver toda a citania, por¨¦m, n?o detetei nenhum sinal das luzes de que os rumores falavam. Todavia, ainda era cedo, pelo que me encostei a uma das casas reconstru¨ªdas e esperei. S¨® queria que aquela n?o fosse uma das poucas noites sem ocorr¨ºncias daquele m¨ºs. O primeiro sinal de que algo iria acontecer, por¨¦m, n?o foi o aparecimento de luzes, mas sim de vultos que se mexiam mais abaixo, na escurid?o. Estes surgiram de um ponto quase oposto ¨¤quele por onde eu havia entrado, pelo que me perguntei como tinham atravessado a veda??o. Lentamente, aproximaram-se do pequeno terreiro entre os complexos familiares, mais abaixo, foi ent?o que, gra?as ¨¤ luz da Lua e das estrelas, me apercebi de que se tratavam de cinco mulheres vestidas de negro. A ideia de que podiam ser as Bruxas da Noite passou-me pela cabe?a, mas logo a descartei. Estas mulheres n?o tinham as caras cobertas nem a envergadura das criaturas que eu procurava. Foi ent?o que as luzes que me levaram ali apareceram. Vi-as, primeiro, como tr¨ºs pequenas chamas esverdeadas num pequeno arvoredo junto ao exterior do per¨ªmetro da citania. Por¨¦m, rapidamente se aproximaram, ao mesmo tempo que aumentavam de tamanho e intensidade. Ao v¨º-las, as cinco mulheres procuraram imediatamente ref¨²gio por entre as ru¨ªnas. Esperaram que os fogos-f¨¢tuos se aproximassem mais um pouco, e, ent?o, come?aram a recitar estranhos e elaborados canticos. Para minha surpresa, instantes depois, uma torrente de granizo abateu-se sobre as chamas viventes, apesar de o c¨¦u estar limpo. Em meros segundos, estas e o terreno em redor estavam cobertos por um monte de gelo. At¨¦ ao momento, n?o tinha visto uma tal demonstra??o de poder por parte de nenhuma bruxa, pelo que, por momentos, me perguntei se aquelas cinco mulheres n?o seriam mesmo as Bruxas da Noite. As atacantes esperaram um pouco para se certificarem que tinham, realmente, neutralizado o seu alvo. O monte de gelo n?o se moveu, e elas, sa¨ªram, ent?o, dos seus esconderijos. - Conseguimos - disse uma delas. - Agora somos as bruxas mais poderosas do norte de Portugal. - Parece que sim - concordou outra, com um sorriso nos l¨¢bios. This tale has been unlawfully lifted without the author''s consent. Report any appearances on Amazon. - T¨ºm a certeza? - perguntou uma terceira, olhando, desconfiada e amedrontada, para a pilha de granizo. - Elas j¨¢ sobreviveram a pior. - De certeza - afirmou a primeira. - Foi desta que descobrimos a fraqueza delas. Nesse instante, o monte de gelo come?ou a estremecer. Uns segundos depois, com uma explos?o, os fogos-f¨¢tuos emergiram do granizo. As invasoras correram de volta para os seus ref¨²gios e come?aram um novo cantico. Por¨¦m, desta vez, os seus oponentes entraram em a??o. Com uma rapidez incr¨ªvel, um deles chocou contra uma das bruxas, projetando-a v¨¢rios metros para tr¨¢s. Outro disparou um estranho relampago esverdeado que contornou a cobertura e atingiu a atacante atr¨¢s dela. Depois, os tr¨ºs juntaram-se e come?aram a mover-se rapidamente em c¨ªrculo. Uma chuva de pequenas esferas de chamas verdes abateu-se, ent?o, sobre as tr¨ºs invasoras ainda em combate. Mal tocaram as suas roupas, incendiaram-nas, embora, ao atingir o solo, se apagassem instantaneamente, sem sequer queimarem a vegeta??o. As atacantes rebolaram pelo ch?o para extinguir as chamas. Quando se voltaram a levantar, decidiram admitir a derrota e, depois de pegarem nas suas duas amigas inconscientes (ou talvez mortas), fugiram at¨¦ desaparecerem na escurid?o de onde tinham surgido. Os fogos-f¨¢tuos permaneceram im¨®veis durante mais alguns minutos. Eu fiquei onde estava, a observ¨¢-los, na esperan?a que, ao irem embora, me levassem a algo que indicasse a sua origem. Afinal, as mulheres que haviam enfrentado eram claramente bruxas. Ser¨¢ que eles n?o teriam alguma rela??o com as Bruxas da Noite? A verdade prontamente se revelou e apanhou-me completamente de surpresa. As chamas dos fogos-f¨¢tuos come?aram a agitar-se e a crescer. De repente, desapareceram por completo, revelando tr¨ºs pessoas: duas mulheres e um homem. - Espero que este seja o ¨²ltimo destes ataques - disse o homem. - Correr com estas bruxas de segunda est¨¢ a tornar-se aborrecido. - ¨¦ o pre?o da fama - respondeu uma das mulheres. - Mas que pretendem elas com isto? - perguntou a outra mulher. - Ocupar o nosso lugar? Acham que derrotarmos lhes vai dar o nosso poder? Claramente, aquelas pessoas eram bruxas poderosas. Por¨¦m, n?o tinham o tamanho nem as vestimentas das Bruxas da Noite, pelo que assumi n?o serem elas. Al¨¦m disso, estas ¨²ltimas dificilmente podiam ser chamadas de famosas. Contudo, talvez estas tr¨ºs soubessem de alguma coisa que me pudesse ajudar. Respirei fundo para reunir coragem antes de, mais uma vez, abordar um grupo de bruxas. Levantei-me e chamei por elas. Sem uma palavra, transformaram-se de novo em fogos-f¨¢tuos e voaram at¨¦ ¨¤ acr¨®pole, onde me rodearam. Depois, voltaram ¨¤ forma humana. - Quem ¨¦s tu? - perguntou o homem. - N?o me digas que ¨¦s algum bruxo que tamb¨¦m nos quer enfrentar. - N?o, n?o - respondi prontamente. Contei-lhes, ent?o, sobre a minha busca pelas Bruxas da Noite e o que me tinha levado ali. - Sabes, n¨®s tamb¨¦m estamos muito interessadas nas Bruxas da Noite. Ningu¨¦m sabe quem elas s?o, o que querem ou de onde vieram. Isso torna-as perigosas para n¨®s. - Sabem onde as posso encontrar? - Infelizmente, n?o - respondeu a outra mulher. - Se soub¨¦ssemos, j¨¢ t¨ªnhamos falado com elas. Gostamos sempre de tentar convencer todas as bruxas e utilizadores de magia do Norte a juntarem-se ao nosso Grande Convent¨ªculo. - Vem connosco - disse a primeira mulher. - Vamos mostrar-te o que temos sobre as Bruxas da Noite. Talvez se combinarmos os nossos conhecimentos, possamos descobrir alguma coisa. - Acham que dev¨ªamos mostrar-lhe o esconderijo? - perguntou o homem. - Ele j¨¢ lidou com bruxas antes. Sabe que se disser alguma coisa a algu¨¦m, podemos p?r uma maldi??o nele e em todos o que ama - respondeu a primeira mulher. - Al¨¦m disso, toda a gente sabe que estamos aqui na citania e que o nosso esconderijo n?o deve ficar longe. Elas levaram-me, ent?o, at¨¦ uma das casas castrenses reconstru¨ªdas. O homem tirou uma chave do bolso, que usou para abrir a porta, e entr¨¢mos. L¨¢ dentro estava escuro. A ¨²nica luz era a p¨¢lida luminesc¨ºncia da Lua e das estrelas que entrava pela porta, contudo, era suficiente para eu perceber que o local se encontrava vazio. Enquanto me perguntava porque me haviam levado ali, uma das mulheres apartou um pouco da palha que cobria o ch?o e levantou uma pequena laje de pedra. Para minha surpresa, debaixo dela, encontrava-se um pequeno teclado num¨¦rico retro iluminado. A bruxa introduziu um c¨®digo num¨¦rico e o ch?o come?ou a estremecer. - Recua um pouco - disse o homem, puxando-me para tr¨¢s pelo ombro. Uma parte do ch?o baixou-se e deslizou para o lado, revelando umas escadas met¨¢licas que desciam, na vertical, at¨¦ um t¨²nel em cimento. A mulher que abriu o al?ap?o desceu primeiro, seguida pelo homem. Eu fui o terceiro, enquanto a ¨²ltima bruxa ficou para tr¨¢s, para fechar o al?ap?o. O t¨²nel estava bem iluminado e era curto, desembocando menos de dois metros depois numa sala bem mais espa?osa do que a casa reconstru¨ªda acima. Era um lugar estranho. Como o t¨²nel, tinha paredes de cimento, dando-lhe um aspeto de bunker. Secret¨¢rias com computadores e tablets misturavam-se com bancas onde repousavam almofarizes, facas, foices e frascos e vasilhas com m¨²ltiplos l¨ªquidos de diversas cores. Molhos de ervas diferentes pendiam, por fios, do teto, assim como patas de galinha e sacos de rede com ossos. Nas paredes, viam-se recortes de jornais e fotos de pessoas, algumas das quais reconheci como sendo intervenientes na pol¨ªtica nacional e internacional. Exatamente o que aquelas bruxas faziam ali, n?o sei dizer, mas era ¨®bvio que eram mais poderosas e influentes que as de qualquer outro convent¨ªculo que eu havia encontrado antes. Uma das mulheres ligou um dos computadores e come?ou a mostrar-me v¨ªdeos onde figuravam as Bruxas da Noite. Confesso que fiquei surpreso, assustado at¨¦, com todos os locais onde aquelas bruxas tinham olhos. Vi imagens das Bruxas da Noite nas montanhas do Ger¨ºs, nas ruas do Porto, sobrevoando o rio Lima, at¨¦ nos t¨²neis escondidos debaixo de Braga. Inclusive, mostraram-me um v¨ªdeo do meu encontro com uma das Bruxas da Noite, quando persegui um dos tragos sob seu comando. Eram imagens captadas do exterior da casa abandonada onde a encontrei, certamente por um drone. Infelizmente, a m¨¢quina n?o foi r¨¢pida o suficiente para seguir a criatura encapu?ada at¨¦ ao seu esconderijo. Apesar dos v¨ªdeos revelarem v¨¢rios s¨ªtios onde as Bruxas da Noite tinham estado, mesmo somados ao conhecimento que eu havia obtido durante a minha busca, n?o ajudavam a descortinar os motivos ou o paradeiro delas. De facto, trouxeram ainda mais perguntas. Sem mais nada que fazer ali, despedi-me das bruxas. Ap¨®s reiterarem as suas amea?as do que me aconteceria se revelasse a algu¨¦m o seu esconderijo, deixaram-me ir. No regresso a casa, n?o consegui deixar de pensar que estava cada vez mais confuso. Quanto mais sabia sobre as Bruxas da Noite, menos compreendia. Alguma vez iria encontr¨¢-las e faz¨º-las responder pelas mortes que haviam causado? Capítulo 18 - A Cabra de Tib?es H¨¢ quem diga que as coisas s¨® aparecem quando n?o estamos ¨¤ procura delas. Embora eu nunca tenha acreditado muito nisso, n?o quer dizer que, por vezes, n?o seja verdade. Tudo come?ou quando, numa tarde de Inverno, li num jornal local que uma cabra andava a aterrorizar os moradores de Mire de Tib?es. O caso era notavelmente semelhante ¨¤s hist¨®rias contadas sobre a cabra de Cabanelas, passada nos anos trinta, referida frequentemente em livros sobre lendas do norte de Portugal. Contava a not¨ªcia que uma cabra negra andava a aparecer, ao anoitecer, sobre o cemit¨¦rio de Mire de Tib?es e que, miando como um gato, fazia voos rasantes sobre todos os visitantes at¨¦ expuls¨¢-los de l¨¢. Curioso com o reaparecimento da lenda, decidi fazer outra pausa na minha busca pelas Bruxas da Noite e, um dia, depois do trabalho, dirigi-me ao referido cemit¨¦rio. Embora os dias j¨¢ estivessem a ficar maiores, ainda anoitecia cedo, pelo que, quando l¨¢ cheguei, o Sol estava prestes a desaparecer atr¨¢s do horizonte. Mal entrei no cemit¨¦rio, apercebi-me que n?o era o ¨²nico ali ¨¤ espera de ver a cabra. Excetuando duas pessoas, que tentavam apressar-se a colocar flores novas numa campa, ningu¨¦m prestava qualquer aten??o aos defuntos. Ali¨¢s, quase todos os olhares estavam fixos no c¨¦u, assim como telem¨®veis, m¨¢quinas fotogr¨¢ficas e de filmar. Encostei-me a uma das paredes e esperei. Aos poucos, come?ou a escurecer. As duas pessoas que tratavam da campa deixaram o local quase a correr. Para tr¨¢s, fiquei apenas eu e mais cerca de uma vintena de espectadores. Os minutos passaram, e continuou a ficar mais escuro, at¨¦ que, sobre as nossas cabe?as, ouvimos um estranho miar. No cimo do muro oposto ¨¤quele onde estava encostado, empoleirava-se uma cabra. Para minha surpresa, tinha um aspeto bastante comum: pelagem castanha e negra de variados tons, dois pequenos chifres no topo da cabe?a e barbicha no queixo. Ent?o, voltou a miar e, com um salto, deixou a parede. Por¨¦m, em vez de aterrar no ch?o, come?ou a correr em pleno ar. Flashes dispararam por todo o lado, com os curiosos a tentarem documentar aquele estranho fen¨®meno. Foi nesse momento que a cabra realizou o seu primeiro voo rasante. Homens e mulheres atiraram-se ao ch?o, procurando evitar a criatura, que voava pouco acima das cruzes e l¨¢pides a uma velocidade incr¨ªvel. Apesar de, a princ¨ªpio, a assist¨ºncia ter continuado a observar a cabra, esta efetuou voo rasante atr¨¢s de voo rasante, at¨¦ que todos come?aram a arrastar-se para a sa¨ªda. Eu, por¨¦m, escondi-me debaixo de um banco de pedra adossado ¨¤ parede da capela mortu¨¢ria e esperei. Poucos minutos depois, s¨® eu ainda me encontrava no cemit¨¦rio. Os outros curiosos tinham, entretanto, entrado nos seus carros e fugiam para longe. Ent?o, a cabra retirou-se, desaparecendo por detr¨¢s da parede norte. Nesse momento, sa¨ª do meu esconderijo e segui-a. Subir a parede n?o foi f¨¢cil, mas apoiando-me na laje de uma campa pr¨®xima (na altura n?o pensei nisso, entusiasmado como estava em seguir a cabra voadora, mas confesso que agora me parece algo desrespeitoso), l¨¢ consegui passar para o outro lado. O cemit¨¦rio de Tib?es fora constru¨ªdo adjacente ao medieval Mosteiro de Tib?es, um dos monumentos mais conhecidos do concelho de Braga, pelo que agora me encontrava nos seus extensos jardins. Avistei a cabra esvoa?ando por cima das colheitas, assim que toquei o ch?o, pelo que comecei imediatamente a segui-la. O percurso n?o foi f¨¢cil, pois o caminho era de terra batida e entretanto a noite tinha chegado em pleno e eu n?o me atrevia a acender a lanterna que andava sempre comigo para n?o revelar a minha presen?a. The story has been taken without consent; if you see it on Amazon, report the incident. Pouco depois, a cabra levou-me at¨¦ ¨¤ floresta que limitava os terrenos do mosteiro a sul. Gra?as a uma das minhas visitas anteriores, sabia exatamente para onde ia: em dire??o ao lago artificial criado numa clareira pr¨®xima. Embora eu conhecesse o ex¨ªguo trilho que l¨¢ ia ter, algo me disse para n?o o usar, e decidi aproximar-me a coberto da vegeta??o. Assim que avistei o lago, a minha precau??o mostrou-se justificada. Para minha surpresa, junto ¨¤ parede decorada da qual emergia a ¨¢gua que enchia o lago, ardia uma enorme fogueira, provavelmente maior do que eu. Em volta desta, encontravam-se cinco figuras encapu?adas, todas elas exatamente iguais ¨¤ bruxa da noite que havia visto naquela casa abandonada. Tinha finalmente encontrado as Bruxas da Noite! E enquanto investigava algo aparentemente sem qualquer rela??o com elas. Era ¨®bvio que a cabra era uma cria??o sua, provavelmente para afastar as pessoas da zona, mas faltava-me perceber porqu¨º. Respirei fundo repetidamente. Mais uma vez, preparava-me para confrontar um grupo de bruxas. Por¨¦m, estas n?o eram bruxas comuns nem meras candidatas a serem as Bruxas da Noite. Eram mesmo elas. J¨¢ tinham morto pessoas antes, se bem que indiretamente. Por outro lado, a ideia de que me haviam deixado ir inc¨®lume ap¨®s o nosso ¨²ltimo encontro trazia-me algum conforto. Ia sair do meu esconderijo e descer at¨¦ ao lago, quando ouvi um ru¨ªdo atr¨¢s de mim. Refugiei-me de imediato no meio de uma pequena moita, que me ocultava em todas as dire??es. Segundos depois, passou por mim uma enorme criatura, com mais de tr¨ºs metros de altura. No geral, parecia humana, embora, na escurid?o, n?o lhe conseguisse ver a cara. As suas pernas pareciam troncos de ¨¢rvores e o corpo era extremamente largo, mas caminhava com as costas dobradas. Depois daquele avistamento, comecei a ouvir ru¨ªdos a toda a volta. Vultos de todas as formas e tamanhos come?aram a surgir entre a vegeta??o, alguns bem maiores do que aquele ogre inicial. De onde haviam sa¨ªdo, n?o sei dizer, mas todos se dirigiam para o lago artificial. Quando a primeira das criaturas chegou ¨¤ margem, as bruxas come?aram a entoar um cantico e a agitar ritmadamente os bra?os acima da cabe?a. Durante cerca de um minuto, nada aconteceu. Ent?o, a ¨¢gua do lago come?ou a agitar-se. Pouco depois, subiu acima da margem, por¨¦m n?o come?ou a escorrer para fora. Era como se estivesse a ser contida por uma barreira invis¨ªvel. A cada instante que passava a ¨¢gua erguia-se mais e mais, at¨¦ que, para meu espanto, formou uma enorme bolha uma dezena de metros acima do lago. Este encontrava-se, agora, vazio, com o seu leito exposto. As criaturas, come?aram, ent?o, a descer a superf¨ªcie enlameada, at¨¦ desaparecerem debaixo da berma. Durante a meia hora seguinte, mais e mais criaturas emergiram de entre as ¨¢rvores e entraram no agora vazio lago. Entretanto, as Bruxas da Noite continuaram o seu cantico, provavelmente para manter a ¨¢gua a pairar no ar. Finalmente, quando a ¨²ltima das criaturas desapareceu, as bruxas pararam. Com um estrondo, a ¨¢gua caiu, voltando a encher o lago artificial. Nesse momento, a fogueira junto das Bruxas da Noite apagou-se e, quando os meus olhos se habituaram de novo ¨¤ escurid?o, elas tinham desaparecido. Depois disso, ainda fiquei v¨¢rios minutos no meu esconderijo, at¨®nito, tentando perceber o que estava a acontecer. As Bruxas da Noite estavam a juntar um ex¨¦rcito. Se todas as noites em que a cabra apareceu acontecera o mesmo que nessa noite, j¨¢ teriam um grande n¨²mero de soldados. Mas qual seria o seu prop¨®sito? Teriam sido os ataques ¨¤s casas das fadas com falsos acidentes de autom¨®vel, e que me levaram a investigar as Bruxas da Noite, apenas uma tentativa de enfraquecer o inimigo antes da investida final? Teria tudo isto alguma rela??o com os misteriosos desaparecimentos de fantasmas na Cidade dos Mortos e dos s¨²bditos do Rei das ¨ªnsuas? Finalmente, o frio levou-me a deixar o meu esconderijo, e, transpondo novamente a parede do cemit¨¦rio, voltei para o exterior e para o carro. N?o se encontrava mais ningu¨¦m por perto. A cabra havia cumprido o seu prop¨®sito e afastado toda a gente do mosteiro e ¨¢rea circundante. Depois do que tinha acabado de ver, regressei a casa preocupado, amedrontado, at¨¦. As Bruxas da Noite tinham um ex¨¦rcito. Embora, at¨¦ ¨¤quele momento, todas as mortes humanas que tinham provocado parecessem ter sido danos colaterais, isso agora podia mudar. E mesmo que n?o atacassem humanos, o seu alvo principal seria certamente algumas das criaturas que viviam naquele mundo escondido do nosso, e eu j¨¢ havia caminhado entre elas e conhecido as bastantes para que isso me afetasse emocionalmente. Nessa noite n?o preguei olho, pensando no que ia fazer quanto a tudo aquilo. Se ¨¦ que podia fazer alguma coisa. Capítulo 19 - O Primeiro Ataque Como devem imaginar, ap¨®s o meu encontro com as Bruxas da Noite nos jardins do Mosteiro de Tib?es e de ver o ex¨¦rcito que estavam a reunir, fiquei ansioso por discuti-lo com algu¨¦m. Como n?o queria que a minha fam¨ªlia e amigos fossem expostos ¨¤ exist¨ºncia daquele mundo paralelo ao nosso e aos perigos que da¨ª pudessem advir, a primeira pessoa que me veio ¨¤ cabe?a foi Alice. Afinal, os da sua ra?a pareciam ser uns dos alvos das Bruxas da Noite. Apesar de ser uma ¨¦poca de muito trabalho, no dia seguinte sa¨ª mal chegou o final do expediente e dirigi-me ao Bar das Fadas. O que tinha descoberto parecia-me demasiado importante para esperar. Para minha surpresa, quando cheguei ¨¤ pastelaria que servia de liga??o entre o mundo ¨¤ superf¨ªcie e o bar subterraneo, descobri que estava fechada. Espreitei para o interior e n?o havia sinais de que tivesse aberto nesse dia, at¨¦ porque o correio estava amontoado atr¨¢s da porta. Ainda tentei bater ¨¤ porta, mas ningu¨¦m respondeu. A principal entrada para o mundo que existia debaixo de Braga estava fechada. Depois do que vira na noite anterior, comecei a ficar preocupado. Tentei acalmar-me dizendo a mim mesmo que a pastelaria podia estar fechada por diversas raz?es mais mundanas. Felizmente, eu conhecia uma outra entrada. N?o precisava de ficar a imaginar o que teria acontecido. Fui para o carro, estacionado junto do meu escrit¨®rio, e dirigi-me para o monte do Bom Jesus. Ao aproximar-me do meu destino, comecei a sentir alguma trepida??o. A outra entrada ficava junto da Vila Marta, a casa dos Cerqueira. N?o sabia at¨¦ que ponto Henrique Cerqueira sabia do meu envolvimento na fuga dos trasgos que usava como escravos no vinhedo da fam¨ªlia, mas n?o queria ser visto. Felizmente, cheguei ¨¤ moita que ocultava a segunda entrada sem encontrar ningu¨¦m. Embrenhando-me na vegeta??o, cheguei ¨¤ ex¨ªgua caverna que dava acesso ao mundo oculto debaixo de Braga. Ap¨®s alguns metros, onde a passagem come?ava a alargar, esperava encontrar um guarda, como na minha ¨²ltima visita, por¨¦m, n?o estava l¨¢ ningu¨¦m. Confesso que achei aquilo estranho, at¨¦ alarmante, mas continuei em frente , se bem que com mais cuidado. Teriam as Bruxas da Noite e as suas for?as chegado ali? Encaminhei-me para a esta??o mais pr¨®xima do ¡°metro¡± que ligava as diferentes partes daquela cidade subterranea. Quando l¨¢ cheguei, mais uma vez, n?o vi ningu¨¦m. Esperei. Durante mais de meia hora, ali fiquei, na plataforma, mas n?o vi nem sinal de outros passageiros ou da criatura que fazia o papel de transporte. Comecei a pensar em ir a p¨¦ at¨¦ ao Bar das Fadas, por¨¦m, n?o conhecia o caminho atrav¨¦s dos t¨²neis pedonais, pelo que continuei a esperar. Passados mais vinte minutos em que n?o vi sinais de movimento, decidi arriscar e tomar o ¨²nico caminho que conhecia: o t¨²nel do comboio vivo. Com a ajuda da pequena lanterna que andava sempre comigo, pois a enorme passagem n?o tinha qualquer fonte de luz, encaminhei-me para noroeste. Conforme avan?ava, mantive-me atento a qualquer ru¨ªdo, n?o fosse o ¡°comboio¡± passar e atropelar-me. Durante mais de uma hora, ao longo da qual passei por v¨¢rias outras esta??es, n?o vi nem ouvi nada de nota. O meu receio de que as Bruxas da Noite e o seu ex¨¦rcito j¨¢ ali tinham chegado aumentava, mas n?o havia qualquer sinal disso. Parecia que as criaturas que habitavam aqueles t¨²neis tinham simplesmente desaparecido. Did you know this story is from Royal Road? Read the official version for free and support the author. Finalmente, a lanterna iluminou algo que bloqueava o t¨²nel. Aproximei-me com cuidado. Pouco depois, vi a sua cor castanha avermelhada e logo percebi que n?o se tratava de uma derrocada. S¨® quando cheguei junto do bloqueio ¨¦ que descobri do que se tratava: a criatura que servia de ¡°comboio¡±, morta. As suas centenas de delgadas pernas encontravam-se dobradas junto ao corpo, e a sua enorme e quase humana face ficara congelada numa express?o de terror e dor. ¨¤ sua volta, jaziam peda?os de madeira e vidro partidos, destro?os das cabines que levava ¨¤s costas em lugar de carruagens. Tinha agora a certeza de que algo acontecera, certamente o ataque das Bruxas da Noite que eu temia. Tinha chegado demasiado tarde para avisar os habitantes daqueles t¨²neis. Mas talvez pudesse ainda prestar alguma ajuda. De qualquer maneira, n?o iria voltar para tr¨¢s. A criatura ocupava toda largura do t¨²nel e mais de metade da altura, pelo que tive de trepar pelo seu corpo para chegar ao outro lado. Assim que os meus p¨¦s voltaram a tocar o ch?o, iluminei a nova sec??o de t¨²nel. O cen¨¢rio era completamente diferente daquele que tinha visto at¨¦ ent?o. Corpos de criaturas de v¨¢rios tamanhos e formas pejavam o ch?o, a maioria pertencente a ra?as que eu j¨¢ tinha visto no Bar das Fadas. Alguns tinham marcas de queimaduras, mostrando que haviam sido mortos por chamas ou feiti?os, mas a maioria parecia ter sido abatida por armas contundentes. Perante aquela vis?o, considerei deixar os t¨²neis, por¨¦m, achei que talvez ainda pudesse ajudar algu¨¦m e continuei em frente. A cena repetiu-se ao longo do t¨²nel, at¨¦ que cheguei ¨¤ esta??o seguinte. A¨ª, apareceram os primeiros corpos de ogres, duendes, ogrons e outras criaturas que eu sabia estarem ao servi?o das Bruxas da Noite, embora em muito menor n¨²mero do que os dos habitantes. Parecia que estes ¨²ltimos tinham ficado encurralados no t¨²nel devido ao corpo do ¡°comboio¡± e sido massacrados. Aquela era a esta??o que eu conhecia mais pr¨®xima do Bar das Fadas, pelo que deixei a vala onde o ¡°comboio¡± em tempos circulara, subi para a plataforma e entrei nos t¨²neis pedonais. Nas passagens, n?o havia muitos corpos, mas todas as casas, salas e t¨²neis sem sa¨ªda tinham o ch?o coberto de habitantes locais mortos. Finalmente, cheguei ao Bar das Fadas. A porta estava ca¨ªda no ch?o, pelo que o que encontrei no interior n?o foi surpresa. Havia corpos por todo o lado, misturados com mesas, cadeiras e copos partidos. O balc?o havia sido destru¨ªdo e, com ele, a conduta que canalizava a ¨¢gua que os clientes costumavam beber. Como tal, esta agora escorria do teto diretamente para o ch?o, encharcando-o. O bar s¨® n?o se encontrava inundado porque a ¨¢gua escoava por um buraco na base de uma das paredes. Admiravelmente, a porta que dava acesso ¨¤ pastelaria acima e, atrav¨¦s desta, ao mundo da superf¨ªcie, estava fechada. Apesar de estarem encurralados e perante uma morte certa, os clientes do bar n?o revelaram a sua exist¨ºncia ao mundo exterior. Procurei entre os corpos por algu¨¦m que conhecesse. Duas das pessoas que me ajudaram a libertar os trasgos da quinta dos Cerqueira estavam entre as v¨ªtimas, mas Alice, o meu principal contacto e a pessoa daquele mundo que eu conhecia melhor, n?o. Tinha esperan?a de que se tivesse salvo, embora o mais prov¨¢vel fosse estar morta noutro canto qualquer daquele subterraneo. Ainda pensei em explorar mais um pouco, procurar sobreviventes ou at¨¦ as Bruxas da Noite e os seus soldados, mas prontamente desisti dessa ideia. Nada do que vi indicava que houvesse sobreviventes naqueles t¨²neis e, se os houvesse, estariam escondidos onde um simples visitante como eu nunca os encontraria. Por outro lado, as mortes pareciam j¨¢ ter ocorrido h¨¢ algum tempo e n?o vi nem ouvi nenhum sinal de que os assassinos ainda ali estivessem. Fiz o caminho de volta para o exterior e para o carro. S¨® esperava que houvessem sobreviventes para sepultar os mortos. Quando cheguei a casa, tive uma enorme discuss?o com a minha mulher. Tinha-me esquecido de avisar que ia chegar tarde para jantar e, como nos t¨²neis n?o tinha rede, ela n?o me conseguiu contactar. Tive de inventar uma desculpa, pois n?o a queria expor ao estranho mundo que andava a explorar. N?o ficou muito convencida, mas, pelo menos, acalmou-se. Depois de jantar o meu j¨¢ frio jantar e de ajudar a minha filha com os trabalhos de casa, fui para a cama. Essa noite pouco dormi. N?o conseguia deixar de pensar que outros s¨ªtios as Bruxas da Noite iriam atacar e o que poderia fazer sem aumentar as suspeitas da minha mulher. Capítulo 20 - A Batalha das ínsuas Depois de passar uma noite em claro a pensar quem iria avisar em seguida sobre os ataques das Bruxas da Noite e do seu ex¨¦rcito, decidi ir falar com o rei das ¨ªnsuas. Na nossa ¨²ltima (e ¨²nica) conversa, ele contou-me que os seus s¨²bditos estavam a desaparecer, o que eu agora suspeito ter sido uma tentativa das Bruxas da Noite de os enfraquecer antes do ataque final. Al¨¦m disso, podia sempre dizer ¨¤ minha mulher que ia visitar os meus av¨®s, em Viana do Castelo, sem aumentar ainda mais as suas suspeitas. No dia seguinte ¨¤ minha descoberta da macabra cena nos t¨²neis debaixo de Braga avisei a minha mulher de que ia jantar a casa de meus av¨®s e, depois do trabalho, dirigi-me a Viana. Na realidade, n?o menti, pois, de facto, visitei os meus av¨®s, e a minha av¨® obrigou-me a ficar para jantar. Logo depois, por¨¦m, deixei a sua casa e contactei um velho amigo para que, mais uma vez, me emprestasse o seu barco. Encontr¨¢mo-nos junto ao rio, no s¨ªtio do costume, e, ap¨®s uma curta conversa sobre o que havia de novo nas nossas vidas (e eu inventar uma resposta para a pergunta "Porque precisas tantas vezes do barco ¨¤ noite?"), entrei no barco e comecei a remar em dire??o ao Camalh?o, a maior das ¨ªnsuas do rio Lima e o local onde se situava o trono do Rei das ¨ªnsuas. Estava a meio caminho quando, na parcamente iluminada e desabitada margem norte do rio, vi um enorme vulto. Parei. Olhei com mais aten??o e apercebi-me de que se tratava de uma criatura humanoide, provavelmente um dos gigantes ao servi?o das Bruxas da Noite. Gra?as ao seu prodigioso tamanho, atravessou o rio a vau, a ¨¢gua dando-lhe pouco acima do joelho, e chegou ao Camalh?o em meros segundos. Recomecei a remar. Tinha de tentar avisar os habitantes das ¨ªnsuas. Ent?o, vi ainda mais vultos na margem, estes de variados tamanhos. Os maiores entraram na ¨¢gua, puxando cordas amarradas, no outro extremo, ao que pareciam ser jangadas, onde seguiam os mais pequenas. Ao mesmo tempo, comecei a ouvir ru¨ªdos no Camalh?o. Os habitantes estavam atentos e tinham detetado o inimigo assim que este surgira. O primeiro gigante parecia estar a ser alvo de uma verdadeira chuva de diminutos proj¨¦teis, ao mesmo tempo que os juncos em volta dos seus p¨¦s se moviam, provavelmente agitados por pequenas criaturas das ¨ªnsuas a atacar corpo-a-corpo. Contudo, o atacante n?o ca¨ªa, e os seus companheiros prontamente chegaram ao Camalh?o. A batalha tinha come?ado. J¨¢ n?o havia ningu¨¦m a quem avisar. Ainda pensei em juntar-me aos habitantes das ¨ªnsuas e lutar, mas que podia eu fazer? N?o tinha armas e, mesmo que tivesse, n?o saberia lutar contra aqueles inimigos. Acabei por simplesmente lan?ar ancora e ficar a ver. Support creative writers by reading their stories on Royal Road, not stolen versions. Apesar de n?o conseguir ver as diminutas criaturas das ¨ªnsuas, via os seus proj¨¦teis, os movimentos dos juncos e a rea??o do inimigo. Pareciam estar a lutar bem. Vi v¨¢rios dos monstros mais pequenos ao servi?o das Bruxas da Noite cair, e o primeiro gigante a chegar ao Camalh?o obrigado a ajoelhar-se, embora continuasse a lutar. Contudo, apesar de todo este esfor?o, os invasores continuavam a avan?ar. N?o conseguia ver as baixas que provocavam, mas tinha de assumir que eram significativas. Embora lenta, a sua vit¨®ria parecia certa, at¨¦ que os juncos ¨¤ sua volta se come?aram a mexer. Em quest?o de segundos, cresceram e enrolaram-se, formando cordas e redes que prenderam os invasores. Logo em seguida, uma forma com uns quatro metros de altura surgiu mais acima no Camalh?o, provavelmente sa¨ªda de uma das muitas regueiras que atravessavam a ¨ªnsua. Armado com uma enorme clava, atacou o gigante ajoelhado, esmagando-lhe a cabe?a. S¨® podia tratar-se do Rei das ¨ªnsuas. Com o inimigo paralisado e o seu monarca a seu lado, os habitantes das ¨ªnsuas redobraram os seus esfor?os, e muitos dos invasores ca¨ªram. Mais continuavam a chegar da margem, mas, mal punham os p¨¦s no Camalh?o, eram imediatamente presos pelos juncos. A vit¨®ria dos habitantes das ¨ªnsuas come?ava a parecer n?o s¨® uma possibilidade como quase uma certeza. Ent?o, algo passou a voar sobre mim. Olhei para o c¨¦u e vi cinco figuras encapu?adas abaterem-se sobre o Camalh?o. O vento trazia as suas vozes at¨¦ mim, entoando os canticos que invocavam os seus feiti?os. O primeiro fez com que os juncos na ¨¢rea do combate e ¨¤ sua volta apodrecessem e se desfizessem, libertando os soldados das Bruxas da Noite, enquanto os seguintes fizeram cair uma verdadeira torrente de bolas de chamas sobre o Rei das ¨ªnsuas. Este usou os seus pr¨®prios feiti?os para se defender, erguendo barreiras invis¨ªveis para bloquear os ataques inimigos. No entanto, atacado de v¨¢rias dire??es, n?o conseguiu aguentar durante muito tempo. Ao fim de poucos minutos, vi-o cair. Depois disso, as criaturas atacantes rapidamente se espalharam por todo o Camalh?o. Pequenos barcos, carregando grupos das diminutas criaturas que ali habitavam, come?aram a deixar a ¨ªnsua, tentando fugir para uma das outras. Por¨¦m, n?o eram muitos, e dificilmente poderiam montar uma resist¨ºncia caso as Bruxas da Noite decidissem conquistar o resto do seu reino. Para todos os efeitos, a batalha estava terminada. Remei de volta ¨¤ margem. Em alguns pontos desta, assim como na ponte que atravessava o rio e passava sobre o Camalh?o, vi algumas pessoas a tentar perceber o que estava a acontecer na ilha. Duvido que tivessem percebido exatamente o que estavam a ver e, mesmo que percebessem, n?o eram suficientes para revelar aquele mundo escondido do nosso. Ainda assim, certamente que Almeida e o resto da Organiza??o n?o iam ficar felizes. Na viagem de regresso a casa, n?o conseguia deixar de pensar que as Bruxas da Noite tinham obtido outra vit¨®ria. Qualquer que fosse o seu objetivo, estavam mais perto de alcan?¨¢-lo. E eu, mais uma vez, tinha chegado tarde para avisar as suas v¨ªtimas. Capítulo 21 - A Guerra dos Mortos Depois de uma noite em claro a pensar no que ia fazer a seguir quanto aos ataques das Bruxas da Noite, acabei por decidir tentar avisar os esp¨ªritos dos mortos no Ger¨ºs. De facto, n?o sabia onde encontrar mais ningu¨¦m que estivesse na mira delas. Eu sabia que os mortos s¨® se juntavam na sua cidade depois da meia-noite, ainda assim, queria chegar l¨¢ cedo. N?o queria que o meu aviso fosse novamente tardio. Como tal, embora tivesse muito trabalho, tirei a tarde de f¨¦rias sem dizer ¨¤ minha mulher e dirigi-me ao Ger¨ºs. Deixei o carro num espa?o de terra junto ¨¤ estrada, acima da mesma aldeia em ru¨ªnas que na minha visita anterior. Desci at¨¦ aldeia e, de l¨¢, encaminhei-me para a ¨²nica entrada que conhecia da cidade dos mortos. Apesar da promessa do fantasma a que os dois guardas que me deixaram entrar da ¨²ltima vez chamaram de presidente, ainda estava no mesmo s¨ªtio. Antes de entrar, por¨¦m, telefonei ¨¤ minha mulher para lhe dizer que ia trabalhar at¨¦ tarde. N?o queria ter outra discuss?o com ela. Finalmente, desci pelo buraco no ch?o at¨¦ ao t¨²nel que levava ¨¤ cidade propriamente dita. Ainda faltava muito para a meia noite, pelo que, como esperava, n?o havia nenhum guarda. Com a ajuda da pequena lanterna que andava sempre comigo, naveguei pelas passagens at¨¦ chegar ao largo e ao profundo po?o onde a cidade se erguia. Que ainda n?o se encontrasse l¨¢ nenhum esp¨ªrito, n?o me surpreendeu, mas confesso que foi com algum espanto que me apercebi que os et¨¦reos edif¨ªcios que tinha visto na minha ¨²ltima visita tamb¨¦m n?o se estavam l¨¢. Sentei-me num rochedo, encostado ¨¤ parede, e esperei. O meu rel¨®gio devia estar atrasado, pois, uns tr¨ºs minutos antes da meia noite, os edif¨ªcios come?aram a surgir nas sali¨ºncias ao longo da parede do t¨²nel. De casas circulares castrejas a torres de apartamentos com v¨¢rios andares, estavam ali casas de todos os tipos e ¨¦pocas. Ent?o, levantei-me. Tomei aquilo como um sinal de que os esp¨ªritos dos mortos estavam a deixar as suas tumbas e a formar as prociss?es que todas as noites se dirigiam para ali. Os primeiros fantasmas chegaram uns dez minutos depois. Como da outra vez, a minha presen?a n?o passou desapercebida. Todos que passavam olhavam fixamente para mim. Contudo, nenhum me dirigiu a palavra, apenas continuaram em frente, flutuando para as suas moradas et¨¦reas. Ent?o, surgiu um que eu conhecia, aquele chamado de presidente. Assim que me viu, aproximou-se e disse: - Eu n?o te disse para n?o voltares c¨¢? Expliquei-lhe, ent?o, porque ali estava e contei-lhe sobre os anteriores ataques das Bruxas da Noite. Ele n?o pareceu muito surpreendido. - O ataque delas j¨¢ est¨¢ aqui - respondeu. - Alguns dos nossos viram o seu ex¨¦rcito ao vir para aqui. S¨® viemos buscar armas. Olhei de novo para o po?o e vi que v¨¢rios fantasmas j¨¢ regressavam das casas empunhando armas brancas et¨¦reas. Como os edif¨ªcios, estas vinham de todas as eras hist¨®ricas da humanidade. Vi espadas, martelos de guerra e ma?as; clavas de madeira e machados com cabe?a de pedra; facas de mato e at¨¦ soqueiras. O presidente deixou-me e foi ele pr¨®prio buscar as suas armas, enquanto eu segui a coluna dos fantasmas j¨¢ armados para o exterior. Tive alguma dificuldade a subir pela entrada, mas acabei por conseguir chegar ao vale acima. A noite j¨¢ havia ca¨ªdo, no entanto, o c¨¦u estava limpo, e a Lua e as estrelas irradiavam luz suficiente para eu poder ver o que me rodeava. Os fantasmas alinhavam n?o muito longe da entrada, formando blocos semelhantes aos usados pelos ex¨¦rcitos da Antiguidade e da Idade M¨¦dia. This content has been misappropriated from Royal Road; report any instances of this story if found elsewhere. A princ¨ªpio, n?o vi os seus oponentes, mas uma linha escura prontamente surgiu junto ao horizonte. Aos poucos, aproximou-se, at¨¦ que consegui ver uns pontos escuros a voar sobre ela, provavelmente as Bruxas da Noite. Ainda demorou uma meia hora at¨¦ eu conseguir ver claramente os soldados que a constitu¨ªam. Para minha surpresa, eram todos da mesma ra?a de criaturas, uma que eu nunca tinha visto antes. Apoiavam-se em quatro patas, mas havia intelig¨ºncia nos seus olhos. Pelo cobria-lhes o corpo, e uma longa e esguia cauda agitava-se atr¨¢s e acima deles. Por¨¦m, o seu focinho era a caracter¨ªstica que mais se destacava. Comprido e afunilado, assemelhava-se ao de um papa-formigas, mas era mais longo e terminava numa boca muito maior. O ex¨¦rcito continuou a avan?ar, mas as Bruxas da Noite ficaram para tr¨¢s. Perguntava-me o que aquelas criaturas poderiam fazer aos incorp¨®reos fantasmas a meu lado, especialmente sem a ajuda dos feiti?os das suas mestras. Eventualmente, os dois ex¨¦rcitos encontraram-se frente a frente. Os esp¨ªritos alinhavam-se em blocos bem formados. Os seus inimigos, por seu lado, assemelhavam-se menos a um ex¨¦rcito e mais a uma matilha pronta a abater-se sobre as suas presas assim que as suas mestras dessem a ordem. - Sai daqui - disse-me o presidente, aproximando-se. - Procura um abrigo. - Eu quero ajudar - protestei. - Olha em volta. Achas que mais um homem vai fazer alguma diferen?a? Esconde-te. Se formos derrotados, pelo menos algu¨¦m fica com a mem¨®ria do que aconteceu. N?o discuti com ele. Realmente, entre aquelas centenas de fantasmas, a minha ajuda dificilmente se iria fazer sentir. Se me mantivesse afastado e sobrevivesse, pelo menos podia continuar a combater as Bruxas da Noite (se bem que na altura n?o sabia bem como). Afastei-me algumas centenas de metros dos dois ex¨¦rcitos e escondi-me atr¨¢s de um dos muitos penedos da regi?o. Pouco depois, sem aviso, as criaturas carregaram contra os fantasmas. Estes, sem saber exatamente do que os seus inimigos eram capazes, decidiram esperar. Apenas alguns batedores volunt¨¢rios, avan?aram contra as criaturas. Segundos depois, as duas for?as encontraram-se. Foi ent?o que os novos soldados das Bruxas da Noite revelaram a sua terr¨ªvel habilidade. Cerca de um metro antes de os fantasmas os terem ao alcance das armas, eles abriram as bocas. De imediato, com uma for?a irresist¨ªvel, os esp¨ªritos foram sugados para o est?mago dos seus oponentes. Estavam, assim, explicados os desaparecimentos de que os mortos me haviam falado durante a minha primeira visita. A rea??o que aquela vis?o provocou no ex¨¦rcito dos mortos tornou-se imediatamente vis¨ªvel. Os fantasmas, seres que pensavam nunca mais vir a precisar temer nada, entraram em panico. Alguns tentaram fugir, enquanto outros baixaram os bra?os e simplesmente esperaram. At¨¦ mesmo o presidente parecia n?o saber o que fazer. Passados meros segundos, os blocos organizados do ex¨¦rcito dos mortos j¨¢ n?o existiam. Quando as criaturas das Bruxas da Noite chegaram ¨¤ principal concentra??o de fantasmas, j¨¢ n?o pareciam estar a travar uma batalha, mas a ca?ar presas impotentes. Vi esp¨ªritos serem sugados ¨¤s dezenas. Os est?magos dos seus algozes eram, aparentemente, imposs¨ªveis de encher. Os mortos tentavam fugir desesperadamente, alguns de volta ¨¤s campas, outros de regresso ¨¤ cidade subterranea, mas nenhum chegou ao seu objetivo. As criaturas das Bruxas da Noite eram demasiado r¨¢pidas. Aos poucos, os fantasmas foram desaparecendo do campo de batalha. Os poucos que restavam tentaram, em desespero, enfrentar o inimigo, mas foram sugados muito antes de conseguirem usar as suas armas. Por fim, as Bruxas da Noite aproximaram-se, sobrevoando o seu vitorioso ex¨¦rcito. Dos mortos j¨¢ n?o havia nem rasto. Era como se nunca tivessem ali estado. Eu permaneci no meu esconderijo. N?o sabia o que as Bruxas da Noite me poderiam fazer se me encontrassem. Felizmente, n?o permaneceram no campo de batalha durante muito tempo. Com uma rapidez surpreendente, reorganizaram o seu ex¨¦rcito e desapareceram pela mesma dire??o que tinham vindo. O vale estava, agora, completamente vazio. N?o havia corpos nem sangue. At¨¦ a erva parecia quase intocada. Fosse aquele o meu primeiro contacto com o mundo escondido paralelo ao nosso, poderia ter pensado que tudo se tinha tratado de um sonho ou de uma alucina??o. Contudo, eu sabia bem que n?o era o caso. E as Bruxas da Noite tinham obtido mais uma vit¨®ria. Ainda n?o estava mais pr¨®ximo de descobrir o seu objetivo do que quando comecei a investig¨¢-las, mas, a julgar pelos m¨¦todos que usavam, s¨® podia ser algo nefasto. J¨¢ n?o havia nenhuma raz?o para ali estar, pelo que voltei ao carro e conduzi de regresso a casa. Cheguei quase ¨¤s quatro da manh?. A minha mulher e a minha filha j¨¢ estavam, obviamente, a dormir. Eu deitei-me, mas n?o consegui adormecer. Aquela vit¨®ria tinha eliminado os ¨²ltimos inimigos das Bruxas da Noite que conhecia, ou, pelo menos, que sabia onde encontrar. Que iria fazer agora na minha tentativa de as deter e fazer responder pelas mortes que j¨¢ haviam causado? Capítulo 22 - O Grande Conventículo Nos dias ap¨®s a derrota dos fantasmas do Ger¨ºs pelas Bruxas da Noite, toda a gente me dizia que eu parecia distra¨ªdo e cansado. N?o podia discordar deles. Desde essa noite, mal conseguia dormir, e estava constantemente a pensar no que podia fazer quanto ¨¤s Bruxas da Noite. Contactei toda a gente de que me lembrei na esperan?a que algu¨¦m me pudesse dar uma indica??o do que fazer a seguir, mas n?o tive sorte. A Bruxa do Mar que havia conhecido em Esposende telefonou-me, por fim, uns dias depois de eu a contactar, para me falar de um Grande Convent¨ªculo que ia haver na noite do S¨¢bado seguinte e que fora convocado para discutir as Bruxas da Noite. Decidi imediatamente que ia estar presente, pois aquilo que eu sabia e vira podia revelar-se ¨²til. Como tal, disse ¨¤ minha mulher que ia com o grupo de explora??o urbana visitar uma f¨¢brica em ru¨ªnas em Guimar?es. N?o era totalmente mentira, pois o Grande Convent¨ªculo ia ser, de facto, em Guimar?es, mas no alto do Monte da Penha, perto do santu¨¢rio cat¨®lico l¨¢ constru¨ªdo. Quando a altura chegou, meti-me no carro e conduzi at¨¦ Guimar?es. Pela autoestrada, demorei uns vinte minutos at¨¦ ¨¤ cidade. Subir at¨¦ ao topo do monte, por¨¦m, demorou mais um pouco. Finalmente, cheguei ¨¤ ¨¢rea do santu¨¢rio. Era Inverno, pelo que, ¨¤quela hora da noite, as lojas, os caf¨¦s e at¨¦ o hotel se encontravam fechados. Estacionei no parque principal, que estava completamente vazio, e sa¨ª do carro para procurar o local do convent¨ªculo. Foi, ent?o, que me lembrei porque adorava aquele s¨ªtio desde a minha primeira visita. Era como um parque de divers?o para adultos. Uma falsa muralha separava o estacionamento da encosta do monte. ¨¤ direita desta, uma pequena descida levava a umas tabernas t¨ªpicas constru¨ªdas mais abaixo, enquanto ¨¤ esquerda se erguia um monte de rochedos sobre o qual havia sido constru¨ªda uma pequena capela. Contudo, a verdadeira atra??o encontrava-se sob esta. Passagens criadas pela sobreposi??o dos penedos levavam a cavernas e nichos sob as rochas que haviam sido aproveitadas como capelas e tavernas. Era um local que parecia sa¨ªdo de uma hist¨®ria de fantasia. O convent¨ªculo, no entanto, n?o ia ocorrer nessa dire??o, mas na oposta. Atravessei a estrada, passei pelo relativamente recente santu¨¢rio e enveredei pela rede de passagens que se dirigiam para sul. Parte destas passava por t¨²neis e pequenas grutas entre rochedos, at¨¦ que, finalmente, emergiam numa espa?osa clareira. No centro desta, ardia uma enorme fogueira, ¨¤ volta da qual se reuniam v¨¢rios grupos de pessoas, na sua maioria mulheres. Entre elas, consegui reconhecer algumas como as bruxas que encontrara em Montalegre e no Porto e, para minha surpresa, as que tinham atacado a Citania de Briteiros e at¨¦ o bruxo e curandeiro da minha terra natal. As l¨ªderes do Grande Convent¨ªculo, as bruxas que eu primeiro conheci como fogos-f¨¢tuos, estavam, como seria de esperar, no centro, junto da fogueira. Procurei pela Bruxa do Mar, a minha aliada que me havia ali chamado, e encontrei-a sozinha, junto da orla da clareira. - Sempre veio - disse ela, quando me aproximei. - Claro. Os inimigos das Bruxas da Noite est?o a cair como moscas. Tinha de vir descobrir se algu¨¦m lhes consegue fazer frente. - As Bruxas de Briteiros parecem ter alguma ideia - disse ela, apontando para as l¨ªderes do convent¨ªculo. - S¨® temos de esperar at¨¦ estarmos todas c¨¢. Sem mais nada a dizer, esper¨¢mos, em sil¨ºncio. Este, por¨¦m, n?o durou muito. Uma m?o vinda de tr¨¢s agarrou-me o ombro. - Tamb¨¦m est¨¢s aqui? - disse uma voz. Virei-me e dei de caras com Susana, a demon¨®loga do norte de Portugal. A pequena rapariga segurava um dos seus tablets caseiras. Apresentei-lhe a Bruxa do Mar e expliquei-lhe porque estava ali. - E tu, o que est¨¢s aqui a fazer? - perguntei-lhe. - Eu gosto de me manter informada sobre bruxas. Elas gostam de invocar dem¨®nios. Al¨¦m disso, este Grande Convent¨ªculo ¨¦ sobre as Bruxas da Noite e, pelo que tenho ouvido, preciso de come?ar a estar atenta a elas. H¨¢ suspeitas de que elas s?o dem¨®nios disfar?ados. Embora a hip¨®tese n?o me convencesse, a verdade ¨¦ que, na altura, podia ser t?o v¨¢lida como qualquer outra. A natureza das Bruxas da Noite continuava a ser um mist¨¦rio. N?o tivemos tempo para dizer mais nada, pois as Bruxas de Briteiros chamaram a aten??o dos presentes. Assim que toda a assist¨ºncia se juntou ¨¤ volta delas, uma das Bruxas de Briteiros disse: - Obrigado por terem vindo todas. ¨¦ bom saber que as Bruxas da Noite n?o nos preocupam s¨® a n¨®s. Outra das Bruxas de Briteiros, o homem, continuou: - N?o sei se est?o todas ao corrente, mas as Bruxas da Noite t¨ºm atacado v¨¢rias comunidades de criaturas m¨¢gicas nos ¨²ltimos tempos. N?o sabemos quem ser¨¢ a seguir. Pode ser qualquer uma de n¨®s. - Temos de nos juntar e fazer algo quanto ¨¤s Bruxas da Noite - disse a Bruxa de Briteiros que ainda n?o tinha falado. - Elas s?o uma amea?a para todas. Apesar de haver ali muitas bruxas com raz?o para n?o gostar e at¨¦ odiar as Bruxas da Noite, fiquei com a sensa??o que aquele Grande Convent¨ªculo tinha sido convocado porque as Bruxas de Briteiros se estavam a sentir amea?adas. If you stumble upon this tale on Amazon, it''s taken without the author''s consent. Report it. - Que sugerem que fa?amos? - perguntou uma bruxa na assist¨ºncia que eu n?o conhecia. - Primeiro, temos de juntar as nossas capacidades de adivinha??o para as encontrar - disse a primeira Bruxa de Briteiros. Eu sabia onde come?ar a procurar, mas hesitei em dizer-lhes. Tinha dificuldade em confiar naquelas bruxas. Talvez por ter crescido num pa¨ªs cat¨®lico, tinha algum receio daqueles que lidavam com magia e dem¨®nios. Por outro lado, as Bruxas da Noite e os seus servos j¨¢ haviam, confirmadamente, morto pessoas e n?o s¨®. Tinham um ex¨¦rcito ao seu servi?o. E tinham-me tornado parcialmente respons¨¢vel por algumas das mortes que causaram ao usar trasgos que eu havia libertado da quinta dos Cerqueira para fazer o seu trabalho sujo. Levando tudo em conta, n?o podia deixar de pensar que as bruxas daquele convent¨ªculo eram um mal menor. Avancei e preparei-me para anunciar o que sabia. De s¨²bito, o ch?o come?ou a estremecer. Pouco depois, ouvi ¨¢rvores a serem quebradas e o troar de pesados passos. As bruxas come?aram a olhar em volta, mas eu n?o. J¨¢ tinha passado por aquilo antes, em Tib?es. Sabia o que se aproximava. Das ¨¢rvores em volta da clareira, emergiu uma enorme variedade de criaturas: gigantes, ogres, trasgos, duendes, entre outras cujo nome desconhecia. No momento seguinte, figuras encapu?adas com longas vestes negras surgiram no c¨¦u, acima das nossas cabe?as. As Bruxas da Noite tinham chegado. Completamente cercadas, as bruxas do Grande Convent¨ªculo preparam-se para lutar. As Bruxas de Briteiros tomaram a sua forma de fogo-f¨¢tuo e levantaram voo, enquanto as restantes deram in¨ªcio aos diferentes m¨¦todos de lan?ar feiti?os. Eu, a demon¨®loga e a Bruxa do Mar est¨¢vamos bastante pr¨®ximos da linha das ¨¢rvores, pelo que os monstros estavam quase em cima de n¨®s. Vir¨¢mo-nos para os enfrentar. Susana ficou parada a olhar para eles, como se estivesse a pensar se teria alguma arma eficaz contra aquelas criaturas, enquanto a Bruxa do Mar imitou as suas colegas e come?ou a lan?ar um feiti?o. Eu peguei num ramo ca¨ªdo e preparei-me para me defender. Desta vez, ia mesmo enfrentar os soldados das Bruxas da Noite. Um ogre e v¨¢rios duendes dirigiram-se para n¨®s. Esperei at¨¦ o primeiro ficar ao alcance da minha arma improvisada e desferi um golpe. Este, por¨¦m, agarrou a outra ponta do ramo e arrancou-mo da m?o. Aterrorizado, preparei-me para ser esmagado pelo enorme malho que a criatura carregava. Esta, contudo, atirou-me ao ch?o com uma m?o e continuou em frente. Depois, fez o mesmo ¨¤ demon¨®loga. Os duendes, que seguiam logo atr¨¢s, ignoraram-nos e, juntamente com o ogre, avan?aram para a Bruxa do Mar. Por¨¦m, antes de a alcan?arem, esta terminou o feiti?o. ¨¢gua cobriu o solo debaixo das criaturas e infiltrou-se rapidamente no solo, formando uma po?a de lama que enterrou o ogre quase at¨¦ aos joelhos e os duendes at¨¦ ao peito, imobilizando-os. Eu e Susana levant¨¢mo-nos e prepar¨¢mo-nos para voltar para junto da Bruxa do Mar. Foi, ent?o, que nos apercebemos que uma das Bruxas da Noite se dirigia para ela. Felizmente, a minha aliada ainda teve tempo de lan?ar um feiti?o. De imediato, um jato de ¨¢gua saiu disparado das suas m?os contra a criatura atacante. No entanto, esta continuou em frente, cortando a ¨¢gua, quase sem desacelerar. Pouco antes de chegar ¨¤ Bruxa do Mar, enormes garras, com mais de trinta cent¨ªmetros, cresceram das suas m?os. Eu e Susana ainda tent¨¢mos contornar a po?a de lama e as criaturas presas nela, e ajudar a minha aliada, por¨¦m, n?o cheg¨¢mos a tempo. Com um golpe brutal, a Bruxa da Noite atingiu a cabe?a da Bruxa do Mar, as suas garras cortando carne e osso e, fatalmente, chegando ao c¨¦rebro debaixo. Aterrorizados com aquela sanguinolenta vis?o, eu e Susana estac¨¢mos, convencidos de que ser¨ªamos as pr¨®ximas v¨ªtimas. Contudo, a criatura afastou-se e voou em dire??o a outra bruxa sem nos prestar qualquer aten??o. Aproveitei aquela pausa para olhar em volta e ver como decorria o combate. O bruxo da minha terra natal estava prostrado no ch?o, morto, assim como algumas das bruxas de Montalegre, do Porto e muitas outras que eu n?o conhecia. Entretanto, outras tinham conseguido invocar mafarricos e, juntamente com eles, lutavam, com algum sucesso, contra os soldados inimigos. Contudo, sempre que uma Bruxa da Noite atacava as inimigas no solo, nada a conseguia parar e impedir de causar mortes. Felizmente, tr¨ºs das Bruxas da Noite estavam ocupadas no ar, a enfrentar os fogos-f¨¢tuos. Estes lan?avam-lhes constantemente pequenas esferas de fogo que, embora n?o lhes parecessem causar ferimentos, claramente as incomodavam e impediam de lan?ar feiti?os. Aos poucos, a luta espalhou-se para al¨¦m da clareira do Grande Convent¨ªculo. Passado algum tempo, mafarricos enfrentavam trasgos e duendes em passagens constru¨ªdas sob penedos, e bruxas lan?avam feiti?os do cimo de pontes de cimento que imitavam formas naturais. Todavia, embora fosse a batalha contra as Bruxas da Noite mais equilibrada que j¨¢ vira, as for?as destas estavam progressivamente a ganhar terreno. Eu e Susana mat¨¢mos as criaturas presas na lama da Bruxa do Mar com pequenas facas, mas n?o t¨ªnhamos ido ali preparados para o combate, e pouco mais nos atrev¨ªamos a fazer do que atacar inimigos feridos e moribundos. Por fim, as bruxas do Grande Convent¨ªculo sofreram um golpe fatal. Com a situa??o em terra controlada a seu favor, as Bruxas da Noite concentraram-se todas nas Bruxas de Briteiros. Em inferioridade num¨¦rica, estas n?o conseguiram manter as suas advers¨¢rias ocupadas. Feiti?os come?aram a atingi-las de todas as dire??es. Relampagos, esferas de energia, bolas de gelo e muitos outros proj¨¦teis m¨¢gicos acertavam-lhes. Um a um, os fogos-f¨¢tuos voltaram ¨¤s suas formas humanas e ca¨ªram ao solo, mortos antes de o atingirem. Sem a torrente constante de feiti?os das Bruxas de Briteiros, as Bruxas da Noite puderam dedicar toda a sua aten??o ¨¤s bruxas que lutavam contra os seus soldados. Se estas ¨²ltimas j¨¢ estavam a perder a batalha, a sua derrota tornou-se, ent?o, inevit¨¢vel. Eu e Susana continu¨¢mos a ajudar como pod¨ªamos, mas de pouco serviu. Em poucos minutos, as poucas bruxas sobreviventes fugiam o mais r¨¢pido que podiam por onde podiam, e os dem¨®nios invocados jaziam no ch?o, mortos. Para nossa surpresa (e al¨ªvio), as Bruxas da Noite n?o nos prestaram nenhuma aten??o, e os seus soldados s¨® interagiam connosco se fossem obrigados e apenas para nos tirar do caminho. Contudo, a raz?o para isso era um mist¨¦rio que teria de ficar para mais tarde. N?o quer¨ªamos abusar da sorte e, juntos, volt¨¢mos para o estacionamento onde deixei o carro. Assim que os sons de luta e persegui??o ficaram para tr¨¢s, comentei: - Mais uma vit¨®ria para as Bruxas da Noite. - Qual ser¨¢ o seu objetivo? - perguntou, retoricamente, a demon¨®loga. N?o sabia o que lhe dizer, pelo que n?o disse nada. - Vou manter-me atenta ¨¤s suas atividades. Algo se passa, e n?o ¨¦ nada de bom - disse, encaminhando-se para a sua velha Ford Transit. Eu meti-me no meu carro e parti em dire??o a Braga. Durante todo o caminho, repreendi-me pela minha incapacidade de ajudar a parar as Bruxas da Noite, ou at¨¦ de apenas descobrir o que pretendiam. Contudo, uma coisa tornara-se clara naquela noite: elas estavam a tentar evitar envolver-me a mim e a Susana na sua luta. Por que raz?o, era outro mist¨¦rio para resolver. Por¨¦m, n?o sabia como alguma vez o iria conseguir. N?o tinha mais pistas para seguir, especialmente agora, que tinha perdido mais uma aliada. Capítulo 23 - A Organiza??o e as Bruxas da Noite Nos dias ap¨®s o Grande Convent¨ªculo, pouco dormi, pensando no que mais podia fazer quanto ¨¤s Bruxas da Noite. N?o sabia onde elas iriam atacar a seguir, pois todos os inimigos delas que eu conhecia j¨¢ haviam sido derrotados. Procurava constantemente nos jornais por sinais das suas atividades, mas nunca encontrei nada. Algu¨¦m devia estar a limpar muito bem os locais dos seus ataques. Foi ent?o que me lembrei: a Organiza??o! Certamente s?o eles que est?o a ocultar as atividades das Bruxas da Noite. E se est?o, certamente tamb¨¦m estar?o frustrados com a natureza bastante vis¨ªvel destas. Eu n?o tinha um contacto direto com a Organiza??o, mas sabia que eles monitorizavam o meu blogue da altura (terceirarealidade.wordpress.com), pois, ocasionalmente, enviavam-me artigos que queriam que eu publicasse ou altera??es a outros escritos por mim atrav¨¦s de mensagens sem remetente. Como tal, escrevi um artigo sobre as Bruxas da Noite e esperei que a sua frustra??o com elas os levasse a contactarem-me diretamente. Logo no dia seguinte, o meu plano deu frutos. No fim do dia, quando sa¨ª do trabalho, Almeida estava ¨¤ minha espera junto ao meu carro. - Ent?o tamb¨¦m est¨¢ a investigar as Bruxas da Noite - disse ele mal me aproximei, indo direto ao assunto. Ia come?ar a contar-lhe o que sabia, mas ele interrompeu-me: - Aqui n?o. Em seguida, levou-me para um carro preto de janelas fumadas estacionado ali perto. - Agora j¨¢ podemos falar. Durante mais de uma hora, contei-lhe tudo o que havia descoberto sobre as Bruxas da Noite. A meio, tive de telefonar ¨¤ minha mulher para dizer que ia chegar tarde a casa. Almeida mostrou-se interessado em tudo o que eu tinha para dizer, fazendo uma ou outra pergunta para esclarecer alguns pontos. - Pergunto-me o que haver¨¢ no fundo desse lago em Tib?es - disse ele quando terminei. - Os soldados das Bruxas da Noite devem ter ido para algum s¨ªtio. N?o sabia o que responder, pelo que simplesmente encolhi os ombros. - Espero que n?o esteja ocupado esta noite. Vamos drenar o lago. O tom de Almeida mostrava que era mais uma ordem do que um convite, pelo que, enquanto ele requisitou o equipamento e a m?o de obra para drenar o lago, liguei ¨¤ minha mulher para lhe dizer que ia chegar ainda mais tarde do que pensava. Ela n?o ficou muito satisfeita, pois andava a chegar tarde a casa com muita frequ¨ºncia, mas l¨¢ anuiu. Assim que Almeida terminou as suas chamadas, ordenou ao condutor do carro que nos levasse ao Mosteiro de Tib?es. Como seria de esperar, cheg¨¢mos l¨¢ muito antes do equipamento de drenagem, e Almeida aproveitou esse tempo para ouvir novamente o que eu sabia sobre as Bruxas da Noite, caso lhe tivesse escapado algo da primeira vez. S¨® sa¨ªmos do carro quando o resto dos seus homens chegaram. This tale has been unlawfully lifted from Royal Road. If you spot it on Amazon, please report it. Ao contr¨¢rio do que acontecera na minha visita anterior, n?o tivemos de saltar nenhum muro para entrar nos campos do mosteiro. A Organiza??o contactara algu¨¦m para nos abrir a porta. Eu e Almeida rapidamente percorremos os caminhos sob os vinhedos e entre as restantes culturas e cheg¨¢mos ao lago. N?o estava muito diferente de quando o avistei da ¨²ltima vez. S¨® faltavam as figuras encapu?adas das Bruxas da Noite junto da pedra de onde jorrava a ¨¢gua que o enchia. Enquanto os seus companheiros montavam o equipamento para drenar o lago, alguns dos homens da Organiza??o revistaram a floresta em busca de sinais das criaturas convocadas pelas Bruxas da Noite. Apesar de ter passado algum tempo, ainda se viam restos de pegadas e ramos partidos, confirmando a minha hist¨®ria. Aos poucos, o leito do lago foi ficando exposto. A princ¨ªpio, n?o parecia haver nenhum s¨ªtio para onde o ex¨¦rcito das Bruxas da Noite pudesse ter ido, mas logo avist¨¢mos um t¨²nel aberto sob a margem este. Por¨¦m, n?o o pudemos investigar de imediato, pois a bomba ainda demorou cerca de uma hora a drenar ¨¢gua suficiente para abrir um caminho at¨¦ ele. Ap¨®s cal?armos umas galochas altas, eu, Almeida e mais alguns homens entr¨¢mos na lama do lago. O avan?o foi dif¨ªcil, pois, com cada passo, fic¨¢vamos enterrados at¨¦ meio das canelas, mas acab¨¢mos por chegar ¨¤ boca do t¨²nel. Apont¨¢mos as lanternas para o interior. O ch?o, o teto e as paredes eram de terra. Mais ¨¤ frente, junto ao limite da ¨¢rea iluminada pelas lanternas, o t¨²nel curvava, pelo que entr¨¢mos, curiosos com o que se encontraria al¨¦m. Os homens da Organiza??o armados com espingardas autom¨¢ticas seguiram na frente, com Almeida e eu logo atr¨¢s. De uma liga??o aos t¨²neis sob a cidade de Braga, a uma caverna que o ex¨¦rcito das Bruxas da Noite usaria como caserna, muitas possilidades passaram-me pela cabe?a quanto ao que se encontraria depois daquela curva. O que encontr¨¢mos, por¨¦m, foi a ¨²nica coisa que eu n?o esperava: nada. Umas tr¨ºs dezenas de metros ap¨®s a curva, o t¨²nel simplesmente terminava. Frustra??o surgiu de imediato na face de Almeida. Incr¨¦dulo, avancei at¨¦ ao fim do t¨²nel. Talvez houvesse sinais de uma derrocada e de que esta ocultasse o resto da passagem. Por¨¦m, antes de eu chegar ¨¤ parede de terra, esta desapareceu. Aturdido, apontei a lanterna para tr¨¢s e percebi que Almeida e os seus homens tamb¨¦m j¨¢ l¨¢ n?o estavam. S¨® quando uma brisa fria me levou a apontar a lanterna e a olhar para mais longe ¨¦ que me apercebi do que tinha acontecido. Nada nem ningu¨¦m tinha desaparecido. Eu ¨¦ que j¨¢ n?o me encontrava no t¨²nel, mas sim numa enorme clareira rodeada por ¨¢rvores distantes. Aqui e ali, conseguia ver a enorme e escura forma de montanhas a cobrir as estrelas. Instantes depois, Almeida surgiu atr¨¢s de mim. A princ¨ªpio, parecia t?o confuso quanto eu, mas logo se apercebeu do que acontecera. - Teletransporte - disse ele, surpreso. - As Bruxas da Noite s?o ainda mais poderosas do que eu pensava. Em seguida, inspecion¨¢mos rapidamente o local. Encontr¨¢mos de imediato restos de fogueiras e abrigos improvisados. Aquele era o acampamento do ex¨¦rcito das Bruxas da Noite, ou, pelo menos, havia sido. - Como voltamos? - perguntei. - Vamos ver se conseguimos voltar fazendo o mesmo caminho ao contr¨¢rio. Se n?o, tenho de chamar um helic¨®ptero. Mas primeiro deixe-me marcar as coordenadas deste local no telem¨®vel. Assim que ele terminou, tent¨¢mos voltar para o mesmo s¨ªtio onde surgimos naquela clareira. Como Almeida previra, num piscar de olhos, encontr¨¢vamo-nos de novo no t¨²nel. J¨¢ n?o t¨ªnhamos nada a fazer ali, e a investiga??o do acampamento das Bruxas da Noite teria de esperar pela luz do dia para ser bem feita, pelo que Almeida me levou de volta ¨¤ cidade e ao meu carro. Quando abri a porta para sair, disse-me: - Vamos manter-nos em contacto consigo. A sua experi¨ºncia e conhecimentos sobre as Bruxas da Noite ainda nos pode vir a ser ¨²til. Assim que entrei no meu carro, o da Organiza??o partiu. Pela primeira vez em algum tempo, voltei para casa ap¨®s uma investiga??o satisfeito. Ainda n?o conhecia as inten??es das Bruxas da Noite, nem o paradeiro delas e dos seus soldados, mas t¨ªnhamos encontrado um acampamento seu e isso certamente levaria a novas descobertas. S¨® esperava que Almeida estivesse a ser sincero quando disse que se iria manter em contacto. Capítulo 24 - A Primeira Bruxa Logo no dia seguinte, Almeida cumpriu a sua promessa de se manter em contacto. Quando sa¨ª do trabalho para almo?ar, ele estava, de novo, ¨¤ espera junto ao meu carro. - Precisamos de ti outra vez - disse ele assim que me aproximei. Conduziu-me, ent?o, para um carro que nos esperava. Assim que entr¨¢mos, come?ou a explicar o que acontecera: - Encontr¨¢mos mais portais no acampamento das Bruxas da Noite. Muitos mais. E quero que nos acompanhes quando os explorarmos. O carro levou-nos at¨¦ aos arredores de Braga, onde nos esperava um helic¨®ptero que nos transportou at¨¦ ao acampamento que hav¨ªamos descoberto na noite anterior, situado entre as florestas do Ger¨ºs. Esta foi a primeira de muitas viagens semelhantes que fiz nas semanas que se seguiram. Usando a sua influ¨ºncia, a Organiza??o arranjou uma forma de me darem dispensa tempor¨¢ria do trabalho para eu poder explorar os novos portais com os seus agentes. Muitos destes levavam a locais inconsequentes onde n?o encontr¨¢mos nada, pelo que aqui vou descrever apenas as expedi??es mais importantes. A primeira destas ocorreu cinco dias ap¨®s a nossa descoberta do acampamento. Como tantas vezes antes, eu e Almeida entr¨¢mos num portal acompanhados por uma dezena de homens armados com espingardas autom¨¢ticas. Uma fra??o de segundo depois, encontr¨¢vamo-nos num corredor. Estuque ca¨ªa do teto e das paredes. Atr¨¢s de n¨®s, abria-se uma velha porta arrombada e, ¨¤ frente, uma janela partida protegida do lado de fora por uma grade met¨¢lica. V¨¢rias portas alinhavam-se de ambos os lados, todas elas em mau estado. De imediato, o local pareceu-me familiar, e avancei at¨¦ ¨¤ janela para espreitar para o exterior. De imediato, confirmei as minhas suspeitas: est¨¢vamos em Vila do Conde, mais exatamente no abandonado e vandalizado Convento de Santa Clara. Anos antes, havia-o visitado com o grupo de explora??o urbana de Braga. Enquanto eu e Almeida esper¨¢mos, os restantes homens da Organiza??o verificaram o que se encontrava por detr¨¢s de cada porta daquele corredor. N?o encontrando nada, expandiram a busca aos corredores que partiam daquele, por¨¦m, o resultado foi o mesmo: nem sinal das Bruxas da Noite ou das criaturas sob o seu comando. Isso mudou quando subimos ao segundo andar. Assim que sa¨ªmos da caixa das escadas, depar¨¢mo-nos com um grupo de cinco duendes, mais ¨¤ frente no corredor. Os homens de Almeida apontaram-lhes as armas, mas as criaturas fugiram, desaparecendo pela esquina logo atr¨¢s deles. Com os soldados na frente, perseguimo-los. Assim que dobr¨¢mos, a esquina, contudo, j¨¢ n?o os vimos. Em vez deles, avist¨¢mos uma criatura humanoide com mais de dois metros de altura, pele branca coberta apenas por uma tanga de pele, e totalmente careca. Ao contr¨¢rio dos seus companheiros, n?o fugiu ao ver-nos. De facto, carregou contra n¨®s. Os homens de Almeida come?aram a disparar. A criatura, por¨¦m, nem desacelerou. No ¨²ltimo momento, eu, Almeida e alguns dos soldados conseguimos desviar-nos, saltando para a sec??o de corredor antes da esquina, mas os outros n?o tiveram tanta sorte. A massa e o ¨ªmpeto da criatura empurraram-nos atrav¨¦s de uma parede. O ser levantou-se de entre os escombros rapidamente, como se nada fosse, e carregou contra n¨®s. Os soldados da Organiza??o dispararam e recuaram comigo e Almeida, mas t¨ªnhamos todos plena consci¨ºncia de que nunca conseguir¨ªamos escapar. Stolen novel; please report. Miraculosamente, ou pelo menos foi o que me pareceu, o soalho apodrecido cedeu sob peso da criatura, e ela caiu para o andar inferior. Corremos para o buraco para ver se tinha ficado fora combate, mas j¨¢ n?o a vimos. Tinha, certamente, levantado-se. Pelo menos, ficar¨ªamos livres dela por algum tempo. De imediato, acorremos em ajuda dos soldados que haviam sofrido a carga. Dois estavam mortos, e os restantes tinham m¨²ltiplas fraturas. Almeida fez um telefonema para algu¨¦m os ir buscar, mas n?o interrompeu a expedi??o. Mais uma vez, os homens armados fizeram uma busca por todos os quartos daquele andar, enquanto eu e Almeida esper¨¢mos. Ouvimos alguns tiros, mas antes de chegarmos ¨¤ sua origem, apareceram dois soldados que nos disseram ter sido apenas alguns duendes. De resto, n?o encontr¨¢mos mais nenhuma criatura naquele piso. Os soldados depararam-se, por¨¦m, com uma pequena porta parcialmente escondida atr¨¢s de uma estante meia partida. Atr¨¢s dela, havia umas estreitas escadas que subiam at¨¦ ¨¤ escurid?o. Almeida sorriu. Ignorando a escadaria que levava at¨¦ ao andar seguinte, decidiu subir pela escadaria oculta. Mais uma vez, os homens armados seguiram na frente. Subimos durante v¨¢rios minutos. Rapidamente se tornou ¨®bvio que aquelas escadas contornavam os dois andares superiores do convento e levavam diretamente ao s¨®t?o. Finalmente, cheg¨¢mos a uma porta estreita. Luz emergia da frincha debaixo dela, indicando que algu¨¦m ou algo se encontrava atr¨¢s dela. Sem perder tempo, os homens de Almeida arrombaram-na. Entr¨¢mos, ent?o, no extenso s¨®t?o, que n?o tinha qualquer divis?o. Sob as telhas e as traves de madeira, espalhavam-se in¨²meras caixas, arcas e mobili¨¢rio antigo. Entre estas, encontr¨¢mos apenas uma criatura. Uma das figuras encapu?adas sentava-se atr¨¢s de uma secret¨¢ria coberta de livros, frascos de tinta, papel e penas. Os soldados rodearam-na, apontando as armas na sua dire??o, mas eu e Almeida estac¨¢mos. Era o nosso primeiro encontro com uma das Bruxas da Noite. Eu j¨¢ andava h¨¢ tanto tempo ¨¤ procura delas que at¨¦ duvidei dos meus olhos. - Aproxime-se - disse a criatura calmamente, com uma vez profunda e seca, a Almeida, identificando corretamente o l¨ªder do nosso grupo. - Preciso de falar consigo. A medo, Almeida avan?ou at¨¦ ela, deixando a secret¨¢ria entre os dois. Eu segui logo atr¨¢s. - Por que andam a envolver-se nos nossos assuntos? - disse a criatura. - N?o t¨ºm nada a ver com os da vossa ra?a. - E as mortes em Braga nos acidentes provocados pelos vossos trasgos?! - gritei mais do que disse. - Danos colaterais. Eu ia responder, mas Almeida levantou a m?o, indicando-me que n?o dissesse nada. - Eu fa?o parte de uma organiza??o que tem como miss?o ocultar o vosso mundo dos humanos comuns - explicou ele ¨¤ Bruxa da Noite. - Como devem perceber, algumas das vossas a??es s?o bastante vis¨ªveis e t¨ºm-nos causado alguns problemas. Ser¨¢ que... - Isso n?o nos interessa. Fazemos o que precisamos de fazer para alcan?ar o nosso objetivo. - E n¨®s o nosso - respondeu Almeida. Seguiu-se um longo momento de sil¨ºncio desconfort¨¢vel. - Pense no que eu lhe disse - disse a Bruxa da Noite, por fim. - Se continuarem a interferir nos nossos assuntos, haver¨¢ consequ¨ºncias. Antes que Almeida conseguisse responder, a Bruxa da Noite fez um discreto gesto com a m?o e, no instante seguinte, est¨¢vamos de novo no corredor onde hav¨ªamos empe?ado a nossa explora??o, junto da porta para o exterior e do portal m¨¢gico. Almeida ordenou de imediato aos seus homens que revistassem novamente o convento, especialmente o s¨®t?o, mas j¨¢ n?o encontraram a Bruxa da Noite nem nenhuma das suas criaturas. O local estava, mais uma vez, totalmente abandonado. Sem mais nada a fazer ali, atravess¨¢mos o portal de volta ao acampamento. Dali, um helic¨®ptero levou-me para Braga. No caminho para casa, os meus sentimentos estavam divididos entre satisfa??o e medo. T¨ªnhamos finalmente encontrado uma das Bruxas da Noite! Contudo, os seus motivos e objetivos continuavam a ser um mist¨¦rio. De facto, todo o segredo que a Bruxa da Noite manteve sobre o assunto e a sua clara determina??o em alcan?ar o que quer que fosse que elas queriam assustaram-me ainda mais, ainda que nos tenha dado todas as garantias de que n?o tinha qualquer rela??o com os humanos. Apesar de tudo, foi um feito importante, e estava convencido que os mist¨¦rios das Bruxas da Noite iriam eventualmente ser revelados. Afinal, duvidava que as palavras da Bruxa da Noite fossem suficientes para fazer Almeida e a Organiza??o desistirem. Infelizmente, tinha raz?o. Capítulo 25 - A Segunda Bruxa Como eu esperava, a tentativa da Bruxa da Noite que encontr¨¢mos no Convento de Santa Clara de desencorajar a Organiza??o de interferir nos seus assuntos n?o surtiu qualquer efeito. Logo no dia seguinte, Almeida chamou-me para investigar outro portal. Do outro lado dos portais que atravess¨¢mos nos dias que se seguiram, n?o encontr¨¢mos nada de relevante. Porque ¨¦ que as Bruxas da Noite haviam criado aquelas travessias, n?o t¨ªnhamos como saber. Talvez estivessem relacionados com ataques abortados ou fossem apenas para observa??o e reconhecimento. Apenas um se mostrou remotamente interessante, j¨¢ que levava at¨¦ um ponto junto da margem do rio Lima, nos arredores de Viana do Castelo. Certamente teria sido dali que haviam lan?ado o ataque ao reino do Rei das ¨ªnsuas, mas, naquele momento, em pouco nos ajudava. Finalmente, um dos portais levou-nos a um local de escurid?o absoluta. Acendemos de imediato as lanternas e logo percebemos que nos encontr¨¢vamos num t¨²nel. As paredes, o teto e o ch?o eram formados por blocos e lajes de granito. Est¨¢vamos demasiado fundo para os GPS funcionarem e, sem uma abertura por onde espreitar, n?o t¨ªnhamos maneira de saber em que parte do pa¨ªs (ou, quem sabe, do mundo) nos encontr¨¢vamos. O t¨²nel estendia-se em duas dire??es, pelo que Almeida escolheu uma ¨¤ sorte e come?¨¢mos a nossa explora??o. Sabendo do nosso encontro com goblins e criaturas piores e da morte dos seus companheiros em Vila do Conde, os soldados da Organiza??o prenderam as lanternas ¨¤s armas e avan?aram com estas em riste. T¨ªnhamos andado apenas algumas centenas de metros, quando nos depar¨¢mos com os primeiros habitantes daquele t¨²nel. N?o se tratavam de trasgos, goblins, ou qualquer outra criatura que tiv¨¦ssemos encontrado antes. Depois daquela miss?o, demos-lhes o nome de trogloditas, pois eram vagamente semelhantes a humanos, mas tinham cabe?as achatadas sem olhos e pele extremamente p¨¢lida. Aparentemente, haviam detetado a nossa presen?a antes de os avistarmos, pois carregavam na nossa dire??o empunhando armas de madeira e s¨ªlex. Assim que se aproximaram, atiraram-nos lan?as e pedras afiadas, contudo, estas primitivas armas nada podiam contra os capacetes e o outro equipamento de prote??o que come?¨¢mos a usar ap¨®s a expedi??o em Vila do Conde. As armas autom¨¢ticas dos soldados da Organiza??o, por¨¦m, n?o tinham qualquer dificuldade em abater os trogloditas. Bastaram algumas rajadas para os derrubar a todos. Pass¨¢mos por cima dos seus corpos e continu¨¢mos a nossa explora??o. O t¨²nel mudou de dire??o pouco depois. Tamb¨¦m parecia descer, embora com uma inclina??o muito subtil. Avan?¨¢mos durante mais de quinze minutos, sempre em linha reta, antes de avistarmos o fim do t¨²nel. Este parecia desembocar numa caverna natural, mas s¨® quando l¨¢ cheg¨¢mos ¨¦ que nos apercebemos da verdadeira dimens?o desta. O teto elevava-se uns vinte metros sobre as nossas cabe?as, muito acima do do t¨²nel, e a caverna em si estendia-se centenas de metros ¨¤ nossa frente e para os lados. Estalactites e estalagmites despontavam em diversos s¨ªtios, e, entre elas, serpenteavam caminhos de terra comprimida por centenas de p¨¦s. Embora, a princ¨ªpio, n?o consegu¨ªssemos ver nenhum, era ¨®bvio que os trogloditas frequentavam aquele local em grande n¨²mero. Os soldados da Organiza??o formaram um per¨ªmetro ¨¤ volta de mim e de Almeida, e, com cuidado redobrado, come?¨¢mos a explorar a caverna. N?o tard¨¢mos a encontrar os primeiros trogloditas. Um grupo de seis estava reunido atr¨¢s de uma estalagmite, a conversar. A sua l¨ªngua parecia estranha e primitiva aos nossos ouvidos, mas, pela maneira como falavam, pareciam estar a ter uma conversa trivial. De s¨²bito, calaram-se. A princ¨ªpio, n?o percebemos porqu¨º, mas, quando come?aram a afastar-se de n¨®s, apercebemo-nos que nos haviam detetado. Como n?o possu¨ªam olhos, era dif¨ªcil dizer quando se tinham apercebido da nossa presen?a. Eu e os soldados da Organiza??o olh¨¢mos para Almeida, ¨¤ espera que ele dissesse como dev¨ªamos reagir. A decis?o, por¨¦m, acabou por n?o ser dele. Pedras afiadas come?aram a cair sobre os soldados na retaguarda. Estes responderam com tiros das suas autom¨¢ticas, enquanto os seus companheiros abateram os trogloditas que t¨ªnhamos visto primeiro. Contudo, s¨® ent?o, com os nossos oponentes mais imediatos derrotados, ¨¦ que nos apercebemos realmente da situa??o em que nos encontr¨¢vamos. A toda a nossa volta, reunia-se uma massa de trogloditas que se estendia at¨¦ onde a luz das nossas lanternas chegava. E todos se abateram sobre n¨®s. Os soldados da Organiza??o come?aram a disparar, mas nem as suas armas autom¨¢ticas conseguiam deter todos os atacantes. Eventualmente, as criaturas chegaram aos soldados e atacaram-nos corpo-a-corpo. Embora o equipamento protetor dos homens de Almeida oferece-se uma substancial defesa contra as armas primitivas dos trogloditas, a enorme quantidade de ataques fazia com que fosse quase imposs¨ªvel que alguns n?o encontrassem uma junta ou emenda mais vulner¨¢vel. Est¨¢vamos prestes a ser esmagados pelos trogloditas, quando um grito fez as criaturas parar. Assim que estas se afastaram, come?¨¢mos a olhar em volta em busca do nosso salvador. Na parede da caverna, a uns dez metros do ch?o, encontr¨¢mos uma gruta mais pequena. Recortada pela luz que emergia do interior, vimos a forma encapu?ada de uma Bruxa da Noite. Ela fez um gesto para que nos aproxim¨¢ssemos. A multid?o de trogloditas abriu-nos uma passagem, e n¨®s, devagar e olhando constantemente em redor, atravess¨¢mo-la at¨¦ chegarmos ¨¤ parede. - Subam - disse a Bruxa da Noite. - Quero falar convosco. Depois, desapareceu para o interior da gruta. Um a um, trep¨¢mos pelos v¨¢rios apoios escavados na parede. Como seria de esperar, havia soldados ¨¤ nossa frente e atr¨¢s de n¨®s. Support creative writers by reading their stories on Royal Road, not stolen versions. Quando cheg¨¢mos ao topo, a criatura esperava-nos sentada detr¨¢s de uma secret¨¢ria carregada de livros e instrumentos que eu n?o reconheci. As paredes estavam cobertas de livros, e havia ba¨²s fechados em v¨¢rios pontos. As semelhan?as com o nosso anterior encontro com uma Bruxa da Noite eram ¨®bvias. De facto, n?o pod¨ªamos ter a certeza de que aquela n?o era a mesma criatura. Como antes, os soldados rodearam e apontaram as armas ¨¤ Bruxa da Noite. S¨® ent?o eu e Almeida nos aproxim¨¢mos. A criatura, que n?o se havia movido ou mostrado a m¨ªnima rea??o desde a nossa chegada ¨¤ gruta, esperou at¨¦ nos encontrarmos quase encostados ¨¤ secret¨¢ria e depois disse: - J¨¢ vos foi dito que n?o temos qualquer interesse no que a vossa ra?a idiota faz ou deixa de fazer. Porque continuam a interferir nos nossos assuntos? - E eu j¨¢ vos disse que as vossas a??es arriscam revelar ao p¨²blico um mundo que ele n?o est¨¢ preparado para conhecer - respondeu Almeida. - N?o ¨¦ do nosso interesse que todos os homens saibam da nossa exist¨ºncia, mas n?o podemos comprometer os nossos objetivos por causa disso. S?o demasiado importantes. - Nesse caso vamos continuar a interferir nos vossos assuntos e combater-vos se for preciso - disse Almeida. - N?o precisamos de mais inimigos, mas n?o pensem que n?o vamos responder. Fale com os seus superiores, diga-lhes o que discutimos e tentemos evitar contratempos e derrame de sangue desnecess¨¢rios. - N?o acho que falar com os meus superiores v¨¢ fazer grande diferen?a. A Bruxa da Noite ficou em sil¨ºncio durante alguns minutos. Por fim, disse: - Nesse caso, n?o vale a pena adiar o vosso fim. A criatura come?ou a mover as m?os para lan?ar um feiti?o. Os homens de Almeida, percebendo o que ela estava a fazer, n?o hesitaram e abriram fogo. As balas, por¨¦m, n?o pareceram ter qualquer efeito na Bruxa da Noite al¨¦m de atrasar os seus gestos. Depois do que havia visto nas v¨¢rias batalhas das Bruxas da Noite, a invulnerabilidade destas a balas n?o me surpreendeu. Almeida, se ficou surpreendido, n?o o mostrou, e prontamente gritou: - Fujam! E, quando cheg¨¢mos ¨¤ boca da gruta, instruiu: - Saltem para cima dos trogloditas. Assim fizemos. Felizmente, as criaturas cegas n?o tiveram tempo de preparar as armas, e os seus corpos, juntamente com as nossas armaduras, foram suficientes para nos aligeirar a substancial queda. Doridos, levant¨¢mo-nos e dirigimo-nos para o t¨²nel por onde hav¨ªamos entrado. A princ¨ªpio, os trogloditas n?o nos tentaram impedir nem perseguir, mas a Bruxa da Noite logo surgiu na entrada da sua gruta e gritou algo numa l¨ªngua que eu n?o percebia. Tivemos de abrir caminho ¨¤ for?a atrav¨¦s dos ¨²ltimos trogloditas da multid?o, e os restantes perseguiram-nos, mesmo depois de entrarmos no t¨²nel. Com os soldados da Organiza??o a disparar constantemente para tr¨¢s, contra a horda que nos perseguia, corremos em dire??o ao portal que nos havia transportado para aquele t¨²nel. Felizmente, este n?o tinha nenhuma bifurca??o, pelo que n?o havia risco de nos perdermos durante a confus?o da fuga. Finalmente, cheg¨¢mos aos corpos dos primeiros trogloditas que t¨ªnhamos encontrado, indicando que est¨¢vamos quase a chegar ao portal. A horda ainda nos perseguia, apesar das dezenas de criaturas que os soldados haviam abatido durante a nossa fuga. Conforme nos aproxim¨¢mos do local aproximado da nossa chegada, fic¨¢vamos mais e mais aliviados. Esse al¨ªvio, contudo, transformou-se gradualmente em desespero conforme percorr¨ªamos mais e mais do t¨²nel sem que um portal nos levasse de novo para o acampamento. Por fim, cheg¨¢mos a uma esquina, mostrando que t¨ªnhamos percorrido todo o t¨²nel. De alguma forma, a Bruxa da Noite havia fechado o portal, prendendo-nos ali. - Continuem a correr! - gritou Almeida, com um toque de medo na voz. - Continuem! - Estamos a ficar sem muni??es - disse um do soldados, inserindo o seu ¨²ltimo carregador na arma. Continu¨¢mos a avan?ar na esperan?a de encontrar uma sa¨ªda, mas, ap¨®s a esquina, havia apenas outro t¨²nel escuro, e outro, e mais outro... Os soldados come?aram a racionar as balas, disparando balas solit¨¢rias em vez de rajadas, permitindo que os trogloditas se aproximassem cada vez mais. E n?o havia sinal de que a sua persegui??o estivesse a enfraquecer. A situa??o apresentava-se desesperada quando avistei o que me pareceu ser um pequeno raio de luz a sair da parede. Apontei a lanterna para l¨¢, revelando o que parecia ser um arco selado com pedras de granito e mortalha antiga, muito diferente dos blocos de pedra que formavam o t¨²nel. A luz parecia sair de um pequeno orif¨ªcio entre elas. - Pode ser uma sa¨ªda - disse Almeida ao aperceber-se do que eu havia descoberto. - Derrubem a parede debaixo do arco - ordenou, depois, aos seus homens. Os soldados rapidamente executaram a sua ordem. Aqueles que tinham menos muni??es usaram a coronha das espingardas para derrubar a parede, enquanto os restantes disparavam contra os trogloditas para os manter ¨¤ distancia. - Despachem-se! - gritou Almeida. A primeira pedra eventualmente caiu para o exterior, seguida rapidamente pelas restantes. Assim que se abriu um buraco grande o suficiente para passarmos, emergimos, um a um, para um parque p¨²blico. Os v¨¢rios transeuntes pararam para ver o que se passava. Certamente que ningu¨¦m esperava ver pessoas sair de um arco selado sabia-se l¨¢ h¨¢ quanto tempo. - Saiam daqui! Fujam! - gritou Almeida para os civis, enquanto os seus soldados alinhavam em frente ao buraco e se preparavam para receber os trogloditas. O aviso n?o funcionou. De facto, os gritos de Almeida apenas atra¨ªram mais curiosos. Felizmente, segundos passaram e transformaram-se em minutos sem que houvesse sinal dos nossos perseguidores. Ao fim de quinze minutos, Almeida ordenou aos seus homens que verificassem o que havia acontecido aos trogloditas. Cuidadosamente, um dos soldados enfiou a lanterna e a arma, seguidas pela cabe?a, no buraco que hav¨ªamos usado para escapar do t¨²nel. Depois de espreitar em todas as dire??es, virou-se para n¨®s e disse: - N?o vejo ningu¨¦m. - Ter?o tido medo da luz do Sol? - comentou Almeida. - Eles pareciam cegos, mas talvez o sol os afete de outra maneira - respondi eu. Ap¨®s determinar onde nos encontr¨¢vamos com a ajuda do GPS, Almeida chamou refor?os pelo telefone. Eu, por¨¦m, n?o precisei de instrumentos eletr¨®nicos para perceber onde est¨¢vamos. A muralha, os canh?es, as ruas estreitas e antigas, a ponte de a?o sobre o rio, todos aqueles elementos n?o deixavam d¨²vida: est¨¢vamos em Valen?a, mais precisamente na parte velha da cidade. Uma hora mais tarde, chegou um helic¨®ptero, seguido pouco depois por v¨¢rios cami?es cheios de soldados. Sob as ordens de Almeida, estes isolaram a entrada para o t¨²nel e come?aram a explor¨¢-lo em ca?a da Bruxa da Noite e dos seus trogloditas. O helic¨®ptero levou-me para Braga, pelo que n?o fiquei para ver o que se passou a seguir, mas Almeida mais tarde contou-me que os seus homens n?o encontraram nem a Bruxa da Noite nem nenhum troglodita. At¨¦ os corpos das criaturas que t¨ªnhamos matado haviam desaparecido. Encontraram, por¨¦m, um complexo de t¨²neis que se parecia entender por todo o norte de Portugal e Galiza e talvez ainda mais al¨¦m. Segundo Almeida, explor¨¢-lo levaria anos. Mais uma vez, as Bruxas da Noite disseram e mostraram que n?o nos queriam envolvidos nos seus assuntos. Depois de nos escorra?ar dos seus t¨²neis, a Bruxa da Noite desapareceu juntamente com as criaturas sob o seu comando e todo e qualquer sinal da sua presen?a ali. Tudo para nos ocultar os seus objetivos. Claro que esse esfor?o apenas aumentava a minha curiosidade e a determina??o da Organiza??o em descobrir o que se passava. Embora ainda n?o tiv¨¦ssemos grandes pistas, tinha esperan?a de que tudo se revelaria em breve. Se soubesse o que sei hoje, teria aproveitado a oportunidade para me afastar. Capítulo 26 - A Terceira Bruxa Apesar das tentativas das Bruxas da Noite de nos afastarem dos seus assuntos, eu e a Organiza??o continu¨¢mos a explorar os portais que partiam do acampamento abandonado no Ger¨ºs. Ap¨®s mais algumas expedi??es infrut¨ªferas, encontr¨¢mos outro local de interesse. Mal atravess¨¢mos o portal, demos por n¨®s num caminho calcetado. Percebi de imediato onde nos encontr¨¢vamos: no miradouro no topo do Monte da Madalena, com o seu inconfund¨ªvel panorama sobre o rio Lima e a vila de Ponte do Lima. Em crian?a, tinha ido ali muitas vezes com os meus pais comer ao restaurante l¨¢ situado. Este, por¨¦m, para meu desgosto, tinha sido abandonado e vandalizado. As janelas estavam todas partidas, e as portas, arrombadas. Sob a arcada na face norte amontoavam-se cadeiras e mesas de pl¨¢stico cobertas de folhas e lama. Grafitos cobriam a maior parte das paredes, quer exteriores quer interiores. Decidimos come?ar a explorar pelo restaurante, pois parecia o local mais prov¨¢vel para uma das Bruxas da Noite se esconder. Entr¨¢mos pelo r¨¦s-do-ch?o atrav¨¦s de uma das enormes janelas partidas que formavam uma das paredes do antigo bar do restaurante. Os espelhos atr¨¢s do balc?o estavam partidos, e restos de garrafas pejavam o local, juntamente com cadeiras e mesas de verga partidas. N?o havia ali nada de interesse para n¨®s, pelo que atravess¨¢mos a porta atr¨¢s do balc?o, que prontamente descobrimos levar ao que parecia ter sido a cozinha. Entr¨¢mos mesmo a tempo de ver uma pequena sombra desaparecer para dentro do po?o do elevador de comida. Do que se tratava exatamente, n?o conseguimos perceber, e, quando os soldados de Almeida espreitaram pelo po?o do elevador, n?o viram nada, mas uma coisa era clara: tratava-se de uma das criaturas das Bruxas da Noite. Havia lou?a partida, panelas e sert?s espalhadas pelo ch?o. Ap¨®s uma r¨¢pida busca para ver se encontr¨¢vamos algo que nos interessasse, subimos pelas escadas de servi?o. No andar de cima, encontr¨¢mos um pequeno quarto, ainda mais pequeno do que a cozinha, onde os empregados de mesa, em tempos, deviam ter preparado os pratos antes de os levar para a sala de jantar. Quando cheg¨¢mos, ainda vimos a porta a fechar, pelo que fomos de imediato em persegui??o. Por¨¦m, mal sa¨ªmos do quarto, estac¨¢mos. ¨¤ nossa frente, espalhados pela sala de jantar, entre cadeiras e mesas partidas, encontrava-se mais de uma centena de criaturas, cada uma comendo a carne crua de animais aut¨®ctones ¨¤queles montes: lebres, esquilos, p¨¢ssaros, raposas e at¨¦ morcegos. Entre os seres, havia trasgos e goblins, assim como dois semelhantes ¨¤quele que nos perseguira no Convento de Santa Clara. Contudo, a maior parte era formada por criaturas humanoides pequenas, com menos de um metro de altura, com o corpo coberto de pelo negro. Tinham um focinho que misturava caracter¨ªsticas do de um c?o com o de um gato, o que levou a Organiza??o a batizarem-nos (sem grande imagina??o, temos de admitir) de g?es. Assim que as criaturas se aperceberam da nossa presen?a, deixaram as suas grotescas refei??es e viraram-se para n¨®s. Almeida puxou-me para tr¨¢s, e os seus homens, n?o correndo riscos, abriram fogo imediatamente. As autom¨¢ticas dos soldados abateram v¨¢rios dos seres, mas estes carregaram contra n¨®s e eram demasiados para as balas os deterem a todos. Recu¨¢mos de volta para o quarto de servi?o, esperando que a porta criasse um ponto estreito que permitisse aos soldados lidar com menos criaturas de cada vez. A princ¨ªpio, o plano funcionou, com goblins, trasgos e g?es a serem abatidos mal entravam no quarto. Contudo, quando chegou a vez de uma das criaturas maiores (que eu batizei de ogrons, em honra de uns monstros da s¨¦rie televisiva Doctor Who), a situa??o mudou. Apesar da torrente de balas que a atingia, a criatura continuou a avan?ar contra n¨®s, mal desacelerando. S¨® caiu quando chegou a menos de um metro de n¨®s e um dos soldados de Almeida soltou uma rajada contra os seus olhos, atingindo-lhe o c¨¦rebro e matando-a. Embora o ogron tivesse ca¨ªdo, o tempo que levou a abat¨º-lo foi suficiente para que muitas outras criaturas entrassem no quarto. Estas eram demasiadas e estavam demasiado perto para que as consegu¨ªssemos derrubar a todas antes que se abatessem sobre n¨®s. Como tal, Almeida ordenou que recu¨¢ssemos at¨¦ ¨¤ outra porta e, com os soldados a disparar constantemente para, pelo menos, ganharmos algum tempo, assim fizemos. Unauthorized tale usage: if you spot this story on Amazon, report the violation. T¨ªnhamos dado apenas alguns passos quando esta segunda porta se abriu, dando passagem a mais criaturas, encabe?adas por outro ogron. Com a rota de fuga mais ¨®bvia cortada, Almeida ordenou aos seus homens que formassem um semic¨ªrculo em volta da janela mais pr¨®xima. Um deles usou a coronha da arma para partir o que restava do vidro e da arma??o. Depois, pediu a um camarada que segurasse um dos extremos da sua espingarda e usou-a para se baixar at¨¦ uma altura de onde fosse seguro saltar at¨¦ ao solo. Enquanto alguns dos soldados disparavam para atrasar as criaturas que se aproximavam, outros dois conseguiram sair e descer. Era, por¨¦m, ¨®bvio que n?o ¨ªamos conseguir sair todos por ali antes dos esbirros das Bruxas da Noite nos alcan?arem. - Saia daqui! - disse-me Almeida. - Depressa! Sem hesitar, sa¨ª pela janela e, agarrando-me ao parapeito para conseguir baixar o m¨¢ximo poss¨ªvel, deixei-me cair. Os soldados que sa¨ªram antes de mim apanharam-me. Depois, correram para o outro lado do edif¨ªcio para atacar pela retaguarda as criaturas que amea?avam os seus companheiros. Eu estava desarmado, pelo que me dirigi ¨¤ parte da frente do restaurante, onde tinha uma rota de fuga direta para o portal, e esperei. Durante v¨¢rios minutos, ouvi tiros, gritos e urros vindos do interior. Depois, o sil¨ºncio regressou. O combate havia terminado. E eu s¨® podia esperar para ver quem vencera. Passado algum tempo, vi algo mover-se nas sombras al¨¦m da porta da cozinha. Quando o vulto emergiu, suspirei de al¨ªvio. Tratava-se de um dos soldados da Organiza??o. V¨¢rios companheiros seus surgiram logo atr¨¢s, juntamente com Almeida. - J¨¢ limp¨¢mos o interior - disse ele quando se aproximou. - Mas parece que n?o h¨¢ nenhuma Bruxa da Noite aqui. - Ainda nos falta procurar num s¨ªtio - respondi eu. Levei Almeida e os seus homens em dire??o ¨¤ pequena capela constru¨ªda logo abaixo do restaurante. Do miradouro n?o era muito vis¨ªvel, pois ¨¢rvores cobriam as suas traseiras. Eu s¨® sabia da sua exist¨ºncia porque j¨¢ tinha estado presente em dois casamentos realizados nela, na altura em que o restaurante estava no seu auge. O caminho mais direto, que envolvia descer umas escadas e atravessar um carreiro, estava impass¨¢vel devido ao crescimento da vegeta??o, pelo que tivemos de usar o acesso principal. Volt¨¢mos quase at¨¦ ao local onde o portal nos deixou e entr¨¢mos num caminho calcetado que passava diretamente abaixo do miradouro e nos levou at¨¦ ¨¤ pequena capela. Ao contr¨¢rio do restaurante, esta n?o se encontrava vandalizada. De facto, bastaria uma dem?o de tinta para a deixar como nova. Subimos a escadaria at¨¦ ao seu pequeno adro e tent¨¢mos espreitar para o interior pelas duas ex¨ªguas janelas da frente, mas s¨® vimos escurid?o. Algo do outro lado bloqueava a vis?o. - Arrombem a porta - ordenou Almeida. Aos pontap¨¦s, os homens de Almeida n?o tardaram em escancarar a porta. Como o exterior, o interior parecia intacto. Bancos de madeira ainda se alinhavam dos dois lados de um estreito corredor que levava ao altar. Atr¨¢s deste, uma cruz com uma imagem de cristo pendia da parede. O ¨²nico elemento estranho era uma mesa de madeira posicionada ¨¤ direita do altar, ¨¤ qual se sentava a figura encapuzada de uma Bruxa da Noite. - Vejo que ainda n?o aprenderam a ouvir o que vos dissemos - disse a criatura numa voz profunda e seca. - Talvez eu vos consiga ensinar. Almeida ainda tentou responder, mas a Bruxa da Noite come?ou a lan?ar um feiti?o e ignorou-o. - Recuem! Saiam daqui! - gritou Almeida. Alguns dos seus homens haviam-se antecipado e j¨¢ estavam a caminho da porta. Ainda assim, ningu¨¦m conseguiu escapar. O feiti?o daquela Bruxa da Noite demorou muito menos tempo a lan?ar que o da sua camarada que hav¨ªamos encontrado nos t¨²neis sob Valen?a. Uma rajada de vento soprou do altar e fechou a porta. Os primeiros soldados da Organiza??o a alcan?arem-na tentaram abri-la, mas n?o conseguiram. Iam come?ar a tentar destrui-la com as armas, quando uma segunda rajada, esta muito mais poderosa do que a primeira, nos atingiu. Como farrapos, fomos atirados contra a parede. Os bancos e parte das decora??es atingiram-nos em seguida. N?o fosse o nosso equipamento de prote??o, ter¨ªamos morrido ou, pelo menos, ficado gravemente feridos. O vento continuou a soprar e a esmagar-nos contra a parede. Era t?o forte, que nos impedia de cair. Cada vez tinha mais dificuldade em respirar. Por fim, quando me senti prestes a perder os sentidos, o vento cessou e ca¨ªmos ao ch?o, por entre todas as pe?as de mob¨ªlia que tinham sido lan?adas contra n¨®s. Como seria de esperar, a Bruxa da Noite j¨¢ havia desaparecido. Almeida chamou refor?os e revistou cada cent¨ªmetro da capela, do restaurante e do monte circundante. Mais uma vez, todos os sinais de que a Bruxa da Noite e as suas criaturas alguma vez haviam estado ali tinham desaparecido. E continu¨¢vamos a n?o ter pistas quanto aos seus objetivos. Capítulo 27 - A Quarta Bruxa Ap¨®s a nossa expedi??o a Ponte de Lima, seguiram-se, como sempre, outras onde poucos sinais encontr¨¢mos das Bruxas da Noite. Por fim, um portal levou-nos at¨¦ outra das criaturas. Ao contr¨¢rio dos anteriores, que nos deixaram algo afastados dos locais onde as Bruxas da Noite e os seus esbirros se concentravam, este levou-nos para junto de um acampamento. Assemelhava-se ¨¤quele de onde t¨ªnhamos partido, no Ger¨ºs, com v¨¢rios abrigos improvisados constru¨ªdos debaixo de um arvoredo, mas parecia substancialmente mais pequeno. Al¨¦m disso, n?o estava abandonado. Goblins, trasgos, ogrons, ogres e at¨¦ gigantes encontravam-se espalhados por todo o lado. Por um momento, desviei o olhar do acampamento, tentando perceber onde nos encontr¨¢vamos. Por entre as ¨¢rvores, prontamente avistei duas estruturas familiares: a Ponte e a Igreja de S?o Gon?alo. Est¨¢vamos em Amarante, mais precisamente na maior das duas ¨ªnsuas no centro do Rio Tamega. Como seria de esperar, havia algumas pessoas na margem e na velha Ponte de S?o Gon?alo, e um ou outro carro passava na ponte nova, que atravessava o rio por cima da ¨ªnsua, mas ningu¨¦m parecia estranhar a presen?a das criaturas das Bruxas da Noite. Algo devia ocultar os ocupantes da ilha dos habitantes da cidade. Infelizmente, nada nos ocultava dos monstros. Antes de conseguirmos encontrar cobertura, um goblin viu-nos e deu o alarme. A aten??o de todas as criaturas virou-se para n¨®s, e algumas come?aram a aproximar-se com as armas erguidas. Os soldados de Almeida ergueram as espingardas autom¨¢ticas para se defenderem. Apesar de, depois de cada encontro com as Bruxas da Noite, o nosso contingente de soldados tivesse sido sempre aumentado, duvidava que estes fossem em n¨²mero suficiente para derrotarem a horda ¨¤ nossa frente. As criaturas come?avam a ganhar velocidade, quando um guincho vindo de tr¨¢s delas as fez parar. Rapidamente, dividiram-se e abriram caminho at¨¦ uma enorme tenda, o ¨²nico abrigo do acampamento que n?o havia sido improvisado com materiais locais. Diante deste, encontrava-se a figura encapuzada de uma Bruxa da Noite. Em sil¨ºncio, com as suas longas vestes negras arrastando-se pelo ch?o, aproximou-se, flutuando. Assim que atravessou as linhas das suas criaturas, parou. Durante um instante, ali ficou, quieta e silenciosa como uma est¨¢tua. N¨®s olh¨¢vamos para ela sem saber o que fazer. Almeida abriu a boca v¨¢rias vezes. Se para dar ordens ou falar com a Bruxa da Noite, n?o sei dizer, mas acabou por n?o dizer nada. Por fim, a Bruxa da Noite emitiu um guincho penetrante, e as criaturas atr¨¢s dela carregaram contra n¨®s. A indecis?o de Almeida, ent?o, desapareceu. - Retirar! - gritou. Corremos de volta ao portal, situado apenas um par de metros atr¨¢s de n¨®s. Contudo, quando l¨¢ cheg¨¢mos, n?o fomos transportados de volta ao Ger¨ºs. Como a sua companheira (ou seria a mesma criatura?) em Valen?a, a Bruxa da Noite tinha feito o portal desaparecer. A princ¨ªpio, fic¨¢mos at¨®nitos, sem saber bem o que fazer, mas logo os soldados come?aram a disparar contra os atacantes. Como eu previra, mesmo com todas as espingardas autom¨¢ticas e a pistola de Almeida a disparar, a horda continuou a aproximar-se, at¨¦ porque inclu¨ªa v¨¢rios monstros grandes que s¨® podiam ser abatidos por uma grande torrente de balas. Almeida olhou em volta, procurando por uma maneira de nos tirar daquela situa??o. Relutantemente, acabou por optar pela ¨²nica solu??o poss¨ªvel. - Retirem para a cidade - gritou. Com os soldados a disparar constantemente, recu¨¢mos at¨¦ ¨¤ ¨¢gua. O caudal do rio estava baixo, pelo que n?o seria dif¨ªcil atravessar a vau at¨¦ ¨¤ margem junto do mercado da cidade. Curiosamente (ou talvez n?o), assim que sa¨ªmos da ¨ªnsua, deix¨¢mos de ver e ouvir os nossos perseguidores. Tratava-se, certamente, dos efeitos do feiti?o que ocultava a sua presen?a dos habitantes da cidade. Quando cheg¨¢mos ¨¢ cidade, simplesmente esper¨¢mos. T¨ªnhamos alguma esperan?a que as criaturas da Bruxa da Noite n?o nos seguissem para fora do seu acampamento, mas elas entraram na ¨¢gua sem sequer desacelerar. Os soldados da Organiza??o imediatamente voltaram a abrir fogo sobre elas. O ru¨ªdo dos tiros come?ou, ent?o, a atrair a aten??o dos transeuntes. Felizmente, como est¨¢vamos a meio da tarde de um dia de semana, as ruas estavam quase vazias. Ainda assim, como seria de esperar, os poucos que viram os monstros que nos perseguiam, ap¨®s um momento de incredulidade, fugiram em panico. Certamente n?o tardariam a chamar familiares e amigos ou at¨¦ a comunica??o social. A situa??o podia tornar-se no pior pesadelo da Organiza??o. Contudo, t¨ªnhamos preocupa??es maiores. If you discover this tale on Amazon, be aware that it has been stolen. Please report the violation. Mesmo com a ¨¢gua a desacelerar o avan?o dos nossos atacantes, as balas n?o conseguiam abater os suficiente para impedir que se aproximassem cada vez mais. - Recuem para o centro hist¨®rico - ordenou Almeida. Assim fizemos. At¨¦ para mim, um leigo no que diz respeito a t¨¢ticas, o plano de Almeida era ¨®bvio. Ele esperava que as ruas estreitas e as subidas constantes do centro de Amarante ajudassem a compensar a substancial vantagem num¨¦rica das criaturas. Com os soldados a dispararem constantemente, recu¨¢mos em dire??o ¨¤ ex¨ªgua passagem que separava a Igreja da Ponte de S. Gon?alo. Foi uma dezena de metros al¨¦m desta, no meio da Pra?a da Rep¨²blica, que os homens de Almeida formaram uma linha de tiro. Come?aram imediatamente a disparar contra as criaturas que tentavam atravessar a passagem, contando com esta para deixar passar apenas alguns inimigos de cada vez e assim ajudar a compensar a nossa desvantagem. A princ¨ªpio, a t¨¢tica resultou. Goblins, trasgos e at¨¦ ogrons atravessavam a passagem e eram imediatamente abatidos pela chuva de balas dos soldados, nem tendo hip¨®tese de se aproximarem. Contudo, assim que chegaram os primeiros gigantes e ogres, a situa??o mudou. Estas criaturas eram grandes o suficiente para transporem o parapeito da ponte, que delimitava um dos lados da passagem, e obrigaram os soldados a dividirem os seus disparos. Um dos gigantes inclusive arrancou uma das pedras da ponte e lan?ou-a contra n¨®s, matando tr¨ºs dos homens de Almeida. Este, ap¨®s aquelas baixas e ao ver que o inimigo estava cada vez mais pr¨®ximo, ordenou uma nova retirada. Desta vez, entr¨¢mos na estreita rua que levava ao topo do centro hist¨®rico e, com os soldados sempre a disparar, subimos at¨¦ ao pequeno largo em frente da Igreja do Senhor dos Aflitos. Dali, os homens de Almeida podiam disparar sobre todas as criaturas que haviam invadido a Pra?a da Rep¨²blica, incluindo os gigantes, de uma posi??o elevada. As criaturas, claro, seguiram-nos, mas, como a passagem entre o convento e a ponte, a rua estreita limitava o n¨²mero de inimigos que podiam chegar ao largo ao mesmo tempo. E, agora, n?o havia nenhum atalho ¨®bvio para os monstros maiores. Durante os minutos que se seguiram, os soldados abateram v¨¢rias criaturas sem que nenhum dos seus ataques chegasse sequer perto de n¨®s. At¨¦ um dos gigantes caiu. Contudo, o nosso inimigo logo percebeu que tinham de mudar a sua abordagem, e as criaturas come?aram a entrar nas ruas adjacentes ¨¤ Pra?a da Rep¨²blica em busca de outra forma de chegar at¨¦ n¨®s. Eu conhecia aquela cidade bem o suficiente para saber que, embora fossem demorar algum tempo, eles acabariam por encontrar o caminho que levava at¨¦ ¨¤ nossa retaguarda. Estava prestes a informar Almeida desse facto, quando este gritou: - Recuar! Suponho que ele tivesse chegado ¨¤ mesma conclus?o. Subimos a rua que levava do largo onde nos encontr¨¢vamos at¨¦ ao antigo Mosteiro de Santa Clara, com os soldados, mais uma vez, a dispararem constantemente para tr¨¢s. Quando cheg¨¢mos ao entroncamento seguinte, j¨¢ avist¨¢vamos, ao longe, a for?a enviada para nos rodear. Parte do que, em tempos, fora o mosteiro, havia sido transformado, s¨¦culos mais tarde, numa casa residencial, que agora servia como Biblioteca Municipal. A bibliotec¨¢ria, ao ver-nos correr atrav¨¦s dos vidros que formavam as paredes do r¨¦s do ch?o, levantou-se da sua secret¨¢ria, mas, ao ver as criaturas que nos perseguiam, escondeu-se debaixo dela. Felizmente, n?o parecia haver mais ningu¨¦m no edif¨ªcio para ver aquilo que o p¨²blico n?o devia saber que existia. N¨®s pass¨¢mos pelo estreito corredor entre a biblioteca e as ru¨ªnas de uma capela que, antanho, havia pertencido ao mosteiro e subimos at¨¦ ao topo de uns muros revelados por uma escava??o arqueol¨®gica recente, procurando um ponto elevado que nos trouxesse alguma vantagem t¨¢tica. Os homens de Almeida continuaram a disparar contra as criaturas, tentando impedi-las de subir at¨¦ ¨¤s nossas posi??es. Os gigantes e os ogres maiores eram os ¨²nicos que nos conseguiam atingir sem ter de trepar, provocando algumas baixas. Ainda assim, n?o eram muitos, e o fogo concentrado dos soldados, principalmente quando apontado ¨¤s suas cabe?as, conseguia abat¨º-los. Um ou outro proj¨¦til lan?ado pelas criaturas mais pequenas conseguia atingir um ponto fraco do equipamento protetor que eu e os homens da Organiza??o enverg¨¢vamos, mas pouca influ¨ºncia tinham no combate. Finalmente, pela primeira vez desde a nossa chegada a Amarante, a situa??o parecia estar sob controlo. O meu ¨²nico receio era que os soldados ficassem sem muni??es. Afinal, j¨¢ estavam a disparar quase constantemente h¨¢ mais de quinze minutos. Felizmente, o ataque dos monstros come?ou a enfraquecer antes que isso ocorresse. Novas criaturas deixaram de se juntar ao ataque, e as restantes acabaram todas por retirar. Com cuidado, temendo uma poss¨ªvel emboscada, descemos de volta ao rio. Para al¨¦m de alguns corpos, muitos menos do que aqueles que os soldados tinham abatido, n?o vimos nenhum sinal do inimigo. Como tal, atravess¨¢mos at¨¦ ¨¤ ¨ªnsua onde se encontrava o acampamento. As criaturas que, quando n¨®s cheg¨¢mos, o enchiam haviam desaparecido completamente. S¨® os abrigos abandonados mostravam que tudo aquilo n?o tinha sido somente uma ilus?o. Almeida pegou no telem¨®vel e chamou um helic¨®ptero para me ir buscar e refor?os para ajudar a ocultar o que havia acontecido em Amarante. Tenho a certeza que, em condi??es normais, j¨¢ n?o seria uma tarefa invej¨¢vel, mas, depois de todas as pessoas que haviam visto as criaturas naquele dia, iria tornar-se herc¨²lea. Entrei no helic¨®ptero que me levaria de volta a Braga e descol¨¢mos ainda a tempo de ver os cami?es com refor?os chegar ¨¤ Ponte de S?o Gon?alo. Infelizmente, n?o t¨ªnhamos ficado mais pr¨®ximos de descobrir os objetivos das Bruxas da Noite, e o acampamento no Ger¨ºs estava a ficar sem portais para explorarmos. Capítulo 28 - A Quinta Bruxa The narrative has been taken without authorization; if you see it on Amazon, report the incident. Capítulo 29 - O Lobo de Perre Muito mudou desde a minha ¨²ltima entrada neste blogue. Desde o ataque ao acampamento do Ger¨ºs, deixei de ter contacto com a Organiza??o. Sem a influ¨ºncia deles, o mal-estar causado na empresa onde trabalhava pelas minhas longas e injustificadas aus¨ºncias levou ao meu despedimento. Para a minha esposa, que j¨¢ andava desconfiada, o meu despedimento e as suas supostas causas foram a gota de ¨¢gua. O que ela suspeitava que se passava era ¨®bvio, mas eu n?o lhe podia contar a verdade. Era incapaz de a carregar com o fardo do meu conhecimento de tudo o que existe escondido neste mundo, isto se ela sequer acreditasse em mim. Como tal, expulsou-me de casa e come?ou a tratar do div¨®rcio. Assim, sem nada que me prendesse a Braga, voltei para a casa dos meus av¨®s, em Viana do Castelo, e para o quarto da minha juventude. Deixei as minhas investiga??es. Depois da forma como tinham destru¨ªdo a minha vida, n?o era capaz de continuar. Contudo, tamb¨¦m n?o tinha motiva??o para fazer mais nada, incluindo encontrar um novo emprego. Passava os meus dias em frente ao computador lendo artigos e vendo v¨ªdeos para me entreter e distrair de tudo de tudo o que acontecera e do estado da minha vida. Raramente sa¨ªa de casa, e quando o fazia era s¨® para ajudar os meus av¨®s com um ou outro recado ou tarefa. Finalmente, ap¨®s v¨¢rias semanas, um evento impeliu-me a sair. O facto de eu me sentir melhor tamb¨¦m ajudou. Ali¨¢s, na altura, senti que aquilo podia ser um ponto de viragem. Tomei aquilo como uma mensagem dos c¨¦us, embora n?o tivesse sido exclusivamente para mim. O fen¨®meno a que me refiro foi uma rara queda de m¨²ltiplos meteoros, todos eles com impacto previsto para o noroeste portugu¨ºs. Felizmente, nenhum deveria atingir zonas habitadas, embora houvesse sempre a possibilidade de erros e/ou danos colaterais. Na noite em quest?o, sa¨ª de casa e juntei-me a um grupo de astr?nomos amadores locais que haviam montado, e disponibilizado ao p¨²blico, alguns telesc¨®pios no topo de uma colina isolada pr¨®xima. Ali, entre conversas de ocasi?o e discuss?es sobre astronomia e telescopia, esper¨¢mos. O primeiro sinal dos meteoros surgiu pouco depois da uma da manh? na forma de um ponto de luz distante. Um dos astr?nomos amadores deu o alerta, e corremos para os telesc¨®pios. Estes n?o eram suficientes para todos, por¨¦m, um dos astr?nomos amadores trouxera um equipado com camara e p?de partilhar a imagem capturada atrav¨¦s de um tablet. N?o era o mesmo, mas ia ter de servir at¨¦ ter a oportunidade de espreitar por uma ocular. Os pontos de luz eram surpreendentemente grandes, bem maiores do que eu esperava. Uns caiam mais perto, outros, mais longe, mas todos pareciam chegar ao solo. Tamb¨¦m isto foi inesperado, pois a comunica??o social anunciara que a maioria dos meteoros se iriam desintegrar alguns quil?metros no ar. Felizmente, at¨¦ ao momento, todos eles pareciam ter atingido zonas florestais e n?o habitacionais. Al¨¦m disso, dado o seu tamanho, pareciam n?o ter causado impactos de maior. Enquanto o telesc¨®pio ligado ¨¤ tablet seguia, usando os motores el¨¦tricos no trip¨¦, um dos meteoros, este come?ou a aumentar de tamanho, at¨¦ que se tornou numa enorme bola de fogo. Isto, claro, significava que se estava a aproximar. Por momentos, tememos que fosse cair junto a n¨®s, mas logo relax¨¢mos quando percebemos que n?o seria o caso. O objeto celeste acabou por cair num monte ¨¤ nossa frente. Como os anteriores, o impacto n?o foi t?o grande como seria de esperar. Tamb¨¦m n?o provocou grande ru¨ªdo, pelo menos muito menos do que um b¨®lide daquele tamanho devia ter provocado. You could be reading stolen content. Head to Royal Road for the genuine story. Assim que a excita??o de um impacto t?o pr¨®ximo esmoreceu, eu e os v¨¢rios outros astr?nomos amadores ali presentes entreolhamo-nos. Depois, quase em un¨ªssono, dirigimo-nos para os nossos carros. Toda a gente queria ir ver o meteorito e o local do impacto. Este podia ter ocorrido no meio do monte, mas parecia ter sido pr¨®ximo a um enorme rochedo oco conhecido popularmente como "Penedo Furado". Este ¨¦ bem conhecido da maior parte dos vianenses, assim como o caminho para l¨¢ chegar. A travessia desde o lugar onde os telesc¨®pios estavam montados at¨¦ ¨¤ estrada de terra batida que levava ao Penedo Furado demorou cerca de quinze minutos. Alguns decidiram deixar ali os carros e continuar a p¨¦, mas os mais curiosos, ou com menos amor aos carros, como eu, seguimos at¨¦ ao fim do caminho florestal. O progresso n?o foi f¨¢cil. O meu carro abanou bastante ao passar por buracos e rochas, e arranhei a tinta em v¨¢rios s¨ªtios. Ainda assim, o caminho terminava antes de chegar quer ao Penedo Furado, quer ao local do impacto, pelo que eu e os outros curiosos tivemos de percorrer as ¨²ltimas centenas de metros a p¨¦. Felizmente, tinha uma lanterna no porta-luvas, deixada ali desde os meus tempos de explora??o urbana. Quando, por fim, avistei a cratera, j¨¢ tr¨ºs outros curiosos haviam l¨¢ chegado. Apercebi-me de imediato, pelas suas express?es de confus?o, que algo n?o estava bem. Ainda assim, o que vi no fundo da cratera quando cheguei ao seu limiar apanhou-me de surpresa. O objeto que ca¨ªra do c¨¦u n?o era uma rocha, como esperado, mas um enorme objeto triangular de cantos arredondados feito de uma estranha mat¨¦ria esbranqui?ada. Esta parecia male¨¢vel, como pele, e estava coberta por uma substancia viscosa que provavelmente a protegera e lhe permitira entrar na atmosfera terrestre sem sofrer danos com o intenso calor. Os restantes curiosos, n?o pareciam fazer ideia do que se tratava, mas eu sim. Era em tudo semelhante ao "casulo" que a Organiza??o encontrara na foz do rio Lima h¨¢ algum tempo atr¨¢s. E eu lembrava-me bem da criatura que dele sa¨ªra. Para meu horror, o casulo no fundo da cratera tinha um enorme buraco num dos lados, revelando que aquilo que transportava j¨¢ havia desembarcado. - Temos de sair daqui - gritei, quase inconscientemente. - J¨¢! Os outros curiosos olharam para mim, alarmados. Por¨¦m, antes de terem oportunidade de me perguntar fosse o que fosse, um grito de profundo terror chamou a nossa aten??o para outro lado. Reflexivamente, peguei num ramo de ¨¢rvore ca¨ªdo como arma improvisada e corri para a origem do grito. Alguns dos curiosos imitaram-me. N?o que mocas improvisadas nos fossem servir de muito contra as criaturas que casulos daqueles transportavam. Felizmente, quando cheg¨¢mos junto ao homem que gritara, n?o havia sinal do ser de al¨¦m espa?o. Por¨¦m, junto aos seus p¨¦s, jazia o corpo de uma mulher violentamente mutilado. Garras haviam estra?alhado o tronco, enquanto os membros se encontravam arrancados ¨¤ sua volta. Durante alguns segundos, fic¨¢mos todos a olhar para o corpo, em choque. Ent?o, alguns dos curiosos vomitaram. Depois, em un¨ªssono, corremos todos de volta aos carros. Assim que me encontrei atr¨¢s do volante, conduzi para fora daquele s¨ªtio. Devido ¨¤ pressa, tive ainda menos cuidado do que antes. Por mais que uma vez, fiquei com a sensa??o de ter feito danos mecanicos ao carro, o que confirmei assim que regressei a casa dos meus av¨®s. Contudo, as avassaladoras revela??es daquela noite e as suas implica??es ocupavam totalmente a minha mente. O casulo anteriormente encontrado pela Organiza??o j¨¢ l¨¢ estava h¨¢ muito tempo. O que significava aquela nova chegada? Qual o prop¨®sito da criatura que continha? Onde estava ela? E, mais aterrador ainda, seriam todos os meteoritos que haviam ca¨ªdo naquela noite casulos com criaturas semelhantes? Os reduzidos impactos das suas quedas pareciam indicar que eram menos densos do que seria de esperar se fossem rochas s¨®lidas, pelo que era muito prov¨¢vel. E a Organiza??o, depois da sua derrota no Ger¨ºs, teria recursos para os procurar e parar? Afinal, j¨¢ haviam provocado uma morte. Mas Almeida e os seus homens pareciam haver desaparecido. Com estes pensamentos a passarem-me pela cabe?a, fui para a cama e, futilmente, tentei adormecer. Por fim, apercebi-me que n?o era ali deitado que ia encontrar respostas. Eu tinha abandonado aquele mundo que existe escondido do nosso, mas a minha intensa curiosidade e preocupa??o levou-me a melhor. De manh?, voltaria a Braga em busca de algu¨¦m nos s¨ªtios do costume que me pudesse dar algumas respostas. Com esta decis?o feita, l¨¢ consegui adormecer, embora tivesse sido um sono cheio de pesadelos.